Um painel de especialistas de Direitos Humanos da ONU acaba de publicar um relatório sobre as atividades da rede Epstein. Segundo eles terá atingido o patamar de «crimes contra a humanidade», na forma sistemática e massiva de crimes levados a cabo contra as mulheres e meninas. Veja: https://www.reuters.com/world/allegations-epstein-files-may-amount-crimes-against-humanity-un-experts-say-2026-02-17/

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ANÁLISE DE CLASSE DO CAPITALISMO



Da herança deixada pela obra de Marx e Engels, assim como seus seguidores mais ortodoxos, a análise das relações entre indivíduos e classes no interior de uma sociedade capitalista, é porventura, aquilo que conserva - se atualizado, obviamente - operacionalidade. Os grandes rasgos de «Materialismo Histórico» são apenas uma forma de ideologia, um cozinhado de hegelianismo, messianismo judeo-cristão, materialismo mecanicista e determinismo. Marx era um filósofo; ele e Engels tinham a «mania dos sistemas», como era comum na classe intelectual da sua época, tendo este traço sido repercutido e perpetuado, nas sucessivas gerações de marxistas.

Mas, algo mantém-se válido, nesta profusão de teoria construída com objetivo bem claro, de legitimar um programa (o Manifesto do Partido Comunista) e esse algo é a visão de que as classes estruturam a sociedade, não só no presente, como desde a existência de um Estado hierarquizado, há cerca de 10 mil anos. Não apenas as classes existem, como estão imbrincadas umas nas outras; não há exploradores sem explorados e vice-versa. O funcionamento da sociedade apenas pode ser plenamente compreendido, se se estudar a relação das classes existentes. A luta de classes não é um desejo, ou uma fantasia voluntarista, mas uma realidade objetiva, por mais que seja negada. Essa luta é resultante das forças em presença num dado momento. Todas as classes estão relacionadas e desempenham especificamente um papel em relação ao processo produtivo. Claro que existe (sempre existiu) uma fração da população que não participa diretamente desse processo produtivo; os desempregados (o «exército de reserva») e também todos os que não contribuem nem diretamente nem indiretamente para esse processo. De facto, o capitalismo acomoda-se bem de um e de outro, na medida em que a sua existência exerce uma pressão para a baixa dos salários, permitindo assim uma maior rentabilidade da exploração.

Porém, a análise marxista não consegue dar conta do nível de concentração do capital, ao ponto deste ter constituído uma «super-classe» capitalista, de bilionários, que desempenha um papel muito direto na orientação dos poderes políticos. Já não há um relativo retraimento do «mundo dos negócios», em relação ao mundo da política. Já não acontece que os muito ricos se «contentem» em acumular os dividendos (e a esbanjá-los, muitas vezes). Esta fase do capitalismo está ultrapassada há muito tempo. A intervenção direta do super-capitalismo na direção dos Estados, seu papel é decisivo em todo o processo político, através da alavanca do financiamento. Isto vai desde a escolha de candidatos, até à inspiração das leis e das políticas gerais, mesmo nos Estados mais poderosos.

Fala-se muito de «neo-feudalismo»: Mas, construir um termo para designar a situação presente usando o termo «feudalismo», gera ambiguidades. No passado, os senhores feudais tinham âmbitos de intervenção vastos no seu feudo, porém, estavam subordinados ao poder real, em última instância. Algumas vezes sacudiam esse jugo, mas acabavam por eleger um deles como novo monarca. Estavam, de algum modo, limitados pelo poder eclesiástico, ele próprio com características feudais, mas que se movia por interesses próprios.

O presente corresponde a uma internacionalização sem precedentes do capital, com impérios corporativos constituídos, com base em monopólios. Estes, são veículos de extração de «renda», no sentido de beneficiarem da situação de monopólio, para ditarem preços muito acima do que conseguiriam numa situação de concorrência. Nos casos em que ocorre um oligopólio, as grandes empresas que o constituem, encontram-se para anular a concorrência entre elas. O exemplo das grandes cadeias de supermercados e hípermercados, que exploram continentes inteiros (ou mesmo transcontinentais) é bem visível, pois combinam os bens, os serviços e os preços respectivos, de forma a que não entrem em concorrência direta, umas com as outras. Também a própria malha de supermercados demonstra isso, ao se implantarems novas unidades a certa distância de outras já presentes, num dado raio.

Estes arranjos, que não são novos, passam a ser muito mais complicados na era da Internet, com a profusão de toda a espécie de vendas «on line». Mas, muito rapidamente, no Ocidente, apareceu um gigante da distribuição, a «Amazon», que monopoliza a própria clientela, fazendo com que esta acabe por ser cliente cativa dos produtos e serviços on-line. Por outro lado, a empresa que não tem seus produtos na Amazon, fica praticamente excluída do mercado. O mesmo se passa com as plataformas gigantes da China e de outros países asiáticos.

Em todos os domínios da economia, o Estado, por mais poderoso que seja, fica relegado para o papel de «homem de vendas», estabelecendo acordos comerciais, acordos de fornecimento de armas ou de energia, etc., com outros Estados. Este seu papel de «caixeiro viajante» ao serviço dos grandes potentados da indústria e serviços, mostra a secundarização do papel das entidades estatais, sobretudo no âmbito internacional. Note-se que o Estado está - em simultâneo - cada vez mais presente e invasivo (com a ajuda das grandes empresas tecnológicas) no interior de cada país. O Estado-polícia, ao serviço dos grandes interesses corporativos, está a fusionar com estes mesmos interesses, em tudo o que lhes possa trazer vantagens.

Na economia, os  sectores produtivos já não estão sob comando do Estado desde os anos oitenta. O exercício de «traçar as grandes linhas do plano», já não subsiste em muitos casos, noutros ainda se pratica, mas sem qualquer efeito, apenas como mero exercício retórico.

A economia, sob o comando do capital monopolista, está a subordinar os poderes do Estado, desde o Governo, ao Poder Legislativo e mesmo ao Judicial. Os grandes multibilionários ditam os seus termos ao Estado, sendo este obrigado a promulgar sob forma de decreto ou de lei, com ou sem um arremedo de debate no parlamento. A inteira classe política sabe isso perfeitamente; continua a representar o "teatro do poder", pois isso lhes traz vantagens pessoais. O enriquecimento súbito de certo número de políticos não pode ser devido a eles terem extraordinárias capacidades, nos domínios dos negócios. Proliferam formas encobertas de suborno, incluindo a corrupção «legal». Mas, também continuam e floresccem formas de enriquecimento ilícito: As contas «off-shore» acumulam no total muitos biliões de dólares, protegidas por «Estados fictícios» com zero vigiliância sobre o que as sucursais dos bancos fazem no seu território. De vez em quando, alguns políticos acenam com a extinção de tais «paraísos fiscais», mas é apenas para se revestirem de um manto de virtude, para impressionar eleitores ingénuos. Este regime de encobrimento de capitais tem sido protegido, ao ponto de atividades claramente criminosas (tráfico de drogas, de seres humanos, e crimes financeiros diversos...) serem protegidas por arrastamento. Não são aplicadas regras de transparência, pois estas também atingiriam as contas de dinheiro desviado ao fisco , ou resultando de corrupção, ou de negócios «legais» mas encobertos.

Quando abordamos a estrutura deste capitalismo, não podemos passar por cima dos principais atores. Estes estão concentrados nos EUA e Reino Unido, com uma grande percentagem dos tais paraísos fiscais. Os principais beneficiários deste «escudo protetor» são quase somente magnates anglo-americanos. Claro que as «elites» políticas e económicas de outras nações se aproveitam das facilidades conceditas nestas jurisdições aos muito ricos. É mais um elo de corrupção e dependência em relação a este poder anglo-americano. Um dos pólos desta estrutura receptadora, está em Delawere, o Estado dos EUA de que Joe Biden foi governador. Mas os bancos e os locais geogáficos onde se efetuam os branqueamentos de capitais do crime, são muitos. As malhas são muito largas. A CIA e outras agências estão bem ao corrente desse sub-mundo de negócios mafiosos. Servem-se dessas redes como forma de financiar operações de subversão nos mais diversos recantos do Mundo. Outro pólo é a City de Londres, que controla os fluxos de capitais de boa parte do mundo ocidental. Associados à City, estão muitos territórios ligados à coroa britânica, que não são formalmente colónias; têm regimes jurídicos a preceito, para ninguém controlar o que se passa nas suas instituições bancárias.

Entendo que a «grande acumulação primitiva» que ocorreu quando espanhóis e portugueses se expandiram no século XVI, com as expropriações violentas e genocidas. Elas marcaram a fase inicial do capitalismo. Porém, a acumulação continuou pelos séculos, sob forma de colonialismo e de neo-colonialismo, até ao presente. As formas evoluíram, pois já não se trata agora de genocídio de ameríndios, nem de escravização de grande parte do continente africano. Mas os processos atuais de extração de renda não são numa escala menor: Considere-se as riquezas minerais que são extraídas de África, desde há séculos e até hoje. Estas atividades de mineração são de grande brutalidade, debelitam muito cedo os que aí trabalham, mantém-se uma população semi-escrava (incluíndo crianças), que aí trabalham. Estas condições de exploração são perfeitamente conhecidas das instituições internacionais, muitas destas atividades mineiras são realizadas por exploração direta de multinacionais ocidentais, outras são de empresas locais, mas fornecendo os mercados ocidentais. O público dos países que beneficiam destas formas de exploração é mantido «numa santa ignorância».
O processo de ocultação da exploração, com umas migalhas para as classes laboriosas dos países ricos, não é de agora. De facto, todo um setor das «ciências empresariais» dedica-se a encontrar formas - não apenas - de fornecer novos produtos e serviços, como de suscitar no público uma euforia consumista, com todo o desperdício que isso implica, mas com benefício para os agentes de tal desperdício. No capitalismo, o ambiente foi sempre tratado como um recurso explorável, como algo que é lícito o empresário maltratar como quiser, visto que ou é propriedade jurídica dele, ou de «ninguém», ou seja, são terras «baldias». Esta mentalidade foi-se mantendo e reforçando. Porém, a consciência da destruíção embiental que ela ocasiona, obrigou os especialistas de «Public Relations» a inventar o capitalismo «verde», «amigo do ambiente», cujos produtos e serviços podem ser consumidos, sem má-consciência, pelos compradores. Muito do chamado «capitalismo verde» tem estado a revelar-se uma forma ainda mais agressiva de depredação ambiental, pior que a tradicional. Mas, muitos dos efeitos nefastos para o ambiente e para as sociedades, passam-se a milhares de quilómetros dos locais de consumo. É caso para dizer: «longe da vista, longe do coração»

Pepe Escobar escreve a certidão de óbito do Ocidente atlantista


 

O CANADÁ NÃO NEGOCEIA SOB AMEAÇA


 O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, respondeu - virando as costas e saindo - às imposições de Trump. Oiça este condensado da incompetência e narcisismo de Trump.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TRANSGÉNICA FOBIA DO MUNDO [Obras de Manuel Banet]



 É tudo uma questão de «décor»

Está-se numa cama, muda-se para outra

Muda-se de corpo, como de camisa

A vida plena não é mais que vazio


Dentro de antros escuros trafica-se

de tudo, bebendo cocktails exóticos

A luz forte do dia mata as ilusões

mas, se quiseres... vai por aí


Não te encontrarás, mas isso 

nada significa; o momento,

o instante, o frisson, são ersatz

da vida: Tu sabes isso, afinal...


Muito para além do frémito,

da erecção e do cio, existe

em cada pessoa um além

que teima em vir à superfície


Nos momentos mais inoportunos

abrem-se as portas de par em par

como estranho corpo ao luar

desnudado pelo vento


Mas ninguém hoje se importa;

a verdadeira cultura está morta

só restam cenas de teatro, 

ou cabaret, captadas em filme


Não querem ver-se ao espelho

olham pelo orifício do smartphone

onde um camelo cabe no buraco,

por mais que digam que não


Já não sei se estou  vivo no meio

de zombies, ou se meu espectro

se passeia pelo mundo real,

anónimo. Cá vou registando


Colecciono espantos e  cruzes

ruídos e sonhos abstrusos

Organizo estes retalhos

e mostro-os em vitrinas


São a colecção efémera

de coincidências naturais

tão naturais como zumbidos

de insectos aos ouvidos


Deste naufrágio algo restará

como fragmento ou fóssil

pelo arqueólogo recolhido,

enquanto forma outra de vida











GEORGE GERSHWIN [Segundas-f. musicais nº49]

 



Poucos artistas têm o privilégio de agradar aos cultores de música erudita e simultaneamente aos do jazz e música popular. É o caso de George Gershwin, este russo (de origem judaica) emigrado, que se afirmou ao longo das décadas como incontornável compositor, quer de peças musicais da Broadway ou de peças clássicas, como «Rapsody in Blue» ou ainda a ópera famosíssima «Porgy and Bess»

Esta ópera apresenta a vida dos negros sujeitos à exploração, já não no tempo do esclavagismo, mas ainda com relentos dessa época. Foi calorosamente recebida, embora muitos, na classe alta (e nas outras), não vissem os negros como inteiramente humanos. Porém, a tragédia representada na ópera Porgy and Bess, ia muito além do cliché, as personagens tinham real espessura humana. A sociedade «educada» dos anos 20 e 30 nos EUA, tinha cultura (musical e outra) essencialmente europeia. A sua aderência a uma inovação musical e teatral como esta, tinha que ver com a fase ascendente da sociedade e cultura nos EUA. Mas, não foi senão com uma luta de decénios, que foram reconhecidos aos antigos escravos direitos iguais aos dos brancos, culminando  com o Movimento pelos Direitos Civis (no início dos anos 1960). Esta luta custou a vida a Martin Luther King e  a Malcolm X, entre muitas outras vítimas da vingança de brancos racistas. 


The Man I Love


Versão de piano
por Carlo Balzaretti:


                                
 Alguns grandes 
sucessos de Gershwin 


Lista das composições por George Gershwin


As composições de Gershwin para o Music Hall são - em grande maioria - notáveis pela musicalidade e naturalidade. Têm sido gravadas em disco por várias gerações de artistas.
Dou abaixo apenas três exemplos, de entre a minhas peças preferidas:

- «Embreacable You», escrita em 1928, mas celebrizada em 1930, com Ginger Rogers e Fred Astaire e depois por uma coorte de cantores, incluindo Billie Holiday. Aqui, a versão de Judy Garland (1940) .



-«They can't take that away from me»: Canção que se presta muito bem à forma de cantar característica de Sarah Vaughan.




«Let's call the whole thing off»: Com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, famosíssimos cantores. Têm um número elevado de canções de Gershwin em suas discografias. Saboreiem o parlando, entremeado com frases cantadas.




Existem muitos  outros artistas que cantaram e gravaram obras de George Gershwin. Esta curta nota não tem a ambição de cobrir a abundante discografia. 
Note-se que o fluxo de novas versões de temas famosos do jazz (os standards) continua: Gershwin continua a ser um dos compositores mais frequentemente interpretados, sem dúvida. 
Ele é um marco da música erudita e uma referência incontornável na música de jazz. 



Algumas notáveis interpretações neste blog:









sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O BITCOIN E AS OUTRAS CRIPTODIVISAS PODEM IR PARA ZERO

Considero a mais séria e inteligente explicação sobre o que é na realidade uma criptodivisa e sobre o que são os pilares nos quais se está a (re)construír o sistema monetário, sabendo-se que o reino do dólar está a chegar ao fim. 

Oiça e divulgue o vídeo abaixo. Muitas pessoas poderão perder tudo ou grande parte dos seus investimentos por não darem ouvidos a estas palavras duras, mas certeiras: