domingo, 3 de maio de 2026
PSICOSE DE GUERRA - Prof. Mattias Desmet : UE possuída por formação de massas mortal
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
O «INSTANTÂNEO» NAS RELAÇÕES HUMANAS CONTEMPORÂNEAS
Sabemos que - em termos físicos - não existe o instantâneo, pois a luz tem uma determinada velocidade no vácuo e nenhuma partícula, fotónica ou outra, pode ultrapassar esse limite. Sim, mas há uma incapacidade de distinguir o que teoricamente é realmente instantâneo, daquilo que aparenta sê-lo, se confiarmos nos nossos sentidos, apenas. O mundo em que nos movemos é um mundo cheio de ilusões. Temos a ilusão - em particular - do instantâneo e esta está ancorada profundamente no psiquismo. Decorre daí que a nossa percepção, nos dá a sensação de instantâneo, que afinal nós próprios, ao refletirmos, chegamos à conclusão de que é uma sensação ilusória, na esmagadora maioria dos casos.
Não devíamos ficar surpreendidos com esta ilusão sobre o "instante" num mundo em que a mediação eletrónica e digital está omnipresente. Porém, mesmo as pessoas cultas e sofisticadas se deixam iludir ou se auto-iludem. Praticamente todas as pessoas, cultas ou incultas, com formação científica ou sem ela, no dia-a-dia prestam «culto religioso», à instantaneidade, como se isso fosse algo positivo, em si mesmo. Espelhando perfeitamente a mentalidade que prevalece no grande público, a publicidade referente à enorme quantidade de mercadorias e serviços, usa o argumento do «instantâneo», como se fosse o superlativo de muito rápido. Ao fazerem isso, estão a reforçar naturalmente o preconceito do público.
Este culto da extrema rapidez, ao ponto dela ser assimilada ao «instantâneo», tem como corolário que as pessoas cometem muitos mais erros, evitáveis, porque não se dão um tempo mínimo, necessário para avaliar uma situação. Não vejo solução instrumental para corrigir esta ilusão persistente. Apenas a consciência do indivíduo, compreendendo que estar imbuído do preconceito de que algo é «instantâneo», não apenas é falso na imensa maioria das ocorrências da vida diária. Também representa um handicap sério, pois retira ao cérebro aquele tempo mínimo necessário para avaliar uma situação e decidir o que fazer.
Observando os animais - selvagens ou domésticos - verifico que se costuma projetar «intenções humanas» aos seus comportamentos. A nossa ignorância sobre o comportamento animal faz com que - frequentemente- se atribua tudo ao «instinto» que, afinal, não explica nada. Creio que não pode ser definido como conceito científico, por ser demasiado vago.
Ora, é muito frequente, nos animais, observar neles um tempo de «avaliação», que pode ir de uma fração de segundo, até vários segundos. Por exemplo, antes de dar um salto para capturar a presa. Pelo contrário, muitas presas têm o comportamento bem definido, de ficar totalmente imóveis e apenas pular ou voar, no caso do predador se mover em sua direção.
Não quero reduzir os comportamentos humanos, complexos e muito variáveis, aos comportamentos de animais, quer sejam presas ou predadores. Com esta referência, apenas quero chamar a atenção para o forte valor evolutivo de se avaliar uma situação previamente, para dar a resposta que convém. Se a rapidez ou resposta «instantânea» fosse a mais vantajosa do ponto de vista evolutivo, o padrão comportamental acima mencionado, quer para as presas, quer para os predadores, não seria bem sucedido; haveria unviversalmente, tal resposta «instantânea» no Reino Animal.
O «culto» do instante é vantajoso para uma sociedade que viva do sobreconsumo, do consumo hedónico. Compreende-se que numa sociedade como a nossa, desde há várias dezenas de anos, a publicidade esteja apontada para suscitar os desejos do público e não em enumerar as vantagens da mercadoria. Com efeito, toda a construção do «spot» publicitário está baseada no efeito psicológico que ele exerce na nossa mente, não na «performance» do objeto ou serviço, em si mesma, que se pretende vender.
Os serviços de notícias, nas suas formas de rádio, televisão ou Internet... são desenhados para passarem, o mais rapidamente possível, pelos órgãos dos sentidos até aos cérebros dos receptores. São catadupas de notícias, quer em contínuo, quer em condensados. Em ambos os casos , a sua trivialidade, natureza fragmentária, ou adjetivação, são típicas. O mesmo acontece com as imagens que vão conduzir, no inconsciente das pessoas, ao efeito de «saber» ilusório.
Por exemplo, o encontro entre dois chefes de Estado, é «noticiado» com imagens protocolares, apertos de mãos, passagem em revista da guarda de honra, entrada para os carros oficiais, breves discursos de boas-vindas... Tudo, coisas que aconteceram, mas que não possuem valor informativo. O dispêndio de preciosos minutos com aspectos protocolares, porém, serve para nos dar a ilusão de presenciar o acontecimento, de estarmos «informados».
A «instantaneidade» no campo da informação é realmente muito enganadora pois - se podemos apreciar em direto um concerto ou uma competição desportiva - os «instantâneo/notícias» que nos colocam à frente, em relação a acontecimentos políticos, sociais, militares, etc., não é geralmente composto por filmagens contínuas: É sempre o resultado de imagens seleccionadas, montadas e retransmitidas.
A manipulação provoca a ilusão de que estamos a presenciar um acontecimento. Esta ilusão é gerada ao nível inconsciente, na psique profunda. Não podemos fazer um distanciamento objectivo das imagens que nos são «servidas». O nosso grau de instrução, ou inteligência, são de pouco ou nenhum socorro, ou então teríamos que analisar em detalhe cada imagem, fotograma, frase, som... Com certeza que ninguém tem tempo para fazer isso. O resultado é que todos somos condicionados, talvez uns mais que os outros, porque a nossa mente consciente é fintada pela informação subliminar, dirigida ao e analizada pelo «cérebro emocional».
Se nós tivessemos selectividade no que «ingerimos» em termos de informação, num grau parecido com nossa selectividade quando nos alimentamos, talvez a manipulação fosse mais complicada. Os manipuladores profissionais são pessoas das profissões de Public Relations (PR) ou propaganda, que inclui o sub-sector político. São quem assegura a «nobre» tarefa de nos manter iludidos, fascinados pelo instante, convencidos de «tudo sabermos», pelo menos, sobre os assuntos que nos interessam mais. Isto chama-se «lavagem ao cérebro», em portugês corrente, mas o termo está mal escolhido, a não ser que seja por ironia pois se trata, não de «lavar», mas de atafulhar o cérebro com toda a espécie de informações, desde as mais relevantes, às mais inúteis.
Existem pessoas cuja casa está sempre cheia de objectos, tudo desarrumado, sendo perigoso fazer um passo ou um gesto, sem colidir com algo. Estas pessoas são doentes mentais; e, para nós, isso é óbvio. Mas, se pudessemos passear dentro do psiquismo de alguém contemporâneo, teríamos - estou certo - uma experiência análoga.
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
PSICÓLOGO EVOLUCIONISTA ANALISA «A Empatia Suicidária» e «A Mente Parasitada»
Para ver a entrevista, clicar no link abaixo:
https://glenndiesen.substack.com/p/gad-saad-the-parasitic-mind-how-bad
O Dr. Saad é um académico do «Declaration of Independence Center for the Study of American Freedom at the University of Mississippi». É autor de muitos livros, incluindo «A Mente Parasitada» e o seu novo livro, «A Empatia Suicidária».
The Parasitic Mind:
https://www.amazon.com/Parasitic-Mind-Infectious-Killing-Common/dp/162157959X
Books by Prof. Glenn Diesen:
segunda-feira, 14 de julho de 2025
APOSTILA - «A GRANDE ILUSÃO» - PARTE II
Há cerca de 12 anos, escrevi um extenso ensaio intitulado «A Grande Ilusão». Este, está inserido neste blog, embora o seu aparecimento seja anterior à existência do blog.
Mas, o que me importa mais agora é escrever uma espécie de apêndice ou postfácio, enfatizando aspectos da Grande Ilusão que não eram visíveis, na altura, pelo menos de forma representativa. Quero referir-me à persistente ilusão dos homens dominarem a Natureza, de serem eles a ditarem as regras, a imporem as leis e julgarem que estão no cerne do funcionamento dessa mesma Natureza.
E digo que isto cabe perfeitamente sob o mesmo título, pois é uma tendência generalizada e os mais inteligentes caem na armadilha com maior facilidade ainda, que os estúpidos e os ignorantes.
Por isso mesmo, se verifica um tipo especial de estupidez, «a estupidez dos inteligentes», em que a sofisticação do raciocínio, a riqueza da argumentação, a erudição medida pelas numerosas referências, tudo isso junto, produz um resultado prático irrisório, ou manifestamente inoperante: Traduz-se numa incapacidade patológica de apreensão do real.
Porém, é essa mesma estupidez dos inteligentes, que tem maiores hipóteses de fazer carreira, de ter sucesso, numa sociedade plena de ilusões, incapaz de distinguir a realidade, da projecção da mente, sem qualquer outro critério de «verdade», que não seja essa filosófica nulidade chamada estatística.
A verdade não é nem pode ser uma questão estatística. Se todos errarem menos um, é este que tem razão, não importa quantos disserem que é esse indivíduo que está enganado. Em filosofia, o número não faz a prova e, sobretudo, não faz a razão. Verdades tão evidentes como esta, temos com frequência de voltar a enunciá-las, a reafirmá-las no nosso espírito, para mantermos a calma e a força da razão no meio do desvario.
A ilusão mais perniciosa - ao fim e ao cabo - talvez seja a de quem se «colocar no lugar de Deus». Este facto mantém-se válido quer acredites em Deus, quer não: É completamente independente da nossa posição em relação à existência da Divindade Cósmica, pois postula a impossibilidade ab initio da posição peculiar dos indivíduos que pensam tudo saber, capazes de tudo equacionar, de terem solução para tudo e - se lhes for fornecido o que exigem - serem capazes de tudo fazer. Estamos aqui perante um delírio agudo ou crónico de inflação do ego, uma extrema confusão entre o limitado e falível, efémero e fraco, ser humano e aquilo que ele consegue se aperceber do Universo, na sua limitadíssima visão do mesmo.
Mas, são esses indivíduos, inflados no seu narcisismo, que têm a maior probabilidade de arrastar as massas, as quais estão sempre em adoração do que elas consideram ser um «génio». As massas idólatras de super-homens e super-mulheres de pacotilha, são capazes de fazer as maiores loucuras, acreditar nos maiores absurdos, sendo estas crenças tanto mais fanaticamente defendidas, quanto mais absurdas forem.
Num mundo assim, é muito difícil ser-se racional, um pouco céptico e comedido. Num mundo assim, o sábio é frequentemente assimilado ao louco, ou ainda pior, ao dissidente. O seu destino não é invejável, pois vai do «gulag» para uns, até à fogueira, para outros. E porquê tanto ódio contra pessoas que pensam diferentemente da maioria? - Será que a grande maioria pensa, ou apenas repete slogans, lugares-comuns erigidos em grandes visões e todas as parafrenálias das ideologias? Se a maioria fosse composta por pessoas que pensam, elas não teriam problemas com os que têm um pensamento outro, dissidente. As suas capacidades cognitivas até ficariam estimuladas perante um pensamento dissidente e nunca lhes passaria pela cabeça «contrariar» uma teoria com uma sentença de morte ou de prisão, ou um linchamento.
Os ditadores e demagogos de todas as espécies e variedades, sabem perfeitamente que uma maioria da espécie humana não pensa. Sabem que não é difícil enfiar-lhes na cabeça uma série de automatismos mentais, como aliás a «educação» se esmera a fazer, em todas as nações, de todos os continentes.
Com as técnicas de condicionamento da psique, podem ver a massa das gentes, (no sentido próprio, por vezes...) executar os que se atrevem a não acatar, os que não se submetem à «verdade» da multidão furiosa.
Estes comportamentos surgem, não espontaneamente, mas por condicionamento, aberto ou disfarçado, em muitas sociedades. Muitos fanatismos são completamente «reversíveis», no sentido em que se pode mudar-lhe etiquetas, sinais, protagonistas, mas continuam a ser reflexos pavlovianos. Trata-se, porém, de um ser humano na aparência, mas que o medo, o desejo de pertença, a imaturidade, fez submeter-se ao que lhe aponta um chefe.
O engodo da «IA», tem servido para fazer passar as mais extremadas posições e manipulação dos factos e isto, ao bel prazer dos multimilionários que possuem as empresas de «IA». Nada deste extremismo induzido surge ao olhar do público como insano, como totalmente repelente, etc. porque foi emitido (supostamente) por um algorítmo «IA» o qual teria a virtude de «pensar mais e melhor» que a mente humana.
Junta-se a ignorância do que sejam estas máquinas informáticas e os algorítmos, com o complexo de inferioridade frente àquilo que não se compreende, que se julga demasiado complexo.
O resultado é uma regressão, não apenas à infância, como ao «estado larvar»: Os indivíduos estão dentro de casulos, são alimentados e mantidos, consumindo o que os mantém em vida, mas uma vida do tipo zombie...
Assim, a redução do número de efetivos nas diversas populações pode prosseguir (com vários métodos), até ao limite que os Senhores desejarem. O limite para a redução dos efetivos, é que deverá haver um número suficiente de escravos para manutenção do mundo de conforto dos Senhores.
Quanto aos escravos, em breve, nem terão a capacidade de reprodução. Esta deixará de estar dependente de um «ato animal»; será um complexo de operações de tecnologia biológica. Logicamente, as pessoas «vulgares» (a plebe, os escravos), serão produzidas em série, por clonagem. Assim, por uma técnica muito simples, produzem-se «seres sem defeitos». Estes terão sua recompensa num pouco de comida, um mísero abrigo e serão «processados» e substituídos quando sua produtividade baixar.
Se olharmos retrospectivamente, compreendemos que muitos fenómenos sociais, muitas situações «aberrantes» até, já se podiam delinear, pois despontavam nas sociedades onde ocorreram, mas as pessoas contemporâneas desses fenómenos não deram por nada, aparentemente. Embora, de facto, haja sempre algumas pessoas que não se deixam iludir e tentam dar o alerta, este nunca é tomado a sério ou pior, é considerado subversivo, vindo dos inimigos da sociedade.
É falso pensarmos que não existe mais religião, baseados na premissa errada de que as pessoas abandonaram os respectivos templos. Há uma religião e está mais viva do que nunca, embora as pessoas não consigam identificá-la como tal. Por um lado, é transversal às diversas religiões, tradicionalmente prevalecentes. Por outro, ela flui pelos interstícios da sociedade, confundindo-se com as atividades mais triviais e indispensáveis no dia-a-dia. Não é religião que erga templos explícitos para culto dos fiéis. No entanto, o seu culto é muito divulgado e tem um número de fiéis certamente maioritário, em relação a todas as outras. Falo da religião do dinheiro.
No passado, ela existia também, diga-se: mas era temperada por outras coisas, como seja uma moral (religiosa, ou com raízes religiosas), que prescrevia o que se devia fazer ou não fazer, além de toda uma moldura de valores, de virtudes, às quais os devotos deveriam se conformar. Ou, pelo menos, na aparência.
Agora, o fator mais importante de ascenção social é o dinheiro. Não importa como foi obtido, nem como é gasto... É a sua acumulação que provoca «respeito religioso», da parte da multidão. Assim, ser rico - muito rico, na verdade - tornou-se virtude. Claro que as pessoas sempre admiraram e cobiçaram os ricos, no passado. Porém, a passagem do dinheiro a culto religioso, fez dos detentores do capital, simultâneamente, sacerdotes, magos, semi-deuses...
Bem podemos dizer e demonstrar que por este andar, a Terra fica esgotada, que os equilíbrios estão rompidos, que a diversidade biológica se vai reduzindo perigosamente, que ecossistemas estão a entrar em ruptura, que o esgotamento dos recursos ou sua contaminação vão tornar muito difícil a vida das gerações vindouras. Não, as pessoas estão viradas exclusivamente para «ganharem mais», para consumir agora, aquilo que antes estava acima de suas posses, e só conseguem equacionar a felicidade ou o sucesso dentro de sua comunidade, com seu enriquecimento.
Não procurei ser futurólogo no texto inicial de «A Grande Ilusão». Aqui, nesta segunda parte, atrevi-me a descrever tendências, que já se podem ver despontar no presente e têm já uma repercussão, mas que não se tornaram ainda, lugares-comuns.
terça-feira, 1 de julho de 2025
SOBRE RELIGIÃO
Tenho verificado que a humanidade «precisa» de religião. Mesmo os regimes oficialmente ateus, são portadores de uma forma de religião, de culto.
Mas, aqui irei falar no sentido tradicional de religião: O culto, a adoração de Deus, ou Deuses.
As religiões são, por regra, crenças codificadas em livros, códices, corpus de doutrina, que se perpetuam como cânon, ao qual se somam ou se agregam textos explicativos e toda uma iconografia, mais ou menos simbólica, mais ou menos descritiva, da forma como os fiéis se identificam aos valores morais, éticos, filosóficos implícitos das supra-citadas doutrinas.
Para mim, como habitante do Oeste europeu, a religião cristã teve sempre uma influência decisiva, quer na forma como construí os valores morais, quer como apreciava as expressões da arte. As formas sacras efetivamente predominavam, apesar da laicização da arte, ocorrida sobretudo desde o século XIX.
Isto não significa que tenha vivido numa atmosfera imbuída de religião. A minha religião, se assim se pode chamar, foi sempre a veneração das obras, humanas, mormente as suas expressões cimeiras, na música, na pintura, escultura e arquitetura, que, no meu universo cultural, eram muitas vezes inspiradas pelo cristianismo.
A minha curiosidade levou-me a aprofundar, tanto os aspectos formais da arte sacra, como seus conteúdos implícitos ou explícitos. Assim, embora nascido em «berço ateu», fui sempre um «cristão cultural», durante boa parte da minha vida, sem o saber.
O fenómeno religioso é de importância decisiva em relação à compreensão da História, da Sociologia e mesmo, da Psicologia. As construções em torno das suas doutrinas são uma parte importante da própria vida intelectual dos séculos passados. Lembro que há uns três ou mais séculos, as pessoas davam a vida, sacrificavam-se pela sua fé, sem questionar essa mesma fé.
Os humanos de há pouco tempo atrás, tinham ainda guardado esse sentido do sagrado, que não era questionável, fazia parte de seu ser assim como de toda a sua vivência pessoal, da sua família, da sua nação. O questionamento da religião surge a partir de meados do século XVII, nalguns países europeus, mormente sacudidos recentemente pelas guerras de religião e onde balbuciavam os primeiros avanços do método científico.
A oposição entre religião e ciência tornou-se, justamente nestas sociedades da Europa ocidental, uma questão que apaixonou os espíritos, em particular os mais filosóficos, que vieram a constituir o chamado Iluminismo. Mas, este não trazia verdadeira resposta aos dilemas que ele próprio levantara: o seu paradigma mecânico do Universo era demasiado fruste, podia facilmente ser visto como simplista e demasiado afastado do real.
As crispações dos dogmas, por um lado e das visões menos convencionais da religião, por outro eram conducentes a posturas de intolerância. Nessa altura, abundavam os "açaimes" e as "viseiras" do espírito. No século XIX seguinte, rico em polémicas políticas e filosóficas, além de ser palco de muitas transformações políticas e sociais, houve realmente lugar para diversas correntes, como sejam as liberais, anarquistas, comunistas, cooperativistas, nacionalistas, etc, etc, que agregavam à sua doutrina política uma explicação totalizante da sociedade e do Universo. Em suma: eram sistemas que pretendiam abarcar, não apenas a totalidade das sociedades humanas, como da Natureza.
As Leis universais que regiam o Cosmos pareciam estar firmemente fundamentadas na observação e na experimentação. Surgiu então um novo tipo de religião, o «cientismo», o qual pretendia reduzir tudo a movimentos mecânicos, desde os indivíduos e o funcionamento dos seus órgãos, até à alma, descrita como sendo uma função eletroquímica complexa do cérebro. Neste paradigma de cientismo ou de dogmatização pseudo-científica, evoluiam muitos dos espíritos mais inclinados para a ciência, nos séculos XIX, XX e mesmo XXI.
Este cientismo esteve muito presente no que, nesse tempo, chamavam de «materialismo», cobrindo «do véu da ciência» suas congeminações e teorias mecanicistas. Desgraçadamente, milhões de humanos sofreram uma lavagem ao cérebro, com as ideologias do «materialismo dialético» e «materialismo histórico». Poucos foram as pessoas que se emanciparam dessa doutrinação, ainda menos as que ousaram publicamente pôr em causa este sistema ideológico.
A grande tragédia, quando observamos as coisas do lado dos oprimidos, é que os opressores têm, praticamente, todos os meios de exercer o poder: Assim, os que têm uma visão alternativa, ou a mantêm em segredo ou terão de sofrer, em consequência de terem desafiado os poderosos.
Na transição para o século XXI, face a uma série de crises e de mudanças em grande escala, algumas ainda em curso no presente, houve oportunidade para afirmar o que antes seriam consideradas heresias, em relação ao establishment. A crise dos sistemas políticos, económicos e civilizacionais, vai sempre de par com crises em termos espirituais, das visões do mundo e dos valores... Neste aspecto, a crise presente não difere, de maneira significativa, de múltiplas outras crises conhecidas na História da Humanidade.
Com um renovo da espiritualidade, abre-se um leque muito mais vasto, que o das religiões instituídas: Permite a avaliação não-etnocêntrica, de complexos religioso-espirituais diferentes do nosso. Não se deve confundir esta constatação com relativismo moral ou sincretismo. Tem a ver com a constatação da existência de constantes antropológicas, numa abortagem respeitadora das outras civilizações, ao contrário da etnologia do passado, imbuída de preconceitos coloniais e racistas.
Tudo isto permite que coloquemos a questão central do papel da religião, da noção do sagrado, do reconhecimento da nossa inserção no Universo, que percebemos e que nos ultrapassa. No plano sociológico, nota-se que todas as sociedades têm uma ou outra forma de religião, sendo falsas as narrativas que apresentam tal ou tal povo remoto, como «sem religião»: A visão eurocêntrica e colonial dos antropólogos projetou-se nos povos que vivem (viviam) em simbiose com o ambiente natural. As suas lendas e crenças particulares adotavam uma religião, que não se definia através de objectos sagrados, causando a confusão de etnólogos apressados, ao anunciar uma «sociedade sem religião».
O empobrecimento da espiritualidade, que se traduz na valoração dos aspectos materiais sobre os espirituais, na adoração da riqueza e do poder como metas, para as quais tendem quase todas as pessoas, já para não falar da ausência da ética e de sentido do dever, em favor do princípio do prazer... São sintomas de decadência, de empobrecimento intelectual e espiritual. Dificilmente, veremos uma mutação civilizacional que restaure o equilíbrio entre aspectos espirituais e materiais, nas sociedades globalizadas do século XXI.
Se a minha visão do presente estiver correta, tenho de colocar como futuro mais provável, a decadência continuada, a involução, que poderá arrastar-se durante muitos decénios. Muito menos provável é que sobressaltos políticos nos venham trazer alguma modificação substancial neste aspecto. Digo isto, porque somente uma revolução do tipo anti-autoritária e libertária poderia abrir novos caminhos à aventura humana, e não consigo imaginar como uma tal revolução conseguisse brotar e perdurar, no contexto atual. Nenhuma revolução autoritária do passado, nos trouxe, de facto, uma subida do nível espiritual nas massas.
quinta-feira, 29 de maio de 2025
sexta-feira, 2 de maio de 2025
PROPAGANDA 21 (Nº27): A GUERRA PELA NOSSA ATENÇÃO
terça-feira, 15 de abril de 2025
TODO E QUALQUER INVESTIMENTO É ESPECULATIVO
Se nós estendermos o sentido de «especulativo», para significar que estamos a prever algo que poderá ocorrer ou não no futuro, ou que poderá ocorrer de forma bastante diferente do que nós prevíamos, então todos os investimentos, financeiros ou não, terão a sua componente «especulativa», pois ao escolher aplicar o capital nisto e não naquilo, tivemos uma noção mais ou menos intuitiva, mais ou menos racional, do que seriam os desenvolvimentos previsíveis na economia em geral e no setor em que investimos, em particular. Por outras palavras, estávamos a fazer uma aposta. Ora, todas as previsões, por mais sensatas que pareçam, têm a sua margem de incerteza, os parâmetros escondidos, os cisnes negros, que poderão deitar por terra as nossas mais doutas e prudentes estimativas.
Mas, ao nível dos mercados financeiros, há um comportamento típico do especulador que o diferencia do investidor. Enquanto o investidor vai procurar recolher informação sobre a saúde de uma empresa, antes de fazer a compra de ações da mesma, por exemplo, o especulador está focalizado no curto prazo, na possibilidade de uma ação ou outro ativo terem uma descida brusca devido a fatores previsíveis ou imprevisíveis, tornando apetecível a sua compra e estando disponível para vender esse mesmo título, logo que esteja a cotar acima de dado valor, normalmente com lucro sobre o valor de compra. Este comportamento poderá reproduzir-se em compras e vendas intra-diárias, sendo a soma das pequenas mais-valias obtidas nestas operações a principal remuneração do especulador ou trader. O investidor, idealmente, espera obter - no médio/longo prazo - dividendos da compra dum ativo, e/ou a valorização do mesmo, que permita efetuar sua venda com lucro, no momento apropriado.
Quando a volatilidade dos mercados é grande, mesmo os profissionais têm dificuldade em acertar nas previsões; por outras palavras, enganam-se com maior frequência nas suas apostas. Assim, um aumento de volatilidade dos mercados - como se tem verificado nas últimas semanas - origina uma série de perdas, não devidas à «incompetência» dos intervenientes, mas devido ao comportamento caótico dos mercados. Se se diz, sobre um dado fenómeno, que é "caótico", isso significa que não se lhe pode atribuir qualquer lei, não se pode portanto prever a sua evolução, pois esta não mostra regularidade, direção ou tendência, para que a possamos reconhecer como base para previsão.
No contexto atual, os mercados de ações são atraentes para pessoas que se deixam seduzir pelas narrativas dos grandes investidores, dos multimilionários (por exemplo, Warren Buffett) que conseguiram - numa dada fase da sua vida - erigir uma fortuna devido a uma série de apostas acertadas, devido a investimentos bem calibrados, etc. No entanto, estas narrativas são sempre míticas, não revelam os casos que resultaram em perdas monumentais, inclusive em falências, omitem também as vantagens que estes «grandes» da finança tiveram graças ao «insider trading» (= estarem informados sobre decisões tomadas, ao nível de empresa ou de governo, antes de serem tornadas públicas).
Não é preciso ser-se empregado ou sócio de uma empresa, para obter informação privilegiada; os multimilionários banham num universo à parte, convivem com outros, seus sócios ou competidores, com quem trocam as informações mais diversas que poderão estar na origem duma jogada.
Os famosos analistas de mercados que previram o colapso de 2008, não precisaram de canais de informação previlegiada; fizeram - com aplicação e algum talento - o seu «trabalho de casa»: Analisaram o estado dos mercados e concluíram, corretamente, que em pouco tempo o castelo de cartas dos empréstimos hipotecários iria desmoronar. Eles jogaram tendo apostado nisso, enquanto os outros continuavam a jogar com euforia otimista.
Com tais profissionais dos mercados, estamos perante indivíduos possuidores dum saber de muita experiência acumulada, dando-lhes sensibilidade a fenómenos dificilmente quantificáveis, etc. Isto é o desempenho que se pode esperar dos melhores profissionais. É como os médicos experientes que conseguem efetuar um diagnóstico difícil, ou como os músicos que atingem um cume de perfeição artística inultrapassável. Não há dúvida que tais profissionais existem, mas são raros.
Os tempos são de enorme incerteza e vai haver fatalmente quem vá perder a camisa, porque joga nos casinos das bolsas, convencido que é como um Warren Buffett, ou outro «investidor lendário». Normalmente, pessoas que não têm tanta autoconfiança, jogam em «índices»; porém, no atual contexto, os índices são a maneira infalível de perder dinheiro: Quando os mercados estão em alta, mais ou menos continuada, jogar em índices significa renunciar a ter retornos «espetaculares», para apenas ter «bons» retornos, porém isentos de riscos significativos. Num ambiente turbulento e de quebra dos mercados, como agora, os índices vão espelhar as descidas; elas podem não ser tão acentuadas como as dalgumas ações, mas haverá necessariamente perdas.
De qualquer maneira, eu desaconselho sempre que se joge no casino das bolsas: Quer a título individual, quer através dum fundo, estamos sempre muito sujeitos a fatores que não controlamos, que muitas vezes desconhecemos, ou que avaliamos erroneamente, etc.
Existem mercados não financeiros, como o imobiliário (este também sujeito a especulação), os metais preciosos (ouro e prata em barra, ou em moeda), os objetos de coleção, as obras de arte... A vantagem destas áreas de investimento, nestes tempos difíceis, é que o seu valor nunca irá descer até zero. O mais provável, é que conservem o mesmo valor relativo e até que se valorizem mais, pois eles se tornam mais raros e o dinheiro vai-se desvalorizando.
É conhecida de muitos, a história verdadeira dum apartamento de luxo, numa artéria central de Berlim, em 1922/23, que foi transacionado por 3 onças de ouro (1 onça= 31,1 gr.). Nessa altura, o Marco alemão estava a sofrer uma destruição completa por híperinflação. Quem tiver trocado -antes duma crise hiperinflácionária - o seu dinheiro fiducitário por barras de ouro, conserva o seu valor, no mínimo. Mas, muito provavelmente, como se verifica agora, o ouro subirá muito, muito mais rápido que a inflação, pelo efeito da procura muito acrescida e da raridade da oferta. Quem tem ouro, só irá vendê-lo por um preço muito elevado, superior à cotação oficial, nestas circunstâncias.
Os trabalhadores e pensionistas dos EUA e doutros países que fizeram reformas destruindo o Welfare State, para se conformarem com as doutrinas neoliberais (nos anos 1980), estão forçadamente metidos nos mercados financeiros, até sem terem a mínima ideia dos investimentos onde estão investidas as suas pensões. Isto porque são fundos de pensões (muitos são privados, alguns são estatais), que gerem estes capitais. Estes, teoricamente, são propriedade dos trabalhadores. Os descontos feitos ao longo da vida ativa, para as pensões são considerados salário diferido, não são um imposto.
A apropriação destes fundos de pensões, públicos e privados, fez com que eles servissem, durante estes 40 anos, para alimentar os mercados especulativos. Mas, até agora, ainda havia algumas limitações áquilo que podiam fazer os gestores; por exemplo, tinham de ter uma fração dos fundos em obrigações do tesouro, como «garantia» de pagamento das pensões, no caso de perdas severas nos segmentos imobiliário e bolsista, nos quais estavam investidos.
Hoje em dia, a ganância dos poderosos e a sua falta de escrúpulos revela-se ao «sugerirem» que estes fundos poderiam ser «mobilizados» para investir em indústrias de armamento. Ninguém os autorizou a deitar mão a estes capitais. Eles são dos cidadãos, não pertencem ao Estado, mesmo nos casos em que é o Estado que está encarregue de os gerir.
A crise/colapso que agora está diante de nós apresenta-se muito pior que a crise de 2008. Neste ano e subsequentes, o que aconteceu foi a recapitalização de fundos especulativos e da banca de negócios, utilizando dinheiro «impresso» digital, não correspondente a nenhum aumento de valor nos bens reais. Foi a operação dita de Quantitive Easing e suas reiterações.
Sem dúvida, todos nós (não creio que banqueiros e grandes capitalistas leiam isto!) sofremos com isso. A inflação resulta sempre do excesso da massa monetária em circulação, em relação à massa de bens e serviços produzidos: Se o excesso é grande, isso repercute-se na economia do dia-a-dia: uma unidade de qualquer mercadoria irá custar mais caro. Isto significa que será transacionada com mais unidades de dinheiro, pois cada uma delas vale menos.
Não será somente o mecanismo acima citado, que vão acionar, agora: Estão anunciados «bail-outs» e «bail-ins», ou seja, recapitalização dos bancos pelo Estado (bail-out), à custa dos contribuintes, ou à custa dos depósitos dos clientes desses bancos (bail-in). Esta última modalidade foi a solução da UE para a crise cipriota, em que depositantes com contas acima de determinado montante tinham «um corte de cabelo», de 23%. Tudo isto se fará sem a mínima concordância dos afetados, evidentemente. Como sempre, os responsáveis pelos sucessivos descalabros financeiros são intocáveis. Melhor ainda: São «heróis» que merecem ser salvos a todo o custo.
A única maneira do cidadão comum se precaver é não acreditar no que dizem uns e outros. Teremos de ver por nós próprios, quais os factos, qual a realidade. Isto não é fácil, mas se nós confiamos noutros, das duas uma: ou estamos nas mãos de um aldrabão, ou será alguém de boa fé: Ele acredita que está a dizer a «verdade» e julga que sabe mais do que o comum dos mortais. Ora, como tenho repetidas vezes mostrado neste blog, as coisas não são assim; muitas pessoas podem ser honestas, porém a sua visão é enviezada, pelo hábito, pela ideologia, pela avaliação incorreta da realidade, etc. Não é preciso presumir qualquer intenção malévola. A complexidade da economia e da sociedade, são tais que é impossível prever em pormenor o futuro. No melhor dos casos, conseguem-se prever as tendências principais.
Quanto a previsões obtidas utilizando «IA», lembrem-se que aquilo que se fornece à máquina, os dados e os algoritmos com os quais trabalha, são determinantes. Ninguém pode dizer honestamente que os dados fornecidos são 100% corretos, que todos eles têm a maior relevância, que não deixaram nada de fora, nem que os algortímos são os mais apropriados para a questão.
A economia é assunto de psicologia, também. Não é apenas assunto «de capital, trabalho e máquinas». Temos de apurar a nossa inteligência social, a nossa compreensão sobre como as coisas funcionam. É um facto que isso não nos dará garantia de sobrevivência... Mas aumenta significativamente a sua probabilidade.
segunda-feira, 14 de abril de 2025
WETIKO: Para um diagnóstico da nossa psicose colectiva
w/ Paul Levy & Chris Grosso – Indie Spiritualist Ep. 136
A lucidez e profundeza das intuições psicológicas e espirituais dos nativos americanos.
Se estivermos recetivos, veremos que muitas ideias expressadas por Paul Levy são realmente profundas.
Texto de apresentação do Autor, Paul Levy:
sábado, 12 de abril de 2025
REFLEXÃO: METAMORFOSES INVOLUTIVAS
domingo, 23 de março de 2025
PROPAGANDA 21 (Nº26): DUAS GUERRAS, UM CÉREBRO, ZERO CONSISTÊNCIA
Análise de como a propaganda profunda age ao nível do sentimento das pessoas; o lado racional não é posto em causa; por isso as pessoas pensam que estão em controlo do que pensam e que não se deixam influenciar pela propaganda mas estão completamente erradas. Veja no vídeo acima a demonstração.
PS: Depois de ver o vídeo acima, não ficará surpreendido por uma notícia como a seguinte ...
Israel’s Hellish Attack on the Palestinians
The Genocide Continues
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025
sexta-feira, 10 de maio de 2024
DISSIDÊNCIA
Quero fazer uma distinção entre várias posturas, pelo menos em termos práticos: O que é a dissidência? O que é o indiferentismo? O que é o militantismo/ativismo?
Refletindo em numerosas ocasiões sobre estes temas, chego à conclusão de que não se pode fazer uma abordagem quantitativa, mas apenas qualitativa. Ou seja, não serve de nada tentar medir o «grau de dissidência», etc.
A razão disto, é fácil de compreender se virmos que a atitude interior é que é o fator decisivo em relação à dissidência verdadeira: Trata-se de ter uma visão da realidade que nos cerca, uma «leitura» totalmente diferente da que nos pretende impor o poder dominante. Sabemos que o faz de maneira disfarçada: Mais do que por meios de coerção, sobretudo por meios de sedução.
Ora, estar em dissidência não significa - de modo nenhum - estar «alheado» da realidade. Quem está efetivamente alheado permanece passivo, aceitando a imagem do mundo que a educação, os media, o entorno social, querem que a pessoa adote: o indiferente não constrói outra visão da realidade. Ele deixa-se arrastar pela corrente, sem convicção mas, também, sem vontade própria.
O ativismo ou militantismo, são modos diferentes de comportamento exterior em relação ao «normal». Não se trata de «anormal», em termos psicossociológicos: Mas trata-se de exibir um dado comportamento, com frequência ou mesmo constante. O de alguém que é empurrado, por forças externas e internas, a exibir um certo comportamento. Trata-se de se mostrar, de colocar-se num palco imaginário, fantasiando que sua intervenção vai mudar o mundo, a sociedade, etc.
Se o indiferente não tem desejo, nem faz nada para elevar seu grau de consciência, o ativista (ou militante) faz ocultação - deliberada ou inconsciente - do seu vazio, da ausência de reflexão interior, o que o exclui, desde logo, da categoria da dissidência. Obedecer a algum chefe, mostrar fidelidade a um grupo, a uma ideologia, afirmar esta submissão de mentalmente escravizado, são as reais motivações de certos ativismos.
Por contraste, o dissidente pode renunciar, num determinado contexto preciso, a fazer algo sem - por isso - se ter transformado em indiferente: pode muito bem estar a aguardar o melhor momento, a juntar forças para que a ação seja realmente eficaz, etc.
O dissidente pode participar em ações de rua, em comícios, em greves, ou seja lá no que for: Não é o que ele faz, mas a motivação interior com que o faz que o distingue. Se o fizer, é porque está profundamente convicto de que isso corresponde ao que interiormente assume.
Não lhe interessa a ação pela ação, mas sim que, ao agir, o faça por motivos que assume como legítimos, necessários, eticamente imperativos. Além disso, agir não significa fazer uma coisa qualquer, de qualquer maneira: numa guerra global, como é também a guerra de classes, não esqueçamos que existe uma assimetria muito grande entre as forças materiais em presença. O que não significa que os mais fracos, os oprimidos, desbaratem suas escassas forças, antes pelo contrário! Então, o dissidente sabe reconhecer e distinguir, com toda a clareza, a ação fútil, da ação útil e mesmo, esta ação útil, da ação absolutamente necessária.
Sem querer simplificar demasiado as coisas, vemos que existem três categorias diferentes de atitudes interiores com a sua correspondência em comportamentos exteriores. Mas, não devemos esquecer-nos que qualquer pessoa pode ter passado de um tipo para outro (e vice-versa). A natureza não é estática e muito menos a natureza complexa e contraditória dos humanos.
O que nos faz únicos, o que nos faz imprevisíveis ou indeterminados, é a capacidade potencial de fazer, no sentido mais profundo do termo. Fazer algo com peso, com sentido, com estratégia: essa deveria ser a preocupação das pessoas realmente desejosas de transformação social.

