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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O VALOR EFETIVO DO DINHEIRO: Exemplo do «NAPOLEÃO 20 FRANCS; OURO»




 Uma peça de 20 Francs ouro, da época de Napoleão 1º contém 5,805 gr, de ouro puro. O seu valor em euros, à cotação de hoje (dia 09/10/2026), seria equivalente em poder de compra, a 696,6 €. 

O mesmo tipo de cálculo pode ser efectuado com qualquer outra moeda de ouro ou de prata, cujo teor em metal precioso seja conhecido. 



No vídeo abaixo, verificamos que, embora as condições do povo trabalhador não fossem ideais no início do séc. XIX, teria condições de vida não muito piores que as de hoje em dia. 

Porque a realidade da inflação nestes últimos anos, em França e em toda a UE, tem sido muito superior àquilo que as estatísticas oficiais contabilizam. 

A perda cumulativa do poder aquisitivo de salários e pensões, está na origem do mal-estar e da revolta entre a juventude que hoje se manifesta. Nunca nos dizem, porém, na média corporativa, quais os factores subjacentes às manifestações: A causa imediata pode ser a incapacidade do sistema de ensino público e de saúde pública de satisfazerem os critérios de qualidade a que a população está habituada. Mas, esta degradação tem a ver com o sub-financiamento crónico por parte do Estado. 

Este  lento estrangular da classe trabalhadora, tirando-lhe as condições mínimas duma vida decente, tanto pela desvalorização (não contabilizada) dos salários e pensões, como da degradação dos serviços públicos mais diversos de que são utentes, é devido a uma continuada política neo-liberal. Concretamente, trata-se duma política congeminada para garantir os lucros das empresas e aos seus accionistas, sem contemplações em relação aos extractos pobres, ou mesmo médios, da população.

O sistema monetário, pilotado pelo BCE, com a concordância dos principais atores políticos da Europa do capital, fica posto a nu. Desfazem-se as ilusões das pessoas de boa fé, que têm acreditado na propaganda dos governos da UE e da Comissão de Bruxelas. Com efeito, o mal-estar, que se traduziu agora pela explosão que presenciamos em França, está presente em praticamente todos os países da UE. O facto de não se ter manifestado noutros países de forma tão enérgica como em França, não significa de modo nenhum que essas populações estejam satisfeitas ou conformadas. É claro que se trata duma política coordenada para todo o espaço político-económico da União Europeia. 

Quem tiver dúvidas de que um dos principais instrumentos de exploração é a manipulação do valor real (= poder aquisitivo) das divisas (= do dinheiro), pode constatar, fazendo os seus próprios cálculos, os seus rendimentos e os custos dos principais itens de despesa, ao longo da sua vida. 

O intervalo de duzentos e mais anos, que apresenta o vídeo, não nos pode dar a comparação com as situações de hoje, pois muitas das mercadorias hoje disponíveis não existiam, ou não faziam parte do cabaz de compras dos cidadãos de há 200 anos. 

Aconselho, portanto, os leitores a fazerem  as contas utilizando como intervalo de tempo os últimos 20 anos (ou 25 anos, desde a entrada em circulação do euro), contabilizando seus rendimentos dessa altura e confrontando com o custo de vida, nos países respectivos . 


  


sábado, 3 de outubro de 2026

MINHAS ESCOLHAS DE MÚSICA BARROCA [Segundas-f musicais n° 78 ]


Músicos no Palácio de Versailles


 Porque não fazer uma selecção de música barroca, que tem tanto significado para mim?!
- Embora eu não seja pessoa de gostos exclusivos, seja na música ou noutro domínio, posso dizer-vos que, se tivesse de me exilar numa ilha deserta, tendo de escolher um só estilo musical em discos para levar comigo, a escolha seria uma selecção de obras barrocas. 

A selecção que vos apresento agora tem mais a ver comigo e com os meus afectos, do que com uma avaliação da música pela sua importância, representatividade, etc. 
Mesmo assim,  estimo que a escolha feita pode abrir novos horizontes aos neófitos em música barroca. Em relação aos interpretes, não podia deixar de escolher os que acho serem os melhores, ou entre os melhores. 
A música deveria ser - ao mesmo tempo - sensual e espiritual, pois se for deficitária num dos dois atributos, não satisfará inteiramente.
Por sorte, vivo numa época em que se conhece e se pode apreciar o que existiu de melhor na música dos séculos anteriores. Nós somos, portanto, uns privilegiados, no que toca à possibilidade de conhecer e de usufruir das obras-primas musicais do passado. 
De seguida, apresento-vos 4 amostras musicais do sublime ...




1º) «Concerto Italiano» J.S. Bach

Nesta perfeita interpretação de Scott Ross ao cravo, é toda a alegria de viver do Mediterrâneo, toda a extroversão dos italianos, que transparecem... mas Bach nunca se deslocou a Itália, nem a outros países meridionais da Europa. Fez uma longa viagem (a pé) ao norte da Alemanha, para aprender com o muito respeitado Buxtehude. Sabemos muitos pormenores da vida de Bach e de suas outras deslocações; pode-se afirmar (com segurança) que ele nunca pôs os pés em Itália. Então, como é possível que esta peça exiba a criatividade melódica, a surpresa harmónica, a agilidade no discurso, típicas da música italiana?
- Estes traços estão bem presentes, podemos dizer que é realmente música italiana e do melhor quilate! Somente, foi um alemão que a compôs: Mas, não foi qualquer um. Ele estava destinado a ser um dos maiores músicos na sua época e na posteridade. Com efeito, ele continua a ser muito apreciado e estudado, passados cerca de 300 anos sobre a composição deste Concerto Italiano.
 




2º)«Cum Dederit» de Nisi Dominus por António Vivaldi

E por vos falar de música italiana, homenagem é devida a António Vivaldi, o «Padre Ruivo». Ele ensinava música às meninas órfãs do Ospetalle della Pietà, em Veneza. Quem ouvisse apenas esta peça e não soubesse rigorosamente mais nada de Vivaldi, diria que se trata dum compositor muito espiritual... No que estaria correto! 
Porém, como a alma tem muita complexidade e o talento imensos recursos, sua arte era também sensual (no sentido nobre). A obra «As Quatro Estações» e inúmeros outros exemplos, incluindo as óperas, vêm confirmar a sensualidade na arte de Vivaldi, para além de qualquer dúvida.




3º)«Gavotte com seis variações» por J.-P. Rameau

Rameau constrói "uma suite" dentro doutra suite: A peça «Gavotte com variações», está integrada na Suite em Lá. Esta, tem várias danças estilizadas, unidas pela mesma tonalidade. 
A minha escolha da interpretação de Natacha Kudritskaya ao piano, não é casual. Aprendi com os meus mestres (e por audição em concertos ou em discos), que era perfeitamente legítimo usar um instrumento diferente daquele usado na época do compositor. Há uma técnica e uma sensibilidade próprias na adaptação para o piano, de peças inicialmente concebidas para outros instrumentos de tecla (cravo, espineta,  clavicórdio...). 
Posso apreciar - ou não - a interpretação ao piano duma peça escrita para o cravo. Caso não aprecie, a «culpa» não é do instrumento... é do instrumentista que não teve o bom gosto e a técnica para adaptar a peça referida.




4º)«Eternal Source Of Light Divine», G. F. Haendel

Termino com a peça de Haendel, muito conhecida e utilizada ainda hoje, em cerimónias oficiais  (não é por isso que ela é melhor ou pior). Esta peça, simplesmente, encanta-me. 
Conta-se que a Rainha de Inglaterra, a quem Haendel dedicou esta cantata de aniversário, se mostrou indiferente, na ocasião da estreia. Porém, pouco tempo depois, enviou a Haendel uma generosa remuneração em moedas de ouro. 
Quando oiço esta cantata, porém, não fico a pensar nas circunstâncias exteriores da composição. 
Para mim, esta peça tem um apelo imediato de autenticidade, apesar de saber quanta arte e técnica existem nela. Ela tem uma «respiração» ampla, majestosa e serena. O diálogo entre a voz humana e a trompete, dá-lhe uma luminosidade inigualável, solene e profunda. 


Exemplos da genialidade de Haendel:







terça-feira, 29 de setembro de 2026

JEAN BRICMONT : PERMANECER EM SILÊNCIO

Se não conseguimos inflectir as violências dos nossos próprios governos, que sentido tem condenarmos as reacções violentas dos Estados ou movimentos que foram atacados por eles? pergunta Jean Bricmont.

Na fronteira Tunísia-Líbia, milhares de pessoas tentam fugir da Líbia, momentos antes da 'intervenção humanitária' da OTAN, a 2 de Março 2011. (U.N. Photo/UNHCR/Alexis Duclos)

By Jean Bricmont
Special to Consortium News 

https://consortiumnews.com/2026/09/25/remaining-silent/






Não sou palestino, libanês ou iraniano; não falo árabe, nem sou muçulmano.

Vivi toda a minha vida na Europa e nos Estados Unidos, onde sei que quase todos — mesmo aqueles que afirmam estar em “solidariedade com a Palestina” — começam qualquer crítica a Israel ou ao seu governo “condenando” o Hamas, o Hezbollah ou o “regime dos aiatolás”.

Pretendo explicar por que nunca concordo com tais condenações.

Não é porque eu apoie esses movimentos ou seus métodos; considero a retórica de apoio quase tão fútil quanto a de condenação. A única posição moral válida — que vai além da mera demonstração de virtude — deve derivar de uma análise lúcida da nossa posição (como ocidentais) no mundo e da dinâmica de poder real em jogo.

Nossa posição é simples de descrever: os Estados Unidos, juntamente com seus "aliados" europeus, têm enorme responsabilidade pelos desastres no Oriente Médio — desde a criação do Estado de Israel no pós-guerra e a expulsão em massa de palestinos até a derrubada de Mossadegh, no Irã, em 1953; duas guerras contra o Iraque; décadas de sanções contra o Iraque, a Síria e o Irã; apoio aos massacres sauditas no Iêmen e aos perpetrados por Israel em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano; bem como múltiplas intervenções no Líbano e, hoje, um ataque maciço e não provocado contra o Irã.


Palestinos deslocados retornando à Gaza bombardeada e ao norte pela Rua Al-Rasheed, atravessando a ponte sobre o estuário do Wadi Gaza, 28 de janeiro de 2025. (Ashraf Amra – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo/ Wikimedia Commons/ CC BY-SA 3.0)

É claro que os cidadãos ocidentais comuns não precisam se sentir culpados por políticas que não escolheram — visto que a política externa raramente é debatida em democracias e tem pouco peso nas eleições —, mas as atitudes políticas dos cidadãos ocidentais não podem simplesmente ignorar essas realidades históricas.

Se somos incapazes de conter a violência de nossos próprios governos — sobre os quais poderíamos, em princípio, exercer influência — que sentido faz condenar as reações violentas dos estados ou movimentos que eles atacam?

Os líderes desses estados ou movimentos mal sabem que nossos movimentos cidadãos “críticos” sequer existem; e se soubessem, não se importariam minimamente com nossas opiniões ou críticas, por mais moral ou taticamente corretas que sejam.

Tudo o que esperam de nós é que contenhamos a violência de nossos governos — e se não conseguirmos fazer isso, devemos simplesmente ficar em silêncio.

Na verdade, essa obsessão em denunciar os crimes de inimigos oficiais sempre existiu, mas intensificou-se enormemente no final da Guerra do Vietnã. Essa guerra terminou com uma derrota militar espetacular para os Estados Unidos e uma perda de prestígio moral devido às atrocidades cometidas durante o conflito.

Contudo, as tragédias envolvendo os "refugiados em barcos" — e, ainda mais, as atrocidades cometidas pelo Khmer Vermelho no vizinho Camboja — proporcionaram uma oportunidade de ouro para os defensores do imperialismo americano.

Eles se concentraram nessas tragédias para culpar o movimento pacifista estadunidense, agindo como se este fosse responsável pela situação, embora a repressão no Vietnã que levou os "refugiados em barcos" a fugir fosse inevitável — tal repressão contra colaboradores ocorre no final de todas as guerras.

Além disso, era perfeitamente racional que alguns fugissem como refugiados políticos do que era, na realidade, uma catástrofe econômica causada pela guerra.

Quanto ao Camboja, foram os Estados Unidos que arrastaram o país para o conflito em primeiro lugar, ao substituir o rei Sihanouk, em grande parte neutralista, pelo ditador Lon Nol — uma medida que, combinada com as campanhas maciças de bombardeio americanas, apenas fortaleceu o Khmer Vermelho.

Ademais, durante o colapso final, os EUA cortaram toda a ajuda alimentar ao Camboja; a capital estava repleta de camponeses que haviam fugido dos bombardeios e dependiam dessa ajuda para sua própria sobrevivência. 


Crânios das vítimas da ocupação do Camboja pelo Khmer Vermelho no memorial do Campo de Extermínio de Choeung Ek, Phnom Penh, Camboja, 2012 (istolethetv, Creative Commons Attribution 2.0). 

Isso deu origem à ideologia do “direito à intervenção humanitária” — a noção de que as nações ocidentais têm o direito, ou mesmo o dever, de intervir (inclusive militarmente e em desafio ao direito internacional) em países que “violam os direitos humanos”. Essa ideologia substituiu em parte a luta contra o comunismo — muitas vezes apoiando ditadores — que anteriormente justificava as ações dos EUA, mas que levou ao desastre no Vietnã. Essa ideologia desencadeou um verdadeiro tsunami no pensamento ocidental — particularmente na esquerda, pois permitiu que esta adotasse uma postura aparentemente dissidente (sempre se pode acusar os que detêm o poder de não fazerem o suficiente pelos direitos humanos se demonstrarem cautela ou realismo), que, no entanto, era perfeitamente compatível com os objetivos gerais do imperialismo: enfraquecer os países que resistem à hegemonia americana por meio de subversão interna e sanções externas. A completa hipocrisia dessa ideologia foi rapidamente exposta quando os vietnamitas derrubaram o Khmer Vermelho em 1979, em uma operação que foi verdadeiramente humanitária — em seus efeitos, se não em suas intenções. Essa intervenção foi imediata e unanimemente condenada pelos mesmos países que viriam a se autoproclamar a “comunidade internacional” e que acabavam de arrogar para si — e somente para si — o direito à intervenção humanitária.
Contudo, isso não impediu que a ideologia se tornasse dominante, abrindo caminho para justificar a guerra flagrantemente ilegal contra a Iugoslávia em 1999, bem como a guerra contra a Líbia em 2011.

Este último conflito foi desencadeado depois que o desastre da Guerra do Iraque se tornou flagrantemente óbvio; tal como a guerra no Iraque, a intervenção na Líbia causou estragos dentro do país e em toda a região vizinha do Sahel.

Mesmo em conflitos não travados por razões humanitárias — como as guerras no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003) — a ideologia do “direito de intervenção” manifestou-se na esquerda ocidental (mesmo entre autoproclamados pacifistas) através de slogans do tipo “nem Bush nem o Talibã, nem Bush nem Saddam”.

Depois veio a Ucrânia: enquanto houve apoio quase total a uma intervenção da OTAN para proteger a população kosovar que buscava a independência da Sérvia em 1999, a intervenção da Rússia em 2022 para proteger as populações russas no leste da Ucrânia foi universalmente condenada.

Contudo, as situações não são tão diferentes: os ucranianos do Donbas se insurgiram contra um governo em Kiev que emergiu de um golpe de Estado em 2014 apoiado pelos Estados Unidos e pela Alemanha — um governo profundamente anti-Rússia, ou seja, hostil à parcela russa da população no leste do país, região que fora arbitrariamente anexada à Ucrânia durante a criação da URSS em 1922.

A principal diferença entre essas duas situações é que, ao longo de oito anos (de 2014 a 2022), a Rússia esperava — em vão — garantir um acordo negociado, enquanto a OTAN bombardeou a Sérvia após um processo de negociação fraudulento em Rambouillet, que, na prática, exigia a capitulação da Iugoslávia.

O cenário líbio se repetiu — embora por um período mais longo — na Síria, onde, sem intervenção direta do Ocidente, o apoio maciço aos “rebeldes” por parte dos Estados Unidos, das nações europeias e dos estados do Golfo permitiu que eles tomassem o poder no final de 2024.

A história dirá se isso foi bom ou ruim para o povo sírio, mas o que é certo é que essa mudança de regime foi aplaudida no Ocidente (mesmo que o atual líder sírio tivesse sido previamente designado terrorista pelos Estados Unidos) e particularmente em um estado vizinho, Israel, que aproveitou a oportunidade para expandir sua ocupação ilegal do país.

Em seguida, veio Gaza.


Ruínas de Beit Lahia na Faixa de Gaza, destruídas por bombardeios israelenses, 23 de fevereiro de 2025. (Jaber Jehad Badwan / Wikimedia Commons/ CC BY-SA 4.0)

Inicialmente, a “única democracia no Oriente Médio” desfrutou do mesmo tipo de apoio que os Estados Unidos receberam após o 11 de setembro — simpatia pelas vítimas inocentes de terroristas bárbaros.

A história, os abusos passados, os bloqueios e outros eventos semelhantes foram completamente esquecidos. O Hamas foi retratado como um demônio maligno surgido de uma caixa — um efeito sem causa — e a simples menção da história da Faixa de Gaza ou da Palestina rotulava alguém como apologista do terrorismo, uma posição frequentemente sujeita a processos criminais na Europa.

A mensagem transmitida por essa simpatia a Israel — muito semelhante à enviada aos Estados Unidos em 2001 — era de que “vale tudo”.

Contudo, assim como a interpretação quase literal dessa mensagem pelos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque acabou levando à sua perda de credibilidade, a pura barbárie do ataque israelense a Gaza provocou uma onda de indignação global. Sem se deixar intimidar por essa reação, Israel intensificou sua agressão no Líbano e na Cisjordânia.

Para piorar a situação, veio o ataque ao Irã.

A Insensatez da Aventura Iraniana:


O funeral, em 3 de março de 2026, das vítimas do ataque americano-israelense à escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, Irã. (Agência de Notícias Tasnim/ Wikimedia Commons/ CC BY 4.0)

Após os protestos de janeiro (que estavam longe de ser espontâneos), a expectativa era de que, ao decapitar a liderança do país — e matar muitas crianças no processo — o “regime” (como o Ocidente o chama) entraria em colapso.

Aqui, porém, a aliança EUA-Israel cometeu um erro semelhante ao de Hitler em junho de 1941. Tendo conquistado quase toda a Europa, ele estava convencido de que a URSS ruiria como um castelo de cartas.

Afinal, era exatamente isso que a propaganda anticomunista que ele e seu círculo íntimo haviam escutado ao longo dos anos o levara a acreditar. Quando a guerra não saiu como planejado, ele explicou a seu aliado Carl Gustav Mannerheim — o líder finlandês da época — o quão surpreso estava com a capacidade de resistência soviética.

Não sei o que se diz no Pentágono, mas é provável que sentimentos semelhantes prevaleçam lá em relação ao resultado do ataque ao Irã. E, dado que este ataque foi claramente motivado pela pressão israelense e pelas ilusões que propagaram, é também provável que — mesmo que não o digam publicamente — muitos generais americanos estejam amaldiçoando seu “aliado indispensável”.

Como se isso não bastasse, a crescente influência da China e dos BRICS, as dificuldades enfrentadas pelos sauditas contra os iemenitas — juntamente com a resistência iraniana, libanesa e palestina — sugerem que a era do “imperialismo humanitário”, do direito à intervenção unilateral e do desrespeito ao direito internacional (que surgiu após a Guerra do Vietnã) está chegando ao fim.

O custo humano deste período de imperialismo humanitário fora do Ocidente é assustador: segundo a revista médica britânica The Lancet, 38 milhões de pessoas morreram em consequência das políticas de sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados ao resto do mundo — muitas vezes por razões “humanitárias”.

O Ocidente encontra-se numa encruzilhada: ou tenta manter a hegemonia a todo custo, ou aceita a realidade de um mundo baseado não em regras autodefinidas, mas nos princípios do direito internacional — ou seja, a igualdade soberana de todos os Estados e a não interferência nos assuntos internos de outras nações.

Se optarmos pela segunda opção (a única viável a longo prazo), então — longe de a condenarmos — devemos agradecer a resistência dos povos do Médio Oriente, que se mantiveram firmes contra um imperialismo que a nossa “esquerda” tentou, em grande medida, justificar apenas com sofismas humanitários.

Jean Bricmont é professor de física teórica na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) e autor de inúmeros artigos e livros, incluindo "Imperialismo Humanitário", "A República dos Censores" e "Absurdos da Moda" (com Alan Sokal).

sábado, 19 de setembro de 2026

NA REALIDADE, NÃO EXISTE ESCASSEZ DE DINHEIRO

 


Na realidade, não existe escassez de dinheiro*. Mesmo que se queira reservar o termo «dinheiro» para o ouro e a prata, os metais monetários. É preciso as pessoas perderem a visão «fétiche» sobre o que é o dinheiro. Essencialmente, um meio pelo o qual podem trocar mercadorias e serviços; é também um meio de acumulação de capital. 

No caso da função de intermediário nas trocas, ele desempenha o seu papel, desde que haja acordo de compradores e vendedores em relação ao valor efetivo desse dinheiro. As unidades podem ser arbitrárias, o seu valor unitário (o seu valor efetivo) pode variar muitíssimo. 

Quanto à função de acumulação de capital, como «dinheiro- papel», o seu desempenho é realmente insatisfatório. O dinheiro depositado numa conta a prazo  vai perdendo o seu valor real, apesar de aumentar nominalmente. Os banqueiros organizaram seu negócio para que o depositante nunca (ou muito raramente) obtenha um lucro real pelo seu depósito em dinheiro, na instituição bancária. O dinheiro-papel pode também ser aplicado em ativos financeiros, ações, obrigações, derivados... mas, o risco de perder tudo ou parte do capital acumulado é, muitas vezes, maior que o lucro que tais investimentos possam trazer. Em todo o caso, o cálculo de rentabilidade destas aplicações financeiras do dinheiro é particularmente difícil, pois ninguém tem «uma bola de cristal» para saber, daqui a um ano ou mais, de quanto esse ativo financeiro entretanto se valorizou, ou desvalorizou. Além de que existe a incógnita da taxa de inflação futura, no país ou países, onde tais investimentos foram efetuados. 

Uma taxa de lucro «bruto» de 10%, será um resultado excelente numa economia com valores de inflação próximos de zero; porém, numa economia com inflação de 20%, o lucro  nominal de 10% transforma-se em perda real de -10%!

Não existe solução simples e matemática para o sistema monetário. Tem sido proposto que uma unidade internacional tenha apoio em matérias-primas, ou metais preciosos, ou rendimentos industriais, etc. Esta nova divisa internacional poderia substituir o deplorável sistema «fiat» que reina há mais de 60 anos. No ano de 1971, o Presidente Nixon declarou o não cumprimento dos Acordos de Bretton Woods, fazendo do dólar uma divisa destinada a ser inflacionada (visto não haver nada de concreto para sustentar o seu valor) e, por arrastamento, a enorme quantidade de divisas que estavam indexadas ao dólar. 

Tenho pleno conhecimento do debate sobre «desdolarização» e substituição por novo sistema monetário internacional, de forma a que a unidade de troca seja «ancorada» ao ouro (ou a um cabaz de matérias-primas). Eu próprio me deixei entusiasmar por tal «solução», numa primeira fase. Porém, a capacidade humana em distorcer, ocultar e enganar, não estaria - com certeza - abolida: Logicamente, haveria dirigentes com habilidade e poucos escrúpulos, para conseguir obter o controlo e as vantagens inerentes desse tal novo sistema monetário.

Eu tenho advogado, desde há algum tempo, que as unidades monetárias se confundissem com as unidades de energia: Sendo assim, um montante desse dinheiro (um preço), seria a promessa de receber uma dada quantidade de energia. Todos os países e pessoas precisam de energia nas diversas atividades: Seria claro, transparente e universal, aquilo que estávamos a dar ou receber, aquando de troca envolvendo dinheiro/unidade de energia. 

Tal esquema acima talvez não seja viável por razões políticas; porém, é muito viável em termos práticos. Se houvesse vontade, podia-se organizar a contabilidade em termos de equivalentes energéticos. Por exemplo, nas trocas internacionais, seria muito fácil converter as unidades monetárias, em quantidades de energia (nas unidades do sistema internacional, S. I., por exemplo),  que poderiam corresponder a petróleo, gás, ou eletricidade (gerada de diversas maneiras...). O balanço energético teria muito maior significado que a balança de pagamentos numa divisa (em dólares ou noutra qualquer). 

Hoje em dia, no momento em que todo o comércio internacional, toda a economia, estão informatizados, a necessidade de uma determinada divisa internacional se destinar a pagamentos e trocas, deixa de existir. O cálculo das trocas comerciais e doutros valores, numa certa moeda perdeu muito do seu interesse prático; basta uma calculadora de bolso com função conversora para - instantaneamente - calcular a equivalência de uma soma numa moeda A, noutra B.  

O problema que coloca  a existência de certa moeda de reserva para as trocas internacionais é outro: Há potencialidade do país (ou conjunto de países) que emite(m) essa moeda, abusar(em) do seu privilégio. Nós temos  verificado esse comportamento, ao longo de vários decénios, pelos EUA e não há qualquer garantia de que outra entidade, nacional ou supranacional, que venha a substituir o US dollar , se comporte de modo impecável! Daí que a emissão de dinheiro correspondente a um «vale-energia» faça todo o sentido e seja quase impossível haver fraude, se tal emissão não estiver em mãos de um país, mas for universalmente supervisionada. 

...........

  *) Não existe escassez de dinheiro porque este é colocado em circulação, de acordo com os interesses das grandes corporações e dos magnates bilionários.

A "escassez" (artificial) manifesta-se nos 90% da população, que dependem do trabalho para sobreviver. A abundância de recursos dos muito ricos, se fosse distribuída,  daria para todos terem uma vida decente. Mas, isso é o que a oligarquia não quer, pois iria retirar-lhe poder, mesmo que ela continuasse com a sua vida de luxo. 

O sistema monetário,  tal como existe, não é de modo nenhum neutro; está concebido para perpetuar e proteger a riqueza dos muito ricos .

sexta-feira, 24 de julho de 2026

OURO, PRATA E MUDANÇA DE PARADIGMA MONETÁRIO

 


Numa linguagem acessível David Morgan, um especialista em metais preciosos e empresas mineiras, dá-nos uma breve explicação da mudança  de paradigma monetário que está  a ocorrer.

domingo, 19 de julho de 2026

China fecha mercado do ouro aos especuladores

 

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Na semana de 20-24 de Julho, vai desenrolar-se uma enorme mudança, se eu bem entendi:
 - O mercado do ouro de Xangai vai abrir uma sucursal em Hong-Kong  (HK) com o objetivo explícito de internacionalizar o mercado chinês do ouro. Porém,  o ouro será negociado em termos diferentes do COMEX e do LBMA.  No mercado de HK os futuros não  poderão ser jogados como forma de alavancagem. Isto significa que, se uma entidade coloca para venda uma quantidade de ouro, por exemplo 100 quilos, ela tem de os ter depositados, com garantia e controlo, num cofre certificado da própria bolsa de HK, ou de entidade por ela reconhecida. Não serão possíveis, de ora em diante, vendas a descoberto. Estas, eram um processo usual de grandes bancos (cumprindo instruções dos bancos centrais ocidentais) fazerem baixar artificialmente o preço  do ouro, oferecendo grandes quantidades de "ouro-papel" e não possuindo , muitas vezes, senão o equivalente a um centésimo (ou menos) desse ouro-papel, sob forma de ouro físico na sua posse. 
Os videos acima retraçam todo o esquema e explicam porque razão  o governo chinês decidiu pôr  cobro a isso. 
Note-se que tem sido divulgado que o governo  chinês vai proibir a transacção  de ouro aos seus cidadãos,  o que é falso. As regras de compra e venda do ouro físico não mudaram em nada. Apenas se proibe a alavancagem com contratos de futuros. 
Se o novo mercado de metais atrair muitos clientes ocidentais, vai inviabilizar o esquema fraudulento que, durante décadas,  permitiu que os bancos centrais ocidentais, através  dum pequeno número de bancos comerciais, mantivessem a referida supressão  do valor do ouro e da prata.
No momento em que o ocidente não conseguir mais manobrar como dantes o preço dos metais preciosos, tudo indica  que estes terão uma cotação mais próxima das condições de mercado, resultantes da oferta e procura.


PS1: Ver video



Veja entrevista de Alasdair Mcleod sobre o mesmo assunto: 

domingo, 5 de julho de 2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O BIS colaborou com regime nazi, antes e durante 2° Guerra Mundial


 Documentário sobre o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS, na sigla inglesa). Esclarece concretamente qual o grau de colaboração, ao nível monetário e financeiro, que os nazis tiveram antes e no decurso da IIª Guerra Mundial, com a colaboração de representantes americanos, ingleses, franceses, belgas, etc. 
Saiba como os nazis conseguiram financiar o esforço de guerra. Como eles puderam, até ao fim, comerciar com nações neutras (por exemplo, Portugal). 
A Alemanha nazi utilizou - para adquirir divisas e fazer pagamentos internacionais - o ouro roubado aos bancos centrais dos países invadidos, tal como o ouro roubado aos judeus.  
Esse ouro estava armazenado em Basileia (Suíça) na sede do BIS e era cambiado por divisas, sempre que tal operação era solicitada pelos representantes do regime nazi.


Relacionado : 
https://youtu.be/vaLK-fEhlhg?is=hw1c5x6fSHge6XCM

terça-feira, 5 de maio de 2026

[proso-poemas e música] NO PAÍS DOS SONHOS - VOL. I

 A fantasia que nos toma, nos eleva e nos enebria. 

A imaginação que levanta vôo, a audácia de colar textos próprios a partituras e sons de imortais génios, o atrevimento maior de dar a conhecer estes textos. 

Tudo isso, confesso, fi-lo, com respeitosa deferência, mas também como gesto de apropriação da música. Se consegui ou não fazer algo que fosse o pálido reflexo das obras-primas musicais que eu glosei, não sei. O meu público poderá ajuízar e deliciar-se (ou repudiar) com o exercício.

(Em breve recompilarei o vol. II da série NO PAÍS DOS SONHOS)

sábado, 21 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Frottola «Vergene Bella», Bartolomeo Tromboncino





Versos a Afrodite, Deusa da Geração do Amor e da Vida

A cada passo meu, dentro deste jardim, se vai aproximando o coração da luz. Em ti encontrei o fruto escondido do amor sem pecado. Do amor que se estabelece entre dois seres de luz, fora do tempo e do espaço, porque estão no plano universal do amor de Deus.

As guerras que nos atormentavam, as de ferro e fogo, as de corações inflamados pelas paixões terrenas, não desapareceram, mas não nos causam já esse abalo que nos desvia de Ti.

No meu coração te transporto sem o dizer a ninguém, pois o que há de bom e precioso deve ser preservado do olhar cobiçoso.

O ouro que é meu, esse que é verdadeiro, não é o que se encontra nos cofres e nas baixelas. O ouro que está em mim, não reluz e nem se pode cambiar, tem só uma existência: a do espírito comparticipando no Todo.

Estou em comunhão contigo, Deusa, com a beleza imóvel e intensamente compassiva do teu olhar poisado sobre mim. Em teu coração eu me refugio, recebo tua proteção. Sou teu, dou-te a minha fidelidade e a verdade de meu ser.


[NO PAÍS DOS SONHOS] Tento do Primeiro Tom, Manuel Rodrigues Coelho




O horizonte está entrecortado por colinas, onde tufos incertos de bosquedos teimam em assinalar a sua presença. O rio está quase seco, apenas serpenteando um fio de água por entre pedras e juncos. Oiço gritos ao longe, de uma aldeia ou quinta a duas léguas do ponto onde descanso. O cavalo entretém-se com os raquíticos pastos, ressequidos pelo longo Verão da meseta. O calor ainda é demasiado para nos pormos a caminho. Não consigo pregar olho, pois as moscas zumbem em torno de nós, sem descanso. O Sol ainda está acima do horizonte; quando o crepúsculo chegar, retomarei caminho na estrada de Toledo.

Penso no que acabo de deixar para trás, os olhos humedecem-me. Desterrado, por mim próprio, para o todo sempre, condenado pelo amor impossível que me atormenta. Leal e dignamente, apenas me resta a opção de tomar o hábito de monge numa ordem religiosa.
Ela sabe onde me irei acolher, somente ela e mais ninguém. 
Ao entrar nesta fraternidade monástica irei receber um nome, atribuído pelo superior: somente ele saberá a minha identidade, o meu nome civil, o título nobiliárquico de que sou portador, desaparecerão. As minhas propriedades, todos os meus bens terrenos, pertencerão à ordem monástica. 

Isto custa-me infinitamente menos do que o facto de nunca mais vê-la, a Dona e Senhora de meu coração, a única.



[NO PAÍS DOS SONHOS] Fantasia em Fá menor Op.49, Chopin






Num subterrâneo mundo, onde as águas são iluminadas por debaixo, vogam algumas canoas com misteriosos movimentos ondulantes, muito suaves. Tudo o que se pode entrever do local é adivinhado aquando de brevíssimos clarões azulados, que mostram instantâneos de cenas petrificadas. 
Homens nus reclinados, com a cabeça rapada, deixam-se transportar nas canoas. Estas movem-se sem nenhum gesto de seu passageiro. Cada canoa acosta, sucessivamente, a um pequeno cais. Aí, mulheres muito belas, nuas, vistas de costas, entram sucessivamente, uma em cada canoa. Afastam-se e perdem-se as suas silhuetas no fundo da gruta, que é afinal um rio subterrâneo, que serpenteia por debaixo da terra, silencioso. 

Agora estou numa dessas barcas. Ela dirige-se a uma abertura ao longe, enquadrada pela vermelhidão de archotes. O rio subterrâneo desemboca numa enseada. Observo a paisagem calma da noite com estrelas e sem luar. Oiço claramente o ruído suave da onda a lamber a areia da praia. O vai e vem da maré deixa um rasto fosforescente, desenhando um contorno sempre em mudança a cada ondulação levemente esboçada no limiar das águas. 

Os vultos que caminham desde umas rochas a uns duzentos metros, vão-se aproximando do ponto onde me encontro. Todo o grupo está silencioso, apenas se ouve o ruído do chapinhar da água ao nível de seus calcanhares, pernas, coxas e por fim, mergulham, num deslizar calmo. Nadam longamente, mas a uma distância curta do ponto onde estou. 

Emergem por fim e aproximam-se da praia, fosforescentes, corpos esplêndidos, bem proporcionados, apenas se distinguindo o seu contorno. Tudo é magnífico e nada assustador. Estes corpos espectrais passam perto de mim, mas sem notar-me.

O sonho deixa-me uma sensação de alegria serena; estou envolto num halo de luz e contemplo o céu estrelado, com profunda gratidão.



[NO PAÍS DOS SONHOS] Bachanias Nº5, Heitor Villa-Lobos

- Estou numa barca, ela desliza pela água, com a brisa que a transporta. Em cada margem há floresta, caprichosas formas de árvores de todos os tamanhos, tons e formas…
A minha memória, saturada da beleza deste sol poente vai ao encontro de uma estrela que luz no céu, tão alva e tão singela, apenas visível por alguém que eu amo profundamente:
- Essa mulher está no interior do canto de uma ave, existe neste rincão de selva escondido. Está e chora a sua solidão, pois seu amante está sempre ausente. Porém, deteta-lhe o rasto nos fragores da maresia, nos cânticos das aves e no restolhar das folhas nas árvores. Quando ela ergue o olhar para a estrela, a sua alma fusiona com a do seu amor.
- A espera transmuta-se em encontro … recebi a carícia suave da amada, o peito estremece-me com a brisa fresca do ar matinal.






quinta-feira, 19 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Largo do Concerto para Dois Violinos de J. S. Bach



Obrigado, Bach! 

A doçura deste Largo do concerto para dois violinos é um veículo de transporte mágico para o meu passado. Estou a vogar para o sítio onde os meus anos floresceram. Estou embalado e enlevado pela beleza que se abre, desabrocha, no seio desta música… tal e qual quando a ouvi pela primeira vez. É como se abrisse os olhos à visão do espírito. Deus está em cada partícula e em cada vibração do som, como está no meu coração, quando o abro a esta música.
Obrigado, Bach! Agora estou a pensar em ti, em ti, em ti… estou, eu mesmo, a aproximar-me do teu coração… estou dentro dele como quem está escondido numa gruta, muito calma, muito secreta. Sou eu, o mensageiro dos sonhos, que venho dar-te um abraço longo, como tu abraças o gato, este felino que gosta de se espreguiçar… assim…
Serei felino ou serei homem, não importa.
Estou aqui nesta música, como veículo de teu encontro com o Universo.
Assim, podes dizer-me o que quiseres, na resposta a esta mensagem. Certamente, será ouvida a tua voz… certamente, ela receberá acolhimento e resposta. De minha lavra ou de alguém, de alguma entidade espácio-temporal. Não é necessário especificar mais, nós sabemos… que

…A ciência é boa por essência, somente a preguiça e falta de cuidado dos humanos insiste em distorcer e ver outro maravilhoso onde está a maior de todas as maravilhas: a realidade do universo, a nossa existência e a nossa inteligência de humanos em perceber e comungar com este TODO.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] MOZART Andantino p/ flauta e harpa K299

Sonhado, ouvindo flauta


 




Capto o instante, num olhar reflexo de nuvem, nos olhos da Deusa que nos acorda dentro do sonho e nos conduz ao país em que a realidade e nosso verdadeiro Eu se unificam.


Mas o mistério está muito para lá do instante, pois perdura nos meus ouvidos e não estou a ouvir apenas a música de Mozart, mas a música do chilrear de todas as aves da alvorada.

Neste país sem fronteiras, o meu entendimento maravilhado satisfaz-se com o simples enunciado dum gesto.
Perdura o instante que sempre existiu, desde todo o tempo que existe humanidade.

O coração reaprende a bater o ritmo, em perfeita sincronia com o suave tanger de uma harpa. 


[NO PAÍS DOS SONHOS] Concerto para Piano Nº3 , Prokofiev

Ofegante corria como um louco, até ao portal da casa. Teve de parar, a respiração faltava-lhe. Foi nesse preciso momento que a porta da datcha se abriu e apareceu Nadja, resplandecente na glória os seus dezassete anos. Vestia uma camisa de cores variadas, saia castanha e tinha o cabelo mal apanhado num carrapito, caíam-lhe madeixas pelos ombros. Seu cabelo loiro acobreado enquadrava um rosto muito oval, com lábios desenhando um sorriso discreto, a maior parte do tempo, quando escutava aquele estroina: Inclinava ligeiramente a cabeça, como que para melhor adivinhar o que ia sair dessa cabeça oca e seus olhos cintilavam ou tornavam-se nevoentos, consoante o seu estado de alma. Como se toda a expressão do rosto se concentrasse nos olhos.
Não havia nada de especial naquele relacionamento. Ou melhor, tudo era especial. O jovem e a jovem tinham um pacto não dito de total entrega espiritual e total castidade corporal. Como é isso possível em jovens saudáveis e sem preconceitos? Impossível de explicar. O facto é que ambos se sentiam muito à vontade nessa situação de «não namoro» e nada poderia mudar a disposição dos dois, por mais que as famílias respetivas e os amigos achassem que as coisas não iriam permanecer nesse pé.
Este Verão seria o último, mas eles não suspeitavam de nada. Abraçaram-se e olharam-se nos olhos. Depois, com um sorriso muito terno, Victor poisou um beijo na fronte de Nadja.
Esta desprendeu-se logo do seu abraço, tomou-lhe a mão e arrastou-o numa corrida através do salão, atravessando a porta sempre aberta da cozinha e mostrou-lhe …
 - «Olha! Sua ninhada de oito gatinhos»…
 A gata siamesa estava deitada na alcofa e lambia a cabeça e dorso de um dos gatinhos, numa toilete interminável de mãe-gata.
…...
[não sei como foi a seguir… nada! Apenas me lembro de ter acordado deste sonho com uma opressão no peito, como se algo de terrível tivesse ocorrido. Não sei o quê…]



- Quando chegar o momento em que a Alma do Universo me vier acolher no seu seio, medo não terei.


- Não sei como, nem quando será essa passagem, mas sei que nada me assustará, pois irei para junto dos entes meus queridos.

[NO PAÍS DOS SONHOS] Ballade Nº1, Sol menor, Frédéric Chopin




Restava somente um, de toda aquela casa, outrora ilustre. Tinha forçosamente que fazer a «guarda do castelo», não havia mais ninguém, todos tinham morrido ou fugido. O tempo era de incertezas; roubava-se, aprisionava-se, mutilava-se, matava-se … a gente boa estava fugida. Os bandidos reinavam. Impunham a sua barbárie. Tinham prazer em submeter e humilhar.
Não te irei esconder que passei as horas mais angustiadas de minha vida, nessa época terrível.
Mas o meu medo foi-se transformando em força. Fui aprendendo a dominá-lo. Fazia pequenas sortidas para me abastecer por perto, onde houvesse alimento. Trocava comida por tudo o que pudesse despertar a cobiça dos comerciantes. Já não circulava dinheiro: apenas se trocavam objetos ou serviços.
Era um tempo muito duro de escassez generalizada, exceto para alguns. Estes tinham tudo, em resultado do saque e da extorsão permanente. O obscurantismo de há mil anos voltara e instalara-se. O medo fazia o resto. Tinha de me manter sempre vigilante, dia e noite; era uma autêntica tortura. Só podia dormitar uns minutos por dia, sempre com a arma ao alcance da mão. Agitavam-se vultos durante a noite, mesmo por debaixo das janelas.
Eu ouvia os sons que os homens desesperados faziam, a meio da noite, quando entravam furtivamente no jardim. Eram pobres diabos, exaustos, que apenas bebiam um pouco de água de uma fonte e dormiam umas poucas horas sobre a terra debaixo de um arbusto. De início, tive medo deles, depois compreendi que eu lhes metia respeito a eles também, pois as luzes do interior, filtradas através das gelosias fechadas eram indício seguro de que havia habitantes dentro.
A verdade é que a presença noturna dos fugitivos era protetora contra verdadeiros ladrões e assaltantes. Somente tinha de me manter vigilante para que não fosse surpreendido por um bando organizado de malfeitores armados.
Esta situação manteve-se durante algumas semanas. Depois, apesar da catástrofe, a vida foi retomando os seus direitos. Conseguia ver isso pelo ar menos contraído das pessoas, o seu olhar nem sempre era de medo ou inquietação, às vezes esboçavam um sorriso. 
Os animais selvagens também se acolhiam ao jardim. Escolhiam sempre as horas de maior calmaria. Onde estivesse um melro, um ouriço-cacheiro, uma serpente… era terreno (provisoriamente) seguro. Eles escolhiam locais pacíficos como refúgio.
Por vezes avistava-se um falcão peregrino, poisado sobre um poste de iluminação, de onde observava o entorno.
Os gatos selvagens gostavam de vir furtivamente beber água no tanque das traseiras. Marcavam o território enterrando, em determinados pontos do jardim, seus excrementos. Ao fazerem isso, estavam a dar-me uma ajuda, pois os ratos cheiravam à distância a presença dos felinos e não se aventuravam pelos canteiros da minha horta improvisada.
O mais difícil era manter o equilíbrio perante a situação de incerteza permanente, que obrigava a estar sempre alerta. Mas aprendi a afugentar o medo e a olhar para uma situação aparentemente desesperada com uma certa serenidade.
 As visões que perpassavam pela minha mente, os sonhos acordados dessa época, eram - evidentemente - projeções da minha mente perturbada, mas não insana.
…



segunda-feira, 16 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Magnificat BWV 243 J.S.Bach



Deixou repousar em cima do peito o livro que estava a ler; fechou os olhos. 
Sentia um agradável torpor, embalado pela música de J. S. Bach




Neste estado, as imagens que lhe apareciam diante do espírito e sobretudo os sentimentos no seu peito, o transportavam para o êxtase:
Uma luz difusa fazia rebrilhar miríades de partículas de poeira doirada. Uma pulsação rítmica movimentava o tronco do sonhador, era o movimento do cavalo dócil, que se transmitia ao cavaleiro. Um jovem, no meio de uma orquestra de músicos empoados; estava entoando uma pura melodia jamais ouvida antes.
(Tudo era estranho, justamente por tudo lhe parecer familiar. Até o gato do vizinho se imiscuíra no sonho, com os seus movimentos circunspectos, cautelosos…)
Sobretudo, a estranheza era devida à impossibilidade de decidir onde se encontrava: se no seio da música de Bach, se no conforto do seu estúdio ou se no universo dos sonhos… Talvez estivesse nesses três universos em simultâneo. Era a alegria metafísica que o invadia, que o impulsionava a subir aquela escada de luminoso cristal que se erguia pelos céus em arcada, num majestoso arco-íris. O livro que tinha estado a ler, porém, não estava relacionado com tal visão. Embora não se saiba o conteúdo exato do mesmo, sabe-se que era de bioquímica. Com efeito, no campo dos sonhos onde evoluía, bailavam várias espirais caprichosas de proteínas, enroladas em torno de eixos invisíveis, em tons de vermelho, roxo, castanho e azul-escuro. Deslocavam-se, rodavam e pulsavam ao ritmo da música. Por vezes, aproximavam-se umas das outras, ou se afastavam como galáxias no Universo.


[Depois, mergulhou num torpor profundo e sua visão esfumou-se rapidamente.]



sábado, 14 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Salmo Primeiro



SONHO 4:               Salmo Primeiro, Coro de monges do mosteiro de Optina (Rússia)



Eles aqueciam-se como podiam ao calor da fogueira. Estavam no meio da estepe gelada. Outros fogos tremeluzentes se viam por todo o horizonte. Irkutz estava a onze vestras. O acampamento fora ordenado ao cair da noite. Em Setembro já mordia o frio do outono. De vez em quando, ao longe, ouvia-se o tropel dos cascos da cavalaria, que passava perto do nosso acampamento. Ouviam-se também vozes em surdina, dos soldados do regimento de infantaria nº16, em torno da fogueira. Nunca mais se calavam; falavam de tudo e de nada. Rompido de cansaço, acabei por adormecer. Um suave calor bafejava-me o rosto.
Não sei se foi sonho ou foi realidade; não sei se ela se deslocou por artes mágicas até ao acampamento ou se sempre lá estivera:
- O que sei é que o seu rosto estava lá, no meio dos meus companheiros de armas. Aquele rosto trigueiro e oval, com olhos de faiança e cabelos de seda. Vestia com modéstia, mas o seu porte era de uma princesa. Sua doçura e espontânea bonomia derretiam-nos a todos. Ninguém era insensível à beleza, no meio de tanta fealdade.
Vi o seu vulto levantar-se da roda da fogueira, com um movimento ondulante e flexível, erguendo-se no meio dos meus companheiros. Logo começou a entoar uma prece. Ela dizia o verso e o coro de homens respondia-lhe. As vozes entoavam os salmos num uníssono perfeito, tanto as dos velhos e ressequidos sargentos, como as dos jovens quase imberbes.
Tal era a perfeição, que me pareceu um encanto; era como se nada tivessem feito na vida, senão cantar a salmódia. Os versos eram espaçados por pausas. Nestas, o crepitar do fogo fazia-se ouvir. Maria estava no meio de todos nós, seus familiares, vizinhos, amigos.
Não havia ninguém que não conhecesse Maria; não havia soldado que ela ignorasse, a todos cumprimentava pelo patrónimo. Numa ocasião, vira como ela tratava de um ferido que tremia de febre - já nem conseguia segurar a colher ou a malga.
Senti-me feliz como nunca, nessa noite! Sabia que estava sob proteção dum anjo enviado pelo Senhor. Nem a morte eu temia!
Desde então, trilhei os caminhos da luz e da bondade, seguindo a Palavra, que ressoava na voz do povo.
Se foi sonho ou realidade, não sei. Para mim, isso é indiferente, pois a vida mudou-se totalmente a partir dessa noite.
Tive de sofrer muito; vi horrores, tive medo, frio, fome, fui ferido, bati o dente de febre, corri como um coelho diante da metralha. Esporei desesperadamente cavalos e cruzei ferro com inimigos ferozes, tão desesperados como eu. Percorri milhares de vestras em países distantes, sob climas tórridos ou gélidos. Sou o que sou, sem dúvida. Mas não tenho a arrogância de me considerar mestre de meu destino. A minha vida foi igual à de muitos homens, tão bons ou tão maus quanto eu. No entanto, sinto-me diferente. Tornei-me outro, a partir da noite da visão acima descrita. A simples evocação dessa noite, enche-me de suave júbilo. Iluminou vários momentos e episódios da minha jornada.
Meu último desejo é somente que alguém transcreva estas palavras. Ámen.


[Alexei transcreveu, 17 de Outubro, Ano da Graça de 1842]

Posted by Manuel Baptista at 14.5.16



sexta-feira, 13 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Allemande da partita para flauta solo BWV 1013 de J.S. Bach


(Adormeço e vou de novo para o país dos sonhos.)


Agora estou à porta de uma casa, no campo. Esta casa parece-me muito familiar, porém, ao mesmo tempo, não sei onde estou.
É como se tivesse sido transportado de repente a um local onde já estive no passado, mas ao ignorar todo o caminho percorrido, tenho de tentar buscar na memória em que circunstâncias eu me encontrei em frente desta casa ou de outra semelhante a esta.
De repente, a porta principal abre-se e sai de lá um jovem apressado. Leva uma sacola a tiracolo; aparenta uns 20 e poucos anos… Ele não olha para o sítio onde me encontro. Está decidido, no passo largo, ligeiramente curvado, olhando fixamente o chão à sua frente. Que estará ele a pensar? Impossível saber!
- Embora eu nunca venha a saber nada mais do jovem, agora já sei onde e como eu vi esta casa pela primeira vez: …. Curiosamente, este jovem desconhecido permitiu-me situar-me no tempo. Num tempo muito diferente deste, embora as casas e as indumentárias fossem pouco diferentes do que se vê agora.
Sim, foi há uns quarenta anos e aquele jovem…sim, era eu!


[NO PAÍS DOS SONHOS] «Impromptu» em Lá bemol maior, Op.90 D.899, nº4 de Schubert


[O impromptu, como o nome o indica é, na origem, um improviso. Estes improvisos transcritos de Schubert têm o dom de, magicamente, nos restituir a atmosfera dos serões vienenses.
Não sei se este é o impromptu que melhor faz vibrar a corda sensível dos outros. Mas, certamente no que toca á minha pessoa, quando o oiço, é impossível não começar a sonhar acordado:]
- Sonho que estou sentado à lareira de uma casa burguesa, está uma primavera fria - neva lá fora. Uma jovem está ao piano, de costas para mim, com um xaile de lã axadrezada e executa com nonchalance este impromptu.

O professor, um jovem com uma casaca escura e gravata branca, de pé no lado esquerdo da executante, ligeiramente inclinado, segue a interpretação lendo a partitura, uma mão pronta, ao canto da mesma, para virar a página.