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domingo, 1 de março de 2026

Crónica da IIIª Guerra Mundial [ nº56]: SERÁ ESTA A ÚLTIMA?

 Quando rebentou a 1ª Guerra Mundial, numerosos jovens recrutas estavam contentes: « Esta guerra será a última!» clamavam eles. Os propagandistas da guerra, de todas as nações e facções, reforçavam este mito. A guerra mais cruel e destruídora que a humanidade tinha visto, até então, acabou num «armistício». Mas, este «armistício» não deu azo a que se construísse uma verdadeira paz. Na verdade, o período de 20 anos entre as duas Guerras Mundiais, foi um longo «falso armistício», entrecortado por guerras e pela subida de forças totalitárias apoiadas em ideologias e em sentimentos de raiva, de «desforra», de nacionalismos e ódios étnicos. 

Mas, tudo isso era insuflado, discretamente, pelos grandes potentados industriais das nações maiores, os quais tinham consolidado os seus impérios graças à Iª Guerra e estavam desejosos por ver de novo as diversas nações escoar o sangue dos seus jóvens em amplos rios tingidos de vermelho. 

Eles- os industriais - sabiam que seriam eles os vencedores, quer fossem  alemães, britânicos ou americanos... Não esqueçamos que o grande capital já estava muito internacionalizado, nas décadas de 1920 e de 1930. As empresas industriais do aço podiam fornecer aço para fabricar blindados alemães, americanos, ou franceses. 

Os produtos das indústrias químicas eram produzidos numa nação, ou em várias, mas revertendo sempre o lucro para um número pequeno de grandes empresas e seus proprietários, que detinham as patentes destes produtos. 

A banca também lucrava, de várias maneiras, com a guerra: Receptadora de contas bancárias, intermediária em negócios multimilionários, emprestando (com juros) aos Estados endividados, etc.

Desta vez (como tenho escrito repetidamente), na «IIIª Guerra Mundial» não existe uma declaração de guerra, nem, por vezes, atos de hostilidade, continua a haver comércio, as embaixadas continuam abertas, em muitos casos. Mas, existe uma sucessão de guerras, cada uma delas trágica para os que nela estiveram envolvidos, desde a re-balcanização da ex-Jugoslávia, às guerras em África, ora no Norte de África, ora no Sul, no Leste ou Oeste. Nestas, os campos opostos estavam a ser armados por potências, das quais os países africanos foram ex-colónias, ou regimes neo-coloniais. Um cenário semelhante tem existido nas guerras da Ásia Ocidental e Central. Enquanto uma zona estava em pleno furor, noutra abrandavam os atos bélicos, sem garantia de não voltarem a reacender-se amanhã. 

- E os grandes poderes? Os que acumulam riqueza à custa dos outros povos, principalmente e que se serviram dos seus conhecimentos do estado interno daquelas nações, para colocar uns contra os outros, atiçando guerras civis, apoiando ou derrubando um ditador, mas para exclusivo proveito do seu domínio?

- As potências tecnológicas? Estarão elas «inocentemente» a desenvolver maravilhas microinformáticas, que depois são desviadas para fins bélicos? Ou são parte integrante do complexo militar-industrial dos países mais poderosos? São «unha com carne» com as indústrias armamentistas, que usam seus «chips» (processadores) e sua tecnologia informática, desde a espionagem, até aos mais sofisticados drones e mísseis ?

- E os bancos, que estão eles a fazer? Não creio que fiquem «de mãos cruzadas». Eles se posicionaram, desde há longo tempo, para dominar a cena internacional. Têm sido eles, os vencedores reais, quaisquer que sejam os vencedores nominais! Amshel Rotschild dizia: «não me interessa quem governa uma nação, desde que seja eu quem controla o seu banco central». Com efeito, através dos empréstimos, a grande banca tem as nações presas pelo mecanismo da dívida pública, sendo esta um tipo de empréstimo especial, cujos contratos são assinados pelos poderes políticos do momento; mas o pagamento recai sobre o povo desse país e mesmo, sobre seus descendentes. As pessoas e seus descendentes são  ignorantes e não-participantes em tais negócios. Mas, são sempre eles que pagam (com juros) os empréstimos para as guerras.

E por falar em pagar... Já viram que os povos estão a contribuir para acções militares para as quais nunca foram consultados? Quem diria que a questão da guerra e da paz, certamente  questão da maior relevância política, nunca é discutida publicamente, seriamente, com candidatos que têm uma clara visão sobre o assunto e com posições afirmadas nos órgãos legislativos? É como se o povo... não fosse chamado para o assunto. 

A «questão da guerra», dizem os dirigentes entre si, «não deve nunca ser discutida pelo povo, especialmente quando as nações se preparam para a fazer»!

Enquanto as pessoas viverem numa infância prolongada, pela irresponsabilidade e mantida pelo circo eleitoral e «democrático», continuará a haver guerras...

Como dizia Einstein, «Não sei, ao certo, como será combatida a IIIª Guerra Mundial, mas a IVª sei: Será combatida com pedras e paus». 


Haverá ou não mais guerras?

- A questão desdobra-se em duas alternativas: Consoante o futuro se assemelhe mais a uma ou a outra, assim teremos, ou não, guerras.

A) A cidadania dos diversos países toma controlo dos assuntos políticos, tendo poder de decisão democrática em tudo o que respeita às nações respectivas. 

A guerra torna-se impossível porque, naturalmente, as contendas serão resolvidas diplomaticamente, à mesa de negociações, nunca no terreno de batalha, pois os povos sabem perfeitamente que esta última hipótese nunca traz resolução justa verdadeira.


B) A cidadania dos diversos países continuará a seguir os líderes do momento, os quais serão, na verdade, os paus-mandados das grandes fortunas (industriais, financeiras, tecnológicas...). Continuará a haver guerras. Porque a lógica do poder fará com que a guerra continue sendo um negócio muito lucrativo para esse mesmo poder.

Vemos que o futuro está nas nossas mãos. Além disso, somos todos/as responsáveis pelo que se está a passar. Quer tenhamos apoiado ou não os atuais dirigentes políticos, a nossa responsabilidade é de não permitir que as nações continuem a recorerr à violência maior de todas, ao crime mais hediondo, para resolver suas contradições. A nossa abstenção - não no voto, mas na ação - é, afinal de contas, conivência com o que se está a passar. Independentemente de apoiarmos, ou não, um dos lados em contenda. 

Porquê? Porque os cobardes que nos (des)governam só conseguem chegar aos seus fins, se houver nossa anuência, nossa tolerância, nosso «deixar fazer». Reparem que, em situações passadas, relativamente próximas de nós: Vários governos foram obrigados a negociar acordos de paz com o outro lado, por pressão da opinião pública do seu país, mesmo quando a situação militar, só por si, não tinha chegado ao colapso.


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PS1: Tenho lido críticas sobre a «fraca resposta» da Rússia e da China em defesa da Venezuela ou, agora, do Irão:

As grandes potências que são a Rússia e  a China, não iriam cometer o erro de confrontar diretamente os EUA e a OTAN, para salvar um regime, por mais que - em termos geoestratégicos - seja importante. 

Com efeito, nem Irão, nem Coreia do Norte, nos seus acordos bilaterais com a Rússia, têm cláusulas que obriguem esta última a ir combater em defesa das primeiras, quando agredidas. O contrário acontece com o tratado da OTAN: Segundo o artigo 5º, quando atacada, uma nação da OTAN recebe automaticamente apoio militar das outras.
Os BRICS são um conjunto de nações que se reúnem para decidir sobre estratégias económicas, sobretudo. Não existe componente militar nos BRICS. A Organização de Cooperação de Xangai, tem como objeto explícito combater ameaças terroristas. Tem sido mobilizada para combater infiltrações de organizações terroristas no interior dos territórios dos seus membros. 
Na verdade, pode-se argumentar que Israel e os EUA são estados terroristas. Mas, a guerra total entre blocos é desejada pelos neocons. Os dirigentes da Rússia e da China, pelo contrário, estão a ajudar o Irão (na frente diplomática, isolando os EUA e Israel, fornecendo armas poderosas, etc.) sem se envolverem diretamente. Eles sabem que isso implicaria um confronto direto com os EUA. 
Os que controlam a agressão ao Irão, serão os EUA ou Israel? Penso que -de novo - Trump fez a vontade a Netanyahu: Receio que este último disponha de poderosos meios de chantagem, em relação a Trump e a outros membros da Administração. Só isso pode explicar a fuga para a frente, que corresponde a este ataque, não motivado, contra o Irão.
Nas muito recentes* conversações de Genebra, o ministro dos Estrangeiros iraniano tinha proposto ao lado americano um mecanismo para não haver acumulação de material radioativo no Irão, o que implicava a impossibilidade de possuir as quantidades necessárias para fazer uma bomba. Esta proposta ia mais além das garantias dadas nas conversações de 2015, que desembocaram no acordo designado por JCPOA, do Irão com os EUA, Alemanha, França e Reino Unido. Este acordo foi denunciado unilateralmente aquando da 1ª presidência Trump, em 2018.

PS2: 



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*Iniciadas a 6 de Fevereiro de 2026 e terminadas (interrompidas) a 26 de Fevereiro do mesmo ano. Na altura, Israel estava já ameaçando com ações «punitivas» o Irão. Os israelitas desencadearam o primeiro ataque com mísseis pouco tempo depois, a 28 de Fevereiro, seguidos imediata e coordenadamente, por ataque dos EUA.




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ANÁLISE DE CLASSE DO CAPITALISMO



Da herança deixada pela obra de Marx e Engels, assim como seus seguidores mais ortodoxos, a análise das relações entre indivíduos e classes no interior de uma sociedade capitalista, é porventura, aquilo que conserva - se atualizado, obviamente - operacionalidade. Os grandes rasgos de «Materialismo Histórico» são apenas uma forma de ideologia, um cozinhado de hegelianismo, messianismo judeo-cristão, materialismo mecanicista e determinismo. Marx era um filósofo; ele e Engels tinham a «mania dos sistemas», como era comum na classe intelectual da sua época, tendo este traço sido repercutido e perpetuado, nas sucessivas gerações de marxistas.

Mas, algo mantém-se válido, nesta profusão de teoria construída com objetivo bem claro, de legitimar um programa (o Manifesto do Partido Comunista) e esse algo é a visão de que as classes estruturam a sociedade, não só no presente, como desde a existência de um Estado hierarquizado, há cerca de 10 mil anos. Não apenas as classes existem, como estão imbrincadas umas nas outras; não há exploradores sem explorados e vice-versa. O funcionamento da sociedade apenas pode ser plenamente compreendido, se se estudar a relação das classes existentes. A luta de classes não é um desejo, ou uma fantasia voluntarista, mas uma realidade objetiva, por mais que seja negada. Essa luta é resultante das forças em presença num dado momento. Todas as classes estão relacionadas e desempenham especificamente um papel em relação ao processo produtivo. Claro que existe (sempre existiu) uma fração da população que não participa diretamente desse processo produtivo; os desempregados (o «exército de reserva») e também todos os que não contribuem nem diretamente nem indiretamente para esse processo. De facto, o capitalismo acomoda-se bem de um e de outro, na medida em que a sua existência exerce uma pressão para a baixa dos salários, permitindo assim uma maior rentabilidade da exploração.

Porém, a análise marxista não consegue dar conta do nível de concentração do capital, ao ponto deste ter constituído uma «super-classe» capitalista, de bilionários, que desempenha um papel muito direto na orientação dos poderes políticos. Já não há um relativo retraimento do «mundo dos negócios», em relação ao mundo da política. Já não acontece que os muito ricos se «contentem» em acumular os dividendos (e a esbanjá-los, muitas vezes). Esta fase do capitalismo está ultrapassada há muito tempo. A intervenção direta do super-capitalismo na direção dos Estados, seu papel é decisivo em todo o processo político, através da alavanca do financiamento. Isto vai desde a escolha de candidatos, até à inspiração das leis e das políticas gerais, mesmo nos Estados mais poderosos.

Fala-se muito de «neo-feudalismo»: Mas, construir um termo para designar a situação presente usando o termo «feudalismo», gera ambiguidades. No passado, os senhores feudais tinham âmbitos de intervenção vastos no seu feudo, porém, estavam subordinados ao poder real, em última instância. Algumas vezes sacudiam esse jugo, mas acabavam por eleger um deles como novo monarca. Estavam, de algum modo, limitados pelo poder eclesiástico, ele próprio com características feudais, mas que se movia por interesses próprios.

O presente corresponde a uma internacionalização sem precedentes do capital, com impérios corporativos constituídos, com base em monopólios. Estes, são veículos de extração de «renda», no sentido de beneficiarem da situação de monopólio, para ditarem preços muito acima do que conseguiriam numa situação de concorrência. Nos casos em que ocorre um oligopólio, as grandes empresas que o constituem, encontram-se para anular a concorrência entre elas. O exemplo das grandes cadeias de supermercados e hípermercados, que exploram continentes inteiros (ou mesmo transcontinentais) é bem visível, pois combinam os bens, os serviços e os preços respectivos, de forma a que não entrem em concorrência direta, umas com as outras. Também a própria malha de supermercados demonstra isso, ao se implantarem as novas unidades a certa distância de outras, já presentes, num dado raio.

Estes arranjos, que não são novos, passam a ser muito mais complicados na era da Internet, com a profusão de toda a espécie de vendas «on line». Mas, muito rapidamente, no Ocidente, apareceu um gigante da distribuição, a «Amazon», que monopoliza a própria clientela, fazendo com que esta acabe por ser cliente cativa dos produtos e serviços on-line. Por outro lado, a empresa que não tem seus produtos na Amazon, fica praticamente excluída do mercado. O mesmo se passa com as plataformas gigantes da China e de outros países asiáticos.

Em todos os domínios da economia, o Estado, por mais poderoso que seja, fica relegado para o papel de «homem de vendas», estabelecendo acordos comerciais, acordos de fornecimento de armas ou de energia, etc., com outros Estados. Este seu papel de «caixeiro viajante» ao serviço dos grandes potentados da indústria e serviços, mostra a secundarização do papel das entidades estatais, sobretudo no âmbito internacional. Note-se que o Estado está - em simultâneo - cada vez mais presente e invasivo (com a ajuda das grandes empresas tecnológicas) no interior de cada país. O Estado-polícia, ao serviço dos grandes interesses corporativos, está a fusionar com estes mesmos interesses, em tudo o que lhes possa trazer vantagens.

Na economia, os  sectores produtivos já não estão sob comando do Estado desde os anos oitenta, pelo menos. O exercício de «traçar as grandes linhas do plano», já não subsiste em muitos casos, noutros ainda se pratica, mas sem qualquer efeito, apenas como mero exercício retórico.

A economia, sob o comando do capital monopolista, está a subordinar os poderes do Estado, desde o Governo, ao Poder Legislativo e mesmo ao Judicial. Os grandes multibilionários ditam os seus termos ao Estado, sendo este obrigado a promulgar sob forma de decreto ou de lei, com ou sem um arremedo de debate no parlamento. A inteira classe política sabe isso perfeitamente; continua a representar o "teatro do poder", pois isso lhes traz vantagens pessoais. O enriquecimento súbito de certo número de políticos não pode ser devido a eles terem extraordinárias capacidades, nos domínios dos negócios. Proliferam formas encobertas de suborno, incluindo a corrupção «legal». Mas, também continuam e florescem formas de enriquecimento ilícito: As contas «off-shore» acumulam no total muitos biliões de dólares, protegidas por «Estados fictícios» com zero vigiliância sobre o que as sucursais dos bancos fazem no seu território. De vez em quando, alguns políticos acenam com a extinção de tais «paraísos fiscais», mas é apenas para se revestirem de um manto de virtude, para impressionar eleitores ingénuos. Este regime de encobrimento de capitais tem sido protegido, ao ponto de atividades claramente criminosas (tráfico de drogas, de seres humanos, e crimes financeiros diversos...) serem protegidas por arrastamento. Não são aplicadas regras de transparência, pois estas também atingiriam as contas de dinheiro desviado ao fisco , ou resultando de corrupção, ou de negócios «legais» mas encobertos.

Quando abordamos a estrutura deste capitalismo, não podemos passar por cima dos principais atores. Estes estão concentrados nos EUA e Reino Unido, com uma grande percentagem dos tais paraísos fiscais. Os principais beneficiários deste «escudo protetor» são - sobretudo - magnates anglo-americanos. Claro que as «elites» políticas e económicas de outras nações se aproveitam das facilidades conceditas nestas jurisdições aos muito ricos. É mais um elo de corrupção e dependência, em relação ao poder anglo-americano. Um dos pólos desta estrutura receptadora, está em Delawere, o Estado dos EUA de que Joe Biden foi governador. Mas os bancos e os locais geográficos onde se efetuam os branqueamentos de capitais do crime, são muitos. As malhas são muito largas. A CIA e outras agências estão bem ao corrente desse sub-mundo de negócios mafiosos. Servem-se dessas redes como forma de financiar operações de subversão nos mais diversos recantos do Mundo. Outro pólo é a City de Londres, que controla os fluxos de capitais de boa parte do mundo ocidental. Associados à City, estão muitos territórios ligados à coroa britânica, que não são formalmente colónias; têm regimes jurídicos a preceito, para ninguém controlar o que se passa nas suas instituições bancárias.

Entendo que a «grande acumulação primitiva» ocorreu quando espanhóis e portugueses se expandiram no século XVI, com as expropriações violentas e genocidas. Elas marcaram a fase inicial do capitalismo. Porém, a acumulação continuou pelos séculos, sob forma de colonialismo e de neo-colonialismo, até ao presente. As formas evoluíram, pois já não se trata agora de genocídio de ameríndios, nem de escravização de grande parte do continente africano. Mas os processos atuais de extração de renda não são numa escala menor: Considere-se as riquezas minerais que são extraídas de África, desde há séculos e até hoje. Estas atividades de mineração são de grande brutalidade, debelitam muito cedo os que aí trabalham, mantém-se uma população semi-escrava (incluíndo crianças), que aí trabalham. Estas condições de exploração são perfeitamente conhecidas das instituições internacionais, muitas destas atividades mineiras são realizadas por exploração direta das multinacionais ocidentais, outras são por empresas locais, mas fornecendo os mercados ocidentais. O público dos países que beneficiam destas formas de exploração é mantido «numa santa ignorância».
O processo de ocultação da exploração, com umas migalhas para as classes laboriosas dos países ricos, não é de agora. De facto, todo um setor das «ciências empresariais» dedica-se a encontrar formas, não apenas de fornecer novos produtos e serviços, como de suscitar no público a euforia consumista, com todo o desperdício que isso implica, mas com o benefício para os agentes de tal desperdício. No capitalismo, o ambiente foi sempre tratado como um recurso explorável, como algo que é lícito o empresário maltratar como quiser, visto que - ou é sua propriedade, ou de «ninguém», ou seja, são terras «baldias». Esta mentalidade foi-se mantendo e reforçando. Porém, o progressivo aumento da consciência sobre a destruição embiental que ocasiona, obrigou os especialistas de «Public Relations» a inventar o «capitalismo verde», «amigo do ambiente», cujos produtos e serviços podem ser consumidos, sem má-consciência, pelo público sofisticado e «ecológico» dos países ricos. Muito do chamado «capitalismo verde», tem estado a revelar-se uma forma ainda mais agressiva de depredação ambiental, pior ainda que os métodos tradicionais. Mas, muitos dos efeitos nefastos para o ambiente e para as sociedades, passam-se a milhares de quilómetros dos locais de consumo. É caso para dizer: «longe da vista, longe do coração».

sábado, 7 de fevereiro de 2026

CRIMES TERRORISTAS DOS ESTADOS: SEMPRE COM IMPUNIDADE



Parece que as pessoas e instituições (desde as judiciais, aos órgãos da media) são incapazes de ver ou de avaliar correctamente os crimes em massa, quando estes são cometidos por entidades estatais. Principalmente, os crimes de guerra, no âmbito de guerras declaradas, ou não. Mas também atos criminosos contra indivíduos, apesar de totalmente transparentes quanto a quem os encomendou.
Irei citar, em breve resumo, alguns dos crimes terroristas recentes cometidos por diversos Estados, sem dúvida será uma lista muito incompleta. O meu propósito não é o de fazer contabilidade das ocorrências e das vidas ceifadas. Penso que este trabalho tem sido efetuado por agências oficiais da ONU. Os dados serão de relativo fácil acesso.
Muitos horrores cometidos por agentes ao serviço de um Estado, acabam por não ser contabilizados, pois esses agentes são considerados "autónomos " e portanto não incriminam direta e inegavelmente a verdadeira fonte estatal ou governamental, inspiradora de tais barbaridades. Nesta contabilidade, também deveriam figurar as guerras civis, as quais, praticamente nunca resultam de confronto armado puramente interno a um país. Há sempre facções pro-governamentais e facções rebeldes: Umas e outras são financiadas, armadas e auxiliadas por potências estrangeiras.
A chamada "razão de Estado" é frequentemente invocada, mormente em contexto de guerra, mas não só, para inocentar de responsabilidade os governantes ou militares de alta patente, que ordenaram ou foram coniventes com crimes em massa contra civis.
Se, por um lado, é ingénuo querer que a guerra - violência estatal organizada em máxima escala - possa jamais ser 'civilizada", por outro, não denunciar, não dar a conhecer à cidadania os horrores que nela ocorrem, quaisquer que sejam as responsabilidades dos exércitos em confronto, é um ato de encobrimento, portanto de conivência com os ditos crimes.
Por isso, os poderes tentam intimidar das mais diversas maneiras ( difamação, blacklisting, expulsão, prisão, ou pior, assassinato), aqueles e aquelas que dão a conhecer os crimes estatais .
A passividade da opinião pública no Ocidente, não significa que haja consentimento. Muitas vezes, trata-se de ignorância dos factos. Porém, ainda mais frequente, é quando existe uma ideia errada, devido a campanhas destinadas a denegrir as vítimas dos atos repressivos estatais, como se elas fossem uma ameaça real (que quase nunca são) da sociedade civil.
Os defensores ideológicos destes atos criminosos, por parte de um governo, costumam utilizar, entre outras, a tática de diversão, de dizer que os "outros" cometem também atos terroristas. Seja isso verdade ou não, os atos contra os civis não-armados, portanto causando deliberadamente vítimas inocentes, são claramente atos de terrorismo, não diminuindo, antes aumentando de gravidade, quando efetuados por militares ou policiais, agentes de um Estado.

Não sei por onde começar, tal é densa a lista que povoa os últimos decénios, de crimes perpetrados - diretamente ou indiretamente - por Estados, dos quais não se fala, ou se fala pouco. Quanto a fazer-se justiça, em relação aos responsáveis por tais crimes, uma pessoa pode ter idealmente o desejo de que «justiça seja feita», mas quando a máquina de justiça dos estados está completamente dependente dos que dispõem do poder, apenas se poderá ver condenações em situações excepcionais, a impunidade é a regra.

Desde a série de escândalos relacionados com o caso Epstein, que tem raízes fundas, pelo menos até aos anos 80 do século passado, até aos casos de arbítrio recentes, de autoria de uma Comissão de Bruxelas, que mais parece uma entidade imperial, ditando o seu querer arbitrário a cidadãos e a Estados, sem qualquer suporte legal verdadeiro, nem sequer o suporte da legalidade produzida pela própria U. E. , temos uma coorte de casos onde as pessoas simples cidadãos são vítimas do poder absoluto, não-questionável, não-revogável.
Porém, tais casos e seu significado em relação à podridão dos sistemas políticos e judiciais e à sua decadência moral, são relativamente pouca coisa, comparados com os crimes de guerra continuados, especialmente os cometidos pelos exércitos dos países da OTAN, nos últimos 30 anos.
Lembremos o bárbaro bombardeamento da Sérvia e de Belgrado, estreia da OTAN em termos de território europeu. Lembremos o horror dos bombardeamentos arrasadores no Afeganistão, típica punição colectiva a um povo, supostamente por albergar membros da Alquaida... A que temos de acrescentar o cortejo de atos de repressão contra a população civil. Lembremos as guerras do Iraque e da Líbia, lançadas sob falsos pretextos, tendo causado morticínio na população civil, em ambos os casos, para obterem o derrube de ditadores que deixaram de se submeter aos ditames o Império. Vemos como transformaram países com imenso potencial em Estados falidos. Se quiserem encontrar exemplos de práticas coloniais, das mais retrógadas, no século XXI, basta olhar para o que as forças americanas, apoiadas pelos lacaios /«aliados», fizeram no Iraque e na Líbia:
- Um Estado fraccionado em zonas de influência étnico-religiosa: O Norte - Curdo; o Centro - Sunita e o Sul - Xiita.
- No caso da Líbia, ainda foi pior: o Estado africano com melhor índice de vida, transformou-se num (não-)Estado fraccionado entre feudos que se guerreiam entre si, onde as populações vivem na miséria, onde Tripoli e outras cidades são palco de mercados de escravos, como há 600 anos atrás!
Belo trabalho das forças armados das EUA e comparsas.
O sofrimento das populações é sistematicamente desprezado e as campanhas de sanções visam originar escassez, em países com poucos recursos ou até em países com bastantes recursos, mas sujeitos a bloqueios, de que as populações são vítimas. Foi assim que os americanos e seus aliados regionais venceram as forças de resistência  contra os salafistas e outros fanáticos religiosos fundamentalistas, na Síria. «Democráticos islamistas» foram alimentados em armas e financeiramente pelos EUA e seus Estados vassalos na região.
- É assim, à custa de centenas de milhares de mortes por falta de nutrição e recursos de saúde básicos, que pretendem vencer a resistência palestiniana, uma solução final para a Palestina e Gaza, defendida pelos governos dos EUA e Israel: Trump e Natanyahu estão de mãos dadas para levar até ao fim o genocídio da população de Gaza, para implantar nela a «Riviera» no Leste do Mediterrâneo!
E não existe indignação, repúdio suficiente, nas pessoas ditas «normais», no Ocidente:
Elas - infelizmente - não estão ao nível de consciência moral da «Action for Palestine», um grupo de ação direta não violento, que conseguiu provocar o debate na sociedade, mas à custa de tantos sacrifícios.
O poder de Estado reprime, difama impunemente, prende, tortura, mata, sem se importar com a reação do público. Este, tem medo ou está enganado pelas narrativas tendenciosas, que governantes, partidos no poder, o establishment e a media corporativa segregam de forma hegemónica. É preciso descaramento para designar por democracia o que se passa hoje nos países Europeus Ocidentais. Por exemplo, na Alemanha, uma afirmação de dissidência em relação à guerra contra a Rússia, pregada desde o governo e partidos maioritários, pode valer a um indivíduo a destruição de sua vida profissional, buscas arbitrárias e até prisão, baseada em falsidades. Tudo isto acaba por ser «admitido» por uma parte da população que crê - ou finge crer - que estas pessoas são «traidores», «agentes da Rússia», etc. Nem os deputados (poucos) que denunciam estas arbitrariedades e violações descaradas da Constituição, estão livres de receberem a insultuosa acusação de «agentes do Kremlin».
Estamos numa época bem triste, bem contrária à esperança ingénua de um Mundo por fim livre do pesadelo da guerra nuclear, que os europeus - à esquerda, à direita e ao centro - julgaram que se tinha iniciado com a implosão da URSS e a intensificação de laços económicos, sociais, políticos e culturais entre os povos do Leste e Oeste, após a «caída do Muro».
Hoje em dia, as pessoas não sabem (ou não querem saber) que o sacrifício de toda uma geração (ou melhor, de várias) quer na Ucrânia, quer na Rússia, são a expressão de uma regressão civilizacional. O processo de resolver diferendos pela negociação, pela diplomacia, está posto de lado, por mais que se «fale» de conversações de paz. A monstruosidade do que tem ocorrido nos 4 longos anos da intervenção russa na Ucrânia, vem - apesar do que se possa pensar - satisfazer os propósitos estratégicos das duas maiores potências mundiais. A China, com um acrescido domínio dos mercados e maior capacidade de estabelecer acordos com países do Sul Global, é a potência ascendente, que consegue colocar em xeque a potência ainda dominante. Esta, os EUA, consegue manter a hegemonia do dólar, seu principal objetivo, à custa de atos de guerra e de pirataria (como o rapto do Presidente Maduro, da Venezuela) e de usar a chantagem de intervenção armada contra países que não se dobram às suas exigêngias, mesmo os não alinhados ou amigos: Mostra assim que não tem respeito pelos direitos e pela soberania, seja qual for o país (veja-se casos do Canadá, da Dinamarca e Groenlândia, além da Venezuela...).
Num mundo assim, o Direito Internacional é apenas invocado por conveniência. As faltas crassas aos seus princípios, não trazem consequências de maior, para aqueles que estejam em posição de primeiro plano, ou enquanto aliados de conveniência daqueles.
O Direito pode parecer irrisório quando a força predomina. O facto é assustador, porque nos faz lembrar o período entre duas Guerras Mundiais. Foi um período de grande instabilidade, de miséria económica em muitos países, de compromissos rompidos, de ausência de escrúpulos, de repressão política feroz, de cinísmo.
A ONU, que resultou diretamente da II Guerra Mundial, está em crise de autoridade profunda. Há quem queira «ultrapassar» esta entidade global (caso do "Board of Peace" de Trump), para impor a sua hegemonia numa parte do globo. Um mundo fraccionado desde modo, não poderá ser outra coisa de que um mundo permanentemente em confrontos locais, parciais e à beira de confrontação global. Os mais pobres estarão completamente desprotegidos; a própria noção de legalidade internacional poderá ser deitada pela borda fora pelos Estados mais poderosos.

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NB: Para quem não tenha lido as minhas posições no imediato seguimento da invasão russa da Ucrânia, aqui fica a ligação a um artigo de 06 de Março de 2022:

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O TOMBO FABRICADO DA COTAÇÃO DA PRATA - UMA ANÁLISE




O mercado da prata no COMEX (Chicago) foi a cena de um golpe, protagonizado pelo maior banco comercial dos EUA, seguido pelos outros grandes bancos. Com efeito, desde há alguns anos, o banco J P Morgan, sob a liderança de Jamie Daimon, tem acumulado uma grande quantidade de prata em armazéns privados. Esta acumulação permite que o banco beneficie da atual subida histórica dos metais preciosos. 
Também é este banco que é emissor e garante dos EFT de prata, ou seja, de contratos de futuros, que são negociados nas grandes plataformas de matérias-primas, COMEX, LBMA (Londres) e Xangai (Shanghai Metals Exchange).

Na sexta-feira 30 de Janeiro, a uma hora precisa, houve uma venda massiça e coordenada de prata-papel no COMEX, seguida de venda deste metal precioso noutras bolsas de metais preciosos. A descida brusca e inesperada, após venda em grande volume, fez disparar os marcadores de venda, que os «traders» colocam para a eventualidade de uma súbita descida abaixo de um dado nível. O nível da descida da cotação deste metal ultrapassou, em percentagem, todas as descidas havidas desde há 30 anos. Com efeito, a descida súbita de um item, é normalmente indicativa de uma mudança não-prevista, o que se chama um «Cisne Negro».

Tanto os profissionais «traders» que operam por conta própria, como os que estão ligados a organizações (bancos, fundos de investimento, etc.) têm de responder a estes sinais, ou seja, liquidar posições a um dado preço, para que não sejam apanhados por uma descida exponencial e incontrolada de um ativo.
Assim, J P Morgan e outros grandes intervenientes, puderam comprar a muito baixo preço este metal precioso, que tinha estado a subir demasiado depressa, em relação ao que eles desejavam.
A supressão do preço de um metal precioso é uma manobra ilícita. Porém os fiscais nada fazem. Na verdade, estes não são realemente entidades independentes. Aliás, muitas pessoas suspeitam que eles recebem ordens do governo e não exercem seus poderes, se a manobra é feita com a conivência do dito governo.
A prata tem tido um crescendo de utilização industrial, nos painéis foto-voltáicos, na electrónica, na medicina e num elevado número de aplicações: Um painel votovoltaíco contém 20 gr. de prata; agora multiplique-se pela produção corrente destas unidades ao nível mundial. A prata é - inclusive - indispensável para armas sofisticadas como os mísseis «patriot» ou «tomahawk».

Lançando enorme volume de contratos de futuros deste metal no mercado, o Banco J P Morgan causou um primeiro choque, que depois foi ampliado pelo disparo de controlos, posicionados nas diversas contas contendo prata física como ativo. De seguida, muitos pequenos aforradores, em pânico, precipitaram-se a vender barras e moedas por um preço muito baixo, muito menos do que o preço pelo qual adquiriram a prata. Assim, os grandes atores - os grandes bancos, os Estados que lhes davam ordens, e  fundos de investimento - puderam adquirir grandes quantidades de prata física. Para isso, inicialmente, só tiveram de vender grandes quantidades de prata-papel (os contratos de futuros, ETF).
Este metal duplamente estatégico na índústria e «monetário» (cerca de 50% industrial / 50% monetário) tem sido armazenado por entidades poderosas. Além do banco JP Morgan, outros bancos e fundos privados; mas não se sabe, ao certo, quanto estas entidades acumularam, no total. O Estado Chinês tem armazenado grandes quantidades, não especificadas, com certeza à medida do gigantismo das suas indústrias.

O conflito militar pressupõe, no presente, uma guerra das tecnologias de ponta (chips, sistemas integrados em aviões de combate, mísseis, etc.). A concorrência na produção de equipamento militar é  duplicada por uma  concorrência na inovação tecnológica e no acesso preferencial, em condições de monopólio ou quase, às matérias-primas estratégicas (1). 

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(1) Veja-se o caso das «Terras Raras», por comparação. O caso da prata não se pode considerar análogo ao das «Terras Raras», pois existem em todos os continentes minas de prata, ou em que a prata é extraída como metal secundário. A sua refinação é um processo bem conhecido e otimizado. No caso das Terras ditas «Raras», estas estão bem distribuídas por toda a Terra emersa, embora haja sítios com concentração relativa maior. A situação de monopólio de facto, deve-se à exclusiva capacidade de refinamento da Rep. da China Popular, com 95% de produção de «terras raras» refinadas.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Lena Petrova: "EXPLOSÃO do DÉFICE dos EUA"


 Enquanto os dólares que saem dos EUA para pagamento de mercadorias e serviços é quase o dobro dos dólares obtidos pelos EUA do seu comércio exterior parece uma catástrofe, uma gigantesca situação de deficiência, afinal não é tanto. 

Lena Petrova explica que os dólares que saem, vão reentrar sob forma de investimentos estrangeiros, na maior parte em produtos financeiros (ações da bolsa, obrigações do Tesouro, investimento em fundos...) e/ou no mercado imobiliário. O défice comercial dos EUA, é facilmente colmatável, ao contrário dos outros países, que não possuem a sua moeda como moeda de reserva predominante ao nível mundial.
Mas a hegemonia do dólar em termos de comércio internacional tem sido posta em causa, por países dos BRICS e outros. Os BRICS totalizam mais de metade da população mundial e possuem cerca de 35% do PIB mundial. 
Se cada vez mais trocas comerciais são pagas noutras divisas e não em dólares, se se reduz acentuadamente a percentagem de treasuries (obrigações do Tesouro americano) guardadas em reserva nos cofres de grandes exportadores, como China, Japão e outros,  se o dólar já não é a divisa exclusiva para comprar petróleo, o processo  de colmatar o défice comercial graças a investimentos estrangeiros nos EUA, que terão de ser feitos em dólares, está em risco de falhar.
A defesa do dólar é a razão de fundo pela qual os EUA usam sanções  e tarifas aduaneiras como armas de guerra económica, inclusive contra parceiros e amigos: Estas guerras comerciais e as ações militares diretas pelos EUA (ou seus intermediários) nos últimos anos, mostram até que ponto a mecânica da circulação dos dólares ao nível internacional, é de importância vital para os EUA. 
É realmente uma fragilidade muito grande, dado que - ao contrário das décadas passadas - as produções exportáveis dos EUA se reduzem agora a material de guerra, a produtos agrícolas (soja...), petróleo e indústria do divertimento (Hollywood ...). Não há nada nestas exportações dos EUA que outros países não possam colocar no mercado, em condições concurrenciais.
A fragilidade tem por base uma redução da produção industrial nos EUA, a sua dependência aos outros, tanto em bens industriais, como agrícolas, por um lado; e, por outro, a necessidade do défice crónico americano ser colmatado pela compra por estrangeiros, de ativos em dólares. Ora, neste momento, muitos países (não apenas BRICS) promovem o comércio em suas divisas próprias, evitando o dólar.

O QUE DIZEM REALMENTE OS FACTOS?


 Tem razão a apresentadora, naquilo que aponta: o superpoder mais poderoso (os EUA) carece da flexibilidade e do dinamismo (da RP da China) para aguentar uma competição industrial "pacifica"  ou seja, sem desencadear um conflito armado .

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

[Crónica da IIIª Guerra Mundial Nº 55] A «ELITE» EUROPEIA e «Síndrome de Estocolmo»

 



A síndrome de Estocolmo designa um complexo, a que estão sujeitas as pessoas, perante um perigo extremo:

 - Quando estão nas mãos de alguém (ou grupo) que tem poder de vida ou morte sobre essas mesmas pessoas. Foi primeiro identificado tal complexo em Estocolmo, aquando de uma assalto a um banco, com tomada de reféns; depois constatou-se que o mesmo fenómeno psicológico ocorria em numerosos outros casos. Pelo facto de ter sido reconhecido e descrito primeiro no assalto em Estocolmo, ficou conhecido com esse nome, embora nenhum caso posterior tenha que ver com a capital sueca, nem com tomada de reféns num banco sueco.

As vítimas tomam a defesa dos sequestradores ou opressores, aparentemente sem lógica nenhuma e sem que fossem forçadas a falar em termos elogiosos. Os psicólogos sociais explicam o fenómeno em duas fases: 

- 1ª Um mecanismo de sobrevivência; incapazes de fazer frente aos raptores, adoptam a sua defesa, o que torna mais provável para eles (reféns) serem poupados; 

- 2º A afirmação dos reféns, sobre supostas qualidades positivas dos sequestradores, mesmo depois de serem libertados, é um mecanismo de auto-convencimento e desejo de justificação, do seu comportamento, enquanto estiveram nas mãos dos criminosos.

No caso da Europa, nota-se que as lideranças políticas adoptaram uma postura agressiva, inicialmente, em relação à Rússia, sobretudo para agradar ao seu senhor feudal (os EUA). Também estavam convencidos que seria uma vitória fácil, um desmoronar da Rússia como se fosse um gigantesco castelo de cartas. Mas, a Rússia não era, de modo nenhum, a preza fácil que os ocidentais imaginaram. Mais uma vez, recorreram  à guerra por procuração, usando os ucranianos como carne para canhão. A evolução da guerra russo-ucraninana surpreendeu «toda a gente», ou seja, aqueles que estavam convencidos da veracidade da propaganda ocidental. 

O medo artificial existente na Europa, nutrido pelas narrativas de propaganda ocidental sobre a Guerra-Fria e pela confusão permanente (induzida pelos poderes e a midia) entre o período soviético e o regime atual na Rússia, de cunho liberal democrático, convenceu muitos de que perante uma derrota da Ucrânia, os russos iriam descer por aí abaixo e só parariam, no mínimo, perante as ondas do Atlântico. Esta construção foi cuidadosamente nutrida pelas oligarquias do Ocidente e seus homens e mulheres de mão, no aparelho político europeu. Estes estavam conscientes que se tratava de um exagero e, mesmo, de impossibilidade técnica, dado o número de tropas e a força militar global necessárias para os russos poderem (se quizessem) levar a cabo uma tal conquista. 

Os imperialistas americanos foram os que prinicpalmente beneficiaram desta charada sangrenta com os seus milhões de mortos e feridos:

A destruição das indústrias mais competitivas na Europa, a imposição dos 5% em gastos militares dos países da OTAN,  e o controlo nos planos militar e político. A venda de gás americano à Europa Ocidental 5 vezes mais caro, que o gás antes comprado à Rússia através de gasodutos, foi causa da perda súbita de competitividade das indústrias europeias, mesmo as mais robustas, porque os custos de energia são uma fatia importante dos custos de produção.

Mas, a trajectória dos EUA, sob Trump, especialmente no segundo mandato, foi uma surpresa de todo o tamanho. Lembro-me das lágrimas de espanto e consternação, na plateia de líderes europeus da conferência de defesa de Munique (em 2025, salvo erro) ao ouvirem Vance, vice-presidente dos EUA, falar com enorme desprezo face à elite política europeia.

Não nos devemos espantar de que Trump e próximos, tenham decidido dar um estatuto de «protectorato» americano ao que antes era território autónomo da Dinamarca. Os neo-cons que o aconselham, viram que o objetivo deles em manter a hegemonia mundial era irrealista. Decidiram que a melhor opção seria de dominar o continente americano, de Norte a Sul, Groenlândia incluída, pois assim ficavam com possibilidade de controlar as novas rotas do Ártico, que russos e chineses já começaram a explorar e que encurtam o tempo das viagens de 40%, das costas da China às da Europa do Norte .

A economia, o controlo das rotas, os meios militares ou outros, para submeter vassalos e dissuadir inimigos; tudo isso, são planos megalómanos, mas que não se podem conseguir pela força. A primeira Rota da Seda, que partia de Xi'En na China, chegava a Veneza e a outros portos. Ao contrário das rotas marítimas iniciadas pelos portugueses e outros, no século XVI, não era uma rota imperialista, aberta e mantida à custa de força militar. Era uma rota servindo de ponte para o comércio entre reinos vizinhos ou distantes. O comércio era e continua a ser mais forte que os exércitos, que a força. Por isso, os que se escondem por detrás de Trump, vão ter que recuar, pois existem constantes no mundo, apesar das enormes diferenças técnológicas das sociedades, ao longo da História. 


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https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2026/01/america-e-uniao-europeia-em-processo-de.html

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

América e União Europeia em "processo de divórcio "[Crónica da IIIª Guerra Mundial nº54]

 

A crónica de Pepe Escobar é autêntica ou fake? « A Europa Pode Sobreviver Sem a América? O Fim de 80 Anos de Aliança»: é um vídeo que tem um texto que não me convence de todo. Começa com algumas evidências, para não dizer lugares comuns. Depois, faz conjecturas, demasiadas, para um verdadeiro jornalista, como é Escobar. A qualidade de um jornalista especializado em geopolítica deve ou deveria ser de focalizar o discurso naquilo que é, não especulando sobre os comportamentos futuros de A, B ou C. Além disso, sujere que a Polónia e os Estados Bálticos foram «vítimas» do Estado Soviético... Eu sei que os referidos povos viviam em condições materiais melhores que os cidadãos da Rússia, no período do pós-guerra até 1990. Isto pode parecer estranho para os ocidentais, que estavam sempre (e continuam) inundados por narrativas anti-soviéticas e anti-comunistas. 

De qualquer maneira, eu acredito na inevitabilidade de um divórcio entre os EUA e a Europa, se Trump e a sua equipa continuarem no rumo traçado desde o princípio do mandato nº2 de Trump (e mesmo antes). Em poucos meses a Europa foi humilhada em várias frentes:

-Diplomática: as conversões diretas entre Trump e Putin em Anchorage, no Alasca (europeus completamente afastados de negociações no que respeita a um eventual acordo de paz com a Rússia)

- Comercial: o forçar de um «acordo», que mais parece uma capitulação, quando os «aliados» (vassalos) europeus tiveram de «engolir» taxas alfandegárias de 15% e sob ameaça destas duplicarem, se as relações dos europeus com Rússia e China não agradarem ao «bully» na Casa Branca.

- Militar: A obrigação de subir para o nível de 5% as despesas orçamentadas com as forças militares, o equivalente a um imposto brutal e insustentável, mas que os governos tiveram de aceitar. Trump ameaçou com a saída das forças americanas estacionadas na Europa. Os governos europeus, sentiram-se de facto ameaçados, porque se viam de repente sem o aliado mais poderoso, com o arsenal nuclear capaz de colocar em xeque a Rússia.

- Económica: As sanções europeias contra a Rússia após a invasão da Ucrânia, em Fevereiro de 2022, mais pareciam auto-sanções. Quem mais sofreu, foram empresas agrícolas e industriais da U.E. que ficaram - de repente- sem uma boa fatia do seu mercado. 

- Energética: Num episódio grotesco, Biden ordenou a sabotagem dos gasodutos Nordstream 1 & 2. Cobardemente, a Alemanha e outros países da UE, que beneficiavam com o gás russo, fizeram como se não soubessem quem ordenara a sabotagem e porquê. 

Daí resultou:

a) Colapso industrial: O gás americano, 5 vezes mais caro que o russo, é transportado por navio desde os EUA e obriga a dispendiosas instalações portuárias para ser distribuído localmente. Foi a sentença de morte de muitas empresas industriais, que tinham uma alta fatura em energia.  As empresas que sobraram, em geral mega empresas, como a Volkswagen ou a BASF, foram para a China ou para os EUA. As condições eram melhores nestes países, tanto em custos de energia, como em impostos, regulamentações ambientais, encargos salariais... A Alemanha e outros países do centro e norte europeu experimentaram uma desindustrialização severa e súbita. 

b) Na realidade, o poder hegemónico estava a obrigar os seus vassalos europeus a um regime incompatível com a manutenção do nível de salários, de pensões, de apoios sociais, na maioria da U.E., que tinha vigorado desde há mais de 50 anos. Estava a obrigá-los a submeterem-se, a ficarem «pés e mãos» atados ao poder Imperial, quer pela despesa militar acrescida (que vai enriquecer empresas americanas do complexo militar-industrial), quer pela dependência quase total em energia (escoamento do gás e petróleo de xisto americano). 

c) A humilhação máxima aos europeus, ocorreu quando Trump ameaçou ocupar (militarmente) a Groenlândia, um território autónomo associado à Dinamarca. Isto deveria ter causado um corte na OTAN, com os EUA, pelos «aliados». Mas, os governos europeus não tiveram coragem de dizer -«olhos nos olhos»- a Trump, que ele estava enganado, que a Europa não era «colónia» dos EUA. Perante esta atitude de encolhimento, a intenção do bully máximo será de redobrar a chantagem com suas vítimas, para que estas cedam ainda mais. 

Não é obrigatório, aliás, que aquilo que Trump procura, seja o território da Gronelândia. Os EUA já tinham obtido da Gronelândia, tudo aquilo que queriam: Desde a «Guerra Fria nº1» que tinham uma importante base militar em Thulé. Tinham todo o controlo do espaço aéreo. A soberania da Dinamarca sobre o território, já era apenas nominal. 

Aliás, seria totalmente impensável que a Dinamarca, ou o governo autónomo da Gronelândia, dissessem «não» ao reforço dos dispositivos da OTAN nesta ilha setentrional ...  A insistência em adquirir ou ocupar a Gronelândia pode ser lida de várias maneiras: Uma delas, é de se tratar de um bluff... Trump obteria, em compensação de sua renúncia a ocupar a Gronelândia, acordos vantajosos, que dinamarqueses e a Comissão de Bruxelas aceitariam, como meio de «salvarem a face». 


Conclusão: De qualquer maneira, os co-autores de tudo isto são os políticos no poder, na Europa (ao longo de décadas). A ideia de que a Europa não pode ser um espaço de paz e liberdade, se os diversos Estados não estiverem reunidos numa estrutura supra-nacional, cada vez mais autoritária, é uma enorme falácia. Na realidade, esta falácia tem servido aos Estados mais fortes, em detrimento dos mais pequenos, ou mais frágeis. 

Na realidade, os satrapas que passam por ser nossos dirigentes nos países europeus, integrados na OTAN, são os responsáveis. Mas nós, povos europeus, somos as vítimas. A ex-Jugoslávia e a Ucrânia contam às dezenas ou centenas de milhares, os seus mortos nas guerras diretamente protagonizadas (ex-Jugoslávia) ou incentivadas e apoiadas   (Ucrânia) pela OTAN e pelos seus Estados mais poderosos. Muitos povos europeus do Leste, Oeste, do Sul e do Norte, têm sofrido os programas de austeridade e agora vão decuplicar tal austeridade. O nível do apoio social prestado (Estado de bem-estar ou Welfare-state) nos países da Europa ocidental degradou-se, desde que se deu a implosão da URSS e do Pacto de Varsóvia. Agora, caminha-se para algo pior; a generalização da guerra, o que traz sempre miséria.

Será uma guerra pior que a IIª Guerra Mundial,  mesmo que não sejam usadas armas nucleares estratégicas ou tácticas. Basta ver o estado de destruição na Ucrânia. 

Os políticos europeus ocidentais insistem em «continuar a guerra até à derrota final da Rússia». Seria cómico, se não fosse mortífero para milhares de militares e civis (de  ambos os lados), que se batem e sofrem com uma das guerras mais cruéis em todo o mundo, desde a guerra da Coreia!

 





quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Estratégica Vitória da China



Os actos de pirataria de Trump contra a Venezuela e Maduro, não apenas foram a confissão da falsidade da «ordem internacional baseada em regras». É também ocasião para muitos governos terem compreendido que não se pode confiar no Estado-bandido ("rogue State") em que se transformou os EUA. Realisticamente, os dirigentes de nações menos poderosas estão desejosos de estabelecer, ou reforçar, laços com os BRICS e - em particular - com a China.

Mas, a sua derrota é também interna: As eleições de meio-mandato irão ser muito desfavoráveis: Já 22 senadores republicanos acabam de se pronunciar pela interrupção do mandato (impeachment) de Trump.
Não só ao nível da política institucional se multiplicam os sinais desfavoráveis para o presidente fora-da-lei: O povo dos EUA tem manifestado o seu repúdio pela política de Trump e sua administração. Ela está - literalmente - a asfixiar a classe trabalhadora e a classe média. As unidades especiais de polícia («ICE») não conseguem, apesar da sua brutalidade, conter a raiva do povo: 
Uma mulher de cerca de 40 anos, foi baleada, quando estava dentro do seu carro, por um agente da ICE. Não foi tratada nas urgências, acabando por morrer. A violência policial contra pessoas inocentes é sempre desculpada. A polícia alega sempre «legítima defesa» e os tribunais fingem que acreditam nisso.
Nos EUA, muitos já compreendem que este é um governo de gangsters, que se comporta com arrogância perante seus próprios eleitores. Os gansters ameaçam também quem protesta contra os atos contrários à Lei e ao Direito. 
Trump e os fiéis dele, não conseguirão fazer com que a cidadania iludida dos «MAGA» volte a votar por eles. Isso significa que perderão a maioria nas eleições. É provável que isto tenha sido um fator para Trump desencadear o ataque-relâmpago contra a Venezuela, convencido de que isso lhe daria um trunfo eleitoral.
Enquanto o desemprego cresce, os ficheiros Epstein vão sendo escrutinados, dando a dimensão real da colaboração do agente da Mossad e pedófilo, com o atual presidente dos EUA.
O desespero é de mau conselho, sobretudo para psicopatas; eles são capazes de tudo para não serem apanhados pela justiça.
Talvez os leitores não tivessem conhecimento de alguns factos aqui relatados. Porém, é a própria média americana que tem informado sobre a crise que o Império atravessa nos planos moral, económico e político.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

China lança sanções perante armamento de Taiwan pelos EUA





 O prof. Jeffrey Sachs detalha as sanções aplicadas por Pequim em retorsão pelo fornecimento de armamento sofisticado no valor de 11 mil milhões (11 «billions» em inglês) de dólares, que serão aprovados em breve pelo congresso dos EUA. 
Taiwan é um assunto de importância vital para a China. É parte integrante da China, mas alberga - desde 1949 - um regime protegido, em grande medida, pela intervenção americana, desde a guerra civil chinesa, do lado de Chian Kai-shek, o líder dos nacionalistas chineses. 
As tropas nacionalistas foram derrotadas na China continental. A Marinha americana ( que tinha então uma força hegemónica nos mares da China) transportou-as para Taiwan. O Kuomintang ocupou a ilha e durante dezenas de anos foram considerados os representantes legais de toda a China, a «República da China», enquanto a China Popular de Mao Tse Tung, não tinha representação nos foros internacionais, dominados pelos americanos e países ocidentais. Em população e em área, a China continental equivalia - pelo menos - a 800 milhões de pessoas, numa área semelhante à dos EUA. 

A viragem estratégica dos EUA data das negociações de Kissinger, ao serviço do Presidente Nixon, com o regime de Pequim, que foi reconhecido em troca da abertura do mercado da China continental ao comércio e investimento estrangeiro. Desta negociação, resultou que os EUA (seguidos, pouco depois, por quase todos os seus aliados), reconheciam Taiwan como fazendo parte da China e  o regime em Pequim, como representação legítima da nação chinesa, no seu todo. 
Os esforços, desde a presidência de Obama, para desestabilizar a situação, foram acentuados por sucessivas provocações:  Por exemplo, a visita a Taiwan de Nancy Pelosi, presidente do Congresso dos EUA, a figura nº2 da hierarquia do Estado americano. Esta visita foi orquestrada com honras de protocolo de Estado e sem - evidentemente - pedir autorização a Pequim para visitar este pedaço de território chinês. 

Os neocons, que dominam as instituições políticas principais dos EUA, fizeram «um mantra» da desestabilização da China, que vão recitando constantemente, enquanto a parte mais pragmática do establishment, que inclui empresários e seus representantes políticos, pelo contrário, preferiam manter um nível de relações «cordial» com as autoridades de Pequim, pois têm avultados interesses a proteger (fábricas de automóveis, de telemóveis, extração e refinação de matérias-primas para indústrias dos EUA, incluindo as «Terras Raras», etc).
Eu penso que esta gigantesca entrega de armas e material bélico sofisticado a Taiwan foi «a gota que fez transbordar o vaso». Os responsáveis de Pequim devem ter considerado que esta era a ocasião adequada para mostrar ao governo dos EUA, como era doloroso para eles, americanos, continuarem as suas provocações envolvendo Taiwan, com acumulação de material bélico na ilha. 
A paciência dos chineses, especialmente do governo de Pequim, esgotou-se; quando isso aconteceu, deu um golpe certeiro e com efeitos de longo prazo. As empresas sancionadas incluem gigantes construtores e fornecedores da força aérea BOING e Northtrup, mas também «start ups» envolvidas na construção de «drones»; além disso, vários CEOs de empresas americanas foram sancionados inviabilizando a sua deslocação à China em negócios...  
O que caracteriza o pacote de sanções chinesas contra os EUA é o debilitar da capacidade - presente e futura - das indústrias dos EUA em construir armas sofisticadas, além de computadores e material de uso civil.


Veja também:


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A GUERRA NÃO DECLARADA JÁ ESTÁ AQUI HÁ BASTANTE TEMPO [Crónica da IIIª Guerra Mundial nº53]



Quando os dirigentes da Europa ocidental, quer na UE, quer na OTAN, ameaçam a Rússia com uma guerra devastadora, o que é que têm estes 'valentes' (que mandam os outros combater)?
Não me estou a referir a patologias; certamente, as têm e do foro psicológico. Não; estou a referir-me ao que têm em termos de meios quer humanos, quer logísticos, quer armamentos.
Quanto a economia, já estamos conversados; eles próprios «lamentam» que nestes três anos de guerra na Ucrânia, não conseguiram (dizem eles) evitar a compra do petróleo russo. Quanto ao gás, a auto-sabotagem do gazoduto Nordstream, foi encarecer a produção industrial não só na Alemanha, como noutras nações da UE. A sua dependência em relação aos produtos russos é maior do que muita gente pensa: Eles precisam dos adubos sintéticos feitos na Rússia, para que a sua agricultura não baixe dramaticamente de rendimento.
Também precisam de metais estratégicos e «Terras Raras» e não têm escolha senão ir buscar à China ou a outros países dos BRICS, pois eles próprios (tal como os EUA) deslocalizaram há muito a refinação destes minerais, deixando para o Terceiro Mundo a tarefa poluente de transformar minério em metal purificado. Estas Terras Raras são indispensáveis, não apenas em aplicações de eletrónica e microinformática civil, como também militar. Quanto aos metais estratégicos: Sem o titânio e outros, não se podem produzir ligas metálicas para aviões militares, tanques, etc.
Além disso, estão mergulhados numa crise política profunda; por mais que ocultem, os povos estão descontentes, dissociados e mesmo hostis aos projetos militaristas. Estes, são acompanhados por maior vigilância e repressão contra a dissidência, numa postura autoritária que já não se disfarça (veja-se o caso de Palestine Action, no Reino Unido, e repressão massiva e indiscriminada contra os que protestam contra o genocídio em Gaza). - A impopularidade destes governos é inédita. Por exemplo, um partido nacionalista conservador, a AfD, na Alemanha cresce nas sondagens, como sendo o primeiro partido na escolha dos alemães.
Todas as reuniões e declarações dos chefes de Estado e de Governo dos países da Europa ocidental, são atoardas de quem pode vozear em relação ao «inimigo» declarado, mas não tem meios próprios para sustentar uma guerra direta.
A estratégia, simultaneamente cobarde e suicidária (para os povos) é de multiplicar as provocações, lançamento de mísseis para território bem no interior da Rússia, atos de sabotagem, etc. 
Estes ataques são declarados como «façanhas» do exército ucraniano, quando todos sabemos que eles não fabricam estas armas; recebem-nas dos EUA países europeus da OTAN . Além disso, está comprovado que os sistemas atuais de mísseis são demasiado sofisticados e implicam pessoal treinado. O treino de especialistas ucranianos é demasiado longo para atender às necessidades: Logo, muitos dos que servem estes sistemas de mísseis são militares dos países ocidentais.
Apesar do black-out informativo, sabe-se que têm morrido ou ficado gravemente feridos membros das forças armadas de vários países da OTAN (EUA, Polónia, Reino Unido, França, Alemanha e outros), pois estes mísseis, estacionados em solo ucraniano, são obviamente um alvo para as forças aéreas russas.
A perversidade dos maquiavélicos, faz que estejam prontos a arriscar um confronto nuclear com a Rússia, confiantes de que será ela a vítima principal. Mesmo que tal fosse verdade, o que eu duvido muito, o sofrimento humano seria indicível, impossível de quantificar e recairia também sobre o ocidente, inevitavelmente.
Seria o fim da civilização ocidental. Significaria a destruição de centenas de milhares ou de milhões de vidas inocentes, a destruição dos ecossistemas, o seu envenenamento radioactivo durante inúmeras gerações, o que tornaria as cidades e os campos impossíveis de habitar.
Tudo isto é considerado um risco aceitável pelos que estão à frente das principais nações da UE e dos órgãos próprios deste super-Estado em construção.
O afastamento dos EUA em relação aos planos mais belicosos dos governos europeus da OTAN é uma boa coisa, pois sem o «guarda-chuva» nuclear dos EUA, a possibilidade de guerra total contra a Rússia fica mais remota, para não dizer inviável. Mesmo loucos fanáticos reconhecem isso, pelo que as atoardas de alguns políticos europeus vão somente contribuir para complicar os esforços de paz. 
Mas, sobretudo, destinam-se à política interna, a cercear as liberdades, perseguir os oponentes à guerra, intensificar a exploração para maior lucro das empresas, sobretudo das que se reconverteram a fabricar armamentos e munições.

Por todas estas razões, é fundamental que as pessoas tomem consciência e que ajam, dentro das suas competências, com os meios de que dispõem, para fazer obstáculo a esta onda de militarismo despudorado.
 A guerra na Europa ocidental (países da UE + Reino Unido) é - cada vez mais - uma guerra contra os seus próprios povos, contra os trabalhadores, os jovens, os empresários e todos os que têm contribuído para a riqueza e grandeza das suas nações respectivas.

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RELACIONADO:

 https://substack.com/@nelbonilla/note/c-180757735?r=9hbco


https://open.substack.com/pub/jonathancook/p/its-antisemitic-to-call-out-israels?utm_source=share&utm_medium=android&r=9hbco


Bruxelas decidiu no sentido de expropriar os bens financeiros russos congelados na UE:  

https://www.moonofalabama.org/2025/12/russia-counters-eu-shenanigans-to-steal-its-frozen-assets.html

Veja a seguinte entrevista com Alastair Crook:

https://youtu.be/gkJD1qHlHhw?si=kwa_bwVfIxvSeN2M

Excelente análise de Prof. Mersheimer:

https://www.youtube.com/watch?v=GOJerDDCnes

Conheça a avaliação por Martin Armstrong, de Zelensky e seu regime.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

SOBRE A GUERRA DAS TARIFAS

 

O prof. John Mearsheimer calmo e racional, desfia o rol dos erros estratégicos dos EUA nestes trinta anos de política hegemónica.  Como ele relembrou, a dominância dos EUA existiu durante algum tempo. Durante menos de duas décadas, parecia que nenhuma força poderia enfrentar o seu poderio.

 Entretanto, foi desenvolendo uma política de sanções, de instrumentalização do dólar e dos sistemas de pagamento e punindo com tarifas "amigos e inimigos". 

O prof. Mersheimer delineou neste vídeo a reposta da China. Esta foi paciente, dirigida para novas relações comerciais, oferecendo oportunidades de negócios, não colocando condições, nem influindo na política interna dos Estados, até que chegou o momento em que o mundo inteiro pôde comparar as duas abordagens do comércio internacional e tirar as óbvias conclusões: 

- Por um lado, um império decadente, agressivo, caprichoso, que só promete revoluções coloridas ou invasões, aos recalcitrantes; 

- Por outro, uma potência que aposta nas relações "win-win", que respeita a soberania e oferece estradas, caminhos de ferro, portos, aeroportos e mais infraestruturas, que os países do Sul Global tanto pecisam. A China ajuda-os  sair do ciclo de dependência neo-colonial. Este ano, a China teve um excedente comercial de 1 Trilião de dólares.





Paulo Nogueira Batista descreve o contexto