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sábado, 27 de junho de 2026

POPULAÇÃO «FANTASMA» NA ORIGEM DE SAPIENS, NEANDERTAIS E DENISOVANS





Segundo hipótese  atual, todos os seres humanos vivos teriam cerca de 20% do genoma oriundo de uma «espécie fantasma»; uma porção herdada de tal população, desaparecida (designada população B), ter-se-ia hibridizado com a população A. 
Esta nova visão vem reforçar a tese duma origem plural da espécie humana: Já não somente os 2-4 % de ADN neandertal nas populações euroasiáticas não-africanas, ou os 2-6 % do ADN denisovano nas populações da Ásia e Oceânia.

A identificação da população ancestral B poderá corresponder a um crânio de H. heidelbergensis, encontrado na África do Sul, o «Homem de Cabway».
Este, terá divergido do tronco principal da evolução humana há 400 mil anos e vivido de forma independente. Esta espécie só terá voltado a ficar em contacto com a população ancestral A, cerca de 200 mil anos depois:  Nesta época, múltiplos acontecimentos de cruzamento/hibridação terão ocorrido. 
Esta nova visão da formação dos H. sapiens (os humanos modernos), destrona a visão linear, na qual um único ramo teria sobrevivido até hoje, enquanto as restantes espécies surgidas se teriam extinguido num momento ou noutro do processo. Seriam «becos sem saída» da evolução.
O modelo que surge com cada vez mais verosimilhança é o da «manta de retalhos» (ou «patchwork»). O genoma total da espécie humana moderna, teria contribuições de várias espécies extintas, as quais se cruzaram num momento ou noutro com o tronco principal do que iria ser a nossa espécie. Em resultado desses cruzamentos, houve aquisição diferencial de genes, ou seja, partes do genoma daquelas espécies ancestrais foram conservadas, enquando outras foram excluídas.

Por exemplo, os humanos modernos, vindos de África e «invasores» da Europa, foram encontrar neandertais, que viviam há centenas de milhares de anos no continente europeu, adaptados a um clima  muito mais frio do que o atual. Estes neandertais tinham desenvolvido características anatómicas, fisiológicas, imunológicas,  adaptadas ao clima glaciar. No total, a humanidade atual conserva coletivamente cerca de 40% do ADN de origem neandertal, embora cada indivíduo euroasiático possua cerca de  2 a 4 % de sequências herdadas dos neandertais. Os genes favoráveis para a sobrevivência foram retidos e os que entravam em conflito com os genomas humanos (sapiens) foram excluídos, por selecção natural. Um mecanismo semelhante permitiu que as populações, vivendo a grandes altitudes, nos Himalaias e no planalto central tibetano, tivessem conservado genes provenientes dos denisovanos, que lhes dão um fenótipo duma densidade maior de glóbulos vermelhos no sangue e, portanto, permite-lhes superar a escassez do oxigénio nas altas montanhas. 

Para além da pertinência da interpretação dos achados em si mesmos, pode-se questionar o próprio conceito de «espécie»:
- Quando é que é legítimo considerar um cruzamento como tendo ocorrido entre duas populações da mesma espécie, ou, alternativamente, entre duas espécies diferentes, mas que conservam um certo grau de interfecundidade? 
Nós é que fabricamos o conceito de espéci; nós é que classificamos os fósseis segundo as suas semelhanças e diferenças, como pertencendo à espécie X, ou Y, ou ainda, a um híbrido de X e Y. 
O problema, com a sequenciação de ADN fóssil, não desapareceu, ele somente mudou de nível: 
- Quantas divergências em sequências no genoma (ou em certo número de genes) serão necessárias para que os ADN extraídos dos fósseis X e Y sejam considerados pertencer a variantes dentro da mesma espécie, ou - alternativamente - a duas espécies distintas? 
Perante a acumulação de factos nas várias disciplinas (paleoantropologia, bioquímica, fisiologia, genética, ecologia, etc.) podemos ser obrigados a redefinir conceitos e mesmo a efetuar uma mudança drástica na nossa visão da evolução humana. 
Em ciência, há estes momentos de mudança de paradigma. Devido ao contexto diverso, os fenómenos observados passam a ser avaliados de forma radicalmente diferente. Estamos numa destas fases, em Paleoantropologia. 

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Artigo de Nature Genetics: 

Ver também:

Homo sapiens invasores iniciais da Europa não eram adaptados aos climas tropicais: 

sábado, 11 de abril de 2026

MARROCOS: DESCOBERTAS RELACIONADAS COM GÉNESE DOS HUMANOS MODERNOS

 


A génese da espécie humana moderna seria tributária de duas populações:
 A população A, com 80% da contribuição genética e a população B, com 20%. 
Os fósseis muito antigos descobertos em Marrocos, mostram características que os aproximam dos fósseis de H. antecessor (primeiro descoberto em Atapuerca, Espanha).
 Coloca-se a questão dos recém descobertos fósseis serem quem introduziu novas características em populações humanas da periferia do Mediterrâneo ou, pelo contrário, estes fósseis marroquinos terem recebido seus traços anatómicos doutras populações, pré-existentes.
 De qualquer maneira, a hibridação nestas populações ancestrais parece ter sido um fenómeno relativamente frequente. 
As diversas lineagens estiveram isoladas durante centenas de milhares de anos. Quando estas elas se encontraram, houve troca de genes e formação de novas espécies. 
Este documentário levanta a hipótese da população de Marrocos ser uma forma ancestral da espécie humana moderna.

.  Relacionado




quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Saga dos neandertais na Ibéria e sua hibridação com H. sapiens



 A imagem popular dos Neandertais como bestas possantes, resistentes a condições adversas, mas de pouca inteligência, veio «explicar» durante decénios a extinção deste grupo de humanos arcaicos, à medida que se espalhava a população dos "Cro Magnon"* que são nossos ancestrais diretos, humanos anatomicamente modernos.

Porém, desde cedo, a imagem de brutamontes dos Neandertais estava posta em causa, pelo facto de existirem várias evidências de importações de tecnologias de talhe da pedra, oriundas dos Homo sapiens, pois estão já presentes em África, antes da última onda migratória para a Europa*. No entanto, essas técnicas foram copiadas e adaptadas por neandertais. As técnicas de talhe «Levallois» são tipicamente de transição entre a cultura Musteriense (típica de neandertais) e de «Homo sapiens sapiens».

Antes de estarem disponíveis as técnicas de análise de ADN antigo, João Zilhão e equipa (1998) levantaram a hipótese de que o Menino de Lapedo (ver vídeo abaixo), possuía inegáveis traços anatómicos de neandertal, embora fosse um «humano moderno».  Zilhão interpreta este hibridismo como sinal de que havia - disseminados na população a que pertencia o menino de Lapedo - genes originários dos neandertais. Tal como acontece com a nossa herança de genes neandertais, os cruzamentos na origem do hibridismo do Menino de Lapedo tiveram lugar muito tempo antes (milhares de anos).

No âmbito da genética das populações é sabido que os genes podem persistir ou desaparecer numa população ao longo das gerações, devido aos efeitos da selecção (selecção «darwiniana»), ou devido ao acaso.  Sabemos que quanto mais distantes no tempo forem os acontecimentos de hibridação  inter- específica,mais os genes importados estarão diluídos nas gerações subsequentes. 

Observou-se uma percentagem maior de genes de origem neandertal em populações atuais da Ibéria, em comparação com a percentagem em populações da Europa Oriental ou Asiáticas.  Este facto reforça um conjunto de evidências de que a extinção dos neandertais foi muito mais tardia na Ibéria, em relação a outras zonas que eles povoaram. 

Os documentários abaixo são interessantes. Em certos pontos, avançam com teorias ou hipóteses, para as quais não existe acordo na comunidade científica. Isso é o normal na ciência, que precisa do confronto de posições para o avanço nas pesquisas, nas investigações no terreno, nos debates teóricos...

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* Os primeiros humanos modernos (chamados de Cro-Magnon) chegaram à Europa há cerca de 45.000 anos. 




 Neandertais SOBREVIVERAM ATÉ 25.000 ANOS ATRÁS 




      CRIANÇA DE LAPEDO : hibridação H. sapiens x H. neanderthalensis


RELACIONADO:






sexta-feira, 23 de agosto de 2024

HISTÓRIA GENÉTICA DAS POPULAÇÕES EUROPEIAS (Prof. Dr. Johannes Krause)


 O prof. J. Krause é diretor e membro cientifico do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana em Iena.

A conferência gravada está incluída num ciclo de conferências promovido pela Fundação Eugène Dubois, o famoso e importante antropólogo holandês que descobriu a calote craniana do Homo erectus, na ilha de Java ("Homem de Java").
O diretor de tese de Krause foi Svante Paabo, inventor da técnica de obtenção e sequenciação de ADN antigo, a partir de fósseis, de quem já reproduzimos uma conferência, neste blog.

Na introdução, o Prof. Krause refere-se ao facto de ter descoberto (pelo ADN antigo) a espécie humana fóssil  Homem de Denisova e homenageia Dubois.
Mas, a maior parte da conferência é dedicada à visão que tem da Pré-História, especialmente dos períodos que antecedem os primeiros relatos escritos, de cerca de -8000 a cerca de -3000, antes do presente. 
Ele ilustra o facto do estudo do ADN antigo, conjugado com a amostragem do ADN de populações contemporâneas,  ter contribuído para esclarecer as incógnitas que se colocavam sobre essas épocas, em arqueologia e antropologia. 
O estudo das migrações humanas no continente euroasiático, utilizando os instrumentos da genética  molecular, permite compreender melhor o passado remoto do continente europeu, milhares de anos antes do registo escrito da História.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

DERROTA AUTO-INFLINGIDA DA HUMANIDADE


Em termos de biologia evolutiva, que deve abranger tudo o que se pode designar como ser vivo, dos alvores desde há 4 biliões de anos, até agora, a espécie humana não pode ser exceção. Na verdade, em termos de evolução, as forças «cegas» que impulsionam ou extinguem as espécies não têm «moral», não se pautam por considerações filosóficas e, ainda menos se sujeitam a estar conformes com teorias em voga. 

Porém, a evolução não estancou, não se fixou num tipo definitivo de ser humano, contrariamente ao mito arreigado e muito difundido, segundo o qual, não apenas a História social e política da Humanidade teria chegado ao fim, ou seja, haveria perpetuação da civilização mais ou menos semelhante à que se pode observar nos países de capitalismo avançado, social-democratas e liberais, como a própria natureza biológica teria chegado a um equilíbrio meta-estável, no qual a humanidade iria, de ora em diante, substituir a força física e a capacidade em arcar com dificuldades de toda a espécie, por uma humanidade mais «inteligente», no seu conjunto, com grande capacidade inventiva nos domínios da técnica. A evolução das sociedades e dos indivíduos iria dar-se, doravante, no plano da inovação tecnológica, não no plano anátomo-fisiológico. 

Nada mais falso do que esta visão. Porém, ela é propalada pela media corporativa e mesmo por correntes ditas «alternativas». É que as pessoas que escrevem, jornalistas e «opinion-makers», são, na sua maioria, bastante ignorantes em biologia e ainda mais, em biologia evolutiva.

Para mostrar que não houve nunca uma «paragem» da evolução «física» da humanidade, podemos referir algumas mudanças que ocorreram em tempos pré-históricos, mas recentes, como a perda da intolerância à lactose, nos povos do Norte, permitindo assim que ocupassem terras setentrionais cujos recursos alimentares (sobretudo os que são fonte de vitaminas) eram muito escassos - ou ausentes - durante o longo inverno. Nestes casos, a pastorícia, fornecendo leite e derivados do mesmo, permitia a esses povos sobreviver durante o inverno. 

Outra adaptação notável, é a que se verificou, separadamente, nas populações andinas e nas do planalto do Tibete. Em ambas as populações, ocorre a tolerância a um teor mais baixo de oxigénio atmosférico, causado pela rarefação do ar e da sua mais baixa densidade, nas zonas de grande altitude. Este teor mais baixo não os afeta: A sua adaptação permite-lhes ter atividades normais, porque o sangue pode absorver melhor e conservar mais eficientemente o oxigénio. 

Não se pode falar duma «raça» negra, muito simplesmente porque a quantidade de melanina presente na pele pode variar em muito pouco tempo, consoante a exposição aos raios solares (portadores de radiação UV, potencialmente nociva). Assim, as pessoas de tez branca, ditas «caucasianas» são descendentes de Homo sapiens, vindos de África há cerca de 60 mil anos, com pele escura. A perda de pigmentação pelas populações nas zonas europeias, ainda com clima glaciar (muito semelhante ao da Tundra siberiana de hoje), foi permitir que esses povos obtivessem vitamina D, a partir de pró-vitamina D. Esta transformação necessita de luz UV. Como a melanina interfere com a absorção dos raios UV, a quantidade em excesso desse pigmento, de vantajosa para proteger de um excesso de raios UV, tornou-se um obstáculo à obtenção de vitamina D em quantidades satisfatórias. 

Existiram, em tempos históricos e continuam nalguns pontos, zonas infestadas pela malária, quer na bacia Mediterrânica, quer em várias zonas de África subsaariana. Esta doença* está correlacionada com o vetor de sua propagação por uma espécie de mosquitos, mas cujo agente infeccioso é um protozoário (ser unicelular com algumas características que o aproximam dos animais).

No entanto, os humanos que existiram e existem nestas zonas, conseguem tolerar melhor a doença, através de uma mutação da hemoglobina, cujo gene - no estado heterozigoto, ou seja, alelo normal/alelo mutante - não confere sintomas, mas em estado homozigótico - os dois alelos do gene têm a mutação - é gravemente debilitante. Na ausência de tratamento, é causa de morte precoce de bebés, ou crianças, que tenham  herdado de ambos os progenitores o mesmo gene. Portanto, em princípio, o gene mutante deveria ser muito pouco frequente, pois causaria enorme desvantagem  na população. No entanto, nas populações que vivem em zonas infestadas por malária, a taxa de sobrevivência é maior, se os progenitores forem heterozigóticos, ou seja, se tiverem um gene normal e um mutante. Quando os genes estão em condição homozigótica - as cópias dos dois progenitores são ambas mutantes - a doença genética é letal. Dá-se assim uma situação de equilíbrio dinâmico entre formas mutantes e não-mutantes dos genes da hemoglobina.  

Podemos dar muitos outros exemplos, que mostram que a espécie humana tem evoluído no sentido biológico: No sentido biológico, uma evolução é uma transformação que se fixa numa população e que é transmitida de geração em geração, com tendência para se manter, ou aumentar de frequência, se os fatores ambientais, que favorecem essas mutações, permanecerem. 

O «relaxamento» das condições de seleção ambiental seria o «reverso» da situação acima descrita, da resistência à malária. 

Tem-se observado um aumento da taxa de diabéticos, seja por transmissão de genes que favorecem o aparecimento desta doença, seja pela nutrição inadequada, em geral desde a infância, acabando por causar esta grave  doença. Ela é favorecida por múltiplos fatores ambientais e comportamentais, nomeadamente, pelos hábitos sedentários e pela ingestão de comida hiper calórica, causadora de obesidade. Os diabéticos hereditários (felizmente) são tratados e podem viver uma vida relativamente normal. Infelizmente, muitos deles reproduzem-se. Algumas formas de diabetes hereditária não se manifestam cedo na vida dos indivíduos. Seus portadores não sabem que são diabéticos e reproduzem-se; outros sabem, mas confiam que a medicina possa «eliminar» os males na descendência. De qualquer maneira, a taxa de diabetes tem subido de frequência, quer a forma hereditária, quer a forma de diabetes adquirida. A diabetes tem mudado de frequência, rapidamente, quer devido à disseminação de genes favorecendo  o aparecimento da doença, quer de hábitos alimentares que não existiam no paleolítico, ou seja, durante mais de 250 mil anos da existência da espécie Homo sapiens. 

No paleolítico, quando as pessoas não tinham excedentes de comida, em que a ingestão dum excesso era muito rara, as pessoas precisavam de armazenar reservas de energia, para longas caminhadas, para caçadas esgotantes e para os períodos de escassez alimentar. A capacidade de armazenar energia sob forma de tecido adiposo, era um fator importante de sobrevivência. Houve um nítido relaxamento das condições seletivas em que a humanidade viveu, na maior parte da sua história evolutiva. O que era positivo há 50 mil anos atrás, não é hoje, com certeza: Os humanos têm abundância de alimentos, em particular, nas sociedades ditas «desenvolvidas». Essa abundância não significa qualidade: a chamada «junk-food» (comida-lixo) invadiu tais sociedades e afeta - em especial - os jovens, atraídos pelo baixo preço e pela facilidade em adquirir tais alimentos. Os jovens já não aprendem os rudimentos da arte culinária em casa, pois seus pais e mães já não sabem, ou não têm tempo, para cozinhar.  

A comida industrializada é produzida para agradar ao paladar de milhões de consumidores, não para que seja preservada a saúde dos mesmos, por mais que a publicidade  diga o contrário. O principal motivo para a adição de conservantes, em toda a espécie de comida, é garantir um «tempo de prateleira» mais longo no supermercado: O prazo de validade de um item poderá ser dilatado, se for adicionado um conservante, ou vários, autorizado pelo organismo de controlo do governo. Muito pouco cuidado têm as pessoas em relação ao que estão a ingerir: Em geral, vão escolher o mais barato, aquilo que, segundo seu critério (equivocado), preenche os requisitos de maior qualidade, por mais baixo preço.  É assim que doenças crónicas (diabetes, obesidade, e outras) se propagam, mas também o cancro: A subida de todo o género de cancros é devida ao modo de vida completamente artificial. Este facto está amplamente demonstrado: Os fatores de risco de adquirir cancro e a prevalência dos diversos tipos de cancros são periodicamente avaliados nas nossas sociedades. Não se trata de doença em que as autoridades e o público tenham informação escassa, incerta, contraditória; antes pelo contrário. Porém, os lóbis da alimentação industrial são muito mais fortes  que a vontade dos governantes e legisladores, em fazer algo de positivo pela saúde da população. Também, no mesmo sentido, se exercem as pressões da indústria de saúde, das clínicas privadas, aos grupos farmacêuticos; possuem um poder de influência considerável. Por mais que digam, não é feita prevenção, ou educação do público, na proporção que seria desejável. Todo o seu esforço vai no sentido de manter a população na dependência do sistema de saúde exclusivamente curativo, pois é isso que lhes dá lucro. 

Veja-se o exemplo duma empresa farmacêutica dinamarquesa, que colocou no mercado um «medicamento-maravilha» para reduzir a obesidade, mas que afinal, tem imensos problemas associados. Está bem estabelecido que a obesidade se trata sobretudo com a educação, a mudança de hábitos, o acompanhamento dos doentes, a adequada informação e o ensinar das boas práticas de culinária. Nada disto tem efeito notável nos lucros das farmacêuticas, por isso será descartado pelas mesmas indústrias. Porém, essa empresa farmacêutica realizou chorudos lucros nas bolsas. Igualmente responsáveis são os governos corruptos que, não apenas autorizam essas substâncias (algumas perigosas) para emagrecer como vão pagar  o seu consumo. O que equivale, na prática, a darem um subsídio às empresas farmacêuticas, através de sistemas públicos. 

As  pessoas de países pobres, que vivem no limiar da pobreza, olham para a abundância de certas sociedades e sentem-se fascinadas, encaram essas sociedades como «modelo», tanto mais que tendem a ignorar, ou a descartar, os problemas que tais sociedades da abundância apresentam. 

O efeito do capitalismo da abundância sobre as populações do Sul global, faz com que sejam importadas atitudes de consumo das ditas sociedades da abundância. Ou, existindo geralmente uma classe média com um certo poder de compra nessas sociedades do Sul global, os padrões de consumo por ela adotados - copiando o padrão das sociedades ditas desenvolvidas -  vão ser desejados pelos mais pobres.  Estes, com fraca educação, confundem luxo, com o verdadeiro bem-estar.

A quantidade de desperdício é afinal um traço constante das sociedades contemporâneas, sejam elas «capitalistas» ou «socialistas». O seu padrão de produção e de consumo, totalmente insustentável, torna-se cada vez mais chocante. Isto porque, a pobreza e miséria alastram a olhos vistos, não apenas nos países ditos «periféricos». Também os países «do centro», as sociedades da opulência, transformam-se em sociedades duais, onde muitos não têm o suficiente para viver com um mínimo de dignidade, os pobres. E em percentagens crescentes, os que são completamente excluídos. Tal qual o que se verifica em países do Sul global. 

Nas grandes cidades do Brasil, por exemplo, existem condomínios de luxo, com favelas (bairros de lata) na proximidade imediata. Muitas das mulheres que fazem a limpeza e outros trabalhos domésticos nos condomínios de luxo, vivem nas favelas mais próximas. 

Não existe uma preocupação genuína em preservar a biosfera, pois os políticos ecologistas, tal como outros políticos, deixaram-se comprar, fazendo de conta que não percebem como têm sido usados para criar o ambiente necessário à tão propalada «transição energética». 

Sem dúvida, é possível desenvolver tecnologias sustentáveis, como eólicas ou painéis solares, para atender às necessidades dos destituídos, para melhorar seu padrão de vida.  Mas, isso implicaria que os grandes da distribuição elétrica, deixavam de ter largas faixas da população como clientes. Está fora de questão implementar estas soluções (viáveis tecnicamente), de armazenar localmente energia potencial, para alimentar os lares nas horas de menor ou de ausência de captação de energia solar.  Isso é feito em muitas aldeias - especialmente em África - que podem estar a distância proibitiva (em termos de custos) da rede elétrica geral. Claro que este modelo se pode aplicar, com modificações, nos ambientes urbanos de quaisquer sociedades. Assim, estas possuiriam capacidade de gerar e armazenar energia, com baixo custo. Mas, isso tiraria os benefícios das grandes empresas de distribuição de energia; e dificultaria o controlo do Estado sobre seus súbditos. 

É a dependência que gera a miséria, porque os poderosos têm toda a vantagem em ter vasto número de pessoas sob sua dependência. Muito poucos ou nenhuns dos dependentes de subsídios, da assistência dos Estados, se irão rebelar enquanto continuarem a subsistir graças às esmolas estatais. Muitos, sem meios de  subsistência, anseiam estar nas condições de dependência. Eles não sonham em montar uma empresa, que lhes permitisse ser fonte de rendimento próprio. Porém, o potencial para isso existe em muitos casos. A sua efetivação poderia traduzir-se em redes de cooperativas , dando um grau elevado de autonomia aos indivíduos e às comunidades.

A espécie humana tornou-se depredadora. Os meios que mobiliza para a sua civilização  sofisticada, a sua cada vez maior ambição de potência, de rapidez, de luxo, fazem com que a Natureza esteja constantemente  a ser destruída, irreversivelmente, numa escala crescente. 

As ideologias como o ambientalismo, dando prioridade às energias renováveis e a utopias tecnocráticas, que se abrigam por debaixo do slogan (idiota) de «zero carbono», são realmente écrans que separam tais «ecologistas», do comum dos cidadãos e da realidade. 

Há ocultação do que está realmente acontecendo. As zonas que têm um teor de lítio acima de certo nível estão a ser açambarcadas, compradas por grandes grupos, para satisfazer a procura desta matéria-prima para baterias. Estas, irão alimentar sobretudo os carros da classe alta, que poderá assim continuar a esbanjar sem má-consciência. Os Estados, a sua típica resposta, é de inteira subserviência aos interesses dos industriais. No passado também era basicamente o mesmo. A única diferença é que agora já não se trata do petróleo, mas do lítio. Vem a dar no mesmo, ou pior. Uma paisagem devastada pelas minas de lítio a céu aberto, será mais parecida com uma paisagem lunar, do que terrestre. O cúmulo desta estupidez, é que se calcula que o lítio «explorável» em toda a superfície da Terra, não chega - nem de longe - para a conversão a cem por cento, do parque  automóvel mundial. Então, porque fazer esses colossais investimentos, esse esventrar da Terra (incluindo a destruição de parques naturais e de paisagens protegidas)?     - A resposta é evidente; é pelo lucro. O Lucro é que manda. Ele é que decide se é, ou não, investimento a fazer-se. Nunca prevaleceu, no passado e no presente, o critério de beneficiar a humanidade, ou de permitir que as indústrias locais floresçam. Basta este exemplo, de depredação dos mais valiosos pedaços de natureza, em nome da «energia verde» (verde: Só tem o verde das notas de dólar!), para se compreender a estupidez e ganância do pensamento a curto prazo, não apenas de decisores políticos e industriais, mas também de engenheiros e funcionários de  instituições estatais e outras. 

Um Megaloceros giganteus (espécie extinta), imediatamente à direita de um homem; ao centro um alce e mais à direita, um veado vermelho.

O conceito de hipertelia aplica-se ao desenvolvimento tecnológico e económico das sociedades: A hipertelia é a propriedade de certas tendências evolutivas  se exercerem para além do seu nível máximo de eficácia, traduzindo-se assim num «handicap».

 É conhecido e muito citado, o exemplo duma espécie de veado (extinta) que tinha hastes tão desenvolvidas, que isso tinha consequências negativas para se deslocar, em ambientes de floresta.  

É provável que esta espécie tenha atingido a extinção, porque aquilo que conferiu, em certa etapa, uma vantagem evolutiva, se tornou num inconveniente demasiado grande. Com efeito, os veados desenvolvem as hastes para os combates entre machos, para decidir sobre os acoplamentos. O macho mais bem sucedido nestes combates, também é suscetível de ter a maior descendência. É um mecanismo muito direto de seleção, que favorece os portadores das hastes cada vez mais fortes e largas. Mas chega-se a uma situação limite, em que essas mesmas hastes são um inconveniente maior, para o macho poder deslocar-se em ambientes densamente arborizados. Muitos falecem, presos aos ramos das árvores onde suas hastes se prenderam de maneira irreversível.

Metaforicamente, a espécie humana, com sua sofisticação tecnológica, atingiu o ponto de hipertelia, ou seja, a tecnologia, permitindo-lhe satisfazer a vontade de sempre mais e melhor, leva a depredar o ambiente, de tal modo que a espécie se encontra em sério risco de desaparecer, em consequência direta da sua própria atividade.


 

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*) A malária é uma doença parasitária do sangue, provocada por um protozoário do género Plasmodium. Este parasita é transmitido através da picada de um mosquito (do género Anopheles). A malária é endémica em vários países tropicais, sendo potencialmente fatal se não tratada atempadamente.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

O ANO DO DRAGÃO


                     


 O dragão é o animal mítico que vai presidir ao novo ano lunar, que começa no sábado 10 de Fevereiro. Os povos orientais estão muito ligados a esta contabilidade lunar. Com efeito, é nesta ocasião que se dão os encontros da família alargada, quando há um período de tréguas (vários dias de feriado) do duro trabalho, em que se comem deliciosas iguarias e se bebe também. Mas, sobretudo, nestas reuniões familiares ocorrem as íntimas celebrações em memória dos defuntos*. A família reúne-se para ofertar aos antepassados as libações de comida e bebida, em primeiríssimo lugar. Depois, é a vez dos familiares vivos também fazerem o seu ágape (termo grego que tanto designa banquete, como amor altruísta). Tudo isto é colocado sob o signo do ano lunar.


Relevo com dragão numa tumba da dinastia Liao  (916–1125)


Ora este ano que vem, é o ano do Dragão. O animal mítico que estaria na origem do povo chinês. E de muitos outros povos orientais, que -simbolicamente - se colocam debaixo do auspicioso Dragão.   

Assume-se que o dragão sabe proteger o seu povo; que ele é feroz nessa defesa; que tem um sentido muito profundo do dever; tem  obrigação de guardar os tesouros do seu povo, o qual é descendente do dragão.

O famoso e recém-descoberto Homo longi (Homem de Longi) é o «homem-dragão», pois o rio Longi, perto do qual foi encontrado, é o rio Dragão: Que esta espécie extinta tenha contribuído para o mosaico que formou a espécie humana atual, não tenho praticamente nenhuma dúvida. Que seja a mesma espécie que o famoso homem denisovano (primeiro «encontrado» sob forma de ADN arcaico extraído de osso do dedo mindinho, presente na gruta Denisova do Altai- Sibéria), seria lógico. No entanto,  não temos provas definitivas. Porém, temos abundantes provas de que os primeiros colonizadores humanos (Homo sapiens) das Américas, foram povos vindos da Sibéria. Os que se designam hoje como «americanos» são, quase todos,  invasores mais ou menos recentes no continente americano. 

No meu modo de ver, ser-se forte é um elemento necessário na sabedoria dos povos e do governo dos Estados, caso contrário, não estarão ao abrigo de visitas inoportunas, nem de serem obrigados a fazer a guerra para defender o seu território. O lema de «mais vale prevenir do que remediar», aplica-se! 

Também as pessoas do ocidente deveriam pensar agora com a cabeça fria, e não com a cabeça escaldada pela propaganda que recebem da media (esse veneno contemporâneo!). 

O ano lunar é para todos, afinal! É a mesma Lua que gira em torno da Terra, assim como o mesmo Sol que a ilumina: Um bom ano lunar do Dragão, para todos, estejam onde estiverem!

                            

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*Subsistem cerimónias em culturas ocidentais, nomeadamente em países latinos, sob forma de culto dos mortos, em 30-31 de Oubro e 1º de Novembro. 

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Descobertas gravuras atribuídas a Neandertais, com 57 mil anos

 https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0286568


               thumbnail

Acima, um dos painéis com traçados de dedos; em baixo, o desenho esquemático da mesma gravura da gruta de La Roche-Cotard

[Ler o artigo, clicando no link acima; o meu comentário parte do princípio que os leitores tomaram conhecimento do seu conteúdo primeiro]



Comentário

Os Neandertais têm estado por cá (em toda a Europa, desde a Península Ibérica ao limite oriental dos Urais e, para além destes, na Sibéria; no Médio Oriente, desde o Levante/Israel, até ao Iraque) nos últimos 200 mil anos, tendo saído de África muito antes do «Homem Moderno Antigo» (ou seja, a nossa espécie Homo sapiens). Eles conseguiram sobreviver a períodos de glaciação, a modificações acentuadas do habitat e tiveram tempo de se adaptar a climas de um frio extremo, como mostram a sua anatomia entroncada, muito musculosa, o seu nariz grande (para aquecer o ar inspirado), etc. 

Segundo os padrões de beleza contemporâneos (e da antiguidade clássica) eles não seriam elegantes. Foram classificados como «sub-humanos» por arqueólogos e paleontólogos do século XIX, que estavam muito mais preocupados em encontrar «o elo perdido» entre o homem e o macaco, do que em avaliar objetivamente os restos fossilizados e as culturas que correspondiam aos Neandertais. 

O facto de que os homens nessa zona da Europa, na época em causa ( -57 mil anos) só podiam ser Neandertais tem a ver com a extrema dificuldade dos H. sapiens conseguirem colonizar o continente Euro-asiático. Com efeito, sabe-se hoje, que o «Homem Moderno Antigo», embora surgido primeiro em África, por volta de 300 mil anos atrás,  não ocupou definitivamente a Europa senão vários milénios após a referida data de 57 mil anos antes do presente. Porém, tinha havido 2 colonizações anteriores, do continente euroasiático pelo H. sapiens, que não deixaram continuidade. Eles tomaram o caminho do Mar Vermelho e não do Mediterrâneo.

Os vestígios europeus mais antigos de arte parietal, como na Gruta de Chauvet, atribuídas ao Homo sapiens, datam de 35 mil anos. No Norte da Espanha, na Gruta del Castillo, existem pinturas parietais datadas com mais de 40 mil anos; pensa-se que, nessa época, somente neandertais aí habitavam. Noutros pontos da Península Ibérica, são abundantes sítios arqueológicos, com artefactos e restos fossilizados de neandertais, que revelam a sua grande difusão nesta península. Mas, também são conhecidos exemplares de neandertais na Sibéria e noutros pontos distantes.

Este estudo - agora publicado - vem na sequência de trabalhos anteriores, que já tinham revelado muitos elementos de cultura neandertal. Pessoalmente estou convencido que estas descobertas  [que se vêm juntar às de misteriosas pinturas parietais em vários pontos da Península Ibérica e com indícios de ornamentação corporal, como conchas com vestígios de ocre (para pintar o corpo) assim como restos fossilizados de penas (de aves de grande porte, como águias e abutres) ] obrigam a comunidade científica a alargar o conceito de arte paleolítica.

A arte - em geral - pode ser vista segundo dois prismas, essencialmente: 

 ou é vista como representação do real. Isto inclui o sobrenatural, pois ele é considerado real pelo artista que o representa.

ou é vista como signo, como sinal, como mensagem codificada; a pertença a um clã, a uma tribo, será identificável com os sinais exclusivos desse clã ou tribo. 

Isso existe na nossa espécie o Homem Moderno, desde o princípio, visto que as grutas decoradas do paleolítico, estão cheias de sinais «abstratos» , mas que não são arbitrários, pois se repetem (alguns, apresentam-se em locais distantes, no tempo e no espaço). 

Na espécie nossa estreita parente, Homo neanderthalensis, suas condições de vida foram muito mais rudes, durante boa parte da sua existência no continente europeu. Não é difícil compreender que estavam forçados pela natureza do clima (de tipo peri-ártico; de tundra) a deambularem de sítio para sítio, ficando em cavernas ou abrigos temporários, sem continuidade, quanto muito visitando, ano após ano, determinados locais.  Lembro também que os locais mais ricos em imagens e gravuras no paleolítico superior (ex. Na gruta Chauvet), estão nos locais mais recônditos das grutas. Por vezes, são quase inacessíveis: seria uma prova tremenda se aventurar no seu interior, segurando apenas lamparinas com gordura, para se iluminarem. 

A representação não é - de qualquer modo - um critério para se avaliar o grau de desenvolvimento duma cultura. Basta lembrar que existem tabus (proibições religiosas) em sociedades como as islâmicas, em representar figuras de humanos ou de animais. Evidentemente, estas sociedades não estão num «estádio menos avançado» de desenvolvimento, por comparação com aquelas onde a representação do humano não é tabu. 

Analogamente, a «superioridade» do Homo sapiens sobre o neanderthalensis é apenas um efeito de nos projetarmos a nós próprios no cume, a realização máxima da Evolução. Como biólogo, estou consciente de que houve um conjunto muito diferente de circunstâncias, nomeadamente para as duas espécies: Um clima peri-ártico do habitat dos neandertais e um clima tropical ou de savana africana, nos sapiens que migraram para a Europa. 

O que se pode esperar em populações longamente separadas, submetidas a diferentes pressões ambientais, senão que divirjam como consequência da sua adaptação e tenham portanto traços anatómicos próprios e também comportamentos, incluindo tradições culturais? Homo neanderthalensis e H. sapiens viveram em quase total separação entre -300 mil anos (a data aproximada de aparecimento do homem moderno, em África) e cerca de -45 mil anos (aproximadamente, o  encontro das duas populações no Levante). São 255 mil anos de separação, no mínimo, ou seja, cem vezes o intervalo temporal desde a antiguidade*, aos nossos dias.

Espero que as pessoas se interessem pela Paleoantropologia, ela dá uma perspetiva de como viemos de longe e de como sabemos pouco, demasiado pouco, sobre nós próprios!!

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* Contando a partir da idade de ouro da civilização grega antiga, cerca 2550 anos antes da atualidade.


domingo, 4 de dezembro de 2022

INVERNO 2022/23: PREVISÕES DE MUITO FRIO = ARREFECIMENTO GLOBAL?


NOAA e Universidade Rutgers publicaram novos dados que mostram a cobertura de neve, em todo o hemisfério Norte, ter atingido o mais alto nível desde que começaram os registos em 1967 e estão presentemente acima da média de 57 anos.

Há anos que venho alertando, não apenas para a incoerência e contradições patentes dos adeptos da «religião do aquecimento climático», como tenho referido que esta obsessão doentia com o aquecimento, pode ser responsável pela total indiferença perante os sinais contrários, indicativos dum arrefecimento global. 
As épocas glaciares e interglaciares sucederam-se em vastos períodos de tempo, no passado da Terra. Cerca de 20 mil anos atrás, o início do fim da última era glaciar, corresponde à transição do paleolítico para o neolítico nas sociedades humanas. 

Estamos num período interglaciar, até agora. Porém, tem havido alguns picos de calor ou de frio. Houve períodos de arrefecimento acentuado, como no Século XVII, a "pequena idade do gelo". Nesta, as águas do Tamisa gelaram e era possível patinar sobre o rio que banha Londres (conhecem-se quadros, gravuras e descrições do acontecimento). 

É possível que a fase interglaciar em que vivemos desde há 20 mil anos, tenha chegado ao fim e esteja no início uma nova era glaciar. Segundo os climatologistas, uma era glaciar estabelece-se de forma muito mais brusca do que as etapas de aquecimento, que assinalam o fim das glaciações. 

A humanidade atual não está preparada para enfrentar uma era semelhante à que se iniciou há 29 mil anos, na Europa. Nesta época, os ancestrais da nossa espécie, H. sapiens, partilharam o habitat com populações de Homo neanderthalensis. Estes, também eram originários de África; mas tinham colonizado a Eurásia centenas de milhares de anos antes. Os neandertais tinham adquirido adaptações anatómicas e fisiológicas ao frio extremo. Os homens «modernos» (H. sapiens) tiveram que desenvolver adaptações comportamentais para sobreviverem em ambientes semelhantes aos do Norte do Canadá ou da Sibéria dos nossos dias.

                                     Solutrense Épigravetense

Legenda: Zonas de refúgio para Homo sapiens na Europa durante o último máximo glaciar há cerca de  20 000 anos

Num vídeo pedagógico, sobre o arrefecimento e glaciações, os ciclos de Milankovitch são muito bem explicados. Estes ciclos estão correlacionados com as diferentes eras glaciares e interglaciares.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

DIÁLOGO SOBRE O FENÓMENO HUMANO II

Um Paleoantropólogo e uma Geneticista dialogam sobre o que significa o humano. Falam das abordagens que têm ajudado a perceber melhor os fenómenos relacionados com a evolução e com o comportamento desta espécie de símios, que é a nossa .


P - Conforme prometido, aqui estamos para a continuação do diálogo anterior, tão rico e frutuoso, que encetámos na semana passada. Mas, se me permites, gostaria de abordar, enquanto questão prévia à da sexualidade humana, a questão do instinto, da forma como as espécies de símios antropoides conseguem enfrentar de forma flexível e adaptada os desafios no seu ambiente.

G- Sim, como geneticista, uma das coisas que me deixou sempre bastante frustrada, foi a ligeireza com que o mundo científico, sobretudo antes de ser conhecida a totalidade do genoma humano (no virar do milénio), atribuía «genes» para isto e para aquilo, com a maior desenvoltura, especialmente genes que tivessem que ver com o comportamento, com a inteligência, com a comunicação. Este tipo de «genética hipotética» era corrente em estudos genéticos incidindo sobre nossa espécie, sobretudo, mas também nas outras.

P- A projeção da nossa mentalidade no meta-modelo de como funciona o organismo, o cérebro, o genoma, etc. tem sido uma das maiores fontes de erro na interpretação dos seres vivos e, em especial, o comportamento humano. A atribuição da etiqueta «instinto» a sequências de gestos automáticas (ou tidas como tais), impediu o esclarecimento, até hoje, dos processos que determinam a instalação e reforço dessas tais sequências automáticas ou estereotipadas. Com efeito, demasiadas vezes, etólogos e psicólogos usaram a categoria do «instintivo» para qualquer comportamento que não tivesse sido «ensinado e aprendido». O relegar uma parte importante dos comportamentos animais para a categoria do instinto, era um modo de obviar o seu estudo sério, pois era postulada a transmissão hereditária desses comportamentos, através de «genes do comportamento». Estes postulados gratuitos e muito improváveis de «genes», aliás, não favoreceram o avanço da biologia do comportamento.

G- É verdade! Uma das descobertas mais inesperadas e «escandalosas» em genética, que decorreu da sequenciação completa do genoma humano, foi a constatação de que - no máximo! - existiriam cerca de 26 mil genes, na totalidade do genoma humano. Ora, isso era muitas ordens de grandeza menor do que as previsões dos cientistas, sobre o número total de «genes» que possuiria o genoma humano. Caso houvesse dezenas de milhões de genes, como muitos acreditavam na comunidade científica, não seria inconcebível que um certo número deles tivesse a função de codificar determinados traços de comportamento. O «instinto» seria meramente a expressão genética desses tais genes de comportamento. Isso era entendido dentro do determinismo biológico e bioquímico, apregoado pela quase totalidade dos cientistas em meados do século XX.

P- A palavra «instinto» é como aquela célebre frase da comédia de Molière, quando um médico explica ao seu paciente que a papoila dormideira (de onde se extrai o ópio) devia as suas propriedades, à misteriosa «virtude dormitiva»! O «instinto» não é mais que uma pseudoexplicação desse tipo. A dificuldade em compreender os fenómenos do comportamento coloca-se tanto em estudos incidindo sobre o Homem, como noutros animais.

G- Nós temos tendência a absolutizar o humano como algo radicalmente diferente doutros animais. Porém, em termos moleculares (construção das diversas moléculas biológicas) e mesmo celulares (a arquitetura das células, as estruturas celulares), muitas vezes não se pode distinguir o que provém dum humano, do que provém de outro mamífero. Não há diversidade verdadeira senão ao nível «superior» de organização, como sejam tecidos e órgãos. Aí sim, é possível distinguir o humano, pela anatomia e pela histologia. Não é realmente possível distinguir uma proteína humana da  doutros mamíferos, pela sua estrutura geral e mesmo pela sua função. Apenas podemos distingui-la pela sequência de aminoácidos, ligeiramente diferente no Homem em relação aos outros animais. Muitas vezes, essa diferença é irrelevante do ponto de vista funcional. A prova disso é que um gene de proteína pode ser inserido num cromossoma de outro ser vivo, obtendo-se a sua expressão correta, quer essa inserção seja num animal de experiência, quer num humano (para substituir um gene deficiente, em terapia genética): Em ambos os casos, o gene inserido desempenha na perfeição, o papel daquele que foi substituir.

P- Volto à questão que ficou em suspenso, do comportamento humano e da sexualidade, a comunidade científica, com especial relevo para os psicanalistas, mas com forte influência também nas outras disciplinas, decidiu transformar a questão da sexualidade humana, de um tabu, num assunto obsessivo e omnipresente. Isto não significa que os mitos envolvendo a sexualidade em si mesma tenham sido desfeitos. Penso que existe uma enorme confusão no espírito de muitas pessoas, que torna ainda mais complexo falar-se neste assunto, desde que se tenha a preocupação de honestidade e não se caia em demagogias.

G- Esta questão exerce sempre um grande fascínio, provavelmente porque, subjetivamente, sentimos que a nossa própria biologia e a nossa psique estão envolvidas. Mas, nesta como noutras questões que envolvem a biologia humana, a condição para se abordar cientificamente um problema é não o fazer com envolvimento dos nossos egos. Será possível com a sexualidade»? Será possível fazê-lo como descrevemos o aparelho circulatório, ou as funções hepáticas?

P- Colocas um problema metodológico sério. Pois nós temos emoções e estas, sendo recalcadas, não sabemos «a priori» quais sejam. Mas, é impossível avançar neste domínio, senão com o distanciamento que conseguimos em relação à descrição e funcionamento dos outros órgãos do corpo humano. Creio que um problema de fundo que tem surgido em muitas discussões sobre a sexualidade, é a permanente redução desta, ao prazer sexual. Esta questão tem «canibalizado» as discussões, sobretudo nas revistas populares e em shows televisivos. Esta questão, legitimamente, é objeto da curiosidade e interesse do público. Porém, as emoções e muitos aspetos típicos das situações amorosas, ficam na sombra.

G- Se nós somos condicionáveis, em termos gerais, isso deve-se às estruturas profundas, que existem em nós - provavelmente no cérebro, em primeiro lugar - que desencadeiam esse condicionamento. Ora, a publicidade usa e abusa de imagens subliminares (ou explícitas) que enviam mensagens imbuídas de conotação sexual. Se o faz, é porque o mecanismo funciona. Nós temos uma grande fragilidade a este respeito: Algumas atitudes e comportamentos, tal como o imaginário, direta ou indiretamente, têm relação com sexualidade. Mas, como em muitos casos de condicionamento, o que funciona mais eficazmente é o que não atinge o nível explícito, ou seja, fica ao nível subliminar. As estruturas psíquicas, a sua instalação e fixação no humano, não só antecedem a sociedade industrial, a televisão , etc.: formam parte do «fundo genético», anterior à emergência da própria espécie H. sapiens, ou mesmo, de seus antepassados mais longínquos.

P- Como noutros aspetos da biologia, aceito que os comportamentos se foram complexificando, foram sendo selecionados os indivíduos que tinham um conjunto de características hereditárias que favoreciam a maior flexibilidade ambiental. Explico-me: Há 7 milhões de anos, o ramo primitivo que foi dar os Chimpanzés modernos, o que foi dar os Bonobos modernos e o que foi dar o Homo sapiens moderno, separaram-se. A partir daí, há isolamento genético dessas três espécies de símios. A sua adaptação ao ambiente era fator decisivo para a sua sobrevivência: houve - constantemente - uma propagação diferencial dos genes mais adequados, pelas sucessivas gerações, em resultado da seleção natural. Mas, se virmos a distribuição ecológica atual dos Chimpanzés e dos seus antecessores, assim como a dos Bonobos, constatamos uma coisa: ela vai alargar-se ou estreitar-se consoante a progressão ou contração da floresta tropical-equatorial.
                                                                 Champanzé: Mãe e filho

                                           Bonobo: Mãe e filho

Já no caso das espécies da nossa linhagem, apesar de haver ramos colaterais, que acabaram como «becos sem saída», parece evidente que os mais bem sucedidos foram os que se conseguiram adaptar à Savana, a partir da sua adaptação prévia à Floresta tropical.
Parece-me errado, portanto, procurar a «síntese» entre o Chimpanzé e o Bonobo (atuais) como sendo a chave para as primeiras etapas da construção do humano. Sim, temos parentesco em comum; isso traduz-se por semelhanças tanto anatómicas como comportamentais, no sentido lato. Porém, a exploração eficiente do novo habitat, a Savana, implicou muitas adaptações correlativas e muitas diferenças em relação às espécies de símios que permaneceram no ambiente de Floresta. O andar ereto; a dieta mais especializada em gramíneas selvagens e em carcaças de animais (abandonadas pelos grandes carnívoros); as modificações metabólicas, conduzindo à utilização de energia disponível para o crescimento desproporcional do cérebro; o desenvolvimento de glândulas sudoríferas, a perda paralela de pelagem em grande parte do corpo, (possibilitando a caminhada debaixo de calor intenso, em longos percursos). Trata-se de muitas adaptações correlacionadas, cuja sequência cronológica ainda não está muito clara, sobretudo porque dizem respeito a partes moles, não fossilizáveis.
O andar ereto torna mais conspícuos os órgãos genitais (em ambos os sexos), assim como os seios das mulheres. O maior dimorfismo sexual em símios verifica-se nos gorilas, mas é bastante modesto na nossa espécie e em espécies que antecederam a nossa. Apesar das diferenças anatómicas, houve fósseis que foram considerados por engano (pelos traços anatómicos) como masculinos e se verificou serem femininos, e vice versa, quando se pôde extrair ADN e sequenciar os genes desses fósseis.

G- Aliás, em H. sapiens do Paleolítico, verificou-se que as mulheres tinham parte ativa em caçadas, por diversas evidências. Tal não deveria surpreender, em grupos pequenos, nómadas. Quando o número de adultos num grupo era baixo, não podia haver uma repartição exclusiva por sexos de muitas tarefas. Tal como a caça e colheita, muitas outras atividades devem ter sido partilhadas por ambos os sexos.
O que ocorreu foi uma projeção da imagem convencional do homem e da mulher, do fim do século XIX e princípios do século XX. Os arqueólogos que estudavam o «homem primitivo» admitiram, como dado imutável, o estatuto «inferior» da mulher. O preconceito impede de ver certas evidências, porque aquele que as vê, descarta automaticamente certas hipóteses. Pode até nem ser um processo consciente, nalguns casos.