terça-feira, 23 de junho de 2026

MERITOCRACIA & CAPITALISMO [Prof. Jiang Xueqin]





Quando decidi escrever algumas palavras introdutórias da aula do prof. Jiang Xueqin, deparei-me com a impossibilidade de abarcar o fenómeno da meritocracia sem ir ao fundo das questões envolvendo as sociedades capitalistas.
Note-se que o fenómeno tem existido mais ou menos desde a segunda metade do século XVIII, na Europa e América do Norte até hoje, em sociedades que funcionavam segundo o paradigma do capitalismo. Embora existissem alguns grupos marginais, dentro ou fora dessas sociedades, que mantiveram o modo de produção das sociedades agrárias e feudais.
Mas, para situar a questão, vamos começar por analisar um caso particular, o da Prússia e de outras potências, no início do século XIX. Este reino foi acometido pela guerra provocada por Napoleão, triunfante de Austerlitz (1805). Na sequência da derrota Austro-Russa, decide entrar em guerra com a Prússia, para a submeter ao novo Império.
Não estamos perante o confronto da burguesia triunfante (Império Napoleónico) a lutar contra o reaccionarismo da Prússia, congelada no tempo (feudalismo tardio): Mas estamos na presença de dois modos de organizar os exércitos, moldados pela mentalidade prevalecente na sociedade e nos círculos do poder.
O poder absoluto de Napoleão Bonaparte era devido a muitos fatores, entre os quais, a esperança de uns jovens da burguesia, que no antigo regime (pré-revolução), não podiam aspirar ascender aos quadros médios e superiores do exército; estes lugares estavam reservados aos membros da aristocracia.
No seguimento do período conturbado da França revolucionária e da contra-revolução do Directório, Napoleão abre, definitivamente a hierarquia militar aos que tivessem mérito próprio. «Promoção pelo mérito» não excluía a presença de aristocratas, mas exigia que eles fossem os mais adequados à função.
Num regime de centralismo extremo, o Chefe máximo podia vetar alguém, independentemente do seu mérito demonstrado, caso não fosse suficientemente devotado à sua pessoa - Napoleão - e ao Império.
Desde o tempo do Império Romano, que a organização militar tinha um papel estruturante na sociedade civil. Na realidade, se um camponês não escravo queria ascender na sociedade romana, tinha um único caminho, na prática: O de servir como soldado numa legião romana. Passadas dezenas de anos, recebia um pedaço de terra de cultivo, normalmente obtido pela espoliação de inimigos de Roma. A posse de terra, nesse tempo e durante muito tempo ainda, foi a condição sine qua non para se ascender à classe de «elite», à aristocracia.
Ora, no Reino da Prússia, a organização e treino meticulosos dos diversos corpos do exército, vinda do tempo de Frederico II da Prússia, serviu para a Prússia derrotar militarente o Império Austríaco. No início do século XIX, o exército prussiano continuava a ter uma excelente organização, mas moldada no século XVIII: Concebida, treinada e caldeada para as guerras do século XVIII. Entretanto, tinha havido a Revolução Francesa e o exército prussiano, como os de outras potências europeias, viu-se completamente ultrapassado pelos novos modos de organização e táctica dos exércitos revolucionários franceses. Estes, conseguiram notáveis vitórias em várias frentes que impediram o avanço das hostes que se coligaram para invadir a república nascente.
Pode-se atribuir uma quota-parte de entusiasmo revolucionário e de desespero, para estes exércitos de «sans-culotte», que Bonaparte conhecia bem. Porém, o facto fundamental é que a própria situação obrigou a recorrer a métodos completamente novos e contraditórios com (todos) os manuais de instrução para oficiais do Século XVIII.
O exército prussiano, depois da derrota fulgurante, aprendeu (da maneira dura) a adequar sua estrutura e métodos aos tempos presentes. O mesmo aconteceu com as tropas do Império Russo, que sofreram derrotas em Auterlitz (como aliado dos austríacos) e - em aliança com os prussianos - em Eylau e Heilsberg (na Prússia oriental).
A visão estratégica tornou-se predominante, a lógica de combate em fileiras compactas desapareceu, foi aumentado o papel de infantaria ligeira-atiradores e regimentos de «Chasseurs» a cavalo, especializados no reconhecimento: Seu papel mais relevante era antes da batalha principal, como «sensores» das posições do inimigo.
Sobretudo, a hierarquia dos exércitos, a partir daí, não foi ocupada principalmente por indivíduos das fileiras da aristocracia. Isto pode parecer de menor importância, hoje. Porém, tanto nas fileiras napoleónicas, como nas dos seus inimigos, a recompensa por serviços prestados, especialmente em situação de combate, era a promoção de posto. Este sistema operava bem, pois estimulava os jovens filhos de burgueses a alistarem-se, sabendo que se tivessem ocasião de mostrar qualidades militares e morais, teriam assegurada a subida na hierarquia.
A origem da «meritocracia», vem a meu ver, da forma, instaurada pela revolução francesa, de preencher os quadros militares. Além das qualidades de coragem, presença de espírito e capacidades de liderança, os oficiais tinham de possuir um conhecimento técnico-científico em vários domínios. As Escolas de Guerra e as Escolas Politécnicas, formavam cadetes para o exército em geral e para especialidades como artilharia, engenharia militar, etc.
A generalização da «promoção por mérito», após Iª Guerra Mundial, resultou da convicção dos capitalistas de que tinham de dar a ilusão da sociedade não ser baseada na exploração e no domínio dos possuídores dos meios de produção, mas duma sociedade onde existiam oportunidades, onde ser-se talentoso, dedicado e inteligente, permitia ascender aos lugares de chefia. Muitos desses lugares continuavam a ser preenchidos pelos familiares e protegidos dos grandes capitalistas. Mas, conseguiram fazer passar a ilusão, a certo número de pessoas da pequena e média burguesia, que o que era determinante, era o seu mérito.
Se analisarmos um pouco abaixo da superfície esse «mérito», depressa vemos que não se trata dum mérito absoluto, mas relativo. A capacidade dos candidatos em preencherem os escalões superiores das empresas, não era só técnica, mas implicava também a devotada fidelidade aos patrões e ao sistema capitalista, em geral.
São numerosos os casos de pessoas com grandes qualidades intelectuais, que foram preteridas; elas não ofereciam a garantia de serem «colaboradores» subservientes e obedientes.
As hierarquias de acesso e depois, dentro das universidades, assim como a concorrência das universidades entre si, veio dar um semblante de «justiça», à selecção de candidatos a postos subordinados, mas de responsabilidade e exigindo saber técnico especializado.


Não é portanto de espantar o que nos conta o Prof. Jiang, no vídeo abaixo



 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

AGRESSIVIDADE da U.E. CONTRA OS PRODUTOS CHINESES [JEFFREY SACHS]


 

HÁ SEMPRE UM MOZART DESCONHECIDO [SEGUNDAS-F. MUSICAIS Nº63]


(Acima) Retrato a óleo de Mozart, ao piano, aos 14 anos



- Traduzi parte do comentário apenso ao vídeo acima:


«O QUINTETO EM MI BEMOL MAIOR PARA PIANO E INSTRUMENTOS DE SOPRO, K. 452, foi completado por Mozart em 1784 e estreado dois dias depois, no Teatro Imperial em Viena. Pouco tempo depois da estreia, escreveu ao seu pai que "Eu próprio considero que é a melhor coisa que escrevi em toda a minha vida". A distribuição das partes é a seguinte: piano, oboé, clarinete, trompa e fagote. 
Compõe-se de três andamentos:
1. Largo - Allegro moderato
2. Larghetto
3. Allegretto

A sua estrutura assemelha-se à da sonata típica. No primeiro andamento (Largo-Allegro), o Allegro está escrito na forma sonata, com os temas a serem passados dum instrumento para o outro, sendo o piano o introdutor dum tema e assumindo depois o papel de acompanhador, quando o oboé, a clarineta e o fagote realizam as suas respectivas variações sobre esse tema. O Larghetto é um andamento típico, análogo dos 2º andamentos doutras peças de Mozart, suave e gentil, que atrai a atenção. O Allegretto assume a forma de "sonata-rondó" do mesmo estilo que Mozart utilizou como andamento final em muitos dos concertos para piano que escreveu nesse período e contém uma cadenza - escrita por Mozart - próximo do fim.
Esta peça foi inspiração para o Quinteto em Mi bemol para Piano e Sopros, Op. 16 de Ludwig van Beethoven que escreveu a sua peça enquanto homenagem, em 1796. A composição de Beethoven utiliza os mesmos instrumentos que a de Mozart.»


A beleza divina desta peça, excelente exemplo de escrita musical do Classicismo, brilha em cada uma das suas partes. Mas, o excecional está na integração perfeita de cada instrumento no conjunto. Porém, esta formação instrumental é pouco usual na música dessa época. O diálogo do piano com os vários instrumentos de sopro surge com perfeita naturalidade.
Consigo imaginar Mozart ao piano, introduzindo os temas e dialogando com os instrumentos de sopro.
Uma peça bem humorada, interpretada com perfeição e equilíbrio pelos elementos do quinteto.

PS: Um manuscrito desconhecido, contendo autógrafos de Mozart,  foi descoberto recentemente na Bibliothèque Nationale de Paris. Um pequeno livro com partituras manuscritas.  O conteúdo estaria relacionado com as lições que Mozart deu, durante sua estadia em Paris, a uma jovem «estúpida e preguiçosa». Veja AQUI.



MAIS INFORMAÇÃO SOBRE MOZART











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sexta-feira, 19 de junho de 2026

JACQUES BAUD: A POLÍTICA EUROPEIA DE SANÇÕES CONTRA A RÚSSIA

 


O OCIDENTE QUER ESCALAR A GUERRA NOS BALCÃS - ALEX KRAINER (Crónica da IIIª Guerra Mundial nº64)

 



A visão de Alex Krainer do campo de batalha global é de que esta guerra  é diferente de todas as outras, pela sua extensão, afetando em simultâneo todos os recantos do globo e pela utilização de armas económicas, em paralelo com as armas de longo alcance (mísseis, drones...). A guerra das trincheiras na Ucrânia, seria uma exceção e não a regra. 

Alex Krainer é um especialista em matérias-primas, metais preciosos e combustíveis.

Chama a atenção sobre a tendência para o uso de múltiplas divisas: as partes dum negócio recorrem a diversas divisas, consoante os parceiros envolvidos na troca.

bolha da IA está a ser «aguentada» pelos bancos centrais; estes têm mais poder do que o público imagina. Eles não querem que esta bolha rebente. Porque assim, o público ficará mais tempo na ilusão de que os dirigentes políticos e económicos controlam a situação.

As economias de países  (Venezuela, Zimbabué...) que entraram em colapso, viram seus mercados bolsistas crescer até  máximos inéditos, ao mesmo tempo que a divisa respectiva perdia rapidamente todo o seu valor (hiperinflação). 

Este fenómeno não é particular àqueles países. Em condições análogas, pode voltar a acontecer. Poderá também ocorrer em países aparentemente mais sólidos, pois resulta das características sistémicas, «embutidas» no sistema económico e   financeiro.

No contexto da depressão que vem aí - período longo, onde as economias não conseguem produzir ao nível da sua capacidade normal; em que muitas empresas têm de fechar as portas - os bens tangíveis vão ser os mais importantes repositórios de valor: 

Além da energia, bens agrícolas, metais preciosos e  metais industriais, serão os mais valorizados.