A oligarquia maltusiana que nos domina afinou o método de domínio sobre nós todos - O medo. Medo de catástrofes reais e imaginárias, medo do desconhecido, total separação da plebe em relação ao poder. Denegação e permanente discurso da ambiguidade. Constante despejo de narrativas de propaganda para ocultar a direcção para onde levam o rebanho.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O VALOR EFETIVO DO DINHEIRO: Exemplo do «NAPOLEÃO 20 FRANCS; OURO»




 Uma peça de 20 Francs ouro, da época de Napoleão 1º contém 5,805 gr, de ouro puro. O seu valor em euros, à cotação de hoje (dia 09/10/2026), seria equivalente em poder de compra, a 696,6 €. 

O mesmo tipo de cálculo pode ser efectuado com qualquer outra moeda de ouro ou de prata, cujo teor em metal precioso seja conhecido. 



No vídeo abaixo, verificamos que, embora as condições do povo trabalhador não fossem ideais no início do séc. XIX, teria condições de vida não muito piores que as de hoje em dia. 

Porque a realidade da inflação nestes últimos anos, em França e em toda a UE, tem sido muito superior àquilo que as estatísticas oficiais contabilizam. 

A perda cumulativa do poder aquisitivo de salários e pensões, está na origem do mal-estar e da revolta entre a juventude que hoje se manifesta. Nunca nos dizem, porém, na média corporativa, quais os factores subjacentes às manifestações: A causa imediata pode ser a incapacidade do sistema de ensino público e de saúde pública de satisfazerem os critérios de qualidade a que a população está habituada. Mas, esta degradação tem a ver com o sub-financiamento crónico por parte do Estado. 

Este  lento estrangular da classe trabalhadora, tirando-lhe as condições mínimas duma vida decente, tanto pela desvalorização (não contabilizada) dos salários e pensões, como da degradação dos serviços públicos mais diversos de que são utentes, é devido a uma continuada política neo-liberal. Concretamente, trata-se duma política congeminada para garantir os lucros das empresas e aos seus accionistas, sem contemplações em relação aos extractos pobres, ou mesmo médios, da população.

O sistema monetário, pilotado pelo BCE, com a concordância dos principais atores políticos da Europa do capital, fica posto a nu. Desfazem-se as ilusões das pessoas de boa fé, que têm acreditado na propaganda dos governos da UE e da Comissão de Bruxelas. Com efeito, o mal-estar, que se traduziu agora pela explosão que presenciamos em França, está presente em praticamente todos os países da UE. O facto de não se ter manifestado noutros países de forma tão enérgica como em França, não significa de modo nenhum que essas populações estejam satisfeitas ou conformadas. É claro que se trata duma política coordenada para todo o espaço político-económico da União Europeia. 

Quem tiver dúvidas de que um dos principais instrumentos de exploração é a manipulação do valor real (= poder aquisitivo) das divisas (= do dinheiro), pode constatar, fazendo os seus próprios cálculos, os seus rendimentos e os custos dos principais itens de despesa, ao longo da sua vida. 

O intervalo de duzentos e mais anos, que apresenta o vídeo, não nos pode dar a comparação com as situações de hoje, pois muitas das mercadorias hoje disponíveis não existiam, ou não faziam parte do cabaz de compras dos cidadãos de há 200 anos. 

Aconselho, portanto, os leitores a fazerem  as contas utilizando como intervalo de tempo os últimos 20 anos (ou 25 anos, desde a entrada em circulação do euro), contabilizando seus rendimentos dessa altura e confrontando com o custo de vida, nos países respectivos . 


  


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

NESTA GUERRA GLOBAL ... [OPUS, VOL. IV; OBRAS DE MANUEL BANET]



Nesta guerra global queria ouvir o canto da cotovia

Queria ouvir as vagas no bordo do navio

E cheirar flores naturais nos caminhos campestres


Mas não posso, ou melhor, não quero

Não paro de me interrogar, noite e dia

Mas o que saíu mal, com nossa civilização?


O humano é um monstro disfarçado, afinal?

Para quê fazerem filhos, neste ocaso

De tudo o que existiu de bom e generoso?


Serei o último a julgar os irmãos e irmãs

Que se debatem dia-a-dia para o sustento

Para se manterem à tona neste maremoto


Não serei eu a indicar-lhes o caminho

Minha bússula avariou-se; seria vão

Procurar rumo nesta escuridão


A única esperança que nos resta

É resguardar entre nós o humano

Não esquecer nunca o que somos  


A guerra global é feita pelos poderosos

Estes,  já o sabem há muito tempo

Os pobres precisam aprender


E quando os  povos o souberem, 

Saberão libertar-se e construir

A paz, que só depende de nós



quarta-feira, 7 de outubro de 2026

CLARO QUE O SIONISMO É UM RACISMO!

Excerto de artigo de Natan Bear. Original em:

https://open.substack.com/pub/donotpanic/p/of-course-zionism-is-racism-jesus?utm_source=share&utm_medium=android&r=9hbco


 Em primeiro lugar, acreditar no sionismo, que defende o direito dos judeus a um Estado judaico, não é uma crença "pragmática" que exista fora de alguma ideologia supremacista racial, como sugerem alguns. É uma ideologia supremacista racial. Não se trata simplesmente da crença de que os judeus podem mudar-se para um lugar seguro e integrar-se nele, respeitando os seus costumes, práticas e instituições governativas. É a crença no estabelecimento de um Estado judaico com costumes, práticas e instituições próprias. Fundamentalmente, porém, é a crença de que os judeus deveriam poder criar um novo etno-estado com novas instituições onde JÁ EXISTEM pessoas. E, obviamente, isto não pode ser feito sem acreditar que as pessoas existentes são inferiores e, portanto, que os judeus têm o direito divino de as substituir, às suas culturas, práticas e instituições. O racismo está intrínseco à própria lógica disto! Não se pode deslocar e promover a limpeza étnica de um povo já existente numa área  geográfica, de forma não racista! Isto seria verdade tanto se um Estado judaico fosse criado na Palestina, como na Mongólia Exterior. Não se pode, como O. parece acreditar, ter um sionismo, que não seja à custa de outro povo. A não ser que se pretenda estabelecer um Estado judaico na Lua, o sionismo, por necessidade e definição, exige limpeza étnica. Portanto, é patentemente racista. Os líderes do Partido Verde (no Reino Unido) deveriam estar a defender estes pontos e a exigir que os opositores expliquem como a limpeza étnica não é racismo, em vez de se submeterem pateticamente a uma indignação fabricada, criada para proteger um projecto colonial genocida.

J. aplica também uma teoria de "autodeterminação" ao sionismo, ligando-o mais directamente às lutas gerais pela independência empreendidas por outros grupos étnicos ou religiosos. Outros sionistas, nos últimos dias, usaram exactamente esta palavra para defender e justificar o sionismo e Israel, tal como o deputado do Partido Verde, Adrian Ramsey, que disse opor-se à moção por esta contrariar sua crença na autodeterminação judaica.

Consciente ou inconscientemente, o conceito de “autodeterminação”, no contexto de um Estado judaico, está a ser totalmente mal utilizado. Historicamente, o conceito de autodeterminação tem sido aplicado a grupos minoritários, que vivem sob o domínio violento e opressor de uma maioria e que insistem na sua independência, em relação a esse domínio. Fundamenta-se e é delimitado por imperativos morais claros relativos ao sofrimento dos oprimidos sob o jugo dos seus opressores. Os judeus nunca viveram sob o domínio opressor da maioria palestiniana! Viveram, em diferentes épocas, sob regimes opressivos e discriminatórios a milhares de quilómetros de distância, na Europa Ocidental e Oriental. E, obviamente, foram os europeus que cometeram assassinatos em massa contra judeus, não foram os palestinianos. Não existe o direito à “autodeterminação” em território alheio e contra pessoas que não lhes fizeram qualquer mal. Não é apenas ilógica, é uma noção obscena que justificaria qualquer grupo oprimido a deslocar-se para qualquer parte do mundo e a promover a limpeza étnica de quem quisesse, sob a justificação de que, algures, em algum momento, sofreram discriminação. A autodeterminação em terras alheias, é uma perversão moral de uma ideia fundamentalmente justa e digna.

O povo a quem a ideia de autodeterminação se aplica da forma mais óbvia e lógica são os palestinianos. São discriminados, abusados ​​e assassinados em massa com base na sua etnia, nas suas próprias terras, pelo domínio injusto da maioria de um grupo étnico diferente. As suas terras foram roubadas e as suas instituições destruídas e substituídas por invasores coloniais. Estes invasores coloniais cometeram genocídio contra eles.

É difícil saber se o debate em torno do sionismo é conduzido como uma farsa deliberada ou se é reproduzido como resultado de ignorância aprendida. Grande parte dele é certamente oportunista. Ou seja, as pessoas que conhecem as origens supremacistas (racistas) do sionismo fingem que se trata de um projecto nobre de autodeterminação, porque são sionistas que procuram manter o status quo. E as pessoas que desconhecem as origens supremacistas (racistas) do sionismo não querem saber, porque não desejam destruir a sua mundividência supremacista judaico-cêntrica. De qualquer modo, seja por ignorância deliberada ou aprendida, existem fortes motivações para sustentar ficções sobre o que o sionismo realmente é e representa.

Outra complicação significativa é que muitas pessoas acreditam, inocentemente, como resultado de uma lavagem cerebral cultural e educacional, que o sionismo surgiu completamente formado a partir do Holocausto. Que os judeus, procurando segurança após a Segunda Guerra Mundial, exigiram um Estado e a ONU prontamente o concedeu em 1948. Poucos sabem que o sionismo emergiu como uma ideologia etno-nacionalista, quase cem anos antes disso e foi concebido como uma ideologia explicitamente colonialista de povoamento.


Sionismo Primitivo


Um dos primeiros pensadores nacionalistas judeus, Moses Hess, publicou "Roma e Jerusalém" em 1862, obra na qual defendeu o colonato judaico na Palestina. Em 1896, o organizador e teórico sionista Theodor Herzl escreveu "O Estado Judeu", de que uma secção inteira se intitulava "A Ocupação da Terra". Herzl declarou que "os judeus conquistarão a Palestina", prevendo que "a infiltração judaica acabará certamente mal" devido à resistência palestiniana. Outro proeminente sionista judeu do século XIX, Ben-Yehuda, escreveu que "existem agora apenas quinhentos mil árabes, que não são muito fortes e dos quais tomaremos facilmente o país". O sionista do início do século XX, Vladimir Jabotinsky é frequentemente considerado um dos pais do sionismo. Chamou repetidamente ao colonato judaico na Palestina “colonização”, enquanto o primeiro-ministro de Israel, David Ben-Gurion, em 1937 descrevia a Palestina como “contendo um vasto potencial de colonização que os árabes não precisam, nem estão qualificados para explorar”. Disse que os judeus se estabeleceriam na Palestina “através do acordo e entendimento com os árabes, ou por outros meios”. O outro meio a que se referia, era a violenta limpeza étnica que ele próprio acabou por dirigir. O sionismo surgiu muito antes de 1945 e foi explicitamente descrito pelos judeus sionistas como um projecto de colonização. Não é preciso grande esforço para conhecer estes factos, pelo que é necessário concluir que são simplesmente ignorados, tanto por supostos aliados como por inimigos da Palestina, por conveniência dos interesses e sensibilidades sionistas.

E agora, 150 anos depois de o sionismo ter surgido como uma ideologia explicitamente colonizadora, o Estado judaico cometeu um genocídio e devemos acreditar que o genocídio pode, de alguma forma, surgir materialmente de um Estado não racista. Outro absurdo. Só o racismo produz genocídio. Só o racismo produz uma sociedade de apartheid que deseja realizar uma limpeza étnica de dois milhões de pessoas. As ruínas de Gaza são a descrição visual perfeita do que o sionismo, enquanto ideologia, sempre representou.

Imagem: Como tudo está mais claro do que nunca, o que começamos a ver é um esforço para reabilitar o sionismo. Começamos a assistir a um esforço para separar Israel da sua ideologia subjacente, de modo a reintegrá-lo discretamente na sociedade imperial polida. Os liberais detestam que os direitos palestinianos, o genocídio, o apartheid e o sionismo se tenham tornado temas eleitorais. Daí esta indignação com a moção dos Verdes, que será utilizada para tentar destruir o partido, tal como Corbyn e o seu movimento foram destruídos por uma falsa histeria anti-semita. Daí Mamdani e as suas traições e as reacções de raiva, mesmo entre os chamados esquerdistas, às pessoas que denunciam esta reabilitação. No outro dia, estava no centro disto quando Hasan Piker, uma personalidade multimilionária das redes sociais com a capacidade intelectual de uma esponja marinha, me atacou e tomou o partido de um sionista israelita por causa das minhas críticas a Mamdani. Na sua transmissão em direto, Piker, que há poucos meses era um crítico acérrimo dos sionistas, disse estar feliz por ter fãs nas Forças de Defesa de Israel (IDF). Piker tem mais de 5 milhões de seguidores nas suas plataformas de redes sociais e agora eles estão a ouvir que os soldados que cometeram genocídio, não só podem ser reabilitados, como também podem ser incluídos num movimento de esquerda.

Piker está a promover um liberalismo intransigente, sem princípios e falhado.

Está a promover o liberalismo social-democrata falhado que, em primeiro lugar, produziu um genocídio.

Ele está a promover um liberalismo genocida.

Intelectualmente, tanto Piker como os dirigentes do Partido Verde estão a demonstrar na prática, o que significa ter a mente aberta como uma ferida aberta. A confusão e o sangramento de posições contraditórias na vã busca de legitimidade num sistema democrático liberal.

Mais uma vez, vemos porque é que o progresso genuíno e a justiça são impossíveis dentro dos limites da democracia liberal.

Isto não significa que a moção dos Verdes tenha sido má. Longe disso. Ajuda a aguçar as contradições, expõe as fraudes performativas e cria uma tensão útil ou mesmo destrutiva, que abre novos caminhos para a mudança.

Mas, enquanto sistema para a mudança material, a democracia liberal, se não esmaga as melhores intenções e as vozes mais íntegras, subjuga-as e redirecciona-as para os seus próprios fins.

Na maioria das vezes, porém, como sistema concebido para sustentar o imperialismo capitalista, simplesmente promove sionistas, capitalistas e neofascistas ou fascistas de facto.

É por isso que só os futuros revolucionários permitirão que uma verdade evidente seja orgulhosamente declarada por todos: o sionismo é racismo.

E só em futuros revolucionários a Palestina será livre.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

HISTÓRIA GENÉTICA DE PORTUGAL


 

 

Ver: «Pátria Reencontrada» inédito de 1984 (Obras de Manuel Banet) (*)

(*) Esta recolha de poemas, escritos por ocasião dos dez anos da revolução do 25 de Abril de 1974, traduz a ideologia humanista, tolerante, abarcando as componentes da formação de Portugal, que incluíram os mouros e os judeus, sendo depois espalhadas pelos marinheiros e soldados que, nas caravelas, atravessaram oceanos e percorreram terras desconhecidas dos europeus, desde antes de 1500. 
Em paralelo, surgiu uma contradição fatal para o próprio devir da nação portuguesa. Alastrou o veneno racista, a «linhagem pura», a não «contaminação do sangue» e tudo isto misturado com intolerância religiosa e cultural. 
O 'grande mistério' de Portugal - muito para além das composições genéticas das suas gentes - é que, afinal, muitos aventureiros-soldados (como Camões) e marinheiros que sulcavam os mares, eram homens que o próprio poder real não queria. Muitos eram «cristãos-novos», convertidos superficialmente ao catolicismo, que - em segredo - continuavam fiéis à tradição do Judeísmo;  outros eram mouros convertidos (à força) ao catolicismo... Alguns eram cientistas, como Garcia  da Orta, cujo pensamento e prática científica eram modernas, embora teorizadas somente cerca de um século mais tarde, na Europa do Norte. A preocupação destas pessoas não residia na «pureza da raça», mas em como escapar das garras da Inquisição, que os queria «purificar» a ferro e fogo. 
Navegar era uma aventura arriscada, nesta época. O importante era a fidelidade ao capitão do navio e a solidariedade entre membros da equipagem. A superestrutura da «religião cristã» era apenas um signo identificador face a outras gentes, às culturas totalmente estranhas aos europeus. 
Foram portugueses os europeus que primeiro chegaram ao Japão e a muitas das ilhas que hoje são parte da Indonésia. 
Foram portugueses que se cruzaram com os povos indígenas, em todos os sítios onde estiveram, de modo mais ou menos permanente, do Extremo-Oriente ao Brasil, passando pelas costas de África. Estes cruzamentos traduzem-se pela presença - hoje - de genes de origem portuguesa nestas populações. 
Também em Portugal continental e insular de hoje, existe uma diversidade genética muito maior que nos povos da Europa Central e de Leste. 
Os povos que estiveram em contacto com os portugueses conservam memória cultural desse intercâmbio. Por exemplo, em vários países do Extremo-Oriente, a palavra «pan», ou pão, designa um bolo feito de cereais. Existem muitas outras peculiaridades de culinária, bem vivas em Portugal, como as especiarias utilizadas generosamente... a canela, a pimenta, o cravinho da Índia, o açafrão... 
Durante o salazarismo, o Estado Novo adotou uma posição "paternalista" em relação às etnias que viviam sob o seu jugo colonial, apenas em termos discursivos. As palavras bonitas ocultavam a exploração cruel e a discriminação racial extrema, nas colónias. 
Continua a haver nalguns meios, em Portugal, uma ideologia  de extrema-direita, de «superioridade» da "raça portuguesa", um conceito meramente ideológico, pois a diversidade genética do povo português é uma das suas características mais salientes. É de todo impossível definir uma «raça portuguesa». É somente uma ideologia que se perpetua pela ignorância, tanto da História, como da Biologia.
 Penso que as ideias retrógadas se combatem mais com factos do que com teorias; e ainda menos, com atos violentos.

domingo, 4 de outubro de 2026

O CASO DO ATAQUE FALHADO AO AVIÃO DA DUBAI AIRLINES

Com a devida vénia a Vanessa Beeley e a toda a equipa que realizou o filme...


FORBIDDEN STUDIOS PRESENTS: WHEN PILOT IS FIGHTING, PLUMBER IS FLYING

Veja no Substack a sensacional reconstituição da heróica luta no voo da Dubai Airlines: 

https://substack.com/@vanessabeeley/note/c-351715977?utm_source=notes-share-action&r=9hbco

One plane.

One sword.

One plumbing emergency.

The biggest Bollywood action psyop of the year has arrived.

 

Complemento com Kim Iversen:



sábado, 3 de outubro de 2026

MINHAS ESCOLHAS DE MÚSICA BARROCA [Segundas-f musicais n° 78 ]


Músicos no Palácio de Versailles


 Porque não fazer uma selecção de música barroca, que tem tanto significado para mim?!
- Embora eu não seja pessoa de gostos exclusivos, seja na música ou noutro domínio, posso dizer-vos que, se tivesse de me exilar numa ilha deserta, tendo de escolher um só estilo musical em discos para levar comigo, a escolha seria uma selecção de obras barrocas. 

A selecção que vos apresento agora tem mais a ver comigo e com os meus afectos, do que com uma avaliação da música pela sua importância, representatividade, etc. 
Mesmo assim,  estimo que a escolha feita pode abrir novos horizontes aos neófitos em música barroca. Em relação aos interpretes, não podia deixar de escolher os que acho serem os melhores, ou entre os melhores. 
A música deveria ser - ao mesmo tempo - sensual e espiritual, pois se for deficitária num dos dois atributos, não satisfará inteiramente.
Por sorte, vivo numa época em que se conhece e se pode apreciar o que existiu de melhor na música dos séculos anteriores. Nós somos, portanto, uns privilegiados, no que toca à possibilidade de conhecer e de usufruir das obras-primas musicais do passado. 
De seguida, apresento-vos 4 amostras musicais do sublime ...




1º) «Concerto Italiano» J.S. Bach

Nesta perfeita interpretação de Scott Ross ao cravo, é toda a alegria de viver do Mediterrâneo, toda a extroversão dos italianos, que transparecem... mas Bach nunca se deslocou a Itália, nem a outros países meridionais da Europa. Fez uma longa viagem (a pé) ao norte da Alemanha, para aprender com o muito respeitado Buxtehude. Sabemos muitos pormenores da vida de Bach e de suas outras deslocações; pode-se afirmar (com segurança) que ele nunca pôs os pés em Itália. Então, como é possível que esta peça exiba a criatividade melódica, a surpresa harmónica, a agilidade no discurso, típicas da música italiana?
- Estes traços estão bem presentes, podemos dizer que é realmente música italiana e do melhor quilate! Somente, foi um alemão que a compôs: Mas, não foi qualquer um. Ele estava destinado a ser um dos maiores músicos na sua época e na posteridade. Com efeito, ele continua a ser muito apreciado e estudado, passados cerca de 300 anos sobre a composição deste Concerto Italiano.
 




2º)«Cum Dederit» de Nisi Dominus por António Vivaldi

E por vos falar de música italiana, homenagem é devida a António Vivaldi, o «Padre Ruivo». Ele ensinava música às meninas órfãs do Ospetalle della Pietà, em Veneza. Quem ouvisse apenas esta peça e não soubesse rigorosamente mais nada de Vivaldi, diria que se trata dum compositor muito espiritual... No que estaria correto! 
Porém, como a alma tem muita complexidade e o talento imensos recursos, sua arte era também sensual (no sentido nobre). A obra «As Quatro Estações» e inúmeros outros exemplos, incluindo as óperas, vêm confirmar a sensualidade na arte de Vivaldi, para além de qualquer dúvida.




3º)«Gavotte com seis variações» por J.-P. Rameau

Rameau constrói "uma suite" dentro doutra suite: A peça «Gavotte com variações», está integrada na Suite em Lá. Esta, tem várias danças estilizadas, unidas pela mesma tonalidade. 
A minha escolha da interpretação de Natacha Kudritskaya ao piano, não é casual. Aprendi com os meus mestres (e por audição em concertos ou em discos), que era perfeitamente legítimo usar um instrumento diferente daquele usado na época do compositor. Há uma técnica e uma sensibilidade próprias na adaptação para o piano, de peças inicialmente concebidas para outros instrumentos de tecla (cravo, espineta,  clavicórdio...). 
Posso apreciar - ou não - a interpretação ao piano duma peça escrita para o cravo. Caso não aprecie, a «culpa» não é do instrumento... é do instrumentista que não teve o bom gosto e a técnica para adaptar a peça referida.




4º)«Eternal Source Of Light Divine», G. F. Haendel

Termino com a peça de Haendel, muito conhecida e utilizada ainda hoje, em cerimónias oficiais  (não é por isso que ela é melhor ou pior). Esta peça, simplesmente, encanta-me. 
Conta-se que a Rainha de Inglaterra, a quem Haendel dedicou esta cantata de aniversário, se mostrou indiferente, na ocasião da estreia. Porém, pouco tempo depois, enviou a Haendel uma generosa remuneração em moedas de ouro. 
Quando oiço esta cantata, porém, não fico a pensar nas circunstâncias exteriores da composição. 
Para mim, esta peça tem um apelo imediato de autenticidade, apesar de saber quanta arte e técnica existem nela. Ela tem uma «respiração» ampla, majestosa e serena. O diálogo entre a voz humana e a trompete, dá-lhe uma luminosidade inigualável, solene e profunda. 


Exemplos da genialidade de Haendel: