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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

HEGEMÓNICOS EM DERROCADA ALARGAM A GUERRA [Crónica da IIIª Guerra Mundial, nº73]



O interesse dos EUA é muito claro. A sua estratégia é a mesma que a do Império  Britânico, nos seus dias de glória: Colocar os adversários do Império uns contra os outros. Não permitir que qualquer potência venha «fazer sombra» à potência hegemónica. Como dizia Lord Palmerston: «o Império não tem nem amigos, nem inimigos; tem interesses». Os EUA não estão interessados em entrar diretamente em guerra com a Rússia, ou com a China. Sabem bem que não poderiam sustentar uma guerra convencional, quer com um, ou com outro dos super-poderes seus rivais. Pelo menos, de momento seria impossível, pois estão em reais dificuldades no Médio-Oriente. 

Os iranianos e os iemenitas tornaram-se mestres em guerra asimétrica. Os próprios Estados Unidos e os seus aliados na região (Israel e as monarquias do Golfo Pérsico), estão envolvidos numa guerra prolongada, que  têm muito pouca probabilidade de ganhar. Aliás, está à vista que o campo imperialista já sofreu tremendas derrotas, apenas insistindo na continuação da destruição criminosa, porque o seu orgulho ferido não aceita negociar uma paz, em condições de fraqueza. 

Neste contexto mundial, os «reinos satrapas» da Europa da OTAN, desempenham o papel que tinham tradicionalmente, ao lado dos EUA, potências bem menores, nas guerras por  procuração que aconteceram ao longo da «Guerra Fria» e mais além, no período em que os EUA se sentiram como força mundial hegemónica, após a implosão da URSS e dissolução do Pacto de Varsóvia.

Como «reinos satrapas», os europeus da OTAN não têm independência em política, ou noutros aspectos. Trata-se de nações falsamente soberanas. Continuam a ter seus territórios ocupados com bases dos EUA, nominalmente da OTAN, mas geridas e guarnecidas essencialmente por militares dos EUA. 

Ficam muito contentes, esses fantoches europeus, em mostrar protagonismo numa guerra contra a Rússia, para a qual, desde 2014 (data do golpe americano-europeu ocidental) fornecem armas, munições, tropas especializadas, vigilância electrónica e por satélite, ao governo neo-nazi, claramente opressor do seu próprio povo. Mas esta junta de nazis é acolhida em Bruxelas e nos centros ocidentais, como «heroís democráticos, que lutam pela independência do seu país face à bárbara invasão de Putin».

Acontece que, na realidade, a Ucrânia, fosse qual fosse sua realidade política interna, não poderia vencer o gigante russo. Os seus governantes sabiam-no e também o sabiam os dirigentes dos países da OTAN. Desde o príncipio, o interesse da nação ucraniana era entrar em negociações e obter um acordo, para um novo equilíbrio de coexistência, quer com os países da OTAN, quer com a Rússia. 

Os políticos e diplomatas de ambos os lados sabiam isso. Porém, o governo ucraniano foi forçado a recuar (pela pressão ocidental e britânica, principalmente), quando tinha praticamente concluído um acordo de paz com a Rússia, em Março-Abril de 2022. 

Eu não irei retraçar aqui as peripécias da guerra que continuou desde então. Tenho escrito desenvolvidamente sobre ela, mas sem pretender fazer um relato de cada desenvolvimento no campo de batalha. Porém, é claro para mim, desde o princípio, que se estava a sacrificar o povo ucraniano e a castigar o povo russo, sem nenhum respeito pelas vidas de centenas de milhares, agora de milhões, e sem querer resolver a guerra. Quanto mais durasse esta guerra, mais seriam favorecidos os interesses da casta militarista, do complexo militar-industrial e outros interesses inconfessáveis, nos países da OTAN.

Lamento dizer que a esquerda europeia, numa percentagem muito elevada, agiu como se se tratasse duma  luta «da liberdade contra a tirania», sabendo nós que aquilo que se passou, desde o princípio, não foi nada assim. Como de costume, os elementos de esquerda na base, militantes e simpatizantes, foram enganados e muitos deram o apoio à política dos seus inimigos. Muito se deveu a esta miopia induzida, quer pela media corporativa, comprada pelos grandes capitais, quer também pelos estados-maiores de partidos e agrupamentos, incluindo alguns, ditos de esquerda. 

Uma situação análoga a isso, foi a que ocorreu com o volte-face da esquerda parlamentar nas vésperas de 1914, que antes se apresentava como pacifista e anti-militarista e se deixou envolver no nacionalismo prevalecente, votando os créditos de guerra. Agora, a situação não é idêntica, mas é estruturalmente a mesma. 

Porque os sectores de esquerda (as cúpulas) tinham a possibilidade de pressionar os governos da UE e da OTAN, para inflectir a sua política em direção a uma paz. Uma negociação, que implicasse as potências todas, para restaurar a paz e a confiança, refazer os laços económicos e culturais... Seria isto que se esperaria duma esquerda não vendida ao grande capital. Mas o que aconteceu, em relação a várias forças, foi o oposto. Assim, foi possível as forças mais retrógadas, militaristas, anti-trabalhadores, incluindo da extrema-direita a roçar o fascismo, tomarem um grande papel nestes países. 

Haveria muito mais a dizer, mas prefiro apelar ao sentido crítico dos leitores. É necessário ter cuidado em não embarcar numa ou noutra explicação, aquando de episódios espectaculares, em especial, porque esta guerra se trava tanto ao nível das ações bélicas propriamente ditas, como de ações psicológicas. Ora estas desenvolvem-se para modificar a percepção da realidade, não apenas do inimigo, mas também dos próprios cidadãos dos países envolvidos. Estes não são apenas a Rússia e a Ucrânia, mas todos os países da OTAN, num grau maior ou menor e os países dos BRICS, quer como membros, quer como associados. 

Trata-se portanto de uma guerra mundial, como tenho dito desde o príncípio. Continuada em todos os teatros bélicos, com confrontos de imperialistas ou de seus «próxis», com os países ou grupos que ofereciam resistência. Mas, como guerra híbrida mundial, envolveu muitos outros países, devido aos efeitos directos ou indirectos de sanções, mormente da iniciativa dos EUA e seus aliados. Um jornal médico muito prestigiado, «The Lancet», estimava num editorial, que o efeito cumulativo de sanções e embargos (ações ilegais, segundo a lei internacional), embora aparentando ser de âmbito económico, tinham causado 35 milhões de mortes desde há 40 anos. A maior parte das pessoas não tem ideia dos efeitos, quando os sistemas de saúde, de saneamento, de abastecimento alimentar ou em água, ficam parcial ou totalmente afetados. Por exemplo, uma epidemia de disenteria pode matar mais gente do que bombardeamentos (os dirigentes que decretam essas sanções sabem-no muito bem). Trata-se portanto de métodos de guerra, dos mais cruéis e eficazes, além de ilegais, face à lei internacional. Eles dirigem-se claramente à matança de inocentes. É esta política de sanções que o orgulhoso Ocidente tem para «oferecer» aos outros, especialmente aos países mais frágeis. 

 


terça-feira, 29 de setembro de 2026

JEAN BRICMONT : PERMANECER EM SILÊNCIO

Se não conseguimos inflectir as violências dos nossos próprios governos, que sentido tem condenarmos as reacções violentas dos Estados ou movimentos que foram atacados por eles? pergunta Jean Bricmont.

Na fronteira Tunísia-Líbia, milhares de pessoas tentam fugir da Líbia, momentos antes da 'intervenção humanitária' da OTAN, a 2 de Março 2011. (U.N. Photo/UNHCR/Alexis Duclos)

By Jean Bricmont
Special to Consortium News 

https://consortiumnews.com/2026/09/25/remaining-silent/






Não sou palestino, libanês ou iraniano; não falo árabe, nem sou muçulmano.

Vivi toda a minha vida na Europa e nos Estados Unidos, onde sei que quase todos — mesmo aqueles que afirmam estar em “solidariedade com a Palestina” — começam qualquer crítica a Israel ou ao seu governo “condenando” o Hamas, o Hezbollah ou o “regime dos aiatolás”.

Pretendo explicar por que nunca concordo com tais condenações.

Não é porque eu apoie esses movimentos ou seus métodos; considero a retórica de apoio quase tão fútil quanto a de condenação. A única posição moral válida — que vai além da mera demonstração de virtude — deve derivar de uma análise lúcida da nossa posição (como ocidentais) no mundo e da dinâmica de poder real em jogo.

Nossa posição é simples de descrever: os Estados Unidos, juntamente com seus "aliados" europeus, têm enorme responsabilidade pelos desastres no Oriente Médio — desde a criação do Estado de Israel no pós-guerra e a expulsão em massa de palestinos até a derrubada de Mossadegh, no Irã, em 1953; duas guerras contra o Iraque; décadas de sanções contra o Iraque, a Síria e o Irã; apoio aos massacres sauditas no Iêmen e aos perpetrados por Israel em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano; bem como múltiplas intervenções no Líbano e, hoje, um ataque maciço e não provocado contra o Irã.


Palestinos deslocados retornando à Gaza bombardeada e ao norte pela Rua Al-Rasheed, atravessando a ponte sobre o estuário do Wadi Gaza, 28 de janeiro de 2025. (Ashraf Amra – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo/ Wikimedia Commons/ CC BY-SA 3.0)

É claro que os cidadãos ocidentais comuns não precisam se sentir culpados por políticas que não escolheram — visto que a política externa raramente é debatida em democracias e tem pouco peso nas eleições —, mas as atitudes políticas dos cidadãos ocidentais não podem simplesmente ignorar essas realidades históricas.

Se somos incapazes de conter a violência de nossos próprios governos — sobre os quais poderíamos, em princípio, exercer influência — que sentido faz condenar as reações violentas dos estados ou movimentos que eles atacam?

Os líderes desses estados ou movimentos mal sabem que nossos movimentos cidadãos “críticos” sequer existem; e se soubessem, não se importariam minimamente com nossas opiniões ou críticas, por mais moral ou taticamente corretas que sejam.

Tudo o que esperam de nós é que contenhamos a violência de nossos governos — e se não conseguirmos fazer isso, devemos simplesmente ficar em silêncio.

Na verdade, essa obsessão em denunciar os crimes de inimigos oficiais sempre existiu, mas intensificou-se enormemente no final da Guerra do Vietnã. Essa guerra terminou com uma derrota militar espetacular para os Estados Unidos e uma perda de prestígio moral devido às atrocidades cometidas durante o conflito.

Contudo, as tragédias envolvendo os "refugiados em barcos" — e, ainda mais, as atrocidades cometidas pelo Khmer Vermelho no vizinho Camboja — proporcionaram uma oportunidade de ouro para os defensores do imperialismo americano.

Eles se concentraram nessas tragédias para culpar o movimento pacifista estadunidense, agindo como se este fosse responsável pela situação, embora a repressão no Vietnã que levou os "refugiados em barcos" a fugir fosse inevitável — tal repressão contra colaboradores ocorre no final de todas as guerras.

Além disso, era perfeitamente racional que alguns fugissem como refugiados políticos do que era, na realidade, uma catástrofe econômica causada pela guerra.

Quanto ao Camboja, foram os Estados Unidos que arrastaram o país para o conflito em primeiro lugar, ao substituir o rei Sihanouk, em grande parte neutralista, pelo ditador Lon Nol — uma medida que, combinada com as campanhas maciças de bombardeio americanas, apenas fortaleceu o Khmer Vermelho.

Ademais, durante o colapso final, os EUA cortaram toda a ajuda alimentar ao Camboja; a capital estava repleta de camponeses que haviam fugido dos bombardeios e dependiam dessa ajuda para sua própria sobrevivência. 


Crânios das vítimas da ocupação do Camboja pelo Khmer Vermelho no memorial do Campo de Extermínio de Choeung Ek, Phnom Penh, Camboja, 2012 (istolethetv, Creative Commons Attribution 2.0). 

Isso deu origem à ideologia do “direito à intervenção humanitária” — a noção de que as nações ocidentais têm o direito, ou mesmo o dever, de intervir (inclusive militarmente e em desafio ao direito internacional) em países que “violam os direitos humanos”. Essa ideologia substituiu em parte a luta contra o comunismo — muitas vezes apoiando ditadores — que anteriormente justificava as ações dos EUA, mas que levou ao desastre no Vietnã. Essa ideologia desencadeou um verdadeiro tsunami no pensamento ocidental — particularmente na esquerda, pois permitiu que esta adotasse uma postura aparentemente dissidente (sempre se pode acusar os que detêm o poder de não fazerem o suficiente pelos direitos humanos se demonstrarem cautela ou realismo), que, no entanto, era perfeitamente compatível com os objetivos gerais do imperialismo: enfraquecer os países que resistem à hegemonia americana por meio de subversão interna e sanções externas. A completa hipocrisia dessa ideologia foi rapidamente exposta quando os vietnamitas derrubaram o Khmer Vermelho em 1979, em uma operação que foi verdadeiramente humanitária — em seus efeitos, se não em suas intenções. Essa intervenção foi imediata e unanimemente condenada pelos mesmos países que viriam a se autoproclamar a “comunidade internacional” e que acabavam de arrogar para si — e somente para si — o direito à intervenção humanitária.
Contudo, isso não impediu que a ideologia se tornasse dominante, abrindo caminho para justificar a guerra flagrantemente ilegal contra a Iugoslávia em 1999, bem como a guerra contra a Líbia em 2011.

Este último conflito foi desencadeado depois que o desastre da Guerra do Iraque se tornou flagrantemente óbvio; tal como a guerra no Iraque, a intervenção na Líbia causou estragos dentro do país e em toda a região vizinha do Sahel.

Mesmo em conflitos não travados por razões humanitárias — como as guerras no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003) — a ideologia do “direito de intervenção” manifestou-se na esquerda ocidental (mesmo entre autoproclamados pacifistas) através de slogans do tipo “nem Bush nem o Talibã, nem Bush nem Saddam”.

Depois veio a Ucrânia: enquanto houve apoio quase total a uma intervenção da OTAN para proteger a população kosovar que buscava a independência da Sérvia em 1999, a intervenção da Rússia em 2022 para proteger as populações russas no leste da Ucrânia foi universalmente condenada.

Contudo, as situações não são tão diferentes: os ucranianos do Donbas se insurgiram contra um governo em Kiev que emergiu de um golpe de Estado em 2014 apoiado pelos Estados Unidos e pela Alemanha — um governo profundamente anti-Rússia, ou seja, hostil à parcela russa da população no leste do país, região que fora arbitrariamente anexada à Ucrânia durante a criação da URSS em 1922.

A principal diferença entre essas duas situações é que, ao longo de oito anos (de 2014 a 2022), a Rússia esperava — em vão — garantir um acordo negociado, enquanto a OTAN bombardeou a Sérvia após um processo de negociação fraudulento em Rambouillet, que, na prática, exigia a capitulação da Iugoslávia.

O cenário líbio se repetiu — embora por um período mais longo — na Síria, onde, sem intervenção direta do Ocidente, o apoio maciço aos “rebeldes” por parte dos Estados Unidos, das nações europeias e dos estados do Golfo permitiu que eles tomassem o poder no final de 2024.

A história dirá se isso foi bom ou ruim para o povo sírio, mas o que é certo é que essa mudança de regime foi aplaudida no Ocidente (mesmo que o atual líder sírio tivesse sido previamente designado terrorista pelos Estados Unidos) e particularmente em um estado vizinho, Israel, que aproveitou a oportunidade para expandir sua ocupação ilegal do país.

Em seguida, veio Gaza.


Ruínas de Beit Lahia na Faixa de Gaza, destruídas por bombardeios israelenses, 23 de fevereiro de 2025. (Jaber Jehad Badwan / Wikimedia Commons/ CC BY-SA 4.0)

Inicialmente, a “única democracia no Oriente Médio” desfrutou do mesmo tipo de apoio que os Estados Unidos receberam após o 11 de setembro — simpatia pelas vítimas inocentes de terroristas bárbaros.

A história, os abusos passados, os bloqueios e outros eventos semelhantes foram completamente esquecidos. O Hamas foi retratado como um demônio maligno surgido de uma caixa — um efeito sem causa — e a simples menção da história da Faixa de Gaza ou da Palestina rotulava alguém como apologista do terrorismo, uma posição frequentemente sujeita a processos criminais na Europa.

A mensagem transmitida por essa simpatia a Israel — muito semelhante à enviada aos Estados Unidos em 2001 — era de que “vale tudo”.

Contudo, assim como a interpretação quase literal dessa mensagem pelos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque acabou levando à sua perda de credibilidade, a pura barbárie do ataque israelense a Gaza provocou uma onda de indignação global. Sem se deixar intimidar por essa reação, Israel intensificou sua agressão no Líbano e na Cisjordânia.

Para piorar a situação, veio o ataque ao Irã.

A Insensatez da Aventura Iraniana:


O funeral, em 3 de março de 2026, das vítimas do ataque americano-israelense à escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, Irã. (Agência de Notícias Tasnim/ Wikimedia Commons/ CC BY 4.0)

Após os protestos de janeiro (que estavam longe de ser espontâneos), a expectativa era de que, ao decapitar a liderança do país — e matar muitas crianças no processo — o “regime” (como o Ocidente o chama) entraria em colapso.

Aqui, porém, a aliança EUA-Israel cometeu um erro semelhante ao de Hitler em junho de 1941. Tendo conquistado quase toda a Europa, ele estava convencido de que a URSS ruiria como um castelo de cartas.

Afinal, era exatamente isso que a propaganda anticomunista que ele e seu círculo íntimo haviam escutado ao longo dos anos o levara a acreditar. Quando a guerra não saiu como planejado, ele explicou a seu aliado Carl Gustav Mannerheim — o líder finlandês da época — o quão surpreso estava com a capacidade de resistência soviética.

Não sei o que se diz no Pentágono, mas é provável que sentimentos semelhantes prevaleçam lá em relação ao resultado do ataque ao Irã. E, dado que este ataque foi claramente motivado pela pressão israelense e pelas ilusões que propagaram, é também provável que — mesmo que não o digam publicamente — muitos generais americanos estejam amaldiçoando seu “aliado indispensável”.

Como se isso não bastasse, a crescente influência da China e dos BRICS, as dificuldades enfrentadas pelos sauditas contra os iemenitas — juntamente com a resistência iraniana, libanesa e palestina — sugerem que a era do “imperialismo humanitário”, do direito à intervenção unilateral e do desrespeito ao direito internacional (que surgiu após a Guerra do Vietnã) está chegando ao fim.

O custo humano deste período de imperialismo humanitário fora do Ocidente é assustador: segundo a revista médica britânica The Lancet, 38 milhões de pessoas morreram em consequência das políticas de sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados ao resto do mundo — muitas vezes por razões “humanitárias”.

O Ocidente encontra-se numa encruzilhada: ou tenta manter a hegemonia a todo custo, ou aceita a realidade de um mundo baseado não em regras autodefinidas, mas nos princípios do direito internacional — ou seja, a igualdade soberana de todos os Estados e a não interferência nos assuntos internos de outras nações.

Se optarmos pela segunda opção (a única viável a longo prazo), então — longe de a condenarmos — devemos agradecer a resistência dos povos do Médio Oriente, que se mantiveram firmes contra um imperialismo que a nossa “esquerda” tentou, em grande medida, justificar apenas com sofismas humanitários.

Jean Bricmont é professor de física teórica na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) e autor de inúmeros artigos e livros, incluindo "Imperialismo Humanitário", "A República dos Censores" e "Absurdos da Moda" (com Alan Sokal).

domingo, 23 de agosto de 2026

Corbyn & Finkelstein: Gaza e a cumplicidade ocidental [Crónica da IIIª Guerra Mundial, nº 70]

 


Eles discutem as questões sem demagogias, mas também, sem refrearem de nomear os crimes e os responsáveis por eles.
A minha sensação, quando ouvi este diálogo foi como de «déjá vu»:
- Aquilo que está a acontecer em Gaza e na Palestina sob ocupação, se assemelha a uma «experiência» monstruosa ou uma série de «experiências», levadas a cabo pelos sionistas; não só o exército de Israel, como o governo, os partidos «de poder». Estes atos criminosos são levados a cabo com o beneplácito dos poderes das democracias ocidentais.
O fascismo do século XX também começou assim; lembremos a Abisssínia, invadida pelo exército de Mussolini. Lembremos a chamada «guerra civil» de Espanha, que não foi uma guerra civil, mas sim um confronto internacional, preparatório da IIª Guerra Mundial, que começou logo depois de completada a derrota republicana e das tropas franquistas terem dominado a totalidade do território. Os nazis submeteram os judeus (não apenas eles: ciganos, homossexuais, dissidentes políticos...) a brutais torturas, a escravidão, maus tratos constantes, «caças ao homem» em cada país que conquistavam. Os morticínios em massa nos campos de concentração só foram decretados por Hitler e seu Estado-Maior, quando havia nenhuma hipótese deles ganharem a guerra, ou mesmo de obterem um arranjo que lhes permitisse sobreviver.
Aquilo que está a acontecer em Gaza é um genocídio à vista de todos, com crimes de guerra quotidianos, muitos deles sendo orgulhosamente exibidos em público, nos media ou nas redes sociais, pelos soldados israelitas que os levaram a cabo.
Os dirigentes políticos incentivaram-nos a cometer crimes contra civis, mostram o maior desprezo (em público) pela vida dos palestinianos, seja de adultos ou crianças, de civis ou de membros do Hamas, todos eles destinados a «limpeza» completa ou quase.
Creio que Netanyahou, Ben G'vir e os outros, não poderiam fazer o que têm feito, ordenado o exército a proceder como procede em Gaza, nos Territórios Ocupados, ou no Líbano, sem terem as coberturas dos governos ocidentais: Dos EUA em primeiro lugar, mas igualmente de quase todos os governos dos países da OTAN ou da UE, com poucas exceções (a Espanha e a República da Irlanda, esta não faz parte da OTAN, mas é membro da UE).


Este crime hediondo dos sionistas em Gaza e nos Territórios palestinianos, aparece-me cada vez mais como parte da monstruosoa «tarefa» de parar e diminuir o crescimento de países outrora coloniais. Com efeito, se as populações palestinianas são as mais cultas em todo o Médio-Oridente, apesar das circunstâncias adversas, isso para os sionistas mais racistas tem o significado de um perigo, pois não poderão esperar nunca a sujeição dum povo com tanto martírio na sua História e com tantas pessoas cultivadas. Os palestinianos têm uma percentagem superior aos outros povos árabes em licienciaturas e doutoramentos, em todas as áreas do saber, incluindo as áreas mais técnicas.
Esta «experiência-teste» é um precedente para as elites europeias e norte-americanas fazerem o mesmo, com as adaptações necessárias, quer nos seus países respectivos, quer (mais provável) em países do Sul Global, onde os seus interesses estratégicos estejam a ser postos em causa.


As pessoas estão adormecidas, no Ocidente. Curiosamente, muito pouco se fala dos tópicos abordados por Corbyn e Finkelstein neste vídeo. Será porque as pessoas pensam que não lhes diz respeito, mostrando assim um enorme egoísmo. Neste caso, revelam uma enorme miopia e estupidez: Com efeito, as gerações dos seus pais tiveram de ir lutar nas fileiras dos exércitos coloniais (ou neo-coloniais) para tentar anular ou minorar a onda de independências que começou nos anos 50 e continuou nos decénios sucessivos, até hoje. As guerras de agressão levadas a cabo no século XXI têm todas as características de expedições imperialistas e neocoloniais: As recentes guerras de agressão e extermínio, levadas a cabo quer pelos EUA, potência hegemónica global, quer pelos países europeus ex- sedes de impérios coloniais (França, Reino Unido, etc) destinavam-se a manter os referidos países (Somália, Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia, Líbano e agora Irão ...) na dependência do «Ocidente».  Serviram-se de todos os pretextos para manter o público da Europa e América do Norte iludido. A barragem dos media ocidentais, dificultou muito a tarefa de forças anti-imperialistas, em fazer passar as realidades que desmentiam as confabulações dos agressores. As poucas pessoas lúcidas estavam em nítida inferioridade de meios, perante constantes ondas de propaganda, de desinformação e de incultura política (mantida intencionalmente).


A saída no longo prazo, vai depender de vários fatores:
- A coesão do movimento dos BRICS, que é muito frágil, embora assente sobre princípios saudáveis.
- A reorganização do movimento de massas do início do século XXI, os «anti-globalistas» ou alter-globalistas»,
- A reativação das resistências populares e operárias dentro de cada país, com uma dinâmica de organizações de classe que não esteja refém de lógicas partidárias.
Os fatores que podem provocar o despertar dos oprimidos, são
- a iminência de uma brutal recessão mundial,
- a oligarquia tentando apropriar-se do capital dos fundos de pensões e obter a privatização de estruturas de gestão pública
- o empobrecimento acelerado e a perda de ilusões de jovens, de que poderão levar uma vida decente, com um padrão de bem-estar melhor ou semelhante ao da geração dos seus pais.
- A compreensão profunda, sobretudo entre a juventude, de que se deve fazer a unidade na luta, entre si e com classes partilhando interesses fundamentais.


Não vou fazer vaticínios, mas uma coisa positiva já está a ocorrer: A onda de resistência em países ex-colóniais aos cantos de sereia neoliberais, que pretendem criar ou conservar para as oligarquias as condições de extração das matérias-primas e da exploração da mão-de-obra desses países.
Em relação ao resto, há demasiadas incógnitas para sabermos de antemão qual será a configuração do Mundo, dentro de 5 ou 10 anos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O Paradoxo da Pressão [Prof. Jiang Xueqin]



 Uma lição de geoestratégia que - goste-se ou não - dá a chave para o imbróglio em que os americanos e o Ocidente se meteram: 
Ao confrontar o Irão, estavam a dar forte argumento para a própria existência  (e reforço) dos BRICS, da OCX. Os seus membros mais poderosos (Rússia e China) resgataram a economia do Irão, forneceram-lhe apoio logístico, alimentos, medicamentos e «inteligência» (Espionagem por satélite).  Os EUA estavam a criar as condições para a construção de um sistema financeiro-monetário alternativo e viável em relação ao petrodólar, logo ao poderio hegemónico dos EUA. 
Eu digo que isto é um imbróglio, pois quanto mais agressivos forem nas guerras de sanções e de agressões contra países não-vassalos, mais criam argumentos e razões objetivas para uma resistência e para a criação de estruturas de emergência alternativas. Estas, após uns poucos anos, deixam de ser soluções de recurso, passando à construção de instituições globais, com vida própria, com dinâmica própria.
 Ou seja; as políticas pelas quais os imperialistas americanos queriam a todo o custo impedir a subida desses rivais,  foram elas que criaram as condições necessárias para que tal acontecesse.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

PORQUÊ A COTAÇÃO DO PETRÓLEO EM YUAN É UMA MUDANÇA SISTÉMICA?

 Todos nós sabemos como é extravagante e mutável o temperamento do (ainda) Presidente dos EUA. As decisões que saem diretamente da sua cabeça, a maioria delas é influenciada pelas pessoas que o rodeiam. Que estas pessoas sejam muito ricas e tenham interesses que divergem muitíssimo do americano comum, está para além de qualquer dúvida. É um sistema oligárquico. Como sistema de governo, não existe nada mais repugnante e -sobretudo - perigoso, para uma nação que ainda é a mais poderosa financeiramente e militarmente. Mas, este estatuto tem um fim, como tiveram todos os impérios no passado. Realmente, os dois pilares principais do poderio dos EUA sobre o Mundo estão fortemente postos em causa: a força militar, desafiada com sucesso pela resistência tenaz e a estratégia inteligente do Irão e dos seus aliados regionais. A hegemonia do dólar, posta em causa através de trocas em moedas locais, ensaiadas com grande sucesso pelos países dos BRICS. Num futuro próximo, a generalização do sistema de pagamento «M-BRIDGE» vai permitir uma expansão e agilização das trocas comerciais completamente fora do sistema SWIFT, controlado pelos EUA. Se houver dois sistemas em concorrência para os pagamentos internacionais, as sanções, armas de guerra económica consideradas ilegais, face à lei internacional, já não terão qualquer eficácia. O próprio sistema financeiro e económico, que durante oitenta anos permitiu que os EUA tivessem um défice comercial e orçamental crónico e cada vez mais acentuado, já não será sustentável. O vídeo abaixo explica em detalhe porquê, tal como outros artigos e vídeos, que tenho postado neste blog.

Páscoa em Paz Para Todos os Povos!

 


VEJA TAMBÉM COMO UMA «PIADA» INSULTUOSA DE TRUMP A MBS PODE SAIR-LHE MUITO CARA:


PS: Veja o vídeo seguinte:

 https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2026/03/o-fim-do-dolar.ht


VEJA TAMBÉM:

https://youtu.be/PceLdBNlKRU?is=8LNH44uR8HqyQQct

domingo, 1 de março de 2026

Crónica da IIIª Guerra Mundial [ nº56]: SERÁ ESTA A ÚLTIMA?

 Quando rebentou a 1ª Guerra Mundial, numerosos jovens recrutas estavam contentes: « Esta guerra será a última!» clamavam eles. Os propagandistas da guerra, de todas as nações e facções, reforçavam este mito. A guerra mais cruel e destruídora que a humanidade tinha visto, até então, acabou num «armistício». Mas, este «armistício» não deu azo a que se construísse uma verdadeira paz. Na verdade, o período de 20 anos entre as duas Guerras Mundiais, foi um longo «falso armistício», entrecortado por guerras e pela subida de forças totalitárias apoiadas em ideologias e em sentimentos de raiva, de «desforra», de nacionalismos e ódios étnicos. 

Mas, tudo isso era insuflado, discretamente, pelos grandes potentados industriais das nações maiores, os quais tinham consolidado os seus impérios graças à Iª Guerra e estavam desejosos por ver de novo as diversas nações escoar o sangue dos seus jóvens em amplos rios tingidos de vermelho. 

Eles- os industriais - sabiam que seriam eles os vencedores, quer fossem  alemães, britânicos ou americanos... Não esqueçamos que o grande capital já estava muito internacionalizado, nas décadas de 1920 e de 1930. As empresas industriais do aço podiam fornecer aço para fabricar blindados alemães, americanos, ou franceses. 

Os produtos das indústrias químicas eram produzidos numa nação, ou em várias, mas revertendo sempre o lucro para um número pequeno de grandes empresas e seus proprietários, que detinham as patentes destes produtos. 

A banca também lucrava, de várias maneiras, com a guerra: Receptadora de contas bancárias, intermediária em negócios multimilionários, emprestando (com juros) aos Estados endividados, etc.

Desta vez (como tenho escrito repetidamente), na «IIIª Guerra Mundial» não existe uma declaração de guerra, nem, por vezes, atos de hostilidade, continua a haver comércio, as embaixadas continuam abertas, em muitos casos. Mas, existe uma sucessão de guerras, cada uma delas trágica para os que nela estiveram envolvidos, desde a re-balcanização da ex-Jugoslávia, às guerras em África, ora no Norte de África, ora no Sul, no Leste ou Oeste. Nestas, os campos opostos estavam a ser armados por potências, das quais os países africanos foram ex-colónias, ou regimes neo-coloniais. Um cenário semelhante tem existido nas guerras da Ásia Ocidental e Central. Enquanto uma zona estava em pleno furor, noutra abrandavam os atos bélicos, sem garantia de não voltarem a reacender-se amanhã. 

- E os grandes poderes? Os que acumulam riqueza à custa dos outros povos, principalmente e que se serviram dos seus conhecimentos do estado interno daquelas nações, para colocar uns contra os outros, atiçando guerras civis, apoiando ou derrubando um ditador, mas para exclusivo proveito do seu domínio?

- As potências tecnológicas? Estarão elas «inocentemente» a desenvolver maravilhas microinformáticas, que depois são desviadas para fins bélicos? Ou são parte integrante do complexo militar-industrial dos países mais poderosos? São «unha com carne» com as indústrias armamentistas, que usam seus «chips» (processadores) e sua tecnologia informática, desde a espionagem, até aos mais sofisticados drones e mísseis ?

- E os bancos, que estão eles a fazer? Não creio que fiquem «de mãos cruzadas». Eles se posicionaram, desde há longo tempo, para dominar a cena internacional. Têm sido eles, os vencedores reais, quaisquer que sejam os vencedores nominais! Amshel Rotschild dizia: «não me interessa quem governa uma nação, desde que seja eu quem controla o seu banco central». Com efeito, através dos empréstimos, a grande banca tem as nações presas pelo mecanismo da dívida pública, sendo esta um tipo de empréstimo especial, cujos contratos são assinados pelos poderes políticos do momento; mas o pagamento recai sobre o povo desse país e mesmo, sobre seus descendentes. As pessoas e seus descendentes são  ignorantes e não-participantes em tais negócios. Mas, são sempre eles que pagam (com juros) os empréstimos para as guerras.

E por falar em pagar... Já viram que os povos estão a contribuir para acções militares para as quais nunca foram consultados? Quem diria que a questão da guerra e da paz, certamente  questão da maior relevância política, nunca é discutida publicamente, seriamente, com candidatos que têm uma clara visão sobre o assunto e com posições afirmadas nos órgãos legislativos? É como se o povo... não fosse chamado para o assunto. 

A «questão da guerra», dizem os dirigentes entre si, «não deve nunca ser discutida pelo povo, especialmente quando as nações se preparam para a fazer»!

Enquanto as pessoas viverem numa infância prolongada, pela irresponsabilidade e mantida pelo circo eleitoral e «democrático», continuará a haver guerras...

Como dizia Einstein, «Não sei, ao certo, como será combatida a IIIª Guerra Mundial, mas a IVª sei: Será combatida com pedras e paus». 


Haverá ou não mais guerras?

- A questão desdobra-se em duas alternativas: Consoante o futuro se assemelhe mais a uma ou a outra, assim teremos, ou não, guerras.

A) A cidadania dos diversos países toma controlo dos assuntos políticos, tendo poder de decisão democrática em tudo o que respeita às nações respectivas. 

A guerra torna-se impossível porque, naturalmente, as contendas serão resolvidas diplomaticamente, à mesa de negociações, nunca no terreno de batalha, pois os povos sabem perfeitamente que esta última hipótese nunca traz resolução justa verdadeira.


B) A cidadania dos diversos países continuará a seguir os líderes do momento, os quais serão, na verdade, os paus-mandados das grandes fortunas (industriais, financeiras, tecnológicas...). Continuará a haver guerras. Porque a lógica do poder fará com que a guerra continue sendo um negócio muito lucrativo para esse mesmo poder.

Vemos que o futuro está nas nossas mãos. Além disso, somos todos/as responsáveis pelo que se está a passar. Quer tenhamos apoiado ou não os atuais dirigentes políticos, a nossa responsabilidade é de não permitir que as nações continuem a recorerr à violência maior de todas, ao crime mais hediondo, para resolver suas contradições. A nossa abstenção - não no voto, mas na ação - é, afinal de contas, conivência com o que se está a passar. Independentemente de apoiarmos, ou não, um dos lados em contenda. 

Porquê? Porque os cobardes que nos (des)governam só conseguem chegar aos seus fins, se houver nossa anuência, nossa tolerância, nosso «deixar fazer». Reparem que, em situações passadas, relativamente próximas de nós: Vários governos foram obrigados a negociar acordos de paz com o outro lado, por pressão da opinião pública do seu país, mesmo quando a situação militar, só por si, não tinha chegado ao colapso.


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PS1: Tenho lido críticas sobre a «fraca resposta» da Rússia e da China em defesa da Venezuela ou, agora, do Irão:

As grandes potências que são a Rússia e  a China, não iriam cometer o erro de confrontar diretamente os EUA e a OTAN, para salvar um regime, por mais que - em termos geoestratégicos - seja importante. 

Com efeito, nem Irão, nem Coreia do Norte, nos seus acordos bilaterais com a Rússia, têm cláusulas que obriguem esta última a ir combater em defesa das primeiras, quando agredidas. O contrário acontece com o tratado da OTAN: Segundo o artigo 5º, quando atacada, uma nação da OTAN recebe automaticamente apoio militar das outras.
Os BRICS são um conjunto de nações que se reúnem para decidir sobre estratégias económicas, sobretudo. Não existe componente militar nos BRICS. A Organização de Cooperação de Xangai, tem como objeto explícito combater ameaças terroristas. Tem sido mobilizada para combater infiltrações de organizações terroristas no interior dos territórios dos seus membros. 
Na verdade, pode-se argumentar que Israel e os EUA são estados terroristas. Mas, a guerra total entre blocos é desejada pelos neocons. Os dirigentes da Rússia e da China, pelo contrário, estão a ajudar o Irão (na frente diplomática, isolando os EUA e Israel, fornecendo armas poderosas, etc.) sem se envolverem diretamente. Eles sabem que isso implicaria um confronto direto com os EUA. 
Os que controlam a agressão ao Irão, serão os EUA ou Israel? Penso que -de novo - Trump fez a vontade a Netanyahu: Receio que este último disponha de poderosos meios de chantagem, em relação a Trump e a outros membros da Administração. Só isso pode explicar a fuga para a frente, que corresponde a este ataque, não motivado, contra o Irão.
Nas muito recentes* conversações de Genebra, o ministro dos Estrangeiros iraniano tinha proposto ao lado americano um mecanismo para não haver acumulação de material radioativo no Irão, o que implicava a impossibilidade de possuir as quantidades necessárias para fazer uma bomba. Esta proposta ia mais além das garantias dadas nas conversações de 2015, que desembocaram no acordo designado por JCPOA, do Irão com os EUA, Alemanha, França e Reino Unido. Este acordo foi denunciado unilateralmente aquando da 1ª presidência Trump, em 2018.

PS2: 



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*Iniciadas a 6 de Fevereiro de 2026 e terminadas (interrompidas) a 26 de Fevereiro do mesmo ano. Na altura, Israel estava já ameaçando com ações «punitivas» o Irão. Os israelitas desencadearam o primeiro ataque com mísseis pouco tempo depois, a 28 de Fevereiro, seguidos imediata e coordenadamente, por ataque dos EUA.




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Lena Petrova: "EXPLOSÃO do DÉFICE dos EUA"


 Enquanto os dólares que saem dos EUA para pagamento de mercadorias e serviços é quase o dobro dos dólares obtidos pelos EUA do seu comércio exterior parece uma catástrofe, uma gigantesca situação de deficiência, afinal não é tanto. 

Lena Petrova explica que os dólares que saem, vão reentrar sob forma de investimentos estrangeiros, na maior parte em produtos financeiros (ações da bolsa, obrigações do Tesouro, investimento em fundos...) e/ou no mercado imobiliário. O défice comercial dos EUA, é facilmente colmatável, ao contrário dos outros países, que não possuem a sua moeda como moeda de reserva predominante ao nível mundial.
Mas a hegemonia do dólar em termos de comércio internacional tem sido posta em causa, por países dos BRICS e outros. Os BRICS totalizam mais de metade da população mundial e possuem cerca de 35% do PIB mundial. 
Se cada vez mais trocas comerciais são pagas noutras divisas e não em dólares, se se reduz acentuadamente a percentagem de treasuries (obrigações do Tesouro americano) guardadas em reserva nos cofres de grandes exportadores, como China, Japão e outros,  se o dólar já não é a divisa exclusiva para comprar petróleo, o processo  de colmatar o défice comercial graças a investimentos estrangeiros nos EUA, que terão de ser feitos em dólares, está em risco de falhar.
A defesa do dólar é a razão de fundo pela qual os EUA usam sanções  e tarifas aduaneiras como armas de guerra económica, inclusive contra parceiros e amigos: Estas guerras comerciais e as ações militares diretas pelos EUA (ou seus intermediários) nos últimos anos, mostram até que ponto a mecânica da circulação dos dólares ao nível internacional, é de importância vital para os EUA. 
É realmente uma fragilidade muito grande, dado que - ao contrário das décadas passadas - as produções exportáveis dos EUA se reduzem agora a material de guerra, a produtos agrícolas (soja...), petróleo e indústria do divertimento (Hollywood ...). Não há nada nestas exportações dos EUA que outros países não possam colocar no mercado, em condições concurrenciais.
A fragilidade tem por base uma redução da produção industrial nos EUA, a sua dependência aos outros, tanto em bens industriais, como agrícolas, por um lado; e, por outro, a necessidade do défice crónico americano ser colmatado pela compra por estrangeiros, de ativos em dólares. Ora, neste momento, muitos países (não apenas BRICS) promovem o comércio em suas divisas próprias, evitando o dólar.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Estratégica Vitória da China



Os actos de pirataria de Trump contra a Venezuela e Maduro, não apenas foram a confissão da falsidade da «ordem internacional baseada em regras». É também ocasião para muitos governos terem compreendido que não se pode confiar no Estado-bandido ("rogue State") em que se transformou os EUA. Realisticamente, os dirigentes de nações menos poderosas estão desejosos de estabelecer, ou reforçar, laços com os BRICS e - em particular - com a China.

Mas, a sua derrota é também interna: As eleições de meio-mandato irão ser muito desfavoráveis: Já 22 senadores republicanos acabam de se pronunciar pela interrupção do mandato (impeachment) de Trump.
Não só ao nível da política institucional se multiplicam os sinais desfavoráveis para o presidente fora-da-lei: O povo dos EUA tem manifestado o seu repúdio pela política de Trump e sua administração. Ela está - literalmente - a asfixiar a classe trabalhadora e a classe média. As unidades especiais de polícia («ICE») não conseguem, apesar da sua brutalidade, conter a raiva do povo: 
Uma mulher de cerca de 40 anos, foi baleada, quando estava dentro do seu carro, por um agente da ICE. Não foi tratada nas urgências, acabando por morrer. A violência policial contra pessoas inocentes é sempre desculpada. A polícia alega sempre «legítima defesa» e os tribunais fingem que acreditam nisso.
Nos EUA, muitos já compreendem que este é um governo de gangsters, que se comporta com arrogância perante seus próprios eleitores. Os gansters ameaçam também quem protesta contra os atos contrários à Lei e ao Direito. 
Trump e os fiéis dele, não conseguirão fazer com que a cidadania iludida dos «MAGA» volte a votar por eles. Isso significa que perderão a maioria nas eleições. É provável que isto tenha sido um fator para Trump desencadear o ataque-relâmpago contra a Venezuela, convencido de que isso lhe daria um trunfo eleitoral.
Enquanto o desemprego cresce, os ficheiros Epstein vão sendo escrutinados, dando a dimensão real da colaboração do agente da Mossad e pedófilo, com o atual presidente dos EUA.
O desespero é de mau conselho, sobretudo para psicopatas; eles são capazes de tudo para não serem apanhados pela justiça.
Talvez os leitores não tivessem conhecimento de alguns factos aqui relatados. Porém, é a própria média americana que tem informado sobre a crise que o Império atravessa nos planos moral, económico e político.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A GUERRA NÃO DECLARADA JÁ ESTÁ AQUI HÁ BASTANTE TEMPO [Crónica da IIIª Guerra Mundial nº53]



Quando os dirigentes da Europa ocidental, quer na UE, quer na OTAN, ameaçam a Rússia com uma guerra devastadora, o que é que têm estes 'valentes' (que mandam os outros combater)?
Não me estou a referir a patologias; certamente, as têm e do foro psicológico. Não; estou a referir-me ao que têm em termos de meios quer humanos, quer logísticos, quer armamentos.
Quanto a economia, já estamos conversados; eles próprios «lamentam» que nestes três anos de guerra na Ucrânia, não conseguiram (dizem eles) evitar a compra do petróleo russo. Quanto ao gás, a auto-sabotagem do gazoduto Nordstream, foi encarecer a produção industrial não só na Alemanha, como noutras nações da UE. A sua dependência em relação aos produtos russos é maior do que muita gente pensa: Eles precisam dos adubos sintéticos feitos na Rússia, para que a sua agricultura não baixe dramaticamente de rendimento.
Também precisam de metais estratégicos e «Terras Raras» e não têm escolha senão ir buscar à China ou a outros países dos BRICS, pois eles próprios (tal como os EUA) deslocalizaram há muito a refinação destes minerais, deixando para o Terceiro Mundo a tarefa poluente de transformar minério em metal purificado. Estas Terras Raras são indispensáveis, não apenas em aplicações de eletrónica e microinformática civil, como também militar. Quanto aos metais estratégicos: Sem o titânio e outros, não se podem produzir ligas metálicas para aviões militares, tanques, etc.
Além disso, estão mergulhados numa crise política profunda; por mais que ocultem, os povos estão descontentes, dissociados e mesmo hostis aos projetos militaristas. Estes, são acompanhados por maior vigilância e repressão contra a dissidência, numa postura autoritária que já não se disfarça (veja-se o caso de Palestine Action, no Reino Unido, e repressão massiva e indiscriminada contra os que protestam contra o genocídio em Gaza). - A impopularidade destes governos é inédita. Por exemplo, um partido nacionalista conservador, a AfD, na Alemanha cresce nas sondagens, como sendo o primeiro partido na escolha dos alemães.
Todas as reuniões e declarações dos chefes de Estado e de Governo dos países da Europa ocidental, são atoardas de quem pode vozear em relação ao «inimigo» declarado, mas não tem meios próprios para sustentar uma guerra direta.
A estratégia, simultaneamente cobarde e suicidária (para os povos) é de multiplicar as provocações, lançamento de mísseis para território bem no interior da Rússia, atos de sabotagem, etc. 
Estes ataques são declarados como «façanhas» do exército ucraniano, quando todos sabemos que eles não fabricam estas armas; recebem-nas dos EUA países europeus da OTAN . Além disso, está comprovado que os sistemas atuais de mísseis são demasiado sofisticados e implicam pessoal treinado. O treino de especialistas ucranianos é demasiado longo para atender às necessidades: Logo, muitos dos que servem estes sistemas de mísseis são militares dos países ocidentais.
Apesar do black-out informativo, sabe-se que têm morrido ou ficado gravemente feridos membros das forças armadas de vários países da OTAN (EUA, Polónia, Reino Unido, França, Alemanha e outros), pois estes mísseis, estacionados em solo ucraniano, são obviamente um alvo para as forças aéreas russas.
A perversidade dos maquiavélicos, faz que estejam prontos a arriscar um confronto nuclear com a Rússia, confiantes de que será ela a vítima principal. Mesmo que tal fosse verdade, o que eu duvido muito, o sofrimento humano seria indicível, impossível de quantificar e recairia também sobre o ocidente, inevitavelmente.
Seria o fim da civilização ocidental. Significaria a destruição de centenas de milhares ou de milhões de vidas inocentes, a destruição dos ecossistemas, o seu envenenamento radioactivo durante inúmeras gerações, o que tornaria as cidades e os campos impossíveis de habitar.
Tudo isto é considerado um risco aceitável pelos que estão à frente das principais nações da UE e dos órgãos próprios deste super-Estado em construção.
O afastamento dos EUA em relação aos planos mais belicosos dos governos europeus da OTAN é uma boa coisa, pois sem o «guarda-chuva» nuclear dos EUA, a possibilidade de guerra total contra a Rússia fica mais remota, para não dizer inviável. Mesmo loucos fanáticos reconhecem isso, pelo que as atoardas de alguns políticos europeus vão somente contribuir para complicar os esforços de paz. 
Mas, sobretudo, destinam-se à política interna, a cercear as liberdades, perseguir os oponentes à guerra, intensificar a exploração para maior lucro das empresas, sobretudo das que se reconverteram a fabricar armamentos e munições.

Por todas estas razões, é fundamental que as pessoas tomem consciência e que ajam, dentro das suas competências, com os meios de que dispõem, para fazer obstáculo a esta onda de militarismo despudorado.
 A guerra na Europa ocidental (países da UE + Reino Unido) é - cada vez mais - uma guerra contra os seus próprios povos, contra os trabalhadores, os jovens, os empresários e todos os que têm contribuído para a riqueza e grandeza das suas nações respectivas.

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RELACIONADO:

 https://substack.com/@nelbonilla/note/c-180757735?r=9hbco


https://open.substack.com/pub/jonathancook/p/its-antisemitic-to-call-out-israels?utm_source=share&utm_medium=android&r=9hbco


Bruxelas decidiu no sentido de expropriar os bens financeiros russos congelados na UE:  

https://www.moonofalabama.org/2025/12/russia-counters-eu-shenanigans-to-steal-its-frozen-assets.html

Veja a seguinte entrevista com Alastair Crook:

https://youtu.be/gkJD1qHlHhw?si=kwa_bwVfIxvSeN2M

Excelente análise de Prof. Mersheimer:

https://www.youtube.com/watch?v=GOJerDDCnes

Conheça a avaliação por Martin Armstrong, de Zelensky e seu regime.

sábado, 6 de dezembro de 2025

OURO, PRATA E YUAN: OS 3 VECTORES DA QUEDA DO DÓLAR

A China tem avançado passo a passo, para desinvestir do dólar:

A- Lançando obrigações em yuan que podem ser convertidas em ouro no Mercado de Metais Preciosos de Xangai. Com rendimento de 7%, são  muito mais apetecíveis que as Treasuries americanas, que apenas dão 2%.

B- Compra de ouro em quantidades bem superiores (10 vezes mais) às oficialmente declaradas.

C- Venda de prata no Mercado de Xangai, mas apenas em Yuan. Como existe uma enorme falta de prata disponível nos mercados ocidentais, os compradores têm de trocar as suas divisas por Yuan, para poderem comprar em Xangai. O valor da divisa chinesa e a sua internacionalização são  cada vez maiores e a fatia das trocas comerciais em dólares vai diminuindo. 

D - A China deixou, há anos, de acumular dólares  sob forma de obrigações do Tesouro americano e tem colocado à  venda quantidades elevadas das mesmas obrigações. 

E- Tem promovido, com os seus parceiros dos BRICS (e outros), contratos comerciais envolvendo apenas Yuan e divisas dos parceiros, com exclusão do dólar. 

Veja o vídeo abaixo, de Paulo Nogueira Batista Junior:



sábado, 18 de outubro de 2025

VENEZUELA - NOBEL DA «PAZ» E «FRUTO PENDENTE*»

*Nota: A tradução mais comum para "hanging fruit" é «oportunidade fácil» ou «resultado fácil de alcançar». No entanto, preferi usar uma expressão mais literal, como "fruto pendente", pois esta é compreensivel no contexto deste artigo.

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 O presidente  Trump deve ter feito uma grande pressão para que o elegessem prémio  Nobel da Paz. O juri do Nobel deve ter sentido alguns pruridos de consciência  e decidiu antes escolher uma venezuelana, líder  de oposição  anti chavista e grande amiga dos EUA.  Maria Corina Machado, eleita prémio Nobel da Paz, "não é nenhuma flor pacifista":

- Internamente, não cessou de fazer apelos incendiários à sublevação contra o regime de Maduro.

- Em relação  ao estrangeiro, convidou os «pacíficos»  Netanyahu e Trump, a invadirem o país, com a garantia de que, se o fizessem e a pusessem na presidência, teriam garantido o petróleo venezuelano e tudo o mais. 

Não  creio que estas tomadas de posição públicas sejam adequadas para quem está comprometida num caminho de paz e de oposição não  violenta!



No entanto, a Venezuela tem forças militares e populares que não seria prudente ignorar. Se houvesse invasão pelos EUA ou forças mercenárias, a tarefa não seria fácil. Além disso, a Venezuela está hoje de boas relações com as potências mais significativas do ponto de vista económico e militar dos BRICS, a China e a Rússia. Tanto os chineses como os russos já  deram discretos sinais de que não irão ficar passivos perante uma eventual tentativa de derrube do regime venezuelano.

Um império em decadência acelerada já não mete tanto medo, sobretudo após os fiascos militares deste século XXI: Afeganistão, Iraque, Líbia, assim como outras situações em que os americanos foram obrigados a recuar.  Na verdade, as " guerras sem fim" que eles vão criando - incluindo a Ucrânia  - são apenas causadoras  de morte, destruição e dívidas colossais, além de criarem animosidade em muitos povos e governos diversos. Alienaram laços  fortes com a Arábia Saudita, Indonésia e vários países africanos ou latino-americanos. O apoio incondicional ao governo de Israel, nestes dois anos de matança de civis indefesos em Gaza, também contribuiu para que muitos perdessem a ilusão sobre as intenções humanitárias e benévolas de Washington.

Maduro, vendo as provocações constantes, o assassinato dos tripulantes de lanchas, supostamente transportando droga para os EUA (creio que já afundaram 4 desses barcos), percebeu que as forças militares dos EUA se preparavam para  uma invasão da Venezuela. Estas brutais execuções  extra-judiciais de pessoas que os americanos nem sabiam ao certo quem eram, são mais uma prova da hipocrisia do poder imperial. Mas, sobretudo, revelam o intuito de criar o pretexto da agressão («casus belli») e derrube do governo de Maduro.

O fruto pendente das enormes reservas de petróleo e das minas de ouro da Venezuela, devem ter feito salivar os "neocons".  Wolfowitz, um destacado neocon conselheiro de George W. Bush, argumentava (em 2003) que a invasão do Iraque "se pagaria a si própria"  com as enormes somas obtidas na venda de petróleo deste país. Sabemos que não foi assim, mas também sabemos que pessoas gananciosas e estúpidas são capazes de cair duas vezes no mesmo erro. 

De qualquer maneira, se houver guerra, não é  a oligarquia dos EUA que irá pagar a fatura. São os pobres, que irão mais uma vez servir como carne para canhão em guerras do Império Ianque...

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A «LÓGICA» DA GUERRA




A «lógica» da guerra não é muito complicada de se perceber. Mas, para tal, é necessário fazer tábua rasa dos argumentos sobre «quem fez isto, quem fez aquilo» e deixar de se atribuir responsabilidades, consoante as simpatias ou antipatias pessoais, ideológicas e outras.

Com efeito, a guerra é um encadeamento de atos preparados meticulosamente, determinados pelos poderes, que estão convencidos de que precisam dessa guerra para chegar aos seus fins. Só que estes fins nunca são claros, nem são enunciados de forma que permita ao comum dos mortais entender o que se passa. O processo atual da guerra está relacionado, como sempre, com uma disputa pela hegemonia. Antes, a hegemonia era relativa a um espaço limitado geograficamente. Mas, a partir da 1ª Guerra Mundial, de forma reeiterada com a 2ª Guerra Mundial e desde então, com a chamada «Guerra Fria», tratava-se de um jogo global, destinado a obter o controlo dos principais recursos do planeta, ou seja, alcançar  a hegemonia mundial. 

Nos dias de hoje, a hegemonia que esteve nas mãos dos EUA e seus aliados/vassalos da OTAN, durante algum tempo (desde 1991 até à primeira década do século XXI), tem sido posta em causa. Tal controlo tem escapado cada vez mais aos ocidentais. Antes, muitos deles possuíram colónias ou eram senhores de países neo-coloniais.

Tem-se registado a perda de influência no comércio mundial, dos países do «Ocidente» e o aumento de utilização de divisas próprias pelo Sul Global, neste comércio e destronando o dólar. No desenvolvimento industrial e na capacidade de inovar em domínios de ponta, os países formando o «coração» dos BRICS, têm mostrado o seu dinamismo. Este tem sido tal, que exercem uma atração sobre os múltiplos países do «Sul Global». Surge a esperança de um contexto internacional mais equilibrado. Um sem número de fatores mostram que o Sul Global e os BRICS são uma força económica e estratégica em ascenção e que o chamado Ocidente, está em decadência, em colapso mesmo, a julgar pelas revoltas que se multiplicam. 

Tipicamente, nos países cujos governos estão ameaçados, a oligarquia que os domina transforma as leis e dispositivos legais, reforça os instrumentos de repressão, de modo a que a cólera dos descontentes não se transforme em insurreição. Para guardarem as aparências, vão impor estas restrições com um pretexto, que é o mesmo, desde sempre: O inimigo externo, os agentes de subversão a soldo desse inimigo externo, a necessidade de mais despesas militares e de cortes nos orçamentos sociais, para fazer face à ameaça (que pode ser puro delírio) .

A UE, sob a batuta de Ursula Von der Leyen, está em estado de quase ruptura; certas oligarquias nacionais não estão dispostas a «ir para o fundo com o navio» e já começaram a criticar as medidas tomadas pela presidente (não eleita) da Comissão Europeia. 

As sondagens de opinião mostram que os povos não têm confiança nos seus líderes; sabem que têm sido utilizados como rebanho de ovelhas, sujeitos a lavagem ao cérebro, sobre «os maus dos russos, o terrível Putin, etc.» 

A guerra é a saída para a oligarquia eurocrática, porque assim poderá impor as restrições que quiser às liberdades e ao funcionamento das instituições nos seus países, poderá espremer ainda mais os trabalhadores e a classe média, para obter os fundos necessários para as forças armadas. Terá um meio muito prático para calar quem discorde destas medidas, acusando essas pessoas de serem agentes do inimigo, traidores que merecem a condenação à morte. Deste modo, será fácil intimidar os que, não estando de acordo com as políticas, não se sintam dispostos a desempenhar o papel de mártires. 

Nós todos podemos saber qual o momento em que uma dada guerra é desencadeada. Penso que todas as pessoas atentas concordam que as palavras de guerra estão em todas as bocas dos responsáveis políticos europeus.  Mas, ninguém pode prever quando uma guerra, seja ela qual for, irá terminar. 

As consequências mais terríveis duma guerra são para os pobres, para os trabalhadores, para as pessoas que não contribuíram para o estado de coisas presente. Por isso, é justo que a guerra - em si mesma- seja criminalizada: Os que a desencadeiam ficam nas suas poltronas, gabinetes, salas de imprensa, a fazer o papel de «chefes de guerra», como se fossem eles a lutar no campo de batalha. Entretanto, no verdadeiro campo de batalha (e fora dele, em «danos colaterais» envolvendo os não-combatentes), as pessoas são mortas, feridas, feitas em pedaços, mas pouco ou nada se fala delas; só para lhes dirigir palavras ocas de agradecimento, quando elas deram o que tinham de mais precioso, a própria vida. 

Não existe guerra justa, porque as guerras são fabricadas pelas oligarquias e destinam-se a ter os súbditos bem controlados. Os pretextos ideológicos, políticos, económicos, etc. são apenas pretextos. As somas gastas na guerra não servem para produzir mais riqueza, só servem para armas e munições e estas, ou ficam armazenadas, ou são utilizadas. Neste segundo caso, vão causar mais destruição de vidas e do que foi construído por gerações de trabalhadores pacíficos. Nenhum país pode melhorar sua economia com o chamado «Keynesianismo de guerra». É uma forma de levar as pessoas a acreditar que a guerra possa fazer sentido económico. Mas isto é uma enorme falácia!


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Relacionado:


PS1:

Veja o vídeo de 09 de Outubro de 2025 e repare como os factos relatados confirmam o que eu disse no artigo acima.


PS2: Leia o artigo abaixo, que nos dá a medida da evolução de um «Estado de Direito, democrático» para um «Estado de Excepção, totalitário»
https://www.rt.com/news/626425-eu-russia-war-scare/


PS3:

Prof. Jeffrey Sachs https://youtu.be/6-M2u6xMoGk?si=x8IwgUAjwbXc0-T3