OPUS VOL. IV (2026)


Simplesmente humano



Quantos sonhos despedaçados

No olhar de crianças, olhar mudo

Esperançado, como ponte humana

Para os outros, no meio da barbárie?


Quantas lágrimas de mães vertidas

Soluços de pais perante a tragédia

Tudo filmado, nada é perdido

Só se perdeu a humanidade


A insistência da propaganda

É o veículo mais perverso

Normaliza a catástrofe

Banaliza o horror


E sorvemos o veneno

Até que alguns de nós

Reproduzem a violência

No inimigo, no irmão


Alegres vão pró matadouro

Como há séculos e séculos!

A Humanidade ainda existe?

Talvez; mas não aprendeu nada!


VOLTO-ME PARA O PASSADO... 



Volto-me para o passado, não por aí encontrar sabedoria,

Não tenho ilusões sobre seus valores e as morais que pregavam

Volto-me para o passado para descobrir, teimosa procura,

Da marcha da sociedade, o que -a certa altura- descarrilou

Sem dúvida que a humanidade, no seu conjunto, não melhorou

Nem uma onça mais de sabedoria, bondade ou prudência

Isso podes constatar, cotejando o presente com o passado

Será em vão, esta procura. Aceito que ela não traz soluções

O único bem que posso extrair, é o convencimento

De que não há nada que justifique demorar-me por aqui.






Sobriedade 


Tudo aquilo que é dado ser a um homem

Seu saber, sua estrela, seu caminho

De muito pouco lhe vale, se não frutifica

Se não semeia ao vento a canção da vida




Poeta sejas como te der mais na gana

Em palavras, gestos, imagens, tu sabes

Nada se perde, tudo se transforma, dizem

Sejam teus suspiros por alma ou pão




Quem diz que a arte é vã, nada cria

Pois criar é arrancar do nada um ser

É uma melodia, uma ideia que brotam

À superfície da mente, à luz do dia




Não pretendo dar lições a ninguém

Mas dois conselhos dou a quem me lê

Faz o que deves, mas por convicção

Sê impiedoso crítico de ti próprio



HOJE, VOU ESCREVER UMA CARTA 



Sim, uma  carta em papel; com envelope

Ainda não decidi se escreverei com caneta

De tinta permanente, esferográfica, ou feltro

Mas tem de ser realmente desenhada pela

Minha mão, cada letra exprimindo um instante

O instante das minhas emoções 

Em relação ao conteúdo, também

Irei inovar - no que me toca - no estilo

Serei sincero, sem ser grotesco,

Sem artifício, abrirei o coração

Não preciso de fazer teatro

Com sinceridade, basta escrever

Ao correr da pena, é como estar

contigo, um gesto, um murmúrio,

Leve ruído do aparo ao contacto

Com o papel.


Podia pensar mais solene

Enfático ou espirituoso

Não! Minha razão de escrever

É natural e não fabricada

É o pensamento quando falo

É um sopro ao teu ouvido


Quanto ao conteúdo,

Tenho andado a refletir

No que a ele diz respeito

Ao entregar-te a carta

Entrego-te meu pensar

E sentir, sem floreados


Ainda tenho de a começar

Pois uma carta assim

Não se escreve por capricho


Uma carta assim é leve

E pesada, pelo que diz

E pelo que cala; pelo que 

sai do aparo e pelo que fica

no tinteiro. 


Até breve, pois...





POR DENTRO ... 




Quando digo, eu - não sou eu

Quando digo nós - também  não somos

Se sou ou não sou, serei ou não, 

Pouco importa: 

Já a noite cai sobre o terreiro

Menos distingo, mais me afundo

Neste mar de absinto, neste mar que me mata

Das coisas belas existe a conjura

 de me moerem o  juízo 

Eu sei. E que posso fazer, senão 

Gritar, à  minha maneira?

Como um estranho que acorda

Num mundo incompreensível

Dentro de uma peça teatral 

Para onde não foi chamado

 e no entanto...

Se vê  compelido a representar um papel

- Diga-me, meu caro senhor, que sabe fazer?

- Sou contador de histórias, com certificado 

da associação nacional do mesmo nome.

- Muito bem, diz a voz,

 Faz favor de se dirigir à direita, ao fundo do palco...

Mas, como nada acontece e sempre me vejo

Na situação absurda acima descrita,

O primeiro impulso é  pegar no chapéu 

E sair de cena, como quem muito bem percebe

Estar no lugar errado, no momento errado, 

Sem que possa ajuizar do significado

Do que aconteceu. 

Não vamos fazer uma teoria disso,

Como se o acaso tivesse uma lei, 

Ou como se a minha pessoa fosse

Escrava do destino.

 Afinal, tanto faz.

Porque, apesar do que congeminei

Caí na armadilha a mim próprio tecida

No enredo que eu sozinho fabriquei

Não de forma pensada, mas de modo

Deliberado, como a lagarta se envolve 

No casulo...

Simples facto de entomologia 

Espectral e obsessiva.

...

Uma voz de galináceo:

" Não tens qualquer outro, 

Que não seja o teu ADN , a comandar!

E tão bem, que tens a impressão 

De seres livre, de fazer porque queres

Mas quem manda é o teu ADN, 

Nem o teu cérebro, nem outro conjunto

de neurónios, tem autonomia em  face 

Do codificado no genoma."

...

Outro galináceo:

"A espécie humana é formada por sub-espécies 

Não se pode fazer rigorosa classificação 

 Apenas  pela anatomia ou fisionomia

Ou por qualquer outro parâmetro físico. 

Só observando o comportamento do espécime 

Se pode arriscar uma tentativa de classificação"

 ....


 Este discurso, dito de " ciência "

É a enésima regurgitação de galináceos 

Poisados nos galinheiros-poltronas, 

Conspurcando as cabeças jovens. 

Perante o discurso galináceo, só restam 

Duas opções:  Ou dizes que sim 

e continuas a falar com os teus botões;

Ou dizes que não 

e expulsas a verborreia exatamente

 como quando vais 

Ao wc e descarregas o autoclismo. 

 Saibam, galináceos: Vosso cacarejar terá

O destino que lhe dá o autoclismo.

---

Não irei adiantar mais, por hoje.

Acima, transcrevi o acontecido na cabeça, 

 Não pretendo que seja mais do que isso.




LUZ QUE CAMINHA NA ESCURIDÃO... 



Luz que caminha na escuridão

Que alimenta nossa esperança

Com um sopro ela se apague

Se reacende na desesperança



Luz que não regateia o luzir

Que constante guia a alma

Oferece a todos a imensidão

Da liberdade numa faísca



Luz que não se engana

De objecto nem de objectivo

Sereno afirmar dum caminho

Guardado na mente humana



Luz que nunca se extingue

Com a sombra dialoga

Dentro ou fora do olhar

Percorre o infinito



Luz, sempre a mais luzente

Que te importam os reflexos

Daqueles que te imitam

Mas não guardam o brilho



Só a ti - luz divina -

Confio os meus passos,

E a estrada se ilumina,

Sem medo do destino



CONTO: 
A JAZIDA DO SABER HUMANO



No ano de 2026 começou uma experiência em larga escala, que se veio a revelar de transformação civilizacional.

Nas narrativas do passado longíquo, as bibliotecas eram locais preciosos, onde se guardava a sabedoria, os conhecimentos, as narrativas, as informações técnicas, geográficas, antropológicas e todas as outras áreas do saber. Elas definiam a civilização de uma nação e dum povo. Eram reverenciadas pelos cidadãos comuns e os mais poderosos prestavam-lhes homenagem. Certamente, também houve fogueiras de livros nas inquisições, nas encenações do regime hitleriano e em muitas outras circunstâncias. Mas as fogueiras não eliminavam a curiosidade e até davam mau nome àqueles que as ateavam e alimentavam.

Até que as tecnologias da Internet chegaram. A comunicação passou a ser instantânea ou quase, em termos práticos. A capacidade de armazenagem de documentos tornou-se quase infinita, mesmo para alguém com posses modestas, nesta sociedade: Não apenas os livros, mas vídeos, filmes, etc. cabiam num espaço virtual, a «nuvem», atingindo uma capacidade bem maior - na verdade - do que os leitores mais sistemáticos poderiam jamais ler ou ver.

Então, deu-se uma transformação paradoxal, inesperada, na quase totalidade dos indivíduos: Deixaram de ler obras de ficção ou de ensaio, deixaram de se informar realmente, de procurar o saber... tinham isso na ponta dos dedos, apenas bastando uns poucos clics para alcançar qualquer página, armazenada por eles, ou que os esperava na já citada «nuvem».

O fenómeno era como o de se perder o apetite, perante uma mesa cheia de iguarias, que individualmente faziam crescer a água na boca mas, todas elas assim dispostas, causavam uma espécie de indigestão virtual.

Foi então que certas empresas, associadas a certas agências estatais, decidiram levar a cabo a digitalização em massa de todos os livros mas, em especial, os raros.

Apropriando-se da totalidade dos poucos exemplares restantes, destruiram todos os vestígios materiais deles. Exactamente como Ray Bradbury tinha imaginado no seu romance de antecipação «Fahrenheit 451» ou de forma análoga, mais limpa e eficaz que os lança-chamas para destruição dos livros, no supra-citado romance.

Na verdade, as bibliotecas que eram susceptíveis de conservar o maior número das obras raras, não só não fizeram resistência, como foram as primeiras a oferecer sua colaboração aos funcionários destas empresas. Mediante um custo irrisório e com prévia autorização administrativa, as bibliotecas de instituições prestigiosas podiam finalmente ver o seu sonho realizado: A empresa fazia a digitalização de todas as obras, ficando a biblioteca e todos os utentes da mesma, com acesso ilimitado a essas mesmas obras.

Muitas bibliotecas tinham graves problemas de conservação. Tinham que combater pragas de insetos xilófagos, de fungos e bolores, que invadiam os vetustos in-fólios onde houvesse uma réstea de humidade... Enfim, era uma luta insana, muitas vezes, sem meios à altura.

Aquele esforço humano e financeiro tornava-se ridículo, sobretudo na era da digitalização a 100 %, em que praticamente ninguém vinha consultar as obras aí armazenadas. Antigamente, a biblioteca abrigava caloiros e graduados académicos, dos mais diversos âmbitos profissionais e geográficos. Mas, recentemente, a biblioteca tornara-se um antro deserto, fantasmagórico, vestígio de uma era passada.

A digitalização integral foi o programa de iniciativa governamental, decidido após consulta às instituições de maior relevância nacional: Das academias científicas, às associações profissionais de docentes; das bancadas parlamentares, às tribunas sindicais, fez-se uma consulta, um plebiscito virtual, com altíssima percentagem de respostas ao inquérito posto a circular na Internet pelo Ministério da Cultura.

O livro digital substituiu o velho livro em papel (ou pergaminho). Qualquer um podia consultar - no seu computador pessoal ou no telemóvel - tudo o que desejasse. As pessoas tinham apenas que se inscrever no site da Biblioteca Universal Digital, pagando uma soma simbólica para consulta das obras sujeitas a direitos autorais, sendo as outras inteiramente gratuitas.

Os autores não protestaram. Pelo contrário; os que antes vegetavam em quase total obscuridade, foram subitamente projetados para os écrans da fama digital. Os que já eram cérebres, não viram seus rendimentos decrescer, pois a cobrança dos direitos de autor também se tornou mais eficaz com a digitalização; além de que beneficiavam do efeito de divulgação no universo digital.

Numa segunda fase, as salas de aula das universidades e liceus ficaram desertas. Os estudantes não viam vantagem em ouvir ao vivo um/uma velho/velha falar do que já tinham visto num vídeo. A comunicação direta em sala de aula, tornou-se anacrónica, acabando por desaparecer. Os professores preferiam isso; davam aulas virtuais onde podiam ouvir e responder às dúvidas ou questões, que os alunos levantassem.

Mas, em todo este processo, havia uma perda de contacto, uma ausência da fricção inerente à comunicação humana. Esta interacção, por trivial que fosse, permitia a alunos e professores manter uma relação afetiva dentro das respectivas instituições. As sessões virtuais em grupo tornaram-se moda, durante algum tempo. Mas, como todas as panaceias, esta foi de curta duração; o efeito de habituação supera rápido, o «frisson» da novidade.

Alguns 'atrasados' não-digitais, ainda tinham consciência do vasto mundo, para além dos écrans. Não valorizavam a parafernália que permitia às pessoas comunicar a milhares de quilómetros de distância. Mas, o reverso era que os vizinhos, os conjuges ou os membros da mesma família, já não sabiam encetar uma conversa naturalmente, só para terem um pouco de 'calor humano' num sorriso, num aperto de mão, ou num beijo...

Mas, os referidos não-digitais estavam demasiado isolados e obrigados, pelo entorno, a comportarem-se dentro das novas normas digitais. A resistência, se é que ela existiu, foi de pouca duração.

Alguns mais teimosos, porém, migraram para sociedades longínquas, como a Papua-Nova Guiné ou, aqui ao lado,para pequenas aldeias onde ainda se fazia agricultura, pastoreio e artesanato... Onde se contavam histórias à lareira, ouviam cantares sacros ou profanos que acompanhavam a lavoura ou ritos da vida comunitária e espiritual. Nunca mais se ouviu falar dos acima mencionados teimosos ... O que não surpreende, pois eles se tinham despojado das maquinetas de contacto, para que sua imersão nas sociedades tradicionais fosse total.




Quanto às sociedades super-conectadas, estas produziram, a breve trecho, indivíduos completamente incapazes de viver num mundo natural. Os seus progenitores ainda tiveram alguma experiência, na infância e juventude, dum mundo sem ligação permanente às máquinas digitais. Porém, seus filhos já não sabiam interagir uns com os outros, diretamente. Tinham que fazer «chat» numa rede social, antes de decidir se iriam manter ou não, o contacto. Como o comércio, a alimentação, a educação e os transportes estavam totalmente digitalizados, estes jovens não podiam sair de dentro do raio da civilização digital, que era a sua.

A capacidade teórica de comunicar com outros mundos, outras civilizações, outras culturas, era apenas fantasia. Na realidade, eles nem estavam apetrechados para um convívio autêntico... nem mesmo nos «chat-rooms»! Vogavam num universo completamente fictício. Não admira que as interações amorosas fossem inexistentes ou, caso existissem, breves e superficiais.

As crianças nascidas destas uniões casuais eram tão poucas, que a própria infraestrutura para acolher os novos humanos - as maternidades, as creches, os jardins de infância, etc.- foi encolhendo severamente... Deu-se o efeito da «bola de neve ao contrário», a redução traz maior redução e esta ainda se acentua mais, e por aí adiante...

Só os mais recuados povos, em cantos remotos onde a civilização digital não chegara, tiveram possibilidade de continuar uma vida social habitual. Umas vezes, era na abundância e alegria, outras, na escassez e tristeza. Mas, era uma vida que se baseava no viver comunitário, no contacto direto, onde as paixões tinham oportunidade de se exprimir, onde as pessoas encontravam linguagem comum para exprimir assuntos graves ou triviais, falando uns aos outros.

As urbes digitalizadas, após um século, ficaram transformadas num imenso mar de ferro-velho. Aí, algumas pessoas esgravatavam, procurando a sua subsistência; alimentos, coisas úteis, ou que elas pudessem trocar por comida. As sociedades morriam aos poucos, por doença crónica interna. Não houve invasões ou guerras de conquista. Quem estaria interessado em suportar parasitas, incapazes de fazer algo com os braços, as pernas e, ainda menos, com as cabeças?

Se vier a existir algo parecido com isto é muito triste, para a espécie humana, em geral. Significa que nossa civilização tecnológica não soube colocar o ser humano no centro das suas preocupações.

Mas, embora se possa ter pena, o facto é que quase todos pareciam - em 2026 - obnubilados, hipnotizados, pela informática, a robótica e a «Inteligência Artificial». A tais pessoas hipnotizadas ou cheias de si próprias, era inútil - e até perigoso - tentar mostrar a realidade. Elas arranjavam maneira de nos acusar de todos os males, por termos outra visão das coisas.

Os poucos indivíduos saudáveis sentiam-se impotentes, mantinham uma postura de auto-defesa, mais preocupados em prevenir-se da loucura ambiente e manter-se sãos de espírito.









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