terça-feira, 20 de outubro de 2026

PROTESTOS CONTRA AUSTERIDADE EM FRANÇA. (por Ana Vračar)

 


Transcrevo o artigo de Ana Vracar, que nos dá uma perspectiva sobre os acontecimentos, que reforça a ideia de provocação da própria atuação policial de extrema rudeza e indiscriminada, a receita exata para atiçar mais os manifestantes. Este comportamento dos corpos policiais é de tal maneira «desastrado» que vários elementos da polícia contestaram as directivas «dúbias» dos seus superiores. 

Não seria impossível  que o impopularíssimo presidente Macron faça uso dos seus poderes em decretar o estado de sítio, para anular as eleições, sob pretexto de clima de guerra civil. Na realidade, a «guerra civil» tem sido o que o próprio poder presidencial e a máquina que o apoia têm usado com frequência. É uma tática bem conhecida; os poderes autocráticos usam-na como pretexto para desencadear uma repressão feroz. 

Manuel Banet

A protester dressed as Jesus Christ and holding a mock gas station dispenser walks past a burning car at the Place de Republique in Paris on 17 October. Photo credit: Jack Taylor

Mass mobilisations against austerity policies and their effects are not winding down in France. On Saturday, 17 October, roughly 800,000 people joined protests across more than 1,700 assembly points, according to union figures—amplifying demands tabled over a month of student protests and demanding urgent action on the cost of living crisis.

In the aftermath of the protests, the government expanded local authorities’ powers to introduce curfews. This led to overnight movement limitation orders introduced in several cities, including central parts of Paris, Lille, Lyon, and Nice. Many of the curfews target young people in particular, reflecting institutional concern about the success of their recent mobilisations.

Over the past weeks, students launched a wave of school strikes and occupations, resisting the erosion of education services under successive neoliberal governments. Their movement drew support from trade unions and progressive political forces, who joined students on the streets to pressure the Lecornu administration to change course and prioritise public services and labour rights over armament.

Rallies and marches reinforced the student movement’s demands for accessible, equitable higher education, alongside trade unions’ calls for higher wages.

They also drew links to other historic moments of mobilisation, including the struggle for Algeria’s liberation. Many groups taking part echoed the anniversary of the 1961 demonstration that ended in the massacre of hundreds of people protesting for independence.

Police violence continues.

Teachers, families, and elected officials also joined, for a practical reason: to shield students from the law enforcement violence unleashed on their mobilisation.

Saturday’s protests were again met with police violence, with officers relying—unsuccessfully—on tear gas and water cannons to disperse crowds. Serious injuries and cases of severe police brutality were reported throughout the day.

After repeated repression, and with neither the government nor President Emmanuel Macron offering credible solutions to protesters’ grievances, protests turned into riots. While those close to social movements emphasised the events were triggered by years of cuts and unimpeded attacks on workers’ rights, the middle and upper classes were indignant.

Macron channelled their reaction in his post-protest speech. He declared those responsible for the looting must be punished, while promising more “dialogue” and offering a mild acknowledgement of people’s concerns over fuel, food, and other essentials.

“There are people out there who rightfully feel that the price of fuel is too high,” the president said—before shifting responsibility elsewhere. He said rising prices were the result “of what is happening in the Persian Gulf—a war that France was not part of.”

The speech landed poorly at home and abroad. The Iranian government, for one, has repeatedly called out Macron for applying double standards between protests in West Asia and France, emphasising that the French president had expressed support for US plans in Iran and that ongoing mobilisations were a logical outcome of the policies he endorsed.

Protesters hold the French flag and the Palestinian flag as they stand on the statue of the Place de la République in Paris as part of nationwide protests on 17 October. Photo credit: Jack Taylor

Students reject Macron’s response.

In France, protesters called out Macron for failing—yet again—to identify a concrete way out of the situation facing the country.

“Since the beginning of this movement, high school and university students have been met with nothing but contempt and police batons in response to their demands,” the university students’ union Union Étudiante wrote. “Yet we have put forward a clear set of demands, widely supported by everyone who took to the streets on 17 October.”

“He did not utter a single word about the high school and university students maimed in the crackdown,” the organisation added. “He said nothing at all about the real violence committed on Saturday,” referring to approximately 2,300 arrests made on that day alone—and dozens of young people who were seriously injured over the past weeks.

“It is not a matter of engaging in endless dialogue but of responding concretely to the needs of high school and university students: income, housing, food services, healthcare, study conditions, access to degrees, and an end to repression.”

Lecornu attempts to blame left for chaos.

Prime Minister Sébastien Lecornu’s reaction to the protests drew an equally negative response from progressive forces, especially after he suggested left movements were responsible for chaos and violence.

“What a pathetic politician,” wrote presidential candidate Jean-Luc Mélenchon. “He is responsible for the chaos—chaos he methodically prepared, whether through sheer incompetence or a deliberate ‘strategy of the worst’ aimed at conjuring up a ‘party of order’ that would make people forget his failure on the public finances.”


domingo, 18 de outubro de 2026

CONFIRMA-SE: A BOLHA DA «IA» JÁ COMEÇOU A REBENTAR









A indústria de IA atingiu um ponto de não-retorno. É como um esquema de Ponzi «ao contrário». No esquema de Ponzi clássico, a atração constante de novos investidores vai permitir que os juros altos se sustentem, enquanto as pessoas acreditarem no esquema. Mas, no caso da IA, não existem retornos, não há lucros gerados das somas colossais investidas. As pessoas acabaram por duvidar seriamente das promessas de grandes retornos quando, mesmo os iniciadores desta indústria são incapazes de obter lucros a partir de seus investimentos maciços. 
A ilusão ou hipnose da IA pode estar a desaparecer, mas algo vai ficar: Os monstruosos 'Data Centers", que servirão aos Estados para organizarem uma sociedade de vigilância total, com o novo sistema "panóptico".
 
Algo de muito assustador se perfila: A aliança íntima do poder de Estado, com os grandes magnates. Neste caso, o Estado estaria disponível para financiar e mesmo até  nacionalizar empresas de IA, para que estas se tornem um novo «braço armado tecnológico» ao serviço do Estado e do capital. 
Os oligarcas das tecnológicas serão indemnizados dos investimentos não lucrativos; os pequenos e médios investidores, que apostaram na miragem da IA, ficam com as perdas. E os contribuintes também, claro: A estes, o Estado vai buscar uma grossa fatia dos impostos, para cobrir as despesas com a IA, para financiar o dispositivo de vigilância generalizado ... ironia macabra!

Na media corporativa, ninguém vos esclarece sobre isto. As grandes cadeias de media estão ao serviço das grandes corporações e da «big tech». Estes gigantes da tecnologia aliaram-se aos governos mais poderosos, nomeadamente ao governo de Trump, para ajudar a instalar o «Technate».


 ... ou seja, o tecno-feudalismo(*): Obtêm assim o controlo do hemisfério Ocidental, monopolizando recursos, população e mercados. Tudo isto em exclusivo. 

Mas, para tal, têm de inflar a grande bolha da IA. Têm de hipertrofiar a imagem do poderio e do alcance da IA, para que as pessoas se convençam de que seria fútil tentar escapar, por qualquer meio.

Por outro lado, a IA ao receber uma enorme fatia dos capitais disponíveis para investimento, tem estado a provocar a agudização das contradições internas, o que está a intensificar a crise do capital. Os interesses colectivos - incluindo vários sectores capitalistas - são preteridos pelos interesses individuais dos bilionários de IA e tecnologias associadas. Concretamente, verifica-se que sectores indispensáveis ao funcionamento da sociedade capitalista  estão a ser afetados seriamente, porque deixaram de ter acesso - ou com acesso mais difícil, ou mais caro - a energia, água e financiamento.

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(*) O tecno-feudalismo não é mais, na essência,  que um capitalismo que atingiu a máxima concentração monopolística. Neste regime, não apenas deixa de existir concorrência entre empresas, como o Estado fica inteiramente submetido aos grandes grupos privados. Deixou de ser um sistema capitalista clássico,  onde as empresas se digladiam no mercado, em concorrência para captar a clientela. No tecno-feudalismo não há  mercado, não  há concorrência e não há escolha para os servos. 

É uma nova distopia, porém muito semelhante ao mais sombrio do período soviético. A transformação acima descrita, vai se aproximando de regimes totalitários passados, com a diferença de que agora, a casta do topo é exclusivamente formada por bilionários .


RELACIONADO:


https://youtu.be/Lf5oqGOCRCM?si=ZlB7DOFOIbGOmG_q


https://youtu.be/oGCb9gGBBrw?is=F5HQ9KZNrb42aAHw


https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2026/04/bolha-de-ia-prestes-rebentar.html


https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2025/01/a-revolucao-tecnologica-de-deepseek-o.html


ADAGIOS para solista e orquestra [Segundas-f. musicais nº80]

                               ADAGIOS DE CONCERTOS

                                         

 S. Rachmaninoff - Concerto para piano e orquestra n.2

https://music.youtube.com/watch?v=HfPE3cgYyco&si=6lPoyl0BKdJbVELe



J. Rodrigo - Concerto de Aranjuez 

https://www.youtube.com/watch?v=g9_m9Nh6qQE&t=3s



O Adagio é, com grande frequência, o movimento lento dum concerto para orquestra, com ou sem solista. Em geral, aparece como o segundo andamento, entre dois andamentos «1º e 3º Allegro», ou «1º Allegro e 3º Presto», numa codificação que se foi afirmando ao longo do século XVII e se tornou universal a partir do século seguinte. 

A expressividade destes andamentos é tanto maior quanto a lentidão do compasso convida a fazer ornamentos ou até pequenas glosas, enriquecendo e diversificando o discurso musical. A aparente simplicidade das melodias nestes movimentos, faculta a oportunidade para os solistas mostrarem o seu talento e expressividade de forma bastante natural, em diálogo com o tutti da orquestra. 

Como dizia, com razão, um meu professor, «é nos movimentos lentos que se pode apreciar melhor a qualidade do solista». Isto é compreensível, pois a forma como o solista desenvolve a ornamentação, pode valorizar a beleza da linha melódica... ou pode desfigurá-la com ornamentação inapropriada.

O público fica muitas vezes seduzido pelos movimentos lentos das  peças barrocas, talvez porque nestas predomina a componente melódica, a qual é fácil de distinguir e de seguir. Os nossos ouvidos e cérebros contemporâneos, estão fortemente condicionados a procurar o fio condutor duma peça musical, na sua linha melódica. A apreciação do contraponto e da harmonia são sofisticações que implicam um certo grau de instrução musical ou, pelo menos, de  ter ouvido bastante música polifónica e/ou grandes conjuntos orquestrais. 

Em geral, o conhecimento da música clássica treina a sensibilidade auditiva e permite compreender se tal interpretação é apropriada à música, ao seu estilo, à ideia subjacente do compositor, etc... Embora existam pessoas sem instrução musical, mas com sensibilidade inata. Podem assim «distinguir o trigo do joio». Mas, estas pessoas são raras. 

Em geral, todas as pessoas colhem benefícios da exposição à música de qualidade e por compositores de todas as épocas. Além disso, assistirem a concertos pode ser mais enriquecedor, do que apenas a audição de CDs. 

sábado, 17 de outubro de 2026

MITOLOGIAS XIV : «A FORÇA FAZ A RAZÃO»: FÁBULA DO LOBO E DO CORDEIRO

A FORÇA FAZ A RAZÃO (e não «a razão faz a força»)

[um exemplo claríssimo de realismo político e social]




Um lobo, vendo um cordeiro que bebia ao bordo de um ribeiro, inventou um argumento especioso, como pretexto para o devorar.

Assim, embora ele se encontrasse a montante e o cordeiro a juzante, acusou-o de estar a poluir a água e de o impedir de beber. O cordeiro respondeu-lhe que apenas bebeu uns golinhos e que, aliás, estando a juzante não podia afetar a água da corrente a montante. O lobo, viu que o seu argumento tinha falhado, mas voltou à carga: «No ano passado, insultaste o meu pai.» — «Eu nem sequer tinha nascido, nessa época» respondeu o cordeiro. Então o lobo sentenciou: «tens muita facilidade em te justificar, mas - apesar disso - não escapas de ser comido. »


 A fábula encontra-se em Esopo e foi adaptada por La Fontaine. Faz parte do pequeno grupo de fábulas célebres, que mantiveram bem viva a memória do poeta-libertino. Ele tinha uma vida pouco recomendável, em termos da moral convencional da época. Mas, isto é assunto para um artigo separado. Basta-nos constatar que a fábula do Lobo e do Cordeiro transcende a época, a cultura, a moda. 

Em cada fábula que La Fontaine escreveu em verso, atualizando o reportório da antiguidade para a época dele, o seu conteúdo é uma crítica disfarçada, mas acerba, de traços de carácter dos homens, sob aparência de animais que falam. 

O que nos seduz no presente, em relação a esta fábula específica, não é que ela ponha a nu a injustiça do poder: Isto tem sido uma constatação observável, tanto no tempo de Esopo, como de La Fontaine, como na atualidade. O que nos seduz, é como é tratada a inadequação da defesa do cordeiro: De que servem discursos racionais e ajuizados, quando o poderoso deseja «comer» o mais fraco? 

- Com efeito, muitas pessoas comuns pensam que se salvam, apelando à racionalidade dos que detêm o poder; mas quem detém o poder, só mudará de atitude, se perceber que poderá perdê-lo, caso continue com um determinado comportamento. Aliás, isso acontece com frequência maior do que se julga. Quantos monarcas e ditadores perderam o trono (e, por vezes, a própria vida) por comportamentos que suscitavam a ira de seus sujeitos, incluindo seus aliados mais próximos, transformando ex-cordeirinhos em animais muito menos tenros, capazes de coletivamente derrubar o odiado chefe de Estado?

A sociedade, em circunstâncias normais e infelizmente, submete-se sempre ao «argumento» do Lobo (a força faz a razão), contra o do Cordeiro?

- Só nas revoluções, as pessoas ousam enfrentar realmente o poder.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

MIL ANOS DE CRUZADAS, ATÉ HOJE



 No quadro de Neutrality Studies, Pascal Lottaz entrevista Manuel Ramos, antropólogo português trabalhando na Universidade de Lisboa. Manuel Ramos aponta as cruzadas - em particular a 3ª - como ponto de partida para um projeto de conquista pelos reinos cristãos, não apenas do Templo e do Túmulo em Jerusalém, como de domínio de toda a área mediterrânica e mesmo para além. Ele faz anteceder o «Cristianismo Sionista» ao «Sionismo Judaico», dum século ou dois séculos (século XVII para o sionismo cristão, século XIX para o sionismo judaico). 
Esta ambição de domínio, não apenas «justificou» as aventuras coloniais de países europeus, como foi reforçada pelos estereótipos de desigualdade racial e da suposta «missão» do homem europeu, como «cristianizador» e «civilizador» dos restantes povos. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

ESTÁS ENROLADO EM PALAVRAS [OPUS, VOL. IV; Obras de Manuel Banet]

 


Estás enrolado em palavras, sucessões de caracteres e sons

Que te enchem o espírito, em vez das coisas e seres, aquilo que são

As pessoas creem na palavra, no discurso, afinal iguais às crianças

Criancinhas que ouvem histórias para adormecer. 

Ao menos estas têm a desculpa de estar a aprender 

Precisam de se ligar emocionalmente antes de racionalmente

Mas, tu com que desfaçatez nos impões tuas eructações,

Gargarejos e discursos de verdades eternas que saem dos teus lábios?


Vives dentro do mito onde te enfiaram

Não descolas a maçã, da imagem da mesma

Nem a cartografia, do terreno, mas pretendes

Que teremos -nós - de aprender, como se fôssemos

Criancinhas?! Seria cómico, se não fosse criminoso

Pois levas à ruína as nações,  inúmeras gentes

Sacrificadas pela tua estupidez e orgulho. 

...

Porém, sim; as palavras são maravilhosas.

Elas servem para descrever fenómenos reais

Ou fantasias e sonhos... E depois? Será proíbido

Um poeta sonhar, brincar com as palavras?

Só os idiotas afirmam o sentido dum texto

Quando o texto não tem sentido nenhum!


Piores os que «psicanalizam» as obras,

Porque projetam seus medos e traumas

Nos escritos doutro, com sua própria motivação

E que não era, com certeza, a vossa!


- Este texto que vos sirva para emendar a relação ingénua com a escrita...