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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

«O TIO LOUIS » (Segundas-f. musicais nº46)

                                 https://www.organsparisaz4.orguesdeparis.fr/St%20Gervais.htm

As obras para órgão de Louis Couperin  (1626-1661) foram, durante muito tempo, desconhecidas. Só vieram à luz, graças à descoberta (pelo musicólogo inglês Guy Oldham) de um manuscrito, no ano de 1958. Este, contém cerca de 70 peças, de uma excelente qualidade e variedade; incluem peças propriamente litúrgicas (baseadas no cantochão gregoriano), fugas sobre temas (como «Urbs Beata», «Conditor») e peças de estilo "livre", fantasias, principalmente. 

A sua obra de órgão é de grande importância para a evolução da escola francesa, pois faz a ligação entre Titelouze (c. 1562/63 – 1633) e Nivers (1632-1714) . 

No link seguinte, «Obras de Louis Couperin», podeis encontrar a lista completa das obras instrumentais deste importante compositor do século XVII. Em termos de divulgação, as obras para cravo são mais frequentemente executadas, que as para órgão. Com efeito, Louis Couperin foi um importante compositor para cravo: São consideradas invenções dele os «Préludes non mesurés», ou seja, prelúdios típicos da escola francesa de cravo. Tem numerosas Fantasias para cravo, suites, peças descritivas e as Chaconnes e Passacailles, de grande qualidade. A sua obra para o cravo será objeto  dum artigo específico, na rubrica das «Segundas-f. musicais».

Os acasos da História da Música, assim como a fama alcançada pelo sobrinho, François Couperin, cravista da corte de Louis XIV, fizeram com que o sobrinho recebesse o cognome de «Le Grand», eclipsando parcialmente a memória do tio (cuja influência é  bastante nítida nas obras para órgão do sobrinho François). 

Não nego que François Couperin seja um dos maiores compositores franceses de todos os tempos. Mas, convém sublinhar que estava inserido numa família de músicos ao longo de várias gerações, tal como os Bach: Houve diversos Couperin talentosos, antes e depois de François, o mais célebre. 



Esta fantasia, assemelha-se estilisticamente a peças de François Couperin para órgão, especialmente do livro de órgão «Messe à L'Usage des Paroisses».

 A interpretação é no órgão da Igreja de Saint Gervais, em Paris: Foi o órgão de que Louis Couperin e várias gerações de sua famíla, foram organistas. É uma maravilha de equilíbrio sonoro. É muito adequado para o reportório do século XVII . A peça é interpetada por Aude Heurtematt, organista titular.






Das cinco peças para órgão, interpretadas por Pieter Dirksen, a primeira é uma Toccata/ Prélude ao modo francês, solene e utilizando os «cheios» ( Plein Jeu) do órgão. A segunda é uma fantasia, usando um registo (tierce) que soa uma terceira acima do registo de 8' e um "tremblant" (registo usando trémolo/vibrato). A terceira peça, é uma fantasia para o baixo de cromorne, um registo que imita o som anasalado do cromorne. Um dueto (peça nº4) e um «Petit Plein Jeu» (nº5) (no segundo teclado do órgão, com menos registos graves que o «Grand Plein Jeu» no teclado principal), finalizam este pequeno recital.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O GÉNIO BARROCO de TOMASO ALBINONI [Segundas-f. musicais nº45]




Há muito mais a apreciar em Albinoni, além do «seu» Adágio. 

 Remo Giazotto  (1910- 1998) foi um musicólogo italiano que estudou e editou obras de compositores italianos do barroco e teve a sorte de ter encontrado um manuscrito com fragmentos de um Adagio de Albinoni. Este manuscrito continha a linha do baixo e alguns compassos, escritos para o violino. O célebre adagio não se pode - na realidade - designar como obra de Albinoni; nem sequer se deve considerar que Giazotto efetuou um "restauro" de tal peça. Seria mais correcto considerar a composição como sendo sua, de Giazotto, embora utilizando elementos do manuscrito de Albinoni, acima referido.

Porém, Albinoni não tem culpa deste equívoco. Sua obra (abundante, mas parcialmente destruída em incêndio, no bombardeamento de Dresden, no final da IIª Guerra Mundial pelos aliados) é de qualidade cimeira, a julgar pelo que nos resta. São peças muito perfeitas do ponto de vista formal.  Tal legado não deve ser visto à luz de uma só peça, de atribuição questionável. Com efeito, o famoso Adagio, tem muito pouco do compositor veneziano do século XVIII. 

De qualquer maneira, a qualidade de Albinoni, enquanto compositor, está claramente ao nível dos melhores de  Itália, da primeira metade do Século XVIII.

 J. S. Bach tinha acesso à biblioteca de manuscritos e edições coleccionadas pelo seu patrão, o Príncipe de Köthen. Bach conheceu e apreciou obras de Albinoni, tal como em relação a Vivaldi, Marcello e vários outros. Bach fez transcrições de obras destes mestres italianos. Alguns concertos foram adaptados para o órgão; a maioria, no entanto, destinava-se ao cravo. 

 Igualmente notável, é o conhecimento aprofundado de Haendel em relação à música italiana: Ele tirou imenso partido da estadia  em Roma, na sua juventude. Compôs óperas italianas, oratórias em latim segundo o rito católico e música instrumental ao gosto italiano. Várias obras instrumentais, que compôs estando já em Inglaterra,  evocam concertos de Corelli, de Locatelli, de Vivaldi e de outros italianos. Estava na moda a música italiana. Esta atingiu o auge de popularidade em meados do século XVIII. Durante muito tempo, foi «obrigatório» os músicos das diversas nacionalidades europeias comporem óperas ao estilo italiano e utilizando a língua italiana. Mozart (entre outros) compôs algumas das suas  melhores óperas em italiano. 

Nas cortes europeias, abundavam  os italianos. Muitos deles eram músicos instrumentistas, outros cantores; os mais célebres eram mestres-de-capela, ou músicos ao serviço exclusivo de monarcas e príncipes (ex.: Domenico Scarlatti).

As melodias, nos concertos de Albinoni, que se podem ouvir no vídeo abaixo (concertos para oboé ou violino), possuem grande qualidade expressiva. Os «tutti» são vigorosos e as partes de orquestra são discretas, ao  acompanhar os solistas.  Os movimentos são quase sempre Allegro-Adagio-Allegro, o que não é monótono devido à  variedade de tratamento dos temas (variações, modulações...) e aos diversos acompanhamentos utilizados. 

A arquitetura sonora geral é muito equilibrada, o que permite ao(s) solista(s) desenrolar o discurso "cantabile" e personalizado: Uma panóplia de ornamentos não escritos, permitia aos solistas enriquecer a melodia. Os melhores executantes não sobrecarregavam as melodias com adornos; tratava-se antes de adornar, sem adulterar a linha melódica.

Esta música, aparentemente «fácil», é possuidora de grande subtileza. Tal como, nos séculos XVI e XVII, as igrejas e basílicas em estilo barroco, tinham um traçado exterior austero e um interior cheio de ricas decorações requintadas

Estes concertos de Albinoni não nos deixam de impressionar, ainda hoje, passados mais de três séculos. 




PS1: apreciem o Adágio  no 2° movimento do concerto em Ré menor para oboé e orquestra de cordas.
 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

KHACHATURIAN - Masquerade Suite [Segundas-f. musicais Nº44]

 



                                          https://www.youtube.com/watch?v=6NTdPMRhKXI

Para acompanhar o fim do ano de 2025, uma suite de Khachaturian , designada "Masquerade": Pareceu-me adequada, não apenas musicalmente, também enquanto ilustração literal* de certos momentos do  ano de 2025 .
A suite inicia-se com uma valsa, que faz pensar na Valsa n°2 da "jazz suite" de Shostakovich, embora as duas sejam muito diferentes. Na realidade, o que as une, além de ambas terem sido compostas por autores soviéticos, é terem sido compostas para certos filmes e posteriormente terem sido «recicladas» noutros filmes.
O compositor arménio é recordado, sobretudo, pela "Dança dos Sabres". Porém, a sua vasta produção tem sido relegada a um quase esquecimento. Vários compositores de talento são vítimas deste tipo de injustiça - o conjunto da obra é ignorado,  enquanto apenas uma peça se torna célebre.
Khachaturian, por sinal, tem uma rica e diversificada obra. É o compositor da Arménia mais importante do século XX. Ele incorporou nas suas obras traços de folclore da Arménia, do Cáucaso, da Europa do Leste e Central.
Neste blog, temos dado a conhecer o célebre e o obscuro, sempre guiados pelas nossas preferências estéticas. Assim, esta obra de Khachaturian parece-me perfeitamente adequada para a rubrica «Segundas-f. musicais».
Abaixo, alguns links que permitem conhecer a biografia, assim como algumas das obras do grande compositor arménio.
Vale a pena aprofundar o conhecimento da obra de Khachaturian.






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*Faz-me pensar em mascaradas de alguns governos, bastante letais, pois prolongam a guerra!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Uma lição de PIANO com LISZT (Segundas-f. musicais n°43)




 No vídeo acima, relata-se um episódio do fim da vida de Franz Liszt (70 anos): Uma lição em que ele utiliza «La Campanella» para explicar que é preciso estar completamente concentrado na música, para superar as dificuldades técnicas. 
No vídeo também é referido que os jovens pianistas desejavam ser seus alunos, para colocar no curriculum que "tinham aperfeiçoado a sua técnica  com Liszt" (!)

Esta peça de Paganini é surpreendente: Foi erigida em símbolo de virtuosismo inultrapassável. Uma espécie de «certidão» do talento e agilidade do violinista ou do pianista. 

Abaixo, dois artigos que escrevi neste blog e relacionados com «La Campanella» e com o aproveitamento de temas por compositores, usando- os como fonte de inspiração. 


MÚSICA COPIADA, TRANSCRITA, ADAPTADA (segundas-feiras musicais nº3): Neste artigo, pode escutar Yuja Wang interpretando a Rapsódia de Rachaminoff para piano e orquestra sobre tema (capriccio n°24) de Paganini.

A acrobacia musical não é o que mais me entusiasma; admito porém que a «performance» duma peça reputada muito difícil, é o que atrai mais as pessoas. Vêem nisso um «prodígio». Mas, o treino musical não deveria ser equiparado ao desporto, onde se treina a rapidez, a agilidade, etc. Porque a musicalidade consiste em fazer com que, numa dada peça, sobressaiam os aspectos originais, profundos e belos: Assim, um adagio pode bem ser de execução «transcendental», para utilizar o título da recolha «Estudos de execução transcendental» de Liszt. 




segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Elvis ainda E SEMPRE favorito [Segundas-f. musicais n°42 ]

 


...Quando surgiu como um furacão nos Estados Unidos, este fenómeno não me impactou, porque era um menino e vivia num país afogado em censura, hipocrisia e convencionalismo. Tudo o que fosse ou se assemelhasse a rebelião, mesmo que apenas em canção, era banido da rádio. A rádio era o meu veículo de contacto com a música rock e pop, que estava operando uma «revolução sonora» e também comportamental, nos adolescentes da época.

Mas, o facto é que a fama de Elvis Presley era tão grande, que derrubava muitas barreiras. Eu, por volta dos dez anos, preferia os Beatles e os Rolling Stones, mas não deixava de prestar ouvido atento a Elvis Presley.

Ele era, não apenas idolatrado, como incendiava os corações das moças. O seu reportório de canções românticas, sobretudo, derretia as meninas adolescentes, mais do que as canções de rock endiabrado e irónico, que também eram a sua marca.

No decurso da minha adolescência, Elvis Presley já se transformara, perdendo muito do impacto inicial, mas isso não é surpreendente, é mesmo a norma, nas carreiras da maior parte dos ídolos. No entanto, a memória de Elvis perdurou, muito para além da sua vida.

Não há muitos outros, no rock e pop, que conservam na minha memória a frescura que Elvis transmite.

Hoje, decidi seleccionar algo que é, por definição, subjectivo escolhendo apenas 12 canções de que gosto. Nem todas são grandes sucessos comerciais. Cada pessoa terá a sua lista própria de canções preferidas.

Consulta aqui a playlist Elvis Presley




segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A SINFONIA DE MONTEVERDI A HAYDN (Segundas-f. musicais nº41 )






A sinfonia é um género musical, que teve uma evolução muito rápida na época clássica. 

O típico exemplo de «sinfonia clássica» possui 4 movimentos: um allegro inicial, um andante ou adagio; um scherzo (ou um menuet) e um final (presto ou allegro molto). Esta codificação, como todas em música, pode sofrer pequenas variações. Por exemplo, a sequência acima descrita pode ser antecedida por um breve andamento lento e solene... 

As sinfonias que aparecem antes da época clássica, possuem o mesmo nome, mas francamente não pertencem ao mesmo tipo de música. Receberam o nome «sinfonia», no sentido de serem peças em que os vários instrumentos formam conjunto. Mas, de resto pouco mais têm em comum. A designação de tais peças tornou-se comum em óperas já no tempo de Monteverdi, sendo depois muito frequente aparecer em oratórias e cantatas. Haendel e J.S. Bach compuseram sinfonias no sentido antigo do termo. Carlos Seixas e Vivaldi, seus contemporâneos, usaram o termo no mesmo sentido. 

As primeiras sinfonias no sentido moderno são devidas à escola napolitana, com Alexandre Scarlatti e seus discípulos. Nesta época (por volta de 1700) o termo era intercambiável com o de «Overture». De facto, muitas aberturas de óperas tinham a designação e estrutura da sinfonia.

Foi a escola Checa com Johann e Carl Stamitz, que no século XVIII codificou a sinfonia: os andamentos, os naipes de instrumentos e a unidade temática de cada andamento. 

O célebre e cosmopolita Johann Christian Bach, filho de João Sebastião, fez carreira em Milão e em Londres. Ele compôs sinfonias e concertos para orquestra com solista. A sua criatividade e seu saber transparecem nas sinfonias, pelo equilíbrio entre a tradição do barroco e o  estilo galante. 

Mas, foram Mozart e Haydn que elevaram a sinfonia ao estatuto de composição de grande significado, de monumento revelador dos recursos do compositor e que punha à prova a qualidade dos instrumentistas e do maestro.

Cada exemplo abaixo, justificaria extenso comentário. Mas, decidi cingir-me apresentar as peças, esperando que a curiosidade do auditor o leve a procurar elementos sobre elas e seus respectivos compositores.

                  MONTEVERDI    
                                                                             Sinfonia do «Orfeo»



J. B. LULLY       
   
                   Sinfonia de «Amadis»


                                                                                  Sinfonia em Si bemol maior


VIVALDI       
                                                                                 Sinfonia «Al Sepolcro»


                                                   Andante da Sinfonia em Ré Maior Op. 18, No. 4

             
 
                              

W.A. MOZART. 1º andamento da Sinfonia «Praga»



                                                                    Andante da sinfonia Hob. 101 «The Clock»



                            


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

MÚSICA CIGANA (INSTRUMENTAL) [ Segundas-f. musicais, Nº39]



A música cigana é pouco conhecida, fora dos círculos interessados na cultura da etnia cigana. Porém, tal como outras manifestações originalíssimas da alma cigana, esta música contribuiu muito para a cultura europeia, não apenas no folklore e no jazz, mas na música erudita* também. 
Esta música é poucas vezes correctamente valorada, pois é expressão da cultura de um povo minoritário e nómada, recebendo desprezo racista, desde as épocas mais recuadas, duma parte dos povos sedentários, por onde passavam. 
Aqui, escolhi versões de músicas muito conhecidas, por interpretes que eu aprecio, independentemente de serem, ou não, ciganos. 
Deliciem-se - como eu - perante o rico manancial de talento e originalidade.


                                             Basilic Swing - "As Duas Guitarras" (ao vivo)


Django Reinhardt - Les Yeux Noirs

 

                                              Solo de Cimbalon por Jeno Farkas (Hungria)


Paco de Lucia - Entre dos águas



*É bem conhecida a influência  de música gitana na obra de Brahms








segunda-feira, 2 de junho de 2025

VILLA-LOBOS e Música da América Latina (Segundas-f. musicais nº36)

                                   O VIOLÃO DE VILLA-LOBOS, por TURÍBIO SANTOS


                       

Este meu texto é para confessar a minha ignorância. 
Eu sei que existem escolas nacionais no continente Sul e Centro Americano; que há imensos intérpretes que divulgam em concerto e disco as composições destes latino-americanos.  
Sei também que a música «erudita» desses países incorpora naturalmente muitos elementos de folclore tradicional destas regiões. No entanto, o meu foco de estudo tem sido a música «clássica» europeia, em especial o barroco, o classicismo e o romantísmo. 
Isso deve-se à minha educação; ao que tive oportunidade de aprofundar nos anos formativos da minha vida. Mas, reconheço que este etnocentrismo é - afinal - um empobrecimento ao nível pessoal e do público nos países europeus, em geral. 


Bachianas Brasileiras No. 5 • Villa-Lobos • Barbara Hannigan




Encorajo as pessoas que me lêem a procurar ativamente as obras de Villa-Lobos, como de outros geniais compositores da América Latina: Do México, até à ponta Sul do continente, da Argentina e do Chile.


Márquez: Danzón Nr. 2 ∙ hr-Sinfonieorchester ∙ Andrés Orozco-Estrada



 Tenho copiado obras de compositores latino-americanos para este blog. Pode considerar estes exemplos como um estímulo para descobrir outras jóias musicais da América Central e do Sul.













GUITARRA CLÁSSICA (contém várias composições para violão da América latina)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Segundas-f. musicais (nº30): HISTÓRIA ILUSTRADA DO FORTEPIANO


                   FORTEPIANO QUE PERTENCEU A BEETHOVEN (foto acima)

Descubra as simbioses entre o instrumento, os compositores e os  interpretes, ao longo de três séculos, no documentário seguinte:

 The History of the Pianoforte - A Documentary by Eva and Paul Badura Skoda




Em complemento, seleccionei alguns vídeos:

Sonata «Pathétique» de Beethoven, por  Petra Somlai.

CARLOS SEIXAS - SONATAS  por Cremilde Rosado Fernandes

Allegro de sonata de Giustini, por Cremilde Rosado Fernandes

D.Scarlatti: Sonata K.213, por Michio O'Hara

W.A. Mozart: Fantasia K. 397 (por Christof Hammer)

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RELACIONADO: PLAYLIST «ATUAÇÕES AO VIVO»




segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

B como Bach (Segundas-f. musicais nº. 29)

A primeira peça é uma Allemande da suite francesa BWV 815. Ela é interpretada por Robert Hill, num cravo com registo de alaúde.  

A suite instrumental no tempo de J. S. Bach, era constituída por danças estilizadas (Allemande, Courante, Sarabande, Menuet, Gigue), às quais se juntavam, frequentemente, peças facultativas. Nesta categoria, incluiam-se danças como a Bourrée, o Rigaudon, etc. Mas, também eram frequentes, sobretudo nos cravistas franceses (François Couperin, J-P Rameau, etc), outras peças, homenageando uma personagem, a quem o autor dedicava a partitura.  

Na sequência de danças estilizadas da suite, a Allemande costumava ser a primeira peça. Mas, por vezes, esta sequência de danças era antecedida de um preâmbulo (ou prelúdio).



O número de suites para alaúde que Bach deixou para a posteridade não é elevado. Algumas suites para violoncelo solo foram transcritas para alaúde, por Hopkinson Smith. Estão em conformidade com a prática da época barroca de não limitar a interpretação duma peça, a um instrumento em particular; muitas peças podem ser interpretadas noutros instrumentos (diferentes do habitual), com as devidas adaptações. 

As suites de Bach para o alaúde iniciam-se com um prelúdio. O prelúdio destinava-se a criar um ambiente, desenvolvendo uma sucessão de acordes, habituando o auditor à tonalidade geral da suite. Além disso, permitia verificar a afinação do instrumento. A afinação «desigual» ou «não temperada»,  permitia ao instrumentista adequar a afinação do instrumento ao caráter da peça que ia interpretar: Esta prática desapareceu na música ocidental; encontra-se apenas na música clássica da Índia, nas ragas indianas, com as centenas de escalas diferentes e as diferentes afinações do instrumento, que se combinam segundo o caráter da peça e o gosto do instrumentista. 

No vídeo abaixo, podemos ouvir o Prelúdio da Suite para alaúde BWV 998 pelo alaúdista Luciano Contini.



A terceira peça, igualmente interpretada por Robert Hill, é o magnífico prelúdio em Si menor BWV 923. É um exemplo típico de «stylus fantasticus», que simula a livre improvisação, habitual nos organistas, cravistas e alaúdistas barrocos. 

Nesta época, o músico profissional tinha de ser proficiente na improvisação. O caráter improvisatório traduz-se em profusões de escalas, de acordes decompostos e de mudanças rítmicas e/ou de andamento, dentro da mesma peça. 
Os dotes de improvisador do jóvem Bach devem ter sido um dos fatores decisivos para obter, por concurso, o posto de organista titular na Igreja de S. Blasius de Mühlhausen




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RELACIONADO:


Fantasia Cromática (Bach): duas abordagens na interpretação (Segundas-f. musicais nº6)


MÚSICA COPIADA, TRANSCRITA, ADAPTADA (segundas-feiras musicais nº3)


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

RECORDANDO BILLIE HOLIDAY (Segundas-f. musicais, nº24)


 A voz de Billie Holiday tem-me acompanhado nos bons e maus momentos, como se fosse uma secreta mensagem, dando-me coragem ou alegria, conforme as situações...   Porque tudo me soa perfeito nestas gravações, a voz e o acompanhamento dos músicos. Uma «cançoneta na moda», interpretada por ela, transforma-se num pequeno cofre cheio de joias.  Confesso-me incapaz de fazer uma lista definitiva das gravações da Lady 'Day, embora tenha tentado. Há uma autenticidade nestas gravações, uma perfeita adequação interpretativa, que raramente encontro noutras vozes do jazz. Há interpretes de quem gostamos tanto, que queremos nos apropriar das suas canções, da sua arte. Mas, afinal, acabam por ser eles a apropriarem-se de nós!!

Aqui têm a «playlist» RECALLING BILLIE. Mergulhem no seu universo sonoro: Verão que as melodias e letras, na sua voz, carregam muita energia. Não sei explicar a atração que sinto, mas acabo sempre por voltar à Billie Holiday.

  Playlist RECALLING  BILLIE 



ATUAÇÕES AO VIVO:









segunda-feira, 7 de outubro de 2024

JOHANN JAKOB FROBERGER, SUAS OBRAS (Segundas-f. musicais nº20)

 Johann Jakob Froberger não é deste tempo. Talvez não seja demais considerar ser ele de outra civilização, que não da nossa: Porque tudo o que se encontra na obra deste grande compositor do século XVII é delicadeza, expressão de sentimentos com contenção, subtileza no discurso musical, apelo à interioridade, reflexão filosófica. Nada do que enumerei tem grande repercussão nos auditores da nossa época. Alguns músicos profissionais com vasto conhecimento da sua obra e da época em que foi escrita,  tentaram divulgá-lo, fazendo sobressair as suas qualidades. Mas, em vão! 

Uma parte do público, nem sequer vai parar e escutar esta música: Só lhes interessa o ribombar do efeito fácil. Os que têm ainda sensibilidade musical e não foram tragados pela medíocre reprodução "ad nauseam" dos «hits» (que também existem) na música antiga, clássica, ou erudita; estes poucos, adoradores da beleza serena e reflexiva da música virada para o interior,  são muito facilmente captados pela música de Froberger. Nesta, são capazes de encontrar ecos de seus próprios sentimentos e estados psicológicos, que lhes dão uma proximidade especial a esta música. 

A Duquesa Sibila de Wittemberg estimava tanto as composições do seu músico pela sua rara qualidade, que, graças a ela, parte muito significativa da obra do seu súbdito foi preservada e chegou até nós.   

Abaixo, reproduzo as seis Partitas «Auf der Mayerin» seguidas de Courante, Double e Sarabande, extraídas do volume dedicado a Sybill, Duquesa de Württemberg.


VI Partite "Auf Die Mayerin"
1-17 29:39 Prima Partita
1-18 31:00 Second Partita
1-19 32:14 Terza Partita
1-20 33:06 Quarta Partita
1-21 34:03 Quinta Partita
1-22 35:11 Sexta Partita (Crommatica)
1-23 37:22 Courant Sopra Mayerin
1-24 38:20 Double
1-25 39:19 Saraband Sopra Mayerin

Podeis apreciar as peças isoladas, ou em Suites, que organizei na playlist FROBERGER - MEDITATION


Froberger está plenamente inserido na sua época. Pode-se dizer que a sua música vai buscar as melhores partes da tradição germânica, da francesa (sobretudo, do rico reportório de alaúde)  e também da Itália do Norte. Compreende-se, pois ele esteve numa posição privilegiada, como músico nas cortes da Alemanha do Sul e Central, que eram outros tantos focos onde se cruzavam as tendências referidas. 

A sua interioridade e subtileza celebrizaram peças como "Le Tombeau de Monsieur de Blancroche", homenageando a memória do Mestre alaudista parisiense, que morreu nos braços de Johann Jakob, após uma queda nas escadas. Note-se, esta peça está toda virada para o interior, para os sentimentos de profunda estima que Froberger tinha para com o alaudista, seu amigo. Só no final, com uma longa escala descendente, aparece o elemento obviamente descritivo da queda, que lhe foi fatal. 

Não me vou alongar com as outras peças que vos proponho, pois podeis ler muito boas análises por músicos e musicólogos profissionais. Penso que quem esteja disponível para uma audição atenta, pode intuir qual o idioma dos afetos neste músico extraordinário, subtil e melancólico

No contexto histórico e em termos estilísticos, contribuiu para o amadurecimento da forma «Suite» para o cravo. Além disso, alargou a técnica de composição e de execução deste instrumento, através da variada paleta expressiva.