O intelectualismo pode descrever-se como comportamento que previlegia o intelecto, a parte racional do cérebro, como sendo o factor principal da nossa vida, da nossa atividade social. As pessoas são classificadas segundo parâmetros, escalas, que pretendem medir o grau de «inteligência» como sinónimo de «bom» intelecto.
Esta característica está tão difundida na sociedade, que a maior parte das pessoas nem se apercebe da sua existência. Mas, não se trata de algo natural, nem pouco mais ou menos. Trata-se de um fenómeno social e psicológico induzido, que atribui uma valoração aos indivíduos, em função de seus desempenhos teóricos, abstactos; confunde - aliás - a memória, a capacidade de reproduzir um determinado padrão, com a inteligência. Esta última, só faz sentido enquanto propriedade sistémica: por exemplo, a capacidade de adaptação a novas situações. Mas, em vez disto, a capacidade de regorgitar o que se decorou é - segundo certos «pedagogos» - sinal de inteligência quando, afinal, apenas se trata de capacidade de memorização.
Insiste-se na vertente quantitativa - na quandidade de dados armazenados- ou na velocidade de processamento dos mesmos, como se estas propriedades definissem um intelecto «superiormente inteligente». Apesar dos computadores terem, hoje, um desempenho muito melhor que os humanos nestas funções, no armazenar e reproduzir informação. Recentemente, os algorítmos da IA (Inteligência Artificial) têm-se mostrado muito mais eficazes, em comparação com nossos cérebros, para relacionar dados e apresentá-los de modo coerente. Mas, será que a inteligência se reduz a isso? Reduz-se a ter um desempenho mais rápido, um maior volume de armazenagem, etc? As pessoas mais convencionais - são a maioria - creem que sim, mas se examinarmos a questão com um pouco de aprofundamento, vemos que se trata de uma falácia. Na realidade, a construção de máquinas complexas, a descoberta das leis da Natureza, a criação de obras literárias, musicais, ou doutras artes, com características únicas, mostram-nos que nossos cérebros e as sociedades humanas são obviamente inventores e inovadores de destes produtos. O Teorema de Gödel, afirma que qualquer subsistema de um Todo, não consegue descrever esse mesmo Todo, nem sequer consegue ter uma visão de conjunto dele.
A máquina inventada, o teorema, a criação literária, etc., são produtos humanos; não apenas daquele indivíduo a quem se atribui a autoria da criação, como de toda a Humanidade, com todo o contexto civilizacional, que lhe confere as bases materiais...
O «pesadelo de ficção científica» de uns robots virem a alcançar um desenvolvimento tal, que ultrapasse as capacidades dos criadores e acabem por dominar a sociedade humana, pondo estes humanos ao serviço duma «civilização de robots», é um guião muito banal em obras de ficção científica. Porém, não tem a mínima verosimilhança. Desde já, porque a criatura (robot, algorítmo, etc) não poderá estar acima do seu criador, segundo o célebre Teorema de Gödel.
Estas ficções podem ser consideradas meras visões pessimistas da sociedade futura. Mas, o que elas nos indicam, pela facilidade de difusão do mito, é muito mais interessante, do ponto de vista da psicologia e sociologia:
Com efeito, a supressão sistemática dos impulsos criativos, a repressão das actividades artísticas não orientadas para a subsistência imediata, a criminalização ou a repressão de todas as ideias que entram em choque com as convenções, tem sido o modo concreto como o capitalismo tardio tem mantido os súbditos sob controlo.
O medo difuso, numa sociedade controladora de todos os impulsos, sentimentos e pensamentos, existe. Mas, é necessário compreender que se trata do reflexo, não da «natureza humana» em geral, mas da forma como, na nossa época de grande desenvolvimento material, tecnológico, são confrontados os humanos, oprimidos pela oligarquia detentora de máquinas e recursos.
Todas as obras de futurulogia, de antecipação, que apontam este estado de coisas como sendo o inevitável desfeche da sociedade tecnologizada, estão a criar as condições para a aceitação de tal sociedade, pelas massas. Isto talvez explique o sucesso das ficções distópicas envolvendo, de uma ou doutra forma, o domínio das máquinas sobre a humanidade.