Portugal foi um dos membros fundadores da Organização do Atlântico Norte em 1949, designada por OTAN (ou NATO em inglês). Porém, os outros membros fundadores declaravam-se pela democracia. Mas aceitaram um regime que apoiou e sustentou o nazismo (e regimes a ele associados, quer na Europa, quer no Japão) desde a época da sua subida ao poder (1933), até praticamente ao fim deste regime (1944-45). Com efeito, quando a guerra deixou se apresentar favorável às potências do Eixo, com as derrotas na frente soviética, no Norte de África e na Itália do Sul, Salazar apressou-se a «reactivar» a velha aliança anglo-lusa, cedendo aos Britânicos a base dos Açores, nas Lages. Depois do fim da IIª Guerra Mundial, os EUA «herdaram» esta base nos Açores, mediante acordo com o governo português, que continua até agora. Por muito que digam, de que a base das Lages não é «de primeira linha» no dispositivo bélico americano, note-se que ela tem desempenhado um papel logístico fundamental em várias ocasiões, nas guerras do Médio-Oriente, em 1973 (Guerra israelo-árabe, do «Yom Kippur»), na guerra dos anos noventa no Iraque, no apoio à invasão do Afeganistão e na 2ª guerra contra o Iraque de 2003. No presente, a base das Lages nos Açores conserva uma importância fundamental: Estacionando os aviões-tanque que têm um papel crucial. Os aviões de combate (bombardeiros e caças) têm de ser reabastecidos em pleno voo, para realizar bombardeamentos ao Irão.
Como se pode verificar no link das missões em que participam militares portugueses, há um certo número de ações bélicas efetuadas sob cobertura da OTAN, na Europa e no Próximo Oridente, enquanto outros são considerados fora do raio de ação do âmbito da OTAN (Iraque, Afeganistão...países do Sahel, países da África Sub-Sahariana).
De uma forma ou de outra, as forças militares da OTAN têm prolongado o domínio pós-colonial, através do apoio a regimes dóceis aos seus interesses. Os contingentes da OTAN em África estão a defender os seus interesses estratégicos e a garantir o acesso a matérias-primas, desde o cobalto (na RDC), ao urânio (no Niger e noutros países).
No caso português, os contingentes que se encontram agora nos países ex-coloniais, não são de ocupação destes países, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé, mas apoiam tecnicamente a construção de infaestruturas. No passado, no entanto, as forças armadas portuguesas levaram a cabo uma guerra em várias frentes, contra os movimentos de libertação. No início dos anos sessenta, Salazar recusou peremptoriamente qualquer tipo de conversações com representantes dos referidos movimentos pela independência. Em resultado disso, Portugal sofreu uma severa derrota militar, além do isolamento diplomático.
Em 25 de Abril de 74, um grupo de oficiais, o «MFA», realizou um golpe que derrubou o governo do sucessor de Salazar, Marcelo Caetano. Em todo o período da guerra colonial de 1961-1974, Portugal teve acesso a armamento e munições provenientes da OTAN. Também nas Nações Unidas, os votos contrários a Portugal, foram sistematicamente anulados por vetos de países aliados na OTAN. Não se pode dizer que Portugal estivesse totalmente isolado, enquanto combateu os movimentos de libertação das colónias. Sem o apoio dos referidos países, teria sido impossível lutar em três frentes, distantes de milhares de quilómetros (Guiné-Bissau; Angola e Moçambique). Tanto em armamento e munições, como em financiamento do esforço de guerra, foram essenciais os países da OTAN, da América do Norte à Europa Ocidental.
A libertação de Portugal do regime fascista, em 1974, foi «consentida» pelo poder hegemónico dos EUA. Com efeito, os EUA estavam a atravessar um momento de debilidade no Vietname, que conduziu à sua derrota no ano seguinte. O regime recém-formado com militares de esquerda e conservadores, ou mesmo de direita, pôde negociar a não-intervenção das forças da OTAN, a troco de manter Portugal dentro desta Aliança políco-militar. O conteúdo manifesto dos «acordos do Sal» era sobre a independência de Cabo Verde e de S.Tomé e Príncipe, dois importantes e estratégicos arquipélagos atlânticos. Mas, foram também um importante passo para manter Portugal dentro da «órbita Atlântica».
Tirando um período curto de incerteza quanto ao poder político e militar, no Verão de 75, até ao «golpe e contra-golpe» de 25 de Novembro desse mesmo ano, a presença de Portugal na OTAN não esteve realmente posta em causa. Mesmo nessa altura, salvo na extrema-esquerda, a opinião maioritária nas forças políticas e militares era de que Portugal tinha de permanecer na OTAN, quisesse ou não. Com efeito, do ponto de vista estratégico, a esmagadora maioria das forças compreendia que - no curto prazo - abandonar a OTAN, equivalia a dar-lhe o pretexto para um golpe sangrento, semelhante ao que tinha ocorrido no Chile (em 1973) e noutros países. Poucos gostavam da ideia da permanência de Portugal: no longo prazo, considerava-se a hipótese de negociação para saída pacífica daquela Aliança.
A viragem de uma Aliança «formalmente» defensiva para ofensiva, deu-se com a guerra na Ex- Jugoslávia. Esta guerra foi motivada pelo desejo dos Aliados da OTAN e, em particular, da Alemanha recém-reunificada, em esmagar um regime que não obedecia ao dogma neoliberal. Inventaram um falso pretexto com o Kosovo que, aliás, continua a ser uma região problemática. As mortes e a destruição causadas, em Belgrado e noutros pontos da Sérvia, trazem a «marca de água» do imperialismo mais cru. Note-se que a Sérvia, não atacou nem ameaçou nenhum dos membros da OTAN. Portugal participou, através da decisão do presidente «socialista» Jorge Sampaio, tendo claramente violado a Constituição, a qual recusa guerras de agressão, procura a solução pacífica aos conflitos, defende os direitos e soberania dos povos...
As forças militaristas estão presentemente a dominar os corredores de Bruxelas, tanto os da OTAN, como os da Comissão Europeia. Esta conjuntura é particularmente perigosa, pois forças políticas nos governos mais fortes, consideram «legítimo» accionar meios de guerra à distância para desencadear uma guerra contra a Rússia. A sua política é muito irresponsável; está baseada na premissa completamente errada de que a Rússia vai encolher-se, vai ceder... Nada mais falso; a mentalidade russa não é de proferir ameaças em vão. A sua história diplomática e militar mostram que, quando um responsável governamental afirma algo, é porque tem o apoio para o dizer. Os dirigentes europeus da OTAN, mostram que esta não tem caráter «defensivo», mas ofensivo; que despreza as vidas humanas (mais de um milhão de mortes em combate, de ambos os lados), ao ponto de tudo fazer para que a guerra na Ucrânia se alargue e está convencida de que a Rússia irá ceder!
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«PORTUGAL PAÍS NEOCOLONIAL?» [Caderno Luta Social*]

