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sábado, 10 de outubro de 2026

CHUCK BERRY - PEQUENA HOMENAGEM PESSOAL (Segundas-f. musicais nº79)







Eu desejava mergulhar, de vez em quando, numa festa de música rock e de esponaneidade. Uma festa em que me liberte das inibições e das convenções, me ponha a dançar e cantar, até mais não poder! Então, se tivesse de seleccionar apenas um artista, escolheria o iniciador do rock and roll, o mentor de todos os grupos de rock d'aquém e além Atlântico.

Foi inspirador de Elvis Presley, dos Rolling Stones, dos Beatles e duma infinidade de outros: Não existem grandes nomes dos anos 60 e 70, que não tenham interpretado alguns dos êxitos de Chuck Berry.

Chuck Berry tem um número de canções gravadas da ordem de várias centenas. As faixas publicadas incluem também muitas intervenções ao vivo e com enorme naturalidade.

De facto, com as gravações ao vivo, a qualidade - muitas vezes - deixa a desejar, noutros artistas. Mas nele, além do som, havia 'o show'; ele evoluia com a sua guitarra, dançando, cantando e tocando, como só ele sabia fazer. Há uns anos, fiz uma playlist dedicada a Chuck Berry, com trinta audios e vídeos, que podeis aceder no link abaixo:


Os 10 vídeos e audios que transcrevo aqui abaixo, são somente um aperitivo para vos estimular a descobrir mais....

Existem tantas outras canções que mereciam estar nesta selecção, que adicioná-las todas seria impossível!

[ver notas/comentários, em baixo]

You never can tell

Johnny Be Goode

Roll Over Beethoven

                                                                          Little Queenie


                                                                    Sweet Little Sixteen

Too Much Monkey Business

On Route '66


                                                                   Memphis-Tennessee


Oh, Carol!


                                                   Rock & Roll Music (com Tina Turner)




Comentários de Manuel Banet

«You never can tell», uma canção sobre um casamento, num tom irónico, onde se misturam palavras em francês. Chuck Berry é natal de St. Louis, principal cidade da ex-colónia francesa da Louisiana, que depois de vendida aos recém-formados EUA, por Napoleão Iº (para financiar suas guerras), manteve a ligação cultural francesa, no seu dialecto «Cajun», nos costumes, na culinária...
 
«Johnny Be Goode» uma canção tornada ícone, não apenas por Chuck Berry, como símbolo de toda uma época. A utilização deste êxito no filme «Back to the Future» é mais um tributo, entre muitos. 
Na realidade, os negros do sul tinham muito poucas possibilidades de subir na escala social. A época ainda era de discriminação muito acentuada, nos anos 50. Por outro lado, a música «negra», o rock&roll e os blues, tinham tomado «de assalto» a juventude de todas as proveniências sociais e etnias, nos EUA. Chuck Berry contribuiu muito para quebrar a barreira invisível entre etnias e entre classes.

«Roll Over Beethoven» É muito conhecida mas mal compreendida. Nesta época, alguns conheciam apenas a versão dos Beatles. Uma amostra do humor de Chuck Berry: fez um aparte, dizendo que esses pensavam que ele abria o concerto com uma música dos Beatles!!!
Não se trata de desprezar Beethoven, mas de afirmar que a nova geração está a fazer sua música própria, o rock&roll, que irrompeu nos anos 50.

«Little Queenie», descreve a cena de sedução recíproca de uma jovem e do cantor. O vídeo acima mostra adolescentes (brancas) a assistir, sentadas a uma mesa da casa de espectáculos. Mas, as pessoas puritanas, que eram a maioria nos EUA nessa época, não podiam suportar o sucesso desta música, «música de pretos», diziam... e ainda por cima «vindo depravar» a nossa (deles) juventude! Mas esta mentalidade foi varrida nos anos 60 pela onda rock e pela a luta de massas pelos Direitos Civis, que não apenas acabou com convenções caducas, como promoveu a música do género de que Chuck Berry foi pioneiro.

«Sweet Little Sixteen». Está-se perante um dos clássicos do rock and roll: A história de uma teenager, do pelotão de fãs das bandas rock. Vêem-se em imensos filmes/documentários a gritar e a gesticular, nos concertos rock e pop. Chuck Berry presta homenagem à sua persistência nestes rituais dos bailes, com música ao vivo e típicos dos anos 50 e 60. Nestas ocasiões, vestiam-se para terem aparência de adultas (sapatos  de saltos altos, etc.). Mas, acabado o fim-de-semana, tinham de novo que vestir o uniforme escolar e sentar-se nos bancos da escola.

«Too Much Monkey Business», uma das canções mais divertidas e críticas duma série de instituições. Os Beatles - e muitos outros - não hesitaram em incluí-la no reportório dos seus primeiros anos. Um dos melhores trechos de Chuck Berry!

«On Route 66» descreve um itinerário de Chicago à costa da Califórnia, percorrido na célebre auto-estrada 66. A canção original, composta por outro autor, foi muito tocada por Chuck Berry e por outros músicos de rock e jazz (Nat King Cole, por exemplo) nos anos 50. Depois, nos anos 60, os Rolling Stones fizeram deste «clássico» um dos seus sucessos. Esta canção está associada ao que veio a ser designado como a «Beat Generation» e com Jack Kerouac a dar o toque literário, com o célebre romance «On The Road»... 

«Memphis, Tennessee» É a historia de um pai separado da sua filha. Eles tentam contactar-se telefonicamente. Nesta época, as ligações regionais eram manuais, através da telefonista. Mas a canção não me parece «antiquada», porque exprime uma situação bem comum hoje em dia, a dos casais separados e a forte motivação de um pai em superar obstáculos, para estar (ou falar ao telefone) com sua filha.

«Carol» é uma das canções mais célebres de Chuck Berry, retomada pelos Rolling Stones (no seu primeiro álbum) e por muitos outros conjuntos pop e rock. Fala da jovem por quem o cantor se apaixonou. Este suplica que ela não se deixe «arrastar» e promete que aprenderá - dia e noite - a dançar, para que ela aceite ser sua garota.

«Rock and Roll Music» é a canção-emblema da geração de Chuck Berry e seguintes. Aquela que funciona como «hino» do rock, em todas as versões e modalidades. Chuck Berry chama Tina Turner, esta sobe ao palco e mostra-se muito divertida por atuar ao lado de Chuck Berry. É uma atuação energética ao quadrado! 

 

sábado, 3 de outubro de 2026

MINHAS ESCOLHAS DE MÚSICA BARROCA [Segundas-f musicais n° 78 ]


Músicos no Palácio de Versailles


 Porque não fazer uma selecção de música barroca, que tem tanto significado para mim?!
- Embora eu não seja pessoa de gostos exclusivos, seja na música ou noutro domínio, posso dizer-vos que, se tivesse de me exilar numa ilha deserta, tendo de escolher um só estilo musical em discos para levar comigo, a escolha seria uma selecção de obras barrocas. 

A selecção que vos apresento agora tem mais a ver comigo e com os meus afectos, do que com uma avaliação da música pela sua importância, representatividade, etc. 
Mesmo assim,  estimo que a escolha feita pode abrir novos horizontes aos neófitos em música barroca. Em relação aos interpretes, não podia deixar de escolher os que acho serem os melhores, ou entre os melhores. 
A música deveria ser - ao mesmo tempo - sensual e espiritual, pois se for deficitária num dos dois atributos, não satisfará inteiramente.
Por sorte, vivo numa época em que se conhece e se pode apreciar o que existiu de melhor na música dos séculos anteriores. Nós somos, portanto, uns privilegiados, no que toca à possibilidade de conhecer e de usufruir das obras-primas musicais do passado. 
De seguida, apresento-vos 4 amostras musicais do sublime ...




1º) «Concerto Italiano» J.S. Bach

Nesta perfeita interpretação de Scott Ross ao cravo, é toda a alegria de viver do Mediterrâneo, toda a extroversão dos italianos, que transparecem... mas Bach nunca se deslocou a Itália, nem a outros países meridionais da Europa. Fez uma longa viagem (a pé) ao norte da Alemanha, para aprender com o muito respeitado Buxtehude. Sabemos muitos pormenores da vida de Bach e de suas outras deslocações; pode-se afirmar (com segurança) que ele nunca pôs os pés em Itália. Então, como é possível que esta peça exiba a criatividade melódica, a surpresa harmónica, a agilidade no discurso, típicas da música italiana?
- Estes traços estão bem presentes, podemos dizer que é realmente música italiana e do melhor quilate! Somente, foi um alemão que a compôs: Mas, não foi qualquer um. Ele estava destinado a ser um dos maiores músicos na sua época e na posteridade. Com efeito, ele continua a ser muito apreciado e estudado, passados cerca de 300 anos sobre a composição deste Concerto Italiano.
 




2º)«Cum Dederit» de Nisi Dominus por António Vivaldi

E por vos falar de música italiana, homenagem é devida a António Vivaldi, o «Padre Ruivo». Ele ensinava música às meninas órfãs do Ospetalle della Pietà, em Veneza. Quem ouvisse apenas esta peça e não soubesse rigorosamente mais nada de Vivaldi, diria que se trata dum compositor muito espiritual... No que estaria correto! 
Porém, como a alma tem muita complexidade e o talento imensos recursos, sua arte era também sensual (no sentido nobre). A obra «As Quatro Estações» e inúmeros outros exemplos, incluindo as óperas, vêm confirmar a sensualidade na arte de Vivaldi, para além de qualquer dúvida.




3º)«Gavotte com seis variações» por J.-P. Rameau

Rameau constrói "uma suite" dentro doutra suite: A peça «Gavotte com variações», está integrada na Suite em Lá. Esta, tem várias danças estilizadas, unidas pela mesma tonalidade. 
A minha escolha da interpretação de Natacha Kudritskaya ao piano, não é casual. Aprendi com os meus mestres (e por audição em concertos ou em discos), que era perfeitamente legítimo usar um instrumento diferente daquele usado na época do compositor. Há uma técnica e uma sensibilidade próprias na adaptação para o piano, de peças inicialmente concebidas para outros instrumentos de tecla (cravo, espineta,  clavicórdio...). 
Posso apreciar - ou não - a interpretação ao piano duma peça escrita para o cravo. Caso não aprecie, a «culpa» não é do instrumento... é do instrumentista que não teve o bom gosto e a técnica para adaptar a peça referida.




4º)«Eternal Source Of Light Divine», G. F. Haendel

Termino com a peça de Haendel, muito conhecida e utilizada ainda hoje, em cerimónias oficiais  (não é por isso que ela é melhor ou pior). Esta peça, simplesmente, encanta-me. 
Conta-se que a Rainha de Inglaterra, a quem Haendel dedicou esta cantata de aniversário, se mostrou indiferente, na ocasião da estreia. Porém, pouco tempo depois, enviou a Haendel uma generosa remuneração em moedas de ouro. 
Quando oiço esta cantata, porém, não fico a pensar nas circunstâncias exteriores da composição. 
Para mim, esta peça tem um apelo imediato de autenticidade, apesar de saber quanta arte e técnica existem nela. Ela tem uma «respiração» ampla, majestosa e serena. O diálogo entre a voz humana e a trompete, dá-lhe uma luminosidade inigualável, solene e profunda. 


Exemplos da genialidade de Haendel:







segunda-feira, 21 de setembro de 2026

2 ELEGIAS / 2 COMPOSITORES: FAURÉ E RACHMANINOV [Segundas-f. musiciais, nº76]

                                       

[Este apontamento serve como homenagem a Jacqueline du Pré e Seku Kanneh-Mason. A primeira, já desaparecida, padeceu durante muito tempo de doença incapacitante, com a qual a excelente violoncelista teve de lutar durante vários anos. Seku Kanneh, é um fenómeno de maturidade precoce na arte de interpretar o reportório mais exigente do violoncelo. O seu sucesso estrondoso é bem merecido.]      



  Élégie de Gabriel Fauré; piano et violoncelle

                                Violoncelle: Jacqueline Du Pré et  piano: Gerald Moore


https://www.youtube.com/watch?v=UJFI6vQVwQQ



                                           Élégie de Sergei Rachmaninov; piano et violoncelle

                                           Violoncelle:    Sheku Kanneh-Mason

https://www.youtube.com/watch?v=yJZsfIxUGFg

Estas duas peças, Elegie de Fauré e Elegie de Rachmaninov (esta, inicialmente escrita para piano solo), são muito conhecidas e frequentemente gravadas, ou executadas em recitais.
Elas nos transportam para um universo de sofrimento espiritual, como quando se perde alguém querido. Não são peças para se ouvir distraidamente: Precisamos de nos concentrar na música porque cada nota, cada vibração, cada silêncio, se destinam a fazer-nos penetrar na essência vital das coisas.
Porém, ambas as Elegias apresentam uma saída à depressão, ambas possuem abertura para o céu azul.  De facto, são catárses, libertam-nos das obsessões da morte, da tragédia. Elas permitem-nos a reconstrução interior da mente e do afeto, após o luto.
É assim que eu as vejo e que as sinto. Embora sejam bem distintas no estilo e nos processos empregues, há porém um estranho parentesco entre elas. É que ambas se dirigem ao mesmo: À superação do sofrimento resultante da perda de um ente querido.


[Conheça outra Elegia de grande qualidade para violoncelo com orquestra, de Offenbach, «Les larmes de Jacqueline»; aqui interpretada por  Gürzenich Kammerorchester Köln]

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

V. VYSOTSKY & B. DYLAN - Concerto em Moscovo, 2025 [Segundas-f. Musicais nº75]

 UM CONCERTO* no Centro Americano de Moscovo


Estes dois bardos, que se tornaram célebres e foram uma luz de esperança para a juventude de seus países respectivos, tiveram tempos de vida muito diferentes:


 Bob Dylan, está vivo e com saúde suficiente para dar concertos e fazer tournées. 


Vladimir Vysotsky morreu em 1980, com apenas 42 anos. Mas sua memória eternizou-se. Há artistas, profissionais ou amadores, que continuam a cantar as suas canções, passados 45 anos da sua morte.

*)

https://www.youtube.com/live/FGlSl8Lb5KM?si=ePNowMzqPVYxb_oy


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A MÚSICA PARA NÓS ... SERÁ MÚSICA PARA ELES? [Segundas-f. musicais nº71]





Frequentemente nós, os humanos, projetamos, de forma mais ou menos ingénua, os nossos sentimentos, valores e pensamentos noutras espécies animais. 
Este vídeo ajuda-nos a reflectir sobre os sons, sua natureza, seu significado e a sua perceção em várias espécies animais. 

Co-evolução humanos-cães: De facto, a «compreensão» da linguagem humana pelos cães, não é devida às suas supostas capacidades linguísticas em decifrar e analisar o conteúdo das frases. 
Mas, é devida aos muitos milhares de anos de co-evolução cão/homem, que foi seleccionando os animais mais atentos aos sinais gestuais e sonoros dos humanos. 
Quando um cão fica atento perante uma música não é por sentido estético, como as pessoas julgam, é porque o comportamento de atenção àquilo que o dono fizer (incluindo tocar música num instrumento ou cantar...), está interiorizado na sua memória genética.

Serenata para seis trombones : O vídeo abaixo é um bom (e divertido) exemplo. Os bovinos são movidos por curiosidade perante os sons, não por «deleite estético»! 


Quanto às aves canoras, estas evoluiram (muito antes da existência de humanos) um comportamento de canto, relacionado com o cortejamento e a comunicação dentro do bando. Por isso, estão especialmente atentos a sinais sonoros. 
Numerosas espécies de papagaios, vivendo em liberdade imitam, com perfeição, os sons de outras espécies ou até ruídos; não admira pois que, em cativeiro, reproduzam vozes humanas, ou outros sons. 
Mas, várias outras espécies de aves são conhecidas pela sua habilidade em reconhecer e reproduzir melodias: 
- Mozart tinha um estorninho que reproduzia as melodias que ele lhe ensinava, com toda a facilidade. 


Mozart adorava a ave, ao ponto de inserir uma das melodias preferidas* do estorninho num concerto para piano.

Não iremos aqui enumerar a imensa quantidade de lendas que envolvem a capacidade da música em seduzir animais. 
Uma hipótese para a origem destas histórias, seria a observação comum de animais que parecem «cativados» pela audição de peças instrumentais... No entanto, estamos equivocados quando imaginamos que o seu sentido estético seja idêntico ao nosso. 

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* O referido tema do estorninho, no Allegretto do Concerto nº17, com Lang Lang:

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

RAMEAU & ROCKS [Segundas-f. musicais, nº69]

                  «Forêts Paisibles» 


Possui todos os ingredientes para alcançar o top de audições:


- O rítmo dançante e sempre regular, 

- A melodia mais popular do Ba.Rock,

- Uma letra muito ecológica...

 Não lhe falta nada!!!


Gozem e explorem  RAMEAU & ROCKS.


                                         https://www.youtube.com/watch?v=kvmlF3QZkTM


Relacionado:

https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2018/09/opera-ballet-les-indes-galantes-de.html




segunda-feira, 20 de julho de 2026

Música Pentatónica [Segundas-f. musicais nº67]



O sistema pentatónico não é exclusivo da música tradicional chinesa; longe de ser característica exclusiva, é antes a estrutura (meta-estrutura) que subjaz grande parte da música não-europeia.
No passado, foi muito mais frequente a sua utilização na Europa. Prova disso, no folclore europeu subsistem exemplos de música pentatónica.
A estrutura pentatónica implica uma relação diferente entre os sons da escala. Embora as notas «Do-Ré-Mi-Sol-Lá», sejam comuns a escalas pentatónicas e diatónicas, elas diferem nas relações entre as notas. Nas escalas normalmente usadas na Europa, em músicas tradicionais e clássicas, a escala de oito tons progride em tons inteiros e meios tons. São as posições relativas dos intervalos de meio-tom que definem os dois modos, o modo maior e o menor. Na música pentatónica, as melodias podem ter modulações e transposições, mas não estão estruturadas para convergir na nota «tónica».
As notas simultâneas, na música oriental, ou fazem parte do suporte harmónico, ou resultam do entrecruzamento de melodias. Mas, o contraponto, tal como cultivado no Ocidente, não existe. Porém, a música extra-europeia pode ser muito rigorosa em termos formais. A arte dos compositores e dos interpretes é tal, que dá uma impressão de fluidez.
No Ocidente, muitos compositores, além dos musicólogos, interessaram-se pelo sistema pentatonal, presente nos respectivos folkores ou nas tradições extra-europeias.
Os instrumentos, afinados segundo o princípio da escala pentatónica, são imensamente variados: Os materiais usados incluem o bambu, vários tipos de madeiras, diversos metais, a pele distentida (nos tambores), as cordas (no passado, feitas de tripa), etc.
- O erhu é uma maravilha de simplicidade. O executante experiente pode retirar toda a variedade de sons de somente duas cordas do erhu, vibrando sobre uma pequena caixa de ressonância e usando um arco parecido ao dos violinos.
- O guqin ou «cítara chinesa» (não tem parentesco com as cítaras europeias!) tem uma extensa gama de sons e pode encher uma sala, graças à caixa de ressonância, sobre a qual estão distendidas as cordas; também, graças aos plectros que o instrumentista fixa na ponta dos dedos.
Os instrumentos usados nos conjuntos instrumentais destas gravações, são os tradicionais. A paleta dos timbres e sons é extremamente rica. As possibilidades expressivas são muitas. As composições são especialmente adequadas à sonoridade dos instrumentos respectivos.
Os temas que se podem ouvir nos vídeos abaixo são, ou composições da autoria dum músico determinado, ou adaptações de temas tradicionais.

Não sou entendido em música extra-europeia. Esforço-me por me documentar e apreciar as tradições que a imensa diversidade de culturas nos oferece.
O último vídeo desta selecção é dum conjunto de Dunhuang, uma cidade-etapa nas antigas Rotas da Seda. O tema de abertura na flauta evoca claramente as melopeias árabes e da Ásia central.




segunda-feira, 13 de julho de 2026

GABRIEL FAURÉ; NA CHARNEIRA DOS SÉCULOS XIX E XX [Segundas-f. musicais, nº66)

Siciliana, Op.78

        [Ver catálogo das obras de Gabriel Fauré, AQUI]


Abaixo, uma peça das «romances sans paroles» (Op. 17/ nº3)




Fauré «estava no ouvido» de toda a sua geração. Embora não tenha rompido totalmente com o romantismo, abordou a matéria-prima musical com uma originalidade que contrasta com os autores do romantismo tardio, que se limitavam à reprodução de fórmulas, repetindo o que foi um sucesso, no passado. 

Muitas pessoas ouviram a «Pavane», op.50 sem saber o nome do autor:


Esta Pavane tem uma ressonância renascentista e mesmo medieval. Porém, Fauré teve o bom gosto de não pretender imitar a música dessas épocas. A versão orquestral, que ouvimos aqui, foi elaborada pelo próprio compositor a partir da versão para piano.

A Élégie para violoncelo e piano, é porventura uma das peças instrumentais mais conhecidas de Gabriel Fauré. Aqui, na gravação histórica (1969) de Jacqueline du Pré ( violoncelo) e Gerald Moore (piano).



O Requiem Op. 48, de Fauré, é uma obra que continua a suscitar o interesse do público e dos músicos profissionais. Uma das peças extraídas do Requiem, é «In Paradisum»


Pode aceder ao Requiem na íntegra, AQUI.


Uma biografia:


Se Fauré soa, no século XXI, como moderno e clássico ao mesmo tempo, é - por um lado - que as suas composições são mesmo originais, resultam de procura formal muito exigente. Por outro lado, assume a herança da música europeia, inserindo-se nela - como elemento charneira - entre o século XIX e o século XX. 


PS1: Adaptações para violoncelo e piano:

Gautier Capuçon, a siciliana em versão para violoncelo e piano (Michel Dalberto, piano)
«Après un Rève», obra originalmente para voz e piano. Aqui, com Capuçon no violoncelo e Samuel Parent no piano.



segunda-feira, 6 de julho de 2026

RUBINSTEIN : Recital CHOPIN [Segundas-f. musicais n° 65]



Excertos do recital dado por Arthur Rubinstein em Moscovo, em 1964.

A virtuosidade duma interpretação pode avaliar-se pela intencionalidade de cada nota, no discurso musical.
Arthur Rubinstein é ainda hoje referência inultrapassável pela profundidade com que nos devolve os sentimentos encerrados nas partituras de Chopin. 
Existem vários outros intérpretes de excepcional qualidade. Porém,  eu considero que estas gravações ao vivo de Rubinstein, são momentos em que podemos apreender a estrutura, a expressão e a técnica ao serviço da obra.



Nocturno op. 27 nº2


 
Sonata op.35

segunda-feira, 29 de junho de 2026

«PRÉLUDES NON MESURÉS» DE LOUIS COUPERIN [Segundas-f. musicais Nº64]



Françoise Lengellé interpreta 16 prelúdios «non mesurés»* de Louis Couperin.
Uma gravação ao vivo, em Julho de 2023, num cravo francês construído por William Dowd, em 1973.



 https://www.youtube.com/watch?v=XNpu5-BGQeI&rlist=PLs9hz35Qywg7DNLUANn9ZtIdscl3yAvmP

Embora tenha bastantes peças para órgão e algumas para viola da gamba, foram as peças para cravo que fizeram passar à posteridade Louis Couperin. 
Estas peças para cravo (cerca de 130), não foram editadas em vida do compositor e estão dispersas por vários manuscritos. Os movimentos e as tonalidades indicam que elas se destinavam a ser executadas agrupadas em suites. Porém, a composição das mesmas é - nalguns casos - difícil de determinar. Por outro lado, tem-se indicações de que em França, nessa época a música para cravo** não especificava rigorosamente quais as peças de uma Suite, deixando uma certa margem de escolha ao interprete, para incluir - ou não - determinada dança, encurtar ou alargar o conjunto da Suite, etc. 
Quanto ao prelúdio, este era praticamente obrigatório, pois desempenhava uma dupla função: Por um lado,  permitia o executante certificar-se que o instrumento estava bem afinado para a tonalidade na qual se iriam desenrolar as sucessivas peças da suite; por outro lado, ajudava a criar o ambiente sonoro adequado para os auditores poderem melhor apreciar as subtilezas das diferentes peças da suite, todas no mesmo tom (ou no tom relativo) do prelúdio.
Em todo o caso, o grau de latitude improvisatória que exprimem estes prelúdios «non-mesurés», não nos deveria surpreender. A música barroca em geral ( quer na França ou noutro país participante no grande movimento estético, que se estendeu, pelo menos, durante um século e meio ) era música com elevado grau de improviso. Improvisar era não só admitido, como encorajado. Mas, o improviso obedecia a regras gerais e específicas aos instrumentos utilizados e ao carácter das peças.
-----------
* Os préludes non-mesurés são peças onde as notas não têm os seus valores relativos (colcheias, semínimas, etc), onde apenas estão registadas as alturas relativas dos sons. Não têm compasso ("non-mesurés"), pelo que nestas incertezas de tempo e de rítmo, a sensibilidade e perícia do intérprete contavam mais ainda do que numa peça «vulgar». Pode dizer-se que é uma particularidade da Escola Francesa de cravo. Não conheço exemplos não-franceses de peças «non-mesurées»

** François Couperin, sobrinho de Luis Couperin, escreveu um célebre livro didático para o cravo «L'Art de Toucher le Clavecin» . 

Veja o artigo sobre o mesmo (também com exemplos de prelúdio):

https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2026/02/francois-couperin-l-art-de-toucher-le.html

sábado, 13 de junho de 2026

CANÇÃO DESCREVENDO OS HORRORES DA 1º GUERRA MUNDIAL



Esta canção descreve a vida quotidiana dos soldados nas trincheiras, como eles morriam e como ficavam inválidos para toda a vida. 

Oiça o poema sobre estes soldados.. A letra é de Louis Aragon: ele foi soldado na 1º Guerra Mundial

A música é de Léo Férré, cantor/compositor que dedicou um álbum inteiro a poemas de Aragon. 

Férré pôs em música poesias de sua própria autoria e também poemas de poetas célebres: Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e outros.

Registam-se aqui duas interpretações da canção: Pelo autor da música, Léo Férré e por Caterine Sauvage.


                             Canção do album «Léo Férré Chante Aragon»

O


Versão da Canção por Caterine Sauvage




Letra da canção Tu N'en Reviendras Pas

Tu n'en reviendras pas toi qui courais les filles
Jeune homme dont j'ai vu battre le coeur à nu
Quand j'ai déchiré ta chemise et toi non plus
Tu n'en reviendras pas vieux joueur de manille

Qu'un obus a coupé par le travers en deux
Pour une fois qu'il avait un jeu du tonnerre
Et toi le tatoué l'ancien légionnaire
Tu survivras longtemps sans visage sans yeux

On part Dieu sait pour où ça tient du mauvais rêve
On glissera le long de la ligne de feu
Quelque part ça commence à n'être plus du jeu
Les bonshommes là-bas attendent la relève

Roule au loin roule train des dernières lueurs
Les soldats assoupis que ta danse secoue
Laissent pencher leur front et fléchissent le cou
Cela sent le tabac la laine et la sueur

Comment vous regarder sans voir vos destinées
Fiancés de la terre et promis des douleurs
La veilleuse vous fait de la couleur des pleurs
Vous bougez vaguement vos jambes condamnées

Déjà la pierre pense où votre nom s'inscrit
Déjà vous n'êtes plus qu'un mot d'or sur nos places
Déjà le souvenir de vos amours s'efface
Déjà vous n'êtes plus que pour avoir péri

Paroles de Louis ARAGON
Musique de Léo FERRE
© LES NOUVELLES EDITIONS MERIDIAN



segunda-feira, 8 de junho de 2026

A ARTE DE AMÁLIA RODRIGUES - A NOBREZA DO FADO (segundas-f. musicais nº61)




A palavra FADO tem orígem no latim, FATUM, que significa destino.

No português corrente, tem seguramente conotação de má sorte, quando se diz «é o meu fado». Não admira, pois tem sido o fado deste povo que atravessou oceanos em busca de «El Dorados». Muitos deles, nunca chegaram a alcançar fortuna e voltaram à terra natal em estado miserável, como Camões, ou morreram em terras distantes e, muitas vezes, a tumba foi de água oceânica, em numerosos naufrágios, que engoliram caravelas e suas tripulações, transportando preciosas especiarias (canela, pimenta...) para os mercados europeus.

O passado trágico do século XVI, dito «grandioso», acabou com a derrota de Alcacer Quibir, seguido pela a perda de independência com a união do reino de Portugal à coroa de Filipe de Espanha. Esta sucessão de tragédias ficou refletida numa mágoa persistente nas vozes do povo anónimo, que nunca são citadas nos livros de História. Porém, são a história pessoal de muita gente. As «viúvas de vivos», era como se designavam as mulheres de emigrantes, que partiam para longe. Eles, labutando duramente em países estrangeiros, para construir um bem-estar sólido para as suas famílias.

Uma grande parte do Fado é, porém, de temática amorosa, como aliás a canção popular em geral. Mas no fado, é muito frequente o lamento da separação, do desencontro, do engano e desengano, enfim de histórias de amor que correram mal, de alguma forma.
Também está muito presente o tema da saudade, no fado e na poesia portuguesa. Esta expressão, não tendo correspondência exata noutras línguas, exprime um estado de melancolia e de fixação no passado, onde se projetam recordações o ser amado e de todos os momentos felizes, em geral.

Há muitos estudos sobre as origens do fado.
O fado, hoje, realmente corresponde a um tipo definido de música, pese embora a diversidade dos seus compositores e interpretes. Dizem que o fado tem origem no «lundum», um cântico negro, cantado pelos escravos negros no Brasil, desde que estes foram levados para as plantações (as roças), sofrendo a brutalidade dos donos coloniais.
Mas, também se fala da relação com as melopeias árabes - lembrança longínqua do Portugal que foi mouro, com uma presença de sete séculos, e deixou raízes profundas no folclore, embora o povo não tivesse ideia que suas expressões artísticas tinham efetiva origem na riquíssima civilização arabe ibérica (El Andaluz era a designação da Ibéria pelos mouros), que foi a mais avançada na Idade Média.

Na origem, o que hoje se chama «fado», estava enraizado em várias tradições orais, na fluidez e musicalidade próprias da música popular. Mas, como documentos, os mais antigos fados escritos e partituras editadas datam de finais do século XIX. Eles estão curiosamente associados, em muitos casos, com o proletariado urbano lisboeta, não ainda maioritariamente trabalhando na grande indústria, mas em pequenas fábricas e oficinas, que se situavam em bairros pobres: Alfama, Mouraria, Castelo, Madragoa ... eram bairros habitados por pessoas humildes, as casas não tinham condições mínimas, as ruas eram estreitas e mal iluminadas. Havia neles muita pobreza e com ela, alcoolismo, prostituição, marginalidade, etc. Havia nessa época uma estricta divisão das classes, embora alguns nobres boémios frequentassem prostíbulos situados nesses bairros. Tais boémias estão na origem de histórias romanceadas, como a da Severa , que foi amante do Conde de Vimioso.

Sendo impossível falar em pormenor dos muitos compositores e poetas que escreveram para Amália especificamente, ou daqueles que Amália apropriou as canções pré-existentes e lhes deu nova vida, com a sua voz e sensibilidade magníficas, queria sublinhar o caso de Alain Oulman. Ele compôs música sobre poemas escritos por poetas  famosos ou bem conhecidos, da literatura portuguesa. No total, não sei quantos poetas de renome foram cantados por Amália: Luíz de Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O' Neill, José Régio, Manuel Alegre, Pedro Homem de Mello, Cecília Meirelles, Ary dos Santos, etc. A própria Amália assinou letras de fados.
Para terem uma ideia da qualidade e diversidade da poesia nos fados de Amália Rodrigues, podem ouvir a playlist, com o título «AMÁLIA RODRIGUES: O FADO».
A vida corpórea dos compositores e intérpretes é finita. Porém, eles são eternizados pela execução das composições/canções/poemas e pela constante presença na memória coletiva. 
 É o caso de Amália e doutros, que comparticiparam na gesta de transformar o fado num expoente da alma portuguesa.


PS: Juntei recentemente um poema de Camões, musicado por Alain Oulman, «Dura Memória»:

Dura Memória



Memória do meu bem, cortado em flores,
Por ordem de meus tristes e maus fados
Deixai-me descansar com meus cuidados
Nesta inquietação dos meus amores.

Basta-me o mal presente, e os temores
Dos sucessos que espero infortunados
Sem que venham, de novo, bens passados
Afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi numa hora tudo quanto em termos
Tão vagarosos e largos, alcancei;
Deixai-me, com as lembranças desta glória

Cumpre-se e acaba a vida nestes ermos
Porque neles com meu mal acabarei
Mil vidas não, uma só - dura memória!...

segunda-feira, 1 de junho de 2026

ERIC SATIE - GNOSSIENNES [Segundas-f. musicais nº60]

 

Desenho do compositor, por Picasso, na capa de uma selecção de obras de Eric Satie

Aos 101 anos da sua morte, Eric Satie continua a ser mal compreendido pelo público, em geral e mesmo pelos críticos musicais. No entanto, como elemento verdadeiramente original dos princípios do século XX, a sua obra guarda enorme interesse e atualidade. Aliás, vários compositores dos séculos 20 e 21, foram influenciados pelas suas obras.




Gnossiennes (completa) nº1 a 7

https://www.youtube.com/watch?v=nfhza_GLKNg&list=RDnfhza_GLKNg&start_radio=1&t=1298s


A música de Eric Satie é especial. É simples na estrutura, subtil no discurso musical e sedutora na sua austeridade... Talvez sejam as razões porque é agora mais popular do que nunca, passados mais de cem anos sobre a sua morte.

As 7 peças das «Gnossiennes» têm um caráter de reflexão pausada. Elas estão na antítese de boa parte da música da sua época, apesar de terem traços comuns à escrita musical de Debussy ou Ravel. A atmosfera que emana das composições de Satie escapa ao encerramento dentro de uma escola, de uma época. 

Ele serve-se de estruturas musicais extra-europeias: Por exemplo, as peças são frequentemente modais, o que não era nada comum, pois a música tonal ainda era a dominante. Recusa-se a fazer modulações que se limitam a ser transposições de uns tons para outros. Por outro lado, a repetição insistente de alguns motivos melódicos, tem um efeito encantatório, hipnótico. 

Curiosamente, ele não se coloca formalmente em ruptura com o passado, como o fizeram, desde o início do Século XX, vários vanguardistas. 

Se há peças musicais que ajudam a concentrar numa tarefa - a estudar, desenhar, etc - as 'Gnossiennes' são das mais adequadas.


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INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR


Uma biografia de Eric Satie: 

https://www.youtube.com/watch?v=akF4djKB7OA