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terça-feira, 20 de outubro de 2026

PROTESTOS CONTRA AUSTERIDADE EM FRANÇA. (por Ana Vračar)

 


Transcrevo o artigo de Ana Vracar, que nos dá uma perspectiva sobre os acontecimentos, que reforça a ideia de provocação da própria atuação policial de extrema rudeza e indiscriminada, a receita exata para atiçar mais os manifestantes. Este comportamento dos corpos policiais é de tal maneira «desastrado» que vários elementos da polícia contestaram as directivas «dúbias» dos seus superiores. 

Não seria impossível  que o impopularíssimo presidente Macron faça uso dos seus poderes em decretar o estado de sítio, para anular as eleições, sob pretexto de clima de guerra civil. Na realidade, a «guerra civil» tem sido o que o próprio poder presidencial e a máquina que o apoia têm usado com frequência. É uma tática bem conhecida; os poderes autocráticos usam-na como pretexto para desencadear uma repressão feroz. 

Manuel Banet

A protester dressed as Jesus Christ and holding a mock gas station dispenser walks past a burning car at the Place de Republique in Paris on 17 October. Photo credit: Jack Taylor

Mass mobilisations against austerity policies and their effects are not winding down in France. On Saturday, 17 October, roughly 800,000 people joined protests across more than 1,700 assembly points, according to union figures—amplifying demands tabled over a month of student protests and demanding urgent action on the cost of living crisis.

In the aftermath of the protests, the government expanded local authorities’ powers to introduce curfews. This led to overnight movement limitation orders introduced in several cities, including central parts of Paris, Lille, Lyon, and Nice. Many of the curfews target young people in particular, reflecting institutional concern about the success of their recent mobilisations.

Over the past weeks, students launched a wave of school strikes and occupations, resisting the erosion of education services under successive neoliberal governments. Their movement drew support from trade unions and progressive political forces, who joined students on the streets to pressure the Lecornu administration to change course and prioritise public services and labour rights over armament.

Rallies and marches reinforced the student movement’s demands for accessible, equitable higher education, alongside trade unions’ calls for higher wages.

They also drew links to other historic moments of mobilisation, including the struggle for Algeria’s liberation. Many groups taking part echoed the anniversary of the 1961 demonstration that ended in the massacre of hundreds of people protesting for independence.

Police violence continues.

Teachers, families, and elected officials also joined, for a practical reason: to shield students from the law enforcement violence unleashed on their mobilisation.

Saturday’s protests were again met with police violence, with officers relying—unsuccessfully—on tear gas and water cannons to disperse crowds. Serious injuries and cases of severe police brutality were reported throughout the day.

After repeated repression, and with neither the government nor President Emmanuel Macron offering credible solutions to protesters’ grievances, protests turned into riots. While those close to social movements emphasised the events were triggered by years of cuts and unimpeded attacks on workers’ rights, the middle and upper classes were indignant.

Macron channelled their reaction in his post-protest speech. He declared those responsible for the looting must be punished, while promising more “dialogue” and offering a mild acknowledgement of people’s concerns over fuel, food, and other essentials.

“There are people out there who rightfully feel that the price of fuel is too high,” the president said—before shifting responsibility elsewhere. He said rising prices were the result “of what is happening in the Persian Gulf—a war that France was not part of.”

The speech landed poorly at home and abroad. The Iranian government, for one, has repeatedly called out Macron for applying double standards between protests in West Asia and France, emphasising that the French president had expressed support for US plans in Iran and that ongoing mobilisations were a logical outcome of the policies he endorsed.

Protesters hold the French flag and the Palestinian flag as they stand on the statue of the Place de la République in Paris as part of nationwide protests on 17 October. Photo credit: Jack Taylor

Students reject Macron’s response.

In France, protesters called out Macron for failing—yet again—to identify a concrete way out of the situation facing the country.

“Since the beginning of this movement, high school and university students have been met with nothing but contempt and police batons in response to their demands,” the university students’ union Union Étudiante wrote. “Yet we have put forward a clear set of demands, widely supported by everyone who took to the streets on 17 October.”

“He did not utter a single word about the high school and university students maimed in the crackdown,” the organisation added. “He said nothing at all about the real violence committed on Saturday,” referring to approximately 2,300 arrests made on that day alone—and dozens of young people who were seriously injured over the past weeks.

“It is not a matter of engaging in endless dialogue but of responding concretely to the needs of high school and university students: income, housing, food services, healthcare, study conditions, access to degrees, and an end to repression.”

Lecornu attempts to blame left for chaos.

Prime Minister Sébastien Lecornu’s reaction to the protests drew an equally negative response from progressive forces, especially after he suggested left movements were responsible for chaos and violence.

“What a pathetic politician,” wrote presidential candidate Jean-Luc Mélenchon. “He is responsible for the chaos—chaos he methodically prepared, whether through sheer incompetence or a deliberate ‘strategy of the worst’ aimed at conjuring up a ‘party of order’ that would make people forget his failure on the public finances.”


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O VALOR EFETIVO DO DINHEIRO: Exemplo do «NAPOLEÃO 20 FRANCS; OURO»




 Uma peça de 20 Francs ouro, da época de Napoleão 1º contém 5,805 gr, de ouro puro. O seu valor em euros, à cotação de hoje (dia 09/10/2026), seria equivalente em poder de compra, a 696,6 €. 

O mesmo tipo de cálculo pode ser efectuado com qualquer outra moeda de ouro ou de prata, cujo teor em metal precioso seja conhecido. 



No vídeo abaixo, verificamos que, embora as condições do povo trabalhador não fossem ideais no início do séc. XIX, teria condições de vida não muito piores que as de hoje em dia. 

Porque a realidade da inflação nestes últimos anos, em França e em toda a UE, tem sido muito superior àquilo que as estatísticas oficiais contabilizam. 

A perda cumulativa do poder aquisitivo de salários e pensões, está na origem do mal-estar e da revolta entre a juventude que hoje se manifesta. Nunca nos dizem, porém, na média corporativa, quais os factores subjacentes às manifestações: A causa imediata pode ser a incapacidade do sistema de ensino público e de saúde pública de satisfazerem os critérios de qualidade a que a população está habituada. Mas, esta degradação tem a ver com o sub-financiamento crónico por parte do Estado. 

Este  lento estrangular da classe trabalhadora, tirando-lhe as condições mínimas duma vida decente, tanto pela desvalorização (não contabilizada) dos salários e pensões, como da degradação dos serviços públicos mais diversos de que são utentes, é devido a uma continuada política neo-liberal. Concretamente, trata-se duma política congeminada para garantir os lucros das empresas e aos seus accionistas, sem contemplações em relação aos extractos pobres, ou mesmo médios, da população.

O sistema monetário, pilotado pelo BCE, com a concordância dos principais atores políticos da Europa do capital, fica posto a nu. Desfazem-se as ilusões das pessoas de boa fé, que têm acreditado na propaganda dos governos da UE e da Comissão de Bruxelas. Com efeito, o mal-estar, que se traduziu agora pela explosão que presenciamos em França, está presente em praticamente todos os países da UE. O facto de não se ter manifestado noutros países de forma tão enérgica como em França, não significa de modo nenhum que essas populações estejam satisfeitas ou conformadas. É claro que se trata duma política coordenada para todo o espaço político-económico da União Europeia. 

Quem tiver dúvidas de que um dos principais instrumentos de exploração é a manipulação do valor real (= poder aquisitivo) das divisas (= do dinheiro), pode constatar, fazendo os seus próprios cálculos, os seus rendimentos e os custos dos principais itens de despesa, ao longo da sua vida. 

O intervalo de duzentos e mais anos, que apresenta o vídeo, não nos pode dar a comparação com as situações de hoje, pois muitas das mercadorias hoje disponíveis não existiam, ou não faziam parte do cabaz de compras dos cidadãos de há 200 anos. 

Aconselho, portanto, os leitores a fazerem  as contas utilizando como intervalo de tempo os últimos 20 anos (ou 25 anos, desde a entrada em circulação do euro), contabilizando seus rendimentos dessa altura e confrontando com o custo de vida, nos países respectivos . 


  


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

FRANÇOIS COUPERIN «L' Art de Toucher le Clavecin» (Segundas-f. musicais nº48)

 

                                                          Acima, frontispicio da edição de 1716 

Nós já mencionámos aqui, nas «Segundas-feiras musicais», a importância de François Couperin na música em geral e no barroco francês, em particular. Também dedicámos um artigo aos 2 livros de órgão, por ele escritos. 

Embora François Couperin tenha escrito obras estrictamente litúrgicas, não é propriamente nessa qualidade que ele é recordado, mas na de músico da corte de Luís XIV, o «Rei Sol». As suas composições para vários instrumentos, nomeadamente a série de concertos intitulada «Les Nations», dão continuidade à música concertante francesa, distinta, na sua estrutura e conteúdos, do concerto italiano.  Este, como toda a espécie de música italiana (ópera, oratória, concerto com solistas, etc.), apoderou-se das cortes e dos palcos, durante mais de um século.    

François Couperin atingiu celebridade comparável à de muitos outros grandes vultos da era barroca. Porém, só muito tarde (anos 1960 e posteriores) começaram suas peças a ser estudadas e apreciadas por um público mais amplo, graças ao movimento de fazer reviver a música das eras passadas com instrumentos de origem, ou suas cópias fiéis. Não apenas isso, como a séria investigação em musicologia e análise musical, que permitiram restituir a maneira graciosa e subtil da «arte de tanger as teclas» e a adaptação da ornamentação às regras implícitas ou explícitas em cada escola, em cada época.

No estudo e formação de jovens cravistas, o breve tratado que apresentamos aqui, composto e editado pelo próprio François Couperin, desempenha um papel central. Os oito prelúdios (e a Allemande que abre a obra) acompanham-se de conselhos sobre como dedilhar as peças e a utilização dos ornamentos. Enquanto a edição inicial (de 1716) apenas refere exercícios de técnica e notas sobre como dedilhar a obra «Pièces de Clavecin», além de um ensaio sobre ornamentação, a edição de 1717 inclui um novo prefácio e um suplemento descrevendo o modo de dedilhar o segundo volume das «Pièces de Clavecin». O autor propõe também que os possuidores da primeira edição a troquem gratuitamente pela edição de 1717, com o novo prefácio e os suplementos acima descritos. Por esta razão, os exemplares da primeira edição, são hoje muito raros.

Uma característica notável destes prelúdios, é a sua musicalidade, a sua variedade também, ao ponto de serem tangidos por si mesmos, não como uma introdução de Suite (ou Ordre) no mesmo tom, como era costume fazer-se. 

Os prelúdios têm personalidade própria; são muito usados como peças pedagógicas para os principantes no estudo do cravo; mas também, em disco ou em concerto, por cravistas de renome. 

Abaixo, pode escutar a integral das partes musicais da «Art de Toucher Le Clavecin» com as respectivas partituras, numa edição moderna. Os textos em francês são os originais de François Couperin, com traduções (pelo editor contemporâneo) em alemão e inglês.

 

Para estudiosos e melómanos com interesse em comparar os estilos interpretativos na música para cravo, existem hoje várias obras eruditas de musicólogos, pelo que um cravista pode adequar a sua execução das peças ao que se sabe seguramente sobre os estilos intepretativos dos finais do século XVII e princípios do século XVIII, tanto em França, como na Alemanha, nos Países Baixos, na Península Ibérica ou em Itália. Respeitando os canons interpretativos da região e da época, ele é livre de escolher a interpretação que lhe é própria, dentro de uma vasta gama de hipóteses sem - com isso - trair a autenticidade das peças. 

A fluidez da música barroca e especialmente da música para cravo solo, deve-se ao papel importante que desempenhava a improvisação: Esta, podia ser livre, embora geralmente a partir de um tema. Podia corresponder a uma série de variações improvisadas sobre uma canção ou trecho. Podia existir dentro de cada peça, ao nível das ornamentações, das mudanças de teclado, dos registos, do andamento... Nestas circunstâncias, os grandes interpretes do tempo de Couperin - e os de hoje - podiam ser fiéis ao espírito de uma peça, apesar de divergirem  nos aspectos acima mencionados.

segunda-feira, 24 de março de 2025

PORTUGAL, «O COLAPSO EM CÂMARA LENTA»

 No vídeo seguinte são apontadas algumas das graves disfunções, que têm sido responsáveis pela crise. Esta tem sido mais longa e mais profunda que noutros países europeus. Na realidade, conjugam-se três crises, ou três componentes de uma mesma crise estrutural: demográfica, económica e social.

Na realidade, as raíses do fenómeno português podem ser procuradas bem longe, na História. Porém, no relativo curto prazo, situo a deriva agravada a partir do ano de 2015 quando, saído de uma grave recessão e com num processo anémico de crescimento, o país foi governado pelo centro-esquerda, tendo antes estado entregue ao centro-direita. 

Na realidade, trata-se de duas versões da classe dominante. Esta burguesia local tem estado vassalizada - principalmente - aos senhores da UE, à Comissão Europeia e aos governos dos países mais fortes (Alemanha e França sobretudo). 

A opção do governo P«S» de António Costa, foi de  dar rédea larga à exploração de curtíssimo prazo resultante da bonança momentânea com o turismo, criando condições para uma enganadora retoma económica. Enganadora, pois não se baseava em desenvolvimento estratégico, como seria o caso, se houvesse real investimento em infraestruturas e em formação. Mesmo nos sectores «dos ovos de ouro», turismo e imobiliário, não havia real estratégia. O imobiliário foi entregue a empreendores exclusivamente virados para a construção ou reabilitação de elevados custos finais, destinada à fina camada de portugueses endinheirados e -sobretudo - aos muitos estrangeiros, principalmente da UE, mas também dos EUA, do Brasil, da China, etc. Estes superricos viam a compra de imobiliário em Portugal, como sendo um investimento com boas hipóteses de valorização. Era também avaliado este país como sendo «seguro», em termos de proteção da propriedade capitalista. 

Com a crise do COVID primeiro e depois com a deterioração do clima económico na UE, entrou-se em recessão. Esta, tem sido negada pelas estatísticas enviesadas. Mas, as condições precárias dos não-beneficiários com o «mini-boom» turístico, foram tornando-se cada vez piores. Muitos partiram para o estrangeiro, sobretudo jovens, como está documentado no vídeo. Mas, esta emigração em massa só trouxe prejuízo ao país, pois acentuou a condição de país exportador de mão-de-obra e cuja juventude - altamente qualificada- por falta de emprego adequado, é obrigada a fazer carreira no estrangeiro (a «drenagem dos cérebros» ou «brain drain»). 

A dependência estrutural de Portugal não é uma fatalidade, porém:

 Portugal possui boas condições naturais, climáticas e geográficas, para arrancar para um desenvolvimento autónomo. Mas, para isso, seria necessário que a camada dirigente dos partidos de governo tivesse uma perspectiva patriótica. Ora, esta camada é totalmente o oposto: sofre dum complexo de inferioridade face ao estrangeiro, em todos os setores do espectro político: de direita, de centro e de esquerda. O mais frequente, é digladiarem-se para arrancar mais benesses ao Estado, através do controlo da media de massas. 

A casta governante está inteiramente devotada aos interesses corporativos; sua sujeição canina ao imperialismo e à OTAN, são outro sinal claro disso.




sábado, 30 de novembro de 2024

«A GUERRA DOS DRONES»: UM REPÓRTER FRANCÊS NA FRENTE DE KURSK


 Este repórter de «Omerta» tem vários trabalhos em teatros de guerra na Síria, no Afeganistão, além de reportagens nas frentes da guerra russo-ucraniana, onde tem estado tanto de um lado como de outro. 
Penso que é o melhor antídoto para a propaganda, que tomou conta da media «mainstream». Com efeito, ele não se coloca numa posição de simpatia por um ou outro dos lados em conflito, mas avalia e dá conta das realidades no terreno. 
Os generais «de secretária» que se julgam «especialistas» da guerra, deveriam ter um pouco de modéstia e reconhecer que as suas informações são de segunda mão, no melhor dos casos e, no pior, são desinformação saída de «oficinas de intoxicação informativa». 
Claro que existem tais «oficinas» de um lado e do outro da contenda. 
Mas, tenho a sensação de que os meios de propaganda, ou lavagem ao cérebro, do lado ocidental (EUA e países da OTAN, principalmente) são muito mais massivos e eficazes, que os meios equivalentes no campo oposto. 

Dito isto, é com imenso prazer que descubro e partilho convosco este vídeo. 
Oxalá, que na profissão de jornalista aumente a percentagem de pessoas como Régis Le Sommier, trabalhando com paixão e com racionalidade para informar devidamente seu público. 



quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

HISTÓRIA DO FIEL AMIGO BACALHAU

 

                             Gadus morhua (o bacalhau)

Os portugueses sabem: O bacalhau tem, em terras lusas, o cognome de «fiel amigo». Este cognome não lhe é conferido em vão. Muitos tiveram e têm nutrição adequada em proteína e noutros nutrientes,  graças ao peixe seco e conservado por salga que, depois de demolhado, pode ser cozinhado,  literalmente, de mil e uma maneiras diferentes.

                                 Seco, salgado e dependurado...

Quem é tradicionalista, em termos culinários, não dispensa o bacalhau cozido na ceia de Natal, acompanhado com couves e batatas cozidas. Condimentado com bom azeite, este prato honra a mesa da Consoada nos lares portugueses, desde tempos imemoriais. Mas, a verdade é que os portugueses consomem bacalhau em qualquer altura; é um prato tradicional e quotidiano, não apenas da época natalícia.


                                         «Fiel amigo» depois de cozinhado...


O documentário abaixo fala da importância do bacalhau na história dos povos basco e viking, em particular. Os peixes em salga e o bacalhau também devem ter desempenhado um importante papel na alimentação das tripulações durante as viagens ultramarinas dos portugueses. Além de que, durante séculos, foi crucial na alimentação das classes populares. Estas, não tinham o poder económico para consumir carnes, ou peixes frescos. Graças ao bacalhau, muitos pobres não sofreram de insuficiência proteica e das doenças associadas.

A epopeia da pesca do bacalhau está relacionada, no documentário, com os mais diversos eventos políticos, guerras, comércio, tráfico de escravos, etc. É uma magnífica resenha histórica, que explica porque as zonas atlânticas ricas em bacalhau, no Canadá, ao largo da Terra Nova, foram tão cobiçadas. O documentário condensa, em 1 hora e 45 minutos, mais de nove séculos de História. No final, teremos de nos render à evidência: O bacalhau é o REI do ATLÂNTICO !





quarta-feira, 25 de outubro de 2023

NOVAS REALIDADES EM ÁFRICA

 Muitas vezes, os noticiários na Europa deixam de lado notícias relativas ao Continente Africano. Mas, o facto é que sem a África, a Europa (a ocidental, sobretudo) não seria aquilo que é. 

Com efeito, já não falando dos longos séculos de depredação e exploração colonial em África, que certas potências europeias levaram a cabo, do século XVI ao século XX, sob forma de colónias, é de notar que muitas independências africanas foram apenas nominais, ou seja, passou uma elite dos respectivos Estados recém-independentes a governar esses países, mas - na verdade - continuaram sujeitos à ex-potência colonial.  

Exemplo flagrante desta situação, é o das ex-colónias da França na África central. Elas mantiveram múltiplos laços, para além da língua francesa e doutros aspetos culturais: Estes países têm estado ligados à ex-metrópole através do sistema do «Franc CFA», que perpetuou a dependência, visto que a moeda utilizada em cada país africano era emitida pela Banque de France. Estes países não podiam realizar operações de câmbio com outras divisas diretamente, sem passar pelo Banco Central do Estado francês.

 Muitos recursos minerais e agrícolas foram extraídos, nas décadas após a era colonial, de tal maneira que os países africanos ficavam com uma parte diminuta, sendo o grosso do lucro recolhido pelas multinacionais, que exploravam e exportavam estas matérias-primas. Além do aspeto direto de rapina económica, acrescentava-se a dependência - cada vez maior - em relação à importação dos bens de consumo correntes, incluindo os alimentares, sendo as importações sistemáticas devidas ao não desenvolvimento de projetos autónomos de agricultura destinada ao consumo local, ou de indústrias que permitissem o aproveitamento dos recursos locais, agrícolas, minerais e energéticos. Este atraso provocou a dependência crónica em relação ao exterior e um défice constante na balança comercial em muitos países africanos, mesmo nos considerados «ricos». Tal défice era colmatado por empréstimos, negociados com o FMI ou Banco Mundial. Estes impunham condições: Determinado comportamento na economia, na administração pública e, em particular, na adoção de programas de privatização ou de «ajustamento estrutural», para «rentabilizar» os setores produtivos mas, na realidade, para as multinacionais vorazes se apropriarem dos mais interessantes. Assim, a dependência tem sido perpetuada, com a conivência dos vários atores, quer sejam as empresas multinacionais, os Estados ex-potências colonizadoras, as instituições financeiras multilaterais, ou os consórcios de bancos europeus e norte-americanos. 

A situação neocolonial destes países - sobretudo na África central ao Sul do Sahara, na região do Sahel - foi-se perpetuando. As condições de sobrevivência dos povos foi-se deteriorando, a desertificação progredindo. Os solos, demasiado frágeis, tornaram-se estéreis, tem havido miséria e fome nestas zonas, às quais se vieram acrescentar  guerrilhas, muitas das quais, de grupos islamistas radicais. 

Foram desencadeadas guerras civis entre várias facções das Forças Armadas,  pelo controlo do exército e do aparelho de Estado. Estes golpes são, muitas vezes, instrumentalizados por uma potência não-africana (EUA, França, Reino Unido, Rússia, China, etc.), interessada em manter ou derrubar determinada facção, para obter (ou manter) acesso a valiosos recursos minerais.

Desde 2020, houve golpes militares que derrubaram governos pró-ocidentais no Burkina Faso, Sudão, Guiné, Mali, Níger, Gabão e Chade. Estes golpes colocaram no poder governos neutrais, ou alinhados com a Rússia, ou com a China.
No mapa abaixo, retirado do artigo «The Battle for Strategic Resources in Africa Heats Up» por Nick Giambruno, pode verificar-se que os governos favoráveis à OTAN (azul escuro) são minoritários, enquanto a proporção de simpatizantes  ou membros dos «BRICS+» (cor verde) aumenta, tendo a maioria uma postura neutral (cor azul clara).


20230930-Africa-MapChart_Map.png



A luta recente no Níger, que culminou com a expulsão da França, é particularmente importante. O Níger produz urânio desde 1971, durante mais de 52 anos. Embora seja um país dos mais pobres mundialmente, tem uma indústria de urânio bem desenvolvida. O Níger, hoje, fornece 5% da produção global de urânio, sendo crucial para o abastecimento da Europa. Os especialistas estimam que 24 % do urânio consumido na Europa provém do Níger. O nuclear em França, hoje, corresponde a cerca de 70% da energia elétrica gerada, sendo 33% das necessidades francesas cobertas com urânio do Níger. Em consequência do golpe militar hostil à França e à Europa, a segurança energética destas está agora em risco. 
As alternativas não são fáceis de encontrar, pois entre o momento da decisão de abrir nova mina de urânio e o início de sua produção, medeiam cerca de dez anos.

Como os países dos BRICS tipicamente fazem acordos «win win» (= com vantagens mútuas), construindo infraestruturas necessárias ao desenvolvimento dos países-parceiros e não estão interessados em dominar, ou interferir nas políticas internas deles, muitos países africanos viraram-se para acordos com os BRICS e para fora da esfera de influência ocidental.

A agressividade dos países imperialistas e das ex-metrópoles coloniais, que formam parte substancial do chamado «Ocidente», explica-se (mas não se justifica) pela perda de influência e de acesso às matérias-primas estratégicas de África que exploraram, em exclusivo, durante o período pós-colonial.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

CRISE DE SUPERPRODUÇÃO DO VINHO

 https://www.zerohedge.com/commodities/europe-drowns-wine-eu-adopts-crisis-measures-rescue-producers



Em vários países europeus, o vinho estava mais ligado ao mercado externo do que ao consumo interno. O agravamento da crise reflete-se nos diversos países, no chamado consumo de luxo. Mesmo o vinho de média qualidade é considerado como luxo em países não tradicionalmente produtores, por exemplo os da Europa do Norte, da América do Norte e muitos países Africanos e Asiáticos. O mercado está saturado porque este produto tem tido uma expansão contínua desde há décadas, ora, apesar de novos países se abrirem ao consumo do vinho, uma expansão do mercado não pode durar sempre. Tem de vir um momento de contração.

No caso do vinho, essa contração coincide com a provocada pela inflação mundial, assim como as piores previsões económicas, relativas a países afluentes e que eram tradicionalmente consumidores de vinho dos países do Sul da União Europeia, como a Alemanha ou o Reino Unido.

Ao nível nacional, os portugueses têm diminuído o consumo de vinho, o que tem causas múltiplas, entre elas o acentuar da inflação (que toca mais os produtos não-essenciais), a diminuição do poder de compra das classes menos favorecidas e da classe média, a evolução do consumo das camadas mais jovens que se têm desviado para o consumo das cervejas (nomeadamente, as «artesanais») e para os álcoois fortes, ingredientes de cocktails ou «shots», muito em voga. 

 Dá-se a situação de retração simultânea nos mercados interno e internacional, em especial, para os países menos afortunados da UE, mas também em países beneficiando (ainda) de confortável nível de vida. 

As marcas de vinho deveriam ter visto esta crise chegar, mas - pelo menos em Portugal - insistiram em subir constantemente o preço dos vinhos nos supermercados, ao ponto de que, vinhos correntes passaram a ser algo que muitos agora consomem apenas em ocasiões especiais.  O setor vinícola, além de fundamental economicamente em várias zonas agrícolas do país, era também enorme fonte de divisas, não apenas na exportação, como no consumo dos turistas dentro de Portugal. 

As zonas do Sul da Europa já são as principais vítimas económicas do cerco contra a Rússia, mesmo antes do inicio da guerra imposta pelos belicistas da OTAN, assim como pelos globalistas:  

- Estes, não se importam com a sobrevivência económica dos mais fracos, preferindo até que haja muito desemprego, para manter as populações debaixo do jugo da necessidade. 

Estas populações serão «beneficiárias» do «Rendimento Mínimo Universal», em conjugação com a introdução das «Divisas Digitais dos Bancos Centrais». 

Tudo corre às mil maravilhas para os globalistas: Podem fazer «à saúde», erguendo os copos, cheios dos vinhos mais caros do mercado!

quarta-feira, 29 de março de 2023

EM FRANÇA, OS OPERÁRIOS PÕEM EM CHEQUE A POLÍTICA DE MACRON

 https://www.zerohedge.com/markets/strikes-cripple-frances-fuel-supply



As estações de serviço estão a ficar sem gasolina, após 4 semanas de greves e de paralisação das refinarias. Além das operações das refinadoras, as greves também impediram as importações de LNG (liquid natural gas) pois os terminais de importação foram encerrados.

Comentário:

A força e tenacidade dos protestos operários, mostra que a «França de baixo» tem um «raz-le-bol», uma saturação, de aturar a elite corrupta que governa o país, em exclusivo no interesse dos grandes grupos, desprezando não apenas os sentimentos, como as próprias leis, que são a base da República. 

As paralisações têm como resultado prático a impossibilidade de vários milhões de franceses irem para férias de Páscoa. Como estão fartos do governo, isto não significa que ficarão maioritariamente contra os grevistas, mas que se vão zangar ainda mais contra Macron e o seu governo. 

Este tem reprimido as manifestações e tem inserido elementos provocadores (polícias disfarçados) para «justificar» a repressão. Mas, esta tática não resulta, porque os franceses já têm muita experiência, não se deixam enganar. 

A media tem o seu papel de servente do poder, ao apresentar sob o pior aspeto e deformando a realidade, o que se está a passar. 

Esta  explosão de raiva não foi preparada nem por partidos, nem por sindicatos e deve ter também surpreendido o governo. Mas, os «de baixo» têm vivido nos últimos anos uma constante descida do seu nível de vida. A subida da idade da reforma é, na realidade, a «gota que fez transbordar o vaso».  

sexta-feira, 24 de março de 2023

CLIMA DE INSURREIÇÃO E ANÚNCIO DE GREVE GERAL EM FRANÇA

 



A greve geral anunciada e as manifestações são resultado direto da teimosia de Macron em aumentar a idade da reforma. Os franceses não se deixam intimidar, têm direitos e defendem-nos. É absurdo o presidente fazer isto, senão para provocar os cidadãos. Ele sabe que não há outra contra-reforma que mais congregue os franceses contra o governo. 

A ideia de fazer isto com as consequências previsíveis de violência por parte dos manifestantes, constantemente provocados pelas forças de polícia de choque, está em continuidade com as lutas dos «coletes amarelos». 

Não se compreende a iniciativa de Macron, a não ser que o seu propósito seja de que a situação se torne muito difícil de gerir, para ele ter pretexto de decretar um estado de exceção, em que poderá legislar por decreto do governo, sem passar pela assembleia dos deputados e pelo senado.

Se o poder em França está apostado em provocar a ira dos franceses, a melhor resposta é mostrar indignação, mas não o que a media chama de «violência dos manifestantes». 

Isto é o que o poder quer, para «legitimar» um governo ditatorial, sob pretexto de «repor a ordem».

sexta-feira, 10 de março de 2023

TOMBEAU DE MONSIEUR DE SAINTE COLOMBE - MARIN MARAIS [SOPHIE WATILLON]


Monsieur de Ste Colombe, foi o mestre de viola da gamba, que ensinou a Marin Marais e a outros gambistas os segredos desta arte, toda em subtileza e dignidade. 
A viola da gamba faz parte de uma família de instrumentos de arco, que foi preterida, a  partir da segunda metade do Século XVIII, para os instrumentos da família do violino. 
J. S. Bach ainda escreveu várias peças para viola da gamba e contínuo e fez intervir este instrumento em certas obras instrumentais (alguns concertos Brandeburgueses) e em obras sacras vocais e instrumentais (cantatas e paixões).
 No entanto, é a escola francesa deste instrumento que mais produziu e mais ficaram para a posteridade os exemplares da escrita para viola da gamba. 
Deste escol de músicos, sem dúvida, Marin Marais é o principal. Foi músico da corte de Luís XIV e deixou muitas peças para o seu instrumento, quer a solo, quer em concerto com outros instrumentos. 
Além da escola francesa, os «consorts de viola» do final do renascimento e início do barroco ingleses também nos legaram peças notáveis: a família das violas formava conjuntos (viola da braccio, da gamba e contrabaixo): Estes consorts eram executados - por vezes - em instrumentos que tinham sido construídos com o fim de serem tocados em conjunto. 


As peças designadas de «TOMBEAU» são uma idiossincrasia do barroco francês, evocada por músicos do século XX, como Ravel, que escreveu um «Tombeau» em memória do grande François Couperin. 

Já analisei algumas obras designadas por Tombeau neste blog: 

J. J. FROBERGER:  «Tombeau faict à Paris sur la mort de Monsieur Blancheroche»

MARIN MARAIS - O «TÚMULO DE LULLY»:

https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2018/05/marin-marais-o-tumulo-de-lully.html

Outra versão do «TOMBEAU DE MONSIEUR STE. COLOMBE»:

https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2017/10/marin-marais-tombeau-de-monsieur-de-ste.html

São obras-primas do Barroco, apreciadas pelos amadores de música antiga.

Graças ao renovo de interesse pela execução, não só em cópias fiéis dos instrumentos da época, como também graças a um aprofundamento do estudo das fontes pelos musicólogos e executantes, podemos apreciar a  música destes séculos  (XVII e XVIII), revivida com o maior rigor possível. 

Sophie Watillon pertence ao número pequeno, mas crescente, de interpretes que aprofundam as técnicas e estilos de execução da viola da gamba.


quarta-feira, 8 de março de 2023

RAMEAU, PEÇAS PARA CRAVO EM CONCERTO (EXCERTOS)


 Foi assim que decidi homenagear este dia ( 8 de Março, dia da nossa cara metade), no feminino. 
Rameau presta-se muito bem a isto, pois ele construiu peças em torno da feminilidade, representando vários caracteres (com os nomes respetivos ou sem eles) pela música.

 Este conjunto instrumental é de qualidade, adequando estilo e andamento aos requisitos próprios destas peças do final do barroco.


Outros posts sobre Rameau no blog «Manuel Banet, ele próprio»:

https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2020/10/rameau-primeiro-livro-de-pecas-para.html 


https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2018/10/jp-rameau-obras-para-cravo.html


https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2018/09/opera-ballet-les-indes-galantes-de.html


https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2017/03/gavotte-e-variacoes-de-rameau.html

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

LOUIS FOUCHÉ sobre a «crise do COVID» e a medicina feita pelas multinacionais

LOUIS FOUCHÉ, MÉDICO ANESTESISTA, QUE FOI EXCLUÍDO DO SEU EMPREGO, NO HOSPITAL, POR NÃO ACEITAR A «VACINA», ESTÁ EM SINTONIA COM MUITOS MILHARES QUE FORAM DISCRIMINADOS POR ATITUDES SEMELHANTES. 
NA ENTREVISTA, ABRE PISTAS PARA ULTRAPASSAR OS TRAUMAS E A VITIMIZAÇÃO SOCIAL. TEM CONSTRUIDO REDES DE CUIDADOS DE SAÚDE ÀS COMUNIDADES, BASEADOS NA ENTREJUDA E NÃO NO LUCRO ... E FUNCIONA!



 

domingo, 10 de julho de 2022

[MOON OF ALAMBAMA] AS ILUSÕES DO OCIDENTE EM RELAÇÃO À UCRÂNIA*

[ *Título Original: 'Drinking The Kool-Aid' On The War In Ukraine

https://www.moonofalabama.org/2022/07/drinking-the-kool-aid-on-the-war-in-ukraine.html#more ]

O autor do blog Moon Of Alambama argumenta contra um analista, Pat Lang , que diz:

«Nunca deixo o patriotismo ou outro sentimento obscurecer a minha análise. A Rússia passou o seu ponto de culminação da sua ofensiva e está sujeita a uma súbita inversão da fortuna.

O ponto culminante é um termo de estratégia militar no livro  "Sobre a Guerra" por Carl von Clausewitz. Nascido em 1780, Clausewitz serviu no exército prussiano. Posteriormente, juntou-se ao exército russo imperial, na guerra contra Napoleão, antes de regressar como Chefe-de-estado-maior da Prússia. Mesmo hoje, «Sobre a Guerra» continua a ser de leitura obrigatória, em muitas academias militares.



[...]

À medida que a batalha ou ofensiva se desenvolvem, a relação de forças (respetivamente, do atacante e do atacado) inicial de 3 para 1, vai encolher primeiro até 2 para 1, depois até 1 para 1, ou mesmo menos. Chega-se a um ponto em que o atacante tem só o mínimo de forças capazes de manter o outro lado em situação defensiva. Para além disto, ultrapassa-se o ponto culminante do ataque. Se a batalha ou a guerra não terminarem antes que tenha sido alcançado esse ponto, é verosímil que se dê a derrota do atacante.

Pat Lang advoga que a Rússia teria alcançado esse ponto culminante e portanto teria ficado com suas forças exaustas e já não possuía as vantagens da ofensiva, pelo que estaria a ponto de ver sua fortuna reverter. Mas, isto presume que estejamos a ver uma guerra típica, como aquelas em que Clausewitz participou, ou como as marchas de Napoleão ou de Hitler em direção a Moscovo, a primeira das quais, representada por  Charles Minard (abaixo),  estava certamente no pensamento de Clausewitz.


                    
                                              bigger

A Grande Armée de Napoleão realmente sofreu uma atrição de 450000, até 10000 homens, o que obviamente excedeu o ponto culminante.

Mas a guerra na Ucrânia é uma «operação militar especial» e muito atípica, por variadas razões. 


[artigo completo e integral no link seguinte:]

https://www.moonofalabama.org/2022/07/drinking-the-kool-aid-on-the-war-in-ukraine.html#more


domingo, 10 de abril de 2022

A IRRELEVÂNCIA DA ESQUERDA É FRUTO DA SUA DERIVA NEOLIBERAL





Quando se souberem os resultados da primeira volta das eleições presidenciais francesas, haverá uma catadupa de análises, umas mais inteligentes que outras. 

Mas, hoje, Domingo 10 Abril 2022 (antes de qualquer resultado ter saído das urnas), já posso afirmar com 100 % de certeza, quem perde, neste confronto eleitoral. É a esquerda política; arrastando consigo na sua queda a esquerda sociológica, ou seja, todas as pessoas espoliadas dos seus direitos, da sua cidadania e do fruto do seu trabalho. Ficarão a perder os trabalhadores, que não possuem um estatuto de privilégio, os que nem podem beneficiar das migalhas que os muito ricos distribuem para eles ficarem tranquilos, quando não para apoiar ativamente os candidatos escolhidos pelo sistema.

É este o resultado final da incúria de hierarcas de esquerda, sem dúvida alucinados com a possibilidade de partilhar o poder com a classe oligárquica. Quanto a esta, chamá-la burguesia já não seria correto, visto que a casta oligárquica se conta - num país como a França - pelas centenas de indivíduos, enquanto a burguesia inclui muitas dezenas de milhares, muitos deles empreendedores, muitos dos quais também esmagados pelo poder opressor dos monopólios e oligopólios que detêm o verdadeiro poder.

Mas, o pior deste período de ocaso da democracia ocidental, é a inexistência de verdadeiros contrapoderes. Não existe verdadeira força sindical autónoma nas mãos dos trabalhadores, ou se ela existe, tem uma expressão demasiado minoritária no seio das classes que é suposto defender. Não existe partido de esquerda no sentido de confronto contra o poder do capital, com expressão suficiente para poder desencadear a contestação eficaz contra medidas gravosas, por parte do governo e seus agentes. O que fica então, é uma representação teatral de esquerda. Resta uma esquerda esquálida, saudosa das glórias do passado, sem qualquer hipótese de ser protagonista em batalhas significativas do presente.

De qualquer maneira, não há verdadeira oposição de esquerda ao superestado da União Europeia, com o seu parlamento fantoche, suas instituições burocratizadas, sua rígida arquitetura e seu «tratado» de Lisboa. Este último, é - na verdade - uma constituição, contra a qual não existe um repúdio, uma vigorosa e organizada contestação, como seria de  esperar duma esquerda anticapitalista. Com efeito, este «tratado» obriga a que os países se rejam e se coadunem plenamente pelas regras do capitalismo.

É conveniente para a ínfima oligarquia, ter as forças antagónicas domesticadas, ao ponto da hipótese duma agitação séria, nos países que hoje constituem a UE, seja mais provável vinda de partes espoliadas e esmagadas da população, mas sem qualquer perigo. A castração da esquerda política e social significa, no pior dos casos, que haverá insurreições espontâneas, mas sem um rumo definido: apenas explosões de raiva e frustração. Quanto muito, estas manifestações, apesar dos guardiães de esquerda e direita da ordem neoliberal, serão recuperadas por grupos de ultradireita, de nacionalistas extremos, de demagogos arvorados em soberanistas. Mas, ao fim e ao cabo, isto é algo com que o poder está habituado a lidar.    

A deriva neoliberal, anti- luta de classes, anti- autonomia da classe trabalhadora, ocorreu num espaço de tempo dilatado, pelo menos numa geração (25-30 anos). 
As pessoas que estão enredadas na galáxia do que se chama «esquerda» hoje, são cultores do «wokismo», do pensamento «politicamente correto». Ao ponto de terem inteiramente substituído a luta de todo o povo explorado, dos oprimidos, dos proletários, pela «luta identitária», fazendo das «questões de género», de «raça», de «orientação sexual» o eixo da sua atividade militante. É exclusivamente por estas «causas» que estão ativos/as em estruturas partidárias ou sindicais.


É, portanto, uma vitoria absoluta para a classe dominante e uma terrível derrota com consequências duradoiras, para a classe dos oprimidos e explorados.



Murtal, Parede 14:30 de 10 de Abril 2022

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

ARÁBIA SAUDITA, GRANDE ALIADO DOS EUA E OCIDENTE NO MÉDIO ORIENTE

 Quem é Mohamed bin Salman?  Qual o papel da CIA no seu reino? O que motiva o Presidente francês Emmanuel Macron a manter boas relações pessoais e de Estado com o Príncipe herdeiro do trono saudita? 

Estas e muitas outras questões são esclarecidas no livro, «Petróleo e Sangue» de Bradley Hope e Justin Scheck,  agora traduzido em francês.

O Reino Saudita e as suas relações internacionais, é o conteúdo principal desta «Grande Interview» de J.J. Seymour a Pierre Jovanovic, no vídeo abaixo.






terça-feira, 23 de novembro de 2021

[Ema Krusi , Jean-Dominique Michel] A PERVERSIDADE


« FAUT QU’ON PARLE » com Jean-Dominique Michel. Explicações sobre a crise em 2021 : perversos, manipulação de massa e inversão de valores. Em Março de 2021, Jean-Dominique Michel falava connosco numa conferência «secreta» do sistema perverso atual e como a perversão anula o discernimento da população. Ao inverter os valores e conceitos de bom senso, o perverso consegue perpetuar o seu golpe: a vítima julga-se responsável pelos danos causados por seu carrasco.

Poderá o mundo continuar a sofrer as imposições absurdas atuais? Por que processo as vítimas se tornam porta-vozes dos perversos que as dirigem? Explicações de Jean-Dominique Michel, antropólogo da saúde na Suíça.




Hoje em dia, as «elites» tornaram-se disfuncionais, manipuladoras e perversas. A perversão é arma eficaz, por causa da regressão ao estado infantil das vítimas.

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VER OUTROS VÍDEOS COM Jean-Dominique Michel : 👉LA CONFERENCE SECRETE DE Jean-Dominique Michel (Mars 2021) : https://emakrusi.com/video/les-confer... 👉FAUT QU’ON PARLE (Novembre 2020) : https://emakrusi.com/video/propagande... 👉LA KRUSIERE S’AMUSE (Mars 2021, avec le Dr Broussalian et Slobodan Despot) : https://emakrusi.com/video/la-krusier...