FADO*
domingo, 2 de agosto de 2026
FADO [ da recolha de poemas inéditos «Tenção»]
sexta-feira, 31 de julho de 2026
CONTO: A JAZIDA DO SABER HUMANO [OPUS. VOL. IV ; OBRAS DE MANUEL BANET]
No ano de 2026 começou uma experiência em larga escala, que se veio a revelar de transformação civilizacional.
Nas narrativas do passado longíquo, as bibliotecas eram locais preciosos, onde se guardava a sabedoria, os conhecimentos, as narrativas, as informações técnicas, geográficas, antropológicas e todas as outras áreas do saber. Elas definiam a civilização de uma nação e dum povo. Eram reverenciadas pelos cidadãos comuns e os mais poderosos prestavam-lhes homenagem. Certamente, também houve fogueiras de livros nas inquisições, nas encenações do regime hitleriano e em muitas outras circunstâncias. Mas as fogueiras não eliminavam a curiosidade e até davam mau nome àqueles que as ateavam e alimentavam.
Até que as tecnologias da Internet chegaram. A comunicação passou a ser instantânea ou quase, em termos práticos. A capacidade de armazenagem de documentos tornou-se quase infinita, mesmo para alguém com posses modestas, nesta sociedade: Não apenas os livros, mas vídeos, filmes, etc. cabiam num espaço virtual, a «nuvem», atingindo uma capacidade bem maior - na verdade - do que os leitores mais sistemáticos poderiam jamais ler ou ver.
Então, deu-se uma transformação paradoxal, inesperada, na quase totalidade dos indivíduos: Deixaram de ler obras de ficção ou de ensaio, deixaram de se informar realmente, de procurar o saber... tinham isso na ponta dos dedos, apenas bastando uns poucos clics para alcançar qualquer página, armazenada por eles, ou que os esperava na já citada «nuvem».
O fenómeno era como o de se perder o apetite, perante uma mesa cheia de iguarias, que individualmente faziam crescer a água na boca mas, todas elas assim dispostas, causavam uma espécie de indigestão virtual.
Foi então que certas empresas, associadas a certas agências estatais, decidiram levar a cabo a digitalização em massa de todos os livros mas, em especial, os raros.
Apropriando-se da totalidade dos poucos exemplares restantes, destruiram todos os vestígios materiais deles. Exactamente como Ray Bradbury tinha imaginado no seu romance de antecipação «Fahrenheit 451» ou de forma análoga, mais limpa e eficaz que os lança-chamas para destruição dos livros, no supra-citado romance.
Na verdade, as bibliotecas que eram susceptíveis de conservar o maior número das obras raras, não só não fizeram resistência, como foram as primeiras a oferecer sua colaboração aos funcionários destas empresas. Mediante um custo irrisório e com prévia autorização administrativa, as bibliotecas de instituições prestigiosas podiam finalmente ver o seu sonho realizado: A empresa fazia a digitalização de todas as obras, ficando a biblioteca e todos os utentes da mesma, com acesso ilimitado a essas mesmas obras.
Muitas bibliotecas tinham graves problemas de conservação. Tinham que combater pragas de insetos xilófagos, de fungos e bolores, que invadiam os vetustos in-fólios onde houvesse uma réstea de humidade... Enfim, era uma luta insana, muitas vezes, sem meios à altura.
Aquele esforço humano e financeiro tornava-se ridículo, sobretudo na era da digitalização a 100 %, em que praticamente ninguém vinha consultar as obras aí armazenadas. Antigamente, a biblioteca abrigava caloiros e graduados académicos, dos mais diversos âmbitos profissionais e geográficos. Mas, recentemente, a biblioteca tornara-se um antro deserto, fantasmagórico, vestígio de uma era passada.
A digitalização integral foi o programa de iniciativa governamental, decidido após consulta às instituições de maior relevância nacional: Das academias científicas, às associações profissionais de docentes; das bancadas parlamentares, às tribunas sindicais, fez-se uma consulta, um plebiscito virtual, com altíssima percentagem de respostas ao inquérito posto a circular na Internet pelo Ministério da Cultura.
O livro digital substituiu o velho livro em papel (ou pergaminho). Qualquer um podia consultar - no seu computador pessoal ou no telemóvel - tudo o que desejasse. As pessoas tinham apenas que se inscrever no site da Biblioteca Universal Digital, pagando uma soma simbólica para consulta das obras sujeitas a direitos autorais, sendo as outras inteiramente gratuitas.
Os autores não protestaram. Pelo contrário; os que antes vegetavam em quase total obscuridade, foram subitamente projetados para os écrans da fama digital. Os que já eram cérebres, não viram seus rendimentos decrescer, pois a cobrança dos direitos de autor também se tornou mais eficaz com a digitalização; além de que beneficiavam do efeito de divulgação no universo digital.
Numa segunda fase, as salas de aula das universidades e liceus ficaram desertas. Os estudantes não viam vantagem em ouvir ao vivo um/uma velho/velha falar do que já tinham visto num vídeo. A comunicação direta em sala de aula, tornou-se anacrónica, acabando por desaparecer. Os professores preferiam isso; davam aulas virtuais onde podiam ouvir e responder às dúvidas ou questões, que os alunos levantassem.
Mas, em todo este processo, havia uma perda de contacto, uma ausência da fricção inerente à comunicação humana. Esta interacção, por trivial que fosse, permitia a alunos e professores manter uma relação afetiva dentro das respectivas instituições. As sessões virtuais em grupo tornaram-se moda, durante algum tempo. Mas, como todas as panaceias, esta foi de curta duração; o efeito de habituação supera rápido, o «frisson» da novidade.
Alguns 'atrasados' não-digitais, ainda tinham consciência do vasto mundo, para além dos écrans. Não valorizavam a parafernália que permitia às pessoas comunicar a milhares de quilómetros de distância. Mas, o reverso era que os vizinhos, os conjuges ou os membros da mesma família, já não sabiam encetar uma conversa naturalmente, só para terem um pouco de 'calor humano' num sorriso, num aperto de mão, ou num beijo...
Mas, os referidos não-digitais estavam demasiado isolados e obrigados, pelo entorno, a comportarem-se dentro das novas normas digitais. A resistência, se é que ela existiu, foi de pouca duração.
Alguns mais teimosos, porém, migraram para sociedades longínquas, como a Papua-Nova Guiné ou, aqui ao lado,para pequenas aldeias onde ainda se fazia agricultura, pastoreio e artesanato... Onde se contavam histórias à lareira, ouviam cantares sacros ou profanos que acompanhavam a lavoura ou ritos da vida comunitária e espiritual. Nunca mais se ouviu falar dos acima mencionados teimosos ... O que não surpreende, pois eles se tinham despojado das maquinetas de contacto, para que sua imersão nas sociedades tradicionais fosse total.
Quanto às sociedades super-conectadas, estas produziram, a breve trecho, indivíduos completamente incapazes de viver num mundo natural. Os seus progenitores ainda tiveram alguma experiência, na infância e juventude, dum mundo sem ligação permanente às máquinas digitais. Porém, seus filhos já não sabiam interagir uns com os outros, diretamente. Tinham que fazer «chat» numa rede social, antes de decidir se iriam manter ou não, o contacto. Como o comércio, a alimentação, a educação e os transportes estavam totalmente digitalizados, estes jovens não podiam sair de dentro do raio da civilização digital, que era a sua.
A capacidade teórica de comunicar com outros mundos, outras civilizações, outras culturas, era apenas fantasia. Na realidade, eles nem estavam apetrechados para um convívio autêntico... nem mesmo nos «chat-rooms»! Vogavam num universo completamente fictício. Não admira que as interações amorosas fossem inexistentes ou, caso existissem, breves e superficiais.
As crianças nascidas destas uniões casuais eram tão poucas, que a própria infraestrutura para acolher os novos humanos - as maternidades, as creches, os jardins de infância, etc.- foi encolhendo severamente... Deu-se o efeito da «bola de neve ao contrário», a redução traz maior redução e esta ainda se acentua mais, e por aí adiante...
Só os mais recuados povos, em cantos remotos onde a civilização digital não chegara, tiveram possibilidade de continuar uma vida social habitual. Umas vezes, era na abundância e alegria, outras, na escassez e tristeza. Mas, era uma vida que se baseava no viver comunitário, no contacto direto, onde as paixões tinham oportunidade de se exprimir, onde as pessoas encontravam linguagem comum para exprimir assuntos graves ou triviais, falando uns aos outros.
As urbes digitalizadas, após um século, ficaram transformadas num imenso mar de ferro-velho. Aí, algumas pessoas esgravatavam, procurando a sua subsistência; alimentos, coisas úteis, ou que elas pudessem trocar por comida. As sociedades morriam aos poucos, por doença crónica interna. Não houve invasões ou guerras de conquista. Quem estaria interessado em suportar parasitas, incapazes de fazer algo com os braços, as pernas e, ainda menos, com as cabeças?
Se vier a existir algo parecido com isto é muito triste, para a espécie humana, em geral. Significa que nossa civilização tecnológica não soube colocar o ser humano no centro das suas preocupações.
Mas, embora se possa ter pena, o facto é que quase todos pareciam - em 2026 - obnubilados, hipnotizados, pela informática, a robótica e a «Inteligência Artificial». A tais pessoas hipnotizadas ou cheias de si próprias, era inútil - e até perigoso - tentar mostrar a realidade. Elas arranjavam maneira de nos acusar de todos os males, por termos outra visão das coisas.
Os poucos indivíduos saudáveis sentiam-se impotentes, mantinham uma postura de auto-defesa, mais preocupados em prevenir-se da loucura ambiente e manter-se sãos de espírito.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
LUZ QUE CAMINHA NA ESCURIDÃO... [OPUS VOL. IV ; OBRAS DE MANUEL BANET]
Luz que caminha na escuridão
Que alimenta nossa esperança
Com um sopro ela se apague
Se reacende na desesperança
Luz que não regateia o luzir
Que constante guia a alma
Oferece a todos a imensidão
Da liberdade numa faísca
Luz que não se engana
De objecto nem de objectivo
Sereno afirmar dum caminho
Guardado na mente humana
Luz que nunca se extingue
Com a sombra dialoga
Dentro ou fora do olhar
Percorre o infinito
Luz, sempre a mais luzente
Que te importam os reflexos
Daqueles que te imitam
Mas não guardam o brilho
Só a ti - luz divina -
Confio os meus passos,
E a estrada se ilumina,
Sem medo do destino
terça-feira, 19 de maio de 2026
VIVER É UMA PARTIDA [OBRAS DE MANUEL BANET]
A arte de viver é celebrada por muitos
Mas mentem, pois no fim resta nada
Somos jogadores numa mesa de póker
Acabamos por sair da partida sem nada
A perda de entes queridos acontece
Muito sem nos prepararmos
Algo de semelhante acontece
Quando somos nós que partimos
Ninguém ganha no tabuleiro da vida
O jogo - viciado ou não - é sempre
Em nosso desfavor e desilusão
Quanto muito, restam recordações
Mais nos ferem os fracassos
Que recordamos sem nada poder
Quando estamos no leito
Último da jornada da vida
Buscar consolo nos amores
Passados, também não resulta
Pois nos vem à memória
O trilho dos desastres
De nada serve nos arrependermos;
Somente aceitarmos nosso destino
De incompletos viventes
Que esbracejaram até morrer.
sábado, 16 de maio de 2026
A GRAÇA NO UNIVERSO E EM TI [OBRAS DE MANUEL BANET]
Ouve com todo o teu ser o que tenho para te dizer.
Se é para aprender realmente
Tens de fechar os olhos
E deixar de pensar em coisas.
Põe em conserva os desejos
Os sobressaltos e as paixões
Quanto mais completamente
Abandonares o teu ego
Melhor poderás ir ao encontro
Do que o Universo tem para
Te dar, sem exigir nada
Somente que aceites a dádiva
E por isso só pode ser Deus
Só precisas de te dispor para receber
Não precisas de rezar, fazer exercícios
Espirituais ou oferendas:
- Quanto mais estiveres à escuta
Em abertura total e sincera
perante o Universo,
Melhor compreendes o que te é dado:
Não tem como condição
seres bom aluno, bom discípulo,
Fiel seguidor de crença, ou religião.
É-te dado sem condições, pois só tu podes
Fazer com que a dádiva frutifique
Milhões de pessoas recebem essas dádivas
Mas poucas as fazem frutificar
Apesar disso, elas são incondicionais
São dadas sem exigir nada em troca
Só teu espírito pode fazer frutificar tais dádivas
Só ele pode apreender como são preciosas:
O que nos rodeia, que nos sustenta,
e nos permite viver a nossa vida:
A nossa família, amizades, conhecimentos...
E o mundo vivo e mineral, toda a civilização,
todas as máquinas e conceitos científicos.
São infinitos os objectos e processos
que existem e sustentam nossa existência
mesmo que não saibamos nada sobre eles.
Ficamos perplexos, embaraçados
Quando tomamos consciência
da profusão de dádivas
que recebemos do Universo
Um espítrito puro vai agraceder e
fazer o seu melhor
Para que todos os elementos de que dispõe
Sejam colocados ao serviço da continuidade
da Vida, da Beleza, do Cosmos.
Quem chegou a este ponto é feliz;
Mesmo nas dificuldades, sabe para onde
caminhar, sabe como encontrar o «Norte»
Não sei se estas palavras te servem...
Queira Deus que elas te aproximem
e mantenham no que os antigos
Chamavam de «estado de Graça»
E que irradies essa Graça.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
QUADRAS DA BEIRA-LISBOA-MAR [Obras de Manuel Banet]
...E por falar em maresia
Veio-me à memória
Uma melodia
Do noctívago fado
Era outro o tempo
Outras as esperanças
Corações em sincronia
Batiam o ritmo
Mas o que resta agora
A memória esvai-se
Como quem, caído
Na praia morre
Foram brilhantes
Os anos de vida
Que vivi contigo
São meu tesouro
As recordações
Ajudam a viver
E a morrer
Com dignidade
São o teu rosto
A tua voz suave
A companheira
No naufrágio
Este barco da vida
Seria uma jangada
Desconjuntada
Sem o teu amor
É eternidade
O instante
Em que estamos
Nunca se desfaz
És tu que dás cor
À Natureza; tu que
Desfias palavras
Música ao meu ouvido
Tenho de dar graças
A Deus por tudo
O que aconteceu
Se foi para te encontrar
Tranquilo, posso
Morrer no instante
Em que for chamado
Para o novo viver
Porque me deste
Tua alegria tranquila
De ser por ti amado
E todo eu te amar
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Mais um Abril que passou por aqui...[OBRAS DE MANUEL BANET]
Um Abril que não rima
É promessa sem cumprir
É vaso bonito com vinho rasca
É tudo aquilo de que fujo
Um Abril que não rima
Não nos promete Maio
Pode ser quente ou frio
Mas não aquece o coração
Dizem que sou sentimental,
Verdade, por que me aflijo
Com um povo de poetas
Que vive de ilusões
Impossível o meu amor
Porque caí eu neste cantinho
Malfadado e maravilhoso
Que não dá, só promete?
Este povo enluarado
É como menino que cresceu
Vadio, ao acaso das ruas
Sem carinho ou educação
Olhem para vocês próprias,
Pessoas enluaradas
E acordem dos sonhos
Verei então um Abril novo
No brilho do vosso olhar
E dançaremos na rua
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Obras de Manuel Banet : «VIAGEM INAUGURAL DA BORBOLETA»
Estou no meu berço-tumba
Crisálida aguardando a primavera
Meu corpo não mexe
Mas meu espírito agita-se
Tenho um mundo novo
A descobrir e a percorrer
Cada vez que isto me acontece
Tenho a impressão de renascer
Apenas a impressão, afinal
Pois aquele envólucro
Apenas protege a substância
Do ser; o qual permanece
Como todas as minhas irmãs
Tomo rumo pelo Sol
Sei de que néctar me nutrir
E que flores fecundar
Ninguém me ensinou
O que tenho encriptado.
Meu corpo é efémero,
A mensagem é intemporal
quarta-feira, 18 de março de 2026
PRIMAVERA [Obras de Manuel Banet]
Nesta prisão que se estende até ao horizonte
Neste pesadelo que parece sem fim
Onde encontrarei eu a primavera
A Natureza que alguns obsecados matam
Em sonhos encontramos refúgio
Quando a realidade dói demasiado
Nesta prisão nem o sonho subsiste
Ao espelho da fera enlouquecida
Gostava de vos dar algum alento
De vos encher o peito de coragem
Mas não posso; estou procurando
Das aves o canto, saber pra onde foi
Não tenho refúgio nos campos
Ou nos bosques; pois afinal
Atormenta saber-me
Dos humanos o igual
Os assassinos a sangue-frio
Na aparência são humanos
Agora são uns ratos loucos
De medo, raiva e vingança
A guerra é uma doença
Contagiosa dos povos:
Mata primeiro por dentro
O humano, no homem
quarta-feira, 4 de março de 2026
ATÉ AO FIM DA NOITE [OBRAS DE MANUEL BANET]
Vai até ao fim da noite com ou sem candeia,
Com ou sem companhia. A solidão não piora nada
A escuridão é passageira; a luz do dia vem saudar
Aqueles, persistentes, que avançam todos
Os passos até chegar à superfície do poço
O poço do medo está em nós; é ilusão
Em plena escuridão já estamos
Não somos cegos; nunca a escuridão
É total; podemos 'ver' tacteando
Ouvir, cheirar, provar, sentir
Reverberam as vozes
Ficam as pegadas dos passos...
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
O MEU REINO É DESTE MUNDO [OBRAS DE MANUEL BANET]
Eu sei que as pessoas se agarram a ideias, a religiões e a toda a espécie de mitos, para terem alguma esperança, alguma «fé» quando as coisas correm mal, sobretudo.
Eu sei que não devemos nos cingir ao dia a dia, a só procurar satisfações materiais, sejam elas de que natureza forem. As satisfações materiais, podem bem tornar-se pesadelos e, de qualquer maneira, são sempre efémeras.
Mas, o reino a que pertenço é um reino metafórico. É um reino onde a Vida se instalou há 4 mil milhões de anos, tendo evoluido sempre, até hoje.
A Vida é que me dá as lições todas que aprendi no passado e tenho de aprender, no futuro. A Vida pode exprimir-se através de inúmeros veículos; desde os meus familiares, aos meus mestres, aos seres vivos que observo, às forças da Natureza, como o mar em tempestade, nestes últimos dias.
Tudo alimenta a minha reflexão; tudo faz sentido; posso compreendê-lo ou não; mas tudo faz sentido.
Não apelo a que adiras ao meu modo de ver as coisas deste mundo. Nem vou aderir a qualquer filosofia. Não por «burrice», não por «teimosia», nem por «orgulho».
Na verdade, sou humilde; aceito o erro. Quero corrigir-me para ser melhor, mais autêntico, mais de acordo com a Natureza, com o Tao, com a pléiade de Deuses das religiões politeístas, com a religião cristã, nos seus diversos ramos...
O Universo a que pertenço é este: é aquele que vale para mim. Pode haver outros universos; mas, se assim for, estarei para sempre excluído de os visitar. Nem sequer os poderei conhecer... pelo que tenho compreendido das discussões em Física e em Cosmologia contemporâneas.
A organização do mundo que me rodeia, o meu habitat, é de imediata relevância para a minha subsistência, como para o meu bem-estar, tanto no sentido material, como espiritual.
Sei que sou transitório, como a Vida na Natureza; mas transitório na forma; não desaparecerei completamente depois de morto. Haverá uma transformação. Embora não deseje morrer, não temo a morte.
A realidade que eu posso apreender não é a «realidade última»; no entanto, a realidade e o bom-senso do real têm que guiar a minha vida.
As balizas são largas; pode-se apreciar as formas de arte, de literatura, de poesia: Sabendo que são uma expressão da inteligência e sensibilidade do cérebro humano. Isto não retira nada à sensação que tenho perante uma manifestação de arte.
Construí uma ética que fui buscar aos vários autores e várias tradições: A referência à minha ética, é o que me guia, no dia-a-dia. Detesto entrar em contradição com ela, é como entrar em contradição comigo próprio.
Mas, sou falível, limitado, imperfeito... como todos os humanos. Reconhecer isso, permite-me corrigir os erros nos quais caí. Não posso negar a minha imperfeição, mas o ideal, para mim, não é atingir a perfeição.
Tenho, porém, um ideal de comportamento: este implica estar o mais próximo possível da Natureza, ser inspirado por Ela, compreender a minha Natureza íntima e a dos outros.
Apesar de tão imperfeito, tão falível, tão contraditório... avanço sem receio, estou nos Teus braços, Natureza, faça o que fizer. Para além da morte, a vida eterna continua, ela já está aqui, ao nosso alcance; os olhos do coração e do intelecto têm de estar abertos a esta realidade.
domingo, 14 de dezembro de 2025
NAS NEVES SUJAS DE DEZEMBRO [OBRAS DE MANUEL BANET]
Nas neves sujas de Dezembro
Corpos caídos, manchas escuras
Ao cair da noite, o uivar de lobos
Eram jovens ou menos jovens
Tinham esperança de viver
Corpos imóveis, apodrecendo
Os estrondos do canhão
Os clarões dos impactos
Os céus riscados de fogo
Nada os impressiona.
Suas faces azuladas
Serenas, os olhares vazios
As estrelas já não vêem
A rígidez dos músculos
Induziu posturas insólitas
Aos corpos gélidos
Serão enterrados
Mais tarde, com missa
Cemitério e choro de Mães
Esposas ou noivas,
Discursos solenes,
Placas em memória,
Condecorações póstumas...
Mas nada pode curar
A dor da ausência
Nem os corpos e almas
Torturados, humilhados
Para este inglório fim.
domingo, 23 de novembro de 2025
UM ROMANCE INÉDITO [OBRAS DE MANUEL BANET]
Espectros distantes assomam às janelas da mente..
Não com intenção de vindicta, mas de guias silenciosos. Será uma criação, fantasia da minha mente perturbada?
Serão outra realidade, que nós conseguimos apenas de quando em quando, aflorar?
Por vezes sinto-me tão possuido de memórias do tempo em que tais espectros tinham "carne e osso", fossem eles parentes, mestres, amigos ...
Convivendo com estas memórias espectrais não tenho nada a recear, não caio num desequilibrio ou num alheamento da realidade.
Antes pelo contrário, a minha vida pessoal e social , aparecem ambas com uma espessura, que permite avaliar os bons e maus momentos que agora atravesso.
Seria abusivo pretender que todo o meu saber-viver, de experiência acumulada e transmutada, o devo à frequentação daqueles meus espectros habituais.
Mas, o que é certo, é que me proporcionam um diálogo interior. Pouco importa que o interlocutor seja imaginário. De facto, este diálogo interior é o ancoradouro para eu não resvalar num estado patológico, que faço tudo para evitar.
Não vivo no passado. Elaboro as experiências do presente e as reflexões que daí extraio, em confronto e em diálogo com as experiências passadas.
É como se recorresse a escritos passados, desde meus rascunhos, a obras lidas de vários autores, para compor uma nova obra. A diferença com um escritor verdadeiro existe porém e não é pequena, pois eu não me dou ao trabalho de redigir e burilar a escrita deste romance: Ele permanece inédito; antes o quero viver, que escrevê-lo!
terça-feira, 11 de novembro de 2025
NOVE SENTENÇAS [OBRAS DE MANUEL BANET]
quinta-feira, 5 de junho de 2025
APOSTILA - Às Palavras Renunciei [OBRAS DE MANUEL BANET]
Gostava de construir novas palavras,
Delas fazer um vocabulário
Só meu, para meus leitores
Que pudesse partilhar
Como num dicionário
Mas sem o estafado sentido
Só me acodem palavras gastas
Daquelas que são ecoadas
Em inúmeras canções
De amor ou desesperança
Lançadas ao desbarato
Enfim, palavras chãs
Se ao menos pudesse
Com elas construir
Algo novo, inaudito
Seria o triunfo do som
Sobre a gramática fria
A síntese genial
Então, como bandeira
Envolveria teu corpo
De cores, sons e sentidos
Na imperfeita obra
Que o poema desvela
E toda a nudez revela
Pois renunciei ser
O mago dos versos
A Lua não me aquece
Prefiro o forte abraço
Do vento oceânico
No meu corpo tenso
Colhi todos os perfumes,
Cores e sabores da vida
Como jardim de mistérios
Serei mais qu' uma ave
Improvisando seu canto
Em harmonia perfeita?
Somos frutos tardios
De jardins tranquilos
Nem mais, nem menos
Nenhuma pretensão
Tivemos de profetizar
A luz que se esvai
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Murtal, 05 de Junho 2025
segunda-feira, 26 de maio de 2025
NO CREPÚSCULO SANGRENTO + POEMA DE FERNANDO PESSOA
NO CREPÚSCULO SANGRENTO
sexta-feira, 23 de maio de 2025
APOSTILA - «O Mundo» [OBRAS DE MANUEL BANET]
O mundo está fora de mim, no sentido trivial
Mas também se pode dizer que ele penetra
Em todos os poros da minha pele,
Pelo ar que respiro, pela comida que ingiro
Pela água e pelo vinho,
Pelas letras, os sons e os cheiros
Ele penetra por todos os canais
Dos sentidos.
Eu não recuso este fluxo constante
De sensações.
Porém, ficar cativo,
É outra coisa; estar cativo das coisas materiais
Ou até das ideias, das que se originam
Nas agitações fúteis, sempre procurando
O novo; como se, perante a novidade,
Devêssemos baixar a cabeça, curvar a espinha!
Se quiseres argumentar que eu «estou fora do mundo»
Tens razão, num certo sentido:
No sentido antigo e caído em desuso
da palavra «mundo»...
Como «mundano» ou «mundanidade»...
Se não sou deste mundo, estou contente
Estou mais aconchegado no mundo
Da infância, das recordações
Dos momentos felizes, da pesquisa
Científica e intelectual,
Do prazer de conversar com iguais...
Sim, não é com naturalidade, nem com desembaraço
Que «falo» através de telefones móveis, ou de teclados
Digitando palavras, como agora...
Sou realmente antiquado e não tenho complexos!
Sou capaz de compreender os mais jovens,
Mas duvido que a recíproca seja verdadeira.
Estou fora do mundo e ele está fora de mim.
Sim, do mundo fútil, coisificado e destruidor
Do que há de mais humano na humanidade,
Estou fora!
Por muito que vos custe, pensai de outro modo;
Já será um princípio de emancipação.
Não pretendo que pensem como eu;
Mas pensem!
Com alma, espírito e todo o ser,
Libertos da prisão doirada da tecnologia
Que ambiciona encerrar nossas mentes.
terça-feira, 20 de maio de 2025
APOSTILA - «Fortuna» [OBRAS DE MANUEL BANET]
FORTUNA
Poderia pôr a teus pés, Deusa gloriosa,
Cestas de fruta e flores odoríferas
Das mais exóticas espécies
Que seja possível alcançar.
E poderia declamar a teu ouvido
Versos em rimas obscuras, ofegantes
Sem outra lógica que a do sonhar
Mas tudo em vão seria, Fortuna
Tens ouvidos e cabeça de bronze
Teu gesto amplo ficou para sempre
Parado, na suspensa promessa...
Para lá da Tua casa, velejo em mar
Denso e fluido, no ocaso demente
Enfunando as velas em tributo
À sombra que traça o Sol.
Fortuna seja nome de barco
Destino humano sempre igual.
sábado, 17 de maio de 2025
APOSTILA - «PERANTE OS TEMPOS DE ESTUPIDEZ» [OBRAS DE MANUEL BANET]
Em vez de prefácio
Desesperadamente procuro o sentido; não procuro por pensar que o irei encontrar, mas por impulso irracional, no que existe de humano, no âmago do meu ser.
Não sei se isto é defeito ou virtude, sinceramente. Mas, de facto, talvez seja defeito, pois sofro e nada ganho, nem meu sofrimento a outros aproveita.
Gostava de ser como a árvore ou como o rio que se estende sem perguntar para onde corre, sem se importar com as pedras nas margens.
Mas não sou árvore, nem rio, nem pedra. Gostava de ser animal e sentir. E meu saber ser instinto, e minha vida ser instantes sucessivos.
Mas também não sou o animal, simples produto da Natureza, nela imerso e dela participante. Sou homem, por isso sofro, pois vejo a degradação da espécie e o sofrimento de muitos, sob a opressão sádica e violenta de alguns.
Mas como posso fazer face a esta monstruosidade? - Deus não tem plano nenhum para a nossa espécie, nem para todas as outras. Esta é a conclusão a que cheguei, por agora.
Confortável ou não, esta conclusão parece-me o princípio de racionalidade neste tempo de violência, de desprezo pelas leis dos homens e da Natureza, do triunfo da morte, a par da estupidez e da vaidade...
