segunda-feira, 2 de março de 2026

Três Compositores Portugueses dos Séc. XVI e XVII [Segundas-f. Musicais nº51]

Órgão da Sé de Évora (tubaria do renascimento)


António Carreira (ca.1525- ca.1587)
 Canção a Quatro Grosada


Contemporâneo de Carreira, Gonçalo de Baena editava em 1536 um livro de órgão didático, com entabulações (ou glosas) de canções polifónicas na moda (sobretudo franco-flamengas) e outras, dele próprio e de mestres ibéricos. 





Susana grosada a quatro sobre a canção de Lassus




Aqui a obra vocal de Roland de Lassus «Suzanne un jour» que inspirou muitas glosas.



Pedro de Araújo (cerca de 1640-1705)
Batalha de Sexto Tom



Os compositores acima estão inseridos na tradição ibérica, que inclui tanto figuras de Espanha como de Portugal. Já nos séculos XIV e XV, ao nível das cortes reais, havia um fluxo constante de músicos oriundos dos diversos centros da Península Ibérica e também de outros países europeus, da Flandres à Itália. Porém, apesar dos compositores estarem mergulhados em ambientes cosmopolitas (as cortes) ou eclesiásticos, um forte «sabor ibérico» conservou-se nas suas composições, tanto vocais como instrumentais. 

António Carreira, como mestre da Capela Real, estava bem no centro de um meio favorável à música, acolhedor em relação às tradições da Europa do Norte, quer dos Países Baixos e Flandres, quer da Borgonha e, certamente, bem ao corrente da produção musical nos Reinos de Aragão e Castela.

O Padre Manuel Rodrigues Coelho (organista da Sé de Elvas), esteve em contacto com polifonistas portugueses (Frei Manuel Cardoso fez a revisão da sua obra magna),  e conheceu pessoalmente o filho de António de Cabezón, Hernando de Cabezón. As suas obras classificadas como «Tentos» revelam influências de Sweelinck*. A sua colectânea «Flores de Música» (impressa em 1620) revela elevado grau de maestria nos estilos de escrita musical da época (fim do séc. XVI- princípios do Séc. XVII). 

Pedro Araújo foi organista na Sé de Braga e exerceu outros cargos. As suas composições, designadas por «Meios-Registos», «Obras» e «Fantasias», estão na continuidade da tradição ibérica. A sua composição mais célebre, aqui reproduzida, é designada por «Batalha». Estas peças utilizavam a célebre «La Guerre de Janequin» (peça vocal do Renascimento), como base para variações exuberantes. Algumas das suas partes são compostas de sucessões de acordes, imitando as trombetas e outras sonoridades nas batalhas. São peças bastante extrovertidas. Pelo contrário, as outras obras do Mestre Araújo, são muito mais reflexivas e adequadas para acompanhar partes da Missa.
 
A escassez das fontes desta época não nos permite saber muito sobre a prática da música em contextos profanos. Restam poucos exemplos de danças ou de outro reportório com características profanas. Porém, existem pelo menos duas fontes que nos revelam aspectos importantes da música profana em Portugal, nesta época: 
A) Os cancioneiros eram pequenos livros («livros de mão») contendo poesia lírica de vários autores, cuja música correspondente é conhecida, em muitos casos. Tais canções circulavam nas cortes, sendo a lírica, ora em castelhano, ora em português. A parte vocal superior correspondia frequentemente à melodia. As restantes duas ou três vozes, podiam ser executadas pela vihuela (forma ibérica do alaúde) e/ou por outros instrumentos. 
B) As canções postas em tablatura para os instrumentos de tecla, mas igualmente para vihuela ou harpa. Existem exemplos nas obras de Gonçalo de Baena, António Carreira, António de Cabezón e de Rodrigues Coelho (do início do século XVI, ao início do séc. XVII) e noutros compositores. Foi muito cultivado este tipo de versões instrumentais de obras vocais. Estas grosas ou glosas estão na origem da música instrumental, em particular, para os instrumentos de tecla. Estas glosas  evoluiram desde simples transcrições, somente acomodando as diferentes vozes à execução num teclado, para se tornarem peças elaboradas, conservando a estrutura original, mas enriquecida com comentários e paráfrases. A arte da glosa consistia em usar ornamentos e variações das vozes. Provavelmente, deixava grande latitude à improvisação pelo executante. As peças escolhidas para tal adaptação instrumental eram frequentemente canções da escola franco-flamenga (Thomas Créquillon, Clément Janequin, Adrien Willaert, etc.). Estas canções, agrupadas em recolhas impressas, possuíam larga circulação europeia na época. Também várias canções ibéricas foram  glosadas («Con qué la lavaré», «Para quien crie yo cabellos», «Canto del Caballero», etc.)
A forma «tema com variações» surgiu em várias partes da Europa, incluindo na Península Ibérica, onde se usava o termo «diferencias». O procedimento era basicamente o mesmo: através de glosas, sucediam-se versões ornamentadas/variadas de um tema. Nomes diferentes, nas várias nações europeias, referem-se um processo de composição igual ou semelhante. As danças, nomeadamente a Pavana, Pasacalle, Chaconne... também obedecem ao padrão de «tema e variações». 



Relacionado: Obra de M S Kastner «Três compositores lusitanos para instrumentos de tecla, séculos XVI e XVII: António Carreira, Manuel Rodrigues Coelho, Pedro de Araújo. Lisbonne, 1979.»
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*Não nos espanta que tenha o Padre Rodrigues Coelho recolhido muita informação na preciosa biblioteca musical do futuro Rei D. João IV (O «rei músico»). Desta biblioteca, só subsiste o catálogo; o seu conteúdo ardeu completamente, aquando do Terramoto de 1755.

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