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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A ARTE DE AMÁLIA RODRIGUES - A NOBREZA DO FADO (segundas-f. musicais nº61)




A palavra FADO tem orígem no latim, FATUM, que significa destino.

No português corrente, tem seguramente conotação de má sorte, quando se diz «é o meu fado». Não admira, pois tem sido o fado deste povo que atravessou oceanos em busca de «El Dorados». Muitos deles, nunca chegaram a alcançar fortuna e voltaram à terra natal em estado miserável, como Camões, ou morreram em terras distantes e, muitas vezes, a tumba foi de água oceânica, em numerosos naufrágios, que engoliram caravelas e suas tripulações, transportando preciosas especiarias (canela, pimenta...) para os mercados europeus.

O passado trágico do século XVI, dito «grandioso», acabou com a derrota de Alcacer Quibir, seguido pela a perda de independência com a união do reino de Portugal à coroa de Filipe de Espanha. Esta sucessão de tragédias ficou refletida numa mágoa persistente nas vozes do povo anónimo, que nunca são citadas nos livros de História. Porém, são a história pessoal de muita gente. As «viúvas de vivos», era como se designavam as mulheres de emigrantes, que partiam para longe. Eles, labutando duramente em países estrangeiros, para construir um bem-estar sólido para as suas famílias.

Uma grande parte do Fado é, porém, de temática amorosa, como aliás a canção popular em geral. Mas no fado, é muito frequente o lamento da separação, do desencontro, do engano e desengano, enfim de histórias de amor que correram mal, de alguma forma.
Também está muito presente o tema da saudade, no fado e na poesia portuguesa. Esta expressão, não tendo correspondência exata noutras línguas, exprime um estado de melancolia e de fixação no passado, onde se projetam recordações o ser amado e de todos os momentos felizes, em geral.

Há muitos estudos sobre as origens do fado.
O fado, hoje, realmente corresponde a um tipo definido de música, pese embora a diversidade dos seus compositores e interpretes. Dizem que o fado tem origem no «lundum», um cântico negro, cantado pelos escravos negros no Brasil, desde que estes foram levados para as plantações (as roças), sofrendo a brutalidade dos donos coloniais.
Mas, também se fala da relação com as melopeias árabes - lembrança longínqua do Portugal que foi mouro, com uma presença de sete séculos, e deixou raízes profundas no folclore, embora o povo não tivesse ideia que suas expressões artísticas tinham efetiva origem na riquíssima civilização arabe ibérica (El Andaluz era a designação da Ibéria pelos mouros), que foi a mais avançada na Idade Média.

Na origem, o que hoje se chama «fado», estava enraizado em várias tradições orais, na fluidez e musicalidade próprias da música popular. Mas, como documentos, os mais antigos fados escritos e partituras editadas datam de finais do século XIX. Eles estão curiosamente associados, em muitos casos, com o proletariado urbano lisboeta, não ainda maioritariamente trabalhando na grande indústria, mas em pequenas fábricas e oficinas, que se situavam em bairros pobres: Alfama, Mouraria, Castelo, Madragoa ... eram bairros habitados por pessoas humildes, as casas não tinham condições mínimas, as ruas eram estreitas e mal iluminadas. Havia neles muita pobreza e com ela, alcoolismo, prostituição, marginalidade, etc. Havia nessa época uma estricta divisão das classes, embora alguns nobres boémios frequentassem prostíbulos situados nesses bairros. Tais boémias estão na origem de histórias romanceadas, como a da Severa , que foi amante do Conde de Vimioso.

Sendo impossível falar em pormenor dos muitos compositores e poetas que escreveram para Amália especificamente, ou daqueles que Amália apropriou as canções pré-existentes e lhes deu nova vida, com a sua voz e sensibilidade magníficas, queria sublinhar o caso de Alain Oulman. Ele compôs música sobre poemas escritos por poetas  famosos ou bem conhecidos, da literatura portuguesa. No total, não sei quantos poetas de renome foram cantados por Amália: Luíz de Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O' Neill, José Régio, Manuel Alegre, Pedro Homem de Mello, Cecília Meirelles, Ary dos Santos, etc. A própria Amália assinou letras de fados.
Para terem uma ideia da qualidade e diversidade da poesia nos fados de Amália Rodrigues, podem ouvir a playlist, com o título «AMÁLIA RODRIGUES: O FADO».
A vida corpórea dos compositores e intérpretes é finita. Porém, eles são eternizados pela execução das composições/canções/poemas e pela constante presença na memória coletiva. 
 É o caso de Amália e doutros, que comparticiparam na gesta de transformar o fado num expoente da alma portuguesa.


PS: Juntei recentemente um poema de Camões, musicado por Alain Oulman, «Dura Memória»:

Dura Memória



Memória do meu bem, cortado em flores,
Por ordem de meus tristes e maus fados
Deixai-me descansar com meus cuidados
Nesta inquietação dos meus amores.

Basta-me o mal presente, e os temores
Dos sucessos que espero infortunados
Sem que venham, de novo, bens passados
Afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi numa hora tudo quanto em termos
Tão vagarosos e largos, alcancei;
Deixai-me, com as lembranças desta glória

Cumpre-se e acaba a vida nestes ermos
Porque neles com meu mal acabarei
Mil vidas não, uma só - dura memória!...

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Simplesmente humano [OBRAS DE MANUEL BANET]




Quantos sonhos despedaçados

No olhar de crianças, olhar mudo

Esperançado, como ponte humana

Para os outros, no meio da barbárie?


Quantas lágrimas de mães vertidas

Soluços de pais perante a tragédia

Tudo filmado, nada é perdido

Só se perdeu a humanidade


A insistência da propaganda

É o veículo mais perverso

Normaliza a catástrofe

Banaliza o horror


E sorvemos o veneno

Até que alguns de nós

Reproduzem a violência

No inimigo, no irmão


Alegres vão pró matadouro

Como há séculos e séculos!

A Humanidade ainda existe?

Talvez; mas não aprendeu nada!




terça-feira, 19 de maio de 2026

VIVER É UMA PARTIDA [OBRAS DE MANUEL BANET]



A arte de viver é celebrada por muitos

Mas mentem, pois no fim resta nada

Somos jogadores numa mesa de póker

Acabamos por sair da partida sem nada


A perda de entes queridos acontece

Muito sem nos prepararmos

Algo de semelhante acontece

Quando somos nós que partimos


Ninguém ganha no tabuleiro da vida

O jogo - viciado ou não - é sempre 

Em nosso desfavor e desilusão

Quanto muito, restam recordações


Mais nos ferem os fracassos

Que recordamos sem nada poder

Quando estamos no leito

Último da jornada da vida


Buscar consolo nos amores

Passados, também não resulta

Pois nos vem à memória

O trilho dos desastres


De nada serve nos arrependermos;

Somente aceitarmos nosso destino

De incompletos viventes

Que esbracejaram até morrer.




sábado, 16 de maio de 2026

A GRAÇA NO UNIVERSO E EM TI [OBRAS DE MANUEL BANET]



Ouve com todo o teu ser o que tenho para te dizer.




Se é para aprender realmente

Tens de fechar os olhos

E deixar de pensar em coisas.

Põe em conserva os desejos

Os sobressaltos e as paixões

Quanto mais completamente

Abandonares o teu ego

Melhor poderás ir ao encontro

Do que o Universo tem para

Te dar, sem exigir nada

Somente que aceites a dádiva




E por isso só pode ser Deus

Só precisas de te dispor para receber

Não precisas de rezar, fazer exercícios

Espirituais ou oferendas:

- Quanto mais estiveres à escuta

Em abertura total e sincera

perante o Universo,

Melhor compreendes o que te é dado:




Não tem como condição

seres bom aluno, bom discípulo,

Fiel seguidor de crença, ou religião.

É-te dado sem condições, pois só tu podes

Fazer com que a dádiva frutifique



Milhões de pessoas recebem essas dádivas

Mas poucas as fazem frutificar

Apesar disso, elas são incondicionais

São dadas sem exigir nada em troca

Só teu espírito pode fazer frutificar tais dádivas

Só ele pode apreender como são preciosas:

O que nos rodeia, que nos sustenta,

e nos permite viver a nossa vida:

A nossa família, amizades, conhecimentos...

E o mundo vivo e mineral, toda a civilização,

todas as máquinas e conceitos científicos.

São infinitos os objectos e processos

que existem e sustentam nossa existência

mesmo que não saibamos nada sobre eles.

Ficamos perplexos, embaraçados

Quando tomamos consciência

da profusão de dádivas

que recebemos do Universo




Um espítrito puro vai agraceder e

fazer o seu melhor

Para que todos os elementos de que dispõe

Sejam colocados ao serviço da continuidade

da Vida, da Beleza, do Cosmos.

Quem chegou a este ponto é feliz;

Mesmo nas dificuldades, sabe para onde

caminhar, sabe como encontrar o «Norte»




Não sei se estas palavras te servem...

Queira Deus que elas te aproximem

e mantenham no que os antigos

Chamavam de «estado de Graça»

E que irradies essa Graça.



 






sexta-feira, 8 de maio de 2026

QUADRAS DA BEIRA-LISBOA-MAR [Obras de Manuel Banet]



...E por falar em maresia

Veio-me à memória

Uma melodia

Do noctívago fado


Era outro o tempo

Outras as esperanças

Corações em sincronia

Batiam o ritmo 


Mas o que resta agora

A memória esvai-se

Como quem, caído

Na praia morre


Foram brilhantes

Os anos de vida

Que vivi contigo

São meu tesouro


As recordações 

Ajudam a viver

E a morrer

Com dignidade


São o teu rosto

A tua voz suave

A companheira

No naufrágio


Este barco da vida

Seria uma jangada

Desconjuntada

Sem o teu amor


É eternidade

O instante 

Em que estamos

Nunca se desfaz


És tu que dás cor 

À Natureza; tu que

Desfias  palavras

Música ao meu ouvido


Tenho de dar graças

A Deus por tudo

O que aconteceu

Se foi para te encontrar


Tranquilo, posso

Morrer no instante

Em que for chamado

Para o novo viver


Porque me deste

Tua alegria tranquila

De ser por ti amado

E todo eu te amar 









terça-feira, 5 de maio de 2026

[proso-poemas e música] NO PAÍS DOS SONHOS - VOL. II

 Este é o volume II da recolha de proso-poemas e música «NO PAÍS DOS SONHOS»

Consultar o volume I em : 

[proso-poemas e música] NO PAÍS DOS SONHOS - VOL. I




sexta-feira, 29 de julho de 2022

[NO PAÍS DOS SONHOS] «Dança dos Cavaleiros» de Prokofiev


 

Este é um sonho que preferia não ter. Preferia um vazio, um manto branco, ocultando todas as imagens terríveis que passam diante dos meus olhos fechados. 

Estas imagens, não as podemos ocultar, porque são o cinema interior que o nosso cérebro produz. De tal maneira nos implica, que ficamos exaustos, esgotados, trementes e gélidos, mas nada podemos fazer. 

Nada nos pode afastar daquela caminhada rítmica, compassada, obsessiva, dos Montagus e Capuletos. Vejo que se dispõem numa dança hierática, macabra, pois já se sabe que não haverá quartel; será que irei presenciar o desencadear do ódio hereditário, da «vendetta», entre as duas casas aristocráticas? 

Não, a música é essa mesma, da Suite de Prokofiev, porém o contexto é outro. É bem mais real, mais assustador, por isso mesmo. Aqui, neste sonho, não estamos no teatro, estamos numa rua qualquer duma cidade banal, no Século XXI. 

A civilização ruiu, só restam bandos de assassinos desapiedados, que ditam a sua lei. Não há lugar para o amor, ou para qualquer sentimento humano. Em breve, será a matança. Os olhos, de ambos os lados, estão injetados de sangue. Se não estás num dos campos, então, és inimigo a abater; este é o cálculo feito por qualquer um dos lados. 

Na vida do sonho, como na vida real, não me alinharei jamais com um dos campos de bandidos que se digladiam, para impor a sua lei às gentes. As pessoas comuns são como as presas das aves de rapina: Movem-se, sem saber que, dentro de instantes, vão ser atacadas, feridas, liquidadas e devoradas.

Esta dança obsessiva tem a altivez brutal da fatalidade que avança. Tem o peso inexorável do destino em cada nota. Depois de acordar, interpretei este sonho como premonitório da nova era trágica em que estamos a entrar; como em 1940, o ano da estreia da obra-prima de Prokofiev.





quarta-feira, 22 de junho de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] À BATIDA DO CORAÇÃO


                                            Vivaldi : Sinfonia ''al Santo Sepolcro'' RV 169

                Estou dentro de um longo túnel. A luz difunde-se desde uma extremidade, por detràs de mim. Oiço uma música muito calma e envolvente. Sinto um bafo quente, semelhante ao do vento na praia.

Agora a paisagem mudou, só se vê uma planície semi-desértica com ervas amarelecidas e outras plantas rasteiras. Ao nível do solo há uma evaporação intensa. Todas as imagens estão defocadas. O Sol põe-se magestoso, inundando pro fim o horizonte de tons fúlgidos.

Quando, por fim, o astro do dia se põe, ele irradia uns últimos clarões de luz para lá do horizonte, iluminando um céu de oiro e azul.

Em breve, não mais se ouvem as cigarras e a planície vive um momento de suspensão no tempo. O silêncio é tão real, que ressoa... no coração.