Na realidade, não existe escassez de dinheiro. Mesmo que se queira reservar o termo «dinheiro» para o ouro e a prata, os metais monetários. É preciso as pessoas perderem a visão «fétiche» sobre o que é o dinheiro. Essencialmente, um meio pelo o qual podem trocar mercadorias e serviços; é também um meio de acumulação de capital.
No caso da função de intermediário nas trocas, ele desempenha o seu papel, desde que haja acordo de compradores e vendedores, em relação ao valor efetivo, nesse dinheiro. As unidades podem ser arbitrárias, os valores unitários desse dinheiro (o seu valor efetivo) podem variar muitíssimo.
Quanto à função de acumulação de capital, do que se tem como «dinheiro- papel», o seu desempenho é realmente insatisfatório. O dinheiro depositado numa conta a prazo vai perdendo o seu valor real, apesar de aumentar nominalmente. Os banqueiros vão organizar seu negócio para que o depositante nunca (ou muito raramente) obtenha lucro real de seu depósito em dinheiro, na instituição. O dinheiro-papel pode também ser aplicado em ativos financeiros, ações, obrigações, derivados... Mas, o risco de perder tudo ou parte do capital acumulado é, muitas vezes, maior do que o lucro que tais investimentos possam trazer. Em todo o caso, o cálculo de rentabilidade destas aplicações de dinheiro é particularmente difícil de se fazer, pois ninguém tem «uma bola de cristal» para saber, daqui um ano ou mais, quanto esse ativo financeiro entretanto se valorizou, ou desvalorizou, e com a incógnita suplementar da taxa de inflação futura, no país ou conjunto de países, onde tais investimentos foram efetuados.
Uma taxa de lucro «bruto» de 10%, será um resultado excelente, numa economia com valores de inflação próximos de zero; porém, numa economia com inflação de 20% o lucro nominal de 10% transforma-se em perda real de -10%!
Não existe solução para o sistema monetário. Tem sido proposto que uma unidade internacional tenha apoio em matérias-primas, ou metais preciosos, ou rendimentos industriais, etc. Esta nova divisa internacional poderia substituir o deplorável sistema «fiat» que reina há mais de 60 anos. No ano de 1971, o Presidente Nixon declarou o não cumprimento dos Acordos de Bretton Woods, fazendo do dólar uma divisa destinada a ser inflacionada (não tendo nada de concreto para sustentar o seu valor) e, por arrastamento, a enorme quantidade de divisas que estavam indexadas ao dólar.
Tenho pleno conhecimento do debate sobre «desdolarização» e de substituição do sistema monetário internacional, de forma a que a unidade de troca seja «ancorada» ao ouro (ou a um cabaz de matérias-primas). Eu próprio me deixei entusiasmar por tal «solução», numa primeira fase. Porém, a capacidade humana em distorcer, ocultar e enganar, não estaria - com certeza - abolida: Logicamente, haveria dirigentes com habilidade e poucos escrúpulos, para conseguir trazer para eles o controlo e as vantagens inerentes desse novo sistema monetário.
Eu tenho advogado, desde há algum tempo, que as unidades monetárias se confundissem com unidades de energia, sendo assim, o que chamamos «dinheiro», um montante desse dinheiro, seria a promessa de receber uma dada quantidade de energia. Todos os países e pessoas precisam de energia nas mais diversas formas: Seria claro, transparente e universal, aquilo que estávamos a dar ou receber, aquando duma troca envolvendo dinheiro.
Tal esquema acima talvez não seja viável por razões políticas; porém, é muito viável em termos práticos. Se houvesse vontade, podia-se organizar uma contabilidade em termos de equivalentes energéticos. Por exemplo, nas trocas internacionais seria muito fácil converter as unidades monetárias, numa certa quantidade de energia, correspondendo a petróleo, gás, ou eletricidade (gerada de diversas maneiras...). O balanço energético resultaria com muito maior significado, que o balanço de pagamento em dólares (ou noutra divisa qualquer).
No momento em que todo o comércio internacional, toda a economia, estão informatizados, a necessidade de uma divisa internacional para os pagamentos deixa de existir, em absoluto. O cálculo das trocas comerciais e doutros valores, numa certa moeda, deixa de ser uma vantagem real, visto que basta uma calculadora de bolso com função conversora, para instantaneamente nos dar a equivalência de uma moeda A, noutra B.
O problema que coloca a existência de uma certa moeda de reserva e para as trocas internacionais é que há potencialidade do país (ou conjunto de países) que emite essa moeda, abusar do seu privilégio. Nós temos verificado esse comportamento ao longo de decénios com os EUA e não há qualquer garantia que outra entidade, nacional ou supranacional, que venha a substituir o US dólar , se comporte de modo sempre impecável! Daí que a emissão de dinheiro correspondente a um «vale-energia» faça sentido e seja quase impossível haver fraude, se tal emissão for universalmente supervisionada.
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