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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

COMO SE MANIPULA A DEMOCRACIA

 

Mais do que a alienação pelo trabalho, pelo desporto, pelo jogo, pelo sexo, pelas drogas... a indiferença social alastra com grande velocidade. 

Quando eu era criança havia indiferença social, com certeza. Mas, as pessoas «bem-pensantes» escandalizavam-se quando viam ou liam num jornal, que uma criança foi maltratada, que um pobre foi assassinado em plena rua, etc...  Hoje em dia, a quantidade de factos deste género é de tal maneira avassaladora, que é impossível uma pessoa guardar um sentimento genuíno de aversão pelas cenas revoltantes, de se indignar e exigir justiça, ou que vá em socorro da vítima. Sobretudo, é impossível pelo facto de se estar banhado numa sociedade indiferente, cínica, que olha para o outro lado, como se tal cena não tivesse nada que ver connosco. 

A sociedade massificada, implica um comportamento massificado. As pessoas são «ensinadas» ou condicionadas a apenas reagir quando certos «sinais desencadeadores» surgem: Por exemplo uma celebridade do espectáculo ou do desporto (ou outra...) a participar ativamente numa marcha, ou num «clip» transmitido na tv ou no telemóvel... 

Poucas pessoas se apercebem da extensão do medo social que impera nas nossas sociedades. Mas, um caso paradigmático é da monstruosa campanha do COVID, a maneira como os poderes se auto-designaram como «salvadores», à custa de um generalizado estado de sítio, uma repressão arbitrária, uma violenta e totalitária exclusão das vozes dissidentes, mesmo quando (ou sobretudo quando) estas vozes pertenciam aos mais credenciados especialistas da biologia e medicina. Foi tão violenta esta campanha de «psyop» (psychological operation), que um número considerável dos que se ergueram e denunciaram as sucessivas fraudes, foram arredados sumariamente dos empregos, foram ostracizados, excluídos de qualquer meio de defesa. Os meios da «justiça» apareceram claramente como inadequados, incapazes de pôr um travão (mesmo que o quisessem) à catadupa de ilegalidades do poder. O poder de Estado não estava só: Era serventuário de poderes corporativos, as grandes farmacêuticas, mas também sectores das profissões médicas, que rasgaram o juramento de Hipócrates, que supostamente deveriam reger sua ética, para alcançarem o beneplácito do poder político, via sua vedetização mediática.

O ato seguinte foi a campanha de provocações dos países da OTAN contra a Rússia, que começou durante o golpe do chamado EuroMaidan (em Kiev) e culminou com o derrube violento de um governo legítimo, democraticamente eleito, colocando no poder revanchistas, gente com ódio por tudo o que fosse russo; estes puseram Stepan Bandera num altar e fabricaram um «santo», dum indivíduo que participou pessoalmente, durante a IIª Guerra Mundial, nos massacres organizados durante a invasão alemã da Polónia e da Ucrânia soviética, de muitos milhares de polacos, de judeus e de russos.

Neste contexto, a burguesia dominante nas instituições europeias, fez discretamente sinais de apoio. O regime que violou os princípios da própria UE e da ONU, foi insensado em todas as capitais europeias, como se fosse o «regresso da democracia à Ucrânia». Nesse mesmo momento - e refiro-me ao antes de 2022 e da invasão russa - era perfeitamente evidente que os políticos e cidadãos comuns que não se conformavam com a «Ordem Nova» instaurada na Ucrânia, eram perseguidos, agredidos, presos, forçados ao exílio. Tudo o que a imprensa ocidental - nessa altura - relatava sobre Batalhões AZOV e outras milícias da extrema-direita era pouco, mas esse pouco era suficiente para que as pessoas vissem a realidade.

Mas, a propaganda, nos nossos dias tem a particularidade de conseguir que a imensa maioria das pessoas se contente com a «selecção» e «gestão» dos factos que os media corporativos lhes forneçam. Os que não cedem à propaganda, são uma minoria e nessa minoria, poucos levam a cabo o trabalho de investigação pessoal, passando as opiniões ao crivo do seu espírito crítico e  confrontando fontes diversas sobre as notícias. Por isso, a principal força do lado da OTAN é a massiva colaboração da media corporativa. Só ela conseguiria manter, ano após ano, o mito «do corajoso Zelensky e seu governo», o lado dos «bons», dos patriotas ucranianos, contra os maus dos russos, que «invadiram sem provocação prévia» uma parte do território da Ucrânia.  Mas não dizem (não ignoravam...) que a população russa dos Oblasts do Leste da Ucrânia (Lugansk e Donetsk) tinha sido sujeita a uma guerra de desgaste pelo exército ucraniano, enviando quotidianamente bombas e mísseis para os centros urbanos populosos, durante os anos 2014-2021. Além disso tinha-se  o exército ucraniano concentrado em Janeiro de 2022 com as melhores divisões, para efetuar uma incursão massiça destinada a aniquilar qualquer resistência. Foram pelo menos 14 mil civis, os mortos pelas bombas ucranianas, nesses territórios maioritariamente russófonos. A OSCE deu conta das atividades bélicas nos anos anteriores a 2022 e, portanto, os meios criminosos e genocidas usados pelo governo de Kiev, eram do conhecimento tanto os governantes da UE, como as redações dos media. 

A política tem sido transformada num desesperante combate desigual, em que os senhores do momento podem fazer a lei, não através de um consenso resultante de debate franco, com os eleitores e  com participação aberta de forças políticas rivais. O processo político está viciado à partida, pois os órgãos de comunicação principais (os canais de televisão, sobretudo) estão transformados em câmara de eco dos interesses corporativos. Estes, por sua vez, decidem quem são os que vão ganhar as eleições: Graças às suas doações, às diretivas para os media que eles controlam, graças a um sem fim de conivências no tecido governamental e empresarial... Assim, «anulam» ou «encolhem» na perceção do público, as soluções que apresentam outras forças políticas. O público é muito condicionado, embora não se aperceba, pela chamada «dinâmica de vitória», se lhes parece que existe (pode ser verdade, ou não) uma maioria que vai votar num partido X, há uma percentagem dos eleitores que antes se teria abstido ou que votaria noutros partidos, que acaba por dar seu voto à força «vencedora».  

De qualquer maneira, aquilo que é o discurso corrente dos partidos nos períodos pré-eleitorais e eleitorais não tem nada que ver, no essencial, com  o verdadeiro programa de governo, se um desses partidos ganhar as eleições. As campanhas eleitorais foram sempre muito pouco propícias para o esclarecimento da cidadania sobre as diversas opções em jogo. Porém, agora, o discurso político é propositamente confuso, ocultando as reais intenções dos candidatos.  

A partir do momento em que se instaurou o sufrágio universal, nos países da Europa Ocidental e da América do Norte, principalmente, punha-se a questão para a classe dirigente, de exercer continuamente o seu domínio, sem ter que - periodicamente - instaurar ditaduras, o que acabaria por dessacralizar a «vaca sagrada» da «democracia liberal». Assim, com a peritagem de homens como Edward Bernays e muitos outros, instaurou-se uma ordem onde o público era mantido numa ficção permanente. Ficção de que o «soberano» era o povo, que ditava com a sua vontade as leis e orientações do governo. Ingénuo e vaidoso, desde que elogiado nos discursos que gostava de ouvir, o público caíria na esparrela facilmente, votando no partido designado pela elite do dinheiro, que decidiria qual o próximo governo. Portanto, o poder continuava nas mãos duma pequena minoria, da oligarquia, mas com a aparência do governo e decisões serem a expressão da vontade dos votantes. Nada melhor, para os verdadeiros detentores do poder, desde que eles conseguissem fazer este jogo suficientemente bem para que o povo não duvidasse. 

Além disso, a existência de eleições «livres» fazem com que o governo, a sua ação e as leis emanadas do parlamento, te implicam a ti, cidadão eleitor: As  decisões importantes seriam - no fundo - resultantes do «jogo democrático»: «Ou tu estiveste de acordo, porque votaste no partido agora no poder, ou , caso tenhas votado contra, deves ter a honestidade e o «fair-play» de deixar os outros governar, visto que as eleições foram «limpas».  É esta a sofística da chamada democracia, não da democracia dos gregos da antiguidade, nem a dos «sans-culottes» da revolução francesa. 

Aquilo que é mais nojento e que todos os políticos do sistema sabem bem é que - de facto - os eleitores não têm absolutamente nenhuma ideia sobre a personalidade dos que eles são convidados a eleger; não sabem também qual o real programa de governo, aquele que entrará em vigor se o partido que eles «escolheram» ganhar as  eleições. Também não existe, de modo legal, procedimento de retirar dos seus lugares aqueles governantes ou deputados, que tiverem um comportamento muito diferente do que prometeram, ou por incompetência, ou por venalidade, ou por perfídia...

Infelizmente, a imensa maioria das pessoas está convencida que «isto» que têm à sua frente é «democracia» e que não existe nada mais... Ou então, que será uma variante de um regime totalitário. É muito difícil exercer uma pedagogia no sentido de esclarecer o povo. Seria necessário instaurar-se (ou restaurar-se) associações de várias finalidades - associações sindicais; cooperativas; culturais; desportivas - que fossem locais onde se pudesse exercer uma forma diferente da democracia, a democracia direta. Depois, esta prática continuada poderia desembocar no exercício de formas de democracia direta em municípios e regiões. Não creio que este progressivo alastrar da democracia direta ou de base, fosse logo capaz de destronar a falsa democracia, baseada na fraude e na corrupção a todos os níveis. Mas, por outro lado, também não é com «tomadas do poder» do tipo bolchevique, ou outras, que uma sociedade pode encetar o caminho para mais democracia. 

Penso que um sistema onde os eleitores tiverem efetivos mecanismos para destituir ou fazer caducar o mandato de algum eleito, se ele não estiver a agir e votar de acordo com o mandato pelo qual concorreu, seria um bom princípio, porque iria introduzir a responsabilidade política efetiva nos eleitos perante os seus eleitores. 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A BOMBA QUE CHEGOU NO TEMPO PREVISTO [POR THOMAS KARAT]

[Apresento o artigo integral em tradução automática em espanhol]

Un dron permaneció en una pista de aterrizaje durante cuatro horas en agosto. El estado nombró a su enemigo cuatro semanas después, cinco días antes de las elecciones. Lo que sea que haya sucedido en Leipzig, la maquinaria que alimentó fue construida de antemano.

15 de septiembre




La noche del 4 de agosto, un empleado del aeropuerto de Leipzig/Halle observó un pequeño dron en la plataforma, cerca de un avión de carga Antonov ucraniano estacionado. El dron portaba una carga explosiva y un detonador. La carga no explotó. Un robot de desactivación de explosivos se desplazó por la pista y, según la versión que posteriormente darían las autoridades alemanas, el artefacto pasó desapercibido durante aproximadamente cuatro horas antes de que alguien lo encontrara. El aeropuerto reabrió sus puertas y la situación siguió su curso.

Veintiocho días después, el 1 de septiembre, el gobierno alemán reveló a sus ciudadanos quiénes habían sido los responsables. El ministro del Interior, Alexander Dobrindt, y el ministro de Asuntos Exteriores, Johann Wadephul, se reunieron en Berlín y señalaron a Rusia. El consulado en Bonn cerraría el 18 de septiembre; se devolvería el contrato de arrendamiento del centro cultural Casa Rusa de Berlín; y se propondrían más ciudadanos rusos para las listas de sanciones de la Unión Europea. La atribución se presentó como un hecho consumado. Las pruebas que la respaldaban, no.

Cinco días después, el 6 de septiembre, los votantes de Sajonia-Anhalt acudieron a las urnas con Alternativa para Alemania (AfD) obteniendo entre el 41 y el 43 por ciento de los votos , a punto de lograr la mayoría absoluta en un estado que toda la clase dirigente alemana había intentado negar durante meses. Vale la pena recordar esta secuencia como un todo. Un dispositivo encontrado a principios de agosto, un silencio público que duró cuatro semanas y, finalmente, un enemigo oficial anunciado en los últimos días de la campaña. Nada de esto es ilegal, pero tampoco es casual.


Lo que Berlín afirma y lo que ha demostrado

El caso de Dobrindt, tal como lo expuso, no se basa en una sola prueba. Se fundamenta en tres elementos que, según él, apuntan en la misma dirección: la investigación forense policial, la similitud del dispositivo con operaciones anteriores y los informes de inteligencia. « En conjunto», afirmó , las investigaciones, el patrón y los hallazgos de inteligencia establecen la responsabilidad rusa. No mencionó a ningún oficial del GRU ni a ninguna unidad. Dijo que quienes llevaron a cabo el plan parecían ser agentes de «bajo nivel» que actuaban en nombre de «entidades estatales rusas» no especificadas.

Lo que se le ofreció al público, entonces, fue una conclusión y una descripción de las pruebas que la sustentaban, no las pruebas en sí. Un observador independiente no puede verificar la cadena de custodia. Incluso los relatos más favorables señalaron la laguna: los ministros nombraron al Estado, pero mantuvieron oculta la mayor parte de la información subyacente . El secretario general de la OTAN, Mark Rutte, declaró que las pruebas eran «claras» sin que se hicieran públicas, y acogió con satisfacción las medidas alemanas. La jefa de la diplomacia de la UE, Kaja Kallas, fue aún más allá, declarando a los periodistas en Irlanda que el incidente presentaba «todas las características del terrorismo de Estado».

Esta es la gramática habitual de la atribución en la era del sabotaje. Un gobierno declara que sus servicios y sus socios han llegado a un veredicto, los gobiernos aliados lo ratifican, la prueba permanece clasificada y se invita al ciudadano a depositar la confianza que, de otro modo, generaría la evidencia faltante. Puede que el material clasificado sea abrumador. Puede que sea escaso. La estructura es idéntica en ambos casos, y ahí radica precisamente el problema. Un público al que se le pide que acepte una atribución por fe no tiene forma de distinguir un caso sólido de uno conveniente.

El servicio que no deja huellas dactilares, excepto esta vez.

La sentencia clave en el caso alemán no tiene nada que ver con la ciencia forense, sino con la familiaridad. Wadephul afirmó que la configuración del dron, sus componentes, sus explosivos y su tecnología de ignición les resultaban familiares por otras operaciones híbridas rusas y por la guerra de Rusia contra Ucrania. Dobrindt utilizó prácticamente las mismas palabras: elementos que les eran familiares, un dispositivo de alta pericia técnica ensamblado con esmero. En otras palabras, el reconocimiento consiste en realizar la función que normalmente desempeñaría una firma.

Si contrastamos esa afirmación con la forma en que, según la documentación, opera la inteligencia militar rusa en Europa, el argumento empieza a flaquear. El modelo de sabotaje europeo del GRU, reconstruido por investigadores de varios países, se basa enteramente en la negación. Funciona con «agentes desechables» : delincuentes de poca monta y vagabundos reclutados por Telegram, pagados con criptomonedas, a quienes se les asigna una tarea que apenas comprenden y luego se les descarta. Los dispositivos se disfrazan de productos de consumo. Cuando cuatro paquetes incendiarios enviados desde Vilna se incendiaron en el verano de 2024, uno de ellos se prendió fuego en un depósito de DHL en el propio aeropuerto de Leipzig-Halle, una trama que los fiscales europeos rastrearon hasta la inteligencia militar rusa a través de una cadena de agentes prescindibles. El objetivo de esta estructura es que no sobreviva nada reconocible que pueda rastrearse hasta Moscú.

Así pues, la versión oficial pide al lector que crea una de dos cosas. O bien un servicio cuya principal táctica es borrar su propia firma construyó un dispositivo con su firma reconocible y lo estacionó junto al objetivo ruso más obvio en Alemania: un avión de carga ucraniano en un centro logístico de la OTAN. O bien la palabra «familiar» cumple exactamente la función que una atribución fabricada requeriría. Si un dispositivo simplemente se parece a lo que todo el mundo espera que Rusia construya, entonces «lo reconocemos» se convierte en una afirmación que puede hacerse sobre casi cualquier dron, por casi cualquier autoridad, en casi cualquier momento políticamente oportuno. Ninguna de las dos interpretaciones exige que nadie haya colocado nada. Ambas deberían hacer que un ciudadano prudente sea más cauteloso, no más rápido, a la hora de aceptar la conclusión que se ofrece.

Para que quede claro, hubo más de un dron. Esa misma noche, un segundo aparato impactó contra un Boeing 757 en pleno vuelo a unos cuatrocientos metros de altura cuando la aeronave abortaba su aterrizaje, y, según se informó, un tercero fue recuperado días después en las instalaciones del aeropuerto. Sea lo que fuere, no fue nada grave, y este artículo no pretende lo contrario. Sin embargo, nada de esto permite determinar quién estaba detrás. Es muy posible que Rusia lo estuviera. El punto es más específico y difícil de descartar. La razón concreta que el Estado ha dado para tener certeza —que el dispositivo era reconocible— es el fundamento más débil posible para afirmar la existencia de un actor que se define por no ser reconocible. Cuando la evidencia a favor de una proposición también resulta, tras un análisis, en contra, la respuesta lógica es la duda, y la duda es precisamente la respuesta que el anuncio pretendía evitar.

A quién estaba destinada la alarma.

Hagamos la vieja pregunta. En las cuatro semanas que transcurrieron entre el dron y el anuncio, nada cambió respecto al dispositivo. Lo que cambió fue el calendario. La atribución se produjo en la recta final de la campaña de Sajonia-Anhalt, y el escritor Thomas Fazi señaló lo que era difícil de pasar por alto. Se anunciaba un enemigo oficial en vísperas de una votación que el establishment temía perder, en una contienda donde el partido insurgente es presentado habitualmente como un instrumento de Moscú. Y esta presentación no es casual: la AfD es el único partido importante que se opone al armamento de Ucrania y a la campaña de rearme, que quiere que se levanten las sanciones y se restablezcan las relaciones con Moscú. Un nuevo ataque ruso, programado para los últimos días, estaba calculado para hacer que precisamente ese partido pareciera el amigo cómplice del Kremlin y para atraer a los votantes asustados de vuelta hacia los partidos que prometían protección. El dron no necesitaba cambiar el resultado. Solo necesitaba llenar los últimos días de la campaña con la palabra Rusia .

No funcionó. El 6 de septiembre, la AfD obtuvo el 43,8% , más del doble de su resultado de 2021 y el mejor resultado que un partido de extrema derecha haya registrado en un estado alemán desde la guerra, ganando 39 de los 83 escaños, tres menos de la mayoría gobernante, por lo que aún se encuentra fuera del poder por los demás partidos, pero aun así, una derrota aplastante para la gobernante CDU. Cualquiera que fuera la intención de la mención de Rusia en las urnas, los votantes de Sajonia-Anhalt no se conmovieron. Y los apoyos que llegaron del extranjero solo subrayaron lo burdo que había sido el planteamiento inicial. El presidente estadounidense Donald Trump celebró el resultado como "una noche realmente importante" y no escribió ni una palabra sobre drones o el Kremlin, presentando el voto enteramente como una revuelta contra la inmigración. Elon Musk, quien ha calificado al partido como "la única esperanza para Alemania", simplemente publicó "Gut gemacht" (bien hecho) y obtuvo del candidato principal de la AfD una oferta abierta de "cooperación sólida y constructiva". El alarmismo había prometido al electorado un partido al servicio de Moscú; lo que el electorado vio fue un partido cortejado por un presidente estadounidense y el hombre más rico del mundo en materia de inmigración e inversión. La imagen del enemigo no se correspondía con la realidad, y la discrepancia era evidente para cualquiera que mirara.

Ampliando la perspectiva, el incidente se inserta en un programa que lo precede por años y que no depende de ninguna elección en particular. Alemania se está remilitarizando a una escala sin precedentes desde la reunificación. El ministro de Defensa, Boris Pistorius, declaró ante el Bundestag que el país debe estar "preparado para la guerra en 2029" . A partir del 1 de enero de 2026, todos los jóvenes alemanes deberán inscribirse para el servicio militar obligatorio, y el reclutamiento forzoso se aplicará automáticamente si el número de voluntarios es insuficiente. El presupuesto federal de 2026 incrementa el gasto en defensa en aproximadamente un tercio, hasta alcanzar los 108.000 millones de euros. Y el mercado ha interpretado esta tendencia sin ambigüedades. Las acciones de Rheinmetall, el mayor fabricante de armas del país, se han multiplicado por más de diez desde la invasión rusa de 2022, y la empresa ha registrado pedidos récord a medida que el rearme europeo transforma el temor en pedidos pendientes.

En ese contexto, Leipzig llega como confirmación. La presidenta de la Comisión, Ursula von der Leyen, describió el incidente como una escalada rusa "en suelo de la Unión Europea" y les dijo a los europeos que ahora se enfrentaban a una "nueva normalidad" y una "nueva era de seguridad europea", suplicando que la presión sobre Moscú no haría más que aumentar y que ya se estaba preparando un nuevo paquete de sanciones. El canciller Friedrich Merz ya había declarado a una emisora ​​francesa, un año antes, que Alemania "ya estaba en conflicto con Rusia" ; el planteamiento estaba establecido mucho antes de que el dron llegara para ilustrarlo. Los beneficiarios de ese planteamiento no están ocultos. Son los fabricantes de armas con listas de espera récord, las burocracias de seguridad cuyos presupuestos y mandatos se expanden con cada amenaza declarada, el aparato de sanciones que crece por acumulación y los partidos gobernantes para quienes el enemigo está a las puertas es el único mensaje que podría ahogar a una oposición interna que acaba de obtener casi el 44% de los votos.

La pregunta que nadie en Berlín se atreve a hacer en voz alta.

Aquí hay una historia que los funcionarios alemanes, precisamente ellos, deberían conocer, y de la que no se habla. Los Estados fabrican las provocaciones que justifican lo que ya han decidido hacer. Esto no es una teoría marginal, es un hecho documentado, registrado por los propios Estados.

La noche del 31 de agosto de 1939 —ochenta y siete años, casi exactos, antes del anuncio de Leipzig—, agentes de las SS con uniformes polacos se apoderaron de un transmisor de radio alemán en Gleiwitz y emitieron un mensaje antialemán, dejando como prueba el cadáver de un prisionero, vestido como atacante polaco. Fue uno de una serie de incidentes fronterizos orquestados. A la mañana siguiente, Hitler invocó la agresión polaca al enviar sus ejércitos al este. El pretexto se encontró en vísperas de la guerra que pretendía legitimar.

Más cerca de casa, y más cerca de la alianza actual, está la Operación Gladio. Tras la Segunda Guerra Mundial, la OTAN y la CIA crearon redes clandestinas de operaciones encubiertas no en un solo país, sino en toda Europa Occidental: células armadas y ocultas, supuestamente destinadas a resistir una invasión soviética que nunca se produjo. Cuando el primer ministro italiano, Giulio Andreotti, reconoció la existencia de esta estructura ante el Parlamento en octubre de 1990, hizo hincapié en que Italia no era la única. Redes idénticas habían operado en Bélgica, los Países Bajos, Francia, Alemania Occidental, Grecia, Dinamarca, Noruega, Luxemburgo y otros países, con contrapartes en la neutral Suiza y Austria. El escándalo fue de alcance continental, al igual que la respuesta. El 22 de noviembre de 1990, el Parlamento Europeo aprobó una resolución que condenaba la existencia, durante cuarenta años, de «una organización clandestina paralela de inteligencia y operaciones armadas en varios Estados miembros», que había «escapado a todos los controles democráticos» y había sido «dirigida por los servicios secretos de los Estados implicados en colaboración con la OTAN». El Parlamento dejó constancia de que, en algunos Estados miembros, los servicios secretos militares habían estado «implicados en graves casos de terrorismo y delincuencia». Posteriormente, se llevaron a cabo investigaciones parlamentarias en Italia, Bélgica, Suiza y Alemania. En Italia, estas investigaciones alcanzaron la conclusión más contundente. Una década después, una comisión del Senado determinó que una «estrategia de tensión» —atentados con bomba contra civiles en lugares públicos, atribuidos por la izquierda para infundir temor en el electorado y alinearlo con la derecha anticomunista— había sido «organizada, promovida o apoyada por hombres dentro de las instituciones estatales italianas y, como se ha descubierto más recientemente, por hombres vinculados a las estructuras de inteligencia de Estados Unidos». Esto no es un rumor inventado por una emisora ​​extranjera. Es la conclusión del Parlamento Europeo y de las legislaturas nacionales sobre su propio pasado reciente: una campaña que duró décadas, llevada a cabo en todo el continente por los servicios occidentales en colaboración con la misma alianza que ahora emite el veredicto sobre Leipzig.

Tampoco es el único modelo europeo. En marzo de 1962, el Estado Mayor Conjunto de Estados Unidos, con la firma de su presidente, envió al Secretario de Defensa una propuesta formalmente aprobada titulada « Justificación de la intervención militar estadounidense en Cuba» . La Operación Northwoods , desclasificada en 1997, desplegó una serie de provocaciones orquestadas: terrorismo simulado en ciudades estadounidenses, un derribo ficticio, un barco hundido; todo ello para culpar a La Habana de haber generado apoyo público a una guerra que los planificadores ya deseaban. El presidente Kennedy la rechazó. Lo significativo no es que se llevara a cabo; no se llevó a cabo. Lo significativo es que los más altos mandos militares de una democracia consideraron el engaño deliberado de su propio pueblo un instrumento político útil y lo plasmaron por escrito.

Si se mencionan estos precedentes, se afirma, con razón, que no demuestran nada sobre Leipzig. Y no lo hacen. Lo que sí demuestran es algo más sutil e inquietante: que el pretexto fabricado es una herramienta real y recurrente de la política estatal, utilizada por los poderosos cuando la opinión pública necesita ser conducida hacia una guerra que aún no ha elegido. Una ciudadanía incapaz de siquiera contemplar esa posibilidad —que trata la mera cuestión como un argumento del enemigo— se ha visto privada de una defensa que desconocía. Los encargados de monitorear la desinformación ahora clasifican la expresión «bandera falsa» como una señal hostil , que debe ser señalada y desmentida. Es una extraña forma de seguridad la que convierte la memoria histórica de los propios gobiernos en una categoría de injerencia extranjera.



Independientemente de lo que hubiera en esa pista de aterrizaje en agosto, lo crucial es que la respuesta estaba lista antes de que surgiera la causa. Las cartas de reclutamiento ya estaban impresas. El paquete de sanciones ya estaba redactado. El presupuesto de rearme ya se había aprobado, la fecha de preparación para la guerra ya se había fijado para 2029, y la cartera de pedidos del fabricante de armas ya estaba en niveles récord. Merz ya había declarado al país en conflicto. Y el mismo día en que mencionó a Rusia, el gobierno elevó el nivel de amenaza nacional de "general" a "alto" ; Dobrindt declaró a los periodistas: "No estamos en guerra, pero somos el objetivo diario de ataques híbridos". El dron no inició nada de esto. Se integró en el proceso: una confirmación colocada, en el momento óptimo, en una máquina ensamblada de antemano, y la máquina respondió avanzando un escalón más.

Esa es la parte que merece atención, y se mantiene independientemente de quién haya construido el dispositivo y de cómo haya votado Sajonia-Anhalt. Se está preparando a la población —metódicamente, a través de sus presupuestos, sus listas de reclutamiento, sus niveles de amenaza, el vocabulario de sus ministros y sus noticieros— para una guerra con Rusia que sus líderes describen cada vez más como ya en marcha. El electorado que acaba de emitir un veredicto rotundo contra ese proyecto lo encontrará inalterado por su voto. En tal clima, el origen de cualquier incidente individual importa menos que el uso que se le da de inmediato y la velocidad con la que la duda al respecto se reclasifica como traición. Los alemanes de un siglo anterior aprendieron, demasiado tarde, el precio de aceptar al enemigo que su gobierno les entrega sin pedir pruebas. Esta vez, las pruebas siguen clasificadas. La certeza apareció en las noticias en cuestión de días.

sexta-feira, 21 de março de 2025

COMO É QUE SE «FAZ POLÍTICA» NOS DIAS DE HOJE?

 Não irei fazer-vos uma recitação do que eu julgaria ser a maneira «correta» de fazer política, por outras palavras, de uma casta (ou grupo, ou classe, ou camarilha) se dirigir ao povo, ao «bom povo», do alto da sua sabedoria, para o iluminar sobre os caminhos que (supostamente) os meus colegas de partido (ou de máfia, ou de seita, ou de religião) desejam que «passe» para os cérebros «lentos» dos meus concidadãos.

Certamente, este conceito de «fazer política» está muito atrasado no tempo: Só alguns «iluminados» (sejam eles moderados ou extremistas, revolucionários ou reaccionários, de esquerda ou de direita) se dedicam a fazê-la assim, exactamente como o fazem desde há mais de cinquenta anos e nunca desaprenderam! 

Não, creio que todos temos diante dos olhos (pelo menos dos olhos da mente) esses imensos cartazes publicitários, que enchem literalmente a paisagem, com as suas cores primárias e as caras sedutoras e sorridentes, acompanhando os slogans eleitorais. Estes, curiosamente, destacam-se por não veícular qualquer ideia, apenas banalidades, sentimentos, truísmos ou seja, o vazio. O vazio é a forma política que assumiu a propaganda visual dirigida às massas. Este vazio é acompanhado, na «media de massas» pelo reforço dos preconceitos, dos lugares-comuns, do «vêem; nós somos como vocês: Votem em nós, porque nós é que vos compreendemos», etc. 

Esta tática resulta, porque toda a formação do cidadão se transformou - desde há muito tempo - em mera «formatação»: 

- Não é mais do que uma constante e vigorosa lavagem ao cérebro. Lavam-te o cérebro a toda a hora, mas sobretudo quando, diante do écran do televisor ou na Internet, segues um pseudo «debate», onde apenas se afirmam as personalidades narcísicas seleccionadas como «adversários», numa justa verbal sobre qualquer coisa, sobre uma coisa qualquer. O tema é - em geral - algo susceptível de «agarrar» a audiência, de lhe dar um «frisson», de a fazer sentir-se inteligente, esclarecida, do lado do bem, etc...

A decisão de voto que te querem forçar a tomar é irrelevante, no melhor dos casos, apenas mais uma camada de servidão e de engano suplementar. A faculdade de «escolha», tida como o supra-sumo do que chamam «democracia», é como entre dois detergentes: um com embalagem castanha e o outro, ocre. Ou - se preferires - chocolate embalado em papel prateado ou dourado mas, nos 2 casos, com o mesmo gosto a mixórdia sintética.

E lá vamos nós cantando e rindo! Estamos na véspera do alargamento da IIIª Guerra Mundial que começou - como as duas outras - em solo europeu.  Só que, desta vez se aproxima dos 30 anos - de 1999 a 2025:

Esta IIIª Guerra Mundial começou, pelo menos, quando a aviação da OTAN/NATO, bombardeou a Sérvia (hospitais, escolas, embaixadas e edifícios civis, em Belgrado e noutras cidades) e não em resposta a qualquer ameaça que o regime sérvio da altura tivesse feito à OTAN, ou a seus membros. Tratava-se de «libertar» o Kosovo, a região sérvia agora controlada pelos EUA/OTAN que aí possuem uma mega base militar. Um território sob ocupação, onde o povo autóctone, sérvio e kosovar, sobrevive miseravelmente.

E lá vamos nós cantando e rindo... 

Para não estragar o coro angelical, continua-se dando porrada, prendendo e expulsando os pacifistas que se atrevem a defender o povo da Palestina, porque «todos os habitantes de Gaza são do Hamas» (palavras do ministro de defesa israelita e doutros responsáveis do governo). 

Mas, como dizem ao povo (ao bom povo!) que eles (pacifistas) são terroristas disfarçados, está tudo esclarecido: Qualquer manifestação de solidariedade, de compreensão, de simpatia humana para com eles, seria demonstração de cumplicidade com o horrendo crime de assustar as almas dos bons. Entenda-se: desde os cristãos sionistas, passando pelos valentes soldados do IDF orgulhosos dos seus crimes de guerra, aos torturadores dos campos onde sofrem milhares de «terroristas» civis, incluindo mulheres e crianças.

Este discurso já está a tornar-se demasiado «radical»! Para amenizá-lo, deixo a humorística nota final:

O povo da minha aldeia está confuso com a catadupa de insultos da propaganda anti-russa, na comunicação (anti)social, fazendo-se eco das vozes «politicamente esclarecidas»: Sempre confiou na grande utilidade e no pacifismo das mulas ruças*, com séculos de bons serviços enquanto auxiliares em todo o tipo de trabalhos, principalmente nos campos. 

_______

*Ruço: o tom de pelagem dos animais, entre o cinzento o castanho.


PS: Entretanto, em Portugal, tem-se uma amostra do panorama europeu de profunda crise de legitimidade das oligarquias e da sua total incompetência. Traduz-se numa nova ronda eleitoral, a 3ª em três anos, após dissolução  do governo e da maioria parlamentar...

 

 

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Quando a metáfora de " David contra Golias" já não é apropriada

                             Einstein, um defensor convicto do socialismo

Esta metáfora é usada, habitualmente, para designar uma situação de confronto em que existe uma disparidade manifesta nas forças em presença. Teve a sua razão de ser nos séculos passados e ainda se aplica hoje em dia em situações de "guerra assimétrica": Os Houthis contra as esquadras dos EUA e aliados; O Hamas contra o exército de Israel; inúmeras situações de guerrilha, no passado e no presente, quando umas escassas dezenas de guerrilheiros põem histéricos os poderosos exércitos e os governos .

Mas, infelizmente, a proporção das guerras assimétricas acima nomeadas não tem analogia com a sociedade de controle, onde os media gigantescos e o sistema escolar, dos quais ninguém escapa, são capazes de moldar a perceção do Mundo e das consciências de milhões de pessoas. Obviamente, elas não se apercebem, não têm consciência de serem manipuladas. Porém, alguém que desperta para a realidade tentacular destas autênticas prisões da consciência (como em «Matrix») vai quebrar «o encantamento», vai progressivamente aperceber-se que o que tem assimilado, desde criança e ao longo da sua vida, não é mais do que condicionamento massivo, originado pelos detentores do poder, em particular, pelos que o exercem através da media.

Com efeito, as agências de «inteligência» de diversos países, em particular os mais poderosos, vigiam cuidadosamente os media do seu país e de todos os outros. Estes instrumentos do Estado, discretamente, através de pessoas compradas por eles nos vários media, «sugerem» que se publique tal ou tal «informação», que pode muito bem ser desinformação; os chefes de redação e outros responsáveis por esses media, sabem perfeitamente do que se trata, quase nunca declinando satisfazer o pedido dos ditos serviços. Mas, além disso, os media mainstream, em qualquer país, vão examinar ao pormenor o curriculum de um/a candidato/a a jornalista, na sua instituição: Se o/ candidato/a se afasta da corrente dominante, é logo posto/a de lado, não importa qual o grau de qualificações, o talento, ou a experiência que exibe. A composição dos grandes media, que nós podemos comprar num quiosque ou obter por via digital, é sempre, invariavelmente selecionada pela enorme subserviência ao poder do dinheiro, em particular, que lhes paga a subsistência, através de anúncios, de doações, além de serem multimilionários, os proprietários ou acionistas principais desses media. Também, no dia-a-dia, os grandes media possuem laços privilegiados com determinadas personagens políticas, as quais lhes fornecem informações, que eles podem depois propagar como vindas de fontes anónimas. Há uma espécie de simbiose do jornalismo com políticos do poder e com os capitalistas.

Se a proverbial relação David contra Golias se aplica ainda no terreno da guerra assimétrica, creio que não se aplica já no caso da influência exercida sobre as massas de público pelos media corporativos (os Golias), em comparação com jornalistas não vinculados ao sistema (uma «molécula» do corpo de David).
Neste caso, por mais talentosos e corajosos que sejam (pois vão buscar a notícia onde as coisas se passam), dificilmente conseguem sobreviver economicamente, na generalidade dos casos, se eles efetivamente mantiverem a independência. Além do aspeto «alimentar», existe a questão do alcance das armas (os media alternativos para onde escrevem, ou filmam, etc.), da impossibilidade de alcançarem um público da mesma ordem de grandeza que o dos «mamutes dos media».
Por outras palavras: se a desproporção de meios e forças é demasiado grande, não existe já possibilidade efetiva de triunfo, sendo o combate demasiado «assimétrico». Estamos, globalmente, perante uma monstruosa e inédita ditadura, que nos escraviza os corpos e as mentes.

Caitlin Johnstone é uma jornalista australiana «ferozmente independente». Ela demonstra como, para além do controlo que os grandes partidos e seus «sponsors» possam ter sobre os mecanismos da votação, da escolha dos candidatos dentro dos partidos, ou da manipulação pelas doações chorudas que os capitalistas fazem com vista a favorecer determinados candidatos, para além de tudo isso, o fator decisivo é a média corporativa ao mando da oligarquia, que molda, ano após ano, decénio após decénio, a consciência do eleitor e a distorção da realidade que ele recebe como «informação», mas que é somente propaganda política disfarçada. Nestas circunstâncias, diz Johnstone, o eleitor vai votar de acordo com uma consciência alienada, não com a visão bem informada, objetiva da situação. Este fator, por si só, é mais potente que todas as outras corrupções juntas, mencionadas no início deste parágrafo.

Podemos dizer que nada disto é muito novo, apesar dos meios de difusão e receção da informação terem sofrido grandes transformações tecnológicas. Já Einstein, em 1949, alertava para a extrema gravidade do controlo dos media para os processos democráticos (ele tinha os EUA à frente dos olhos...).
No seu ensaio “Why Socialism?”, Einstein escreveu o seguinte para a National Review : 

“The result of these developments is an oligarchy of private capital the enormous power of which cannot be effectively checked even by a democratically organized political society. This is true since the members of legislative bodies are selected by political parties, largely financed or otherwise influenced by private capitalists who, for all practical purposes, separate the electorate from the legislature. The consequence is that the representatives of the people do not in fact sufficiently protect the interests of the underprivileged sections of the population. Moreover, under existing conditions, private capitalists inevitably control, directly or indirectly, the main sources of information (press, radio, education). It is thus extremely difficult, and indeed in most cases quite impossible, for the individual citizen to come to objective conclusions and to make intelligent use of his political rights."

Isto era verdade há 75 anos, quando Einstein o escreveu e permanece verdadeiro, hoje em dia.

terça-feira, 11 de junho de 2024

DEEPFAKE? O QUE É AFINAL?


 Sem dúvida, este grupo de jornalistas dá-nos exemplos convincentes de que já se utilizam tais instrumentos de «AI» que permitem simular os traços, a mímica, a voz e as intonações, de celebridades, incluindo as políticas. Uma pessoa «normal», com os seus afazeres e tarefas profissionais e familiares, não estará sempre prevenida e pode cair no engano.   Porém, a técnica de fabricar simulacros vai muito para além destas falsificações. O que caracteriza estas falsificações é a implausibilidade das posições tomadas, perante o historial dos personagens. 
Muito antes do presente, já o «vira-casacas» ordinário fazia a sua grande exibição, às esquinas das ruas políticas do mundo. São os próprios personagens que -de todos os tempos - se transformam em improvável versão de si próprios! Não é sempre um trabalho de «deepfake»! 
Vivemos numa época em que só ingénuos «acreditam» no que veem nos écrans (TV ou smartphone, ou outros aparelhos) sejam quais forem suas preferências políticas e ideológicas. 
O deepfake pode servir como um artifício para enganar os tolos, mas na realidade, não passa dum exercício para difamar personagens célebres, sejam elas políticas, mediáticas, artísticas, etc. 
O político, desde tempos imemoriais, é um «fake» de si próprio em muitos casos. É ele que «sinceramente» defende um ponto de vista, promete determinadas medidas, anuncia mudanças. Após ser eleito, «esquece» ou deforma suas próprias declarações da véspera, para acorrer às necessidades da política concreta, assegurando os seus doadores, os seus patrocinadores e os seus padrinhos... E esquecendo as grandes frases, as promessas eleitorais, que só são válidas até ao dia das eleições.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Vem aí o CIRCO ELEITORAL


A realidade do Mundo não se conforma com narrativas. Mas, as narrativas envolvem, na sua teia, as mentes embotadas que já não conseguem ler o real, que não distinguem os discursos, das realidades. Estão nesta condição muitas das gentes partidárias de esquerda ou de direita, sejam crentes em religiões ou ateias, pelo que a comunicação social de massas tem a sua tarefa facilitada: grande parte das suas almas cativas já não percebe nada. Elas são piores que criancinhas, pois estas últimas (teoricamente), podem ser ensinadas a ver a realidade.


O público adulto das ditas «democracias», tornou-se de tal maneira cobarde, que prefere não ver a realidade. Assim, não terá que agir, de uma ou outra forma, perante essa realidade. Creio que este é o maior bloqueio das sociedades contemporâneas. Seus cidadãos foram enredados em teias de falsidades, numa série de novelos cujos fios têm de ser pacientemente separados, um a um. Isto equivale a dizer que a quase totalidade dos súbditos modernos não será capaz de se desembaraçar sozinho das cadeias que os prendem.
Mas, esses súbditos não sabem. Pois as cadeias não são físicas, mas são mentais; é mais fácil para eles pretender que não existem. Assim, não terão o trabalho e a angústia de enfrentar a «gigantesca tarefa». Ou antes, a tarefa, que é afinal muito simples, em si mesma. Mas, isto tem de ser ocultado, senão os súbditos poderiam começar a libertar-se em massa da «matrix» em que estão enredados.
Entra aqui o medo: o medo paralisa o juízo crítico. Impede as pessoas de se interrogarem sobre as suas experiências. Torna as pessoas abúlicas, distraídas e passivas. Verifica-se como têm sido vãos os esforços para despertar estes pacientes do estado de hipnose cognitiva em que se encontram. Estes esforços são derrotados pelas estratégias de evitação e denegação, desenvolvidas pelos próprios. A chamada «cultura de cancelamento», afinal, reduz-se a isso. Uma autoritária negação de se exprimirem pontos de vista diferentes da norma, sob pretexto de que são «agressões», de que aumentam «o estresse» ou que vão contra o «politicamente correto». Note-se que este tipo de comportamento não tem nada que ver com direitos humanos básicos, nem liberdades fundamentais: porém, as pessoas estão tão alienadas, que esperam que os poderes as livrem do confronto penoso com outra narrativa, diferente e contraditória com aquela em que banham. Cúmulo da contradição, essas tais pessoas, que apelam ao controlo autoritário sobre os diversos canais de comunicação, clamam que estão a defender a democracia e a liberdade, os direitos civis, quando estão a realizar exatamente o contrário. Não creio que se possa esperar grande coisa de pessoas assim. Vão continuar no registo estritamente egoísta, míope, cheias de medo de serem vistas como saindo fora do rebanho. Nestes casos, apenas um choque emocional muito forte poderá fazer despertar tais indivíduos, fazê-los ver que estavam na ilusão. Mas, mesmo isso não é garantido pois, consoante a sua personalidade, o choque emocional poderá desencadear ainda maior inibição. Poderão, por exemplo, se auto- culpabilizar dos males que lhes acontecem, em vez de se libertarem das vendas que lhes tapam os olhos.
O plantar duma convicção, que pode ser absurda ou sem qualquer substância racional, é possível e corriqueiro na sociedade: Fizeram-se experiências de psicologia social, em que pessoas são persuadidas da veracidade duma teoria errada. Depois delas estarem convencidas, é-lhes demonstrado racionalmente que essa teoria estava errada. O descolar da convicção anterior de que a dita teoria era verdadeira, é muito mais lento neste grupo de pessoas, do que no grupo de controlo, ao qual não se lhes foi apresentada previamente como verdadeira, tal teoria. A estes, é-lhes exposta a teoria, mas conjuntamente com a explicação porque a mesma é falsa. Este grupo de controlo aceita muito naturalmente a falsidade da referida teoria. Porém, no grupo que ficou previamente persuadido da verdade da teoria, há indivíduos com dificuldade em estruturar o seu pensamento de outro modo, para aceitar que afinal a teoria era falsa. Isto não acontece porque as pessoas sejam «estúpidas» ou «teimosas». Esta situação ocorre com todos os tipos de pessoas, incluindo mentes brilhantes, cultas, com contacto com as ciências.
Portanto, é um mecanismo psicológico profundo, aproveitado pelos que querem moldar as nossas opiniões através dos «mass media» ao serviço dos poderosos. Eles sabem utilizar esta e outras propriedades curiosas da mente humana.
É possível que tal controlo exercido sobre o nosso espírito seja combatido e de forma eficaz. Mas isso implica haver consciência, além da noção clara e não ingénua, dos mecanismos que são aplicados. Há pessoas que conseguem evadir-se deste condicionamento mental abusivo, mas são poucas. A imensa maioria pulsa de acordo com as paixões primárias: A salvaguarda do ser físico, a satisfação das necessidades primárias em alimento, abrigo e segurança, essencialmente; ou ainda, necessidades afetivas e sociais como o amor, a estima, a proteção, o reconhecimento social. O ódio contra o inimigo, seja ele real ou não, entra revestido como salvaguarda do indivíduo. O inimigo é visto como aquele que põe em risco (de forma real ou fictícia) a satisfação das necessidades enunciadas acima.
A um certo nível, o medo é importante para a sobrevivência. Trata-se dum sentimento profundamente ancorado na nossa biologia. O indivíduo que não tem medo está muito mais exposto, do que aquele que - ocasionalmente - pode ter medo, mas que o consegue superar, para enfrentar o risco.
Todos os mecanismos psicológicos, na publicidade comercial, envolvem componentes profundos dos nossos desejos "animais": necessidade de afeto, de status, de prazer sexual, etc. Em geral, os mecanismos de comunicação na esfera política fazem intervir aqueles mesmos componentes atrás referidos, juntamente com o medo, que entra em combinação com os outros.
Na política, convencem-se os adeptos de que é preciso odiar intensamente o inimigo; sobretudo, é preciso convencê-los de que os sentimentos dos dirigentes espelham os dos militantes de base. Os mecanismos de identificação e reforço fazem-se através de objetos de ódio/medo comuns. Isto acontece perante uma imagem da realidade distorcida, falseada: Face a tal configuração psicológica, o que os dirigentes fazem, constantemente, é ativar e reforçar, nos seus seguidores, os sentimentos doentios de ódio, de vingança, de desprezo, de superioridade... A política, assim vista e praticada, não é mais do que uma forma larvar ou efetiva de guerra civil. É uma representação, também. É um teatro que os eleitores são supostos seguir, com os seus golpes, escândalos e revelações-surpresa. Nada de positivo pode sair da política-espetáculo: No melhor dos casos, trata-se de narrativas, juntamente com um rol de boas intenções, para apresentar aos cidadãos.
O discurso político é feito para adormecer o espírito crítico e estimular os desejos mais obscuros do eleitor: A projeção de suas frustrações e seu desejo de vingança simbólica, ou real, sobre o grupo de indivíduos percebidos como opositores, como obstáculos, como sabotadores, etc.
A única maneira de sairmos da «gruta», é percebermos que vivemos no seu interior; que as imagens com que nos entretêm, são projeções fantasmagóricas dos nossos medos; que este espetáculo nos é oferecido, para não despertarmos da letargia ou hipnose, mantendo-se assim o grupo restrito ao comando "da barca". É isso, no essencial, a política.
Não pode haver uma política de adultos feita para adultos, enquanto o povo se deixar tratar e levar, como se fosse uma criança. O povo tem o potencial para despertar e começar a auto- governar-se sem a casta de parasitas que nos quer domar através das suas demagogias, da política-espetáculo, das manipulações do aparelho de Estado, para obter o poder. É o poder, acima de tudo, que interessa aos sociopatas que nos governam. É este o fim último dos seus esforços: conquista e conservação no poder.
As eleições, que passam por ser o aspeto central da democracia, não são mais do que a ocasião dos bandos políticos desenrolarem seu estendal de demagogia para cativar os eleitores: Tudo é utilizado como pretexto para o show, menos as questões de real importância para os destinos do país! Ou, ainda, a valorização de pseudo- soluções para os problemas, como se tudo se resumisse a tais «soluções», sendo eles - os do bando X - os únicos capazes de as viabilizar.
Em qualquer dos casos, o circo eleitoral infantiliza o eleitor, promove a sua regressão ao estado de criança, a quem as várias propostas são apresentadas e ele só tem de «escolher». Mas, neste processo, o eleitor «é quem menos ordena»: é o pobre diabo enganado, desta triste comédia. Seus desejos e as promessas de os satisfazer são logo esquecidos, assim que se fecham as urnas. A partir deste momento, os políticos profissionais irão dar «uma lição de realismo» ao povo. É aqui que se vai revelando, aos poucos, o verdadeiro programa, aquele que os vencedores irão desenvolver no governo. Durante a campanha eleitoral foi mantido cuidadosamente fora do olhar do vulgo, pois possuía demasiados amargos de boca para o povo e muitas benesses para os privilegiados.


Manuel Banet

 Parede, Portugal, a 01de Março de 2024

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terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

A DEMOCRACIA PARLAMENTAR É UM LOGRO

 Praticamente todas as pessoas se conformam com este estado de coisas. Mas, quase todas, tecem severas críticas ao funcionamento do regime de partidos e aos efeitos desse regime sobre a «moral pública», ou seja, quase todos estão de acordo que a democracia parlamentar tem como corolário, a corrupção.

 Porém, eu vou mais longe que esta constatação banal de que existem políticos corruptos em todos os países onde haja democracia parlamentar: Eu nem sequer considero esta corrupção como inerente à natureza humana. Se assim fosse, teríamos de aceitar que não existe possibilidade nenhuma de haver democracia genuína, seja parlamentar ou outra. 

Não; eu assumo que existem determinadas formas de organização do poder político que convidam à corrupção; que são mesmo, estruturalmente, formas corruptas, em si mesmas, até quando seus protagonistas não tenham pessoalmente cometido atos de corrupção, ativa ou passiva. 

A democracia parlamentar assenta sobre o princípio da representação. Mas, este princípio é viciado, se não for complementado pelo princípio de responsabilidade. 

O que entendo por esta expressão? Responsabilidade, por aqueles que votam uma lei ou medida, das suas consequências; se votaram algo que vai contra o programa eleitoral, ou que contradiga as promessas feitas aos eleitores, estes deputados devem demitir-se ou ser demitidos, porque traíram a confiança dos eleitores. Para isso, tem de haver uma espécie de assembleias permanentes, onde os deputados venham prestar contas aos seus respectivos eleitores. 

A proximidade dos deputados aos seus eleitores respectivos não será fácil. Costuma-se objetar com o facto do poder legislativo ser de representação nacional. Note-se que existe a possibilidade de se fazer um sistema em patamares, em que o patamar mais na base - com um número de membros que coubesse numa grande sala pública - discutiria os assuntos em agenda. Dessa discussão, iria resultar uma orientação, que seria levada para a assembleia de grau intermédio, composta por mandatários escolhidos pela base. 

O desenvolvimento dos meios tecnológicos veio proporcionar que tal sistema se instalasse na sociedade, se tal fosse a vontade política da grande maioria. Hoje em dia, a tele- conversa, o voto eletrónico, etc. são meios de viabilizar, de remover os obstáculos a uma democracia descentralizada, direta: É perfeitamente possível, se as pessoas quiserem. Mas, nesta sociedade tecnologizada, também há grande inércia, indiferença e ignorância, que se conjugam para obstaculizar tal mudança. Não há dúvida de que tal é desejado e estimulado pelo sistema. 

De qualquer maneira, o que se verifica é o afastamento da pessoa comum em relação à política. Os chefões dos partidos, os funcionários e os ativistas partidários, adoram isso, pois só desejam que o cidadão comum «participe» com o voto. A fraude é muito clara; participar não é votar. Votar só pode ser assumido como participação ativa, se associado a um conjunto de reflexões e de ações políticas dos cidadãos. 

Num sistema de democracia direta, em que os cidadãos tenham voz nos assuntos que afetam suas vidas, as questões serão debatidas entre eles - de diversas maneiras - e, portanto, haverá uma participação natural e não forçada, num referendo, local, regional ou nacional, ou numa proposta de lei. 

Fosse a participação das pessoas efetiva, isso equivaleria a dizer que a ação dos deputados eleitos, ou de agentes políticos, assim como das instituições, estaria sempre sob escrutínio, que haveria conhecimento sobre quais as medidas votadas e estas seriam comparadas aos programas eleitorais respetivos. Não seria uma democracia perfeita; mas a componente de participação iria dar o controlo efetivo dos eleitos, pelos eleitores. 

Quando a democracia não é compreendida como uma efetiva participação dos cidadãos, incluindo na criação das leis, mesmo que este processo envolva várias etapas, acaba por se transformar numa competição entre as diversas «elites» pelo poder: Interiormente aos partidos e entre os diversos partidos. 

Pode-se imaginar todos os golpes baixos aplicáveis e aplicados, numa luta sem quartel, contra os próprios colegas de partido, já para não falar dos adversários. A demagogia torna-se a arma principal. O engano, a falsidade, estimulam os instintos mais baixos dos eleitores; são estes truques que mais «rendem», em termos eleitorais. O terreno político é propício às demagogias, ao ódio, à ganância, ao racismo, à vaidade. Quem tiver menos escrúpulos, mais indiferentismo moral, é quem triunfa, dentro deste sistema. Há um favorecimento dos sociopatas, dos psicopatas, para ascenderem na hierarquia dos partidos e dos cargos públicos.

Nem sequer abordarei aqui as problemáticas da educação e da informação, que deveriam ser não enviesadas, não controladas por monopólios. Toda a média de massas está ao serviço dos interesses capitalistas e especializada em fazer lavagens ao cérebro do público. No seu conjunto, existem muitos elementos que fazem com que este tipo de «democracia» parlamentar seja uma farsa.

De qualquer maneira, não conheço nenhum exemplo na História em que uma classe, ou grupo poderoso, esteja no poder e conforme-se com ser retirada do poder. As eleições são a possibilidade de alternância consentida pelo sistema, no seu interior, não existe alternativa senão de fora, senão derrubando as instituições caducas, viciadas, feitas para favorecer um restrito grupo. 

O problema, que não é equacionado devidamente pelos marxistas-leninistas, é que a instauração de um novo poder só se pode efetuar pela violência, sendo impossível graduar ou classificar essa violência, como legítima ou ilegítima, sendo essas tentativas classificatórias meras capas verbais para legitimar o poder ditatorial. 

Historicamente, os bolcheviques e até alguns anarquistas, seguiram a palavra de ordem de Lenine, de tomada do Palácio de Inverno, para descobrir, pouco depois, que - eles também - acabaram sendo triturados pela máquina de poder instaurada. 

Depois, os herdeiros da IIª Internacional (os partidos socialistas), sobretudo depois da IIª Guerra Mundial, foram os gestores do capitalismo (por ele instalados). Deve-se-lhes o chamado «Estado de Bem-Estar» ou «Estado Social». Os comunistas, com algum atraso, também se amarraram ao barco do parlamentarismo, sendo eles agora, outra versão, «mais à esquerda» da social-democracia. 

Neste momento, em Portugal, a deceção e a ausência de formação dos trabalhadores estão na origem da subida espetacular de intenções de voto num partido de extrema-direita. Tal como noutros países europeus, estes partidos têm sido apoiados discretamente pela burguesia, não porque ela se identifique com as suas fórmulas e programas, mas porque lhes permite fazer uma política muito direitista, com a ameaça implícita de que «se não formos nós, serão eles». 

O centro, em Portugal, é constituído por dois partidos, que têm nomes que em nada correspondem às suas políticas (partido «socialista» e partido «social-democrata»): Estão permitindo e até favorecendo o tal «monstro» da extrema-direita, assim como o fez François Mitterrand, ainda nos anos oitenta, ao permitir que o Front National de Jean-Marie Le Pen se fosse apresentar nas eleições. 

Enquanto a classe trabalhadora não gerar a sua própria democracia, com critérios próprios,  exercida através de assembleias (onde não haja capangas a comandar quem tem a palavra e indicando quais são os «bons» e os «maus»), ela será joguete de forças partidárias exteriores.  

Preconizo uma forma de sindicalismo e de cooperativismo entre os trabalhadores, em que eles possam realmente manter o controle das organizações em suas mãos. Que estas não se tornem «correias de transmissão» de partidos, como tem sido demasiado frequentemente o caso, em Portugal, nestes 50 anos depois do 25 de Abril. 

A democracia parlamentar é sempre feita de acordo com a vontade da classe dominante, que a «inventou» e manipulou, de forma a que ela servisse os seus interesses. A democracia proletária, no sentido amplo, é baseada na pertença a um grupo socioprofissional e à adesão a formas de participação igualitária, na deliberação e tomada de decisão, assim como no controlo, pela base, dos mandatários escolhidos.


quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O MUNDO VISTO ATRAVÉS DAS PAREDES DUM AQUÁRIO

 


Estamos num mundo dividido, mas não segundo as linhas ideológicas traçadas por Biden num discurso recente, entre «autocracias» e «democracias». Ele queria de facto que as pessoas identificassem «autocracias» com todos os governos que não se conformam com a «rules based order» ou seja, o que os EUA consideram como «ser-se bem comportado». Pelo contrário, seriam «democracias» todos os que alinham com o imperialismo americano, seja qual for o seu registo de violações dos direitos humanos mais básicos, a começar nos próprios EUA!

Mas, para mim, não existe diferença onde Biden quer colocar a grande divisão. Existem países com governos que se comportam razoavelmente dentro do que se convenciona ser a «democracia representativa» no outro lado da «nova cortina de ferro», enquanto -do lado de cá - há bastantes cujo governo e as práticas se podem claramente identificar como «autocráticos». A visão dicotómica é falsa, pois qualquer país pode virar de ser uma relativa «democracia», para uma autocracia, quando existe um reforço das tendências autoritárias. Estas tendências, digam o que disserem, existem mesmo nas chamadas democracias ocidentais e nós temos abundantes provas disso, com a crise do COVID e com a histeria instrumentalizada contra a Rússia, não só contra o governo, como contra as pessoas e a cultura russas. Temos aqui uma prova cabal de que muitos governos do ocidente, dito «democrático», se comportaram como autocráticos, em relação à sua própria população. Em relação ao exterior, têm assumido posturas agressivas, belicistas e imperialistas, ou auxiliares da potência imperial.

Perguntarão: E do outro lado? Não há atropelos aos direitos humanos, não há governos autocráticos? Os que assim argumentam, provavelmente não se estão a aperceber de que é uma falácia, ou seja, não é um verdadeiro argumento. Sobretudo, não anula quaisquer dos factos comprovados em relação aos regimes do que convencionamos chamar «Ocidente», que inclui a Austrália, o Japão e outros, e que deveríamos antes chamar «Alinhados com os EUA». 

Demonstração da falácia

Primeiro, existe uma barragem de propaganda tal, que aqui, nos nossos países não somos informados mas desinformados, intoxicados de propaganda contra os países e governos que não se conformam ao modelo americano, sobretudo a China, a Rússia, o Irão e outros. Como tal, é impossível distinguir, em muitos casos, a realidade da propaganda. A não ser que cada um de nós se transformasse em jornalista e fosse visitar esses países, fazendo inquéritos e avaliando o pulsar da vida dessas populações. Isso é impossível, claro. Mas, pessoas que são jornalistas profissionais, não estão nos diversos pontos do globo a fazer um trabalho sério. A sua objetividade - sem viés ideológico ou partidário - deveria ser inquestionável, sobretudo, onde existam governos «autocráticos». Mas eles, quase sempre, só enviam - pelos seus media respetivos - uma visão distorcida, onde os aspetos negativos são amplificados e os positivos minimizados, ou passados sob silêncio. 

Segundo, mesmo que a imagem desses regimes, por eles enviada, fosse rigorosa e objetiva (hipótese infelizmente só teórica), tal não seria argumento válido: Se um determinado indivíduo se portar muito mal, não é por isso que eu sou um «santo». O mesmo se passa com os governos, os regimes dos diversos países: Não é por um regime A perseguir cidadãos ou não respeitar direitos humanos dos mesmos, que o regime B, onde nos encontramos, tem legitimidade para fazer igual, até mesmo que num grau menor. A legitimidade das ações do Estado e do governo, do ponto de vista formal e jurídico, é o que caracteriza um Estado de Direito. Este existirá, de facto, se os governos respeitarem e fizerem respeitar as constituições respetivas, se não permitirem derivas, nem desrespeito pelos direitos dos cidadãos. 

Em terceiro lugar, faço notar que a democracia não é nem nunca foi, artigo de consumo que se possa exportar. Não foi nunca assim. Os exércitos da República Francesa triunfante não exportaram a «democracia» na ponta das suas baionetas. O mesmo se pode dizer com todos os governos coloniais, que supostamente iriam «civilizar» os povos, o que implicava ensiná-los a viver em «democracia», segundo a metrópole. Mais recentemente, a invasão do Afeganistão pelas tropas da NATO, chefiadas pelos EUA, não trouxe senão devastação, nenhum bem-estar ou progresso e, sobretudo, o regime que ficou após o fim de 20 anos de ocupação dos ocidentais, foi o governo Talibã, ou seja, da mesma natureza que eles tinham derrubado na «guerra-relâmpago» de 2001... O mesmo descalabro (1) se pode verificar com o resultado de guerras na ex-Jugoslávia, Líbia, Iraque, Síria, etc.  Note-se que isto não é um argumento formal, mas substancial.

Em quarto lugar, o argumento de que existe uma real «democracia», quando um regime tem eleições, é um sofisma. Pois estas podem muito bem ser falsificadas, pode haver restrições explícitas, ou não, a certos partidos concorrerem, ou não existirem liberdades de opinião e de imprensa, etc. E tudo isto, pode ser num grau maior ou menor, pois raramente as situações são classificáveis como «preto ou branco», «positivo ou negativo», «bom ou mau». A «democracia» nos EUA, entre outras vicissitudes, foi objeto de distorções eleitorais (2) muito graves. Por exemplo, em 2000 com a fraude que afastou Al Gore e permitiu a eleição de G. W. Bush ou com a fraude que permitiu afastar Trump, em 2020. Trata-se de fraude comprovada; Trump recebeu maior votação que qualquer outro presidente anterior, que se tenha submetido a sufrágio. Digo isto, não por simpatia por Al Gore, nem por Donald Trump: Mas, são comentadores políticos, dentro da sociedade americana, que o dizem.

A vontade do povo e a expressão desta, é que deveriam ser os fatores distinguindo a democracia, de todas as outras formas de governo. Por isso, sou convicto «abstencionista» nos assuntos internos dos outros povos. Eles são compostos por pessoas adultas, tão capazes como eu de raciocinar: Saberão bem o que é melhor para seu país.

As «intervenções solidárias», que significam apoiar grupos dissidentes em determinados países, são formas de ingerência. Note-se que estas ingerências não são realizadas por idealismo, mas para derrubar ou, no mínimo, colocar entraves aos governos dos países em causa. Ora, assim como as sanções, este tipo de intervencionismo funciona, na prática, como ponta-de-lança das ambições imperiais.

Não há dúvida de que a propaganda também é dirigida aos cidadãos do «império ocidental». Especialistas em informação encarregam-se de moldar a opinião pública dos próprios países, usando toda a panóplia, desde a difamação, a falsa informação (fake news), a repetição de «clichés» (por exemplo: «Putin é isto ou aquilo...»), até a uma tendenciosa seleção de notícias, onde nada do que contradiga a narrativa fabricada, é deixado filtrar.

Se os peixes de aquário falassem, eles diriam que vivem em plena liberdade e que seu universo os satisfaz plenamente.

Os cidadãos do «ocidente», que estão satisfeitos e consideram que seus governos estão do lado do «bem», da «justiça», da «democracia», etc. são como os peixes de aquário, acima referidos. Quanto a estes últimos, serão espécimes das nossas águas ou de ambientes exóticos. E quanto aos primeiros, serão como robots ou zombies, não genuínos cidadãos.

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(1) Veja o vídeo seguinte sobre as guerras secretas do império: U.S. Secret Wars EXPOSED  
(2) Gonzalo Lira comenta AQUI as eleições para o Congresso. O problema com as fraudes, é que perante denúncia, as consequências legais apenas serão extraídas se o sistema não estiver corrompido.