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sábado, 30 de maio de 2026

A CHINA APELA À REFORMA DA ONU

 

Pequim e Nações do Sul Global Apontam Para Multilateralismo Mais Forte


Ministro dos Negócios Estrangeiros Wang Yi fala com os media a  26 de maio 2026. Foto por: Eduardo Munoz

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, sublinhou que, apesar das recentes falhas, as Nações Unidas permanecem o "corpo legítimo do sistema de segurança multilateral e fundamento para a ordem internacional baseada em regras"

Acentuou a necessidade de fazer reviver a ONU e de a revitalizar com reformas atempadas.

Wang estava falando numa reunião de alto nível no Conselho de Segurança da ONU sobre "defender os propósitos e principios da Carta das Nações Unidas e o fortalecimento de um sistema internacional centrado na ONU", Terça-feira 26 de Maio, na sede da ONU em Nova Iorque.

O encontro foi realizado a pedido da China. Cerca de 20 países participaram na discussão.

O encontro também foi participado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que fez notar que o mundo está perante um crescendo de conflitos geopolíticos sem precedente, em que o respeito pela lei internacional está a ser perigosamente diminuído, causando frequentemente uma "paralisia" do Conselho de Segurança.

Wang defendeu que a causa profunda do caos de hoje, não reside num espírito antiquado da ONU, mas antes que a ordem internacional e as normas básicas que regem as relações internacionais - ambas escritas na Carta - não estão a ser guardadas pelas nações poderosas. Ele criticou as ações unilaterais nos domínios militar, económico e político, que são frequentemente levadas a cabo pelos EUA e seus  aliados,  asseverando que estes atos socavam o espírito da Carta, avisando que o tempo de fazer tentativas de domínio unilateral nos assuntos intenacionais, já acabou.

[...]

Artigo completo (em inglês), no site seguinte:

https://www.savageminds.co/p/china-calls-for-un-reform-amid-global

quarta-feira, 27 de maio de 2026

HUAWEI PRODUZIRÁ 'CHIP' INOVADOR ULTRAPASSANDO AS SANÇÕES DOS EUA


Vista de Xangai e do Rio Yangtze




XANGAI/ PEQUIM, 25 de Maio (REUTERS):
  
A empresa Huawei Technologies revelou nesta Segunda-feira que vai usar uma tecnologia inovadora para fabricar - dentro de cinco anos - semicondutores utilizando a nova tecnologia. Confirma assim o sucesso dos esforços chineses em neutralizar as sanções impostas pelos EUA, que têm dificultado a construção, pelas empresas chinesas, de 'chips' mais avançados.
A Huawei, num simpósio sobre semicondutores em Xangai, revelou que os seus 'chips' alcançariam a densidade de transistores equivalente a 1,4 nanómetros de processamento em 2031, mas não forneceu dados independentes sobre o seu desempenho.
O objectivo é significativo pois a capacidade provada da China em fabricar microprocessadores avançados é  amplamente reconhecida em torno dos 7 nanómetros, sendo 1,4 nm o que se considera a fronteira tecnológica para produção de 'chips' avançados por volta do final desta década.
(...)
Para ler a notícia completa (em inglês) ver :

domingo, 3 de maio de 2026

UM VENTO DE LOUCURA


Um vento de loucura desabou sobre a Terra



 A criminalidade contemporânea pode medir-se pela facilidade com que Trump e a equipa que o rodeia, decretam a destruição de um país com cerca de 90 milhões de habitantes, perante a pequena oposição real nas hostes políticas dos EUA, quer no campo democrata, quer no campo republicano (alguns libertarianos). 

Isto significa que a casta no poder está cativa de lobbies, que lhes facultam a continuidade das suas carreiras políticas, subsidiando as campanhas eleitorais. Esta casta não representa o povo americano. 

Apesar de uma constante (há mais de 40 anos!) propaganda diabolizando o regime dos Ayattolahs, o povo americano compreende que este regime pode ser muito nefasto para o povo iraniano, mas que - de nenhuma forma - ameaça o povo e território dos EUA. 

No entanto, a presidência e as câmaras de deputados e senadores, estão controladas pela multimilionária elite sionista nos EUA; ela está totalmente dissociada dos americanos comuns, incluindo dos judeus, quer estes sejam ou não religiosos. 

Está-se perante a situação inédita, do governo sionista de Israel mandar na Presidência dos EUA. Israel, é um país que está na completa dependência das dádivas dos EUA, em armamento e financiamento. Mais de dois biliões, a soma de DÁDIVA INCONDICIONAL votada pelos legisladores americanos anualmente. Esta soma não contabiliza as ajudas em material militar, em tecnologias de vigilância, de informação e espionagem que o Pentágono e as Agências (CIA; DIA; DARPA, etc)  partilham com as forças armadas de Israel.

Em «contrapartida», Israel não parou, nestas últimas  décadas, de fazer pressão sobre os órgãos de poder dos EUA, usando o célebre Jeffrey Epstein como instrumento de chantagem sobre grande parte da classe política nos EUA. 

Netanyahu é considerado responsável por ter induzido Trump a encetar esta guerra contra o Irão, dando-lhe relatórios do MOSSAD super-optimistas, em que a resistência após «decapitação» do governo iraniano, estava calculada em 48 horas, no máximo. Ora, eles sabiam bem que isto era mentira. Mas, desde há mais de dez anos que procuravam envolver diretamente os EUA numa guerra contra o Irão.

 Esta guerra - na verdade - é de Israel, com «os auxiliares» dos EUA. Trump e  os membros do seu governo têm estado sujeitos a chantagem. Eles devem temer que o MOSSAD divulgue dados sobre a sua traição, que arruinariam de imediato a sua carreira e - no curto prazo - lhes fariam perder as eleições. 

Existem elementos de alta patente nas Forças Armadas Americanas que estão conscientes do aventureirismo deste confronto militar. A possibilidade de guerra envolvendo diretamente a Rússia e a China, faria imediatamente aumentar muitíssimo o risco dum confronto nuclear.  

Há forças obscuras, «do Estado profundo» que estão apostadas nisso, por mais incrível que pareça; a humanidade toda está em risco de aniquilação por causa de uma «mão cheia» de ultra-direitistas e belicistas, que têm lugares de relevo na Administração (Departamento de Estado, Pentágono, as agências CIA, NSA, etc).   


    Quadro: Nero apreciando o incêndio Roma, que mandou atear.

Treme-se com Nero, grande nos crimes, somente. 

Mas os grandes atuais, ultrapassam em barbárie a antiguidade



sexta-feira, 1 de maio de 2026

O Petrogas-dólar: stratégia secreta dos EUA por detrás da guerra com Irão [Crónica da IIIª Guerra Mundial, Nº62]

"The Petrogas-dollar: The Secret US Strategy Behind the Iranian War"



                          Uma exposição clarividente e global por Richard Medhurst
 
COMENTÁRIO.

As estratégias de poder nunca podem ser óbvias. Têm sempre de vir ofuscadas por uma narrativa, na qual são apontados objetivos que não são os verdadeiros.
Num mundo globalizado, apenas um poder global tem a possibilidade de jogar em múltiplos cenários, múltiplas zonas geográficas e recorrendo a uma panóplia, que vai das armas económicas, às armas no terreno de combate, até ao domínio das redes de informação.
Os EUA envolveram-se numa guerra dos mares, que implica o arresto ou destruíção de navios petroleiros e o bloqueio naval de áreas estratégicas; não apenas no mar de Ormuz. Estão presentes nas Caraíbas, no Estreito de Malaca e no Báltico. Mas esta situação não pode durar muito tempo. Mesmo a marinha dos EUA, não consegue ter, em simultâneo, forças capazes de manter navios inimigos fora de uma área de exclusão.
Penso que Richard Medhurst explica bem a lógica e o propósito das movimentações das forças dos EUA. De momento, a situação pode parecer muito difícil para quem é vítima do império pirata.
Mas o Irão e o Hezbollah já mostraram que existem estratégias para derrotar o poder, dez mil vezes mais poderoso, dos EUA com seu aliado Israel.
Na realidade, os EUA não podem contar com uma coalição «das boas vontades» como na 1ª guerra contra o Iraque (1990). Os países europeus não estão disponíveis para entrar numa guerra com o Irão, para satisfazer os desejos de Trump. Mesmo a ultra-direitista primeiro-ministra japonesa não está disposta a enfrentar militarmente a China, como pareceu no início do seu mandato. O facto é que o Japão continua sendo um país sob ocupação militar americana desde o final da IIª Guerra Mundial.
O México colocou um processo no tribunal da OMC ao governo americano, por este ter impedido que um navio mexicano viesse em socorro humanitério a Cuba, sujeita a um embargo total de petróleo. Ao México, juntaram-se 120 países, o que mostra que estão descontentes com esta administração Trump e já não ficam intimidados por ela.
De qualquer maneira, os efeitos sobre as economias, com o estrangulamento (causado pelos EUA) ao  abastecimento de petróleo e gás, vão começar a fazer-se sentir. O Mundo está a mergulhar no caos. Mas, esta estratégia do caos tem resultados contrários aos esperados pelos seus autores.

domingo, 19 de abril de 2026

Fragilidades demográficas e económicas da China


                           https://www.youtube.com/watch?v=OsNb5_BpGIg&t=165s



COMENTÁRIO POR MANUEL BANET

A China é muito vasta. O território consiste numa orla costeira sobrepovoada e uma imensidão de zonas interiores, umas devotadas à agricultura, outras montanhosas e impróprias para a agricultura. Nestas zonas interiores menos favorecidas, uma parte da população tem migrado para as grandes cidades,  para realizar as terefas humildes, que os citadinos agora desprezam: limpeza municipal, operários de construção, operários industriais em atividades penosas e pouco salubres, etc. 
O «hinterland» da China é imenso e tem fornecido muita mão-de-obra para as regiões mais desenvolvidas. A média de fertilidade global na China tem algum significado, porém, o que conta também é saber se continua a haver uma elevada fecundidade em zonas pouco desenvolvidas ou essencialmente agrícolas.  Se assim acontecer, então o problema demográfico será outro; já não a baixa fertilidade, em absoluto. Mas um baixo índice em zonas urbanas, causando um forte apelo para o emprego de baixo índice remuneratório mas, suficiente para estimular os jóvens a abandonar os seus distritos rurais nativos. Isto provoca um esvaziamento de adultos jovens nas zonas periféricas.

Quanto ao excesso de oferta de andares, também a questão deve ser vista de maneira diferenciada. Nos últimos 20 anos, foi necessário alojar milhões em novas aglomerações industriais. Por exemplo, Shenzen, onde se concentra uma parte da indústria de elecrónica e informática, era uma pequena cidade provincial que, num espaço de tempo curto - cerca de 30 anos - se transformou num grande centro. Logicamente, os operários que foram trabalhar para Shenzen e para outras cidades inteiramente novas, precisavam de alojamento. 
É verdade que muitas famílias depositaram as suas poupanças em apartamentos, destinados a ser vendidos com lucro, ou a serem alugados. Na verdade, nem a bolsa, nem as contas bancárias são muito atraentes na China. As bolsas estão sujeitas a altos e baixos muito mais acentuados do que nas bolsas europeias. As contas bancárias são fracamente remuneradas (abaixo do valor real da inflação), tal como acontece nos países ocidentais. O excesso de construção deixou em perigo de falência as empresas gigantes, tais como a Evergrande, que vendiam as habitações quando elas somente estavam projetadas. O lucro que faziam, permitia expandirem-se por muitos outros setores. Tiveram um sério travão pelo governo de Xi Jing Pin, que traçou os princípios pelos quais era lícito construir: Não haverá casas à venda «no papel»; as casas têm como função serem habitadas, não devem servir como veículo de especulação; os créditos à habitação por parte dos bancos devem obedecer a regras claras e controláveis, as pessoas que foram ludibriadas devem ser indemnizadas pelos infractores...
Um aspecto do problema tem a ver com a gestão dos terrenos pelos governos provinciais, que puderam assim levantar somas importantes e desenvolver suas regiões, antes pouco desenvolvidas, graças à cedência de terrenos para o imobiliário. 

Outra fragilidade da China é a que se prende com a autossuficência alimentar e energética. O vasto território da China daria para alimentar adequadamente toda a população. Porém, em consequência do êxodo rural, muitas zonas do interior não fornecem ao conjunto da China os géneros agrícolas que potencialmente poderiam produzir. 
O desenvolvimento das energias ditas «renováveis», embora tenha feito progressos notáveis, não impede que continue a ser dependente do petróleo numa extensão considerável (como vemos na atualidade). Quanto à energia nuclear e os reactores a tório, parecem ser uma aposta forte do governo. 
Um país tão vasto, que conseguiu fazer sair da pobreza absoluta 800 milhões, em menos de 30 anos, terá muitos problemas e contradições, inevitavelmente. 
A política agressiva de sanções do Ocidente e dos EUA, em particular, com o objetivo de limitar ou reduzir as capacidades tecnológicas avançadas da China, saldou-se por um fracasso. Estimulou o desenvolvimento endógeno das tecnologias de ponta tornando a China ainda mais competitiva nesse domínio. Porém,  terá havido situações de desemprego causado por fábricas que fecharam, sucursais ou concessionárias de grandes empresas ocidentais que decidiram retirar-se da China (algumas, pressionadas pelos governos de origem, com certeza).

No conjunto, o que pode acontecer de menos favorável às indústrias chinesas, terá a ver com a profunda crise que se desenvolve internacionalmente e em particular nos países ocidentais, que eram os principais clientes dos produtos chineses. É previsível que a descida da capacidade económica de muitas pessoas no ocidente, provoque um retraímento das compras de produtos chineses. Mas, apesar do ambiente internacional desfavorável, o certo é que agora o Ocidente e particularmente os países europeus, vêm que a China é indispensável como parceiro para trocas comerciais: Cortar ou restringir os laços comerciais com a China iria originar muito mais dano para as economias destes países, do que para a China.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

LÍDER DA OPOSIÇÃO DE TAIWAN EM VISITA À CHINA + «blackout» mediático sobre BRI


 https://www.youtube.com/watch?v=fiDtfdBYHBQ

A líder do KMT (Kuomintang) de Taiwan é favorável a uma unificação com a China. Este é o partido dos nacionalistas históricos, fundado por Chan Kai Tchek. 
O DPP, que está no poder, tem uma postura de separatismo, além de ter uma ligação muito subserviente a Washington. Os falcões da Administração Americana  e do Pentagono estão apostados em provocar uma guerra. O complexo militar-industrial dos EUA tem vendido a Taiwan uma quantidade de armamento e têm sido enviados militares americanos para instruir na utilização das armas sofisticadas. 
Segundo a líder do KMT, um conflito com a China continental seria pior que a situação da Ucrânia em relação à Rússia. Ela questiona, num vídeo transcrito por Ben Norton, «se os taiwaneses querem ser os próximos ucranianos» isto é, serem aqueles que são cilindrados numa guerra, que não têm hipótese de ganhar, para conveniência dos EUA.

RELACIONADO:

Os media ocidentais estão sempre a veícular uma imagem negativa de fracasso, das Novas Rotas da Seda. Porém, nada se sabe, porque há um écran de contra-informação e os dados económicos objetivos são claramente suprimidos. Tudo o que seja bem sucedido do lado da China, é para difamar; se não for possível - por distorcer a realidade de forma evidente, expondo a fabricação - então a media faz «black-out» destas notícias. Assim, o público é desinformado, pois a media ocidental não lhe dá a possibilidade de conhecer os factos.




terça-feira, 14 de abril de 2026

O DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO AMERICANO (PROF. JIANG)




COMENTÁRIO DE MANUEL BANET



No jogo complicado que se está jogando entre os grandes - EUA, China e Rússia - a questão decisiva é a da manutenção ou desmembramento do sistema do petrodólar.
É o sistema que sustenta o «enorme privilégio» dos EUA. Têm os EUA défices comerciais e do orçamento federal enormes, há imensos anos e funcionando como se nada fosse. Qualquer outro país iria mergulhar na bancarrota.
O sistema do petrodólar é que permite que os EUA mantenham a primazia económica, financeira e militar.
Os petrodólares são obtidos pela venda do petróleo (em dólares) pelas monarquias do Golfo (principalmente). Esses dólares vão ser reciclados através de investimentos nos EUA, desde a compra de ações ao imobiliário, assim como a compra de obrigações do Tesouro, ou seja, dívida de Estado dos EUA.
O défice dos EUA é coberto pela venda de dívida pública (obrigações do Tesouro). Enquanto este sistema funciona não há razão para a classe no poder deixar de agir como age.
Mas, a des-dolarização correlaciona-se com compras de combustíveis, cada vez mais significativas, usando outras divisas que não o dólar. Isto faz com que os compradores da dívida americana sejam cada vez menos.
Paralelamente, os maiores detentores de dívida americana - o Japão e a China - têm despejado no mercado grandes quantidades destas obrigações. Isso acontece no momento em que os EUA precisam de cobrir cerca de 1 trilião de dólares de juros de dívida com a venda de novas obrigações. Na ausência de compradores, só resta aos EUA aumentar os juros, para tornarem atraente a compra de tais obrigações.
O processo é assimilável a uma espiral em que cada vez mais dívida se vai acumular, pois a única maneira de cobrir a dívida (que vai vencendo) e os juros (que são devidos), é pedir (ainda) mais emprestado.
A necessidade prática de qualquer país possuir dólares para comprar petróleo foi um dado adquirido durante decénios, desde 1973 até há bem pouco tempo.
Com a utilização no comércio internacional, de divisas dos próprios países e já não usando o dólar como moeda intermediária, a necessidade de se possuir dólares para comerciar foi diminuindo.
Note-se, isto vai muito além da mera compra de petróleo. No ano 2000, cerca de 70% das trocas comerciais internacionais eram feitas em dólares. Agora, serão 56%, segundo o FMI e outras agências internacionais.

O jogo dos EUA é obrigar os países a abastecerem-se em combustível nos EUA, ou em países por eles controlados (... ou que serão em breve controlados por eles): O plano prevê o controlo efetivo dos recursos energéticos da América do Norte, o que inclui o Canadá, a Groenlândia, o México, a Venezuela e países da América Central... Se os fornecedores de crude do Médio-Oriente desaparecerem ou reduzirem a sua capacidade em fornecer o mercado durante largos anos, o défice causado na oferta de crude ao nível mundial será tal, que os países (amigos ou não) terão de comprar o petróleo e o gás que necessitam aos EUA, ou aos países seus vizinhos sob controlo.
As atoardas de Trump de que integraria o Canadá, compraria a Gronelândia, anexaria o Panamá e subjugaria o México, além do que ele fez efetivamente à Venezuela, não são mais do que a afirmação descarada, expondo parte do programa da oligarquia para a nova fase da globalização, agora «manu militari».
A guerra no Irão não deverá ser curta, segundo o interesse do imperialismo: Deverá antes ser longa e deixar exaustos e incapazes de participar no comércio mundial de combustíveis, não apenas o Irão, como as seis monarquias do Golfo Pérsico (a Arábia Saudita, o Qatar, os Emiratos Árabes Unidos, Oman, Kuwait e Bahrein).
Os países que se abasteciam no Golfo Pérsico terão poucas hipóteses alternativas, perante o rápido declínio da oferta no mercado mundial. Excepto a China, que ficará mais resguardada graças ao fornecimento estável da Rússia. Todos os outros, terão dificuldades no abastecimento energético e na economia, em geral. Os preços dos bens essenciais irão aumentar; vai haver aceleração da inflação. Ao mesmo tempo, haverá contracção do investimento. O mundo vai entrar numa depressão «estag-flacionária» ou seja, de estagnação e inflação, em simultâneo.

Mas, o Império irá ficar mais isolado. Vai ser incapaz de seduzir as pessoas. O chamado «soft power» vai desfazer-se, como uma pintura facial que se derrete. Usará a força militar, a chantagem com os «amigos», a utilização de guerra terrorista, com morticínios contra os civis, etc. Vão ser estes os traços característicos do comportamento dos EUA, tanto ou mais do que agora.
Certos países da Europa talvez tentem - em vão - seduzir a «Grande Besta», mas chegarão à conclusão de que os EUA estão na mão duma poderosa Máfia, como disse Mac Carney* na última reunião do Fórum de Davos.
Quanto mais depressa chegarem a esta conclusão, mais hipóteses terão para delinear e executar uma estratégia de salvamento da sua independência, identidade, património e presença no Mundo.
Os que insistirem em «fazer as vontades» ao colosso de pés de barro, serão os primeiros a ser esmagados.
............
*Mac Carney: Ex-presidente do Bank of England e atual primeiro-ministro do Canadá 




Complemento: Mapa da América do Norte, segundo as ambições dos tecnocráticos.



Complemento II: Gravura publicada por Trump a 15 de Abril de 2026 (ver artigo de Thierry Meyssan)






sexta-feira, 10 de abril de 2026

COMO A CHINA GANHA A COMPETIÇÃO COM EUA


 

Corbett report: «Nova Ordem Multipolar = Nova Ordem Mundial»







Comentário de Manuel Banet:

 A tese de James Corbett no que toca ao estribilho de «Ordem Multipolar» é que não existe diferença radical destas oligarquias da China e da Rússia, em relação às oligarquias dos EUA e da OTAN. Tudo o que os primeiros pretendem é serem aceites, é terem um lugar à mesa do poder e da ordem mundial. 

Muito bem; pode ser que seja uma mera luta para repartição das alavancas de controlo global e de «estar por cima», decidindo em nome de povos, eles próprios sem verdadeira voz, nem autonomia, nem capacidade de decisão própria. 
A tecnocracia é um velho projeto datando de antes da 1ª Guerra Mundial, que se vem desenvolvendo em múltiplas instâncias, umas mais visíveis que outras.
 A Comissão Trilateral, a Chattam House, o Fórum Económico Mundial, o Clube Valdai, o Clube Bilderberg  ... Há numerosos «Think Tanks», ou instâncias, apenas conhecidas de alguns,  que têm moldado discretamente a política das principais potências. 
Fazem parte do Estado profundo, pois as pessoas participantes nestes «clubes» e «grupos de reflexão» são, ou foram, detentoras de cargos públicos. 
Muitas vezes, os departamentos do Estado (por exemplo, um ministério ou secretaria de Estado) encomendam estudos, que deveriam analisar questões complexas. 
Mas, muitas vezes, são apenas coberturas caras e pretenciosas, para «validar» decisões já tomadas nos escalões mais elevados do poder. 
Estas encomendas são fonte de rendimento regular destes Clubes e Think Tanks. É uma forma de corrupção e também de roubo do erário público. O dinheiro sai, por norma, dos orçamentos de departamentos estatais, destinados a remunerar as figuras que realizam (ou assinam) os tais «estudos». 
Além disso, existem múltiplas fundações privadas que financiam regularmente estes grupos influentes. Estas fundações são associadas aos setores que desejam moldar a visão governamental: Por exemplo, a indústria do armamento tem interesse em fazer prevalecer determinada visão da segurança, da geoestratégia, etc.
Trata-se de uma micro-sociedade em circuito fechado. Muitos empresários são aconselhados a encomendar «estudos», que são somente formas disfarçadas de exercer suborno. Isto está descrito em artigos sobre vários casos de Think Tanks nos Estados Unidos, por vários autores.  
Com certeza que algo parecido funciona nas outras grandes potências, ou mesmo em médias potências. 
Há um pacto de silêncio que inclui, não apenas os apoiantes do partido que esteja no poder, como a classe política no seu todo. Com efeito, mesmo os partidos e correntes de oposição tendem a «omitir» certos factos, pois têm esperança de vir a ser poder, algum dia. 
Além de que, para certos assuntos sensíveis, o facto de nomear as pessoas envolvidas nestes jogos de influência é extremamente perigoso, nomeadamente para os jornalistas.
A máquina do Estado é pesada, redundante, muito pouco eficaz.  Possui uma hierarquia oculta que manipula a hierarquia visível. Esta última, é preenchida por atores corruptos, sujeitos a chantagem, cuja competência em assuntos de Estado, sobre os quais decide, é ridiculamente limitada. 
Mas, como têm um batalhão de «conselheiros», para os mais diversos assuntos, basta que lhes sigam as sujestões. Acontece que os «conselheiros» são os peões dos grupos de interesses, ou lobbies. Estes, são fiéis aos interesses que promovem, não ao governo. 
Na «democracia» truncada, que nos estão constantemente a servir como se fosse o «modelo», o cidadão é desporvido de meios de influir nas decisões.  A escolha de tal ou tal indivíduo pode parecer relevante, mas não é, porque não se sabe qual a verdadeira «agenda» de um candidato. O mais banal é, uma vez eleito, ele fazer tudo diferente do que defendeu, durante a campanha eleitoral. 
O público não tem o mínimo controlo. Não pode fiscalizar os atos e decisões dos indivíduos que colocou no poder, através de eleições. 
Por que razão insistem nas eleições como o teste de democracia
- É  exatamente porque sem controlo e sem possibilidade dos eleitores revocarem o mandato dos eleitos, de forma institucional e eficaz, a «democracia» é apenas um jogo envolvendo atores e lóbis que os controlam através da corrupção...

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RELACIONADO:

domingo, 5 de abril de 2026

BOLHA DE IA PRESTES A REBENTAR...

 


... O motivo não é uma deficiente procura de ativos de empresas de IA, em relação à oferta, ou de qualquer desequilíbro entre a oferta e a procura, nos mercados bolsistas...

AI Bubble Pop - Half of AI Data Centers Cancelled or Delayed


No vídeo acima, Lena Petrova dá-nos a situação real dos países ocidentais, em particular dos EUA, que apostaram pesadamente na IA (Inteligência Artificial). 
A incapacidade destes países em fornecer as quantidades necessárias  de energia elétrica para alimentar os Centros de Dados, é a causa principal das interrupções dos projetos de produção, de congelamento ou de abandono dos mesmos.
Contrariamente a estes países, o desenvolvimento da IA na China não está sujeito aos mesmos constrangimentos. Provavelmente, na China a planificação a médio e longo prazo permitiu que se desenvolvessem Centros de IA, sem que as indústrias e a vida em geral sofressem duma escassez em energia elétrica. 
Mais uma bolha especulativa está prestes a rebentar, tanto maior quanto as grandes empresas tecnológicas ocidentais se envolveram a fundo em projectos gigantescos, sobre-dimensionados. 
É que, no sistema capitalista, as necessidades reais não são o motor que impulsiona o investimento: Antes, o impulso vem de ondas especulativas, geradas nas bolsas, ou seja, em que o motor é o lucro, não as necessidades sociais. Estas bolhas têm sido infladas permitindo lucros extraordinários das entidades beneficiando de «insider trading», que sabiam quais os planos de investimento estratégico do Governo ou das mega-empresas. Esses investidores bem informados apressaram-se a investir, enquanto a atenção do público ainda não estava focada nesses mesmos sectores. 
Mas, não só os investidores comuns foram sistematicamente encaminhados para aqueles investimentos sobre-cotados (bolhas) e portanto, sofreram perdas, na maior parte dos casos; também na economia em geral, grande parte do capital disponível para investimento foi desviado para especulação. 
Quando uma bolha rebenta, não são só os investidores diretos que pagam o preço. Também os bancos que financiaram tais investidores e mesmo, os bancos que aceitaram essas acções sobrecotadas nas bolsas, como colateral (ou garantia de empréstimo). 
Mas, o desejo avassalador de enriquecer depressa e por qualquer meio, acaba por vencer o bom-senso e a prudência. O capitalismo é sempre instável, pois é  ele que alimenta as bolhas e os grandes capitalistas são quem beneficia desta instabilidade.

quarta-feira, 25 de março de 2026

ENORME VANTAGEM DA CHINA EM RELAÇÃO ÀS OUTRAS ECONOMIAS DO EXTREMO-ORIENTE

Com o rebentar da guerra de agressão contra o Irão, por parte de Israel e dos EUA, a região toda ficou envolvida no conflito, nomeadamente, além do Irão, as monarquias do Golfo Pérsico (incluindo a Arábia Saúdita) e gerou-se uma escassez súbita de petróleo e gás natural, afetando o mercado mundial. Pelo facto da China ser o maior importador mundial de petróleo e de 40% desse petróleo ser oriundo do Golfo Pérsico, poderia pensar-se que o estado atual de escassez iria afetar especialmente a China, nas suas mais diversas valências industriais e outras. Porém, a China preparou-se desde há muito tempo para situações deste tipo:

 - Primeiro, construiu uma reserva de petróleo que corresponde - a pelo menos - 90 dias de consumo normal. 

- Segundo, tem uma diversificação nas suas fontes de petróleo que poucos países têm; com efeito, uma importante e crescente percentagem do petróleo consumido pela China, vem da Sibéria, via oleoductos, portanto dum fornecimento regular, estável.

- A China foi um dos raríssimos países que continuou a abastecer-se de petróleo nos primeiros dias da guerra no Golfo, visto que os iranianos que controlam o estreito de Ormuz, lhes deram salvo-condutos para a navegação dos navios-tanques chineses. 

- Mas, as coisas vão muito além da diversificação do abastecimento em petróleo: A China tornou-se o maior produtor (e exportador global) de paineis solares. Também desenvolveu a indústria das eólicas e tem uma rede instalada que é o triplo da do seu concorrente mais próximo, os EUA. 

- Desenvolveu a energia nuclear para produção de energia e tem experimentado, no deserto de Gobi, com real sucesso, reactores a Tório. O Tório é um elemento mais abundante que o Urânio. Ao contrário do Urânio, o Tório pode ser reciclado no próprio processo de produção de energia; os reatores a Tório são quase auto-suficientes.

Abaixo, transcrevo passagens do artigo de Kevin Walmsley (de 25 de Março): «Após Três Semanas de Guerra no Golfo, a diversificação do setor energético da China mostra os seus frutos.»

https://kdwalmsley.substack.com/p/the-china1-diversification-strategy

First, over half the vehicles sold in China today are electric vehicles, and that electricity is generated with domestic energy supplies.

Further, the Chinese electric grid is powered by a far higher share of renewable energy than anywhere else. China installs more new solar capacity than the rest of the world combined, and just adding to their lead in solar power generation. They also dominate in wind power. Currently the United States leads in nuclear power plants online, but China has more nuclear plants under construction than the rest of the world combined:

So as China has electrified their transportation networks, they’ve also built out an electric grid that’s fed by renewables and domestic sources of supply. China still does import three-fourths of its crude oil. But for the past several years China has been overbuying, and stashing surplus crude into storage tanks.

They don’t publicly disclose their stockpiles of crude—our analysts are guessing at the import numbers because they’re not really sure what comes across from Russia, or on tankers that are under sanction. So they are also just guessing how much is going into stockpiles, but industry insiders put the number at around 1.3 billion barrels. Remember, too, that there still is oil flowing from Iran to China, despite the war. So compared to the other countries in Asia, China is the least impacted by the war in the Middle East.

South Korea is capping prices, which won’t do anything. Pakistan is increasing gas prices by 20 percent for car drivers to free up supplies for trucks and buses, even though wholesale gas prices are up much more than 20 percent. In Vietnam, gas stations are already running out, and the government there says they have oil for another month or so and are telling their populations not to hoard fuel.

The Philippines gets 90% of its oil from the Middle East, and government workers there are working 4 days a week. Bangladesh is rationing fuel and closing universities to save electricity. In India, the crematoriums can’t get enough LPG to burn bodies, so they had to close down.

These are the countries who sold themselves as viable manufacturing centers, to global companies looking to de-risk from China. Thousands of companies attempted a “China+1” strategy, and moved some production out of China to these neighboring countries to reduce geopolitical risk, just traded one problem for a bunch more.

The idea was that diversifying production away from China means a reduction in risk, and somehow a stronger supply chain. But that was an illusion. These countries are dependent on the smooth flow of fossil fuels from the Middle East, at low prices, to run their power plants and transportation systems.

That’s gone, and today those factories are paying a lot more to keep the lights on, and get their people back and forth from home.




terça-feira, 24 de março de 2026

O SIONISMO TEM UM PROJETO DE DOMÍNIO DO MÉDIO ORIENTE (Crónica da IIIª Guerra Mundial nº58)



Quando escrevi a penúlima crónica (nº56) apontava o paralelo do início da 1ª Guerra Mundial. De facto, os soldados recém-mobilizados, em todas as nações beligerantes, partiam para frente de batalha esperançados de que «esta guerra seria a última, que esta guerra iria acabar com todas as guerras». Evidentemente, estavam muito enganados. Houve muitas guerras desde 1918, não só a IIª Guerra Mundial, como um contínuo de guerras, na maior parte dos casos, em zonas geográficas exteriores à Europa.
Esta guerra regional do Médio Oriente, pode ser encarada como mais um capítulo da sucessão de confrontos armados desde a proclamação unilateral do Estado de Israel, em 1948.
Mas, também atinge o mundo inteiro, pelo facto afetar muito diretamente a produção do petróleo e a sua distribuição. E também, pelo facto de ser uma guerra que envolve de forma indireta as grandes potências, os EUA, diretamente e em tandem com Israel; a Rússia e a China de forma indirecta e apoiando o Irão com armas e outros meios militares e com espionagem via satélite.



Relativamente aos paralelos com outras guerras, nomeadamente, 1ª e 2ª Guerras Mundiais, é preciso ser-se prudente, não querer enquadrar factos recentes com uma História passada, que já tem mais de 80 anos...

Porém, há uma constante, do ponto de vista humano: a miopia das «elites», a incapacidade de muitos terem um olhar lúcido sobre os vários aspectos da agressão conjunta Israelo-Americana ao Irão.

A começar pela cronologia: sua data de início, 28 de Fevereiro de 2026, não é mais do que a data em que se abateu sobre o povo e território do Irão um ataque mortífero e criminoso. Desde o derrube de Mossadeg em 1953, que o Irão tem sido flagelado por guerra, subversão, sanções, pelos mesmos poderes: EUA, Reino Unido, outros países da OTAN e Israel (o «porta- aviões ocidental» estacionado permanentemente do Oriente-Próximo).

Eu não posso (nem quero) usar as páginas desta «Crónica da IIIª Guerra Mundial» para descrever os movimentos militares de uma e outra parte. Isso está mais ou menos bem coberto, pela media alternativa, a que qualquer um de vós terá acesso, tal como eu tenho. Evidentemente, nestas circunstâncias, existem por vezes «falsas notícias» (fake news) mas elas são relativamente fáceis de desmascarar, desde que se procure em várias fontes contraditórias.

É rápido desmascarar 99% das notícias falsificadas, as mais óbvias. Mas, há um domínio «cinzento» em que as notícias verídicas se misturam com comentários tendenciosos. A «arte» da «lavagem ao cérebro» usa abundantemente da técnica de fazer passar por genuína uma informação, quando é afinal um ponto de vista inteiramente distorcido no sentido de favorecer A ou B.




Os 2 vídeos abaixo são ambos interessantes, pois nos dão um contexto, nos permitem enquadrar os factos num domínio mais vasto. As pessoas que aí falam têm um conhecimento profundo e pessoal dos episódios que narram.

Por estas entrevistas, podemos ver que a linha de fractura não é nacional, nem étnica, nem - tão pouco - religiosa: A linha de separação é entre os predadores (os imperialistas e estados clientes) e os povos agredidos. Como é evidente, estamos com o povo iraniano e com o povo palestiniano. Estamos também com pessoas de outros povos, que têm a coragem de denunciar as crueldades e os planos criminosos dos seus governos.

Não se trata de «os bons contra os maus», mas antes, de um complexo de interesses que leva ao esmagamento da classe trabalhadora, dos pobres, de qualquer dos países em guerra. Mas, indiretamente, também tem impacto negativo em qualquer outro. Os efeitos de pauperização são realmente globais.








quinta-feira, 19 de março de 2026

O MAIOR SACRILÉGIO

 https://substack.com/home/post/p-190389107 Trump sentado e os membros do seu governo, rodeiam-no, em adoração 



A característica principal das guerras que têm afligido o Planeta, desde o século XXI, é que estão relacionadas estreitamente com crenças religiosas. 

- Note-se a associação da retórica belicista dos dirigentes dos EUA com a ideologia de «Manifest Destiny», ou seja, da missão divina de que o povo dos EUA está incumbido, de ser o líder das nações e guiá-las para a Pax Americana, uma forma laicizada de «paraíso terreal». 

- Note-se também o elemento religioso da Jihad de povos islâmicos, sejam sunitas ou xiitas, de combater o «Grande Satã», que identificam com o Ocidente em geral (e os EUA, em particular), com a degradação moral, com a arrogância de ricos, etc. 

- O combate entre o Ocidente cristão (ou que se auto-intitula assim) e o ateísmo «diabólico» do comunismo foi outro dos grandes lemas das cruzadas anti-comunistas, durante a 2ª metade do século XX. 

O próprio comunismo (ou marxismo- leninismo) foi transformado em «religião sem Deus», uma ideologia pseudo-científica, como todas as ideologias.

 Podíamos continuar a descrever extensivamente a dimensão religiosa nos acontecimentos (nem todos com caráter bélico, aliás) que ocorreram neste último quarto de século. Quer para dar uma justificação falsa, ou devido à convicção verdadeira dum povo, o facto é que os Estados se têm apropriado de argumentos (pseudo-)teológicos. 

No plano estrictamente material, direi que a concorrência entre Estados supõe e é insuflada por concorrência entre grupos de interesses, principalmente económicos. Esta concorrência, perante a limitação drástica dos recursos disponíveis no planeta, assim como a extensão dos mercados a todas as regiões, faz com que se intensifique a concorrência entre grupos capitalistas oriundos de várias nações, «obrigando» a que se confrontem em guerras: pelo controlo das matérias-primas, pelo exclusivo ou privilegiado acesso aos mercados, pelo domínio sobre outras nações ou, mesmo, pela hegemonia mundial. Todas estas instâncias se verificam, senão em simultâneo, pelo menos numa combinação de várias motivações, nestes breves 26 anos do século presente. 

Mas, se nos debruçarmos um pouco mais atentamente, verificamos que as guerras - sejam elas de confronto total, sejam elas de âmbito confinado - têm um grau de destruição humano e ambiental muito superior às guerras que existiram desde a antiguidade até à 1ª Guerra Mundial, de 1914-18.  Poderíamos argumentar que, a partir   do século XIX, as potências e as oligarquias que as financiavam estavam em concorrência direta pelos recursos (tanto de matérias-primas, como humanos), capturados pelos países tendo maior número e extensão de colónias. 

- O continente africano era repartido sobretudo entre britânicos e franceses, com importantes extensões nas mãos de portugueses, belgas, alemães e espanhóis. O Oriente-Médio também estava talhado de modo semelhante, sobretudo entre britânicos e franceses. 

- O império russo estendia-se, sobretudo, intra-fronteiras, não era um império baseado em conquistas ultramarinas. As suas ambições no início do século XX, já eram semelhantes às que tem agora, ou seja, poder desenvolver o seu enorme potencial na Sibéria, no Ártico e noutras partes, que ainda têm imenso potencial por explorar. 

- A China estava subjugada, primeiro  pelos britânicos e depois por uma série de potências europeias e também pelos EUA e o Japão. O jugo neo-colonial era agravado pela guerra e invasão japonesa em 1931 e pela rivalidade entre facções na sociedade chinesa. Por fim, com a derrota das tropas nacionalistas (apoiadas pelos EUA), deu-se a proclamação da República Popular da China, sob direção do Partido comunista. A China era, em 1949, um país pauperizado, com uma situação de pobreza semelhante aos mais pobres do «Terceiro Mundo». O seu reerguer só teve início a partir da década de 80. Também a RPC, como a Rússia, tem internamente uma grande variedade de etnias, umas mais integradas, outras com maior resiliência à assimilação cultural. As comunidades que aceitam de bom grado a liderança do Partido Comunista não vivem numa situação de opressão, que se verifica no Tibete e no Xinjiang.

- A confrontação através de «proxi» - ou seja - de aliados dum ou doutro bloco económico/ideológico, caracterizou a segunda metade do século XX, assim como a libertação de muitos países sob tutela colonial, muitas vezes pela luta armada. 

- As guerrilhas também foram amplamente utilizadas pelos países ocidentais, em particular pelos EUA, que armavam, treinavam e alimentavam a contra-revolução em países da América central (ex. Nicarágua, El Salvador...) e muitos outros países ex-coloniais (África e Ásia). Também exerceram uma constante subversão no interior dos países do Bloco Soviético, em particular, infiltrando agentes e alimentando grupos de dissidentes internos, ou no exílio. Pode dizer-se que este confronto resultou num enfraquecimento do controlo sobre vários países do Pacto de Varsóvia: Houve revoltas com repercussão importante na Hungria, na Checoslováquia, na Polónia e na Roménia. Por fim, a situação na Alemanha de Leste tornou-se insustentável para o governo e resultou na «Queda do Muro de Berlim». 

- No entanto, as forças que eram apoiadas por americanos e seus aliados, sofreram muitos revezes em lutas pós-coloniais em África, na Ásia e na América Latina. Por exemplo, a derrota do exército do regime de Apartheid (junto com forças angolanas de Savimbi) que foram paradas e destroçadas,  por volta da declaração de independência desta ex-colónia portuguesa. Outro exemplo: os Sandinistas na Nicarágua derrotaram os Contras, ativamente apoiados e enquadrados por militares dos EUA. Ou ainda, a derrota do exército iraquiano nos anos 80, no tempo de Saddam Hussein, apoiado pelos EUA e por  países europeus, contra o Irão recém triunfante da revolução que depôs o Xá e instaurou o regime xiita.  

- No século XXI, a guerra por meio de aliados e apoios das grandes potências, continuou («proxi wars») mas houve - a partir do 11 de Setembro de 2001 - o envolvimento direto do exército dos EUA e de contingentes da OTAN. 

 - Os países oprimidos que são esmagados pela força militar muito superior de uma grande potência, têm de construir uma narrativa que os justifique a não  depor as armas e continuar a combater. Estas narrativas sintetizam traços de identidade nacional e crenças religiosas. Por isso, é comum haver nelas elementos apocalípticos, o que confere maior tenacidade à sua resistência armada. 

- Igualmente, os países opressores, na guerra desumana que levam a cabo contra a população civil inimiga, vão produzir narrativas para «inocentar» as tropas perante os seus cidadãos,  das atrocidades por eles cometidas. Estas - supostamente - são cometidas «somente» pelos inimigos. Não é raro haver uma componente racista e a utilização da religião para fins de propaganda, sobretudo, junto das suas tropas e da população civil. A dessensibilização da cidadania destes países agressores, vai amplificar o medo ressentido e o perigo imaginado, sobretudo.  

Segundo o Prof. Jiang, este confronto atual assume contornos escatológicos. Por outras palavras, trata-se de justificação pelos fins. Os combatentes e as populações civis são endoutrinadas de que esta guerra será a última, que  os sofrimentos presentes «abrirão os Céus», seja para a vinda do Messias, seja para um Reino Divino, seja para outras visões sobrenaturais. 

Assim, os constrangimentos que a guerra «somente militar» tinha explícitos (poupar as populações civis adversárias, não destruir recursos vitais para a subsistência da população, respeitar os prisioneiros de guerra, etc) vão ser «esquecidos», pelo fanatismo e os instintos de morte dos combatentes de ambos os lados. Se ambos se julgam «o Braço de Deus», concedem a si próprios o papel de «justiceiros»: Qualquer atrocidade que cometam, é vista pelos seus superiores hierárquicos com indiferença, senão mesmo, como digna de louvor .

A religião de qualquer povo, de qualquer etnia, não está aqui em causa. O que está em causa, é o que chamo o «maior sacrilégio»: O de utilizar a mensagem fundamental de cada religião, de sábios e válidos ensinamentos, para produzir uma distorsão monstruosa. Assim, estão cometendo um sacrilégio, uma monstruosidade e uma farsa, contra os seus livros sagrados e contra a prática multi- milenar das religiões, de que  dizem ser adeptos. 

Todos os povos envolvidos em guerras tendem a cair nisso, mas quem os incita são os dirigentes políticos e religiosos e os chamados «líderes de opinião»: todos eles têm culpas agravadas, embora cada pessoa deva ter «freio moral» para não se deixar embarcar em ódios vesgos contra o «inimigo». Tanto mais que a informação que nós recebemos é um apanhado de propaganda, seja qual for o lado em que nos encontremos. Não podemos senão nos basear sobre os ensinamentos de elevado valor espiritual, que estão presentes em todas as religiões. Só assim cumprimos o nosso dever; só assim mostramos respeito verdadeiro por Deus e pelas Escrituras Sagradas.