quinta-feira, 29 de outubro de 2026

PORTUGAL E A OTAN [Crónica da IIIª Guerra Mundial nº74]


Portugal foi um dos membros fundadores da Organização do Atlântico Norte em 1949, designada por OTAN (ou NATO em inglês). Porém, os outros membros fundadores declaravam-se pela democracia. Mas aceitaram um regime que apoiou e sustentou o nazismo (e regimes a ele associados, quer na Europa, quer no Japão) desde a época da sua subida ao poder (1933), até praticamente ao fim deste regime (1944-45). Com efeito, quando a  guerra deixou se apresentar favorável às potências do Eixo, com as derrotas na frente soviética, no Norte de África e na Itália do Sul, Salazar apressou-se a «reactivar» a velha aliança anglo-lusa, cedendo aos Britânicos a base dos Açores, nas  Lages. Depois do fim da IIª Guerra Mundial, os EUA «herdaram» esta base nos Açores, mediante acordo com o governo português, que continua até agora. Por muito que digam, de que a base das Lages não é «de primeira linha» no dispositivo bélico americano, note-se que ela tem desempenhado um papel logístico fundamental em várias ocasiões, nas guerras do Médio-Oriente, em 1973 (Guerra israelo-árabe, do «Yom Kippur»), na guerra dos anos noventa no Iraque, no apoio à invasão do Afeganistão e na 2ª guerra contra o Iraque de 2003.  No presente, a base das Lages nos Açores conserva uma importância fundamental: Estacionando os aviões-tanque que têm um papel crucial. Os aviões de combate (bombardeiros e caças) têm de ser reabastecidos em pleno voo, para realizar bombardeamentos ao Irão. 

Como se pode verificar no link das missões em que participam militares portugueses, há um certo número de ações bélicas efetuadas sob  cobertura da OTAN, na Europa e no Próximo Oridente, enquanto outros são considerados fora do raio de ação do âmbito da OTAN (Iraque, Afeganistão...países do Sahel, países da África Sub-Sahariana).

De uma forma ou de outra, as forças militares da OTAN têm prolongado o domínio pós-colonial, através do apoio a regimes dóceis aos seus interesses. Os contingentes da OTAN em África estão a defender os seus interesses estratégicos e a garantir o acesso a matérias-primas, desde o cobalto (na RDC), ao urânio (no Niger e noutros países). 

No caso português, os contingentes que se encontram agora nos países ex-coloniais, não são de ocupação destes países, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé, mas apoiam  tecnicamente a construção de infaestruturas. No passado, no entanto, as forças armadas portuguesas levaram a cabo uma guerra em várias frentes, contra os movimentos de libertação. No início dos anos sessenta, Salazar recusou peremptoriamente qualquer tipo de conversações com representantes dos referidos movimentos pela independência. Em resultado disso, Portugal sofreu uma severa derrota militar, além do isolamento diplomático. 

Em 25 de Abril de 74, um grupo de oficiais, o «MFA», realizou um golpe que derrubou o governo do sucessor de Salazar, Marcelo Caetano. Em todo o período da guerra colonial de 1961-1974,  Portugal teve acesso a armamento e munições provenientes da OTAN. Também nas Nações Unidas, os votos contrários a Portugal, foram sistematicamente anulados por vetos de países aliados na OTAN. Não se pode dizer que Portugal estivesse totalmente isolado, enquanto combateu os movimentos de libertação das colónias. Sem o apoio dos referidos países, teria sido impossível lutar em três frentes, distantes de milhares de quilómetros (Guiné-Bissau; Angola  e Moçambique). Tanto em armamento e munições, como em financiamento do esforço de guerra,  foram essenciais os países da OTAN, da América do Norte à Europa Ocidental.

 A libertação de Portugal do regime fascista, em 1974, foi «consentida» pelo poder hegemónico dos EUA. Com efeito, os EUA estavam a atravessar um momento de debilidade no Vietname, que conduziu à sua derrota no ano seguinte. O regime recém-formado com militares de esquerda e conservadores, ou mesmo de direita, pôde negociar a não-intervenção das forças da OTAN, a troco de manter Portugal dentro desta Aliança políco-militar. O conteúdo manifesto dos «acordos do Sal» era sobre a independência de Cabo Verde e de S.Tomé e Príncipe, dois importantes e estratégicos arquipélagos atlânticos. Mas, foram também um importante passo para manter Portugal dentro da «órbita Atlântica».

Tirando um período curto de incerteza quanto ao poder político e militar, no Verão de 75, até ao «golpe e contra-golpe» de 25 de Novembro desse mesmo ano, a presença de Portugal na OTAN não esteve realmente posta em causa. Mesmo nessa altura, salvo na extrema-esquerda, a opinião maioritária nas forças políticas e militares era de que Portugal tinha de permanecer na OTAN, quisesse ou não. Com efeito, do ponto de vista estratégico, a esmagadora maioria das forças compreendia que - no curto prazo - abandonar a OTAN, equivalia a dar-lhe o pretexto para um golpe sangrento, semelhante ao que tinha ocorrido no Chile (em 1973) e noutros países.  Poucos gostavam da ideia da permanência de Portugal: no longo prazo, considerava-se a hipótese de negociação para saída pacífica daquela Aliança.

A viragem de uma Aliança «formalmente» defensiva para ofensiva, deu-se com a guerra na Ex- Jugoslávia. Esta guerra foi motivada pelo desejo dos Aliados da OTAN e, em particular, da Alemanha recém-reunificada, em esmagar um regime que não obedecia ao dogma neoliberal. Inventaram um falso pretexto com o Kosovo que, aliás, continua a ser uma região problemática. As mortes e a destruição causadas, em Belgrado e noutros pontos da Sérvia, trazem a «marca de água» do imperialismo mais cru. Note-se que a Sérvia, não atacou nem ameaçou nenhum dos membros da OTAN. Portugal participou, através da decisão do presidente «socialista» Jorge Sampaio, tendo claramente  violado a Constituição, a qual recusa guerras de agressão, procura a solução pacífica aos conflitos,  defende os direitos e soberania dos povos...

As forças militaristas estão presentemente a dominar os corredores de Bruxelas, tanto os da OTAN, como os da Comissão Europeia. Esta conjuntura é particularmente perigosa, pois forças políticas nos governos mais fortes, consideram «legítimo» accionar meios de guerra à distância para desencadear uma guerra contra a Rússia. A sua política é muito irresponsável; está baseada na premissa completamente errada de que a Rússia vai encolher-se, vai ceder... Nada mais falso; a mentalidade russa não é de proferir ameaças em vão. A sua história diplomática e militar mostram que, quando um responsável governamental afirma algo, é porque tem o apoio para o dizer. Os dirigentes europeus da OTAN, mostram que esta não tem caráter «defensivo», mas ofensivo; que despreza as vidas humanas (mais de um milhão de mortes em combate, de ambos os lados), ao ponto de tudo fazer para que a guerra na Ucrânia se alargue e está convencida de que a Rússia irá ceder!


RELACIONADO:

  «PORTUGAL PAÍS NEOCOLONIAL?» [Caderno Luta Social*]






quarta-feira, 28 de outubro de 2026

CHAEBOLS: A COREIA DO SUL DOMINADA PELOS MONOPÓLIOS






É difícil de imaginar uma sociedade afluente e distópica. Na Coreia do Sul, os Chaebols, o sistema instaurado com a protecção dos americanos imediatamente após a guerra da Coreia, pôs entre as mãos de meia-dúzia de famílias grande parte da riqueza do país. 
Não apenas isso, como estes grupos monopolistas familiares obtiveram inúmeros privilégios e favoritismos, que dificultam a própria produtividade capitalista, pois empresas de média dimensão com desempenho mais dinâmico, são eliminadas através de golpes baixos, pelos chaebols.
A classe trabalhadora dotou-se de sindicatos fortes e combativos, mas estes são sobretudo eficazes nas mega-empresas industriais. Em geral, os trabalhadores estão sujeitos a condições de trabalho de «semi-escravatura», com longos horários de trabalho e poucas ajudas sociais. 
Esta condição dos trabalhadores e o facto de haver forte crescimento do desemprego, estão obviamente na raíz da Coreia do Sul ser o país do Mundo com mais baixa taxa de natalidade. 
Os jovens não possuem - em geral - um rendimento de classe média para cobrir os elevados custos associados a ter filhos e a educá-los. Um casal com filhos terá de trabalhar muito duramente para conseguir pagar as despesas. Muitos casais renunciam a ter filhos por razões económicas. 

 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

A DESCIDA AOS INFERNOS DA «CIVILIZAÇÃO» OCIDENTAL



 À medida que as economias dos principais países capitalistas se afudam, aumenta o caos e a repressão selvagem e cega das «forças da ordem». A maior parte das pessoas está em denegação. 

Só irão acordar quando as cenas de violência vierem até suas portas; quando polícias encapuçados, armados de pistolas-metralhadoras, irromperem em suas casas a pretexto de procurarem elementos subversivos e aterrorizando vossa família. Mas, nessa altura já será demasiado tarde. 

O regime de terror já está sendo instalado nas ex-democracias liberais. Os fantoches governantes são os guardiães da «nova ordem». Estes, vendo que perderam completamente a confiança dos cidadãos, lançam a máquina repressiva, com a máxima violência contra os manifestantes, para se manterem no poder. Na realidade, eles são apenas executores às ordens da clique de bilionários, que controla as ex-democracias. 


    Polícias de choque,  em Minneapolis, EUA. 
   Os manifestantes estão do outro lado da cortina de gás lacrimogéneo https://consortiumnews.com/2026/10/26/occupied-territories-gaza-the-west-bank-marble-hill/

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

PROF. STEVE KEEN: OS PAÍSES DO EURO DEVIAM VOLTAR ÀS SUAS DIVISAS PRÓPRIAS


O Prof. Steve Keen critica vigorosamente as regras burocráticas e as políticas neo-liberais impostas à U.E. desde Maastricht.  

Atribui a responsabilidade da recente insurreição da juventude, à escolha do governo francês em mobilizar os recursos orçamentais no investimento em armas, com vista a uma guerra -planificada e desejada - com a Rússia. As carências de investimento nas escolas, desde o recrutamento de docentes até às deficiências nos equipamentos escolares, são cada vez mais agudas, em consequência de anos sucessivos de políticas neo-liberais. 

No orçamento mais recente, os gastos estatais com a educação sofreram um maior «apertão» de austeridade.


COMPLEMENTO DE INFORMAÇÃO:

O prof. Steve Keen participa numa mesa redonda com outros economistas, sobre o futuro do dólar.

domingo, 25 de outubro de 2026

O LIVRO DE ANN DAWSON [Segundas-f. musicais nº81]




Enquanto fonte manuscrita, este livro é considerado das mais importantes fontes na musicologia britânica, juntamente com o Fitzwilliam Virginal Book e o «My Lady Nevells Book». 

No livro de Ann Dawson (datado de 1716) está u artisticamente encadernado e as notas de música estão perfeitamente desenhadas. Provavelmente, ele serviu para Ann Dawson receber lições de seu mestre de música (do qual se ignora tudo).

Quanto ao seu conteúdo: 

Muitos concertos para orquestra de cordas com instrumentos solistas foram transcritos para o cravo. Os autores incluem Vivaldi e outros italianos, Domenico Alberti e Francesco Manferdini. 

Transcripções doutro tipo de obras. Foram transcritas:

- Abertura duma ópera de Bononcini, popular na época, 

- Sonatas de Arcangelo Corelli e de Johan Christoph Pepusch; este último estava ativo em Londres nessa altura. 

- De Jean Baptiste Lully, o «Choeur des Cybèles» da ópera Atys. 

- Quanto às toccatas para cravo, vários autores estão presentes: William  Babell,  Haendel e um autor alemão do Norte da Escola de D. Buxtehude. 

- John Weldon, com uma suite, é o único compositor britânico representado (ou, pelo menos, nomeado explicitamente).

- O livro transcreve, igualmentre, árias italianas para soprano ou para tenor, extraídas de óperas que tinham sido representadas em Londres, antes de 1716. 

As transcripções incluem a realização anotada do baixo contínuo*. Segundo o musicólogo que analisou o Livro de Ann Dawson, é verosímil que a recolha tivesse sido efetuada com o intuito de ensinar a realização do baixo contínuo.

Sobressaem,  pela qualidade e  cuidadosa adaptação ao cravo, as transcripções de concertos de António Vivaldi**. Reproduzi abaixo os três andamentos separados do concerto para violino e orquestra RV230, transcrito para cravo.  O intérprete  é Enrico Baiano.


I .  Allegro 


II . Andante 


III . Allegro 



Pelo mesmo intérprete, Enrico Baiano, as outras transcripções de obras de Vivaldi, incluídas no Livro de Ann Dawson:

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* A linha do baixo sustenta a melodia. Sobre esta linha, o cravista devia realizar o baixo contínuo, executando uma sucessão de acordes, para acompanhar a voz solista. Esta execução obedecia a regras estrictas. Os músicos profissionais podiam - no entanto - realizá-lo de improviso.


**Vários dos concertos de Vivaldi, acima citados, foram igualmente transcritos por J. S. Bach, durante a sua estadia em Cöthen, ao serviço do príncipe. Este pequeno Estado alemão adoptara o calvinismo, o que, em termos de música litúrgica, significava a maior austeridade: Eram proíbidas peças instrumentais no culto;  apenas peças vocais eram autorizadas, com textos extraídos da Bíblia, como os Salmos. Pelo contrário, na corte do Príncipe Leopoldo a música profana era muito favorecida. Ele possuía uma pequena orquestra, à qual se juntava frequentemente. Terá trazido da Holanda muitos livros de música impressa para a sua biblioteca, incluindo os concertos de Vivaldi. Estes concertos de Vivaldi e doutros compositores italianos (Alessandro e Benedetto Marcello, T. Albinoni, etc.) inspiraram Bach a transcrevê-los para cravo ou órgão. Bach, não só os transcreveu, como os interpretou, mostrando assim seu virtuosismo nos instrumentos de tecla. 


Prof. M. Hudson descreve o processo de vassalagem da Europa

 


Enquanto os «nossos» governantes se põem de joelhos perante o poderio hegemónico, não se importam de tomar medidas anti-sociais e canalizar o financiamento para os orçamentos de guerra. Estão também «resignados» a usar brutalidade policial contra manifestantes e a censura das vozes dissidentes. 
Agora, é o caso de Glenn Diesen: O professor universitário norueguês tem feito um excelente trabalho, ao entrevistar muitas personalidades sobre as políticas da UE, em relação à guerra na Ucrânia e  a todos os seus intervenientes. Perseguem-no por ele não se conformar com os pontos de vista do rebanho da OTAN. Como não podem dizer o motivo real da perseguição, inventam que o Prof. Diesen estaria em "conivência com a Rússia". O facto é que os perseguidores do prof. universitário têm mostrado claramente serem traidores à liberdade de expressão do pensamento, portanto aos valores europeus.

sábado, 24 de outubro de 2026

CHINA: ex-CEO de Evergrande condenado a prisão perpétua, por fraude


 O vídeo descreve o epílogo nada feliz da falência da 2ª maior construtora da China. Milhões de pessoas ficaram sem casa, que já tinham pago, pelo menos em parte. O Estado chinês tenta colmatar a catástrofe social dando indemnizações e lançando programas destinados a concluir os blocos de apartamentos inacabados. 

Mas o prejuízo nas pessoas e na economia é imenso. Basta pensar-se nas empresas fornecedoras de Evergrande, que são muitas. TERÃO CAPACIDADE PARA REORIENTAR A SUA PRODUÇÃO?? A resposta a esta pergunta decidirá se o desemprego em massa, que está a surgir agora, poderá ser reabsorvido ou não.

A análise que nos apresenta Bertrand, o empresário francês radicado há muitos anos na China, tem muitos aspectos dignos de nota:
 Por exemplo, a resposta das autoridades chinesas face a uma situação persistente de deflação, foi exatamente ao contrário do que tinham decidido estrategicamente, há cerca de dez anos. Nessa altura, o PCCh e seu líder Xi Jing Pin, tinham assumido que a China precisava de desenvolver o mercado interno, aumentando a capacidade aquisitiva da população, o que obviamente traria um acréscimo de bem-estar; mas também, ao virar a economia produtiva num grau maior para o mercado interno, estava-se a precaver a economia chinesa das quebras, crises, depressões no Ocidente e também da política deliberada de sanções contra a China.

Concretiza-se a tragédia, que eu tinha previsto, para muitos chineses de posses modestas, quer por terem 'investido' numa fraude, quer por ficarem desempregados, em resultado da implosão do sector imobiliário (efeito dominó).
Esta  situação é muito grave. Será muito difícil atenuar a intensa frustração de muita gente. Infelizmente, nestas circunstâncias, o reflexo é de aumentar a repressão, quando o governo se sente desautorizado, quando verifica que a população perdeu confiança na liderança do chefe e do partido.