Porque não fazer uma selecção de música barroca, que tem tanto significado para mim?!
- Embora eu não seja pessoa de gostos exclusivos, seja na música ou noutro domínio, posso dizer-vos que, se tivesse de me exilar numa ilha deserta, tendo de escolher um só estilo musical em discos para levar comigo, a escolha seria uma selecção de obras barrocas.
A selecção que vos apresento agora tem mais a ver comigo e com os meus afectos, do que com uma avaliação da música pela sua importância, representatividade, etc.
Mesmo assim, estimo que a escolha feita pode abrir novos horizontes aos neófitos em música barroca. Em relação aos interpretes, não podia deixar de escolher os que acho serem os melhores, ou entre os melhores.
A música deveria ser - ao mesmo tempo - sensual e espiritual, pois se for deficitária num dos dois atributos, não satisfará inteiramente.
Por sorte, vivo numa época em que se conhece e se pode apreciar o que existiu de melhor na música dos séculos anteriores. Nós somos, portanto, uns privilegiados, no que toca à possibilidade de conhecer e de usufruir das obras-primas musicais do passado.
De seguida, apresento-vos 4 amostras musicais do sublime ...
1º) «Concerto Italiano» J.S. Bach
Nesta perfeita interpretação de Scott Ross ao cravo, é toda a alegria de viver do Mediterrâneo, toda a extroversão dos italianos, que transparecem... mas Bach nunca se deslocou a Itália, nem a outros países meridionais da Europa. Fez uma longa viagem (a pé) ao norte da Alemanha, para aprender com o muito respeitado Buxtehude. Sabemos muitos pormenores da vida de Bach e de suas outras deslocações; pode-se afirmar (com segurança) que ele nunca pôs os pés em Itália. Então, como é possível que esta peça exiba a criatividade melódica, a surpresa harmónica, a agilidade no discurso, típicas da música italiana?
- Estes traços estão bem presentes, podemos dizer que é realmente música italiana e do melhor quilate! Somente, foi um alemão que a compôs: Mas, não foi qualquer um. Ele estava destinado a ser um dos maiores músicos na sua época e na posteridade. Com efeito, ele continua a ser muito apreciado e estudado, passados cerca de 300 anos sobre a composição deste Concerto Italiano.
2º)«Cum Dederit» de Nisi Dominus por António Vivaldi
E por vos falar de música italiana, homenagem é devida a António Vivaldi, o «Padre Ruivo». Ele ensinava música às meninas órfãs do Ospetalle della Pietà, em Veneza. Quem ouvisse apenas esta peça e não soubesse rigorosamente mais nada de Vivaldi, diria que se trata dum compositor muito espiritual... No que estaria correto!
Porém, como a alma tem muita complexidade e o talento imensos recursos, sua arte era também sensual (no sentido nobre). A obra «As Quatro Estações» e inúmeros outros exemplos, incluindo as óperas, vêm confirmar a sensualidade na arte de Vivaldi, para além de qualquer dúvida.
Rameau constrói "uma suite" dentro doutra suite: A peça «Gavotte com variações», está integrada na Suite em Lá. Esta, tem várias danças estilizadas, unidas pela mesma tonalidade.
A minha escolha da interpretação de Natacha Kudritskaya ao piano, não é casual. Aprendi com os meus mestres (e por audição em concertos ou em discos), que era perfeitamente legítimo usar um instrumento diferente daquele usado na época do compositor. Há uma técnica e uma sensibilidade próprias na adaptação para o piano, de peças inicialmente concebidas para outros instrumentos de tecla (cravo, espineta, clavicórdio...).
Posso apreciar - ou não - a interpretação ao piano duma peça escrita para o cravo. Caso não aprecie, a «culpa» não é do instrumento... é do instrumentista que não teve o bom gosto e a técnica para adaptar a peça referida.
4º)«Eternal Source Of Light Divine», G. F. Haendel
Termino com a peça de Haendel, muito conhecida e utilizada ainda hoje, em cerimónias oficiais (não é por isso que ela é melhor ou pior). Esta peça, simplesmente, encanta-me.
Conta-se que a Rainha de Inglaterra, a quem Haendel dedicou esta cantata de aniversário, se mostrou indiferente, na ocasião da estreia. Porém, pouco tempo depois, enviou a Haendel uma generosa remuneração em moedas de ouro.
Quando oiço esta cantata, porém, não fico a pensar nas circunstâncias exteriores da composição.
Para mim, esta peça tem um apelo imediato de autenticidade, apesar de saber quanta arte e técnica existem nela. Ela tem uma «respiração» ampla, majestosa e serena. O diálogo entre a voz humana e a trompete, dá-lhe uma luminosidade inigualável, solene e profunda.
[Este apontamento serve como homenagem a Jacqueline du Pré e Seku Kanneh-Mason. A primeira, já desaparecida, padeceu durante muito tempo de doença incapacitante, com a qual a excelente violoncelista teve de lutar durante vários anos. Seku Kanneh, é um fenómeno de maturidade precoce na arte de interpretar o reportório mais exigente do violoncelo. O seu sucesso estrondoso é bem merecido.]
Élégie de Gabriel Fauré; piano et violoncelle
Violoncelle: Jacqueline Du Pré et piano: Gerald Moore
Estas duas peças, Elegie de Fauré e Elegie de Rachmaninov (esta, inicialmente escrita para piano solo), são muito conhecidas e frequentemente gravadas, ou executadas em recitais.
Elas nos transportam para um universo de sofrimento espiritual, como quando se perde alguém querido. Não são peças para se ouvir distraidamente: Precisamos de nos concentrar na música porque cada nota, cada vibração, cada silêncio, se destinam a fazer-nos penetrar na essência vital das coisas.
Porém, ambas as Elegias apresentam uma saída à depressão, ambas possuem abertura para o céu azul. De facto, são catárses, libertam-nos das obsessões da morte, da tragédia. Elas permitem-nos a reconstrução interior da mente e do afeto, após o luto.
É assim que eu as vejo e que as sinto. Embora sejam bem distintas no estilo e nos processos empregues, há porém um estranho parentesco entre elas. É que ambas se dirigem ao mesmo: À superação do sofrimento resultante da perda de um ente querido.
[Conheça outra Elegia de grande qualidade para violoncelo com orquestra, de Offenbach, «Les larmes de Jacqueline»; aqui interpretada por Gürzenich Kammerorchester Köln]
Estes dois bardos, que se tornaram célebres e foram uma luz de esperança para a juventude de seus países respectivos, tiveram tempos de vida muito diferentes:
Vladimir Vysotsky morreu em 1980, com apenas 42 anos. Mas sua memória eternizou-se. Há artistas, profissionais ou amadores, que continuam a cantar as suas canções, passados 45 anos da sua morte.
Frequentemente nós, os humanos, projetamos, de forma mais ou menos ingénua, os nossos sentimentos, valores e pensamentos noutras espécies animais.
Este vídeo ajuda-nos a reflectir sobre os sons, sua natureza, seu significado e a sua perceção em várias espécies animais.
Co-evolução humanos-cães: De facto, a «compreensão» da linguagem humana pelos cães, não é devida às suas supostas capacidades linguísticas em decifrar e analisar o conteúdo das frases.
Mas, é devida aos muitos milhares de anos de co-evolução cão/homem, que foi seleccionando os animais mais atentos aos sinais gestuais e sonoros dos humanos.
Quando um cão fica atento perante uma música não é por sentido estético, como as pessoas julgam, é porque o comportamento de atenção àquilo que o dono fizer (incluindo tocar música num instrumento ou cantar...), está interiorizado na sua memória genética.
Serenata para seis trombones : O vídeo abaixo é um bom (e divertido) exemplo. Os bovinos são movidos por curiosidade perante os sons, não por «deleite estético»!
Quanto às aves canoras, estas evoluiram (muito antes da existência de humanos) um comportamento de canto, relacionado com o cortejamento e a comunicação dentro do bando. Por isso, estão especialmente atentos a sinais sonoros.
Numerosas espécies de papagaios, vivendo em liberdade imitam, com perfeição, os sons de outras espécies ou até ruídos; não admira pois que, em cativeiro, reproduzam vozes humanas, ou outros sons.
Mas, várias outras espécies de aves são conhecidas pela sua habilidade em reconhecer e reproduzir melodias:
- Mozart tinha um estorninho que reproduzia as melodias que ele lhe ensinava, com toda a facilidade.
Mozart adorava a ave, ao ponto de inserir uma das melodias preferidas* do estorninho num concerto para piano.
Não iremos aqui enumerar a imensa quantidade de lendas que envolvem a capacidade da música em seduzir animais.
Uma hipótese para a origem destas histórias, seria a observação comum de animais que parecem «cativados» pela audição de peças instrumentais... No entanto, estamos equivocados quando imaginamos que o seu sentido estético seja idêntico ao nosso.
-----------------------
* O referido tema do estorninho, no Allegretto do Concerto nº17, com Lang Lang:
O sistema pentatónico não é exclusivo da música tradicional chinesa; longe de ser característica exclusiva, é antes a estrutura (meta-estrutura) que subjaz grande parte da música não-europeia.
No passado, foi muito mais frequente a sua utilização na Europa. Prova disso, no folclore europeu subsistem exemplos de música pentatónica.
A estrutura pentatónica implica uma relação diferente entre os sons da escala. Embora as notas «Do-Ré-Mi-Sol-Lá», sejam comuns a escalas pentatónicas e diatónicas, elas diferem nas relações entre as notas. Nas escalas normalmente usadas na Europa, em músicas tradicionais e clássicas, a escala de oito tons progride em tons inteiros e meios tons. São as posições relativas dos intervalos de meio-tom que definem os dois modos, o modo maior e o menor. Na música pentatónica, as melodias podem ter modulações e transposições, mas não estão estruturadas para convergir na nota «tónica».
As notas simultâneas, na música oriental, ou fazem parte do suporte harmónico, ou resultam do entrecruzamento de melodias. Mas, o contraponto, tal como cultivado no Ocidente, não existe. Porém, a música extra-europeia pode ser muito rigorosa em termos formais. A arte dos compositores e dos interpretes é tal, que dá uma impressão de fluidez.
No Ocidente, muitos compositores, além dos musicólogos, interessaram-se pelo sistema pentatonal, presente nos respectivos folkores ou nas tradições extra-europeias.
Os instrumentos, afinados segundo o princípio da escala pentatónica, são imensamente variados: Os materiais usados incluem o bambu, vários tipos de madeiras, diversos metais, a pele distentida (nos tambores), as cordas (no passado, feitas de tripa), etc.
- O erhu é uma maravilha de simplicidade. O executante experiente pode retirar toda a variedade de sons de somente duas cordas do erhu, vibrando sobre uma pequena caixa de ressonância e usando um arco parecido ao dos violinos.
- O guqin ou «cítara chinesa» (não tem parentesco com as cítaras europeias!) tem uma extensa gama de sons e pode encher uma sala, graças à caixa de ressonância, sobre a qual estão distendidas as cordas; também, graças aos plectros que o instrumentista fixa na ponta dos dedos.
Os instrumentos usados nos conjuntos instrumentais destas gravações, são os tradicionais. A paleta dos timbres e sons é extremamente rica. As possibilidades expressivas são muitas. As composições são especialmente adequadas à sonoridade dos instrumentos respectivos.
Os temas que se podem ouvir nos vídeos abaixo são, ou composições da autoria dum músico determinado, ou adaptações de temas tradicionais.
Não sou entendido em música extra-europeia. Esforço-me por me documentar e apreciar as tradições que a imensa diversidade de culturas nos oferece.
O último vídeo desta selecção é dum conjunto de Dunhuang, uma cidade-etapa nas antigas Rotas da Seda. O tema de abertura na flauta evoca claramente as melopeias árabes e da Ásia central.
Fauré «estava no ouvido» de toda a sua geração. Embora não tenha rompido totalmente com o romantismo, abordou a matéria-prima musical com uma originalidade que contrasta com os autores do romantismo tardio, que se limitavam à reprodução de fórmulas, repetindo o que foi um sucesso, no passado.
Muitas pessoas ouviram a «Pavane», op.50 sem saber o nome do autor:
Esta Pavane tem uma ressonância renascentista e mesmo medieval. Porém, Fauré teve o bom gosto de não pretender imitar a música dessas épocas. A versão orquestral, que ouvimos aqui, foi elaborada pelo próprio compositor a partir da versão para piano.
A Élégie para violoncelo e piano, é porventura uma das peças instrumentais mais conhecidas de Gabriel Fauré. Aqui, na gravação histórica (1969) de Jacqueline du Pré ( violoncelo) e Gerald Moore (piano).
O Requiem Op. 48, de Fauré, é uma obra que continua a suscitar o interesse do público e dos músicos profissionais. Uma das peças extraídas do Requiem, é «In Paradisum»
Se Fauré soa, no século XXI, como moderno e clássico ao mesmo tempo, é - por um lado - que as suas composições são mesmo originais, resultam de procura formal muito exigente. Por outro lado, assume a herança da música europeia, inserindo-se nela - como elemento charneira - entre o século XIX e o século XX.
PS1: Adaptações para violoncelo e piano:
Gautier Capuçon, a siciliana em versão para violoncelo e piano (Michel Dalberto, piano)
Excertos do recital dado por Arthur Rubinstein em Moscovo, em 1964.
A virtuosidade duma interpretação pode avaliar-se pela intencionalidade de cada nota, no discurso musical.
Arthur Rubinstein é ainda hoje referência inultrapassável pela profundidade com que nos devolve os sentimentos encerrados nas partituras de Chopin.
Existem vários outros intérpretes de excepcional qualidade. Porém, eu considero que estas gravações ao vivo de Rubinstein, são momentos em que podemos apreender a estrutura, a expressão e a técnica ao serviço da obra.
Estas peças para cravo (cerca de 130), não foram editadas em vida do compositor e estão dispersas por vários manuscritos. Os movimentos e as tonalidades indicam que elas se destinavam a ser executadas agrupadas em suites. Porém, a composição das mesmas é - nalguns casos - difícil de determinar. Por outro lado, tem-se indicações de que em França, nessa época a música para cravo** não especificava rigorosamente quais as peças de uma Suite, deixando uma certa margem de escolha ao interprete, para incluir - ou não - determinada dança, encurtar ou alargar o conjunto da Suite, etc.
Quanto ao prelúdio, este era praticamente obrigatório, pois desempenhava uma dupla função: Por um lado, permitia o executante certificar-se que o instrumento estava bem afinado para a tonalidade na qual se iriam desenrolar as sucessivas peças da suite; por outro lado, ajudava a criar o ambiente sonoro adequado para os auditores poderem melhor apreciar as subtilezas das diferentes peças da suite, todas no mesmo tom (ou no tom relativo) do prelúdio.
Em todo o caso, o grau de latitude improvisatória que exprimem estes prelúdios «non-mesurés», não nos deveria surpreender. A música barroca em geral ( quer na França ou noutro país participante no grande movimento estético, que se estendeu, pelo menos, durante um século e meio ) era música com elevado grau de improviso. Improvisar era não só admitido, como encorajado. Mas, o improviso obedecia a regras gerais e específicas aos instrumentos utilizados e ao carácter das peças.
-----------
* Os préludes non-mesurés são peças onde as notas não têm os seus valores relativos (colcheias, semínimas, etc), onde apenas estão registadas as alturas relativas dos sons. Não têm compasso ("non-mesurés"), pelo que nestas incertezas de tempo e de rítmo, a sensibilidade e perícia do intérprete contavam mais ainda do que numa peça «vulgar». Pode dizer-se que é uma particularidade da Escola Francesa de cravo. Não conheço exemplos não-franceses de peças «non-mesurées»
** François Couperin, sobrinho de Luis Couperin, escreveu um célebre livro didático para o cravo «L'Art de Toucher le Clavecin» .
Veja o artigo sobre o mesmo (também com exemplos de prelúdio):
Esta canção descreve a vida quotidiana dos soldados nas trincheiras, como eles morriam e como ficavam inválidos para toda a vida.
Oiça o poema sobre estes soldados.. A letra é de Louis Aragon: ele foi soldado na 1º Guerra Mundial
A música é de Léo Férré, cantor/compositor que dedicou um álbum inteiro a poemas de Aragon.
Férré pôs em música poesias de sua própria autoria e também poemas de poetas célebres: Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e outros.
Registam-se aqui duas interpretações da canção: Pelo autor da música, Léo Férré e por Caterine Sauvage.
Canção do album «Léo Férré Chante Aragon»
O
Versão da Canção por Caterine Sauvage
Letra da canção Tu N'en Reviendras Pas
Tu n'en reviendras pas toi qui courais les filles Jeune homme dont j'ai vu battre le coeur à nu Quand j'ai déchiré ta chemise et toi non plus Tu n'en reviendras pas vieux joueur de manille
Qu'un obus a coupé par le travers en deux Pour une fois qu'il avait un jeu du tonnerre Et toi le tatoué l'ancien légionnaire Tu survivras longtemps sans visage sans yeux
On part Dieu sait pour où ça tient du mauvais rêve On glissera le long de la ligne de feu Quelque part ça commence à n'être plus du jeu Les bonshommes là-bas attendent la relève
Roule au loin roule train des dernières lueurs Les soldats assoupis que ta danse secoue
Laissent pencher leur front et fléchissent le cou Cela sent le tabac la laine et la sueur
Comment vous regarder sans voir vos destinées Fiancés de la terre et promis des douleurs La veilleuse vous fait de la couleur des pleurs Vous bougez vaguement vos jambes condamnées
Déjà la pierre pense où votre nom s'inscrit Déjà vous n'êtes plus qu'un mot d'or sur nos places Déjà le souvenir de vos amours s'efface Déjà vous n'êtes plus que pour avoir péri
A palavra FADO tem orígem no latim, FATUM, que significa destino.
No português corrente, tem seguramente conotação de má sorte, quando se diz «é o meu fado». Não admira, pois tem sido o fado deste povo que atravessou oceanos em busca de «El Dorados». Muitos deles, nunca chegaram a alcançar fortuna e voltaram à terra natal em estado miserável, como Camões, ou morreram em terras distantes e, muitas vezes, a tumba foi de água oceânica, em numerosos naufrágios, que engoliram caravelas e suas tripulações, transportando preciosas especiarias (canela, pimenta...) para os mercados europeus.
O passado trágico do século XVI, dito «grandioso», acabou com a derrota de Alcacer Quibir, seguido pela a perda de independência com a união do reino de Portugal à coroa de Filipe de Espanha. Esta sucessão de tragédias ficou refletida numa mágoa persistente nas vozes do povo anónimo, que nunca são citadas nos livros de História. Porém, são a história pessoal de muita gente. As «viúvas de vivos», era como se designavam as mulheres de emigrantes, que partiam para longe. Eles, labutando duramente em países estrangeiros, para construir um bem-estar sólido para as suas famílias.
Uma grande parte do Fado é, porém, de temática amorosa, como aliás a canção popular em geral. Mas no fado, é muito frequente o lamento da separação, do desencontro, do engano e desengano, enfim de histórias de amor que correram mal, de alguma forma.
Também está muito presente o tema da saudade, no fado e na poesia portuguesa. Esta expressão, não tendo correspondência exata noutras línguas, exprime um estado de melancolia e de fixação no passado, onde se projetam recordações o ser amado e de todos os momentos felizes, em geral.
Há muitos estudos sobre as origens do fado.
O fado, hoje, realmente corresponde a um tipo definido de música, pese embora a diversidade dos seus compositores e interpretes. Dizem que o fado tem origem no «lundum», um cântico negro, cantado pelos escravos negros no Brasil, desde que estes foram levados para as plantações (as roças), sofrendo a brutalidade dos donos coloniais.
Mas, também se fala da relação com as melopeias árabes - lembrança longínqua do Portugal que foi mouro, com uma presença de sete séculos, e deixou raízes profundas no folclore, embora o povo não tivesse ideia que suas expressões artísticas tinham efetiva origem na riquíssima civilização arabe ibérica (El Andaluz era a designação da Ibéria pelos mouros), que foi a mais avançada na Idade Média.
Na origem, o que hoje se chama «fado», estava enraizado em várias tradições orais, na fluidez e musicalidade próprias da música popular. Mas, como documentos, os mais antigos fados escritos e partituras editadas datam de finais do século XIX. Eles estão curiosamente associados, em muitos casos, com o proletariado urbano lisboeta, não ainda maioritariamente trabalhando na grande indústria, mas em pequenas fábricas e oficinas, que se situavam em bairros pobres: Alfama, Mouraria, Castelo, Madragoa ... eram bairros habitados por pessoas humildes, as casas não tinham condições mínimas, as ruas eram estreitas e mal iluminadas. Havia neles muita pobreza e com ela, alcoolismo, prostituição, marginalidade, etc. Havia nessa época uma estricta divisão das classes, embora alguns nobres boémios frequentassem prostíbulos situados nesses bairros. Tais boémias estão na origem de histórias romanceadas, como a da Severa , que foi amante do Conde de Vimioso.
Sendo impossível falar em pormenor dos muitos compositores e poetas que escreveram para Amália especificamente, ou daqueles que Amália apropriou as canções pré-existentes e lhes deu nova vida, com a sua voz e sensibilidade magníficas, queria sublinhar o caso de Alain Oulman. Ele compôs música sobre poemas escritos por poetas famosos ou bem conhecidos, da literatura portuguesa. No total, não sei quantos poetas de renome foram cantados por Amália: Luíz de Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O' Neill, José Régio, Manuel Alegre, Pedro Homem de Mello, Cecília Meirelles, Ary dos Santos, etc. A própria Amália assinou letras de fados.
Para terem uma ideia da qualidade e diversidade da poesia nos fados de Amália Rodrigues, podem ouvir a playlist, com o título «AMÁLIA RODRIGUES: O FADO».
A vida corpórea dos compositores e intérpretes é finita. Porém, eles são eternizados pela execução das composições/canções/poemas e pela constante presença na memória coletiva.
É o caso de Amália e doutros, que comparticiparam na gesta de transformar o fado num expoente da alma portuguesa.
PS: Juntei recentemente um poema de Camões, musicado por Alain Oulman, «Dura Memória»:
Dura Memória
Memória do meu bem, cortado em flores, Por ordem de meus tristes e maus fados Deixai-me descansar com meus cuidados Nesta inquietação dos meus amores.
Basta-me o mal presente, e os temores Dos sucessos que espero infortunados Sem que venham, de novo, bens passados Afrontar meu repouso com suas dores.
Perdi numa hora tudo quanto em termos Tão vagarosos e largos, alcancei; Deixai-me, com as lembranças desta glória
Cumpre-se e acaba a vida nestes ermos Porque neles com meu mal acabarei Mil vidas não, uma só - dura memória!...
Desenho do compositor, por Picasso, na capa de uma selecção de obras de Eric Satie
Aos 101 anos da sua morte, Eric Satie continua a ser mal compreendido pelo público, em geral e mesmo pelos críticos musicais. No entanto, como elemento verdadeiramente original dos princípios do século XX, a sua obra guarda enorme interesse e atualidade. Aliás, vários compositores dos séculos 20 e 21, foram influenciados pelas suas obras.
A música de Eric Satie é especial. É simples na estrutura, subtil no discurso musical e sedutora na sua austeridade... Talvez sejam as razões porque é agora mais popular do que nunca, passados mais de cem anos sobre a sua morte.
As 7 peças das «Gnossiennes» têm um caráter de reflexão pausada. Elas estão na antítese de boa parte da música da sua época, apesar de terem traços comuns à escrita musical de Debussy ou Ravel. A atmosfera que emana das composições de Satie escapa ao encerramento dentro de uma escola, de uma época.
Ele serve-se de estruturas musicais extra-europeias: Por exemplo, as peças são frequentemente modais, o que não era nada comum, pois a música tonal ainda era a dominante. Recusa-se a fazer modulações que se limitam a ser transposições de uns tons para outros. Por outro lado, a repetição insistente de alguns motivos melódicos, tem um efeito encantatório, hipnótico.
Curiosamente, ele não se coloca formalmente em ruptura com o passado, como o fizeram, desde o início do Século XX, vários vanguardistas.
Se há peças musicais que ajudam a concentrar numa tarefa - a estudar, desenhar, etc - as 'Gnossiennes' são das mais adequadas.
A colombiana Mónica Giraldo é a minha mais recente descoberta no domínio do canto popular latino-americano.
Ela cresceu numa família musical e começou muito cedo a compor canções.
O que é notável, para mim, é a naturalidade: as melodias, a expressão e o sentido das palavras, conjugam-se de forma perfeita, harmoniosa.
Mas, ainda por cima, não deixa de cultivar a tradição; Mónica explora todo o campo da música latino-americana (e mesmo, napolitana).
A América-Latina é um sub-continente com imensa variedade musical. Os músicos latino-americanos são conhecedores, não apenas das tradições nacionais, como das de todo o Continente. As raízes da música, tanto folclórica, como erudita, são muito diversas. Recebem a contribuição de muitas culturas: indígenas, africanas, da Ibéria, de Itália ... e de muitas outras nações. A América Latina é um caldo de cultura do mundo inteiro.
Mónica Giraldo é um exemplo bem eloquente de criatividade e de calor humano. Qualquer que seja a tua origem, vais te sentir envolvido pela voz, o rítmo, a melodia.
Nós já mencionámos aqui, nas «Segundas-feiras musicais», a importância de François Couperin na música em geral e no barroco francês, em particular. Também dedicámos um artigo aos 2 livros de órgão, por ele escritos.
Embora François Couperin tenha escrito obras estrictamente litúrgicas, não é propriamente nessa qualidade que ele é recordado, mas na de músico da corte de Luís XIV, o «Rei Sol». As suas composições para vários instrumentos, nomeadamente a série de concertos intitulada «Les Nations», dão continuidade à música concertante francesa, distinta, na sua estrutura e conteúdos, do concerto italiano. Este, como toda a espécie de música italiana (ópera, oratória, concerto com solistas, etc.), apoderou-se das cortes e dos palcos, durante mais de um século.
François Couperin atingiu celebridade comparável à de muitos outros grandes vultos da era barroca. Porém, só muito tarde (anos 1960 e posteriores) começaram suas peças a ser estudadas e apreciadas por um público mais amplo, graças ao movimento de fazer reviver a música das eras passadas com instrumentos de origem, ou suas cópias fiéis. Não apenas isso, como a séria investigação em musicologia e análise musical, que permitiram restituir a maneira graciosa e subtil da «arte de tanger as teclas» e a adaptação da ornamentação às regras implícitas ou explícitas em cada escola, em cada época.
No estudo e formação de jovens cravistas, o breve tratado que apresentamos aqui, composto e editado pelo próprio François Couperin, desempenha um papel central. Os oito prelúdios (e a Allemande que abre a obra) acompanham-se de conselhos sobre como dedilhar as peças e a utilização dos ornamentos. Enquanto a edição inicial (de 1716) apenas refere exercícios de técnica e notas sobre como dedilhar a obra «Pièces de Clavecin», além de um ensaio sobre ornamentação, a edição de 1717 inclui um novo prefácio e um suplemento descrevendo o modo de dedilhar o segundo volume das «Pièces de Clavecin». O autor propõe também que os possuidores da primeira edição a troquem gratuitamente pela edição de 1717, com o novo prefácio e os suplementos acima descritos. Por esta razão, os exemplares da primeira edição, são hoje muito raros.
Uma característica notável destes prelúdios, é a sua musicalidade, a sua variedade também, ao ponto de serem tangidos por si mesmos, não como uma introdução de Suite (ou Ordre) no mesmo tom, como era costume fazer-se.
Os prelúdios têm personalidade própria; são muito usados como peças pedagógicas para os principantes no estudo do cravo; mas também, em disco ou em concerto, por cravistas de renome.
Abaixo, pode escutar a integral das partes musicais da «Art de Toucher Le Clavecin» com as respectivas partituras, numa edição moderna. Os textos em francês são os originais de François Couperin, com traduções (pelo editor contemporâneo) em alemão e inglês.
Para estudiosos e melómanos com interesse em comparar os estilos interpretativos na música para cravo, existem hoje várias obras eruditas de musicólogos, pelo que um cravista pode adequar a sua execução das peças ao que se sabe seguramente sobre os estilos intepretativos dos finais do século XVII e princípios do século XVIII, tanto em França, como na Alemanha, nos Países Baixos, na Península Ibérica ou em Itália. Respeitando os canons interpretativos da região e da época, ele é livre de escolher a interpretação que lhe é própria, dentro de uma vasta gama de hipóteses sem - com isso - trair a autenticidade das peças.
A fluidez da música barroca e especialmente da música para cravo solo, deve-se ao papel importante que desempenhava a improvisação: Esta, podia ser livre, embora geralmente a partir de um tema. Podia corresponder a uma série de variações improvisadas sobre uma canção ou trecho. Podia existir dentro de cada peça, ao nível das ornamentações, das mudanças de teclado, dos registos, do andamento... Nestas circunstâncias, os grandes interpretes do tempo de Couperin - e os de hoje - podiam ser fiéis ao espírito de uma peça, apesar de divergirem nos aspectos acima mencionados.
As obras para órgão de Louis Couperin (1626-1661) foram, durante muito tempo, desconhecidas. Só vieram à luz, graças à descoberta (pelo musicólogo inglês Guy Oldham) de um manuscrito, no ano de 1958. Este, contém cerca de 70 peças, de uma excelente qualidade e variedade; incluem peças propriamente litúrgicas (baseadas no cantochão gregoriano), fugas sobre temas (como «Urbs Beata», «Conditor») e peças de estilo "livre", fantasias, principalmente.
A sua obra de órgão é de grande importância para a evolução da escola francesa, pois faz a ligação entre Titelouze (c. 1562/63 – 1633) e Nivers (1632-1714) .
No link seguinte, «Obras de Louis Couperin», podeis encontrar a lista completa das obras instrumentais deste importante compositor do século XVII. Em termos de divulgação, as obras para cravo são mais frequentemente executadas, que as para órgão. Com efeito, Louis Couperin foi um importante compositor para cravo: São consideradas invenções dele os «Préludes non mesurés», ou seja, prelúdios típicos da escola francesa de cravo. Tem numerosas Fantasias para cravo, suites, peças descritivas e as Chaconnes e Passacailles, de grande qualidade. A sua obra para o cravo será objeto dum artigo específico, na rubrica das «Segundas-f. musicais».
Os acasos da História da Música, assim como a fama alcançada pelo sobrinho, François Couperin, cravista da corte de Louis XIV, fizeram com que o sobrinho recebesse o cognome de «Le Grand», eclipsando parcialmente a memória do tio (cuja influência é bastante nítida nas obras para órgão do sobrinho François).
Não nego que François Couperin seja um dos maiores compositores franceses de todos os tempos. Mas, convém sublinhar que estava inserido numa família de músicos ao longo de várias gerações, tal como os Bach: Houve diversos Couperin talentosos, antes e depois de François, o mais célebre.
Esta fantasia, assemelha-se estilisticamente a peças de François Couperin para órgão, especialmente do livro de órgão «Messe à L'Usage des Paroisses».
A interpretação é no órgão da Igreja de Saint Gervais, em Paris: Foi o órgão de que Louis Couperin e várias gerações de sua famíla, foram organistas. É uma maravilha de equilíbrio sonoro. É muito adequado para o reportório do século XVII . A peça é interpetada por Aude Heurtematt, organista titular.
Das cinco peças para órgão, interpretadas por Pieter Dirksen, a primeira é uma Toccata/ Prélude ao modo francês, solene e utilizando os «cheios» ( Plein Jeu) do órgão. A segunda é uma fantasia, usando um registo (tierce) que soa uma terceira acima do registo de 8' e um "tremblant" (registo usando trémolo/vibrato). A terceira peça, é uma fantasia para o baixo de cromorne, um registo que imita o som anasalado do cromorne. Um dueto (peça nº4) e um «Petit Plein Jeu» (nº5) (no segundo teclado do órgão, com menos registos graves que o «Grand Plein Jeu» no teclado principal), finalizam este pequeno recital.