quinta-feira, 5 de novembro de 2026

PAISAGEM INTERIOR [OBRAS DE MANUEL BANET. OPUS VOL. IV]

 




Escrevo, tecendo palavras

Em estranha teia que envolve

Os momentos duma vida

Tivesse eu achado o sentido

Habitaria numa ermida

De vento e areia

Ao pé da infância me quedaria

Sabendo muito da beira-mar

Olhando horizontes distantes

Poentes lânguidos, céus de fogo

E como criança fechando os olhos

Para ver o sonho desta vida



segunda-feira, 2 de novembro de 2026

QUER QUEIRAS, QUER NÃO...

 


...tens de os aturar

- Tens de aturar o que fazem com o dinheiro dos teus impostos. E se protestas, civilizadamente que seja, arriscas levar com cacetada. A ironia é que nós pagamos os dispositivos ditos de «segurança». Os polícias, os bastões, as granadas lacrimogéneas, os blindados... 

- Nada mais vantajoso que um «negócio» em que te apontam uma arma à cabeça, para te «convencer» a pagar. Isto chama-se extorção. No caso do governo, chama-se «cobrança de imposto». 

- Compreendo que muitos empresários sejam atraídos pela política: Primeiro, não terão que arcar com as consequências das suas más decisões. Segundo, terão a garantia de  ficarem ricos, como nunca sonharam, pelo «exercício» do seu cargo (não pelo ordenado correspondente...). Se tiverem de sair do poder, paciência; já tiveram oportunidade de juntar uma maquia confortável, em sucursais bancárias «off-shore». Ninguém investiga, pois estão todos metidos no mesmo esquema. 

- O que me maravilha não é que o Estado funcione... Sabemos como funciona mal, à custa de suborno e compadrio... O que impressiona é que as pessoas comuns, que não participam nestas formas de criminalidade, consideram que «não é nada com elas». 

- As eleições, não apenas em Portugal, como em toda a Europa, dita de democracia liberal, transformaram-se há muito no processo de manutenção duma classe de parasitas, ao mando dum pequeno grupo de oligarcas que os faz eleger, com mentiras e palhaçadas que nem eles, os parasitas, nem os eleitores acreditam. Depois, quando eleitos, tratam de se encher de todas as maneiras. 

- E o cidadão comum acha isso «normal»: O cidadão comum é roubado, a vários níveis, não apenas nos impostos, não apenas nas «luvas» que tem de pagar para conseguir fazer qualquer coisa, também nas contas públicas, no investimento que se destinaria a uma determinada obra e fica - por rotina - 3 ou 4 vezes mais cara que orçamentada. Já para não falar das obras prometidas, que nunca se concretizam, ou das obras que são uma agressão ao ambiente, ou meras obras ostentatórias... 

- Se a democracia liberal serve para alguma coisa, é para nutrir toda uma classe de parasitas. O corpo da nação parasitado é tanto mais fraco, quanto a parasitagem é efetuada impunemente, protegida pelas «forças da ordem», promovida pela «media canina», etc.  

- Para mim, os empresários não são nenhuns santos, não faço o seu elogio. Sei que os demagogos lhes estendem a mão, para receber o seu apoio nas campanhas eleitorais e depois vão fazer o que a classe empresarial espera deles. Mas, no caso das empresas privadas, existe a hipótese de falência, em que o empresário pode perder muito. 

- No caso do Estado, em qualquer sector, dos ministérios às autarquias, dos institutos, às administrações escolares, etc, reina a maior irresponsabilidade. Nada se cumpre. E se houver prejuízos graves, faz-se - quanto muito -  um inquérito, uma fantochada sem consequências para os reais responsáveis pelo crime. 

- As pessoas não fazem ideia do montante aproximado do que é roubado diretamente e indiretamente ao erário público; tudo o que é cobrado indevidamente aos cidadãos, os impostos mais elevados da Europa, toda a burocracia que se aproveita do ambiente de laxismo, para levar a cabo a corrupção, a cobardia dos que teriam a obrigação de vigiar o cumprimento da lei e de sancionar, em caso de fraude, desvio ou roubo. 

- Eu estimo que estas quantias, se fossem recuperadas e investidas inteligentemente a favor do povo português, dariam para construir uma nação muito avançada, com todas as infraestruras em bom estado, com boas condições de emprego para os jovens, com oferta estatal ou municipal de habitações em quantidade suficiente (e o fim do «turismo de habitação», uma forma de extrair riqueza sem qualquer contrapartida social); haveria infraestruturas de saúde com hospitais e clínicas do Estado, enquanto as clínicas privadas ficariam confinadas à classe que tem meios de pagar e não como agora: O Estado subsidia a medicina privada, através da comparticipação dos atos de saúde para qualquer cidadão, garantindo assim a viabilidade da medicina empresarial, virada para o lucro. 

- O que tem sido feito deste país é que obriga os jovens a partir para outras paragens, para terem um emprego compatível com os graus académicos e competências profissionais que adquiriram graças ao seu esforço, ao das suas famílias e do Estado português. Também aqui vão favorecer os países ricos, que recebem pessoas já formadas, com elevada competência, sem ter tido que suportar os custos das suas formações. Portugal oferece - literalmente - aos países ricos, o melhor de si: exporta os jovens talentosos!

- Superficialmente, as pessoas parece estarem alheadas, mas não estão: Fingem que não compreendem, para não se envolverem em situações prejudiciais para elas, para o seu emprego, para as suas relações, etc.  Ou seja, fazem-se de estúpidas, mas não o são. 

- Um grande problema, é que as pessoas têm receio de «dizer mal» do poder, ou seja exercer a crítica do poder, seja ele político ou económico. Um reflexo que vem dos 48 anos de ditadura fascista que oprimiu este país (1926-1974). Nesses longos anos, uma frase considerada «de oposição» ao poder, podia valer a quem a proferisse, a prisão, a tortura, ou ainda pior. 

- Há muito que fazer em Portugal, mas as ideologias dos séculos XIX e XX têm enchido a cabeça de muitas pessoas. Estas, pensam em termos completamente ultrapassados. Além disso, têm muito sectarismo e batem-se entre si, quando deviam juntar-se contra os males que assolam o país.  

- O que eu tenho proposto é que as pessoas que queiram transformar o status quo, pensem, estudem, avaliem as tácticas e estratégias dos movimentos de libertação. Não preconizo a luta armada ou estratégias violentas, mas uma estratégia não-violenta de não-colaboração com as «autoridades» e de solidariedade entre as pessoas exploradas, que são a imensa maioria.  

- A matriz autoritária das formações políticas existentes em Portugal, faz com que elas estejam focalizadas em tomar o poder de Estado, seja de «assalto», seja por «eleições». Não veem outra estratégia possível. Por isso também, elas são parte do problema. Trata-se de um fenómeno cultural profundo, com reflexos na economia, na governação, etc.

ELE DIZ-NOS AQUILO QUE ESTÁ A OCORRER TRANQUILAMENTE



A compreensão do sistema financeiro é - infelizmente - o que não se ensina na escola. Nem mesmo nas escolas superiores de economia, porque aí os estudantes são envolvidos num discurso de falsa cientificidade, para os fazer ver o mundo através da ideologia do neoliberalismo.

Mas, a questão não é académica, pois todxs temos que saber as bases do sistema e como estão a sofrer mudanças decisivas, para melhor sabermos como nos situar, como gerir as nossas finanças, como tomar as decisões que preservem nossas poupanças. 

Stanley Druckenmiller diz-nos muitas coisas que já sabemos; a sua narração é muito clara e pedagógica. Mas - além disso - diz-nos coisas que nós não sabíamos, a não ser que participemos nas esferas de decisão dos grandes bancos...

Ouvi atentamente, pois terão uma colheita de informação rigorosa, que poderão usar ajuizadamente: Que Vós sejais capazes de navegar nas águas agitadas da transição de paradigma.
 

domingo, 1 de novembro de 2026

DUAS CHACONNES IDENTIFICADAS COMO SENDO DE J. S. BACH [Segundas-f. musicais nº82]

Retrato de J.S. Bach quando jóvem




wq
                             https://www.youtube.com/watch?v=bvfMcFNpugs



 Em 2025, duas recém descobertas obras de autoria de Johann Sebastian Bach—Chaconne & Fuga em Ré menor, BWV 1178, e Chaconne em Sol menor, BWV 1179—foram apresentadas em estreia na Igreja de S. Tomás de Leipzig, pela primeira vez, em mais de 300 anos.
A descoberta destas obras iniciou-se em 1992 quando Peter Wollny— agora diretor executivo do Arquivo Bach de Leipzig— descobriu dois manuscritos pouco usuais, quando trabalhava na sua dissertação. Durou dois anos a investigação para atribuir definitivamente as peças a Bach, que as compôs, provavelmente, na adolescência ou no início da idade adulta.

De vez em quando, surgem descobertas de manuscritos de autores célebres sendo, na maior parte dos casos, necessário todo um trabalho musicológico para se garantir a justeza da atribuição. No caso de Johann Sebastian Bach, houve no passado várias composições em manuscritos, atribuídas ao seu filho Wilhelm Friedemann Bach, mas que tinham sido afinal compostas pelo seu Pai. Outras composições, que se julgava serem de J.S. Bach, acabaram por ser atribuídas a membros da sua família ou a discípulos.

Pode-se avaliar a dificuldade - em geral - na atribuição de obras a compositores do barroco e de épocas anteriores, pelo facto de haver tanta incerteza na atribuição de obras, mesmo em compositores sobre os quais existem muitos dados biográficos, como é o caso de J.S. Bach, ou de sua Família.
Muitas recolhas dos séculos XVI-XVII-XVIII para órgão, em toda a Europa, incluem obras anónimas de grande valor, não apenas documental, como também estético. Porém, seus autores não foram identificados. Outras vezes, a atribuição é considerada pouco segura; junta-se então ao nome do autor presumido um ponto de interrogação.
O facto de uma obra ser atribuída a J. S. Bach, a W.A. Mozart, ou outros compositores célebres, garante que ela seja ouvida em concerto e gravada em disco.
No entanto, algumas obras anónimas de grande valor permanecem desconhecidas do grande público; por contraste, composições atribuídas um nome sonante, têm garantida difusão, mesmo que sejam de menor valor estético.

No caso das duas Chaconnes recém-descobertas e atribuídas a J.S. Bach, noto que são muito apropriadas para instrumentos de tecla com corda (clavicórdio, cravo, espineta...).


O facto de serem executadas no órgão, não as torna mais relevantes. No século de Bach (e anteriormente) havia um certo grau de sobreposição da literatura de tecla encordoada e de tecla com tubos. Assim, considero que a interpretação no órgão de peças profanas, como são as Chaconnes (dança de origem ibero-americana) é legítima: De facto, em todo o período barroco, existiam órgãos positivos em palácios, salas de ópera, etc. Desde o Séc. XVI, até a Bach e seus contemporâneos, Haendel, etc, existe literatura profana para órgão, ou adaptável a este instrumento.
No entanto, parece-me que estas Chaconnes, quando interpretadas no órgão, precisam de acústica mais "seca", com fraca reverberação, mais típica de salas de concerto, ao contrário de igrejas com órgãos barrocos.

Shortly afterwards, the Chamber Music Society added them to their slate of works fo r their annual Baroque Festival, the first major concert hall performance of the newly unearthed repertoire. The pieces were performed by renowned organist Paolo Bordignon on Alice Tully Hall’s historic 4,200-pipe organ.
Performed on December 6 & 7, 2025

SE EU CANTO É POR CANTAR (OBRAS DE MANUEL BANET; OPUS. VOL IV)



 Canto desde a alma sem saber a quem

Nem quando, nem porquê.  Só alguns sabem

E esses, meus irmãos e irmãs, são animais

São capazes de intuir pelo som da voz

Se estou alegre ou triste, furioso ou sereno


Se sofro pelo passado, não tenho outro remédio 

Senão cantar, sussurrando enquanto caminho

Pelas ruas e praças que já não reconheço 

São cópias grotescas e rutilantes 

Das que guardo em memória 


Tenho de me concentrar para rever

Essas paisagens interiores que habito 

São a moldura mental dos retratos

Dos antepassados que me habitam

Sem romancear, construo o universo

Intemporal de presente-passado

Ignorando as modas, as vaidades


Porque afinal, eu canto o amor

Impossível das emoções e enganos

Das desilusões e viagens partilhadas

Canto o passar do tempo que me resta

Não procuro seduzir nem ser seduzido


Se morte não me espanta é porque

Já vivi neste mundo, demasiado


-----------------------------------------------

(Murtal, Parede 01 /11/ 2026)