Simplesmente humano
Quantos sonhos despedaçados
No olhar de crianças, olhar mudo
Esperançado, como ponte humana
Para os outros, no meio da barbárie?
Soluços de pais perante a tragédia
Tudo filmado, nada é perdido
Só se perdeu a humanidade
É o veículo mais perverso
Normaliza a catástrofe
Banaliza o horror
E sorvemos o veneno
Até que alguns de nós
Reproduzem a violência
No inimigo, no irmão
Alegres vão pró matadouro
Como há séculos e séculos!
A Humanidade ainda existe?
Talvez; mas não aprendeu nada!
VOLTO-ME PARA O PASSADO...
Volto-me para o passado, não por aí encontrar sabedoria,
Não tenho ilusões sobre seus valores e as morais que pregavam
Volto-me para o passado para descobrir, teimosa procura,
Da marcha da sociedade, o que -a certa altura- descarrilou
Sem dúvida que a humanidade, no seu conjunto, não melhorou
Nem uma onça mais de sabedoria, bondade ou prudência
Isso podes constatar, cotejando o presente com o passado
Será em vão, esta procura. Aceito que ela não traz soluções
O único bem que posso extrair, é o convencimento
De que não há nada que justifique demorar-me por aqui.
Sobriedade
Tudo aquilo que é dado ser a um homem
Seu saber, sua estrela, seu caminho
De muito pouco lhe vale, se não frutifica
Se não semeia ao vento a canção da vida
Poeta sejas como te der mais na gana
Em palavras, gestos, imagens, tu sabes
Nada se perde, tudo se transforma, dizem
Sejam teus suspiros por alma ou pão
Quem diz que a arte é vã, nada cria
Pois criar é arrancar do nada um ser
É uma melodia, uma ideia que brotam
À superfície da mente, à luz do dia
Não pretendo dar lições a ninguém
Mas dois conselhos dou a quem me lê
Faz o que deves, mas por convicção
Sê impiedoso crítico de ti próprio
HOJE, VOU ESCREVER UMA CARTA
Sim, uma carta em papel; com envelope
Ainda não decidi se escreverei com caneta
De tinta permanente, esferográfica, ou feltro
Mas tem de ser realmente desenhada pela
Minha mão, cada letra exprimindo um instante
O instante das minhas emoções
Em relação ao conteúdo, também
Irei inovar - no que me toca - no estilo
Serei sincero, sem ser grotesco,
Sem artifício, abrirei o coração
Não preciso de fazer teatro
Com sinceridade, basta escrever
Ao correr da pena, é como estar
contigo, um gesto, um murmúrio,
Leve ruído do aparo ao contacto
Com o papel.
Podia pensar mais solene
Enfático ou espirituoso
Não! Minha razão de escrever
É natural e não fabricada
É o pensamento quando falo
É um sopro ao teu ouvido
Quanto ao conteúdo,
Tenho andado a refletir
No que a ele diz respeito
Ao entregar-te a carta
Entrego-te meu pensar
E sentir, sem floreados
Ainda tenho de a começar
Pois uma carta assim
Não se escreve por capricho
Uma carta assim é leve
E pesada, pelo que diz
E pelo que cala; pelo que
sai do aparo e pelo que fica
no tinteiro.
Até breve, pois...
