sábado, 24 de outubro de 2026
CHINA: ex-CEO de Evergrande condenado a prisão perpétua, por fraude
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
ESTAREMOS NA VÉSPERA DA EXTINÇÃO EM MASSA ... DO CAPITAL?
Sim, o capital pode extinguir-se. Não apenas o capital fictício ou financeiro, também o capital que se traduz em empresas, edifícios públicos (1), etc...
A loucura, ou hubris, que atinge a oligarquia mundial, arrastando um número considerável de papalvos da classe média dos países ocidentais, vai ser «a mãe dos rebentamentos das bolhas». Lembram-se das empresas fictícias (as «dot.com»), colocadas nas bolsas mundiais, sob pretexto falacioso da Internet vir aí e mudar radicalmente, não apenas o mercado de trabalho, mas a própria vida? Onde estiver «dot.com» coloque-se «IA» e terá uma imagem, mas para esta ser calibrada, terá de multiplicar pelo menos por 100 os capitais investidos que irão evaporar-se no éter, quando a bolha estourar.
Não acredito que os super-oligarcas que dirigem esta operação sejam completamente estúpidos. Além do mais, terão - com certeza - engenheiros, cientistas, economistas e outros peritos, que os aconselham em permanência. O entusiasmo dos governos em facilitar a instalação de data centers, ao ponto de fazer periclitar outros investimentos públicos, depredando as populações vizinhas destes monstros, duma rede eléctrica minimamente confiável, pior ainda, DE CORTES DE ÁGUA, como só experimentavam, até agora, as populações dos países ex-colónias...
Esse entusiasmo tem de ter uma explicação racional. Ora, dizer que são estúpidos, ou que não se importam nada com os seus súbditos, não é explicação nenhuma.
Claro que os grandes centros ditos «Data Centers» são óptimos para recolher, armazenar, catalogar e processar dados. Numa sociedade em que os súbditos estão (legitimamente) revoltados com a descida vertiginosa do nível de vida, será previsível que os «democráticos» governos do ocidente utilizem todo o arsenal de polícias-robotcops, de meios repressivos a todos os níveis, sobretudo de vigilância global, constante... É para isso que servirão os «Data Centers»: O modelo do Estado totalitário do século XXI.
No Ocidente, a possibilidade de recuperar o investimento em IA efetuado pelas empresas tecnológicas, é remota. Isso significa que é o público que irá cobrir o défice com os seus impostos. Pelo contrário, na China, a «revolução da IA» está a ser pilotada a partir do centro do poder. Não há nenhum perigo de «descarrilar»; verifica-se a execução de uma planificação. No centro da hierarquia do PCCh, muitos são engenheiros, cientistas. Isto contrasta com os advogados e politólogos que enxameiam as administrações dos países do G7, em particular dos EUA.
Não era preciso a bolha da IA para a economia ocidental descarrilar e colapsar. Bastavam as guerras causadas pelo imperialismo. A guerra de agressão contra o Irão, que retirou uma parte significativa dos combustíveis fósseis do mercado. Bastava o investimento demente em armas, que terão como única finalidade destruir pessoas e capital nos países considerados inimigos.
Mas, para qualquer problema, as luminárias que nos governam pensam sempre que a solução é «insistir, duplicando a dose», ou seja, agravando ainda mais o problema...
A Europa dos excluídos está a acordar. As «elites» do dinheiro e do poder, se julgam que a situação se resolve com «duplicar a dose» de repressão, estão realmente a acelerar a descida para o caos.
Não sei como, nem quando, mas talvez a morte do sistema venha aí, sem que a maior parte das pessoas se aperceba disso, pelo menos, no princípio. Quando a ilusão se desfaz, não há maneira de a reconstituir. Que seja o início do fim deste sistema iníquo.
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(1) A destruição do capital físico ocorre sobretudo nas guerras: Os detentores dos meios de produção preferem isso, porque depois da fase de destruição, eles conseguem arrancar para um novo ciclo, onde obtêm taxas de crescimento e de lucro muito mais elevadas...
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
HEGEMÓNICOS EM DERROCADA ALARGAM A GUERRA [Crónica da IIIª Guerra Mundial, nº73]
O interesse dos EUA é muito claro. A sua estratégia é a mesma que a do Império Britânico, nos seus dias de glória: Colocar os adversários do Império uns contra os outros. Não permitir que qualquer potência venha «fazer sombra» à potência hegemónica. Como dizia Lord Palmerston: «o Império não tem nem amigos, nem inimigos; tem interesses». Os EUA não estão interessados em entrar diretamente em guerra com a Rússia, ou com a China. Sabem bem que não poderiam sustentar uma guerra convencional, quer com um, ou com outro dos super-poderes seus rivais. Pelo menos, de momento seria impossível, pois estão em reais dificuldades no Médio-Oriente.
Os iranianos e os iemenitas tornaram-se mestres em guerra asimétrica. Os próprios Estados Unidos e os seus aliados na região (Israel e as monarquias do Golfo Pérsico), estão envolvidos numa guerra prolongada, que têm muito pouca probabilidade de ganhar. Aliás, está à vista que o campo imperialista já sofreu tremendas derrotas, apenas insistindo na continuação da destruição criminosa, porque o seu orgulho ferido não aceita negociar uma paz, em condições de fraqueza.
Neste contexto mundial, os «reinos satrapas» da Europa da OTAN, desempenham o papel que tinham tradicionalmente, ao lado dos EUA, potências bem menores, nas guerras por procuração que aconteceram ao longo da «Guerra Fria» e mais além, no período em que os EUA se sentiram como força mundial hegemónica, após a implosão da URSS e dissolução do Pacto de Varsóvia.
Como «reinos satrapas», os europeus da OTAN não têm independência em política, ou noutros aspectos. Trata-se de nações falsamente soberanas. Continuam a ter seus territórios ocupados com bases dos EUA, nominalmente da OTAN, mas geridas e guarnecidas essencialmente por militares dos EUA.
Ficam muito contentes, esses fantoches europeus, em mostrar protagonismo numa guerra contra a Rússia, para a qual, desde 2014 (data do golpe americano-europeu ocidental) fornecem armas, munições, tropas especializadas, vigilância electrónica e por satélite, ao governo neo-nazi, claramente opressor do seu próprio povo. Mas esta junta de nazis é acolhida em Bruxelas e nos centros ocidentais, como «heroís democráticos, que lutam pela independência do seu país face à bárbara invasão de Putin».
Acontece que, na realidade, a Ucrânia, fosse qual fosse sua realidade política interna, não poderia vencer o gigante russo. Os seus governantes sabiam-no e também o sabiam os dirigentes dos países da OTAN. Desde o príncipio, o interesse da nação ucraniana era entrar em negociações e obter um acordo, para um novo equilíbrio de coexistência, quer com os países da OTAN, quer com a Rússia.
Os políticos e diplomatas de ambos os lados sabiam isso. Porém, o governo ucraniano foi forçado a recuar (pela pressão ocidental e britânica, principalmente), quando tinha praticamente concluído um acordo de paz com a Rússia, em Março-Abril de 2022.
Eu não irei retraçar aqui as peripécias da guerra que continuou desde então. Tenho escrito desenvolvidamente sobre ela, mas sem pretender fazer um relato de cada desenvolvimento no campo de batalha. Porém, é claro para mim, desde o princípio, que se estava a sacrificar o povo ucraniano e a castigar o povo russo, sem nenhum respeito pelas vidas de centenas de milhares, agora de milhões, e sem querer resolver a guerra. Quanto mais durasse esta guerra, mais seriam favorecidos os interesses da casta militarista, do complexo militar-industrial e outros interesses inconfessáveis, nos países da OTAN.
Lamento dizer que a esquerda europeia, numa percentagem muito elevada, agiu como se se tratasse duma luta «da liberdade contra a tirania», sabendo nós que aquilo que se passou, desde o princípio, não foi nada assim. Como de costume, os elementos de esquerda na base, militantes e simpatizantes, foram enganados e muitos deram o apoio à política dos seus inimigos. Muito se deveu a esta miopia induzida, quer pela media corporativa, comprada pelos grandes capitais, quer também pelos estados-maiores de partidos e agrupamentos, incluindo alguns, ditos de esquerda.
Uma situação análoga a isso, foi a que ocorreu com o volte-face da esquerda parlamentar nas vésperas de 1914, que antes se apresentava como pacifista e anti-militarista e se deixou envolver no nacionalismo prevalecente, votando os créditos de guerra. Agora, a situação não é idêntica, mas é estruturalmente a mesma.
Porque os sectores de esquerda (as cúpulas) tinham a possibilidade de pressionar os governos da UE e da OTAN, para inflectir a sua política em direção a uma paz. Uma negociação, que implicasse as potências todas, para restaurar a paz e a confiança, refazer os laços económicos e culturais... Seria isto que se esperaria duma esquerda não vendida ao grande capital. Mas o que aconteceu, em relação a várias forças, foi o oposto. Assim, foi possível as forças mais retrógadas, militaristas, anti-trabalhadores, incluindo da extrema-direita a roçar o fascismo, tomarem um grande papel nestes países.
Haveria muito mais a dizer, mas prefiro apelar ao sentido crítico dos leitores. É necessário ter cuidado em não embarcar numa ou noutra explicação, aquando de episódios espectaculares, em especial, porque esta guerra se trava tanto ao nível das ações bélicas propriamente ditas, como de ações psicológicas. Ora estas desenvolvem-se para modificar a percepção da realidade, não apenas do inimigo, mas também dos próprios cidadãos dos países envolvidos. Estes não são apenas a Rússia e a Ucrânia, mas todos os países da OTAN, num grau maior ou menor e os países dos BRICS, quer como membros, quer como associados.
Trata-se portanto de uma guerra mundial, como tenho dito desde o príncípio. Continuada em todos os teatros bélicos, com confrontos de imperialistas ou de seus «próxis», com os países ou grupos que ofereciam resistência. Mas, como guerra híbrida mundial, envolveu muitos outros países, devido aos efeitos directos ou indirectos de sanções, mormente da iniciativa dos EUA e seus aliados. Um jornal médico muito prestigiado, «The Lancet», estimava num editorial, que o efeito cumulativo de sanções e embargos (ações ilegais, segundo a lei internacional), embora aparentando ser de âmbito económico, tinham causado 35 milhões de mortes desde há 40 anos. A maior parte das pessoas não tem ideia dos efeitos, quando os sistemas de saúde, de saneamento, de abastecimento alimentar ou em água, ficam parcial ou totalmente afetados. Por exemplo, uma epidemia de disenteria pode matar mais gente do que bombardeamentos (os dirigentes que decretam essas sanções sabem-no muito bem). Trata-se portanto de métodos de guerra, dos mais cruéis e eficazes, além de ilegais, face à lei internacional. Eles dirigem-se claramente à matança de inocentes. É esta política de sanções que o orgulhoso Ocidente tem para «oferecer» aos outros, especialmente aos países mais frágeis.
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
IDENTIFICAÇÃO DE ESPÉCIES PELO ADN ANTIGO: O caso de Homo denisovans
O documentário dedica um largo espaço a descrever o processo de descoberta da espécie «denisovana», descoberta a partir do ADN extraído de um dos ossos do dedo mínimo duma menina que terá morrido entre os 5 e 8 anos.
Junto com esse fragmento de osso do dedo na cave de Denisova (daí o nome da espécie) na região de Altaï, no sul da Sibéria, foram também identificados alguns dentes, pelo mesmo método, como pertencentes a denisovanos.
A partir desse momento, vários anos decorreram até serem identificados novos fósseis de denisovanos. Somente nessa ocasião foi possível «dar uma representação do rosto» desta espécie, contemporânea dos neandertais e dos humanos «modernos».
Vários fósseis não identificados, pertencentes a várias colecções na China, foram testados, esperando-se encontrar novos fragmentos de ADN de denisovanos. Porém, tal foi impossível, porque o ADN antigo se degrada com facilidade.
Apesar disso, moléculas de proteínas presentes nos ossos, como o colagéneo, podem ser sequenciadas em relação aos seus amino-ácidos, dando indiretamente a sequência correspondente no ADN. Foi assim que se identificou um fragmento de mandíbula, encontrada numa caverna do Tibete. Mais recentemente, foi estudado o crânio - muito bem preservado - do «Homem dragão», que tinha sido escondido durante mais de 80 anos, num poço, pelo trabalhador que o descobriu, em Harbin, perto do rio Dragão.
Tenho descrito, em várias postagens, os avanços das investigações em relação aos Denisovanos, mas também em relação aos Neandertais e a nossa espécie. Este vídeo, embora não traga dados novos, é muito completo em relação à metodologia de identificação e caracterização da nova espécie humana.
https://www.youtube.com/watch?v=UmLv8882htY
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
ENGRENAGEM LOUCA PARA A GUERRA GLOBAL (Crónicas da IIIª Guerra Mundial, nº72]
Bombardeamento Americano-Israelita no centro de Teerão em Fev.-Março de 2026
Poderia inaugurar o mês de Outubro descrevendo a crise moral que o «Mundo Ocidental» atravessa. Mas, em paralelo, tem estado a desenvolver-se uma crise, de ordem económica-financeira, da maior gravidade. Ninguém duvida, hoje , que os EUA e os restantes países do G7 estão num processo de acumulação de dívida pública, claramente insustentável. O (mau) reflexo de dirigentes do Japão e da Alemanha é avançar com posturas hostis, agressivas, ativando programas de rearmamento, respectivamente contra a China e contra a Rússia. Nunca estivemos tão próximos, desde o fim da IIª Guerra Mundial, de uma confrontação generalizada entre as principais potências e com envolvimento de potências de menor calibre. Porém, nós adoptamos um conceito de guerra híbrida e assimétrica, que pode acender-se em qualquer zona do Globo, principalmente envolvendo países do chamado Sul Global. Consideramos que existe há mais de 25 anos (desde 1999) um tipo de Guerra Global completamente novo, que decorre do facto dos EUA, enquanto potência dominante, querer que todas as restantes nações a se verguem à sua vontade: «Might makes right».
Na panóplia da IIIª Guerra Mundial incluem-se vários tipos de instrumentos:
- Os pacotes de sanções, juntamente com os confiscos de bens financeiros, as tarifas punitivas e os embargos.
- As guerras locais ou regionais, de tipo neocolonial, entre a potência hegemónica e Estados frágeis (Somália, Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Irão), usando frequentemente as dissenções nesses países e forças mercenárias, ao serviço de exércitos neocoloniais;
- Além disso, Israel e EUA têm impunemente destruído a legalidade internacional, danificando gravemente a autoridade e eficácia da ONU, enquanto organização destinada a prevenir e ajudar a resolver os conflitos. Transformaram a ONU num fórum irrelevante.
Sem querer reduzir tudo à economia e às situações de desequilíbrio financeiro, que se têm avolumado nos últimos tempos, é preciso não esquecer que estas situações de crise económica têm vindo a originar, em certos países, políticas belicistas de «fuga para a frente», com propaganda hostil, sanções económicas e acabando por se entrar numa guerra «clássica». Tais posturas, historicamente, foram adoptadas por muitos Estados, desde a Guerra do Peloponeso, na Antiguidade, até aos conflitos generalizados das duas Guerras Mundiais. Igualmente, ao longo dos séculos XX e XXI, nas guerras contra os poderes dominantes e pela independência e libertação do jugo neocolonial, os países colonizadores (ou neo-colonizadores) têm mostrado má vontade em encetar processos negociados, convencidos de que os povos oprimidos por eles «não podem governar-se a si próprios».
A guerra não é solução para os problemas. A crença de que é preciso uma guerra para os resolver, tem sido invalidada repetidas vezes. Mas, estou convencido que estamos a caminho de uma generalização do quadro de guerra híbrida, que tem durado desde finais do século XX, até hoje, e passaremos (talvez este ano ainda ou no próximo) ao envolvimento mais direto de grandes potências. Isso seria trágico, pois iria potenciar os conflitos existentes em vez de os resolver e, sobretudo, proporcionaria o alastramento e agravamento das ações de guerra.
Fala-se abertamente na utilização de armas nucleares ditas «táticas», apenas um passo mais na escalada que conduzirá - fatalmente - às bombas intercontinentais de grande potência, ou seja, à destruição garantida da nossa civilização e possível destruição dos ecossistemas capazes de sustentar a espécie humana.
PS: Entrámos na «estação eleitoral». As operações de falsa-bandeira começaram: Uma em Inglaterra, junto duma base da RAF em Fairford, mas que tem sido permanentemente usada pelos americanos, ultimamente, para bombardear o Irão. George Galloway assinala a incoerência do governo britânico, da CIA e do governo americano, ao indicarem que se tratava dum atentado terrorista em preparação, supostamente encomendado pelo Irão: Quanto aos «terroristas», estes foram deixados em liberdade sob fiança pela polícia, que tomou conta do incidente. Se fossem deveras terroristas, ou se houvesse sérias suspeitas disso, tal atitude da polícia seria impensável.
O segundo incidente foi com um avião das linhas aéreas do Dubai, voando do Dubai para Tel Aviv, tendo como passageiros quase só turistas (?) israelitas. No vídeo acima, de Kim Iversen, as incoerências do relato oficial são muito justamente apontadas:
Durante o vôo, o copiloto terá esfaqueado o piloto. Mas, graças à presença - por acaso? - de dois passageiros com capacidade de pilotagem de aviões de linha, o avião não se despenhou num deserto da Arábia Saudita. Foi controlado e aterrou com os passageiros a salvo, num aeroporto do Reino Saudita.
terça-feira, 29 de setembro de 2026
JEAN BRICMONT : PERMANECER EM SILÊNCIO
Se não conseguimos inflectir as violências dos nossos próprios governos, que sentido tem condenarmos as reacções violentas dos Estados ou movimentos que foram atacados por eles? pergunta Jean Bricmont.
Na fronteira Tunísia-Líbia, milhares de pessoas tentam fugir da Líbia, momentos antes da 'intervenção humanitária' da OTAN, a 2 de Março 2011. (U.N. Photo/UNHCR/Alexis Duclos)
By Jean Bricmont
Special to Consortium News
https://consortiumnews.com/2026/09/25/remaining-silent/

Vivi toda a minha vida na Europa e nos Estados Unidos, onde sei que quase todos — mesmo aqueles que afirmam estar em “solidariedade com a Palestina” — começam qualquer crítica a Israel ou ao seu governo “condenando” o Hamas, o Hezbollah ou o “regime dos aiatolás”.
Pretendo explicar por que nunca concordo com tais condenações.
Não é porque eu apoie esses movimentos ou seus métodos; considero a retórica de apoio quase tão fútil quanto a de condenação. A única posição moral válida — que vai além da mera demonstração de virtude — deve derivar de uma análise lúcida da nossa posição (como ocidentais) no mundo e da dinâmica de poder real em jogo.
Nossa posição é simples de descrever: os Estados Unidos, juntamente com seus "aliados" europeus, têm enorme responsabilidade pelos desastres no Oriente Médio — desde a criação do Estado de Israel no pós-guerra e a expulsão em massa de palestinos até a derrubada de Mossadegh, no Irã, em 1953; duas guerras contra o Iraque; décadas de sanções contra o Iraque, a Síria e o Irã; apoio aos massacres sauditas no Iêmen e aos perpetrados por Israel em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano; bem como múltiplas intervenções no Líbano e, hoje, um ataque maciço e não provocado contra o Irã.
Palestinos deslocados retornando à Gaza bombardeada e ao norte pela Rua Al-Rasheed, atravessando a ponte sobre o estuário do Wadi Gaza, 28 de janeiro de 2025. (Ashraf Amra – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo/ Wikimedia Commons/ CC BY-SA 3.0)
É claro que os cidadãos ocidentais comuns não precisam se sentir culpados por políticas que não escolheram — visto que a política externa raramente é debatida em democracias e tem pouco peso nas eleições —, mas as atitudes políticas dos cidadãos ocidentais não podem simplesmente ignorar essas realidades históricas.
Se somos incapazes de conter a violência de nossos próprios governos — sobre os quais poderíamos, em princípio, exercer influência — que sentido faz condenar as reações violentas dos estados ou movimentos que eles atacam?
Os líderes desses estados ou movimentos mal sabem que nossos movimentos cidadãos “críticos” sequer existem; e se soubessem, não se importariam minimamente com nossas opiniões ou críticas, por mais moral ou taticamente corretas que sejam.
Tudo o que esperam de nós é que contenhamos a violência de nossos governos — e se não conseguirmos fazer isso, devemos simplesmente ficar em silêncio.
Na verdade, essa obsessão em denunciar os crimes de inimigos oficiais sempre existiu, mas intensificou-se enormemente no final da Guerra do Vietnã. Essa guerra terminou com uma derrota militar espetacular para os Estados Unidos e uma perda de prestígio moral devido às atrocidades cometidas durante o conflito.
Contudo, as tragédias envolvendo os "refugiados em barcos" — e, ainda mais, as atrocidades cometidas pelo Khmer Vermelho no vizinho Camboja — proporcionaram uma oportunidade de ouro para os defensores do imperialismo americano.
Eles se concentraram nessas tragédias para culpar o movimento pacifista estadunidense, agindo como se este fosse responsável pela situação, embora a repressão no Vietnã que levou os "refugiados em barcos" a fugir fosse inevitável — tal repressão contra colaboradores ocorre no final de todas as guerras.
Além disso, era perfeitamente racional que alguns fugissem como refugiados políticos do que era, na realidade, uma catástrofe econômica causada pela guerra.
Quanto ao Camboja, foram os Estados Unidos que arrastaram o país para o conflito em primeiro lugar, ao substituir o rei Sihanouk, em grande parte neutralista, pelo ditador Lon Nol — uma medida que, combinada com as campanhas maciças de bombardeio americanas, apenas fortaleceu o Khmer Vermelho.
Ademais, durante o colapso final, os EUA cortaram toda a ajuda alimentar ao Camboja; a capital estava repleta de camponeses que haviam fugido dos bombardeios e dependiam dessa ajuda para sua própria sobrevivência.
Contudo, isso não impediu que a ideologia se tornasse dominante, abrindo caminho para justificar a guerra flagrantemente ilegal contra a Iugoslávia em 1999, bem como a guerra contra a Líbia em 2011.
Este último conflito foi desencadeado depois que o desastre da Guerra do Iraque se tornou flagrantemente óbvio; tal como a guerra no Iraque, a intervenção na Líbia causou estragos dentro do país e em toda a região vizinha do Sahel.
Mesmo em conflitos não travados por razões humanitárias — como as guerras no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003) — a ideologia do “direito de intervenção” manifestou-se na esquerda ocidental (mesmo entre autoproclamados pacifistas) através de slogans do tipo “nem Bush nem o Talibã, nem Bush nem Saddam”.
Depois veio a Ucrânia: enquanto houve apoio quase total a uma intervenção da OTAN para proteger a população kosovar que buscava a independência da Sérvia em 1999, a intervenção da Rússia em 2022 para proteger as populações russas no leste da Ucrânia foi universalmente condenada.
Contudo, as situações não são tão diferentes: os ucranianos do Donbas se insurgiram contra um governo em Kiev que emergiu de um golpe de Estado em 2014 apoiado pelos Estados Unidos e pela Alemanha — um governo profundamente anti-Rússia, ou seja, hostil à parcela russa da população no leste do país, região que fora arbitrariamente anexada à Ucrânia durante a criação da URSS em 1922.
A principal diferença entre essas duas situações é que, ao longo de oito anos (de 2014 a 2022), a Rússia esperava — em vão — garantir um acordo negociado, enquanto a OTAN bombardeou a Sérvia após um processo de negociação fraudulento em Rambouillet, que, na prática, exigia a capitulação da Iugoslávia.
O cenário líbio se repetiu — embora por um período mais longo — na Síria, onde, sem intervenção direta do Ocidente, o apoio maciço aos “rebeldes” por parte dos Estados Unidos, das nações europeias e dos estados do Golfo permitiu que eles tomassem o poder no final de 2024.
A história dirá se isso foi bom ou ruim para o povo sírio, mas o que é certo é que essa mudança de regime foi aplaudida no Ocidente (mesmo que o atual líder sírio tivesse sido previamente designado terrorista pelos Estados Unidos) e particularmente em um estado vizinho, Israel, que aproveitou a oportunidade para expandir sua ocupação ilegal do país.
Em seguida, veio Gaza.
Ruínas de Beit Lahia na Faixa de Gaza, destruídas por bombardeios israelenses, 23 de fevereiro de 2025. (Jaber Jehad Badwan / Wikimedia Commons/ CC BY-SA 4.0)
Inicialmente, a “única democracia no Oriente Médio” desfrutou do mesmo tipo de apoio que os Estados Unidos receberam após o 11 de setembro — simpatia pelas vítimas inocentes de terroristas bárbaros.
A história, os abusos passados, os bloqueios e outros eventos semelhantes foram completamente esquecidos. O Hamas foi retratado como um demônio maligno surgido de uma caixa — um efeito sem causa — e a simples menção da história da Faixa de Gaza ou da Palestina rotulava alguém como apologista do terrorismo, uma posição frequentemente sujeita a processos criminais na Europa.
A mensagem transmitida por essa simpatia a Israel — muito semelhante à enviada aos Estados Unidos em 2001 — era de que “vale tudo”.
Contudo, assim como a interpretação quase literal dessa mensagem pelos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque acabou levando à sua perda de credibilidade, a pura barbárie do ataque israelense a Gaza provocou uma onda de indignação global. Sem se deixar intimidar por essa reação, Israel intensificou sua agressão no Líbano e na Cisjordânia.
Para piorar a situação, veio o ataque ao Irã.
A Insensatez da Aventura Iraniana:
O funeral, em 3 de março de 2026, das vítimas do ataque americano-israelense à escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, Irã. (Agência de Notícias Tasnim/ Wikimedia Commons/ CC BY 4.0)
Após os protestos de janeiro (que estavam longe de ser espontâneos), a expectativa era de que, ao decapitar a liderança do país — e matar muitas crianças no processo — o “regime” (como o Ocidente o chama) entraria em colapso.
Aqui, porém, a aliança EUA-Israel cometeu um erro semelhante ao de Hitler em junho de 1941. Tendo conquistado quase toda a Europa, ele estava convencido de que a URSS ruiria como um castelo de cartas.
Afinal, era exatamente isso que a propaganda anticomunista que ele e seu círculo íntimo haviam escutado ao longo dos anos o levara a acreditar. Quando a guerra não saiu como planejado, ele explicou a seu aliado Carl Gustav Mannerheim — o líder finlandês da época — o quão surpreso estava com a capacidade de resistência soviética.
Não sei o que se diz no Pentágono, mas é provável que sentimentos semelhantes prevaleçam lá em relação ao resultado do ataque ao Irã. E, dado que este ataque foi claramente motivado pela pressão israelense e pelas ilusões que propagaram, é também provável que — mesmo que não o digam publicamente — muitos generais americanos estejam amaldiçoando seu “aliado indispensável”.
Como se isso não bastasse, a crescente influência da China e dos BRICS, as dificuldades enfrentadas pelos sauditas contra os iemenitas — juntamente com a resistência iraniana, libanesa e palestina — sugerem que a era do “imperialismo humanitário”, do direito à intervenção unilateral e do desrespeito ao direito internacional (que surgiu após a Guerra do Vietnã) está chegando ao fim.
O custo humano deste período de imperialismo humanitário fora do Ocidente é assustador: segundo a revista médica britânica The Lancet, 38 milhões de pessoas morreram em consequência das políticas de sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados ao resto do mundo — muitas vezes por razões “humanitárias”.
O Ocidente encontra-se numa encruzilhada: ou tenta manter a hegemonia a todo custo, ou aceita a realidade de um mundo baseado não em regras autodefinidas, mas nos princípios do direito internacional — ou seja, a igualdade soberana de todos os Estados e a não interferência nos assuntos internos de outras nações.
Se optarmos pela segunda opção (a única viável a longo prazo), então — longe de a condenarmos — devemos agradecer a resistência dos povos do Médio Oriente, que se mantiveram firmes contra um imperialismo que a nossa “esquerda” tentou, em grande medida, justificar apenas com sofismas humanitários.
Jean Bricmont é professor de física teórica na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) e autor de inúmeros artigos e livros, incluindo "Imperialismo Humanitário", "A República dos Censores" e "Absurdos da Moda" (com Alan Sokal).
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
A EXUBERÂNCIA DOS NOVOS RICOS NA CHINA «COMUNISTA»
Atribui-se a Deng Xiao Ping a seuinte frase: " Enriquecer é virtuoso!"
terça-feira, 8 de setembro de 2026
ENTREVISTA COM SHAUN REIN por George Galloway
sábado, 29 de agosto de 2026
Prof. Jiang Xueqin: REALIDADE POLÍTICA E SOCIAL NA CHINA
The People Who Actually Run China Live in America | Professor
Também é muito interessante o seguinte:
"They Control Trump & Netanyahu" The Secret Family No One Talks About | Professor Jiang
domingo, 16 de agosto de 2026
China construiu suas máquinas de EUV
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
O JAPÃO À BEIRA DO COLAPSO, AGORA [Crónica da Terceira Guerra Mundial nº69]
Não se deve esquecer como foi erguido o sistema político, depois da derrota da IIª Guerra Mundial, graças à «protecção» do ocupante americano, que se preocupou mais em manter o Japão dentro do círculo dos países anti-comunistas, tal como a Alemanha Federal, do que em criar as condições de uma democratização verdadeira, expondo os crimes do governo e militares do regime imperialista derrotado.
Nos países que estiveram associados ao «Eixo» e que depois ficaram na esfera de influência americana, as pessoas que formaram a elite pós-IIª Guerra Mundial eram - em larga percentagem - agentes dos grandes capitalistas associados aos governos fascistas, dos quais tinham beneficiado.
Todos esses fatores juntos foram criar um bloqueio. Em todos estes anos, pós IIª Guerra, a sociedade, a economia e a política japonesas nunca puderam «virar a página» do Japão militarista e imperialista.
O governo japonês nunca conseguiu realmente sair da crise financeira que se iniciou há 40 anos. Apesar de ser a segunda potência industrial nessa altura, foi perdendo aos poucos, para concorrentes (a China, a Coreia do Sul ...) cujas economias estavam em ascenção.
A situação de défice financeiro agravado foi colmatada, em grande parte, pelo facto dos japoneses reformados, individualmente ou associados nos fundos de pensões, terem investido muito em títulos do tesouro japonês. A parte da dívida detida por entidades públicas ou privadas estrangeiras era muito menor. Deu-se então o caso da dívida crescer sem parar, embora as consequências fossem aparentemente insignificantes para a economia produtiva e a sociedade.
Porém, os juros muito baixos artificiais, gerados por este mecanismo de «auto-compra» da dívida estatal, foi atraír a finança internacional. Desde os grandes bancos ocidentais aos especuladores, praticamente todos praticavam o «Yen Carry- Trade». Este consistia em pedir emprestado a instituições bancárias japonesas a juro muito baixo, quase zero, para depois aplicar estes capitais em investimentos, que forneciam um juro bem maior. O montante próprio da dívida era facilmente recuperado e devolvido aos bancos emprestadores, sendo o resto lucro para os investidores.
Mas, com o aprofundamento da crise económica e financeira, o governo japonês viu-se forçado a aumentar em cerca de 1% (aumento modesto) as obrigações estatais, arrastando assim os diversos juros (bancários, hipotecários, de consumo) para cima. Pode parecer algo insignificante, porém inviabilizou muitos dos negócios de «carry trade». O «carry trade» já não fornecia um intervalo de juros suficiente para manter a rentabilidade do negócio.
Historicamente, as potências que estão numa situação financeira apertada têm tendência a tomar (ou retomar) atitudes agressivas em relação ao estrangeiro, em relação aos inimigos (verdadeiros ou de convenência).
A retoma da produção armamentista, as manobras da marinha de guerra nos mares do Sul da China, vêm confortar o eleitorado nacionalista e militarista da primeira-ministra Sanae Takaichi.
Em todos os casos em que ocorre uma viragem realmente autoritária, com um governo de extrema-direita, verifica-se que a economia não ia bem, que o povo estava a sofrer com uma redução significativa do nível de vida, com inflação, desemprego. Mas numa tal situação, a classe no poder nunca iria assumir-se como responsável pelos males presentes. Daí, as derivas militaristas, a designação dum inimigo externo, desviando assim o público da origem interna dos males da economia desse país.
Prevê-se que a situação internacional ainda piore mais, se o Japão mergulhar no caos. Foi o que desencadeou o empréstimo de emergência dos EUA, oferecendo euros, dos seus fundos em divisas da FED, para comprar Yen: O governo da oligarquia dos EUA percebeu a necessidade deste empréstimo de emergência. Evidentemente, o Império não estava interessado no caos, como «senhor feudal» do Japão, possuindo importantes bases militares, com sistemas de lançamento de mísseis, com capacidade para transportar ogivas nucleares, apontados para a China.
Mas, dado contexto financeiro mundial caótico, existe uma possibilidade não desprezível, desse empréstimo ser insuficiente para equilibrar a situação do Yen e das finanças japonesas.
Haverá uma evolução da situação do Japão. Na presente situação internacional muito complexa, pode desencadear-se uma expansão da IIIª Guerra Mundial para os países do Extremo-Oriente.
RELACIONADO:
https://youtu.be/FnraS2GwJU8?si=83SdlKqiwu_kawJU
https://youtu.be/qw8REvHV2QU?si=m2JKebNUEizhFPL_
domingo, 9 de agosto de 2026
DEMOGRAFIA, MAIS UM PÂNICO FABRICADO
Os media e o establishment começaram por colocar os problemas em termos de sobrepovoação do planeta, de esgotamento dos recursos, de explosões sociais causadas pela miséria, etc. Na realidade, houve uma «explosão» demográfica, tendo esta porém decorrido ao longo de centenas de anos.
Mas esta «explosão», resultante da transformação das sociedades rurais em industriais, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, na Europa e mais tarde para o resto do Mundo, proporcionou condições globalmente mais favoráveis para a vida humana:
A higiene aumentou, o acesso aos alimentos foi mais regular, menos sujeita ao acaso das colheitas, sobretudo, houve contribuição significativa, tanto de produtos alimentares como de manufaturados, em proveniência das colónias. Isto permitiu maior dinamismo das economias do mundo «desenvolvido» dessa época (a Europa e a América do Norte) e que a Iª Revolução Industrial ocorresse.
Nos países sujeitos ao domínio colonial ou neo-colonial, apesar das condições de quase escravatura, ou mesmo de escravatura (que se estenderam do século XVI ao séc. XX), o facto de haver campanhas melhorando as condições sanitárias, os esgotos, o tratamento das águas e campanhas de vacinação na população autóctone, fizeram com que, também aí, houvesse um vigoroso crescimento populacional.
Na ausência de contracepção de qualquer espécie, as doenças infantis, as epidemias que assolavam periodicamente as populações, os frequentes episódios de fome e de escassez alimentar, provocavam uma baixa taxa de sobrevivência das crianças. Os que chegavam ao estado adulto, em idade de procriar, eram apenas uma fracção do total dos nascidos numa dada geração. As mortes precoces, infantis e juvenis, eram tais, que mantinham o equilíbrio populacional, compensando uma fecundidade média muito elevada.
Estes fenómenos ocorriam praticamente com a mesma severidade na Europa e nos países colonizados, talvez até mesmo piores na Europa, onde a concentração de pessoas nos centros industriais, sem condições de higiene e sujeitas a longas horas de trabalho violento, acabava por encurtar a vida, mesmo dos mais resistentes.
A transformação na agricultura permitindo maiores rendimentos e libertando braços ocupados nas tarefas do campo para as indústrias das cidades, as condições de higiene nas habitações destinadas aos operários, a generalização de vacinas para algumas doenças causadoras de grandes mortalidades e morbilidades, foram fatores que proporcionaram o crescimento vigoroso das populações europeias durante o século XIX e na primeira década do século XX.
A Primeira Guerra Mundial, com todos os seus horrores e com o despovoamento dalgumas zonas, foi somente uma paragem momentânea do crescimento populacional.
Pouco tempo após o fim das hostilidades (1918) as curvas demográficas em todos os países retomavam seu trajecto ascendente. O mesmo fenómeno verificou-se no pós II Guerra Mundial. Hoje em dia, fala-se da geração do «Baby boom»: começou com as pessoas nascidas em 1945 e vai até aos nascidos no ano de 1965, mais ou menos.
O processo de desaceleração do crescimento populacional nos países industrializados, foi tanto consequência da «pílula» contracetiva, como duma nova atitude dos casais, procurando dar condições de educação, saúde e bem-estar à sua progenitura, limitando conscientemente o número de filhos.
O papel atribuído à pílula contraceptiva talvez seja um bocado exagerado. Nos países do Sul da Europa a pílula foi proíbida oficialmente, durante algum tempo e condenada por entidades religiosas. Nestas sociedades, tradicionalistas, católicas e menos ricas que a Europa do Norte e a América, ocorreu, apesar disso, um fenómeno semelhante de redução da natalidade, embora de modo menos acentuado. As condições materiais, mais do que o uso de contraceptivos orais, tiveram o papel principal, tanto nas sociedades mais tolerantes, como nas mais tradicionais.
Muitos países do Sul Global seguiram este padrão, com um pequeno atraso. Isso traduziu-se numa nítida desaceleração do crescimento global da população, contrariando os vaticínios malthusianos do «Clube de Roma» (nos anos 70).
Agora, vê-se e ouve-se, por todo o lado, que a população humana, em particular em países muito povoados, como a China, a Índia e outros, está a regredir, que a taxa de natalidade não permite repor os efetivos da população existente, que a percentagem de idosos e reformados supera a de pessoas em idade de trabalhar, etc. Estas reportagens e artigos são o simétrico do catastrofismo dos anos 70 do século passado.
Felizmente, as condições de vida das populações, na grande maioria dos países, melhoraram de modo substancial. As consequências do desajustamento populacional são transitórias. As sociedades em toda a História encontraram soluções para se manterem, para dar continuidade à base económica, às infra-estruturas e aos serviços que são prestados à população.
A redução da taxa de fertilidade em quase todos os países industrializados, abaixo do número médio de 2,1 bébés por mulher fértil, é atirada constantemente pelos fazedores de apocalipse, como se este fosse o único número, o mais importante que os países industrializados têm de enfrentar.
Eu não creio que as campanhas estatais, com incentivos, sobretudo económicos, para jóvens casais terem mais filhos tenham sido um sucesso, até agora. Sem dúvida, podem ter contribuído para minorar o problema mas, o que irá contar, será o comportamento dos casais, o número de filhos que desejam.
Creio que a redução da família a um núcleo isolado, pai-mãe-criança, sendo necessário que os dois progenitores trabalhem para obter o rendimento necessário para sustentar o seu estilo de vida e a educação que ambicionam para seu filho/filha, tem sido o fator decisivo.
Esta situação não se resolve com incentivos económicos (apenas), nem sequer com melhores condições de apoio à maternidade e paternidade. Um progresso importante seria o reconhecimento real (não apenas na letra da lei) à dispensa no trabalho para apoio a filho(s) doente(s). Claro que as condições melhoradas, tanto em termos financeiros, como de apoios diversos, não são de desprezar; devem ser levadas a cabo pelos Estados, mas - sobretudo - pelos patrões.
A transição para um retorno ao equilíbrio virá quando a sociedade no seu todo estiver mais virada para a garantia de boas condições de crescimento, desenvolvimento e educação das crianças, proporcionando às famílias uma rede real de apoio.
Isto vai implicar o recuo, senão mesmo o desaparecimento da mentalidade inoculada nos decénios de neo-liberalismo. Nestes, o individualismo - para não dizer o egoísmo - foi erguido como direito «sagrado», como expressão da «liberdade», da «maturidade», etc.
Tudo isto fez parte da ideologia segregada pelo neoliberalismo. O enorme fracasso desta «ideologia do mercado antes de acima de tudo», em especial, acima da vontade política dos cidadãos, ainda não está bem vincado na consciência de muitos.
Como proponentes e beneficiários principais, a casta política de hoje «não quer ver» os estragos causados pelo neoliberalismo: Em vez de examinar as coisas por outros ângulos, continua a reproduzir a cantilena da «TINA» (There Is No Alternative). Mas, assim como outras correntes político-ideológicas, o neoliberalismo vai tornar-se obsoleto.
A sociedade, mais cedo ou mais tarde, irá encontrar forma de adoptar soluções que permitirão novo equilíbrio. No futuro, será mais fácil e gratificante uma família basear-se no campo, em vilas ou pequenas cidades, do que em mega-urbes. Nestas circunstâncias, a entreajuda entre vizinhos ainda é uma realidade.
A existência de robots de apoio às tarefas domésticas, não me parece escandalosa. A alternativa é a existência de trabalhador*s (em geral, são mulheres) que efetuam os trabalhos domésticos. Outros empregos melhor pagos e mais satisfatórios serão criados. A produtividade do trabalho, em geral, tenderá a aumentar.
Não vale a pena fazer futurologia sociológica, já sabemos que as pessoas, individual e coletivamente, chegam a novas soluções. Estas podem ter aspetos técnicos mas, sobretudo, relacionam-se com nova organização do trabalho.
Uma coisa parece-me certa: A sociedade organizada em torno do trabalho, sobretudo do trabalho assalariado, com as pessoas a serem exploradas desta ou daquela maneira, nesta ou naquela indústria, vai caducar.
Já existem sinais evidentes disso, porém a estrutura da divisão em classes não tem deixado que as coisas evoluam naturalmente. Os empresários bem podem lamentar-se, hipocritamente, que as relações de trabalho são demasiado rígidas: São fruto de relações de exploração impostas por eles!
Agora, novas gerações de adultos têm de tomar em mãos as mudanças necessárias, por forma a que a sociedade alcance novos patamares de bem-estar real e não do falso «paraíso» consumista.
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EM COMPLEMENTO: https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2017/11/malthusianismo-e-neo-malthusianismo.html
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