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domingo, 6 de setembro de 2026

DOCUMENTÁRIO PBS: MOVIMENTO NAZI NOS EUA, NOS ANOS 1930

 


Este documentário foi feito pelo canal público PBS. 


Algumas anotações:

- O Klu-Klux-Klan tinha uma enorme influência.

- O anti-semitismo e o racismo contra os negros, tinham grandes sponsors, como Henry Ford (autor de «The International Jew»).

- O eugenismo era adoptado por grande parte da oligarquia; era baseado na «necessidade» de evitar a propagação de «raças inferiores» ou «doenças», mesmo as que eram obviamente adquiridas e não genéticas: Muitas pessoas foram forçadamente esterilizadas dentro deste contexto.

- O fascismo foi promovido na Europa para contrariar o comunismo.

Tudo isto e muito mais é mantido escondido das pessoas, de um lado e do outro do Atlântico. 

As pessoas têm uma visão não apenas esquemática, mas errónea do movimento fascista internacional e do que ele representava; que interesses se escondiam por detrás das suas figuras de proa; quem os financiava; sobretudo, não fazem a mínima ideia do que seriam o presente e o futuro, se os fascistas tivessem triunfado na IIª Guerra Mundial.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

OTAN e guerra da Ucrânia por Lacroix-Riz


 

Annie Lacroix-Riz é uma historiadora francesa doutorada, que se tem dedicado a ler e dar a conhecer o conteúdo de muitos documentos, que estão  em diversos arquivos . O seu conhecimento vem mostrar-nos que as coisas quase nunca foram como a História  académica  e oficial nos quer fazer crer. A sua análise percutente mostra que a OTAN foi e é um projeto americano, que faz de todos países aderentes, súbditos;  nomeadamente pelas bases americanas instaladas no seu solo. Quanto ao famoso artigo 5° da Carta Atlântica, ele é sempre citado " às  avessas" pois o referido artigo diz que, perante a agressão a um membro da OTAN, os restantes membros devem imediatamente iniciar consultas para dar a resposta adequada. Não diz que os restantes membros devem automaticamente declarar guerra ao agressor, como é feito constar pelos sabujos atlantistas, que pululam nos partidos de poder e na média  corporativa. 

No 2° video, põe em evidência as políticas  alemãs e dos EUA, acerca da Ucrânia,  que explicam grande parte do golpe dos nacionalistas banderistas de 2014 e  constante pressão  da OTAN para colocar a Ucrânia nesta aliança, subordinada ao Império EUA.

SOMENTE A COMPREENSÃO DOS ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS  PERMITE UMA CLARA AVALIAÇÃO DO PRESENTE: A História que nos pretendem fazer crer é  a narrativa que inocenta os grandes poderes. Ela pretende provocar uma adesão emocional e não  racional ao projeto antigo de esmagamento da Rússia e sua transformação  numa série  de Estados fracos, subordinados ao imperialismo anglo-saxónico. 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

A guerra da OTAN contra a Rússia [Crónica da III° Guerra Mundial n°71]







 Steve Jermy, membro da marinha de guerra britânica teve, enquanto no ativo, responsabilidades na OTAN, que lhe permitiam ver como funcionava o sistema da Aliança  Atlântica. 

Agora, em diálogo com o entrevistador, expõe a inanidade do pensamento estratégico que lavra na supra-citada instituição. Infelizmente, a falta de bom-senso não  é limitada às altas patentes militares, pois ao nível dos governos e partidos que os apoiam, parece haver uma epidemia de halucinação, que os impede de dar conta das realidades no terreno. 
Nós,  "paisanos", não  contamos para nada; uma simples postura crítica nossa é assimilada com "terrorismo". 
Cumpre-se assim o vaticínio de Che Guevara (parafraseando): «Os governos ocidentais são  democráticos e respeitadores do Estado de Direito. Mas, assim que seus interesses e os interesses da classe dominante estiverem em risco, não hesitam em despir as roupagens democráticas e vestir um uniforme fascista, que tinham guardado no armário!»

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Quais os factores no desencadear da próxima crise mundial?


 O economista Steve Keen mostra-nos como a próxima crise se vai desencadear. É do lado das matérias-primas, mais exatamente, daquelas matérias-primas que passavam pelo Estreito de Ormuz. NÃO APENAS O PETRÓLEO, como os lubrificantes, o hélio, o ácido sulfúrico... Todos eles, materiais essenciais para levar a cabo processos de fabrico nos países do Norte, como seja o cobre (ácido sulfúrico), os semicondutores  (hélio), os lubrificantes numa infinidade de máquinas e o petróleo e seus derivados, que continuam a ser a fonte de energia mais importante nos principais domínios da atividade humana. 
Ele atribui a Donald Trump(*) a responsabilidade por esta crise, visto que a estúpida guerra contra o Irão não está próxima de uma resolução e as acima citadas matérias-primas (incluindo o petróleo) vão ter as suas reservas esgotadas num intervalo entre um mês e três meses.
A explicação de Steve Keen estende-se às crises económicas ocorridas no século XX e XXI, mostrando que sua origem estava na dívida privada, nos excessivos empréstimos contraídos pelo capital privado e não público, como muitos «economistas» querem convencer-nos. 
A visualisar com atenção! 

PS: https://youtu.be/j2kUtbfE3eo?is=ovaJOkawSTGKvcuB
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(*) Eu diria que, embora Donald Trump seja muito responsável, também é importante o papel de Bibi Netanyahu e todo o lobby pró-Israel, nos EUA.

domingo, 23 de agosto de 2026

Corbyn & Finkelstein: Gaza e a cumplicidade ocidental [Crónica da IIIª Guerra Mundial, nº 70]

 


Eles discutem as questões sem demagogias, mas também, sem refrearem de nomear os crimes e os responsáveis por eles.
A minha sensação, quando ouvi este diálogo foi como de «déjá vu»:
- Aquilo que está a acontecer em Gaza e na Palestina sob ocupação, se assemelha a uma «experiência» monstruosa ou uma série de «experiências», levadas a cabo pelos sionistas; não só o exército de Israel, como o governo, os partidos «de poder». Estes atos criminosos são levados a cabo com o beneplácito dos poderes das democracias ocidentais.
O fascismo do século XX também começou assim; lembremos a Abisssínia, invadida pelo exército de Mussolini. Lembremos a chamada «guerra civil» de Espanha, que não foi uma guerra civil, mas sim um confronto internacional, preparatório da IIª Guerra Mundial, que começou logo depois de completada a derrota republicana e das tropas franquistas terem dominado a totalidade do território. Os nazis submeteram os judeus (não apenas eles: ciganos, homossexuais, dissidentes políticos...) a brutais torturas, a escravidão, maus tratos constantes, «caças ao homem» em cada país que conquistavam. Os morticínios em massa nos campos de concentração só foram decretados por Hitler e seu Estado-Maior, quando havia nenhuma hipótese deles ganharem a guerra, ou mesmo de obterem um arranjo que lhes permitisse sobreviver.
Aquilo que está a acontecer em Gaza é um genocídio à vista de todos, com crimes de guerra quotidianos, muitos deles sendo orgulhosamente exibidos em público, nos media ou nas redes sociais, pelos soldados israelitas que os levaram a cabo.
Os dirigentes políticos incentivaram-nos a cometer crimes contra civis, mostram o maior desprezo (em público) pela vida dos palestinianos, seja de adultos ou crianças, de civis ou de membros do Hamas, todos eles destinados a «limpeza» completa ou quase.
Creio que Netanyahou, Ben G'vir e os outros, não poderiam fazer o que têm feito, ordenado o exército a proceder como procede em Gaza, nos Territórios Ocupados, ou no Líbano, sem terem as coberturas dos governos ocidentais: Dos EUA em primeiro lugar, mas igualmente de quase todos os governos dos países da OTAN ou da UE, com poucas exceções (a Espanha e a República da Irlanda, esta não faz parte da OTAN, mas é membro da UE).


Este crime hediondo dos sionistas em Gaza e nos Territórios palestinianos, aparece-me cada vez mais como parte da monstruosoa «tarefa» de parar e diminuir o crescimento de países outrora coloniais. Com efeito, se as populações palestinianas são as mais cultas em todo o Médio-Oridente, apesar das circunstâncias adversas, isso para os sionistas mais racistas tem o significado de um perigo, pois não poderão esperar nunca a sujeição dum povo com tanto martírio na sua História e com tantas pessoas cultivadas. Os palestinianos têm uma percentagem superior aos outros povos árabes em licienciaturas e doutoramentos, em todas as áreas do saber, incluindo as áreas mais técnicas.
Esta «experiência-teste» é um precedente para as elites europeias e norte-americanas fazerem o mesmo, com as adaptações necessárias, quer nos seus países respectivos, quer (mais provável) em países do Sul Global, onde os seus interesses estratégicos estejam a ser postos em causa.


As pessoas estão adormecidas, no Ocidente. Curiosamente, muito pouco se fala dos tópicos abordados por Corbyn e Finkelstein neste vídeo. Será porque as pessoas pensam que não lhes diz respeito, mostrando assim um enorme egoísmo. Neste caso, revelam uma enorme miopia e estupidez: Com efeito, as gerações dos seus pais tiveram de ir lutar nas fileiras dos exércitos coloniais (ou neo-coloniais) para tentar anular ou minorar a onda de independências que começou nos anos 50 e continuou nos decénios sucessivos, até hoje. As guerras de agressão levadas a cabo no século XXI têm todas as características de expedições imperialistas e neocoloniais: As recentes guerras de agressão e extermínio, levadas a cabo quer pelos EUA, potência hegemónica global, quer pelos países europeus ex- sedes de impérios coloniais (França, Reino Unido, etc) destinavam-se a manter os referidos países (Somália, Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia, Líbano e agora Irão ...) na dependência do «Ocidente».  Serviram-se de todos os pretextos para manter o público da Europa e América do Norte iludido. A barragem dos media ocidentais, dificultou muito a tarefa de forças anti-imperialistas, em fazer passar as realidades que desmentiam as confabulações dos agressores. As poucas pessoas lúcidas estavam em nítida inferioridade de meios, perante constantes ondas de propaganda, de desinformação e de incultura política (mantida intencionalmente).


A saída no longo prazo, vai depender de vários fatores:
- A coesão do movimento dos BRICS, que é muito frágil, embora assente sobre princípios saudáveis.
- A reorganização do movimento de massas do início do século XXI, os «anti-globalistas» ou alter-globalistas»,
- A reativação das resistências populares e operárias dentro de cada país, com uma dinâmica de organizações de classe que não esteja refém de lógicas partidárias.
Os fatores que podem provocar o despertar dos oprimidos, são
- a iminência de uma brutal recessão mundial,
- a oligarquia tentando apropriar-se do capital dos fundos de pensões e obter a privatização de estruturas de gestão pública
- o empobrecimento acelerado e a perda de ilusões de jovens, de que poderão levar uma vida decente, com um padrão de bem-estar melhor ou semelhante ao da geração dos seus pais.
- A compreensão profunda, sobretudo entre a juventude, de que se deve fazer a unidade na luta, entre si e com classes partilhando interesses fundamentais.


Não vou fazer vaticínios, mas uma coisa positiva já está a ocorrer: A onda de resistência em países ex-colóniais aos cantos de sereia neoliberais, que pretendem criar ou conservar para as oligarquias as condições de extração das matérias-primas e da exploração da mão-de-obra desses países.
Em relação ao resto, há demasiadas incógnitas para sabermos de antemão qual será a configuração do Mundo, dentro de 5 ou 10 anos.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

TERRORISMO, ACUSAÇÃO SEM CONTEÚDO


Reflexão de Manuel Banet: 

O termo "terrorismo" não descreve actos (como seria o caso de "assassinato", ou "tentativa de assassinato"). Portanto, tal acusação é vaga e genérica. É uma falsa categoria no vocabulário jurídico. Não existe nunca um consenso genérico sobre quem são os «terroristas». Isto é uma indicação segura de que é um termo manipulado para difamação de um campo pelo outro: Os acusados são chamados de «terroristas» por uns e de «libertadores» por outros. Isto ocorre em múltiplos conflitos, insurreições, guerras, não só agora, como desde há séculos!

A acusão feita ao britânico reformado, por causa de um «twitt», é ainda pior do que  «crime de opinião», porque o sistema judicial que o vai julgar, esse mesmo sistema, não pode definir de forma não ambígua o que tem de «terrorismo», concretamente, o conteúdo da frase num twitter, que é a base da acusação.

Isto é revelador de um poder arbitrário, que se pode aplicar a criminalizar qualquer pensamento dissidente... 


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Transcrevo a seguir a notícia de autoria de Thomas Karat, publicada na sua página do Substack:

Hoje, um aposentado de Brighton vai a julgamento por um tweet. Nove meses atrás, o homem que fundou a filial síria da Al-Qaeda foi recebido no Salão Oval. Uma palavra rege ambas as histórias — e ela perdeu todo o seu significado.

Na manhã desta terça-feira, 18 de agosto de 2026, Tony Greenstein, um avô de 72 anos, entra no Tribunal da Coroa de Kingston, no sudoeste de Londres, para ser julgado por um júri por terrorismo. Ele é cuidador e filho de um rabino ortodoxo que participou das marchas contra os Camisas Negras de Mosley. A prova contra ele é um tweet de sete palavras de 2023 e, se o júri concordar com a acusação, ele poderá ser condenado a 14 anos de prisão .

Quero comparar o caso dele com outro, porque só juntos os dois fazem sentido. Nove meses atrás, um homem que fundou a filial síria da Al-Qaeda — um homem que os Estados Unidos caçavam com uma recompensa de 10 milhões de dólares — tornou-se o primeiro chefe de Estado sírio a ser recebido na Casa Branca. Tony Greenstein e Ahmed al-Sharaa nunca se encontrarão. Mas, juntos, eles mostram o que a palavra "terrorista" realmente passou a significar nas mãos dos governos que a utilizam. Não se trata de uma descrição do que uma pessoa fez. Trata-se de uma medida da utilidade dessa pessoa.

O aposentado

Deixe-me  apresentar o histórico completo de Greenstein, pois a acusação o fará, e eu prefiro que você o ouça de alguém que simpatize com ele. Ele foi expulso do Partido Trabalhista em 2018. Processou a Campanha Contra o Antissemitismo por tê-lo chamado de "antissemita notório" e perdeu, com o tribunal decidindo que a expressão era uma opinião honesta. Recebeu uma sentença suspensa por um ataque da organização Palestine Action a uma fábrica de armas da Elbit. Ele é agressivo, litigioso e totalmente impenitente. Nada disso é o motivo pelo qual ele está sendo julgado hoje.

Ele está sendo julgado porque, em novembro de 2023, uma conta anônima o incitou a se declarar, e ele respondeu : “Eu apoio o Hamas contra o exército israelense”. Cinco semanas depois, às seis e meia da manhã, agentes antiterrorismo estavam à sua porta. Levaram seus computadores e telefones, o mantiveram detido por nove horas e o libertaram sob fiança, com a condição de não poder publicar nada sobre a guerra. “Isso é orwelliano”, disse ele a eles. Ele não estava errado e, na verdade, estava sendo generoso.

Então o Estado se preparou para um cerco. Levou onze meses para acusá-lo e quase um ano inteiro para levá-lo a julgamento, que já foi adiado uma vez. Quando o júri tomar posse hoje, ele terá passado trinta e dois meses sob custódia, mordaça e ameaça de prisão — a pena cumprida integralmente antes mesmo de qualquer veredicto ser proferido. E enquanto esperava, seus bancos o abandonaram, um após o outro. Em uma declaração publicada há duas semanas, ele descreveu ter sido cortado de suas contas por cinco instituições desde sua prisão: o Nationwide, após vinte e cinco anos; depois o HSBC e o First Direct — incluindo a conta que ele e sua esposa mantinham para o cuidado de seu filho autista; depois o Santander, que congelou suas contas pessoais e as de uma instituição de caridade registrada da qual ele é tesoureiro; e, por fim, um banco de poupança que excluiu completamente sua família. Nenhum deles deu uma explicação. Nenhum precisa. Os bancos que avisam um cliente que está sob suspeita são proibidos por lei de lhe dizer o motivo.

Ele suspeita de envolvimento do Estado, e aqui está a parte que você talvez não espere: o próprio órgão de vigilância antiterrorista do governo já previa isso. O Revisor Independente da Legislação Antiterrorista alertou, em 2023, que a aplicação da proibição levaria os bancos a se desfazerem de clientes para evitar problemas com a lei — uma prática chamada "redução de risco", como o setor bancário a denomina, como se as contas bancárias de uma família fossem um mau investimento. Quando o Coutts fechou uma única conta pertencente a Nigel Farage, o primeiro-ministro se manifestou e o diretor executivo do NatWest foi demitido em poucas semanas. O caso de um aposentado judeu que teve suas contas bancárias encerradas seis vezes a caminho de um julgamento por terrorismo gerou, nos mesmos jornais, quase total silêncio.

O presidente

Agora, o outro homem. Seu histórico não precisa de um narrador simpático ou de um advogado especializado em difamação, porque o governo dos Estados Unidos o registrou e publicou. Ahmed al-Sharaa — que na época se chamava Abu Mohammad al-Jolani — juntou-se à Al-Qaeda no Iraque em 2003, foi capturado por forças americanas, passou cinco anos sob custódia delas e depois foi para a Síria para construir a Frente al-Nusra, o braço local da Al-Qaeda, jurando lealdade em vídeo a Ayman al-Zawahiri.

O próprio alerta de procurado do Departamento de Estado registra as ações de sua organização. Ela “realizou múltiplos ataques terroristas em toda a Síria, frequentemente visando civis”. Sequestrou cerca de 300 civis curdos em um posto de controle. Na vila drusa de Qalb Lawzeh, em Idlib, seus combatentes se alinharam e atiraram em vinte moradores. Reivindicou a autoria de atentados suicidas em Damasco, Homs e Quneitra. Em 2014, al-Sharaa pessoalmente incitou ataques retaliatórios contra a coalizão liderada pelos Estados Unidos. Por tudo isso, a ONU congelou seus bens e proibiu suas viagens, e a recompensa de US$ 10 milhões por sua captura o colocou entre os cinco jihadistas mais procurados do mundo — a mesma lista de Baghdadi, a mesma lista de Zawahiri. Essa é a conduta que a palavra “terrorista” foi criada para representar: vilarejos esvaziados, centros urbanos detonados, anos de civis e soldados mortos no solo.

Como a palavra surgiu

Então Damasco caiu, em 8 de dezembro de 2024, e quero que vocês observem como a notícia se dissipou rapidamente. Doze dias depois — doze — uma delegação americana se reuniu com al-Sharaa e anunciou que a recompensa estava sendo suspensa. O dossiê não havia mudado. A sepultura em Qalb Lawzeh estava exatamente onde havia sido deixada.

O que se seguiu não foi uma normalização tranquila, mas sim um namoro público, e isso se deu por meio de derramamento de sangue. Em março de 2025, enquanto milícias alinhadas ao novo governo de al-Sharaa varriam a costa alauíta, a Anistia Internacional documentou o assassinato deliberado e sectário de civis e exigiu uma investigação de crimes de guerra. O próprio comitê de apuração de fatos de al-Sharaa confirmaria mais tarde que 1.426 pessoas morreram, a maioria civis. Dois meses após esses massacres, em maio, Donald Trump recebeu al-Sharaa em Riad e o avaliou diante das câmeras como um boxeador: “ Jovem, atraente, durão, passado forte ”. Em junho, veio uma ordem executiva suspendendo as sanções para que os sírios pudessem ter “uma chance de grandeza”. Em julho, Washington revogou a designação de organização terrorista do próprio grupo que ele havia criado.

A Grã-Bretanha acompanhou o ritmo. Poucas semanas antes, o primeiro-ministro havia afirmado que a revogação da proscrição era “ muito prematura ” para ser sequer considerada. Em julho, seu secretário de Relações Exteriores voou para Damasco para cumprimentar al-Sharaa — enquanto a organização do homem ainda estava formalmente proscrita pela Lei Antiterrorismo como um pseudônimo da Al-Qaeda. Esse é o mesmo status legal que o Hamas possui na acusação que Tony Greenstein enfrenta hoje. Quando a contradição se tornou incômoda, o governo não processou o secretário de Relações Exteriores. Revogou a proscrição em outubro, sob o argumento declarado de que isso “serve ao interesse nacional”. Em novembro, al-Sharaa estava no Salão Oval, assinando a entrada da Síria na coalizão liderada pelos Estados Unidos contra o Estado Islâmico. Nenhum júri avaliou as consequências. Nenhuma batida policial ao amanhecer precedeu os apertos de mão. Os homens que haviam escrito o cartaz de procurado simplesmente o retiraram.

A cláusula que nenhum redator escreveu.

Coloque os dois arquivos lado a lado e a lei confessará sua função. A Seção 12 da Lei Antiterrorismo foi alterada em 2019, de modo que uma pessoa agora comete um crime simplesmente por expressar uma opinião de apoio a uma organização proscrita, sem se importar se alguém que a ouça poderá ser encorajado. O Parlamento redigiu essa cláusula precisamente porque os tribunais haviam decidido que a lei anterior não abrangia opiniões. Em outras palavras, um Ministro das Relações Exteriores que renova relações com o comandante de um grupo então proscrito está mais próximo do crime do que qualquer coisa que Greenstein tenha escrito. Ninguém propõe acusá-lo, e esse é exatamente o ponto.

Para meus leitores americanos, entendam que tal lei não teria validade nos Estados Unidos. Mesmo no caso Holder v. Humanitarian Law Project, o mais longe que a Suprema Corte chegou na criminalização do “apoio material”, ficou expressamente estabelecido que “ qualquer defesa independente na qual os demandantes desejem se engajar não é proibida”. As sete palavras de Greenstein são protegidas pela liberdade de expressão nos Estados Unidos. É por isso que o governo que revogou a recompensa concedida a al-Sharaa, incapaz de processar as palavras de seus próprios dissidentes, simplesmente deporta as pessoas que as proferem. Mahmoud Khalil, portador de green card, foi detido por seu ativismo estudantil e mantido preso por 104 dias , perdendo o nascimento de seu primeiro filho, sem jamais ser acusado de qualquer crime. Rümeysa Öztürk, estudante de doutorado, foi levada de uma rua de Massachusetts por agentes mascarados e presa por 45 dias por causa de um artigo de opinião . O mesmo Departamento de Estado que certificou um artigo de opinião de um estudante como uma ameaça à política externa americana passou o ano certificando que o governo de um dos fundadores da Al-Qaeda não o era. A lista de terroristas e a lista de vistos, na verdade, são a mesma lista, mantidas para o mesmo propósito.

O que os números admitem

Se você acha que estou baseando minhas afirmações em alguns poucos casos isolados, observe os dados oficiais. Ao longo dos quatorze anos até meados de 2025, o Ministério da Justiça registrou apenas 55 pessoas processadas sob as disposições da Lei Antiterrorismo relativas à filiação e ao apoio a grupos terroristas — cerca de quatro por ano, durante toda a era do Estado Islâmico. Em seguida, o foco mudou de bombas para opiniões. Nos doze meses até setembro de 2025, o Ministério do Interior contabilizou 1.886 prisões por terrorismo, um aumento de 660%, e 86% delas foram por apoio ao Palestine Action — um grupo de protesto proscrito por pichar aviões de guerra na mesma época em que al-Sharaa estava sendo reabilitada. No mesmo período, a proporção de prisões por terrorismo que resultaram em acusações caiu de 47% para 17%. Leia isso em outras palavras: cinco em cada seis pessoas detidas sob a lei antiterrorismo nunca chegam a comparecer a um tribunal. A prisão em si é o resultado.

Mais de 2.700 pessoas já foram presas por apoiarem a Ação Palestina, 522 delas em um único dia, a maioria portando cartazes de papelão. O chefe de direitos humanos da ONU classificou a proibição como “ desproporcional e desnecessária ”. Quando o Supremo Tribunal Federal a considerou ilegal em fevereiro deste ano, a polícia suspendeu as ações por seis semanas e depois as retomou , com um comissário explicando que era preciso “fazer cumprir a lei vigente”, enquanto policiais retiravam mais dezoito pessoas da escadaria da Scotland Yard. A Suprema Corte decidirá em novembro se alguma dessas medidas foi legal. O próprio órgão de revisão do governo confirma que os processos por terrorismo estão em níveis recordes, “dominados por crimes documentais e acusações relacionadas à proscrição”. Um aparato criado para prender os autores de Qalb Lawzeh agora processa cartazes — enquanto o autor de Qalb Lawzeh assina documentos da coalizão no Salão Oval.


O veredicto já foi dado.

A máquina não poupou os repórteres que a cobrem. Richard Medhurst foi o primeiro jornalista preso sob a mesma seção agora direcionada a Greenstein — quatorze meses sob investigação, sem acusação formal, seus arquivos discretamente transferidos para a Áustria para que o calvário pudesse continuar no exterior. Dez policiais invadiram a casa de Asa Winstanley por causa de suas publicações; um tribunal posteriormente considerou os mandados ilegais e ordenou a devolução de seus dispositivos. Ninguém foi condenado. Todos perderam meses de trabalho e sono, o que talvez seja o objetivo. Mesmo hoje, dentro do Tribunal da Coroa de Kingston, os promotores lutaram para manter os próprios escritos de Greenstein sobre o Hamas e Gaza fora do alcance do júri , com o juiz citando uma antiga regra de que os tribunais não são fóruns para opiniões políticas — em um julgamento onde as opiniões políticas do réu são a própria acusação.

Greenstein acredita que seu veredicto definirá o preço para todos os presos depois dele: uma absolvição põe em risco toda a campanha, uma condenação a legitima. Ele pode estar certo. Mas o veredicto mais profundo foi proferido muito antes de o júri se reunir esta manhã — entregue em Riad, lacrado no Salão Oval. O terrorismo, como nossos governos o praticam de fato, não é uma categoria de ato. É uma categoria de utilidade. Ahmed al-Sharaa tornou-se útil, e a palavra o deixou ir. Tony Greenstein continua sendo um incômodo, e assim a palavra chega à sua porta antes do amanhecer, congela a conta que ele mantém para seu filho deficiente e pede a doze de seus vizinhos que classifiquem sete palavras como um ato de terror.

O julgamento está previsto para durar cinco dias. Independentemente da decisão do júri sobre Tony Greenstein, a palavra sob a qual ele é acusado já foi testada em outro lugar, com base em um conjunto de provas muito maior, e considerada sem qualquer significado. Observe o que Kingston fará com ele esta semana. Depois, lembre-se de quem saiu da Casa Branca como um homem livre e respeitado, e pergunte-se o que "terrorista" alguma vez deveria ter significado.


Veja: Entrevista com o Prof. David Miller



PS: Jonathan Cook traz-nos um relato do julgamento em que Greenstein fez a sua própria defesa, saindo absolvido por decisão unânime dos jurados: https://jonathancook.substack.com/p/the-british-state-has-lost-the-argument

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O JAPÃO À BEIRA DO COLAPSO, AGORA [Crónica da Terceira Guerra Mundial nº69]


O vídeo acima mostra como as relações laborais no Japão são destrutivas da própria vida dos trabalhadores, causando também uma sociedade doente: Nas esferas da família, da juventude, da educação e mesmo do ponto de vista espiritual. 

Não se deve esquecer como foi erguido o sistema político, depois da derrota da IIª Guerra Mundial, graças à «protecção» do ocupante americano, que se preocupou mais em manter o Japão dentro do círculo dos países anti-comunistas, tal como a Alemanha Federal, do que em criar as condições de uma democratização verdadeira, expondo os crimes do governo e militares do regime imperialista derrotado. 

Nos países que estiveram associados ao «Eixo» e que depois ficaram na esfera de influência americana, as pessoas que formaram a elite pós-IIª Guerra Mundial eram - em larga percentagem - agentes dos grandes capitalistas associados aos governos fascistas, dos quais tinham beneficiado. 

Todos esses fatores juntos foram criar um bloqueio. Em todos estes anos, pós IIª Guerra, a sociedade, a economia e a política japonesas nunca puderam «virar a página» do Japão militarista e imperialista.

O governo japonês nunca conseguiu realmente sair da crise financeira que se iniciou há 40 anos. Apesar de ser a segunda potência industrial nessa altura, foi perdendo aos poucos, para concorrentes (a China, a Coreia do Sul ...) cujas economias estavam em ascenção.

A situação de défice financeiro agravado foi colmatada, em grande parte, pelo facto dos japoneses reformados, individualmente ou associados nos fundos de pensões, terem investido muito em títulos do tesouro japonês. A parte da dívida detida por entidades públicas ou privadas estrangeiras era muito menor. Deu-se então o caso da dívida crescer sem parar, embora as consequências  fossem aparentemente insignificantes para a economia produtiva e a sociedade. 

Porém, os juros muito baixos artificiais, gerados por este mecanismo de «auto-compra» da dívida estatal, foi atraír a finança internacional. Desde os grandes bancos ocidentais aos especuladores, praticamente todos praticavam o «Yen Carry- Trade». Este consistia em pedir emprestado a instituições bancárias japonesas a juro muito baixo, quase zero, para depois aplicar estes capitais em investimentos, que forneciam um juro bem maior. O montante próprio da dívida era facilmente recuperado e devolvido aos bancos emprestadores, sendo o resto lucro para os investidores. 

Mas, com o aprofundamento da crise económica e financeira, o governo japonês viu-se forçado a aumentar em cerca de 1% (aumento modesto) as obrigações estatais, arrastando assim os diversos juros (bancários, hipotecários, de consumo) para cima. Pode parecer algo insignificante, porém inviabilizou muitos dos negócios de «carry trade». O «carry trade» já não fornecia um intervalo de juros suficiente para manter a rentabilidade do negócio.

Historicamente, as potências que estão numa situação financeira apertada têm tendência a tomar (ou retomar) atitudes agressivas em relação ao estrangeiro, em relação aos inimigos (verdadeiros ou de convenência). 

A retoma da produção armamentista, as manobras da marinha de guerra nos mares do Sul da China, vêm confortar o eleitorado nacionalista e militarista da primeira-ministra Sanae Takaichi

Em todos os casos em que ocorre uma viragem realmente autoritária, com um governo de extrema-direita, verifica-se que a economia não ia bem, que o povo estava a sofrer com uma redução significativa do nível de vida, com inflação, desemprego. Mas numa tal situação, a classe no poder nunca iria assumir-se como responsável pelos males presentes. Daí, as derivas militaristas, a designação dum inimigo externo, desviando assim o público da origem interna dos males da economia desse país. 

Prevê-se que a situação internacional ainda piore mais, se o  Japão mergulhar no caos. Foi o que desencadeou o empréstimo de emergência dos EUA, oferecendo euros, dos seus fundos em divisas da FED, para comprar Yen: O governo da oligarquia dos EUA percebeu a necessidade deste empréstimo de emergência. Evidentemente, o Império não estava interessado no caos, como «senhor feudal» do Japão, possuindo importantes bases militares, com sistemas de lançamento de mísseis, com capacidade para transportar ogivas nucleares, apontados para a China. 

Mas, dado contexto financeiro mundial caótico, existe uma possibilidade não desprezível, desse empréstimo ser insuficiente para equilibrar a situação do Yen e das finanças japonesas.

Haverá uma evolução da situação do Japão. Na presente situação internacional muito complexa, pode desencadear-se uma expansão da IIIª Guerra Mundial para os países do Extremo-Oriente.



RELACIONADO:

https://youtu.be/FnraS2GwJU8?si=83SdlKqiwu_kawJU


https://youtu.be/qw8REvHV2QU?si=m2JKebNUEizhFPL_


https://youtu.be/mJ9Q2Xpzf1Y?si=5yPPiNv7Bbxn2SZE


https://youtu.be/yh18YXKMk3g?is=QRM74Gqo2vsC636U

domingo, 9 de agosto de 2026

DEMOGRAFIA, MAIS UM PÂNICO FABRICADO

 



Os media e o establishment começaram por colocar os problemas em termos de sobrepovoação do planeta, de esgotamento dos recursos, de explosões sociais causadas pela miséria, etc. Na realidade, houve uma «explosão» demográfica, tendo esta porém decorrido ao longo de centenas de anos.

 Mas esta «explosão», resultante da transformação das sociedades rurais em industriais, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, na Europa e mais tarde para o resto do Mundo, proporcionou condições globalmente mais favoráveis para a vida humana: 

A higiene aumentou, o acesso aos alimentos foi mais regular, menos sujeita ao acaso das colheitas, sobretudo, houve contribuição significativa, tanto de produtos alimentares como de manufaturados, em proveniência das colónias. Isto permitiu maior dinamismo das economias do mundo «desenvolvido» dessa época (a Europa e a América do Norte) e que a Iª Revolução Industrial ocorresse. 

Nos países sujeitos ao domínio colonial ou neo-colonial, apesar das condições de quase escravatura, ou mesmo de escravatura (que se estenderam do século XVI ao séc. XX), o facto de haver campanhas melhorando as condições sanitárias, os esgotos, o tratamento das águas e campanhas de vacinação na população autóctone, fizeram com que, também aí, houvesse um vigoroso crescimento populacional. 

Na ausência de contracepção de qualquer espécie, as doenças infantis, as epidemias que assolavam periodicamente as populações, os frequentes episódios de fome e de escassez alimentar, provocavam uma baixa taxa de sobrevivência das crianças. Os que chegavam ao estado adulto, em idade de procriar, eram apenas uma fracção do total dos nascidos numa dada geração.  As mortes precoces, infantis e juvenis, eram tais, que mantinham o equilíbrio populacional, compensando uma  fecundidade média muito elevada. 

Estes fenómenos ocorriam praticamente com a mesma severidade na Europa e nos países colonizados, talvez até mesmo piores na Europa, onde a concentração de pessoas nos centros industriais, sem condições de higiene e sujeitas a longas horas de trabalho violento, acabava por encurtar a vida, mesmo dos mais resistentes. 

A transformação na agricultura permitindo maiores rendimentos e libertando braços ocupados nas tarefas do campo para as indústrias das cidades, as condições de higiene nas habitações destinadas aos operários, a generalização de vacinas para algumas doenças causadoras de grandes mortalidades e morbilidades,  foram fatores que proporcionaram o crescimento vigoroso das populações europeias durante o século XIX e na primeira década do século XX. 

A Primeira Guerra Mundial, com todos os seus horrores e com o despovoamento dalgumas zonas, foi somente uma paragem momentânea do crescimento populacional. 

Pouco tempo após o fim das hostilidades (1918) as curvas demográficas em todos os países retomavam seu trajecto ascendente. O mesmo fenómeno verificou-se no pós II Guerra Mundial. Hoje em dia, fala-se da geração do «Baby boom»: começou com as pessoas nascidas em 1945 e vai até aos nascidos no ano de 1965, mais ou menos. 

O processo de desaceleração do crescimento populacional nos países industrializados, foi tanto consequência da «pílula» contracetiva, como duma nova atitude dos casais, procurando dar condições de educação, saúde e bem-estar à sua progenitura, limitando conscientemente o número de filhos. 

O papel atribuído à pílula contraceptiva talvez seja um bocado exagerado. Nos países do Sul da Europa a pílula foi proíbida oficialmente, durante algum tempo e condenada por entidades religiosas. Nestas sociedades, tradicionalistas, católicas e menos ricas que a Europa do Norte e a América, ocorreu, apesar disso, um fenómeno semelhante de redução da natalidade, embora de modo menos acentuado. As condições materiais, mais do que o uso de contraceptivos orais, tiveram o papel principal, tanto nas sociedades mais tolerantes, como nas mais tradicionais. 

Muitos países do Sul Global seguiram este padrão, com um pequeno atraso. Isso traduziu-se numa nítida desaceleração do crescimento global da população, contrariando os vaticínios malthusianos do «Clube de Roma» (nos anos 70).

Agora, vê-se e ouve-se, por todo o lado, que a população humana, em particular em países muito povoados, como a China, a Índia e outros, está a regredir, que a taxa de natalidade não permite repor os efetivos da população existente, que a percentagem de idosos e reformados supera a de pessoas em idade de trabalhar, etc. Estas reportagens e artigos são o simétrico do catastrofismo dos anos 70 do século passado.

Felizmente, as condições de vida das populações, na grande maioria dos países, melhoraram de modo substancial. As consequências do desajustamento populacional são transitórias. As sociedades em toda a História encontraram soluções para se manterem, para dar continuidade à base económica, às infra-estruturas e aos serviços que são prestados à população. 

A redução da taxa de fertilidade em quase todos os países industrializados, abaixo do número médio de 2,1 bébés por mulher fértil, é atirada constantemente pelos fazedores de apocalipse,  como se este fosse o único número, o mais importante que os países industrializados têm de enfrentar. 

Eu não creio que as campanhas estatais, com incentivos, sobretudo económicos, para jóvens casais terem mais filhos tenham sido um sucesso, até agora. Sem dúvida, podem ter contribuído para minorar o problema mas, o que irá contar, será o comportamento dos casais, o número de filhos que desejam. 

Creio que a redução da família a um núcleo isolado, pai-mãe-criança, sendo necessário que os dois progenitores trabalhem para obter o rendimento necessário para sustentar o seu estilo de vida e a educação que ambicionam para seu filho/filha, tem sido o fator decisivo. 

Esta situação não se resolve com incentivos económicos (apenas), nem sequer com melhores condições de apoio à maternidade e paternidade. Um progresso importante seria o reconhecimento real (não apenas na letra da lei) à dispensa no trabalho para apoio a filho(s) doente(s).  Claro que as condições melhoradas, tanto em termos financeiros, como de apoios diversos, não são de desprezar; devem ser levadas a cabo pelos Estados, mas - sobretudo - pelos patrões. 

A transição para um retorno ao equilíbrio virá quando a sociedade no seu todo estiver mais virada para a garantia de boas condições de crescimento, desenvolvimento e educação das crianças, proporcionando às famílias uma rede real de apoio. 

Isto vai implicar o recuo, senão mesmo o desaparecimento da mentalidade inoculada nos decénios de neo-liberalismo. Nestes, o individualismo - para não dizer o egoísmo - foi erguido como direito «sagrado», como expressão da «liberdade», da «maturidade», etc. 

Tudo isto fez parte da ideologia segregada pelo neoliberalismo. O enorme fracasso desta «ideologia do mercado antes de acima de tudo», em especial, acima da vontade política dos cidadãos, ainda não está bem vincado na consciência de muitos. 

Como proponentes e beneficiários principais, a casta política de hoje «não quer ver» os estragos causados pelo neoliberalismo: Em vez de examinar as coisas por outros ângulos, continua a reproduzir a cantilena da «TINA» (There Is No Alternative). Mas, assim como outras correntes político-ideológicas, o neoliberalismo vai tornar-se obsoleto. 

A sociedade, mais cedo ou mais tarde, irá encontrar forma de adoptar soluções que permitirão novo equilíbrio. No futuro, será mais fácil e gratificante uma família basear-se no campo, em vilas ou pequenas cidades, do que em mega-urbes. Nestas circunstâncias, a entreajuda entre vizinhos ainda é uma realidade.

A existência de robots de apoio às tarefas domésticas, não me parece escandalosa. A alternativa é a existência de trabalhador*s (em geral, são mulheres) que efetuam os trabalhos domésticos. Outros empregos melhor pagos e mais satisfatórios serão criados. A produtividade do trabalho, em geral, tenderá a aumentar.

Não vale a pena fazer futurologia sociológica, já sabemos que as pessoas, individual e coletivamente, chegam a novas soluções. Estas podem ter aspetos técnicos mas, sobretudo, relacionam-se com nova organização do trabalho. 

Uma coisa parece-me certa: A sociedade organizada em torno do trabalho, sobretudo do trabalho assalariado, com as pessoas a serem exploradas desta ou daquela maneira, nesta ou naquela indústria, vai caducar

Já existem sinais evidentes disso, porém a estrutura da divisão em classes não tem deixado que as coisas evoluam naturalmente. Os empresários bem podem lamentar-se, hipocritamente, que as relações de trabalho são demasiado rígidas: São fruto de relações de exploração impostas por eles!

 Agora, novas gerações de adultos têm de tomar em mãos as mudanças necessárias, por forma a que a sociedade alcance novos patamares de bem-estar real e não do falso «paraíso» consumista.

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EM COMPLEMENTO: https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2017/11/malthusianismo-e-neo-malthusianismo.html