Canto desde a alma sem saber a quem
Nem quando, nem porquê. Só alguns sabem
E esses, meus irmãos e irmãs, são animais
São capazes de intuir pelo som da voz
Se estou alegre ou triste, furioso ou sereno
Se sofro pelo passado, não tenho outro remédio
Senão cantar, sussurrando enquanto caminho
Pelas ruas e praças que já não reconheço
São cópias grotescas e rutilantes
Das que guardo em memória
Tenho de me concentrar para rever
Essas paisagens interiores que habito
São a moldura mental dos retratos
Dos antepassados que me habitam
Sem romancear, construo o universo
Intemporal de presente-passado
Ignorando as modas, as vaidades
Porque afinal, eu canto o amor
Impossível das emoções e enganos
Das desilusões e viagens partilhadas
Canto o passar do tempo que me resta
Não procuro seduzir nem ser seduzido
Se morte não me espanta é porque
Já vivi neste mundo, demasiado
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(Murtal, Parede 01 /11/ 2026)