terça-feira, 29 de setembro de 2026

JEAN BRICMONT : PERMANECER EM SILÊNCIO

Se não conseguimos inflectir as violências dos nossos próprios governos, que sentido tem condenarmos as reacções violentas dos Estados ou movimentos que foram atacados por eles? pergunta Jean Bricmont.

Na fronteira Tunísia-Líbia, milhares de pessoas tentam fugir da Líbia, momentos antes da 'intervenção humanitária' da OTAN, a 2 de Março 2011. (U.N. Photo/UNHCR/Alexis Duclos)

By Jean Bricmont
Special to Consortium News 

https://consortiumnews.com/2026/09/25/remaining-silent/






Não sou palestino, libanês ou iraniano; não falo árabe, nem sou muçulmano.

Vivi toda a minha vida na Europa e nos Estados Unidos, onde sei que quase todos — mesmo aqueles que afirmam estar em “solidariedade com a Palestina” — começam qualquer crítica a Israel ou ao seu governo “condenando” o Hamas, o Hezbollah ou o “regime dos aiatolás”.

Pretendo explicar por que nunca concordo com tais condenações.

Não é porque eu apoie esses movimentos ou seus métodos; considero a retórica de apoio quase tão fútil quanto a de condenação. A única posição moral válida — que vai além da mera demonstração de virtude — deve derivar de uma análise lúcida da nossa posição (como ocidentais) no mundo e da dinâmica de poder real em jogo.

Nossa posição é simples de descrever: os Estados Unidos, juntamente com seus "aliados" europeus, têm enorme responsabilidade pelos desastres no Oriente Médio — desde a criação do Estado de Israel no pós-guerra e a expulsão em massa de palestinos até a derrubada de Mossadegh, no Irã, em 1953; duas guerras contra o Iraque; décadas de sanções contra o Iraque, a Síria e o Irã; apoio aos massacres sauditas no Iêmen e aos perpetrados por Israel em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano; bem como múltiplas intervenções no Líbano e, hoje, um ataque maciço e não provocado contra o Irã.


Palestinos deslocados retornando à Gaza bombardeada e ao norte pela Rua Al-Rasheed, atravessando a ponte sobre o estuário do Wadi Gaza, 28 de janeiro de 2025. (Ashraf Amra – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo/ Wikimedia Commons/ CC BY-SA 3.0)

É claro que os cidadãos ocidentais comuns não precisam se sentir culpados por políticas que não escolheram — visto que a política externa raramente é debatida em democracias e tem pouco peso nas eleições —, mas as atitudes políticas dos cidadãos ocidentais não podem simplesmente ignorar essas realidades históricas.

Se somos incapazes de conter a violência de nossos próprios governos — sobre os quais poderíamos, em princípio, exercer influência — que sentido faz condenar as reações violentas dos estados ou movimentos que eles atacam?

Os líderes desses estados ou movimentos mal sabem que nossos movimentos cidadãos “críticos” sequer existem; e se soubessem, não se importariam minimamente com nossas opiniões ou críticas, por mais moral ou taticamente corretas que sejam.

Tudo o que esperam de nós é que contenhamos a violência de nossos governos — e se não conseguirmos fazer isso, devemos simplesmente ficar em silêncio.

Na verdade, essa obsessão em denunciar os crimes de inimigos oficiais sempre existiu, mas intensificou-se enormemente no final da Guerra do Vietnã. Essa guerra terminou com uma derrota militar espetacular para os Estados Unidos e uma perda de prestígio moral devido às atrocidades cometidas durante o conflito.

Contudo, as tragédias envolvendo os "refugiados em barcos" — e, ainda mais, as atrocidades cometidas pelo Khmer Vermelho no vizinho Camboja — proporcionaram uma oportunidade de ouro para os defensores do imperialismo americano.

Eles se concentraram nessas tragédias para culpar o movimento pacifista estadunidense, agindo como se este fosse responsável pela situação, embora a repressão no Vietnã que levou os "refugiados em barcos" a fugir fosse inevitável — tal repressão contra colaboradores ocorre no final de todas as guerras.

Além disso, era perfeitamente racional que alguns fugissem como refugiados políticos do que era, na realidade, uma catástrofe econômica causada pela guerra.

Quanto ao Camboja, foram os Estados Unidos que arrastaram o país para o conflito em primeiro lugar, ao substituir o rei Sihanouk, em grande parte neutralista, pelo ditador Lon Nol — uma medida que, combinada com as campanhas maciças de bombardeio americanas, apenas fortaleceu o Khmer Vermelho.

Ademais, durante o colapso final, os EUA cortaram toda a ajuda alimentar ao Camboja; a capital estava repleta de camponeses que haviam fugido dos bombardeios e dependiam dessa ajuda para sua própria sobrevivência. 


Crânios das vítimas da ocupação do Camboja pelo Khmer Vermelho no memorial do Campo de Extermínio de Choeung Ek, Phnom Penh, Camboja, 2012 (istolethetv, Creative Commons Attribution 2.0). 

Isso deu origem à ideologia do “direito à intervenção humanitária” — a noção de que as nações ocidentais têm o direito, ou mesmo o dever, de intervir (inclusive militarmente e em desafio ao direito internacional) em países que “violam os direitos humanos”. Essa ideologia substituiu em parte a luta contra o comunismo — muitas vezes apoiando ditadores — que anteriormente justificava as ações dos EUA, mas que levou ao desastre no Vietnã. Essa ideologia desencadeou um verdadeiro tsunami no pensamento ocidental — particularmente na esquerda, pois permitiu que esta adotasse uma postura aparentemente dissidente (sempre se pode acusar os que detêm o poder de não fazerem o suficiente pelos direitos humanos se demonstrarem cautela ou realismo), que, no entanto, era perfeitamente compatível com os objetivos gerais do imperialismo: enfraquecer os países que resistem à hegemonia americana por meio de subversão interna e sanções externas. A completa hipocrisia dessa ideologia foi rapidamente exposta quando os vietnamitas derrubaram o Khmer Vermelho em 1979, em uma operação que foi verdadeiramente humanitária — em seus efeitos, se não em suas intenções. Essa intervenção foi imediata e unanimemente condenada pelos mesmos países que viriam a se autoproclamar a “comunidade internacional” e que acabavam de arrogar para si — e somente para si — o direito à intervenção humanitária.
Contudo, isso não impediu que a ideologia se tornasse dominante, abrindo caminho para justificar a guerra flagrantemente ilegal contra a Iugoslávia em 1999, bem como a guerra contra a Líbia em 2011.

Este último conflito foi desencadeado depois que o desastre da Guerra do Iraque se tornou flagrantemente óbvio; tal como a guerra no Iraque, a intervenção na Líbia causou estragos dentro do país e em toda a região vizinha do Sahel.

Mesmo em conflitos não travados por razões humanitárias — como as guerras no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003) — a ideologia do “direito de intervenção” manifestou-se na esquerda ocidental (mesmo entre autoproclamados pacifistas) através de slogans do tipo “nem Bush nem o Talibã, nem Bush nem Saddam”.

Depois veio a Ucrânia: enquanto houve apoio quase total a uma intervenção da OTAN para proteger a população kosovar que buscava a independência da Sérvia em 1999, a intervenção da Rússia em 2022 para proteger as populações russas no leste da Ucrânia foi universalmente condenada.

Contudo, as situações não são tão diferentes: os ucranianos do Donbas se insurgiram contra um governo em Kiev que emergiu de um golpe de Estado em 2014 apoiado pelos Estados Unidos e pela Alemanha — um governo profundamente anti-Rússia, ou seja, hostil à parcela russa da população no leste do país, região que fora arbitrariamente anexada à Ucrânia durante a criação da URSS em 1922.

A principal diferença entre essas duas situações é que, ao longo de oito anos (de 2014 a 2022), a Rússia esperava — em vão — garantir um acordo negociado, enquanto a OTAN bombardeou a Sérvia após um processo de negociação fraudulento em Rambouillet, que, na prática, exigia a capitulação da Iugoslávia.

O cenário líbio se repetiu — embora por um período mais longo — na Síria, onde, sem intervenção direta do Ocidente, o apoio maciço aos “rebeldes” por parte dos Estados Unidos, das nações europeias e dos estados do Golfo permitiu que eles tomassem o poder no final de 2024.

A história dirá se isso foi bom ou ruim para o povo sírio, mas o que é certo é que essa mudança de regime foi aplaudida no Ocidente (mesmo que o atual líder sírio tivesse sido previamente designado terrorista pelos Estados Unidos) e particularmente em um estado vizinho, Israel, que aproveitou a oportunidade para expandir sua ocupação ilegal do país.

Em seguida, veio Gaza.


Ruínas de Beit Lahia na Faixa de Gaza, destruídas por bombardeios israelenses, 23 de fevereiro de 2025. (Jaber Jehad Badwan / Wikimedia Commons/ CC BY-SA 4.0)

Inicialmente, a “única democracia no Oriente Médio” desfrutou do mesmo tipo de apoio que os Estados Unidos receberam após o 11 de setembro — simpatia pelas vítimas inocentes de terroristas bárbaros.

A história, os abusos passados, os bloqueios e outros eventos semelhantes foram completamente esquecidos. O Hamas foi retratado como um demônio maligno surgido de uma caixa — um efeito sem causa — e a simples menção da história da Faixa de Gaza ou da Palestina rotulava alguém como apologista do terrorismo, uma posição frequentemente sujeita a processos criminais na Europa.

A mensagem transmitida por essa simpatia a Israel — muito semelhante à enviada aos Estados Unidos em 2001 — era de que “vale tudo”.

Contudo, assim como a interpretação quase literal dessa mensagem pelos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque acabou levando à sua perda de credibilidade, a pura barbárie do ataque israelense a Gaza provocou uma onda de indignação global. Sem se deixar intimidar por essa reação, Israel intensificou sua agressão no Líbano e na Cisjordânia.

Para piorar a situação, veio o ataque ao Irã.

A Insensatez da Aventura Iraniana:


O funeral, em 3 de março de 2026, das vítimas do ataque americano-israelense à escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, Irã. (Agência de Notícias Tasnim/ Wikimedia Commons/ CC BY 4.0)

Após os protestos de janeiro (que estavam longe de ser espontâneos), a expectativa era de que, ao decapitar a liderança do país — e matar muitas crianças no processo — o “regime” (como o Ocidente o chama) entraria em colapso.

Aqui, porém, a aliança EUA-Israel cometeu um erro semelhante ao de Hitler em junho de 1941. Tendo conquistado quase toda a Europa, ele estava convencido de que a URSS ruiria como um castelo de cartas.

Afinal, era exatamente isso que a propaganda anticomunista que ele e seu círculo íntimo haviam escutado ao longo dos anos o levara a acreditar. Quando a guerra não saiu como planejado, ele explicou a seu aliado Carl Gustav Mannerheim — o líder finlandês da época — o quão surpreso estava com a capacidade de resistência soviética.

Não sei o que se diz no Pentágono, mas é provável que sentimentos semelhantes prevaleçam lá em relação ao resultado do ataque ao Irã. E, dado que este ataque foi claramente motivado pela pressão israelense e pelas ilusões que propagaram, é também provável que — mesmo que não o digam publicamente — muitos generais americanos estejam amaldiçoando seu “aliado indispensável”.

Como se isso não bastasse, a crescente influência da China e dos BRICS, as dificuldades enfrentadas pelos sauditas contra os iemenitas — juntamente com a resistência iraniana, libanesa e palestina — sugerem que a era do “imperialismo humanitário”, do direito à intervenção unilateral e do desrespeito ao direito internacional (que surgiu após a Guerra do Vietnã) está chegando ao fim.

O custo humano deste período de imperialismo humanitário fora do Ocidente é assustador: segundo a revista médica britânica The Lancet, 38 milhões de pessoas morreram em consequência das políticas de sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados ao resto do mundo — muitas vezes por razões “humanitárias”.

O Ocidente encontra-se numa encruzilhada: ou tenta manter a hegemonia a todo custo, ou aceita a realidade de um mundo baseado não em regras autodefinidas, mas nos princípios do direito internacional — ou seja, a igualdade soberana de todos os Estados e a não interferência nos assuntos internos de outras nações.

Se optarmos pela segunda opção (a única viável a longo prazo), então — longe de a condenarmos — devemos agradecer a resistência dos povos do Médio Oriente, que se mantiveram firmes contra um imperialismo que a nossa “esquerda” tentou, em grande medida, justificar apenas com sofismas humanitários.

Jean Bricmont é professor de física teórica na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) e autor de inúmeros artigos e livros, incluindo "Imperialismo Humanitário", "A República dos Censores" e "Absurdos da Moda" (com Alan Sokal).

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

MÚSICA & POESIA EM PARIS [Segundas-f. Musicais, nº77]



A poesia é música, celebremos pois os poetas que enobreceram a língua francesa e estão associados, em muitos aspectos, à cidade de Paris. 
Muitas outras cidades de França e do Mundo têm suas histórias entrelaçadas com personagens literárias e poéticas. Nisso, Paris não é excepção. 
O que a caracteriza como excepcional, é ligação dos poetas a Paris, através do universo da canção.


A CANÇÃO PARISIENSE

 Desde François Villon (c. 1431 - após 1463), até aos cantores-autores dos séculos XX e XXI, foram postos em música inúmeros poemas que, de forma directa ou indirecta, evocam Paris. Mesmo quando não seja de modo explícito, a canção parisiense tem o jeito de nos evocar locais e cenas parisienses.
Por isso, Paris estará sempre entre as mais belas e musicais metrópoles do planeta.



                         https://www.youtube.com/watch?v=GG-n8fd2kWk&t=122s


OS POETAS MALDITOS 

Estamos «programados» para celebrar poetas dos séculos anteriores, mesmo conhecendo os lados menos luzentes dos mesmos. 
Baudelaire, Verlaine, Rimbaud... Não eram famosos no seu tempo. A sociedade não lhes dava valor. As pessoas «decentes» julgavam-nos obscenos, dissolutos e decadentes. Praticamente, foram descobertos, editados e apreciados, somente decénios após sua morte.
Quanto aos poetas malditos de hoje: Quais serão os reconhecidos como «poetas geniais», no próximo século?


CANÇÕES E POEMAS DE QUALIDADE

Entretanto, podemos ouvir versões musicadas de alguns poemas, compostas por Léo Ferré, Jean Ferrat e Georges Brassens. Mas, além destes, Charles Trenet e muitos outros puseram em música as poesias do passado. 
A composição de música sobre poemas é bastante exigente. Somente os criadores de talento conseguem fazer sobressair a música implícita nas poesias.

(Antologia poética e musical:)








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Titre : Le Pont Mirabeau
Poète : Guillaume Apollinaire (1880-1918)
Recueil : Alcools (1913).

Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu'il m'en souvienne
La joie venait toujours après la peine.

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure.

Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l'onde si lasse.

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure.

L'amour s'en va comme cette eau courante
L'amour s'en va
Comme la vie est lente
Et comme l'Espérance est violente.

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure.

Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine.

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure 

sábado, 26 de setembro de 2026

ANTES, DURANTE E DEPOIS DA «SAÍDA DE ÁFRICA»


 A tese da emergência da espécie humana «moderna», pelo cruzamento de precursores de várias origens (africana, asiática, europeia) não está de todo arredada. A apresentadora descreve uma imagem simplista da tese «policêntrica», que teve algum sucesso no século XIX, mas foi descartada, pois foi utilizada como suposto fundamento para as «raças» humanas e teorias de superioridade (e inferioridade) «racial». 
Mas, aquilo que se está a pôr em causa, hoje em dia, não respeita à(s) saída(s) de África, isso são factos. O que está em causa é que um grupo de humanos «modernos» tenha saído de África e colonizado o Médio Oriente e a Europa, apenas de uma vez. 
Há evidências de que houve um certo grau de hibridação com neandertais, nas supostamente «falhadas» colonizações pelos H. sapiens: existem sequências de Homo sapiens, no ADN de Neandertais datados de antes da chegada definitiva do H. sapiens. 
É notável a capacidade ubíqua de adaptação a vários habitats, mostrada não apenas pelo H. sapiens antigo, como também outros membros do género Homo, como os Neandertais ou os Denisovanos. 
Aquilo que o breve documentário deixa de fora é o papel que tiveram as introgressões, ou seja, inserção de ADN de uma espécie, no ADN de outra. Este papel foi (e ainda é) importante, pois trouxe maior capacidade de enfrentar desafios ambientais, desde a resistência ao frio e aos patogénicos (genes Neandertais), até à capacidade de sobrevivência em locais de muito elevada altitude, como nos Himalaias (genes Denisovanos) além dos caracteres morfológicos (aliás, estes também podem ter carácter adaptativo...). 
Sabemos que a espécie humana de hoje, não resulta dum «apuramento da raça», produzindo humanos «superiores» às restantes espécies, com as quais competiu:  Este era o estereótipo do século XIX e muito do séc. XX. 
As provas físicas mostram que a espécie humana «moderna» foi sendo construída com participação doutras espécies, com as quais havia certo grau de compatibilidade genética. Processo que também ocorreu em cruzamentos com algumas espécies africanas e de que só temos conhecimento através de sequências de ADN presentes no genoma de africanos contemporâneos. 
Em definitivo, houve várias «saídas de África» e parece-me muito arriscado presumir que os humanos, Homo sapiens, encontrados em certos pontos da Europa, com mais de 210 mil anos, possam representar necessariamente «uma tentativa falhada». Esta interpretação parece-me tanto mais surpreendente que não se pode ignorar o facto de ADN de Neandertais ser portador de sequência de Homo sapiens «moderno». Estes Neandertais antecedem de centenas de milhares de anos os H. sapiens, na ocupação da Eurásia. Tendo havido cruzamento e fixação de genes, num período indeterminado, mas provavelmente anterior a 210 mil anos, podemos dizer que os primeiros colonizadores humanos «modernos» participaram no conjunto genético dos Neandertais. Não se pode dizer que a colonização falhou, pois deixaram uma marca genética, além dos fósseis de ossos e os artefactos. 
Creio que a ideia de que a África paleolítica era semelhante do ponto de vista climático com a de hoje, é insustentável. No deserto do Sahara tem-se encontrado restos fósseis de fauna e flora, cuja presença denota, em certos estratos, um clima muito mais húmido, mais diversificado, com rios, lagos, etc. Neste espaço imenso, os homens «modernos», desenvolveram culturas e atravessaram o Mediterrâneo, em sítios que estavam a seco devido a um nível dos mares muito mais baixo, devido a acumulação de água em glaciares, em consequência do arrefecimento cíclico do planeta (eras glaciares). 
Só uma integração de várias disciplinas, pode fornecer uma narração credível das várias migrações da espécie humana e das suas antecessoras.


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

JÚLIA MENDEL - ENTREVISTA-BOMBA [Censurada no Parlamento Europeu]


 Júlia Mendel foi secretária de Zelensky durante vários anos. Decepcionada profundamente pelo desempenho de Zelensky enquanto presidente, consciente de que a salvação da Ucrânia e dos ucranianos passa por trazer a paz, diz tudo o que sabe e tem sido escondido pela media do Ocidente. Entrevista conduzida pelo grande jornalista Patrick Baab, trata-se de um importante documento, duma entrevista memorável. 
O seu conteúdo está relacionado com a sobrevivência deste povo; é isto que está em jogo.

[Júlia Mendel iria falar no Parlamento Europeu, a convite dum grupo parlamentar, como é costume; mas a maioria, ou o secretariado do PE, terá recusado ouvi-la. Isto ilustra bem o fechamento sectário e insegurança de certos deputados do Parlamento Europeu. Quem está tranquilo em relação às suas posições, não vai interditar que uma pessoa como ela fale!]

Dmitri Orlov: AUTÓPSIA do Estado Profundo


 O  intelectual herege - em relação a todas as igrejas e ideologias - faz a sua original análise  do que é  e de como funciona o chamado "Estado Profundo". A sua análise assenta sobre observações colhidas tanto na ex-URSS  como nos EUA e aplicável em  muitos outros países,  pois praticamente se encontra em todo o lado tal conglomerado de burocracia e de poder exercido desde os bastidores.

A NÃO PERDER!

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Consultar episódios anteriores em:

https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2026/09/questoes-sem-resposta-dmitri-orlov.html

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

ANTÓNIO GUTERRES DIRIGE DISCURSO À ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS

 



Um discurso bem construído, com conteúdo significativo. Porém, dá para pensar por que motivo a capacidade de intervenção da ONU nos conflitos se tem mantido muito abaixo das necessidades? Não culpo o atual secretário-geral, nem seus antecessores, mas gostava de ler uma análise aprofundada sobre as raízes desta paralisia.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

DESASTRES NATURAIS [OPUS, VOL. IV; MANUEL BANET]



Por aqui passou como vento primaveril num céu  outonal e senti estremecer até  às raízes das árvores.  

Mas, tais coisas não  são notícia e deixam incrédulos os meus cidadãos.

 Então, dialoguei longamente com meus confidentes, os cães e gatos da vizinhança. 

Eles confirmaram  e forneceram detalhes sobre tal fenómeno.

Vislumbrei que este sopro fora de estação era um aviso da Deusa-Natureza.

Aos homens que procuram a guerra, tresloucados pelo desejo de poder, a Natureza Divina responderá: 

Fará ruir os seus planos assassinos, criará o caos com tempestades  magnéticas, porá em debandada  poderosas armadas e nuvens de aves irão levantar voo sincronizadas, escurecendo o céu. 

 Os humanos começarão a  desobedecer aos chefes políticos e militares que insistirem em ações  bélicas, contra todo o bom-senso. 

Porém, alguns fanáticos estarão ainda mais determinados. Mãe Natureza enviará contra eles  estirpes de bactérias e vírus infetando os humanos recalcitrantes.

 Talvez a loucura criminosa seja aplacada, talvez não.  Neste caso, serão necessárias medidas infelizmente mais destrutivas e menos selectivas.

 A fusão das calotas glaciares e a inundação das costas onde estão muitos dos orgulhosos conjuntos urbanos, contendo riquezas e vastos arsenais,  vai obrigar a uma paragem da guerra.

Os humanos, hipnotizados,  não conseguem ver o que se passa. 

Encontram sempre motivos exteriores à sua própria imbecilidade para as catástrofes que se vão sucedendo. 

Não se sabe quem são os mais estúpidos, se os que decretam as guerras,  se os que correm a faze-las como se cumprissem um dever!

As criaturas que nós chamamos "irracionais," afinal são animais que obedecem à lei da Natureza, Toda- Poderosa. 

Os humanos, querendo colocar-se à parte, são eles os irracionais, incapazes de fazer uso do seu juízo,  causando guerras, fomes, epidemias e a destruição dos ecossistemas. 

Por isso, se desaparecesse a espécie  humana,  a restante vida do planeta seria favorecida!


Lisboa, 22 de setembro 2026


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NB: Este belíssimo documentário sobre a fauna de Chernobyl após o acidente da central nuclear é uma prova do que afirmo no texto. Há muitas outras...



segunda-feira, 21 de setembro de 2026

«O MAIS PERIGOSO MOMENTO DESDE A 2ª GUERRA MUNDIAL» por GEORGE GALLOWAY


 

PS: Acrescento que o risco de confrontação bélica com a Rússia cresce do lado da União Europeia e pela mão de Merz, cujo resultado nas últimas eleições estaduais no Norte foram desastrosas (jamais visto desde a fundação do Estado Federal Alemão) face à subida da AFD, que ele classifica erroneamente de «nazi». Políticos como Merz e como Von der Leyen são o tipo de pessoas para precipitar um país (ou um conjunto deles) na guerra, visto que só assim têm possibilidade de se manter no poder. 
Caso não haja uma guerra, para «justificar» a suspensão do processo eleitoral, eles estarão fatalmente arredados do poder, pelo voto dos alemães.

2 ELEGIAS / 2 COMPOSITORES: FAURÉ E RACHMANINOV [Segundas-f. musiciais, nº76]

                                       

[Este apontamento serve como homenagem a Jacqueline du Pré e Seku Kanneh-Mason. A primeira, já desaparecida, padeceu durante muito tempo de doença incapacitante, com a qual a excelente violoncelista teve de lutar durante vários anos. Seku Kanneh, é um fenómeno de maturidade precoce na arte de interpretar o reportório mais exigente do violoncelo. O seu sucesso estrondoso é bem merecido.]      



  Élégie de Gabriel Fauré; piano et violoncelle

                                Violoncelle: Jacqueline Du Pré et  piano: Gerald Moore


https://www.youtube.com/watch?v=UJFI6vQVwQQ



                                           Élégie de Sergei Rachmaninov; piano et violoncelle

                                           Violoncelle:    Sheku Kanneh-Mason

https://www.youtube.com/watch?v=yJZsfIxUGFg

Estas duas peças, Elegie de Fauré e Elegie de Rachmaninov (esta, inicialmente escrita para piano solo), são muito conhecidas e frequentemente gravadas, ou executadas em recitais.
Elas nos transportam para um universo de sofrimento espiritual, como quando se perde alguém querido. Não são peças para se ouvir distraidamente: Precisamos de nos concentrar na música porque cada nota, cada vibração, cada silêncio, se destinam a fazer-nos penetrar na essência vital das coisas.
Porém, ambas as Elegias apresentam uma saída à depressão, ambas possuem abertura para o céu azul.  De facto, são catárses, libertam-nos das obsessões da morte, da tragédia. Elas permitem-nos a reconstrução interior da mente e do afeto, após o luto.
É assim que eu as vejo e que as sinto. Embora sejam bem distintas no estilo e nos processos empregues, há porém um estranho parentesco entre elas. É que ambas se dirigem ao mesmo: À superação do sofrimento resultante da perda de um ente querido.


[Conheça outra Elegia de grande qualidade para violoncelo com orquestra, de Offenbach, «Les larmes de Jacqueline»; aqui interpretada por  Gürzenich Kammerorchester Köln]

sábado, 19 de setembro de 2026

NA REALIDADE, NÃO EXISTE ESCASSEZ DE DINHEIRO

 


Na realidade, não existe escassez de dinheiro*. Mesmo que se queira reservar o termo «dinheiro» para o ouro e a prata, os metais monetários. É preciso as pessoas perderem a visão «fétiche» sobre o que é o dinheiro. Essencialmente, um meio pelo o qual podem trocar mercadorias e serviços; é também um meio de acumulação de capital. 

No caso da função de intermediário nas trocas, ele desempenha o seu papel, desde que haja acordo de compradores e vendedores em relação ao valor efetivo desse dinheiro. As unidades podem ser arbitrárias, o seu valor unitário (o seu valor efetivo) pode variar muitíssimo. 

Quanto à função de acumulação de capital, como «dinheiro- papel», o seu desempenho é realmente insatisfatório. O dinheiro depositado numa conta a prazo  vai perdendo o seu valor real, apesar de aumentar nominalmente. Os banqueiros organizaram seu negócio para que o depositante nunca (ou muito raramente) obtenha um lucro real pelo seu depósito em dinheiro, na instituição bancária. O dinheiro-papel pode também ser aplicado em ativos financeiros, ações, obrigações, derivados... mas, o risco de perder tudo ou parte do capital acumulado é, muitas vezes, maior que o lucro que tais investimentos possam trazer. Em todo o caso, o cálculo de rentabilidade destas aplicações financeiras do dinheiro é particularmente difícil, pois ninguém tem «uma bola de cristal» para saber, daqui a um ano ou mais, de quanto esse ativo financeiro entretanto se valorizou, ou desvalorizou. Além de que existe a incógnita da taxa de inflação futura, no país ou países, onde tais investimentos foram efetuados. 

Uma taxa de lucro «bruto» de 10%, será um resultado excelente numa economia com valores de inflação próximos de zero; porém, numa economia com inflação de 20%, o lucro  nominal de 10% transforma-se em perda real de -10%!

Não existe solução simples e matemática para o sistema monetário. Tem sido proposto que uma unidade internacional tenha apoio em matérias-primas, ou metais preciosos, ou rendimentos industriais, etc. Esta nova divisa internacional poderia substituir o deplorável sistema «fiat» que reina há mais de 60 anos. No ano de 1971, o Presidente Nixon declarou o não cumprimento dos Acordos de Bretton Woods, fazendo do dólar uma divisa destinada a ser inflacionada (visto não haver nada de concreto para sustentar o seu valor) e, por arrastamento, a enorme quantidade de divisas que estavam indexadas ao dólar. 

Tenho pleno conhecimento do debate sobre «desdolarização» e substituição por novo sistema monetário internacional, de forma a que a unidade de troca seja «ancorada» ao ouro (ou a um cabaz de matérias-primas). Eu próprio me deixei entusiasmar por tal «solução», numa primeira fase. Porém, a capacidade humana em distorcer, ocultar e enganar, não estaria - com certeza - abolida: Logicamente, haveria dirigentes com habilidade e poucos escrúpulos, para conseguir obter o controlo e as vantagens inerentes desse tal novo sistema monetário.

Eu tenho advogado, desde há algum tempo, que as unidades monetárias se confundissem com as unidades de energia: Sendo assim, um montante desse dinheiro (um preço), seria a promessa de receber uma dada quantidade de energia. Todos os países e pessoas precisam de energia nas diversas atividades: Seria claro, transparente e universal, aquilo que estávamos a dar ou receber, aquando de troca envolvendo dinheiro/unidade de energia. 

Tal esquema acima talvez não seja viável por razões políticas; porém, é muito viável em termos práticos. Se houvesse vontade, podia-se organizar a contabilidade em termos de equivalentes energéticos. Por exemplo, nas trocas internacionais, seria muito fácil converter as unidades monetárias, em quantidades de energia (nas unidades do sistema internacional, S. I., por exemplo),  que poderiam corresponder a petróleo, gás, ou eletricidade (gerada de diversas maneiras...). O balanço energético teria muito maior significado que a balança de pagamentos numa divisa (em dólares ou noutra qualquer). 

Hoje em dia, no momento em que todo o comércio internacional, toda a economia, estão informatizados, a necessidade de uma determinada divisa internacional se destinar a pagamentos e trocas, deixa de existir. O cálculo das trocas comerciais e doutros valores, numa certa moeda perdeu muito do seu interesse prático; basta uma calculadora de bolso com função conversora para - instantaneamente - calcular a equivalência de uma soma numa moeda A, noutra B.  

O problema que coloca  a existência de certa moeda de reserva para as trocas internacionais é outro: Há potencialidade do país (ou conjunto de países) que emite(m) essa moeda, abusar(em) do seu privilégio. Nós temos  verificado esse comportamento, ao longo de vários decénios, pelos EUA e não há qualquer garantia de que outra entidade, nacional ou supranacional, que venha a substituir o US dollar , se comporte de modo impecável! Daí que a emissão de dinheiro correspondente a um «vale-energia» faça todo o sentido e seja quase impossível haver fraude, se tal emissão não estiver em mãos de um país, mas for universalmente supervisionada. 

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  *) Não existe escassez de dinheiro porque este é colocado em circulação, de acordo com os interesses das grandes corporações e dos magnates bilionários.

A "escassez" (artificial) manifesta-se nos 90% da população, que dependem do trabalho para sobreviver. A abundância de recursos dos muito ricos, se fosse distribuída,  daria para todos terem uma vida decente. Mas, isso é o que a oligarquia não quer, pois iria retirar-lhe poder, mesmo que ela continuasse com a sua vida de luxo. 

O sistema monetário,  tal como existe, não é de modo nenhum neutro; está concebido para perpetuar e proteger a riqueza dos muito ricos .

CHRIS HEDGES: Sobre o império dos EUA, seu narcisismo e psicopatia



« Não podes falar de esperança se não consegues ver a realidade... E a realidade é bastante sombria, neste momento... Mas é um ponto de partida.»

(Chris Hedges)

Chris Hedges atravessa a sociedade americana com um olhar cheio de experiência, enquanto jornalista nos EUA e em diversos teatros de guerra, mas um olhar sem ilusões. Ele compreende que o povo americano está refém de uma falsa realidade, que não possui os dados para avaliar realmente o que se passa. 
Para Chris Hedges o mergulhar no completo colapso é inevitável; os sinais precursores estão presentes, os mesmos que antecederam o colapso de grandes potências do passado.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A EXUBERÂNCIA DOS NOVOS RICOS NA CHINA «COMUNISTA»

 

Atribui-se a Deng Xiao Ping a seuinte frase: " Enriquecer é virtuoso!"

COMO SE MANIPULA A DEMOCRACIA

 

Mais do que a alienação pelo trabalho, pelo desporto, pelo jogo, pelo sexo, pelas drogas... a indiferença social alastra com grande velocidade. 

Quando eu era criança havia indiferença social, com certeza. Mas, as pessoas «bem-pensantes» escandalizavam-se quando viam ou liam num jornal, que uma criança foi maltratada, que um pobre foi assassinado em plena rua, etc...  Hoje em dia, a quantidade de factos deste género é de tal maneira avassaladora, que é impossível uma pessoa guardar um sentimento genuíno de aversão pelas cenas revoltantes, de se indignar e exigir justiça, ou que vá em socorro da vítima. Sobretudo, é impossível pelo facto de se estar banhado numa sociedade indiferente, cínica, que olha para o outro lado, como se tal cena não tivesse nada que ver connosco. 

A sociedade massificada, implica um comportamento massificado. As pessoas são «ensinadas» ou condicionadas a apenas reagir quando certos «sinais desencadeadores» surgem: Por exemplo uma celebridade do espectáculo ou do desporto (ou outra...) a participar ativamente numa marcha, ou num «clip» transmitido na tv ou no telemóvel... 

Poucas pessoas se apercebem da extensão do medo social que impera nas nossas sociedades. Mas, um caso paradigmático é da monstruosa campanha do COVID, a maneira como os poderes se auto-designaram como «salvadores», à custa de um generalizado estado de sítio, uma repressão arbitrária, uma violenta e totalitária exclusão das vozes dissidentes, mesmo quando (ou sobretudo quando) estas vozes pertenciam aos mais credenciados especialistas da biologia e medicina. Foi tão violenta esta campanha de «psyop» (psychological operation), que um número considerável dos que se ergueram e denunciaram as sucessivas fraudes, foram arredados sumariamente dos empregos, foram ostracizados, excluídos de qualquer meio de defesa. Os meios da «justiça» apareceram claramente como inadequados, incapazes de pôr um travão (mesmo que o quisessem) à catadupa de ilegalidades do poder. O poder de Estado não estava só: Era serventuário de poderes corporativos, as grandes farmacêuticas, mas também sectores das profissões médicas, que rasgaram o juramento de Hipócrates, que supostamente deveriam reger sua ética, para alcançarem o beneplácito do poder político, via sua vedetização mediática.

O ato seguinte foi a campanha de provocações dos países da OTAN contra a Rússia, que começou durante o golpe do chamado EuroMaidan (em Kiev) e culminou com o derrube violento de um governo legítimo, democraticamente eleito, colocando no poder revanchistas, gente com ódio por tudo o que fosse russo; estes puseram Stepan Bandera num altar e fabricaram um «santo», dum indivíduo que participou pessoalmente, durante a IIª Guerra Mundial, nos massacres organizados durante a invasão alemã da Polónia e da Ucrânia soviética, de muitos milhares de polacos, de judeus e de russos.

Neste contexto, a burguesia dominante nas instituições europeias, fez discretamente sinais de apoio. O regime que violou os princípios da própria UE e da ONU, foi insensado em todas as capitais europeias, como se fosse o «regresso da democracia à Ucrânia». Nesse mesmo momento - e refiro-me ao antes de 2022 e da invasão russa - era perfeitamente evidente que os políticos e cidadãos comuns que não se conformavam com a «Ordem Nova» instaurada na Ucrânia, eram perseguidos, agredidos, presos, forçados ao exílio. Tudo o que a imprensa ocidental - nessa altura - relatava sobre Batalhões AZOV e outras milícias da extrema-direita era pouco, mas esse pouco era suficiente para que as pessoas vissem a realidade.

Mas, a propaganda, nos nossos dias tem a particularidade de conseguir que a imensa maioria das pessoas se contente com a «selecção» e «gestão» dos factos que os media corporativos lhes forneçam. Os que não cedem à propaganda, são uma minoria e nessa minoria, poucos levam a cabo o trabalho de investigação pessoal, passando as opiniões ao crivo do seu espírito crítico e  confrontando fontes diversas sobre as notícias. Por isso, a principal força do lado da OTAN é a massiva colaboração da media corporativa. Só ela conseguiria manter, ano após ano, o mito «do corajoso Zelensky e seu governo», o lado dos «bons», dos patriotas ucranianos, contra os maus dos russos, que «invadiram sem provocação prévia» uma parte do território da Ucrânia.  Mas não dizem (não ignoravam...) que a população russa dos Oblasts do Leste da Ucrânia (Lugansk e Donetsk) tinha sido sujeita a uma guerra de desgaste pelo exército ucraniano, enviando quotidianamente bombas e mísseis para os centros urbanos populosos, durante os anos 2014-2021. Além disso tinha-se  o exército ucraniano concentrado em Janeiro de 2022 com as melhores divisões, para efetuar uma incursão massiça destinada a aniquilar qualquer resistência. Foram pelo menos 14 mil civis, os mortos pelas bombas ucranianas, nesses territórios maioritariamente russófonos. A OSCE deu conta das atividades bélicas nos anos anteriores a 2022 e, portanto, os meios criminosos e genocidas usados pelo governo de Kiev, eram do conhecimento tanto os governantes da UE, como as redações dos media. 

A política tem sido transformada num desesperante combate desigual, em que os senhores do momento podem fazer a lei, não através de um consenso resultante de debate franco, com os eleitores e  com participação aberta de forças políticas rivais. O processo político está viciado à partida, pois os órgãos de comunicação principais (os canais de televisão, sobretudo) estão transformados em câmara de eco dos interesses corporativos. Estes, por sua vez, decidem quem são os que vão ganhar as eleições: Graças às suas doações, às diretivas para os media que eles controlam, graças a um sem fim de conivências no tecido governamental e empresarial... Assim, «anulam» ou «encolhem» na perceção do público, as soluções que apresentam outras forças políticas. O público é muito condicionado, embora não se aperceba, pela chamada «dinâmica de vitória», se lhes parece que existe (pode ser verdade, ou não) uma maioria que vai votar num partido X, há uma percentagem dos eleitores que antes se teria abstido ou que votaria noutros partidos, que acaba por dar seu voto à força «vencedora».  

De qualquer maneira, aquilo que é o discurso corrente dos partidos nos períodos pré-eleitorais e eleitorais não tem nada que ver, no essencial, com  o verdadeiro programa de governo, se um desses partidos ganhar as eleições. As campanhas eleitorais foram sempre muito pouco propícias para o esclarecimento da cidadania sobre as diversas opções em jogo. Porém, agora, o discurso político é propositamente confuso, ocultando as reais intenções dos candidatos.  

A partir do momento em que se instaurou o sufrágio universal, nos países da Europa Ocidental e da América do Norte, principalmente, punha-se a questão para a classe dirigente, de exercer continuamente o seu domínio, sem ter que - periodicamente - instaurar ditaduras, o que acabaria por dessacralizar a «vaca sagrada» da «democracia liberal». Assim, com a peritagem de homens como Edward Bernays e muitos outros, instaurou-se uma ordem onde o público era mantido numa ficção permanente. Ficção de que o «soberano» era o povo, que ditava com a sua vontade as leis e orientações do governo. Ingénuo e vaidoso, desde que elogiado nos discursos que gostava de ouvir, o público caíria na esparrela facilmente, votando no partido designado pela elite do dinheiro, que decidiria qual o próximo governo. Portanto, o poder continuava nas mãos duma pequena minoria, da oligarquia, mas com a aparência do governo e decisões serem a expressão da vontade dos votantes. Nada melhor, para os verdadeiros detentores do poder, desde que eles conseguissem fazer este jogo suficientemente bem para que o povo não duvidasse. 

Além disso, a existência de eleições «livres» fazem com que o governo, a sua ação e as leis emanadas do parlamento, te implicam a ti, cidadão eleitor: As  decisões importantes seriam - no fundo - resultantes do «jogo democrático»: «Ou tu estiveste de acordo, porque votaste no partido agora no poder, ou , caso tenhas votado contra, deves ter a honestidade e o «fair-play» de deixar os outros governar, visto que as eleições foram «limpas».  É esta a sofística da chamada democracia, não da democracia dos gregos da antiguidade, nem a dos «sans-culottes» da revolução francesa. 

Aquilo que é mais nojento e que todos os políticos do sistema sabem bem é que - de facto - os eleitores não têm absolutamente nenhuma ideia sobre a personalidade dos que eles são convidados a eleger; não sabem também qual o real programa de governo, aquele que entrará em vigor se o partido que eles «escolheram» ganhar as  eleições. Também não existe, de modo legal, procedimento de retirar dos seus lugares aqueles governantes ou deputados, que tiverem um comportamento muito diferente do que prometeram, ou por incompetência, ou por venalidade, ou por perfídia...

Infelizmente, a imensa maioria das pessoas está convencida que «isto» que têm à sua frente é «democracia» e que não existe nada mais... Ou então, que será uma variante de um regime totalitário. É muito difícil exercer uma pedagogia no sentido de esclarecer o povo. Seria necessário instaurar-se (ou restaurar-se) associações de várias finalidades - associações sindicais; cooperativas; culturais; desportivas - que fossem locais onde se pudesse exercer uma forma diferente da democracia, a democracia direta. Depois, esta prática continuada poderia desembocar no exercício de formas de democracia direta em municípios e regiões. Não creio que este progressivo alastrar da democracia direta ou de base, fosse logo capaz de destronar a falsa democracia, baseada na fraude e na corrupção a todos os níveis. Mas, por outro lado, também não é com «tomadas do poder» do tipo bolchevique, ou outras, que uma sociedade pode encetar o caminho para mais democracia. 

Penso que um sistema onde os eleitores tiverem efetivos mecanismos para destituir ou fazer caducar o mandato de algum eleito, se ele não estiver a agir e votar de acordo com o mandato pelo qual concorreu, seria um bom princípio, porque iria introduzir a responsabilidade política efetiva nos eleitos perante os seus eleitores. 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A BOMBA QUE CHEGOU NO TEMPO PREVISTO [POR THOMAS KARAT]

[Apresento o artigo integral em tradução automática em espanhol]

Un dron permaneció en una pista de aterrizaje durante cuatro horas en agosto. El estado nombró a su enemigo cuatro semanas después, cinco días antes de las elecciones. Lo que sea que haya sucedido en Leipzig, la maquinaria que alimentó fue construida de antemano.

15 de septiembre




La noche del 4 de agosto, un empleado del aeropuerto de Leipzig/Halle observó un pequeño dron en la plataforma, cerca de un avión de carga Antonov ucraniano estacionado. El dron portaba una carga explosiva y un detonador. La carga no explotó. Un robot de desactivación de explosivos se desplazó por la pista y, según la versión que posteriormente darían las autoridades alemanas, el artefacto pasó desapercibido durante aproximadamente cuatro horas antes de que alguien lo encontrara. El aeropuerto reabrió sus puertas y la situación siguió su curso.

Veintiocho días después, el 1 de septiembre, el gobierno alemán reveló a sus ciudadanos quiénes habían sido los responsables. El ministro del Interior, Alexander Dobrindt, y el ministro de Asuntos Exteriores, Johann Wadephul, se reunieron en Berlín y señalaron a Rusia. El consulado en Bonn cerraría el 18 de septiembre; se devolvería el contrato de arrendamiento del centro cultural Casa Rusa de Berlín; y se propondrían más ciudadanos rusos para las listas de sanciones de la Unión Europea. La atribución se presentó como un hecho consumado. Las pruebas que la respaldaban, no.

Cinco días después, el 6 de septiembre, los votantes de Sajonia-Anhalt acudieron a las urnas con Alternativa para Alemania (AfD) obteniendo entre el 41 y el 43 por ciento de los votos , a punto de lograr la mayoría absoluta en un estado que toda la clase dirigente alemana había intentado negar durante meses. Vale la pena recordar esta secuencia como un todo. Un dispositivo encontrado a principios de agosto, un silencio público que duró cuatro semanas y, finalmente, un enemigo oficial anunciado en los últimos días de la campaña. Nada de esto es ilegal, pero tampoco es casual.


Lo que Berlín afirma y lo que ha demostrado

El caso de Dobrindt, tal como lo expuso, no se basa en una sola prueba. Se fundamenta en tres elementos que, según él, apuntan en la misma dirección: la investigación forense policial, la similitud del dispositivo con operaciones anteriores y los informes de inteligencia. « En conjunto», afirmó , las investigaciones, el patrón y los hallazgos de inteligencia establecen la responsabilidad rusa. No mencionó a ningún oficial del GRU ni a ninguna unidad. Dijo que quienes llevaron a cabo el plan parecían ser agentes de «bajo nivel» que actuaban en nombre de «entidades estatales rusas» no especificadas.

Lo que se le ofreció al público, entonces, fue una conclusión y una descripción de las pruebas que la sustentaban, no las pruebas en sí. Un observador independiente no puede verificar la cadena de custodia. Incluso los relatos más favorables señalaron la laguna: los ministros nombraron al Estado, pero mantuvieron oculta la mayor parte de la información subyacente . El secretario general de la OTAN, Mark Rutte, declaró que las pruebas eran «claras» sin que se hicieran públicas, y acogió con satisfacción las medidas alemanas. La jefa de la diplomacia de la UE, Kaja Kallas, fue aún más allá, declarando a los periodistas en Irlanda que el incidente presentaba «todas las características del terrorismo de Estado».

Esta es la gramática habitual de la atribución en la era del sabotaje. Un gobierno declara que sus servicios y sus socios han llegado a un veredicto, los gobiernos aliados lo ratifican, la prueba permanece clasificada y se invita al ciudadano a depositar la confianza que, de otro modo, generaría la evidencia faltante. Puede que el material clasificado sea abrumador. Puede que sea escaso. La estructura es idéntica en ambos casos, y ahí radica precisamente el problema. Un público al que se le pide que acepte una atribución por fe no tiene forma de distinguir un caso sólido de uno conveniente.

El servicio que no deja huellas dactilares, excepto esta vez.

La sentencia clave en el caso alemán no tiene nada que ver con la ciencia forense, sino con la familiaridad. Wadephul afirmó que la configuración del dron, sus componentes, sus explosivos y su tecnología de ignición les resultaban familiares por otras operaciones híbridas rusas y por la guerra de Rusia contra Ucrania. Dobrindt utilizó prácticamente las mismas palabras: elementos que les eran familiares, un dispositivo de alta pericia técnica ensamblado con esmero. En otras palabras, el reconocimiento consiste en realizar la función que normalmente desempeñaría una firma.

Si contrastamos esa afirmación con la forma en que, según la documentación, opera la inteligencia militar rusa en Europa, el argumento empieza a flaquear. El modelo de sabotaje europeo del GRU, reconstruido por investigadores de varios países, se basa enteramente en la negación. Funciona con «agentes desechables» : delincuentes de poca monta y vagabundos reclutados por Telegram, pagados con criptomonedas, a quienes se les asigna una tarea que apenas comprenden y luego se les descarta. Los dispositivos se disfrazan de productos de consumo. Cuando cuatro paquetes incendiarios enviados desde Vilna se incendiaron en el verano de 2024, uno de ellos se prendió fuego en un depósito de DHL en el propio aeropuerto de Leipzig-Halle, una trama que los fiscales europeos rastrearon hasta la inteligencia militar rusa a través de una cadena de agentes prescindibles. El objetivo de esta estructura es que no sobreviva nada reconocible que pueda rastrearse hasta Moscú.

Así pues, la versión oficial pide al lector que crea una de dos cosas. O bien un servicio cuya principal táctica es borrar su propia firma construyó un dispositivo con su firma reconocible y lo estacionó junto al objetivo ruso más obvio en Alemania: un avión de carga ucraniano en un centro logístico de la OTAN. O bien la palabra «familiar» cumple exactamente la función que una atribución fabricada requeriría. Si un dispositivo simplemente se parece a lo que todo el mundo espera que Rusia construya, entonces «lo reconocemos» se convierte en una afirmación que puede hacerse sobre casi cualquier dron, por casi cualquier autoridad, en casi cualquier momento políticamente oportuno. Ninguna de las dos interpretaciones exige que nadie haya colocado nada. Ambas deberían hacer que un ciudadano prudente sea más cauteloso, no más rápido, a la hora de aceptar la conclusión que se ofrece.

Para que quede claro, hubo más de un dron. Esa misma noche, un segundo aparato impactó contra un Boeing 757 en pleno vuelo a unos cuatrocientos metros de altura cuando la aeronave abortaba su aterrizaje, y, según se informó, un tercero fue recuperado días después en las instalaciones del aeropuerto. Sea lo que fuere, no fue nada grave, y este artículo no pretende lo contrario. Sin embargo, nada de esto permite determinar quién estaba detrás. Es muy posible que Rusia lo estuviera. El punto es más específico y difícil de descartar. La razón concreta que el Estado ha dado para tener certeza —que el dispositivo era reconocible— es el fundamento más débil posible para afirmar la existencia de un actor que se define por no ser reconocible. Cuando la evidencia a favor de una proposición también resulta, tras un análisis, en contra, la respuesta lógica es la duda, y la duda es precisamente la respuesta que el anuncio pretendía evitar.

A quién estaba destinada la alarma.

Hagamos la vieja pregunta. En las cuatro semanas que transcurrieron entre el dron y el anuncio, nada cambió respecto al dispositivo. Lo que cambió fue el calendario. La atribución se produjo en la recta final de la campaña de Sajonia-Anhalt, y el escritor Thomas Fazi señaló lo que era difícil de pasar por alto. Se anunciaba un enemigo oficial en vísperas de una votación que el establishment temía perder, en una contienda donde el partido insurgente es presentado habitualmente como un instrumento de Moscú. Y esta presentación no es casual: la AfD es el único partido importante que se opone al armamento de Ucrania y a la campaña de rearme, que quiere que se levanten las sanciones y se restablezcan las relaciones con Moscú. Un nuevo ataque ruso, programado para los últimos días, estaba calculado para hacer que precisamente ese partido pareciera el amigo cómplice del Kremlin y para atraer a los votantes asustados de vuelta hacia los partidos que prometían protección. El dron no necesitaba cambiar el resultado. Solo necesitaba llenar los últimos días de la campaña con la palabra Rusia .

No funcionó. El 6 de septiembre, la AfD obtuvo el 43,8% , más del doble de su resultado de 2021 y el mejor resultado que un partido de extrema derecha haya registrado en un estado alemán desde la guerra, ganando 39 de los 83 escaños, tres menos de la mayoría gobernante, por lo que aún se encuentra fuera del poder por los demás partidos, pero aun así, una derrota aplastante para la gobernante CDU. Cualquiera que fuera la intención de la mención de Rusia en las urnas, los votantes de Sajonia-Anhalt no se conmovieron. Y los apoyos que llegaron del extranjero solo subrayaron lo burdo que había sido el planteamiento inicial. El presidente estadounidense Donald Trump celebró el resultado como "una noche realmente importante" y no escribió ni una palabra sobre drones o el Kremlin, presentando el voto enteramente como una revuelta contra la inmigración. Elon Musk, quien ha calificado al partido como "la única esperanza para Alemania", simplemente publicó "Gut gemacht" (bien hecho) y obtuvo del candidato principal de la AfD una oferta abierta de "cooperación sólida y constructiva". El alarmismo había prometido al electorado un partido al servicio de Moscú; lo que el electorado vio fue un partido cortejado por un presidente estadounidense y el hombre más rico del mundo en materia de inmigración e inversión. La imagen del enemigo no se correspondía con la realidad, y la discrepancia era evidente para cualquiera que mirara.

Ampliando la perspectiva, el incidente se inserta en un programa que lo precede por años y que no depende de ninguna elección en particular. Alemania se está remilitarizando a una escala sin precedentes desde la reunificación. El ministro de Defensa, Boris Pistorius, declaró ante el Bundestag que el país debe estar "preparado para la guerra en 2029" . A partir del 1 de enero de 2026, todos los jóvenes alemanes deberán inscribirse para el servicio militar obligatorio, y el reclutamiento forzoso se aplicará automáticamente si el número de voluntarios es insuficiente. El presupuesto federal de 2026 incrementa el gasto en defensa en aproximadamente un tercio, hasta alcanzar los 108.000 millones de euros. Y el mercado ha interpretado esta tendencia sin ambigüedades. Las acciones de Rheinmetall, el mayor fabricante de armas del país, se han multiplicado por más de diez desde la invasión rusa de 2022, y la empresa ha registrado pedidos récord a medida que el rearme europeo transforma el temor en pedidos pendientes.

En ese contexto, Leipzig llega como confirmación. La presidenta de la Comisión, Ursula von der Leyen, describió el incidente como una escalada rusa "en suelo de la Unión Europea" y les dijo a los europeos que ahora se enfrentaban a una "nueva normalidad" y una "nueva era de seguridad europea", suplicando que la presión sobre Moscú no haría más que aumentar y que ya se estaba preparando un nuevo paquete de sanciones. El canciller Friedrich Merz ya había declarado a una emisora ​​francesa, un año antes, que Alemania "ya estaba en conflicto con Rusia" ; el planteamiento estaba establecido mucho antes de que el dron llegara para ilustrarlo. Los beneficiarios de ese planteamiento no están ocultos. Son los fabricantes de armas con listas de espera récord, las burocracias de seguridad cuyos presupuestos y mandatos se expanden con cada amenaza declarada, el aparato de sanciones que crece por acumulación y los partidos gobernantes para quienes el enemigo está a las puertas es el único mensaje que podría ahogar a una oposición interna que acaba de obtener casi el 44% de los votos.

La pregunta que nadie en Berlín se atreve a hacer en voz alta.

Aquí hay una historia que los funcionarios alemanes, precisamente ellos, deberían conocer, y de la que no se habla. Los Estados fabrican las provocaciones que justifican lo que ya han decidido hacer. Esto no es una teoría marginal, es un hecho documentado, registrado por los propios Estados.

La noche del 31 de agosto de 1939 —ochenta y siete años, casi exactos, antes del anuncio de Leipzig—, agentes de las SS con uniformes polacos se apoderaron de un transmisor de radio alemán en Gleiwitz y emitieron un mensaje antialemán, dejando como prueba el cadáver de un prisionero, vestido como atacante polaco. Fue uno de una serie de incidentes fronterizos orquestados. A la mañana siguiente, Hitler invocó la agresión polaca al enviar sus ejércitos al este. El pretexto se encontró en vísperas de la guerra que pretendía legitimar.

Más cerca de casa, y más cerca de la alianza actual, está la Operación Gladio. Tras la Segunda Guerra Mundial, la OTAN y la CIA crearon redes clandestinas de operaciones encubiertas no en un solo país, sino en toda Europa Occidental: células armadas y ocultas, supuestamente destinadas a resistir una invasión soviética que nunca se produjo. Cuando el primer ministro italiano, Giulio Andreotti, reconoció la existencia de esta estructura ante el Parlamento en octubre de 1990, hizo hincapié en que Italia no era la única. Redes idénticas habían operado en Bélgica, los Países Bajos, Francia, Alemania Occidental, Grecia, Dinamarca, Noruega, Luxemburgo y otros países, con contrapartes en la neutral Suiza y Austria. El escándalo fue de alcance continental, al igual que la respuesta. El 22 de noviembre de 1990, el Parlamento Europeo aprobó una resolución que condenaba la existencia, durante cuarenta años, de «una organización clandestina paralela de inteligencia y operaciones armadas en varios Estados miembros», que había «escapado a todos los controles democráticos» y había sido «dirigida por los servicios secretos de los Estados implicados en colaboración con la OTAN». El Parlamento dejó constancia de que, en algunos Estados miembros, los servicios secretos militares habían estado «implicados en graves casos de terrorismo y delincuencia». Posteriormente, se llevaron a cabo investigaciones parlamentarias en Italia, Bélgica, Suiza y Alemania. En Italia, estas investigaciones alcanzaron la conclusión más contundente. Una década después, una comisión del Senado determinó que una «estrategia de tensión» —atentados con bomba contra civiles en lugares públicos, atribuidos por la izquierda para infundir temor en el electorado y alinearlo con la derecha anticomunista— había sido «organizada, promovida o apoyada por hombres dentro de las instituciones estatales italianas y, como se ha descubierto más recientemente, por hombres vinculados a las estructuras de inteligencia de Estados Unidos». Esto no es un rumor inventado por una emisora ​​extranjera. Es la conclusión del Parlamento Europeo y de las legislaturas nacionales sobre su propio pasado reciente: una campaña que duró décadas, llevada a cabo en todo el continente por los servicios occidentales en colaboración con la misma alianza que ahora emite el veredicto sobre Leipzig.

Tampoco es el único modelo europeo. En marzo de 1962, el Estado Mayor Conjunto de Estados Unidos, con la firma de su presidente, envió al Secretario de Defensa una propuesta formalmente aprobada titulada « Justificación de la intervención militar estadounidense en Cuba» . La Operación Northwoods , desclasificada en 1997, desplegó una serie de provocaciones orquestadas: terrorismo simulado en ciudades estadounidenses, un derribo ficticio, un barco hundido; todo ello para culpar a La Habana de haber generado apoyo público a una guerra que los planificadores ya deseaban. El presidente Kennedy la rechazó. Lo significativo no es que se llevara a cabo; no se llevó a cabo. Lo significativo es que los más altos mandos militares de una democracia consideraron el engaño deliberado de su propio pueblo un instrumento político útil y lo plasmaron por escrito.

Si se mencionan estos precedentes, se afirma, con razón, que no demuestran nada sobre Leipzig. Y no lo hacen. Lo que sí demuestran es algo más sutil e inquietante: que el pretexto fabricado es una herramienta real y recurrente de la política estatal, utilizada por los poderosos cuando la opinión pública necesita ser conducida hacia una guerra que aún no ha elegido. Una ciudadanía incapaz de siquiera contemplar esa posibilidad —que trata la mera cuestión como un argumento del enemigo— se ha visto privada de una defensa que desconocía. Los encargados de monitorear la desinformación ahora clasifican la expresión «bandera falsa» como una señal hostil , que debe ser señalada y desmentida. Es una extraña forma de seguridad la que convierte la memoria histórica de los propios gobiernos en una categoría de injerencia extranjera.



Independientemente de lo que hubiera en esa pista de aterrizaje en agosto, lo crucial es que la respuesta estaba lista antes de que surgiera la causa. Las cartas de reclutamiento ya estaban impresas. El paquete de sanciones ya estaba redactado. El presupuesto de rearme ya se había aprobado, la fecha de preparación para la guerra ya se había fijado para 2029, y la cartera de pedidos del fabricante de armas ya estaba en niveles récord. Merz ya había declarado al país en conflicto. Y el mismo día en que mencionó a Rusia, el gobierno elevó el nivel de amenaza nacional de "general" a "alto" ; Dobrindt declaró a los periodistas: "No estamos en guerra, pero somos el objetivo diario de ataques híbridos". El dron no inició nada de esto. Se integró en el proceso: una confirmación colocada, en el momento óptimo, en una máquina ensamblada de antemano, y la máquina respondió avanzando un escalón más.

Esa es la parte que merece atención, y se mantiene independientemente de quién haya construido el dispositivo y de cómo haya votado Sajonia-Anhalt. Se está preparando a la población —metódicamente, a través de sus presupuestos, sus listas de reclutamiento, sus niveles de amenaza, el vocabulario de sus ministros y sus noticieros— para una guerra con Rusia que sus líderes describen cada vez más como ya en marcha. El electorado que acaba de emitir un veredicto rotundo contra ese proyecto lo encontrará inalterado por su voto. En tal clima, el origen de cualquier incidente individual importa menos que el uso que se le da de inmediato y la velocidad con la que la duda al respecto se reclasifica como traición. Los alemanes de un siglo anterior aprendieron, demasiado tarde, el precio de aceptar al enemigo que su gobierno les entrega sin pedir pruebas. Esta vez, las pruebas siguen clasificadas. La certeza apareció en las noticias en cuestión de días.