Há um Deus que está em ti; dá-lhe ouvidos; confia nele mas não te julgues «Deus». A tua consciência, o teu sentido do bem e do mal, não são seguros. Também a intuição pura te pode enganar. A tua alma anseia por Deus. Aprende a deixar-te guiar por Ele.

quinta-feira, 19 de março de 2026

O MAIOR SACRILÉGIO

 A característica principal das guerras que têm afligido o Planeta, desde o século XXI, é que estão relacionadas estreitamente com crenças religiosas. 

- Note-se a associação da retórica belicista dos dirigentes dos EUA com a ideologia de «Manifest Destiny», ou seja, da missão divina de que o povo dos EUA está incumbido, de ser o líder das nações e guiá-las para a Pax Americana, uma forma laicizada de «paraíso terreal». 

- Note-se também o elemento religioso da Jihad de povos islâmicos, sejam sunitas ou xiitas, de combater o «Grande Satã», que identificam com o Ocidente em geral (e os EUA, em particular), com a degradação moral, com a arrogância de ricos, etc. 

- O combate entre o Ocidente cristão (ou que se auto-intitula assim) e o ateísmo «diabólico» do comunismo foi outro dos grandes lemas das cruzadas anti-comunistas, durante a 2ª metade do século XX. 

O próprio comunismo (ou marxismo- leninismo) foi transformado em «religião sem Deus», uma ideologia pseudo-científica, como todas as ideologias.

 Podíamos continuar a descrever extensivamente a dimensão religiosa nos acontecimentos (nem todos com caráter bélico, aliás) que ocorreram neste último quarto de século. Quer para dar uma justificação falsa, ou devido à convicção verdadeira dum povo, o facto é que os Estados se têm apropriado de argumentos (pseudo-)teológicos. 

No plano estrictamente material, direi que a concorrência entre Estados supõe e é insuflada por concorrência entre grupos de interesses, principalmente económicos. Esta concorrência, perante a limitação drástica dos recursos disponíveis no planeta, assim como a extensão dos mercados a todas as regiões, faz com que se intensifique a concorrência entre grupos capitalistas oriundos de várias nações, «obrigando» a que se confrontem em guerras: pelo controlo das matérias-primas, pelo exclusivo ou privilegiado acesso aos mercados, pelo domínio sobre outras nações ou, mesmo, pela hegemonia mundial. Todas estas instâncias se verificam, senão em simultâneo, pelo menos numa combinação de várias motivações, nestes breves 26 anos do século presente. 

Mas, se nos debruçarmos um pouco mais atentamente, verificamos que as guerras - sejam elas de confronto total, sejam elas de âmbito confinado - têm um grau de destruição humano e ambiental muito superior às guerras que existiram desde a antiguidade até à 1ª Guerra Mundial, de 1914-18.  Poderíamos argumentar que, a partir   do século XIX, as potências e as oligarquias que as financiavam estavam em concorrência direta pelos recursos (tanto de matérias-primas, como humanos), capturados pelos países tendo maior número e extensão de colónias. 

- O continente africano era repartido sobretudo entre britânicos e franceses, com importantes extensões nas mãos de portugueses, belgas, alemães e espanhóis. O Oriente-Médio também estava talhado de modo semelhante, sobretudo entre britânicos e franceses. 

- O império russo estendia-se, sobretudo, intra-fronteiras, não era um império baseado em conquistas ultramarinas. As suas ambições no início do século XX, já eram semelhantes às que tem agora, ou seja, poder desenvolver o seu enorme potencial na Sibéria, no Ártico e noutras partes, que ainda têm imenso potencial por explorar. 

- A China estava subjugada, primeiro  pelos britânicos e depois por uma série de potências europeias e também pelos EUA e o Japão. O jugo neo-colonial era agravado pela guerra e invasão japonesa em 1931 e pela rivalidade entre facções na sociedade chinesa. Por fim, com ka derrota das tropas nacionalistas (apoiadas pelos EUA), deu-se proclamação da República Popular da China, sob direção do Partido comunista. A China era, em 1949, um país pauperizado, com uma situação de pobreza semelhante aos mais pobres do «Terceiro Mundo». O seu reerguer só teve início a partir da década de 80. Também a RPC, como a Rússia, tem internamente uma grande variedade de etnias, umas mais integradas, outras com maior resiliência à assimilação cultural. As comunidades que aceitam de bom grado a liderança do Partido Comunista, não vivem numa situação de opressão, que se verifica no Tibete e no Xinjiang.

- A confrontação através de «proxi» - ou seja - de aliados dum ou doutro bloco económico/ideológico, caracterizou a segunda metade do século XX, assim como a libertação de muitos países sob tutela colonial, muitas vezes pela luta armada. 

- As guerrilhas também foram amplamente utilizadas pelos países ocidentais, em particular pelos EUA, que armavam, treinavam e alimentavam a contra-revolução em países da América central (ex. Nicarágua, El Salvador...) e muitos outros países ex-coloniais (África e Ásia). Também exerceram uma constante subversão no interior dos países do Bloco Soviético, em particular, infiltrando agentes e alimentando grupos de dissidentes internos, ou no exílio. Pode dizer-se que este confronto resultou num enfraquecimento do controlo sobre vários países do Pacto de Varsóvia: Houve revoltas com repercussão importante na Hungria, na Checoslováquia, na Polónia e na Roménia. Por fim, a situação na Alemanha de Leste tornou-se insustentável para o governo e resultou na «Queda do Muro de Berlim». 

- No entanto, as forças que eram apoiadas por americanos e seus aliados, sofreram muitos revezes em lutas pós-coloniais em África, na Ásia e na América Latina. Por exemplo, a derrota do exército do regime de Apartheid (junto com forças angolanas de Savimbi) que foram paradas e destroçadas,  por volta da declaração de independência desta ex-colónia portuguesa. Outro exemplo: os Sandinistas na Nicarágua derrotaram os Contras, ativamente apoiados e enquadrados por militares dos EUA. Ou ainda, a derrota do exército iraquiano nos anos 80, no tempo de Saddam Hussein, apoiado pelos EUA e por  países europeus, contra o Irão recém triunfante da revolução que depôs o Xá e instaurou o regime xiita.  

- No século XXI, a guerra por meio de aliados e apoios das grandes potências, continuou («proxi wars») mas houve - a partir do 11 de Setembro de 2001 - o envolvimento direto do exército dos EUA e de contingentes da OTAN. 

 - Os países oprimidos que são esmagados pela força militar muito superior de uma grande potência, têm de construir uma narrativa que os justifique a não  depor as armas e continuar a combater. Estas narrativas sintetizam traços de identidade nacional e crenças religiosas. Por isso, é comum haver nelas elementos apocalípticos, o que confere maior tenacidade à sua resistência armada. 

- Igualmente, os países opressores, na guerra desumana que levam a cabo contra a população civil inimiga, vão produzir narrativas para «inocentar» as tropas perante os seus cidadãos,  das atrocidades: Estas - supostamente - são cometidas «somente» pelos inimigos. Não é raro haver uma componente racista e a utilização da religião para fins de propaganda, sobretudo, junto das suas tropas e da população civil. A dessensibilização da cidadania destes países agressores, vai amplificar o perigo ressentido e o medo imaginado, sobretudo.  

Segundo o Prof. Jiang, este confronto atual assume contornos escatológicos. Por outras palavras, trata-se de justificação pelos fins. Os combatentes e as populações civis são endoutrinadas de que esta guerra será a última, que  os horrores presentes «abrirão os Céus», seja para a vinda do Messias, seja para um Reino Divino, seja para outras visões sobrenaturais. 

Assim, constrangimentos que a guerra «somente militar» tinha explícitos (poupar as populações civis adversárias, não destruir recursos vitais para a subsistência da população, respeitar os prisioneiros de guerra, etc) vão ser «esquecidos», pelo fanatismo e os instintos de morte dos combatentes de ambos os lados. Se ambos se julgam «o Braço de Deus», concedem a si próprios o papel de «justiceiros»: Qualquer atrocidade que cometam, é vista pelos seus superiores hierárquicos com indiferença, senão mesmo como digna de louvor .

A religião de qualquer povo, de qualquer etnia, não está aqui em causa. O que está em causa, é o que chamo o «maior sacrilégio»: O de utilizar a mensagem fundamental de cada religião, de sábios e válidos ensinamentos, para produzir uma distorsão monstruosa. Assim, estão cometendo um sacrilégio, uma monstruosidade e uma farsa, contra os seus livros sagrados e contra a prática multi- milenar das religiões, de que se dizem adeptos. 

Todos os povos envolvidos em guerras tendem a cair nisso, mas quem os incita são os dirigentes políticos e religiosos e os chamados «líderes de opinião»: todos eles têm culpas agravadas, embora cada pessoa deva ter «freio moral» para não se deixar embarcar em ódios vesgos contra o «inimigo». Tanto mais que a informação que nós recebemos é um apanhado de propaganda, seja qual for o lado em que nos encontremos. Não podemos senão nos basear sobre os ensinamentos de elevado valor espiritual, que estão presentes em todas as religiões, só assim cumprimos o nosso dever; só assim mostramos respeito verdadeiro por Deus e pelas Escrituras Sagradas.

PROF JIANG: os próximos 30 dias, que mudarão tudo

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quarta-feira, 18 de março de 2026

PRIMAVERA [Obras de Manuel Banet]

 



 Nesta prisão que se estende até ao horizonte

Neste pesadelo que parece sem fim

Onde encontrarei eu a primavera

A Natureza que alguns obsecados matam


Em sonhos encontramos refúgio 

Quando a realidade dói demasiado

Nesta prisão nem o sonho subsiste

Ao espelho da fera enlouquecida


Gostava de vos dar algum alento

De vos encher o peito de coragem

Mas não posso; estou procurando

Das aves o canto, saber pra onde foi


Não tenho refúgio nos campos 

Ou nos bosques; pois afinal 

Atormenta saber-me

Dos humanos o igual


Os assassinos a sangue-frio

Na aparência são humanos

Agora são uns ratos loucos

De medo, raiva e vingança


A guerra é uma doença 

Contagiosa dos povos:

Mata primeiro por dentro

O humano, no homem 


 

 



 

segunda-feira, 16 de março de 2026

Bourrée de Bach para alaúde e ... grupo pop [Segundas-f. musicais nº53 ]

PAOLA HERMOSIN,  Bourrée da Suite n°1 BWV 996




 Este vídeo de Paola Hermosin desencadeou a minha vontade de revisitar certos ídolos da minha adolescência.  Como muitos outros adolescentes em 1969, descobri a banda britânica Jethro Tull, liderada pelo "mago" da flauta transversal, Ian Andersen. Sua técnica deste instrumento envolvia produzir sons de respiração ruidosa, tocar duas notas em simultâneo e um estilo de "performance" original ao vivo, ou na TV, em concertos dos Jethro Tull.

A versão dos Jethro Tull da "BOURRÉE", uma composição de juventude de Bach, era totalmente livre e sem pretensão de "fidelidade" à peça original. As vozes em contraponto à melodia principal (na flauta), estavam a cargo de uma segunda flauta e das guitarras. A exposição do tema era seguida por improvisações em estilo de jazz, um retomar sóbrio do tema inicial e - por fim - o «disparar» duma coda acrobática. Esta versão da célebre Bourrée é uma construção nova, sobre arquitetura pré-existente; não se pode considerar um plágio.
Naquela época, eu era um principiante em música  barroca: Estudava ao piano peças de Bach, de Haendel e doutros músicos desse período. Também  apreciava música pop e rock, pelo que me tornei fã dos Jethro Tull.
Nesses anos, era moda as bandas pop usarem peças clássicas e adaptá-las, integrando-as em suas composições. O resultado era de qualidade variável. No caso da adaptação dos Jethro Tull o resultado foi excelente. Além disso, tiveram o bom gosto de não repetir a fórmula com outras peças barrocas. 
As décadas dos anos 1960-1970 foram de procura e criatividade: As bandas procuravam construir a sua sonoridade própria, cada uma desenvolvendo um reportório diversificado, indo beber a várias tradições e estilos, de 'rythm & blues' à balada romântica; do folklore à música sinfónica...

Oiça a «Bourrée», inspirada em Bach:

                                        JETHRO TULL (1969)

                                  


domingo, 15 de março de 2026

Coronel Macgregor descreve a derrota americana no Irão





De uma forma serena, o Coronel informa-nos sobre os tremendos erros de avaliação que - segundo ele - foram induzidos pelo primeiro-ministro de Israel B. Netayahu, ao presidente Trump, levando os EUA a jogarem o seu poderio militar numa guerra em que o Irão, as suas forças armadas, a solidez do regime, as suas possibilidades estratégicas foram claramente subestimadas. O Irão apenas tem de manter a capacidade de causar danos fortes, ou seja, de disparar drones e mísseis, capazes de alcançar Israel e as instalações militares dos EUA nos países do Golfo. Por outras palavras, o Irão está a ganhar e não se vê como os EUA poderão conquistar o Estreito de Ormuz, senão com uma invasão terrestre. Esta, implicará - sem dúvida - um banho de sangue. O público americano está já maioritariamente contra esta guerra. Se as baixas do lado dos EUA subirem significativamente, a situação interna dos EUA vai, provavelmente, evoluir para muito pior.
Numa altura em que as reservas de mísseis dos EUA estão perigosamente baixas e com uma capacidade de produção muito mais baixa do que as necessidades, a possibilidade dos EUA conseguirem, no campo de batalha, demonstrar que não perderam a hegemonia, são remotas, para não dizer inexistentes.
O mundo inteiro vê isto e compreende que os EUA e as suas bases, já não são proteção nenhuma para ninguém, que a sua capacidade de projetar força militar em grande escala, por tempo prolongado, desapareceu. Finalmente, são os responsáveis americanos, que vendo a catástrofe aproximar-se, vieram - através de intermediários - pedir um cessar-fogo e negociações aos iranianos. Os iranianos negaram e puseram condições que - tanto os americanos, como os israelitas - não aceitam (por enquanto).
Entretanto, prevê-se a disrupção catastrófica do abastecimento de petróleo, globalmente. A subida do custo do barril para 300 dólares, é prevista por muitos analistas e causará profunda recessão ou depressão. É o que se espera quanto à economia mundial, se esta guerra se prolongar durante 6 meses ou mais. A media ocidental tem escondido o facto dos estados-maiores de grandes empresas e bancos já preverem este cenário e já terem modificado radicalmente os seus investimentos.
Trata-se de uma vitória do Irão, pois tem capacidade para continuar a inflingir pesadas perdas (humanas, em material e económicas) aos EUA e seus aliados. É uma derrota para os EUA, pois não atingiu os objetivos seguintes proclamados:
- a mudança de regime dos Aiatolas,
- a impossibilidade do Irão prosseguir o enriquecimento do urânio, 
- a perda da capacidade do Irão em atingir a frota dos EUA e os aliados (sobretudo Irael e monarquias do Golfo)
- Os EUA tomarem o controlo do petróleo iraniano.
Todos estes objetivos foram proclamados como justificações para a agressão que Israel e EUA efetuaram conjuntamente.


Não sei se, desta vez, aprenderam a lição: Os americanos já deviam tê-la aprendido, com o Vietname, a Somália, o Iraque, o Afeganistão... guerras que atingiram sobretudo populações civis, não deram nenhum dos resultados ambicionados e deixaram fragilizada a posição geoestratégica dos EUA.
Também deveriam já ter aprendido que os sionistas e o governo de Netanyahu, que empurraram os dirigentes americanos para fazer as guerras deles, sionistas, não são «amigos» dos EUA.