Quando digo, eu - não sou eu
Quando digo nós- também não somos
Se sou ou não sou, serei ou não,
Pouco importa:
Já a noite cai sobre o terreiro
Menos distingo, mais me afundo
Neste mar de absinto, neste mar que me mata
Das coisas belas existe a conjura
de me moerem o juízo
Eu sei; e que posso fazer, senão
Gritar à minha maneira?
Como um estranho que acorda
Num mundo incompreensível
Dentro de uma peça teatral
Para onde não foi chamado
e no entanto...
Se vê compelido a representar um papel
- Diga-me, meu caro senhor, que sabe fazer?
- Sou contador de histórias, com certificado
da associação nacional do mesmo nome.
- Muito bem, diz a voz;
Faz favor de se dirigir à direita, ao fundo do palco...
Mas como nada acontece e como sempre me vejo
Na situação absurda acima descrita,
O primeiro impulso é pegar no chapéu
E sair de cena, como quem muito bem percebe
Estar no lugar errado, no momento errado,
Sem que possa ajuizar do significado
Do que aconteceu;
Não vamos fazer uma teoria disso,
Como se o acaso tivesse uma lei;
Ou como se a minha pessoa fosse
Escrava do destino.
Afinal, tanto faz.
Porque, apesar do que congeminei
Caí na armadilha a mim próprio tecida
No enredo que eu sozinho fabriquei
Não de forma pensada, mas de modo
Deliberado, como a lagarta se envolve
No casulo...
Simples facto de entomologia
Espectral e obsessiva.
...
Uma voz de galináceo:
" Não tens qualquer outro,
Que não seja o teu ADN , a comandar!
E tão bem, que tens a impressão
De ser livre, de fazer porque queres
Mas quem manda é o teu ADN,
Nem teu cérebro, nem outro conjunto
de neurónios tem autonomia em face
Do codificado no genoma."
...
Outro galináceo:
"A espécie humana é formada por sub-espécies
Não se pode fazer rigorosa classificação
Apenas pela anatomia ou fisionomia
Ou por qualquer outro parâmetro físico.
Só observando o comportamento do espécime
Se pode arriscar uma tentativa de classificação"
....
Este discurso, dito de " ciência "
É a enésima regurgitação de galináceos
Poisados nos galinheiros-poltronas,
Conspurcando as cabeças jovens.
Perante o discurso galináceo, só restam
Duas opções: Ou dizes que sim
e continuas a falar com os teus botões;
Ou dizes que não
e expulsas a verborreia exatamente
como quando vais
Ao wc e descarregas o autoclismo.
Saibam, galináceos: O vosso cacarejar terá
O destino que lhe dá o autoclismo.
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Não irei adiantar mais, por hoje.
Acima, transcrevi o acontecido na cabeça,
Não pretendo que seja mais do que isso.