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terça-feira, 29 de setembro de 2026

JEAN BRICMONT : PERMANECER EM SILÊNCIO

Se não conseguimos inflectir as violências dos nossos próprios governos, que sentido tem condenarmos as reacções violentas dos Estados ou movimentos que foram atacados por eles? pergunta Jean Bricmont.

Na fronteira Tunísia-Líbia, milhares de pessoas tentam fugir da Líbia, momentos antes da 'intervenção humanitária' da OTAN, a 2 de Março 2011. (U.N. Photo/UNHCR/Alexis Duclos)

By Jean Bricmont
Special to Consortium News 

https://consortiumnews.com/2026/09/25/remaining-silent/






Não sou palestino, libanês ou iraniano; não falo árabe, nem sou muçulmano.

Vivi toda a minha vida na Europa e nos Estados Unidos, onde sei que quase todos — mesmo aqueles que afirmam estar em “solidariedade com a Palestina” — começam qualquer crítica a Israel ou ao seu governo “condenando” o Hamas, o Hezbollah ou o “regime dos aiatolás”.

Pretendo explicar por que nunca concordo com tais condenações.

Não é porque eu apoie esses movimentos ou seus métodos; considero a retórica de apoio quase tão fútil quanto a de condenação. A única posição moral válida — que vai além da mera demonstração de virtude — deve derivar de uma análise lúcida da nossa posição (como ocidentais) no mundo e da dinâmica de poder real em jogo.

Nossa posição é simples de descrever: os Estados Unidos, juntamente com seus "aliados" europeus, têm enorme responsabilidade pelos desastres no Oriente Médio — desde a criação do Estado de Israel no pós-guerra e a expulsão em massa de palestinos até a derrubada de Mossadegh, no Irã, em 1953; duas guerras contra o Iraque; décadas de sanções contra o Iraque, a Síria e o Irã; apoio aos massacres sauditas no Iêmen e aos perpetrados por Israel em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano; bem como múltiplas intervenções no Líbano e, hoje, um ataque maciço e não provocado contra o Irã.


Palestinos deslocados retornando à Gaza bombardeada e ao norte pela Rua Al-Rasheed, atravessando a ponte sobre o estuário do Wadi Gaza, 28 de janeiro de 2025. (Ashraf Amra – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo/ Wikimedia Commons/ CC BY-SA 3.0)

É claro que os cidadãos ocidentais comuns não precisam se sentir culpados por políticas que não escolheram — visto que a política externa raramente é debatida em democracias e tem pouco peso nas eleições —, mas as atitudes políticas dos cidadãos ocidentais não podem simplesmente ignorar essas realidades históricas.

Se somos incapazes de conter a violência de nossos próprios governos — sobre os quais poderíamos, em princípio, exercer influência — que sentido faz condenar as reações violentas dos estados ou movimentos que eles atacam?

Os líderes desses estados ou movimentos mal sabem que nossos movimentos cidadãos “críticos” sequer existem; e se soubessem, não se importariam minimamente com nossas opiniões ou críticas, por mais moral ou taticamente corretas que sejam.

Tudo o que esperam de nós é que contenhamos a violência de nossos governos — e se não conseguirmos fazer isso, devemos simplesmente ficar em silêncio.

Na verdade, essa obsessão em denunciar os crimes de inimigos oficiais sempre existiu, mas intensificou-se enormemente no final da Guerra do Vietnã. Essa guerra terminou com uma derrota militar espetacular para os Estados Unidos e uma perda de prestígio moral devido às atrocidades cometidas durante o conflito.

Contudo, as tragédias envolvendo os "refugiados em barcos" — e, ainda mais, as atrocidades cometidas pelo Khmer Vermelho no vizinho Camboja — proporcionaram uma oportunidade de ouro para os defensores do imperialismo americano.

Eles se concentraram nessas tragédias para culpar o movimento pacifista estadunidense, agindo como se este fosse responsável pela situação, embora a repressão no Vietnã que levou os "refugiados em barcos" a fugir fosse inevitável — tal repressão contra colaboradores ocorre no final de todas as guerras.

Além disso, era perfeitamente racional que alguns fugissem como refugiados políticos do que era, na realidade, uma catástrofe econômica causada pela guerra.

Quanto ao Camboja, foram os Estados Unidos que arrastaram o país para o conflito em primeiro lugar, ao substituir o rei Sihanouk, em grande parte neutralista, pelo ditador Lon Nol — uma medida que, combinada com as campanhas maciças de bombardeio americanas, apenas fortaleceu o Khmer Vermelho.

Ademais, durante o colapso final, os EUA cortaram toda a ajuda alimentar ao Camboja; a capital estava repleta de camponeses que haviam fugido dos bombardeios e dependiam dessa ajuda para sua própria sobrevivência. 


Crânios das vítimas da ocupação do Camboja pelo Khmer Vermelho no memorial do Campo de Extermínio de Choeung Ek, Phnom Penh, Camboja, 2012 (istolethetv, Creative Commons Attribution 2.0). 

Isso deu origem à ideologia do “direito à intervenção humanitária” — a noção de que as nações ocidentais têm o direito, ou mesmo o dever, de intervir (inclusive militarmente e em desafio ao direito internacional) em países que “violam os direitos humanos”. Essa ideologia substituiu em parte a luta contra o comunismo — muitas vezes apoiando ditadores — que anteriormente justificava as ações dos EUA, mas que levou ao desastre no Vietnã. Essa ideologia desencadeou um verdadeiro tsunami no pensamento ocidental — particularmente na esquerda, pois permitiu que esta adotasse uma postura aparentemente dissidente (sempre se pode acusar os que detêm o poder de não fazerem o suficiente pelos direitos humanos se demonstrarem cautela ou realismo), que, no entanto, era perfeitamente compatível com os objetivos gerais do imperialismo: enfraquecer os países que resistem à hegemonia americana por meio de subversão interna e sanções externas. A completa hipocrisia dessa ideologia foi rapidamente exposta quando os vietnamitas derrubaram o Khmer Vermelho em 1979, em uma operação que foi verdadeiramente humanitária — em seus efeitos, se não em suas intenções. Essa intervenção foi imediata e unanimemente condenada pelos mesmos países que viriam a se autoproclamar a “comunidade internacional” e que acabavam de arrogar para si — e somente para si — o direito à intervenção humanitária.
Contudo, isso não impediu que a ideologia se tornasse dominante, abrindo caminho para justificar a guerra flagrantemente ilegal contra a Iugoslávia em 1999, bem como a guerra contra a Líbia em 2011.

Este último conflito foi desencadeado depois que o desastre da Guerra do Iraque se tornou flagrantemente óbvio; tal como a guerra no Iraque, a intervenção na Líbia causou estragos dentro do país e em toda a região vizinha do Sahel.

Mesmo em conflitos não travados por razões humanitárias — como as guerras no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003) — a ideologia do “direito de intervenção” manifestou-se na esquerda ocidental (mesmo entre autoproclamados pacifistas) através de slogans do tipo “nem Bush nem o Talibã, nem Bush nem Saddam”.

Depois veio a Ucrânia: enquanto houve apoio quase total a uma intervenção da OTAN para proteger a população kosovar que buscava a independência da Sérvia em 1999, a intervenção da Rússia em 2022 para proteger as populações russas no leste da Ucrânia foi universalmente condenada.

Contudo, as situações não são tão diferentes: os ucranianos do Donbas se insurgiram contra um governo em Kiev que emergiu de um golpe de Estado em 2014 apoiado pelos Estados Unidos e pela Alemanha — um governo profundamente anti-Rússia, ou seja, hostil à parcela russa da população no leste do país, região que fora arbitrariamente anexada à Ucrânia durante a criação da URSS em 1922.

A principal diferença entre essas duas situações é que, ao longo de oito anos (de 2014 a 2022), a Rússia esperava — em vão — garantir um acordo negociado, enquanto a OTAN bombardeou a Sérvia após um processo de negociação fraudulento em Rambouillet, que, na prática, exigia a capitulação da Iugoslávia.

O cenário líbio se repetiu — embora por um período mais longo — na Síria, onde, sem intervenção direta do Ocidente, o apoio maciço aos “rebeldes” por parte dos Estados Unidos, das nações europeias e dos estados do Golfo permitiu que eles tomassem o poder no final de 2024.

A história dirá se isso foi bom ou ruim para o povo sírio, mas o que é certo é que essa mudança de regime foi aplaudida no Ocidente (mesmo que o atual líder sírio tivesse sido previamente designado terrorista pelos Estados Unidos) e particularmente em um estado vizinho, Israel, que aproveitou a oportunidade para expandir sua ocupação ilegal do país.

Em seguida, veio Gaza.


Ruínas de Beit Lahia na Faixa de Gaza, destruídas por bombardeios israelenses, 23 de fevereiro de 2025. (Jaber Jehad Badwan / Wikimedia Commons/ CC BY-SA 4.0)

Inicialmente, a “única democracia no Oriente Médio” desfrutou do mesmo tipo de apoio que os Estados Unidos receberam após o 11 de setembro — simpatia pelas vítimas inocentes de terroristas bárbaros.

A história, os abusos passados, os bloqueios e outros eventos semelhantes foram completamente esquecidos. O Hamas foi retratado como um demônio maligno surgido de uma caixa — um efeito sem causa — e a simples menção da história da Faixa de Gaza ou da Palestina rotulava alguém como apologista do terrorismo, uma posição frequentemente sujeita a processos criminais na Europa.

A mensagem transmitida por essa simpatia a Israel — muito semelhante à enviada aos Estados Unidos em 2001 — era de que “vale tudo”.

Contudo, assim como a interpretação quase literal dessa mensagem pelos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque acabou levando à sua perda de credibilidade, a pura barbárie do ataque israelense a Gaza provocou uma onda de indignação global. Sem se deixar intimidar por essa reação, Israel intensificou sua agressão no Líbano e na Cisjordânia.

Para piorar a situação, veio o ataque ao Irã.

A Insensatez da Aventura Iraniana:


O funeral, em 3 de março de 2026, das vítimas do ataque americano-israelense à escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, Irã. (Agência de Notícias Tasnim/ Wikimedia Commons/ CC BY 4.0)

Após os protestos de janeiro (que estavam longe de ser espontâneos), a expectativa era de que, ao decapitar a liderança do país — e matar muitas crianças no processo — o “regime” (como o Ocidente o chama) entraria em colapso.

Aqui, porém, a aliança EUA-Israel cometeu um erro semelhante ao de Hitler em junho de 1941. Tendo conquistado quase toda a Europa, ele estava convencido de que a URSS ruiria como um castelo de cartas.

Afinal, era exatamente isso que a propaganda anticomunista que ele e seu círculo íntimo haviam escutado ao longo dos anos o levara a acreditar. Quando a guerra não saiu como planejado, ele explicou a seu aliado Carl Gustav Mannerheim — o líder finlandês da época — o quão surpreso estava com a capacidade de resistência soviética.

Não sei o que se diz no Pentágono, mas é provável que sentimentos semelhantes prevaleçam lá em relação ao resultado do ataque ao Irã. E, dado que este ataque foi claramente motivado pela pressão israelense e pelas ilusões que propagaram, é também provável que — mesmo que não o digam publicamente — muitos generais americanos estejam amaldiçoando seu “aliado indispensável”.

Como se isso não bastasse, a crescente influência da China e dos BRICS, as dificuldades enfrentadas pelos sauditas contra os iemenitas — juntamente com a resistência iraniana, libanesa e palestina — sugerem que a era do “imperialismo humanitário”, do direito à intervenção unilateral e do desrespeito ao direito internacional (que surgiu após a Guerra do Vietnã) está chegando ao fim.

O custo humano deste período de imperialismo humanitário fora do Ocidente é assustador: segundo a revista médica britânica The Lancet, 38 milhões de pessoas morreram em consequência das políticas de sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados ao resto do mundo — muitas vezes por razões “humanitárias”.

O Ocidente encontra-se numa encruzilhada: ou tenta manter a hegemonia a todo custo, ou aceita a realidade de um mundo baseado não em regras autodefinidas, mas nos princípios do direito internacional — ou seja, a igualdade soberana de todos os Estados e a não interferência nos assuntos internos de outras nações.

Se optarmos pela segunda opção (a única viável a longo prazo), então — longe de a condenarmos — devemos agradecer a resistência dos povos do Médio Oriente, que se mantiveram firmes contra um imperialismo que a nossa “esquerda” tentou, em grande medida, justificar apenas com sofismas humanitários.

Jean Bricmont é professor de física teórica na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) e autor de inúmeros artigos e livros, incluindo "Imperialismo Humanitário", "A República dos Censores" e "Absurdos da Moda" (com Alan Sokal).

quarta-feira, 10 de junho de 2026

NOS PAÍSES DA OTAN O FASCISMO NUNCA DESAPARECEU











A afirmação do título fundamenta-se com numerosos factos, dos quais muitos se podem documentar simplesmente com consultas à Internet em relação aos termos e expressões que eu utilizei. Mas, atenção: a Internet e o Youtube, em particular, estão saturados com falsificações da História. O método DOS FALSIFICADORES é dizer umas coisas verdadeiras, mas sem dizer a Verdade. 
A História oficialmente apresentada e ensinada é sempre «lavada e engomada», para lhe retirar as nódoas e saliências, reveladoras de factos contraditórios com a narrativa dominante.


1ª Numerosos nazis foram «salvos» do exército soviético triunfante, através de múltiplas vias de fuga, algumas organizadas pelo Vaticano e muitas pelos aliados Ocidentais, promovendo a «recuperação» de milhares de alemães através da operação organizada pelos serviços americanos e intitulada «Paperclip». No meio havia não poucos torturadores da Gestapo e das SS. Também havia médicos que faziam pseudo-experimentação científica nos campos de concentração (ao estilo do dr. Mengele). Se uns tantos foram para a Argentina e outros países da América do Sul, a maioria dos «resgatados» foi parar aos centros da CIA (chamava-se OSS na época), ou aos serviços de «inteligência» canadenses (em cooperação com o MI6 britânico). Muitos desses nazis obtiveram novos nomes, com dados de identidade fabricados, quer na América do Sul, quer do Norte.

2ª Na Espanha de Franco e no Portugal de Salazar, torcionários membros da Gestapo alemã foram acolhidos para ensinar os métodos de interrogatório e de tortura à polícias políticas, em ambos países.

3º Portugal foi membro fundador da OTAN em 1949. Uma organização que estava dirigida contra o bloco soviético e se vangloriava de ser «democrática». Ora, na verdade, Portugal tinha um regime autoritário semelhante ao fascismo de Mussolini, o «corporativismo». Nenhum dos governos dos outros países da OTAN, tinha dúvidas sobre isto, nem classificava o regime de Salazar como «democracia». No entanto, a OTAN apresentava-se sempre como «aliança defensora da democracia» e contra o comunismo.

4º Em nome da «defesa das democracias contra a ameaça soviética», foi organizada a «Rede Gládio», formada por grupos que tinham como função a resistência e sabotagens, na hipótese duma invasão soviética a países da OTAN.

Em Itália, nomeadamente, a rede Gládio levou a cabo atentados terroristas «de falsa bandeira», cuja autoria foi - falsamente - atribuída a grupos esquerdistas. A sua interferência em assuntos internos do Estado italiano foi múltipla e constante. Contribuiu para a desestabilização dos governos de centro-direita ou centro-esquerda.

5º Mas não foi só em Itália que houve interferências ilegítimas. Na Grécia, a OTAN organizou a guerra contra as forças comunistas e de esquerda que tinham lutado contra o invasor nazi. A monarquia conservadora instalada, foi sucedida por um golpe protagonizado pelos « coronéis» e início duma cruel ditadura fascista (sempre com o apoio da OTAN).

6º A OTAN, temendo uma vitória eleitoral comunista em Itália, forneceu armas, dinheiro e cobertura a grupos terroristas de extrema-direita (fascistas), com ramificações na loja maçónica P2, nas forças armadas, na polícia, etc. Tanto estas forças de extrema-direita como as chefias da OTAN, estavam preparados para pôr em prática uma campanha de desestabilização da Península Itálica, indo até ao golpe militar, no caso dos comunistas de Berlinguer obterem uma maioria dos deputados, capaz de formar governo.

7º Os fugitivos originários dos países do bloco soviético, URSS e  doutros países do Pacto de Varsóvia, eram acolhidos e integrados em serviços de espionagem e propaganda do Ocidente, principalmente na CIA (EUA) e no MI6 (Reino Unido) e noutros países da OTAN. Os papéis que lhes eram atribuídos, eram diversos: participavam em emissões rádiofónicas dirigidas aos países de Leste (Radio Free Europa e outros) e noutras ações de propaganda de cunho «anti-comunista». Porém, entre esses dissidentes do Leste, um bom número era criminoso de guerra: Tinham participado em chacinas de civis e de prisioneiros de guerra, de judeus, de comunistas e de resistentes... A CIA e o MI6 sabiam desses antecedentes, mas encobriam. Para os governos do Ocidente, isso não era grave; o importante era que eles servirem para múltiplas operações, incluindo sabotagens, contra os países do Bloco do Leste (para descrição pormenorizada, veja link:   https://www.kitklarenberg.com/p/how-the-cia-conjured-ukrainian-nationalism)

8º No Ocidente, a desnazificação depois de 1945, foi praticamente nula. Promoveram ex-oficiais nazis de alta patente em postos-chave da OTAN ( ver AQUI a história incrível mas verdadeira, do General nazi Heuzinger). Na função pública e noutros corpos do Estado da Alemanha Federal, praticamente não houve desnazificação. Esta foi levada a cabo, na Alemanha de Leste, pelo governo, na parte da Alemanha sob ocupação soviética. No Ocidente, a luta anti-comunista e anti-forças de esquerda, tornou-se muito depressa a primeira prioridade.

Além disso, a existência de grupos abertamente nazis foi tolerada (pelo menos, não os perseguiram) em muitos países da OTAN, ao longo de todos os anos pós-IIª Guerra Mundial. Até hoje, além de grupos que exibem uma ideologia extrema, nazista ou fascista, existem muitos outros, que se dizem «nacionais» ou «nacionalistas». Estes, possuem a mesma ideologia, programa e comportamento da extrema-direita, não têm qualquer problema em organizar-se e fazer sua propaganda racista e xenófoba, abertamente. Porém, esta propaganda é explicitamente contrária às leis e constituições de vários países da UE,  Portugal incluído.

A sistemática condescendência de forças políticas no poder, ditas «democráticas» e até de certa esquerda, historicamente anti-fascista, vai para grupos racistas, que perseguem os elementos isolados de emigrantes doutras «raças» (os «não-brancos»), dando-lhes pancada, matando-os ou ferindo-os gravemente. Agora, torna-se muito difícil processar e condenar tais grupos de criminosos, porque têm cumplicidades na polícia e no governo. Na extrema-esquerda não existe comportamento de gravidade equivalente ao dos acima mencionados grupos violentos de extrema-direita.

9º O golpe sangrento dito da «Praça Maidan» em Kiev, na Ucrânia em 2014, foi dirigido por elementos nazis, disfarçados de patriotas. Esta tática permitiu enganar, inicialmente, uma parte da população. Não enganou, com certeza, a OTAN e os governos americano e europeu, pois estes estiveram diretamente implicados no golpe: Eles sabiam quem estavam a colocar no poder, pessoas que idolatravam Stepan Bandera, colaborador dos nazistas, responsável direto e autor moral da execução de dezenas de milhares de pessoas (incluindo polacos, judeus e pessoas de esquerda...), nos territórios da URSS sob ocupação nazi. Esta ligação ao nazismo não foi dada a conhecer - antes foi ocultada - ao público ocidental.

10º Uma declaração do Parlamento Europeu, há poucos anos (2019), fazia a amálgama totalmente falsificadora , entre ideologias nazista e comunista. Declarava que o nazismo era totalitário, porém punha um sinal de igualdade entre o nazismo e o comunismo. Provocatoriamente, «exigia» que a Rússia se «arrependesse oficialmente dos crimes atribuídos a Estaline» e que a Rússia «se desfizesse» dos monumentos, erigidos em memória dos 26 milhões de mortos e dos seus militares, na IIª Guerra Mundial, como condição para ser admitida no «clube democrátrico europeu»!
A declaração - na verdade - não era dirigida contra os totalitários de extrema-direita, nem contra colaboradores dos fascistas e nazistas dos países da UE: Isto seria o mesmo que acusarem seus antecessores genéticos ou políticos, dos quais eram herdeiros. Este é o background de anti-comunismo fervoroso, de quem votou a declaração.
 É um exemplo de falsificação histórica* (*https://noticias.juridicas.com/actualidad/noticias/14569-memoria-historica:-el-parlamento-europeo-condena-los-crimenes-del-nazismo-y-el-comunismo/«Afirma la resolución aprobada por el Parlamento que Rusia sigue siendo la mayor víctima del totalitarismo comunista y que su evolución hacia un Estado democrático seguirá obstaculizada mientras el Gobierno, la élite política y la propaganda política continúen encubriendo los crímenes comunistas y ensalzando el régimen totalitario soviético y pide a la sociedad rusa que acepte su trágico pasado».)


11º A maioria das entidades governamentais e partidos parlamentares, nos países membros da UE, tem dado ao governo  da Ucrânia um apoio entusiástico e generosas ofertas, à custa do erário público dos países-membros e do orçamento da Comunidade, em armas, munições, equipamento e dotações financeiras. Este dinheiro tem enchido os bolsos das figuras principais do regime de Kiev. A UE tem feito entregas repetidas de ajudas incondicionais e muito vultuosas ao governo saído do golpe da Maidan, cujos membros se afirmam herdeiros de Stepan Bandera e da OUN. Esta última organização, era uma facção nacionalista ucraniana que alinhou - na IIª Guerra Mundial - com as tropas nazistas que invadiram a URSS (a Ucrânia fazia parte da URSS nessa altura). Os banderistas são autores de chacinas e genocídio de cerca 100 mil mortos, só em relação a nacionais da Polónia ! Estes polacos habitavam a região de Lvov. Os membros da OUN foram também responsáveis por inúmeras chacinas contra judeus, contra comunistas e resistentes.

12º Depois da derrota do nazi-fascismo em 1945, os fascistas/banderistas ucranianos foram recrutados pela CIA e outros serviços de informação ocidentais. Alguns trabalhavam em propaganda, dirigida por americanos, em Munique e noutros pontos da Europa. Vários ucranianos ao serviço da CIA foram infiltrados na URSS e em países do Pacto de Varsóvia, para recolha direta de informação e para actividades subversivas.

13º Em França, o Presidente Miterrand, para se manter no poder, desenhou uma estratégia de erosão da direita francesa «clássica», reconhecendo o direito ao «Front National» de Jean-Marie Lepen, concorrer à eleições. Assim, um grupozinho pouco conhecido, foi-se tornando mais e mais importante em votos, em activistas e em presença mediática. Isto, enquanto os socialistas iam revertendo, uma por uma, as medidas do «Front Comum de Gauche», maioritária e formando governo, desde os anos oitenta. É preciso lembrar que muitos dos lepenistas tinham um currículo colaboracionista conhecido, o que incluia participação ativa e apoio ao governo de Vichy (governo colaborador da Alemanha hitleriana). Vários, de extrema-direita tiveram participação ativa e apoio aos membros da terrorista OAS, que rejeitava a independência da Algéria e que organizaram e quase conseguiram ter sucesso, um golpe de Estado contra o governo legítimo da República francesa.

14º Em muitos países, a extrema-direita escondeu-se, enquanto afixar publicamente esta pertença significava um risco real. Assim, muitos elementos de extrema-direita entraram como membros de partidos de direita ou centro-direita, legais e institucionais; assim, elementos da direita mais extrema (mas disfarçados) foram frequentemente membros dos governos e grupos parlamentares,  em países da UE (França, Espanha, Portugal, Alemanha, Itália, etc). Evidentemente, esses elementos de ideologia fascista, não se afirmavam publicamente como tal: Diziam-se nacionalistas, de direita, anti-comunistas, monárquicos, etc... Formavam, em paralelo, organizações clandestinas, mas continuavam filiados em partidos de direita «clássica» que funcionavam como máscara e cobertura às suas atividades.

15º Os governos ditos «democráticos» da Europa Ocidental, depois da 2ª Guerra Mundial continuaram com seus impérios coloniais. Estes, não foram transformados em Nações independentes, de forma negociada, numa transição pacífica, mas pela luta armada, em muitos casos. Nas colónias do Reino-Unido, de Portugal, de Espanha, de França, e doutros... As tropas dos governos reprimiam da forma mais brutal os manifestantes, aos milhares. Muitos, dos políticos da metrópole das colónias tiveram uma reação desfavorável à exigência de autodeterminação avançadas como propostas de partidos e personalidades das colónias. Por exemplo, Salazar negou quando rebentou a guerra de guerrilha em Angola (1961), qualquer abertura negocial, por teimosia, mas sobretudo pelo arreigado princípio racista de que «as colónias não eram capazes de se auto-governar» e que «Portugal tinha o dever de impedir que caíssem nas mãos do comunismo internacional». Muitos casos houve de barbárie e de genocídio, pelas tropas coloniais, martirizando populações das antigas colónias, sobretudo em África e na Ásia, desde finais  da IIª Guerra Mundial, até hoje. As guerras atuais em África e na Ásia do Sul estão na continuidade histórica direta do período colonial. Podem considerar-se guerras provocadas pelo domínio neo-colonial, impedindo o desenvolvimento de vastas regiões e das numerosas populações. Certamente, não se pode ser democrata «em casa» e colonialista ou neo-colonialista no exterior.

16º O nazi-fascismo tem tido cobertura das correntes mais militaristas na OTAN. Nesta organização, os governos mais poderosos não agem assim por "capricho": A extrema-direita tem sido muito útil, na medida em que aterrotiza grupos de emigrantes, de sindicalistas e de militantes de esquerda. Ela tem sido um braço repressivo, à disposição dos governos que querem manter uma fachada democrática, ao mesmo tempo que se abate o terror contra os opositores, através dessa extrema-direita. 
A «incapacidade  dos governos em reprimir» essas organizações é totalmente falsa. Os poderes usam as polícias nalguns casos; noutros casos, é mais vantajoso darem luz verde, discretamente, a esses tais grupos, pois os governos não podem ou não querem a recorrer a métodos ilegais. Esta, a verdadeira razão porque não destroem os grupos fascistas ou de extrema-direita violentos. Os governos têm meios e legitimidade para fazê-lo. Porém, eles servem-se de terroristas fascistas para golpear os opositores de esquerda.

domingo, 3 de maio de 2026

UM VENTO DE LOUCURA


Um vento de loucura desabou sobre a Terra



 A criminalidade contemporânea pode medir-se pela facilidade com que Trump e a equipa que o rodeia, decretam a destruição de um país com cerca de 90 milhões de habitantes, perante a pequena oposição real nas hostes políticas dos EUA, quer no campo democrata, quer no campo republicano (alguns libertarianos). 

Isto significa que a casta no poder está cativa de lobbies, que lhes facultam a continuidade das suas carreiras políticas, subsidiando as campanhas eleitorais. Esta casta não representa o povo americano. 

Apesar de uma constante (há mais de 40 anos!) propaganda diabolizando o regime dos Ayattolahs, o povo americano compreende que este regime pode ser muito nefasto para o povo iraniano, mas que - de nenhuma forma - ameaça o povo e território dos EUA. 

No entanto, a presidência e as câmaras de deputados e senadores, estão controladas pela multimilionária elite sionista nos EUA; ela está totalmente dissociada dos americanos comuns, incluindo dos judeus, quer estes sejam ou não religiosos. 

Está-se perante a situação inédita, do governo sionista de Israel mandar na Presidência dos EUA. Israel, é um país que está na completa dependência das dádivas dos EUA, em armamento e financiamento. Mais de dois biliões, a soma de DÁDIVA INCONDICIONAL votada pelos legisladores americanos anualmente. Esta soma não contabiliza as ajudas em material militar, em tecnologias de vigilância, de informação e espionagem que o Pentágono e as Agências (CIA; DIA; DARPA, etc)  partilham com as forças armadas de Israel.

Em «contrapartida», Israel não parou, nestas últimas  décadas, de fazer pressão sobre os órgãos de poder dos EUA, usando o célebre Jeffrey Epstein como instrumento de chantagem sobre grande parte da classe política nos EUA. 

Netanyahu é considerado responsável por ter induzido Trump a encetar esta guerra contra o Irão, dando-lhe relatórios do MOSSAD super-optimistas, em que a resistência após «decapitação» do governo iraniano, estava calculada em 48 horas, no máximo. Ora, eles sabiam bem que isto era mentira. Mas, desde há mais de dez anos que procuravam envolver diretamente os EUA numa guerra contra o Irão.

 Esta guerra - na verdade - é de Israel, com «os auxiliares» dos EUA. Trump e  os membros do seu governo têm estado sujeitos a chantagem. Eles devem temer que o MOSSAD divulgue dados sobre a sua traição, que arruinariam de imediato a sua carreira e - no curto prazo - lhes fariam perder as eleições. 

Existem elementos de alta patente nas Forças Armadas Americanas que estão conscientes do aventureirismo deste confronto militar. A possibilidade de guerra envolvendo diretamente a Rússia e a China, faria imediatamente aumentar muitíssimo o risco dum confronto nuclear.  

Há forças obscuras, «do Estado profundo» que estão apostadas nisso, por mais incrível que pareça; a humanidade toda está em risco de aniquilação por causa de uma «mão cheia» de ultra-direitistas e belicistas, que têm lugares de relevo na Administração (Departamento de Estado, Pentágono, as agências CIA, NSA, etc).   


    Quadro: Nero apreciando o incêndio Roma, que mandou atear.

Treme-se com Nero, grande nos crimes, somente. 

Mas os grandes atuais, ultrapassam em barbárie a antiguidade



sexta-feira, 10 de abril de 2026

Corbett report: «Nova Ordem Multipolar = Nova Ordem Mundial»







Comentário de Manuel Banet:

 A tese de James Corbett no que toca ao estribilho de «Ordem Multipolar» é que não existe diferença radical destas oligarquias da China e da Rússia, em relação às oligarquias dos EUA e da OTAN. Tudo o que os primeiros pretendem é serem aceites, é terem um lugar à mesa do poder e da ordem mundial. 

Muito bem; pode ser que seja uma mera luta para repartição das alavancas de controlo global e de «estar por cima», decidindo em nome de povos, eles próprios sem verdadeira voz, nem autonomia, nem capacidade de decisão própria. 
A tecnocracia é um velho projeto datando de antes da 1ª Guerra Mundial, que se vem desenvolvendo em múltiplas instâncias, umas mais visíveis que outras.
 A Comissão Trilateral, a Chattam House, o Fórum Económico Mundial, o Clube Valdai, o Clube Bilderberg  ... Há numerosos «Think Tanks», ou instâncias, apenas conhecidas de alguns,  que têm moldado discretamente a política das principais potências. 
Fazem parte do Estado profundo, pois as pessoas participantes nestes «clubes» e «grupos de reflexão» são, ou foram, detentoras de cargos públicos. 
Muitas vezes, os departamentos do Estado (por exemplo, um ministério ou secretaria de Estado) encomendam estudos, que deveriam analisar questões complexas. 
Mas, muitas vezes, são apenas coberturas caras e pretenciosas, para «validar» decisões já tomadas nos escalões mais elevados do poder. 
Estas encomendas são fonte de rendimento regular destes Clubes e Think Tanks. É uma forma de corrupção e também de roubo do erário público. O dinheiro sai, por norma, dos orçamentos de departamentos estatais, destinados a remunerar as figuras que realizam (ou assinam) os tais «estudos». 
Além disso, existem múltiplas fundações privadas que financiam regularmente estes grupos influentes. Estas fundações são associadas aos setores que desejam moldar a visão governamental: Por exemplo, a indústria do armamento tem interesse em fazer prevalecer determinada visão da segurança, da geoestratégia, etc.
Trata-se de uma micro-sociedade em circuito fechado. Muitos empresários são aconselhados a encomendar «estudos», que são somente formas disfarçadas de exercer suborno. Isto está descrito em artigos sobre vários casos de Think Tanks nos Estados Unidos, por vários autores.  
Com certeza que algo parecido funciona nas outras grandes potências, ou mesmo em médias potências. 
Há um pacto de silêncio que inclui, não apenas os apoiantes do partido que esteja no poder, como a classe política no seu todo. Com efeito, mesmo os partidos e correntes de oposição tendem a «omitir» certos factos, pois têm esperança de vir a ser poder, algum dia. 
Além de que, para certos assuntos sensíveis, o facto de nomear as pessoas envolvidas nestes jogos de influência é extremamente perigoso, nomeadamente para os jornalistas.
A máquina do Estado é pesada, redundante, muito pouco eficaz.  Possui uma hierarquia oculta que manipula a hierarquia visível. Esta última, é preenchida por atores corruptos, sujeitos a chantagem, cuja competência em assuntos de Estado, sobre os quais decide, é ridiculamente limitada. 
Mas, como têm um batalhão de «conselheiros», para os mais diversos assuntos, basta que lhes sigam as sujestões. Acontece que os «conselheiros» são os peões dos grupos de interesses, ou lobbies. Estes, são fiéis aos interesses que promovem, não ao governo. 
Na «democracia» truncada, que nos estão constantemente a servir como se fosse o «modelo», o cidadão é desporvido de meios de influir nas decisões.  A escolha de tal ou tal indivíduo pode parecer relevante, mas não é, porque não se sabe qual a verdadeira «agenda» de um candidato. O mais banal é, uma vez eleito, ele fazer tudo diferente do que defendeu, durante a campanha eleitoral. 
O público não tem o mínimo controlo. Não pode fiscalizar os atos e decisões dos indivíduos que colocou no poder, através de eleições. 
Por que razão insistem nas eleições como o teste de democracia? 
- É  exatamente porque sem controlo e sem possibilidade dos eleitores revocarem o mandato dos eleitos, de forma institucional e eficaz, a «democracia» é apenas um jogo envolvendo atores e lóbis que os controlam através da corrupção...

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quinta-feira, 5 de março de 2026

A GLOBALIZAÇÃO NÃO MORREU; ELA APENAS MUDOU DE ROUPAGENS



A consolidação do poder globalista avança em silêncio, enquanto a guerra lavra no Irão e noutras nações do Médio-Oriente. Os Estados estão a ficar endividados como nunca.
O dinheiro serve para comprar armamentos aos grandes consórcios e a desenvolver programas de Inteligência Artificial : Estes significam uma transferência massiva de capital para os grandes empresários, não para os cidadãos comuns, pois somente  empobrece estes últimos. A dívida tem sido assumida pelos Estados. Estes vão extorquir mais em impostos (instalam-se dispositivos de vigilância autoritários).
A disponibilidade deste montão de capital será para os bilionários das indústrias bélicas e tecnológicas. Assim,  eles irão enriquecer ainda mais!



As pessoas são de uma ingenuidade atroz! As atoardas nacionalistas e retrógadas de um Trump e de seus acólitos, são tomadas como significando que eles querem aquilo que declaram. Declaram o fim da globalização, um retorno a que o interesse nacional anteceda o do estrangeiro e toda uma série de atoardas contra a OTAN, a UE e a ONU. Curiosamente, foi por vontade explícita dos EUA e sua casta dirigente que estas instituições globalistas (tal como o FMI e Banco Mundial) foram erguidas e têm dominado, ao nível mundial, a política, as trocas comerciais, a finança etc. O grande capital financeiro e industrial é quem tem decidido, nos EUA, quais os presidentes e a política que eles devem tomar, desde o primeiro quartel do Séc. XX (do presidente Woodrow Wilson ... em diante). Nos países da Europa Ocidental, as intrigas e golpes tiveram como protagonistas ocultos, os grandes magnates. São eles quem escolhe os dirigentes e o programa que devem aplicar. Basta pensarmos nos ditadores Salazar e Franco: Eles nunca teriam conseguido manter-se, sem o apoio de industriais e financeiros, que foram decisivos para sua subida ao poder; ou ainda, em França, G. Pompidou (um funcionário da banca Rothschild) etc.

Muitas pessoas ignorantes pensam que estou a exagerar; que tais conexões são falseadas; que relaciono várias coisas desconexas, apenas pela minha ideologia. A eles só lhes digo: Vão estudar a sério a História dos últimos 100 ou 150 anos e verão que há muitas evidências que reforçam aquilo que afirmo.

O «anti-capitalismo» do discurso de extrema-direita, também não é novidade, não surgiu na onda «MAGA», nem nos políticos de direita conservadora, ou de extrema-direita, que disputam o poder em muitos países da UE, incluíndo Portugal. Também o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler se apresentavam com uma faceta anti-capitalista, mas apenas discursiva, para melhor enganar uma classe trabalhadora pouco instruída e sujeita a ser arrastada pela demagogia. Aliás, estes discursos nunca impediram os grandes capitalistas de «apoiar com a carteira» aqueles candidatos ao poder absoluto.
A ideologia não se destina a esclarecer as massas sobre as intenções profundas dos dirigentes: Bem pelo contrário, destina-se a ocultar o verdadeiro programa; aquele que só é conhecido pela hierarquia mais elevada desses partidos e pelos seus financiadores.

A grande transferência massiva do capital público para o privado, faz-se com manobras óbvias, mas que têm sido obscurecidas de forma a que se continue a fazer esta transferência.
1ª Os Estados vão-se endividando ao longo do tempo, supostamente para fazer face a despesas urgentes e não orçamentadas, num primeiro tempo. Num segundo tempo, a finalidade real deste endividamento nem sequer é ocultada. Por exemplo, para dotar os países da U.E. de uma indústria bélica capaz de - a prazo - «derrotar a Rússia». Ou ainda, gastar o que for preciso em desenvolvimento da IA (Inteligência Artificial) para construir sistemas - civis ou militares - que multipliquem as capacidades presentes, tendo em conta que a China está num patamar tão ou mais avançado que os ocidentais, a este respeito.
2ª As transferências do capital levantado pelos Estados, para indústrias que se quer privilegiar, dão-se de várias maneiras: Doações para «desenvolvimento», empréstimos a juros muito baixos, encomendas de equipamentos para o Estado, parcerias do Estado com grandes empresas privadas, etc.
3º A dívida pública é a prazos largos, de 20 ou mais anos, quando se destina a financiar um projeto de longo prazo. Os juros dessa dívida são - por norma - baixos, o que torna esta aplicação de capital «pouco apetitosa» para o público. Então, o Estado obriga por lei uma série de instituições a terem uma certa quantia em obrigações do Estado nas suas reservas. São os casos de Bancos, Companhias de Seguros e Fundos de Pensões. A norma aplica-se com o argumento falacioso de que um Estado nunca entra em falência, logo tal reserva seria para «proteger» os clientes destas instituições. Ora, os juros tendem a ser muito baixos e a não acompanhar a inflação real, que se verifica ao longo de muitos anos. Estes juros fixos custam cada vez menos, em termos reais, a pagar. O principal em dívida, também vai perdendo valor, consoante os episódios de inflação no tempo decorrido. Deste modo, o Estado vai buscar o capital a juro muito baixo, emprestado por investidores (sobretudo) institucionais.
4º O Estado está nas mãos dos grupos de interesses mais poderosos, que controlam a política, através de doações chorudas a cada campanha eleitoral. Estas doações permitem que tal ou tal partido tenha muito mais dinheiro (que os outros) para gastar em publicidade, em comícios, em materiais de propaganda, etc... Assim, o partido tem a eleição quase assegurada. Mas, o consórcio de capitalistas financiadores tem os dirigentes desse partido na mão. Se estes se afastarem do programa (o verdadeiro, não o que apresentaram a eleição) serão castigados, não havendo dinheiro para financiar as suas campanhas futuras; podem até desviar os subsídos para outros canditados, adversários do partido «rebelde». Uma das coisas mais decisivas no pós-eleições, é saber-se para que projetos e investimentos o novo governo canaliza os capitais de que dispõe.

5º A «necessidade» de criar ou de reforçar fábricas de armamento, pode até ser um disparate de todo o tamanho, mas o público nunca será autorizado a examinar a questão com toda a transparência. Os apoios eleitorais foram efetivados; as somas  prometidas foram entregues e seria impensável que o partido que beneficiou de tais apoios, fosse descartar este aspecto do seu programa. Por isso, as questões relacionadas com a defesa, a guerra, ou  as ameaças à segurança do nosso país, nunca são tratadas na media de massas, com um mínimo de seriedade. O poder encarrega-se de fazer com que a média "mainstream " diga aquilo que é preciso, para defender o rearmamento e que desqualifique os críticos, pelos processos habituais da calúnia, de distorcer  afirmações, ou de black-out...

Isto acontece também nos países mais poderosos, que possuem indústrias de ponta, capazes de produzir e de melhorar microprocessadores, programas de software para IA, etc. Estes produtos da indústria são de aplicação dúplice, ou seja, tanto podem ser aplicados para fins pacíficos, como bélicos. O desenvolvimento da IA tem  potenciado as armas sofisticadas, os robots, os drones, os aviões de combate e os mísseis. Pode dizer-se que um investimento em IA será como na indústria bélica, somente ligeiramente disfarçado.

Temos aqui, nos 5 passos acima, a essência do que os governos dos Estados capitalistas mais poderosos fazem para desviar somas bilionárias para fins bélicos. Esta escolha vai submeter a sociedade, as pessoas, os tralhadores, a uma política de austeridade (mais uma vez!). Daí que os regimes se tenham vindo a transformar em «democracias musculadas», com polícia de intervenção, pressões sobre toda a resistência social e pacífica (sindicatos, associações diversas). Neste exercício de «democracia» apenas formal, não haverá real oportunidade para se afirmarem, e muito menos ganhar eleições, as forças que permitiriam uma alternativa real ao sistema.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Estratégica Vitória da China



Os actos de pirataria de Trump contra a Venezuela e Maduro, não apenas foram a confissão da falsidade da «ordem internacional baseada em regras». É também ocasião para muitos governos terem compreendido que não se pode confiar no Estado-bandido ("rogue State") em que se transformou os EUA. Realisticamente, os dirigentes de nações menos poderosas estão desejosos de estabelecer, ou reforçar, laços com os BRICS e - em particular - com a China.

Mas, a sua derrota é também interna: As eleições de meio-mandato irão ser muito desfavoráveis: Já 22 senadores republicanos acabam de se pronunciar pela interrupção do mandato (impeachment) de Trump.
Não só ao nível da política institucional se multiplicam os sinais desfavoráveis para o presidente fora-da-lei: O povo dos EUA tem manifestado o seu repúdio pela política de Trump e sua administração. Ela está - literalmente - a asfixiar a classe trabalhadora e a classe média. As unidades especiais de polícia («ICE») não conseguem, apesar da sua brutalidade, conter a raiva do povo: 
Uma mulher de cerca de 40 anos, foi baleada, quando estava dentro do seu carro, por um agente da ICE. Não foi tratada nas urgências, acabando por morrer. A violência policial contra pessoas inocentes é sempre desculpada. A polícia alega sempre «legítima defesa» e os tribunais fingem que acreditam nisso.
Nos EUA, muitos já compreendem que este é um governo de gangsters, que se comporta com arrogância perante seus próprios eleitores. Os gansters ameaçam também quem protesta contra os atos contrários à Lei e ao Direito. 
Trump e os fiéis dele, não conseguirão fazer com que a cidadania iludida dos «MAGA» volte a votar por eles. Isso significa que perderão a maioria nas eleições. É provável que isto tenha sido um fator para Trump desencadear o ataque-relâmpago contra a Venezuela, convencido de que isso lhe daria um trunfo eleitoral.
Enquanto o desemprego cresce, os ficheiros Epstein vão sendo escrutinados, dando a dimensão real da colaboração do agente da Mossad e pedófilo, com o atual presidente dos EUA.
O desespero é de mau conselho, sobretudo para psicopatas; eles são capazes de tudo para não serem apanhados pela justiça.
Talvez os leitores não tivessem conhecimento de alguns factos aqui relatados. Porém, é a própria média americana que tem informado sobre a crise que o Império atravessa nos planos moral, económico e político.


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Ex-Primeiro Ministro de Singapura sobre o estatuto de Taiwan


 Taiwan tem uma longa história. Uma história que antecede de milénios a presença do poder imperial chinês na ilha. 

Foi a partir de Taiwan e de outros pontos da costa asiática, que se deu o povoamento das ilhas dos arquipélagos da Polinésia e parte da Indonésia. Existem evidências, do ponto de vista antropológico, linguísticas e - mais recentemente - do ADN destes povos, que demonstram essa antiga dispersão. 

No século XV, antes dos portugueses terem aí chegado, Taiwan era parte do império chinês. Mas a população autóctone era muito maioritária. Os comerciantes vindos do continente e alguns membros da administração eram os poucos habitantes da etnia Han (muito maioritária, hoje, na China continental).

Com o tempo e o intercâmbio com os «bárbaros do sul» (nome dado aos portugueses), assim como com outros aventureiros e piratas que frequentavam as águas da região, a percentagem da etnia originária foi decrescendo e aumentando a da etnia Han, dominante no continente. 
Mas, uma transição mais acentuada ocorreu no final do século XIX, com a invasão e colonização nipónica da ilha. Os japoneses expandiram-se em Taiwan, tal como noutras paragens do Extremo-oriente, à procura de recursos e de posições estratégicas, que lhes permitissem consolidar o império «do Sol nascente». A colonização japonesa de Taiwan terá sido menos brutal que a doutros países e povos (como foi o caso da Coreia), mas deixou más memórias a muitos taiwaneses.

Na guerra entre japoneses e  americanos, no final da IIª Guerra Mundial, as tropas de ocupação japonesas foram obrigadas a render-se, em Taiwan, aos americanos. Estes entregaram o governo de Taiwan ao Kuo Min Tang. Na guerra civil entre os exércitos do partido comunista e nacionalistas de Chian Cai Tchek  as tropas derrotadas deste último refugiaram-se em Taiwan, sendo transportadas em navios de guerra americanos. 

Chian Cai Tchek foi um general que, inicialmente, se aliou aos comunistas soviéticos. Esteve próximo do nascente Partido Comunista Chinês mas, passado algum tempo, tomou a chefia duma facção nacionalista, que se confrontou de modo sangrento com os comunistas. Esta guerra civil decorreu em simultâneo com a invasão japonesa. A luta contra o invasor motivou algumas tréguas entre os exércitos chineses inimigos, mas não houve realmente uma frente duradoira contra o invasor. 
Os comunistas chineses acusam as forças nacionalistas de fazerem o jogo do invasor, ao não tomarem a ofensiva quando tinham oportunidade de o fazer, etc. É difícil avaliar os papéis de uns e de outros na terrível situação de guerra civil e no meio de uma invasão estrangeira. 

O certo é que  comunistas e nacionalistas foram jogetes das superpotências vencedoras da 2ª Guerra Mundial, os soviéticos e os americanos. Durante muitos anos, a China Popular não foi reconhecida oficialmente pelo «Ocidente», havendo uma delegação da «República da China» (de Taiwan) nas Nações Unidas. Apesar disso, os ocidentais faziam comércio com a China comunista  (através de Macau e de Hong Kong).

Quando Nixon e Kissinger fizeram a grande viragem, que permitiu que o governo da China Popular fosse reconhecido como o legítimo para toda a China e se abriam as portas da ONU, muitas instituições multilaterais receberam representantes oficiais da China Popular e os diplomatas de Taiwan perderam o estatuto de representantes da China, em virtude dos acordos Sino-Americanos e de tudo o que se seguiu.

Hoje em dia, a polémica é alimentada pelos americanos, ao darem o dito por não dito (em relação à promessa de não expansão da OTAN para Leste, também faltaram aos compromissos): 
- Segundo os acordos de 1971, há só uma China; essa entidade é representada pelo governo de Pequim. Oficialmente, continua a ser  esta a posição dos EUA e da imensa maioria dos países representados na ONU, salvo uns poucos, que ainda mantêm relações diplomáticas com Taiwan. 

Em Taiwan, existe um governo de um partido diferente daquele que tem governado nos decénios passados. Este partido, o DPP, diz oficialmente perseguir o objetivo da independência de Taiwan. Ora, este partido tem uma maioria estreita nas eleições e conta com forte oposição do Kuo Min Tang (o partido fundado por Chian Cai Tchek), que não aceita a política separatista.

A economia da ilha está fortemente interconectada com a China continental. As matérias-primas, em particular alimentares, são importadas em grande parte do continente. As indústrias de microinformática e semicondutores, como a empresa TSMC, têm como principal destino de exportação a China Popular. Há grandes investimentos de capitais de Taiwan, na China continental. Para muitos milhares de pessoas e para a economia de Taiwan, um corte de laços comerciais com a China continental seria uma catástrofe.

A ambição americana é acirrar as inimizades, provocar o governo de Pequim a intensificar medidas que possam ser vistas como «estrangulamento» da ilha, para criar condições dum conflito aceso, em que eles (EUA) iriam socorrer o governo taiwanês, «ameaçado pelos totalitários». Até agora, esta manobra não tem surtido efeito, quer pela sabedoria e experiência acumulada de chineses, de ambos os lados do Estreito de Taiwan, quer porque as simulações do Pentágono têm mostrado que, numa confrontação militar, os EUA, inevitalvemente, iriam perder.

Ver também:


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

O DISCURSO DO ÓDIO E A MONTANHA MÁGICA

Hoje, abrimos um jornal qualquer, ouvimos um programa de rádio ou televisão, ou consultamos uma página de Internet e deparamo-nos com dois tipos de discurso: ou uma série de futilidades, mais ou menos «engraçadas», ou supostamente «úteis», ou então peças sobre política, geopolítica, sobre figuras de estadistas, ou ainda relatando atos terroristas ou ações bélicas.
Os leitores são puxados - de uma forma ou de outra - a consumir notícias, nas quais, afinal, são cada vez mais frequentes os apelos ao ódio, ao ódio cego e vesgo, contra certos povos, correntes políticas, ou individualidades.
Os autores dessas peças consideram que os leitores devem partilhar com eles, os sentimentos de aversão, de repúdio, etc. Evocam situações do passado, mas apenas com o objetivo de avivar o medo. Note-se que nem sequer procuram comparações pertinentes com as respetivas figuras históricas.
A propaganda é um instrumento de destruição do espírito crítico. É uma forma de fazer a guerra, mas sem risco verdadeiro, pois apenas se explode em insultos e insinuações gratuitas, contra aqueles cuja imagem se pretende destruir junto das massas.
O discurso do ódio tem sido o instrumento das ditaduras, em especial das totalitárias. Encontram-se tais discursos na boca de Hitler, de Estaline, etc, mas também e sobretudo, nos seus «lacaios», que faziam de comentadores ou jornalistas, nos órgãos de comunicação, completamente controlados pelo poder.
A situação atual é perfeitamente paralela com outras ocasiões, que antecederam as duas Guerras Mundiais. É mais acentuada a massificação da média; aumentaram (mas não em diversidade) os canais que chegam aos ouvidos e olhos dos cidadãos. Mas, a monotonia do discurso político é a mesma, característica típica da propaganda prevalecente: «Canta-se» o mesmo, em todos os tons, com todos os instrumentos e todas as vozes. O resultado é um discurso obsessivo, amplificado, seja sobre o que for.
Em geral, são falácias, que se destinam a esconder os podres do poder, do regime, sempre designando os Outros, como sendo os maus, os causadores das desgraças, os perversos, que só agem para nos destruir ou escravizar, etc.
Este discurso, que se tornou o mais comum, é dicotómico, simplista, sem a preocupação de fornecer dados não-enviesados, nem de tentar uma abordagem realista, objetiva: É também com palavras de que são feitas as guerras, as tragédias da nossa Era.


Para tanto, socorro-me de uma cena do famoso romance de Thomas Mann, «A Montanha Mágica» onde o autor faz evoluir seus personagens, numa micro sociedade. Eram os doentes de um sanatório e seus acompanhantes, nos Alpes suíços. O local de convívio era o refeitório, onde doentes e familiares tinham reservadas suas mesas respetivas. Nestas ocasiões, eram discutidas notícias internacionais; nesse tempo, a informação era apenas veiculada pelos jornais. 
Normalmente, havia cortesia entre pessoas das diversas nacionalidades que aí se encontravam. Mesmo quando discordavam frontalmente da opinião política de seu interlocutor, exprimiam a discordância de forma firme, mas bem educada. Não lhes passava pela cabeça, como gente de boa educação, de se porem a insultar os que tinham opiniões contrárias às suas próprias. 
Mas, à medida que Agosto de 1914 se aproximava, notava-se uma agitação cada vez maior, um alçar do tom das vozes, que subiam num burburinho diferente do habitual. E esta agitação ia aumentando, à medida que se aproximava aquilo que iria ser a 1ª Guerra Mundial. No momento em que rebentou efetivamente, com declarações de guerra das diversas potências, com marchas dos diversos exércitos e sua colocação em posições perto das fronteiras, os hóspedes do sanatório dos Alpes, enfurecidos uns contra os outros, esqueceram toda a 'civilidade' e 'educação', insultando-se grosseiramente para logo se envolverem em cenas de pugilato.
Este episódio do livro - que me ficou gravado na memória - traduz muito bem o clima histérico que antecede estes acontecimentos trágicos. Não acontece isto com toda a gente mas, se tivermos uma amostra suficientemente grande, veremos que existem sempre algumas pessoas mais exaltadas, mais acaloradas. Tenho verificado este fenómeno em várias circunstâncias da minha vida; agora também, o insulto, o discurso do ódio, tem vindo a substituir-se ao sereno sopesar dos vários argumentos.
Note-se que a média ao serviço dos grandes poderes tem tido um papel de «atiçador do ódio» entre as pessoas, fazendo eco ao comportamento das figuras de proa nos governos e partidos de poder.
Nós devemos resistir às «sereias do ódio», devemos conservar o nosso espírito crítico e sobretudo autocrítico. Primeiro, devemos compreender os fenómenos que ocorrem nestas ocasiões: Levam a uma radicalização das pessoas, envolvidas em catadupas de propaganda.
Segundo, devemos ter em conta que nunca nos dizem a verdade do que se passa, de como as decisões que mais nos afetam foram tomadas, a quem - de facto - estas decisões beneficiam, quem as encomendou.
A nossa ignorância pode ser devida - nalguns casos - à teimosia de só ouvir ou ler o discurso de um dos lados (o nosso, claro).
Mas, embora a censura e o «nevoeiro da guerra» sejam reais, existe o secretismo nas deliberações e decisões dos poderes. Eles podem argumentar que, senão, o inimigo saberia logo o que se estava a preparar e o lance perderia totalmente a eficácia. Mas, as deliberações mais vastas, as estratégicas, não cabem nesta tipificação.
Acontece com frequência que a lógica verdadeira que impulsiona um campo a entrar em choque com outro, tenha a ver com «razões» não apresentáveis:
- A vontade de poder dum chefe ou dum grupo de dirigentes políticos;
- o forte interesse em obter assim posições de chefia no Estado Civil, ou nas Forças Armadas
- estar-se ao serviço de grandes fortunas, tais como os multimilionários Georg Soros, a família Rothschild, os Rockefeller e os donos das empresas tecnológicas (Microsoft, Tesla, Amazon ...);
etc.
De qualquer maneira, a democracia, mesmo o «ersazt» que nos servem no mundo Ocidental, acaba por se evaporar, ficando apenas a «casca» da mesma, ou seja, aquilo que formalmente define uma democracia, mas que é sistematicamente desrespeitado ou mesmo, espezinhado: São as constituições (intactas no papel, mas violadas na prática), as eleições formais (de onde certas forças políticas são excluídas), etc. que permitem conservar as aparências de democracia liberal.
É aquilo que se pode claramente observar hoje, tanto nos EUA, como nos seus aliados da OTAN.
Os dados estão lançados; só não sabemos ainda em que momento as pessoas irão acordar para aquilo que venho dizendo há muito tempo: Estamos numa Nova Guerra Mundial, com uma nova cortina de ferro, um novo confronto entre potências, usando países frágeis ou movimentos de guerrilha, como «proxi».
A probabilidade do desencadear da guerra nuclear nunca foi tão grande como agora.
Temo que a cidadania dos diversos países só abra os olhos tarde demais.

domingo, 25 de agosto de 2024

OS PODERES ENLOUQUECIDOS*

(* POWERS GONE CRAZY)

Nesta época contemporânea, posterior à 2ª Guerra Mundial, perante conflitos acesos e guerras brutais cujas vítimas principais são - não esqueçamos - civis indefesos, vem a propósito lembrar que o maior avanço civilizacional, em todos os domínios, tem sido em épocas de paz, de tolerância, de vontade de comerciar e de conhecer outros povos.

Pelo contrário, as épocas de guerra, destruidoras de pessoas e empobrecendo de maneira duradoira os indivíduos e as sociedades, tanto nos vencedores como nos vencidos, foram épocas de estagnação dos saberes e em que recuou o nível de educação da população, em geral.

Um grande paradoxo destas épocas de conflito, é que os beligerantes de ambos os lados julgam estar dentro da razão; os outros seriam os bárbaros, que estariam - pelo menos, no plano moral - abaixo do que seria «o humano». A desumanização do inimigo ocorre antes de haver guerra, propriamente dita. É como se antes da guerra, os inimigos precisassem de ser anulados enquanto seres humanos, para «legitimar» o desencadear da violência, para os exterminar.

No meio da algazarra, os representantes oficiais das diversas religiões e correntes espirituais, são inaudíveis. Se as suas vozes pronunciam palavras sensatas para retomar os caminhos da paz, ou são ignoradas, ou são deturpadas por uma média totalmente ao serviço de um dos lados, o lado do dinheiro e das armas, não o lado do povo e seus interesses vitais. 
Os que fazem exceção, como Romain Rolland, que se colocam «Au-dessus de la mêlée» (acima da refrega), são caluniados (sem se poderem defender) pelos rastejantes vermes, que são parasitas do Estado e dos ricos e fazem seu modo de vida do cobarde insulto.

As multidões foram condicionadas a seguir a força política que faz maior barulho, que fala com «voz mais grossa». Tem-se verificado que este comportamento vai proporcionar que se instale um Estado que não respeita o Direito, um fascismo. Já vemos despontar isso em vários países europeus da OTAN e nos EUA.
O verniz de democracia, de liberalismo, de direitos humanos, estalou. A abjeta bestialidade vem à superfície. Ela é promovida pelos políticos do poder, financiados pelos oligarcas e assessorados por certos intelectuais do lambe-botas.
É a tripla aliança da oligarquia (multimilionários), com a média repleta de intelectuais «subsidiados», que enxameiam os écrans de TV ou «smartphone»,  e com o «Estado Profundo». Esta aliança é que decide os resultados das eleições e a composição dos governos. Com efeito, as eleições estão viciadas à partida, pela impossibilidade dos partidos e candidatos não apoiados pelos grupos acima, fazerem ouvir as suas vozes, esclarecer os pontos do seu programa eleitoral, ou dar a conhecer seus dirigentes e apoiantes mais destacados. Isto acontece, não apenas durante a campanha eleitoral, também nos intervalos  entre as campanhas, de forma permanente.

A exposição intensa nos media é fundamental, nos nossos dias: É indispensável, para alguém se tornar personagem famoso, este simples facto de aparecer frequentemente na TV. O sistema dito de democracia representativa cultiva esta assimetria constantemente: De um lado, as personalidades dentro da «janela de Overton» e do outro, as outras, marginalizadas. A narrativa dominante torna-se assim hegemónica, devido ao efeito seletivo/ amplificador dos media. 
 As pessoas ficam convencidas de seja o que for, se ouvirem e lerem quotidianamente, nos diversos media, basicamente a mesma narrativa, apenas com diferenças de pormenor. Quase ninguém se interessa em saber se existem, e o que exprimem as vozes dissonantes.

Tendo em conta as considerações dos parágrafos acima, torna-se claro que estamos perante a degradação das democracias parlamentares e perante a ascensão dum «Estado corporativo», resultante da fusão das grandes corporações [com os grupos de média associados], com o Estado e seus órgãos [o Executivo, o Parlamento, os Tribunais e Administração Pública].

Com os tentáculos longos e múltiplos, o complexo multimilionário/mediático/político/burocrático tem vindo a dominar a sociedade, não de forma ostensiva, como os totalitarismos do século XX, mas de forma perversa, como um árbitro corrompido. Como alguém que está sempre a favorecer um dos lados, facilitando o avanço dos seus peões, protegendo-os se eles estiverem em apuros, incentivando a deserção nas hostes contrárias, jogando com a possibilidade de ascensão em cargos públicos, etc.

Confesso que - durante muito tempo - achei que as pessoas que beneficiavam diretamente do sistema, eram somente uma ínfima minoria. Agora, tenho opinião substancialmente diferente: Penso que as pessoas mais diversas, das mais variadas condições sociais, económicas, navegam dentro da barca dos vencedores, de forma real ou ilusória, porque os tentáculos do complexo acima mencionado são longos e disseminam-se em toda a sociedade.
Por isso, se houver uma ou várias forças com um discurso crítico em relação ao sistema, não vão conseguir, por si mesmas, diminuir o domínio totalitário sobre as mentes. Tais forças críticas - desde que estejam em pequena minoria na sociedade - não serão brutalmente reprimidas, pelo contrário, serão toleradas. Acabam por servir de alibi para justificar que o sistema, afinal, é o mais democrático possível (sic!).

Esta foi a situação real das sociedades nas democracias liberais, até que o próprio cerne do sistema entrou em crise.
Refiro-me à impossibilidade de continuar com o «esquema, ou pirâmide, de Ponzi», que permitia manter os pobres mais ou menos submissos, dentro do «Estado Social», enquanto - ao mesmo tempo - as oligarquias auferiam lucros substanciais, agora mais com a especulação financeira, do que nas atividades industriais e comerciais do «capitalismo clássico».

É difícil de assinalar o ponto de viragem, porque se trata de um processo complexo, ocorrendo a partir de vários centros de decisão (mesmo se coordenados). Mas, se eu tivesse de escolher uma data para o momento em que caíram totalmente as máscaras «democráticas», seria o 11 Setembro de 2001, quando a potência hegemónica tomou pretexto para desencadear campanhas militares, numa escala e num grau de violência destrutiva não vistas, desde há mais de 50 anos.
Estas campanhas faziam parte de um plano tornado público em 1999 (PNAC). Tenha-se em conta que - muito antes do 11-09-2001 - sete países do Médio Oriente (Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Irão, Iémen e Líbano) estavam na mira dos redatores do documento (os «neocons»). Consideravam eles que para manter a dominância mundial dos EUA, aqueles regimes teriam de ser submetidos, ou derrubados. Vemos até que ponto os neocons tiveram e têm influência na maior potência militar do Planeta. Todos os governos dos países que não aceitassem submeter-se ao poder hegemónico, estavam sujeitos a ser derrubados, por todos os meios: corrupção, subversão, coerção, sanções, bloqueios e meios militares, incluindo bombardeamentos e invasão.

Mas, a ambição de um Mundo unipolar, com um papel especial para os EUA, é resultante da húbris, da embriaguez da vitória (sobre a URSS). Os gregos antigos consideravam que era um perigo para um general triunfante; que ele poderia - por excesso de húbris - deitar tudo a perder. A «húbris» americana é absolutamente megalomaníaca, não tem qualquer hipótese de se realizar. No entanto, tem criado muito caos e destruição.
Ao querer levar a cabo esta política de híper-imperialismo, os EUA estão a condenar-se a si próprios e ao Mundo inteiro, com a possibilidade terrível duma guerra nuclear, que não terá vencedores e onde os sobreviventes serão mais infelizes do que aqueles que morreram no impacto direto das bombas nucleares.

A crise do imperialismo é relativamente fácil de se compreender. Chegou aos seus limites: A destruição que provoca é como «serrar o ramo onde está sentado». Tornou-se depredador, numa escala insustentável: Tanto em termos de capacidade de regeneração dos ecossistemas naturais, como de alimentação das populações (abandono da agricultura de autossubsistência, pela agricultura industrial virada para exportação); até mesmo as novas tecnologias são reorientadas, com o objetivo de reforçar os dispositivos de vigilância das oligarquias no poder. A produtividade, num sistema onde o lucro fácil da especulação tem rédea livre, não pode deixar de ficar afetada gravemente. Necessariamente, desce a produtividade real, ou seja, a relativa aos produtos e serviços, que são úteis à sociedade. 

Tudo isso sabemos, embora haja uma esquerda que insiste em conceitos marxistas completamente caducos, que podem ter parecido adequados numa altura em que o capitalismo (no séc. XIX) era sobretudo industrial, por oposição ao capitalismo do século XXI, financeiro e digital.  

Com efeito, a crise da esquerda é paralela à crise do capitalismo. Ela não conseguiu integrar, de forma harmoniosa, os interesses dos trabalhadores e da humanidade, com os da natureza, nem tem sabido como combater as novas formas de exploração. Muitas pessoas são encaminhadas para falsas conceções teóricas pois os que controlam os aparelhos partidários, se fossilizaram nesta ou naquela versão do marxismo. 

Por outro lado, tal esquerda ficou «órfã», porque durante anos e decénios, se limitou a arvorar o «socialismo real» como modelo.  Pelo menos, agora, um número significativo de pessoas, à esquerda, já percebe que o «socialismo real» não existe; ou que nunca chegou a existir, na verdade. 

Por muito tristes que sejam as experiências passadas de «socialismo real» em vários países, não se deve fazer tábua-rasa delas; é importante examiná-las criticamente. Pois, «quem não estuda a História, está condenado a repeti-la». Seria a coisa mais estúpida e trágica, repetir os erros de pessoas, partidos e governos, que se intitularam socialistas ou comunistas! Será que as pessoas de esquerda não conseguem descolar das etiquetas, dos slogans, das narrativas heroicas, e usarem as suas faculdades de pensamento?

Sei que existem dentro das fileiras da esquerda pessoas sinceras e inteligentes, que compreendem as tragédias que foram - em numerosos casos - os desempenhos das esquerdas no poder. Provavelmente, muitos têm receio de ir até ao fim do raciocínio, ou de o formular de um modo límpido: 

- Serei eu melhor para fazer tal coisa? Não, por certo: Pela simples razão de que não sou historiador, nem politólogo; não me considero competente para fazer uma «nova síntese».  E não teria qualquer efeito prático, mesmo que a fizesse, e que ela fosse bem feita. Pois, essa nova síntese só teria impacto, se fosse conhecida e discutida. Porém, sabemos como a dinâmica política é tributária da publicidade; se não fores muito conhecido, ninguém te vai ouvir/ler. 

Penso, no entanto, que do ponto de vista filosófico, é necessário nos libertarmos dos conceitos dicotómicos que têm moldado o discurso da política, assim como a forma como costumamos pensar a moral e muitos outros assuntos. 

Um primeiro passo, será nos centrarmos no código de conduta interior, a nossa ética pessoal, uma ética não egocêntrica, mas realista. Uma ética em que nos sentimos ligados, através de laço espiritual, ao Universo e tentamos descortinar, no livro da Natureza, o sentido da nossa caminhada.

 Se a sociedade não está capaz de nos compreender, não vamos gesticular para tentar agradar-lhe. Não vamos tentar ganhar adeptos. Mais frutuoso - em qualquer situação - é agirmos de acordo com o nosso código interior. Isto acabará por dar seus frutos, junto das pessoas que nos são próximas. 

É pelos atos, não pelas palavras, que as mentes se podem abrir. Não devemos ter ilusões de poder. É ilusório crermos que somos capazes de mudar as sociedades, individualmente. No entanto, as sociedades mudam e as vontades e consciências têm um peso neste processo.