Um painel de especialistas de Direitos Humanos da ONU acaba de publicar um relatório sobre as atividades da rede Epstein. Segundo eles terá atingido o patamar de «crimes contra a humanidade», na forma sistemática e massiva de crimes levados a cabo contra as mulheres e meninas. Veja: https://www.reuters.com/world/allegations-epstein-files-may-amount-crimes-against-humanity-un-experts-say-2026-02-17/

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A QUESTÃO DO GÉNERO



Um dos «cavalos de batalha» do novo feminismo é de que o género é socialmente determinado. Daí, que seja possível assumir um papel «masculinizante», num corpo feminino e «feminizante» num corpo masculino. Esta contradição entre o corpo físico e o psiquismo, daria origem, nos casos mais acentuados a uma rejeição do corpo, assumindo uma identidade mental que se identifica com o sexo desejado, não com o sexo biológico.

Este arrazoado de teoria pós-moderna, desdobra-se muito bem em certos círculos do feminismo, mas não tem que ver com a origem do feminismo, historicamente falando, isto é, a emancipação da mulher de um estatuto inferior, que foi protagonizado desde a Revolução Francesa por ilustres mulheres republicanas, tendo sido a base para as feministas envolvidas no movimento operário no século XIX e nas primeiras décadas do século XX. As grandes figuras deste feminismo de emancipação social são pouco conhecidas, para não dizer desconhecidas, por bom número de pessoas que se proclamam feministas. Isso é claramente um resultado da distorção da História na época moderna e contemporânea. Fala-se muito das «Sufragetes», como sendo as feministas mais arrojadas quando, de facto, se limitavam a reclamar a participação igual da mulher na política, no governo da cidade. Enquanto isso, as feministas operárias insistiam no conteúdo social e revolucionário da igualdade de direitos e deveres de ambos os sexos na sociedade.

Eu, como biólogo, devo ter em conta que a espécie humana não surgiu de uma «criação separada». No entanto, não posso reduzir essa especificidade do humano aos genes, hormonas, comportamentos reflexos, etc. Não que não desempenhem um papel na estrutura e no comportamento dos seres humanos de ambos os sexos; porém, a complexidade humana faz com que as questões de sexo, de género e de identidade, não se possam reduzir a estes aspectos materiais, bioquímicos.

Antes do mais, a sociedade em si mesma atribui papeis aos dois géneros, numa modalidade mais ou menos estricta, consoante a época e a geografia. Depois, a flexibilidade intrínseca dos seres humanos, torna possível que indivíduos do género feminimo assumam tarefas e papéis sociais, tradicionalmente atribuídos a homens e vice versa.

Aquilo que sobressai quando se aborda este tema, é que a questão está transformada num terreno de combate ideológico, sendo geralmente assumido que uma postura favorável a ver-se o «género» como construção social apenas, é conotado com feminismo e progressismo, enquanto o vincar das componentes biológicas na base dos comportamentos, é atribuído à visão conservadora da biologia e da sociedade. Esta dicotomia falseia completamente os dados do problema, impossibilitando uma discussão séria, não ideológica. Tanto um como outro pólo estão errados, na medida em que absolutizam ou enfatizam apenas um conjunto de dados da questão.

Na história da biologia, foram frequentes as polémicas que separaram de forma radical dois campos, como os «criacionistas» por um lado, contra os «evolucionistas», por outro. Mas existem muitas outras polémicas na biologia, que se sobrepuzeram à procura e articulação dos factos em si mesmos, através de um dispositivo em categorias estanques: «A natureza e propriedades dos seres vivos seriam essencialmente devidas ao ambiente (ou à cultura) ou, quase em exclusivo, à sua constituição genética e hereditária», por exemplo. A «caracterização de raças humanas, como sendo um facto objetivo, ou como sendo apenas a projeção de mitos vindos do colonialismo», etc, etc.

O que estas polémicas possam ter de construtivo, é anulado pela polarização artificial que provocam, quer nos círculos científicos, quer na sociedade em geral. Esta polarização impede que as pessoas consigam examinar de forma fria e objetiva os argumentos de uns e de outros. Infelizmente, é frequente o anátema recair sobre os esforços de síntese, contemplando os dados positivos de uma e outra posição, mas descartando os exageros, as falsidades e os mitos.
Platão tentou explicar o aparecimento da sexualidade: A entidade divina que moldou os homens decidiu cortar ao meio um ser indistinto - uma célula, diríamos hoje - em duas metades: Estas teriam uma vida autónoma, mas cada metade procuraria sempre encontrar-se com a «outra cara metade», para se unir a ela. Note-se que as referidas metades podiam possuir o mesmo sexo, ou sexos diferentes. Com esta «explicação» (que não pode ser entendida literalmente, mas apenas metaforicamente), Platão e seus seguidores tentaram racionalizar a dualidade dos sexos, embora não pudessem, nessa época, explicar a função reprodutora. Quanto muito, reconheciam que o elemento masculino e feminino teriam de conjugar-se, de «coalescer», para formar um novo indivíduo.

Dando um salto para a biologia moderna, sabemos que nos Reinos dos Fungos, dos Vegetais e dos Animais, existem muitas soluções para o problema de formar um novo ser. Existem modalidades de reprodução sem sexo; as reproduções assexuadas são tanto mais banais, quanto passamos dos Animais, para as Plantas e destas, para os Fungos. As modalidades concretas de fusão das células sexuais (os gâmetas), são muito diversas; as barreiras para haver interfecundidade entre espécies distintas, mas aparentadas, são grandes mas não absolutas, etc.

A centralidade do fenómeno da reprodução sexuada nos animais ditos superiores (os vertebrados...), ajuda-nos a compreender a vantagem evolutiva desta modalidade de reprodução. Ao contrário  das modalidades  de reprodução assexuada, em que os descentes são essencialmente cópias geneticamente idênticas, gera-se - com a reprodução  sexuada - uma descendência heterogénea, com fenótipos distintos, capazes de enfrentar condições ambientais das mais diversas. Daí que muitos seres vivos conservem esta modalidade. Ela não é isenta de problemas, desde o do encontro entre gâmetas para a fecundação, até à limitação do número de descendentes: Em geral, na espécie humana e noutros grandes mamíferos, há apenas um ou poucos descendentes por cada fecundação, enquanto num fungo, planta, ou animal invertebrado com reprodução assexuada, é corrente produzirem-se muitos milhares de novos indivíduos, nalguns casos.

Todas estas noções da biologia evolutiva, da sexualidade e da biologia populacional são deficientemente ensinadas nos sistemas de ensino. Para isso, contribui a influência da visão tecnocrática e dos resquícios de mentalidade falsamente religiosa. Este complexo de razões, contra as quais me bati enquanto fui professor de biologia no ensino secundário, tem consequências ao nível da imagem difusa, da «sopa cultural», que prevalece na sociedade. Felizmente, há pessoas que educam as novas gerações, em família, desfazendo os mitos em torno da sexualidade e da biologia humana em geral; mas estes casos ainda são muito minoritários nas nossas sociedades.

Não me repugna reconhecer a existência da grande maleabilidade comportamental nos humanos: Verifica-se que a rigidez em consignar tarefas, por supostas inclinações dos homens ou das mulheres, é constantemente negada na prática. A visão dita tradicional da família não é mais do que pretexto para negar aquela flexibilidade. Porém, a questão da família não se resume à própria família, mas alarga-se à sociedade no seu todo.

Durante milénios, a família era simultaneamente a unidade de reprodução da espécie humana, de produção de géneros alimentares (cultivo da terra) e de transmissão cultural. Nesta tripla função, a família tinha de ser alargada, incluindo irmãos e irmãs, tios e tias, primos e primas, avós... Estes elementos da família contribuiam para a subsistência e educação dos jóvens, fossem ou não seus descendentes directos. Isto era uma necessidade, pois muitas pessoas adultas morriam cedo, especialmente mulheres, que frequentemente morriam de infecções pós-parto. As crianças órfãs não eram deixadas ao abandono.

Esta família alargada tornou-se apenas «teórica» quando evoluíu para "família  nuclear" devido ao modelo imposto pela sociedade industrial. A família passou a ser composta exclusivamente, pelos progenitores e os seus filhos [A família nuclear]. Tal família ficou relegada ao papel de reprodutora (produzindo filhos), sendo a função de subsistência obtida com trabalho externo (geralmente assalariado). Quanto à função educadora e sociabilizadora, esta foi entregue a entidades coletivas externas, estatais ou privadas. Já se vê que a organização social contemporânea é muito menos protetora no sentido de assegurar que - em caso de falta de um ou dos dois progenitores - as crianças ou adolescentes possam ter as necessidades básicas cobertas. Os Estados procuram suprir estas funções, mas fazem-no de forma mais incompleta, mais tardia e - sobretudo - menos humana, que a comunidade da família alargada.

A mentalidade prevalecente nos costumes, que acompanhou a instalação dos Estados neo-liberais e a anulação ou desvirtuação dos Estados de Bem-Estar Social, enfatiza uma espécie de liberdade: Um individualismo extremado, que pode seduzir algumas pessoas a pensar que todas as matérias respeitantes à sua individualidade (a determinação sexual, nomeadamente) são direitos inerentes à sua pessoa, que ninguém tem o direito de objetar. Esta visão coloca as pessoas jovens como «super-homens» ou «super-mulheres», para lhes fazer carregar com a responsabilidade exclusiva pelo seu «sucesso». Mas, o sucesso entendido por eles, geralmente, é o de passar para a classe «superior», a que está acima da contingência de viver, mês após mês, do magro salário. Obviamente, muitas dessas pessoas fracassam nesta ambição. Se algumas interiorizam este fracasso e culpabilizam-se a si próprias, outras deitam as culpas para aspectos sociais parciais; por exemplo, estrangeiros de cor e de baixo estatuto social, etc. Poucas pessoas tomam consciência de que seu fracasso é resultado da selecção classista.

Sou optimista, no entanto. Muitos jóvens estão cada vez mais capazes de compreender o condicionamento a que estão sujeitos, podendo assim descondicionar-se e ficar realmente responsáveis pela sua vida, sem se esquecerem de ajudar os outros à sua volta, a compreender as causas reais dos problemas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ANÁLISE DE CLASSE DO CAPITALISMO



Da herança deixada pela obra de Marx e Engels, assim como seus seguidores mais ortodoxos, a análise das relações entre indivíduos e classes no interior de uma sociedade capitalista, é porventura, aquilo que conserva - se atualizado, obviamente - operacionalidade. Os grandes rasgos de «Materialismo Histórico» são apenas uma forma de ideologia, um cozinhado de hegelianismo, messianismo judeo-cristão, materialismo mecanicista e determinismo. Marx era um filósofo; ele e Engels tinham a «mania dos sistemas», como era comum na classe intelectual da sua época, tendo este traço sido repercutido e perpetuado, nas sucessivas gerações de marxistas.

Mas, algo mantém-se válido, nesta profusão de teoria construída com objetivo bem claro, de legitimar um programa (o Manifesto do Partido Comunista) e esse algo é a visão de que as classes estruturam a sociedade, não só no presente, como desde a existência de um Estado hierarquizado, há cerca de 10 mil anos. Não apenas as classes existem, como estão imbrincadas umas nas outras; não há exploradores sem explorados e vice-versa. O funcionamento da sociedade apenas pode ser plenamente compreendido, se se estudar a relação das classes existentes. A luta de classes não é um desejo, ou uma fantasia voluntarista, mas uma realidade objetiva, por mais que seja negada. Essa luta é resultante das forças em presença num dado momento. Todas as classes estão relacionadas e desempenham especificamente um papel em relação ao processo produtivo. Claro que existe (sempre existiu) uma fração da população que não participa diretamente desse processo produtivo; os desempregados (o «exército de reserva») e também todos os que não contribuem nem diretamente nem indiretamente para esse processo. De facto, o capitalismo acomoda-se bem de um e de outro, na medida em que a sua existência exerce uma pressão para a baixa dos salários, permitindo assim uma maior rentabilidade da exploração.

Porém, a análise marxista não consegue dar conta do nível de concentração do capital, ao ponto deste ter constituído uma «super-classe» capitalista, de bilionários, que desempenha um papel muito direto na orientação dos poderes políticos. Já não há um relativo retraimento do «mundo dos negócios», em relação ao mundo da política. Já não acontece que os muito ricos se «contentem» em acumular os dividendos (e a esbanjá-los, muitas vezes). Esta fase do capitalismo está ultrapassada há muito tempo. A intervenção direta do super-capitalismo na direção dos Estados, seu papel é decisivo em todo o processo político, através da alavanca do financiamento. Isto vai desde a escolha de candidatos, até à inspiração das leis e das políticas gerais, mesmo nos Estados mais poderosos.

Fala-se muito de «neo-feudalismo»: Mas, construir um termo para designar a situação presente usando o termo «feudalismo», gera ambiguidades. No passado, os senhores feudais tinham âmbitos de intervenção vastos no seu feudo, porém, estavam subordinados ao poder real, em última instância. Algumas vezes sacudiam esse jugo, mas acabavam por eleger um deles como novo monarca. Estavam, de algum modo, limitados pelo poder eclesiástico, ele próprio com características feudais, mas que se movia por interesses próprios.

O presente corresponde a uma internacionalização sem precedentes do capital, com impérios corporativos constituídos, com base em monopólios. Estes, são veículos de extração de «renda», no sentido de beneficiarem da situação de monopólio, para ditarem preços muito acima do que conseguiriam numa situação de concorrência. Nos casos em que ocorre um oligopólio, as grandes empresas que o constituem, encontram-se para anular a concorrência entre elas. O exemplo das grandes cadeias de supermercados e hípermercados, que exploram continentes inteiros (ou mesmo transcontinentais) é bem visível, pois combinam os bens, os serviços e os preços respectivos, de forma a que não entrem em concorrência direta, umas com as outras. Também a própria malha de supermercados demonstra isso, ao se implantarem as novas unidades a certa distância de outras, já presentes, num dado raio.

Estes arranjos, que não são novos, passam a ser muito mais complicados na era da Internet, com a profusão de toda a espécie de vendas «on line». Mas, muito rapidamente, no Ocidente, apareceu um gigante da distribuição, a «Amazon», que monopoliza a própria clientela, fazendo com que esta acabe por ser cliente cativa dos produtos e serviços on-line. Por outro lado, a empresa que não tem seus produtos na Amazon, fica praticamente excluída do mercado. O mesmo se passa com as plataformas gigantes da China e de outros países asiáticos.

Em todos os domínios da economia, o Estado, por mais poderoso que seja, fica relegado para o papel de «homem de vendas», estabelecendo acordos comerciais, acordos de fornecimento de armas ou de energia, etc., com outros Estados. Este seu papel de «caixeiro viajante» ao serviço dos grandes potentados da indústria e serviços, mostra a secundarização do papel das entidades estatais, sobretudo no âmbito internacional. Note-se que o Estado está - em simultâneo - cada vez mais presente e invasivo (com a ajuda das grandes empresas tecnológicas) no interior de cada país. O Estado-polícia, ao serviço dos grandes interesses corporativos, está a fusionar com estes mesmos interesses, em tudo o que lhes possa trazer vantagens.

Na economia, os  sectores produtivos já não estão sob comando do Estado desde os anos oitenta, pelo menos. O exercício de «traçar as grandes linhas do plano», já não subsiste em muitos casos, noutros ainda se pratica, mas sem qualquer efeito, apenas como mero exercício retórico.

A economia, sob o comando do capital monopolista, está a subordinar os poderes do Estado, desde o Governo, ao Poder Legislativo e mesmo ao Judicial. Os grandes multibilionários ditam os seus termos ao Estado, sendo este obrigado a promulgar sob forma de decreto ou de lei, com ou sem um arremedo de debate no parlamento. A inteira classe política sabe isso perfeitamente; continua a representar o "teatro do poder", pois isso lhes traz vantagens pessoais. O enriquecimento súbito de certo número de políticos não pode ser devido a eles terem extraordinárias capacidades, nos domínios dos negócios. Proliferam formas encobertas de suborno, incluindo a corrupção «legal». Mas, também continuam e florescem formas de enriquecimento ilícito: As contas «off-shore» acumulam no total muitos biliões de dólares, protegidas por «Estados fictícios» com zero vigiliância sobre o que as sucursais dos bancos fazem no seu território. De vez em quando, alguns políticos acenam com a extinção de tais «paraísos fiscais», mas é apenas para se revestirem de um manto de virtude, para impressionar eleitores ingénuos. Este regime de encobrimento de capitais tem sido protegido, ao ponto de atividades claramente criminosas (tráfico de drogas, de seres humanos, e crimes financeiros diversos...) serem protegidas por arrastamento. Não são aplicadas regras de transparência, pois estas também atingiriam as contas de dinheiro desviado ao fisco , ou resultando de corrupção, ou de negócios «legais» mas encobertos.

Quando abordamos a estrutura deste capitalismo, não podemos passar por cima dos principais atores. Estes estão concentrados nos EUA e Reino Unido, com uma grande percentagem dos tais paraísos fiscais. Os principais beneficiários deste «escudo protetor» são - sobretudo - magnates anglo-americanos. Claro que as «elites» políticas e económicas de outras nações se aproveitam das facilidades conceditas nestas jurisdições aos muito ricos. É mais um elo de corrupção e dependência, em relação ao poder anglo-americano. Um dos pólos desta estrutura receptadora, está em Delawere, o Estado dos EUA de que Joe Biden foi governador. Mas os bancos e os locais geográficos onde se efetuam os branqueamentos de capitais do crime, são muitos. As malhas são muito largas. A CIA e outras agências estão bem ao corrente desse sub-mundo de negócios mafiosos. Servem-se dessas redes como forma de financiar operações de subversão nos mais diversos recantos do Mundo. Outro pólo é a City de Londres, que controla os fluxos de capitais de boa parte do mundo ocidental. Associados à City, estão muitos territórios ligados à coroa britânica, que não são formalmente colónias; têm regimes jurídicos a preceito, para ninguém controlar o que se passa nas suas instituições bancárias.

Entendo que a «grande acumulação primitiva» ocorreu quando espanhóis e portugueses se expandiram no século XVI, com as expropriações violentas e genocidas. Elas marcaram a fase inicial do capitalismo. Porém, a acumulação continuou pelos séculos, sob forma de colonialismo e de neo-colonialismo, até ao presente. As formas evoluíram, pois já não se trata agora de genocídio de ameríndios, nem de escravização de grande parte do continente africano. Mas os processos atuais de extração de renda não são numa escala menor: Considere-se as riquezas minerais que são extraídas de África, desde há séculos e até hoje. Estas atividades de mineração são de grande brutalidade, debelitam muito cedo os que aí trabalham, mantém-se uma população semi-escrava (incluíndo crianças), que aí trabalham. Estas condições de exploração são perfeitamente conhecidas das instituições internacionais, muitas destas atividades mineiras são realizadas por exploração direta das multinacionais ocidentais, outras são por empresas locais, mas fornecendo os mercados ocidentais. O público dos países que beneficiam destas formas de exploração é mantido «numa santa ignorância».
O processo de ocultação da exploração, com umas migalhas para as classes laboriosas dos países ricos, não é de agora. De facto, todo um setor das «ciências empresariais» dedica-se a encontrar formas, não apenas de fornecer novos produtos e serviços, como de suscitar no público a euforia consumista, com todo o desperdício que isso implica, mas com o benefício para os agentes de tal desperdício. No capitalismo, o ambiente foi sempre tratado como um recurso explorável, como algo que é lícito o empresário maltratar como quiser, visto que - ou é sua propriedade, ou de «ninguém», ou seja, são terras «baldias». Esta mentalidade foi-se mantendo e reforçando. Porém, o progressivo aumento da consciência sobre a destruição embiental que ocasiona, obrigou os especialistas de «Public Relations» a inventar o «capitalismo verde», «amigo do ambiente», cujos produtos e serviços podem ser consumidos, sem má-consciência, pelo público sofisticado e «ecológico» dos países ricos. Muito do chamado «capitalismo verde», tem estado a revelar-se uma forma ainda mais agressiva de depredação ambiental, pior ainda que os métodos tradicionais. Mas, muitos dos efeitos nefastos para o ambiente e para as sociedades, passam-se a milhares de quilómetros dos locais de consumo. É caso para dizer: «longe da vista, longe do coração».

Pepe Escobar escreve a certidão de óbito do Ocidente atlantista


 

O CANADÁ NÃO NEGOCEIA SOB AMEAÇA


 O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, respondeu - virando as costas e saindo - às imposições de Trump. Oiça este condensado da incompetência e narcisismo de Trump.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TRANSGÉNICA FOBIA DO MUNDO [Obras de Manuel Banet]



 É tudo uma questão de «décor»

Está-se numa cama, muda-se para outra

Muda-se de corpo, como de camisa

A vida plena não é mais que vazio


Dentro de antros escuros trafica-se

de tudo, bebendo cocktails exóticos

A luz forte do dia mata as ilusões

mas, se quiseres... vai por aí


Não te encontrarás, mas isso 

nada significa; o momento,

o instante, o frisson, são ersatz

da vida: Tu sabes isso, afinal...


Muito para além do frémito,

da erecção e do cio, existe

em cada pessoa um além

que teima em vir à superfície


Nos momentos mais inoportunos

abrem-se as portas de par em par

como estranho corpo ao luar

desnudado pelo vento


Mas ninguém hoje se importa;

a verdadeira cultura está morta

só restam cenas de teatro, 

ou cabaret, captadas em filme


Não querem ver-se ao espelho

olham pelo orifício do smartphone

onde um camelo cabe no buraco,

por mais que digam que não


Já não sei se estou  vivo no meio

de zombies, ou se meu espectro

se passeia pelo mundo real,

anónimo. Cá vou registando


Colecciono espantos e  cruzes

ruídos e sonhos abstrusos

Organizo estes retalhos

e mostro-os em vitrinas


São a colecção efémera

de coincidências naturais

tão naturais como zumbidos

de insectos aos ouvidos


Deste naufrágio algo restará

como fragmento ou fóssil

pelo arqueólogo recolhido,

enquanto forma outra de vida











GEORGE GERSHWIN [Segundas-f. musicais nº49]

 



Poucos artistas têm o privilégio de agradar aos cultores de música erudita e simultaneamente aos do jazz e música popular. É o caso de George Gershwin, este russo (de origem judaica) emigrado, que se afirmou ao longo das décadas como incontornável compositor, quer de peças musicais da Broadway ou de peças clássicas, como «Rapsody in Blue» ou ainda a ópera famosíssima «Porgy and Bess»

Esta ópera apresenta a vida dos negros sujeitos à exploração, já não no tempo do esclavagismo, mas ainda com relentos dessa época. Foi calorosamente recebida, embora muitos, na classe alta (e nas outras), não vissem os negros como inteiramente humanos. Porém, a tragédia representada na ópera Porgy and Bess, ia muito além do cliché, as personagens tinham real espessura humana. A sociedade «educada» dos anos 20 e 30 nos EUA, tinha cultura (musical e outra) essencialmente europeia. A sua aderência a uma inovação musical e teatral como esta, tinha que ver com a fase ascendente da sociedade e cultura nos EUA. Mas, não foi senão com uma luta de decénios, que foram reconhecidos aos antigos escravos direitos iguais aos dos brancos, culminando  com o Movimento pelos Direitos Civis (no início dos anos 1960). Esta luta custou a vida a Martin Luther King e  a Malcolm X, entre muitas outras vítimas da vingança de brancos racistas. 


The Man I Love


Versão de piano
por Carlo Balzaretti:


                                
 Alguns grandes 
sucessos de Gershwin 


Lista das composições por George Gershwin


As composições de Gershwin para o Music Hall são - em grande maioria - notáveis pela musicalidade e naturalidade. Têm sido gravadas em disco por várias gerações de artistas.
Dou abaixo apenas três exemplos, de entre a minhas peças preferidas:

- «Embreacable You», escrita em 1928, mas celebrizada em 1930, com Ginger Rogers e Fred Astaire e depois por uma coorte de cantores, incluindo Billie Holiday. Aqui, a versão de Judy Garland (1940) .



-«They can't take that away from me»: Canção que se presta muito bem à forma de cantar característica de Sarah Vaughan.




«Let's call the whole thing off»: Com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, famosíssimos cantores. Têm um número elevado de canções de Gershwin em suas discografias. Saboreiem o parlando, entremeado com frases cantadas.




Existem muitos  outros artistas que cantaram e gravaram obras de George Gershwin. Esta curta nota não tem a ambição de cobrir a abundante discografia. 
Note-se que o fluxo de novas versões de temas famosos do jazz (os standards) continua: Gershwin continua a ser um dos compositores mais frequentemente interpretados, sem dúvida. 
Ele é um marco da música erudita e uma referência incontornável na música de jazz. 



Algumas notáveis interpretações neste blog:









sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O BITCOIN E AS OUTRAS CRIPTODIVISAS PODEM IR PARA ZERO

Considero a mais séria e inteligente explicação sobre o que é na realidade uma criptodivisa e sobre o que são os pilares nos quais se está a (re)construír o sistema monetário, sabendo-se que o reino do dólar está a chegar ao fim. 

Oiça e divulgue o vídeo abaixo. Muitas pessoas poderão perder tudo ou grande parte dos seus investimentos por não darem ouvidos a estas palavras duras, mas certeiras:



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

PELA CABEÇA APODRECE O PEIXE

 

O ditado* aplica-se aos que estiveram no poder, com a confiança triunfante, os que julgam que o seu estado é eterno. Eles tornam-se tão despreocupados, que não se importam que certos indícios venham a público; julgam que podem sempre, de uma maneira ou de outra, desviar a justiça ou vingança.

AS REVOLUÇÕES, SÃO ELES (CLASSES DOMINANTES) QUE AS DESENCADEIAM: São eles que, pela sua soberba, criam inimizades, até entre os que eram do seu campo. De repente, o script é completamente diferente do que estava previsto. Surge uma revelação, um escândalo, uma imbecilidade, que são aproveitadas pelos inimigos. Nunca mais se vêem livres destes pecados e pecadilhos. Ás vezes, uns «pecadilhos» são a causa próxima de algum desses poderosos cair do seu pedestal.

 O que é certo é que os «de baixo» não podem continuar a assistir ao carnaval, grotesco e obsceno, sem reagir. Têm, de facto, reagido e bastante; porém, a media corporativa, passa sob silêncio as mobilizações contra o capital, nas suas mais diversas manifestações. 

Não devemos ser ingénuos e acreditar que o desmoronar do capitalismo financeirizado, se resume a perdas para os que estavam mais envolvidos na economia «de casino». É essa a ideia que nos querem vender. Mas, as pessoas comuns sentem os efeitos dos desmandos da classe no poder: a inflação, a degradação do Estado Social (Welfare State), a violência contra toda e qualquer dissidência, ao ponto de criminalizar os direitos básicos das «democracias» (direito à manifestação, direito de opinião, direito de organização, etc). 

A casta no poder e seus lacaios, pensam que o povo não tem memória, que cai sempre nas mesmas armadilhas. Mas, afinal, não são as pessoas do povo que têm má memória: São os poderosos, pois eles se viram sempre para as mesmas políticas de austeridade, impostas com violência. 

Estou à espera, para ver como esta avalanche de revelações e volte-faces se vai repercutir no plano político. O volume da enxurrada de revelações é  muito notório nos países do Ocidente, que tiveram um papel proeminente na condução das políticas mundiais: Os EUA, a Alemanha, a França, o Reino Unido, conduziram os seus povos, e os de outras nações, para o abismo. 

Pergunto a mim próprio, como é possível tanta estupidez, misturada com tanta arrogância. Que as coisas estivessem complicadas para os detentores do poder, não há dúvida. Mas, o seu desempenho piorou as situações, da diplomacia, à economia, da (falta de) coesão interna, às sanções, que fizeram boomerang... 

Parece que a fase do desmoronar do poderio ocidental se está aproximando, não ficando senão um grupo de potências, que já foram grandes, que terão de se conformar a serem apenas nações como as outras. Têm de perder primeiro as suas fixações das épocas coloniais e neocoloniais, o que não será difícil para a população em geral, ao contrário da pequena «elite» da classe dominante.

Eu desejo e anseio pela derrocada deste domínio do Ocidente, que não soube comportar-se, nem aprendeu as lições do passado e do presente. 

É preciso varrer o velho, para que o novo tenha espaço para se desenvolver.


COMPLEMENTOS:


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(*) Interpreto o ditado como a liderança de um país (ou mundial) sendo a «cabeça» do sistema, o seu apodrecimento (corrupção, impunidade dos poderosos, amoralismo, etc) espalha-se, em pouco tempo, pelo corpo da sociedade, mesmo pelas partes antes saudáveis.

Império em declínio: Aliados dos EUA escolhem a China (Warwick Powell)

 


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Valérie Bugault: «UMA REVOLUÇÃO CONTRA A PLUTOCRACIA»


 É muito mais fácil fazer críticas do que propor alternativas. Por isso, não irei atirar a pedra a esta investigadora, que tem a audácia de propor uma nova organização do Estado e da sociedade.

EMBORA MUITO CÉPTICO do seu modelo ideal, aceito que temos de partir de algo, de propostas construtivas, operativas, para a construção e gestão dessa outra sociedade alternativa que desejamos, e que se emancipou do domínio da plutocracia. 
As pessoas anti-globalistas e pró-construção de uma nova sociedade a partir da base, não precisam de aderir às propostas de Valérie Bugault; mas podem inspirar-se da sua metodologia, que parte da observação realista do funcionamento do poder nas nossas sociedades, para delinearem o que deveria substituir - no interesse das pessoas comuns - os mecanismos sociais e políticos atuais, que perpetuam a plutocracia.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

PHILIP GIRALDI «O CORAÇÃO DAS TREVAS»

 Philip Giraldi é um ex-analista da CIA, que se apercebeu há bastante tempo da letalidade do Império e tem desmascarado as narrativas da média dos EUA e internacional para desculpar o que é indesculpável. Os EUA são a nação que mais vezes esteve envolvida em invasões, golpes de  Estado, subversões, bloqueios e toda a espécie de atos contrários aos direitos Humanos. É de saudar a coragem de homens como Giraldi, que melhor compreendem as manobras do poder dos EUA e nos explicam o que está em causa, pois viram por dentro o funcionamento da CIA e do Governo.


The Heart of Darkness

Israel’s government is completely evil

It is not for nothing that most of the world both abhors and condemns Israeli behavior, whether it be measured by the never-ending genocide in Gaza or the similarly driven terrorizing and deportation of the Palestinian population on the West Bank. Israel is intent on taking full control of historic Palestine and is willing to do whatever it takes to bring that about and unfortunately the United States has been its all too often enthusiastic accomplice in that effort. Beyond that, Israel has bombed and otherwise killed its neighbors in Lebanon and Syria while also enticing Washington to join in the effort to attack Iran and bring about regime change in Tehran. Apartheid Israel, which has declared itself legally and ethnically a Jewish state, intends to become that in reality by eliminating all non-Jews from its ever expanding territory and it is willing to do whatever it takes to bring that about.

There is something that is a tad peculiar about the Jewish state’s sense of identity in that it does not regard killing those who are non-Jews by any means possible as either a crime, or, more to the point, as a sin in spite of the prohibition included in its own Ten Commandments. Nor does Israel consider any agreements it enters into with other countries to be in any way binding on it and its leaders, witness the regular violation of the two ceasefires that Tel Aviv has entered into over Gaza, or its behavior regarding similar arrangements with neighbors Lebanon and Syria. In Lebanon and Syria, Israel is currently spraying “unidentified” though apparently toxic chemicals on farmland near the border to drive away local residents through destruction of their livelihoods. Israel does what Israel does and the United States, which was a guarantor of all the ceasefires as well as of the ongoing peace process, never says a word when Israel breaks the agreements and goes about killing more local inhabitants.

Israel’s latest ploy is to bring about a United States attack on Iran to destroy that country’s ability to strike Israel, making the Jewish state by default the regional dominant military and political power. Israel reportedly convinced Donald Trump not to attack Iran several weeks ago because there was concern that Iran would, as part of its defense, attack targets inside Israel that had the ability to support the American effort. In other words, Israel was seeking a solution to Iran that would not put itself at risk and would instead put the onus on the United States. One might point out that this is hardly the appropriate behavior for a country that is repeatedly praised as Washington’s “best friend and closest ally.” It is anything but that while Trump and the politicians are either too stupid or corrupted to realize that, or too intimidated by the Lobby, to respond as they should if the US interest were truly their priority in relationship to an Iran which does not threaten America in any way.

Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu has now called for a meeting with Donald Trump for later this week, which would be the ninth meeting between the two since Trump’s inauguration, far more than with any other foreign politician. Netanyahu has asked to meet with Trump to discuss options for the ongoing indirect discussions with the Iranians. Netanyahu’s office released a statement that “The prime minister believes that all negotiations must include limiting the Iranian ballistic missiles, and ending support for the Iranian axis” of Hamas, Hezbollah and the Houthis, which Israel perceives at the principal threats against it.

In any event, it is generally conceded that Trump will do what Israel wants. Netanyahu will also be seeking a plan of action whereby the US will attack and bring about regime change in Iran while also neutralizing its offensive capabilities. Israel meanwhile will stay out of the fight to avoid any damage from the Iranian arsenal. Neat, and any dead Americans resulting from that formula, most probably on US bases in the Persian Gulf region, will just be the cost of doing business with Netanyahu who will be leaving from his sessions with Trump with a smile.

Netanyahu is smiling because he always wins when dealing with American presidents while simultaneously treating the United States like a bit of dirty laundry that can easily be discarded or ignored whenever it is is not useful as a source of money, weapons and protection. Note the disregard for the damage done to the United States by the Jeffrey Epstein conspiracy which was without question a major blackmail operation up to the US presidential level run by Mossad to favorably influence policies towards the Jewish state. Even now with many incriminating documents revealed there is total resistance on the part of the Trump regime and the opposition Democrats to honestly expose what was done by our “good friends” in Israel.

But I have described Israel as uniquely evil and there is plenty of evidence for that outside of its treatment of the United States of America as some kind of vassal state that is a source of money and political and military support. As observed above, Israel has never complied with any agreement that it makes with foreign countries. During the course of the current ceasefire it has blocked the entry of food or medicines while also continuing to bomb and shoot Gazans, killing close of 600, including many children. Meanwhile, far from withdrawing its army from Gaza it has increased its foothold in the Strip, occupying close to 60% of the total area as a “Yellow” security zone, presumably leaving the rest as eventually intended for the Trump Gaza Resort or for Israeli settlers who have been appearing in the area in increasing numbers and even staking out new settlements.

As a gesture to indicate some measure of compliance with the ceasefire, last week Israel agree to partially open the Rafah Crossing from Gaza to Egypt which it controls, and the first to pass through were supposed to be those Gazans suffering from injuries and wounds requiring advanced medical treatment. Something like 22,000 Gazans were registered or lined up seeking passage and a long line of ambulances from the Egyptian side were waiting to help. Israel then closed the Crossing in spite of its commitment to open it and reportedly only let 150 injured Gazans pass through it with 50 Gazans who were already in Egypt allowed to return home from the other side.

Another story making the rounds is how the Israeli military has now conceded that its multi year offensive in Gaza has killed approximately 70,000 Gazans, a number that is being praised in some circles because it is considered an honest, though unfortunately brutal, appraisal. Some believe, however, it is meant to throw out a lower number so the real number will never be revealed. The 70,000 number is much higher than what has appeared in the Zionist controlled western media up until now but it is far below other estimates from reliable sources like the British medical journal The Lancet that place the deaths at 186,000, with most of the bodies still buried under the rubble. Some other conservative estimates believe that fully 12% of the original 2 million Gazan population has been killed, meaning close to 240,000.

And when one speaks of how evil Israel is, there is another issue which might be considered. Israel is sometimes described as the leading country in providing resources for organ replacements, a procedure sometimes euphemized as “organ harvesting.” That appears to be true because the thousands of Palestinians who are held without charges in Israeli prisons are treated abominably, to include having their organs removed for marketing purposes if they die and even when they are still living. The evidence for that horrific behavior consists of the bodies of Palestinians that are released from prisons and given to their families for burial. Those bodies frequently have what are presumed to be their viable body organs as well as corneas or even skin removed prior to being returned. The organs are then marketed worldwide. The result is that organ donation in “Israel” is among the highest in the world, despite some religious restrictions and a relatively small population.

So I rest my case. These are not the sorts of things that countries with any sense of morality or respectability embrace. And unfortunately Israel is able to drag Donald Trump and the US Congress along with it, even making Washington do the real dirty work when it comes to confronting nations like Iran. But there are signs that the American public has become tired of the whole charade and Israel’s role in it. The litmus test will come with the handling of the situation with Iran and we should be seeing what will happen there in the next week or two.

Philip M. Giraldi, Ph.D., is Executive Director of the Council for the National Interest, a 501(c)3 tax deductible educational foundation (Federal ID Number #52-1739023) that seeks a more interests-based U.S. foreign policy in the Middle East. Website is https://councilforthenationalinterest.org address is P.O. Box 2157, Purcellville VA 20134 and its email is inform@cnionline.org

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

FRANÇOIS COUPERIN «L' Art de Toucher le Clavecin» (Segundas-f. musicais nº48)

 

                                                          Acima, frontispicio da edição de 1716 

Nós já mencionámos aqui, nas «Segundas-feiras musicais», a importância de François Couperin na música em geral e no barroco francês, em particular. Também dedicámos um artigo aos 2 livros de órgão, por ele escritos. 

Embora François Couperin tenha escrito obras estrictamente litúrgicas, não é propriamente nessa qualidade que ele é recordado, mas na de músico da corte de Luís XIV, o «Rei Sol». As suas composições para vários instrumentos, nomeadamente a série de concertos intitulada «Les Nations», dão continuidade à música concertante francesa, distinta, na sua estrutura e conteúdos, do concerto italiano.  Este, como toda a espécie de música italiana (ópera, oratória, concerto com solistas, etc.), apoderou-se das cortes e dos palcos, durante mais de um século.    

François Couperin atingiu celebridade comparável à de muitos outros grandes vultos da era barroca. Porém, só muito tarde (anos 1960 e posteriores) começaram suas peças a ser estudadas e apreciadas por um público mais amplo, graças ao movimento de fazer reviver a música das eras passadas com instrumentos de origem, ou suas cópias fiéis. Não apenas isso, como a séria investigação em musicologia e análise musical, que permitiram restituir a maneira graciosa e subtil da «arte de tanger as teclas» e a adaptação da ornamentação às regras implícitas ou explícitas em cada escola, em cada época.

No estudo e formação de jovens cravistas, o breve tratado que apresentamos aqui, composto e editado pelo próprio François Couperin, desempenha um papel central. Os oito prelúdios (e a Allemande que abre a obra) acompanham-se de conselhos sobre como dedilhar as peças e a utilização dos ornamentos. Enquanto a edição inicial (de 1716) apenas refere exercícios de técnica e notas sobre como dedilhar a obra «Pièces de Clavecin», além de um ensaio sobre ornamentação, a edição de 1717 inclui um novo prefácio e um suplemento descrevendo o modo de dedilhar o segundo volume das «Pièces de Clavecin». O autor propõe também que os possuidores da primeira edição a troquem gratuitamente pela edição de 1717, com o novo prefácio e os suplementos acima descritos. Por esta razão, os exemplares da primeira edição, são hoje muito raros.

Uma característica notável destes prelúdios, é a sua musicalidade, a sua variedade também, ao ponto de serem tangidos por si mesmos, não como uma introdução de Suite (ou Ordre) no mesmo tom, como era costume fazer-se. 

Os prelúdios têm personalidade própria; são muito usados como peças pedagógicas para os principantes no estudo do cravo; mas também, em disco ou em concerto, por cravistas de renome. 

Abaixo, pode escutar a integral das partes musicais da «Art de Toucher Le Clavecin» com as respectivas partituras, numa edição moderna. Os textos em francês são os originais de François Couperin, com traduções (pelo editor contemporâneo) em alemão e inglês.

 

Para estudiosos e melómanos com interesse em comparar os estilos interpretativos na música para cravo, existem hoje várias obras eruditas de musicólogos, pelo que um cravista pode adequar a sua execução das peças ao que se sabe seguramente sobre os estilos intepretativos dos finais do século XVII e princípios do século XVIII, tanto em França, como na Alemanha, nos Países Baixos, na Península Ibérica ou em Itália. Respeitando os canons interpretativos da região e da época, ele é livre de escolher a interpretação que lhe é própria, dentro de uma vasta gama de hipóteses sem - com isso - trair a autenticidade das peças. 

A fluidez da música barroca e especialmente da música para cravo solo, deve-se ao papel importante que desempenhava a improvisação: Esta, podia ser livre, embora geralmente a partir de um tema. Podia corresponder a uma série de variações improvisadas sobre uma canção ou trecho. Podia existir dentro de cada peça, ao nível das ornamentações, das mudanças de teclado, dos registos, do andamento... Nestas circunstâncias, os grandes interpretes do tempo de Couperin - e os de hoje - podiam ser fiéis ao espírito de uma peça, apesar de divergirem  nos aspectos acima mencionados.