Um painel de especialistas de Direitos Humanos da ONU acaba de publicar um relatório sobre as atividades da rede Epstein. Segundo eles terá atingido o patamar de «crimes contra a humanidade», na forma sistemática e massiva de crimes levados a cabo contra as mulheres e meninas. Veja: https://www.reuters.com/world/allegations-epstein-files-may-amount-crimes-against-humanity-un-experts-say-2026-02-17/

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A QUESTÃO DO GÉNERO



Um dos «cavalos de batalha» do novo feminismo é de que o género é socialmente determinado. Daí, que seja possível assumir um papel «masculinizante», num corpo feminino e «feminizante» num corpo masculino. Esta contradição entre o corpo físico e o psiquismo, daria origem, nos casos mais acentuados a uma rejeição do corpo, assumindo uma identidade mental que se identifica com o sexo desejado, não com o sexo biológico.

Este arrazoado de teoria pós-moderna, desdobra-se muito bem em certos círculos do feminismo, mas não tem que ver com a origem do feminismo, historicamente falando, isto é, a emancipação da mulher de um estatuto inferior, que foi protagonizado desde a Revolução Francesa por ilustres mulheres republicanas, tendo sido a base para as feministas envolvidas no movimento operário no século XIX e nas primeiras décadas do século XX. As grandes figuras deste feminismo de emancipação social são pouco conhecidas, para não dizer desconhecidas, por bom número de pessoas que se proclamam feministas. Isso é claramente um resultado da distorção a História na época moderna e contemporânea. Fala-se muito das «Sufragetes», como sendo as feministas mais arrojadas quando, de facto, se limitavam a reclamar a participação igual da mulher na política, no governo da cidade. Enquanto isso, as feministas operárias insistiam no conteúdo social e revolucionário da igualdade de direitos e deveres de ambos os sexos na sociedade.

Eu, como biólogo, devo ter em conta que a espécie humana não surgiu de uma «criação separada». No entanto, não posso reduzir essa especificidade do humano aos genes, hormonas, comportamentos reflexos, etc. Não que não desempenhem um papel na estrutura e no comportamento dos seres humanos de ambos os sexos; porém, a complexidade humana faz com que as questões de sexo, de género e de identidade, não se possam reduzir a estes aspectos materiais, bioquímos.

Antes do mais, a sociedade em si mesma atribui papeis aos dois géneros, numa modalidade mais ou menos estricta, consoante a época e a geografia. Depois, a flexibilidade intrínseca dos seres humanos, torna possível que indivíduos do género feminimo assumam tarefas e papéis sociais, tradicionalmente atribuídos a homens e vice versa.

Aquilo que sobressai quando se aborda este tema, é que a questão está transformada num terreno de combate ideológico, sendo geralmente assumido que uma postura favorável a ver-se o «género» como construção social apenas, é conotado com feminismo e progressismo, enquanto o vincar das componentes biológicas na base dos comportamentos, é atribuído à visão conservadora da biologia e da sociedade. Esta dicotomia falseia completamente os dados do problema, impossibilitando uma discussão séria, não ideológica. Tanto um como outro pólo estão errados, na medida em que absolutizam ou enfatizam apenas um conjunto de dados da questão.

Na história da biologia, foram frequentes as polémicas que separavam de forma radical dois campos, como os «criacionistas» por um lado, contra os «evolucionistas», por outro. Mas existem muitas outras polémicas na biologia, que se sobrepuzeram à procura e articulação dos factos em si mesmos, através de um dispositivo em categorias estanques: «A natureza e propriedades dos seres vivos seriam essencialmente devidas ao ambiente (ou à cultura) ou, quase em exclusivo, à sua constituição genética e hereditária», por exemplo. A «caracterização de raças humanas, como sendo um facto objetivo, ou como sendo apenas a projeção de mitos vindos do colonialismo», etc, etc.

O que estas polémicas possam ter de construtivo, é anulado pela polarização artificial que provocam, quer nos círculos científicos, quer na sociedade em geral. Esta polarização impede que as pessoas consigam examinar de forma fria e objetiva os argumentos de uns e de outros. Infelizmente, é frequente o grande anátema recair sobre esforços de síntese, contemplando os dados positivos de uma e outra posição, mas descartando os exageros, as falsidades e os mitos.
Platão tentou explicar o aparecimento da sexualidade: A entidade divina que moldou os homens decidiu cortar ao meio um ser indistinto - uma célula, diríamos hoje - em duas metades: Estas teriam uma vida autónoma, mas procurariam sempre encontrar-se com a «outra cara metade», para se unirem a ela. Note-se que as referidas metades podiam pertencer ao mesmo sexo, ou a sexos diferentes. Com esta «explicação» (que não pode ser entendida literalmente, mas apenas metaforicamente), Platão e seus seguidores tentaram racionalizar a dualidade dos sexos, embora não pudessem nessa época, explicar a função reprodutora. Quanto muito, reconheciam que o elemento masculino e feminino teriam de conjugar-se, de «coalescer», para formar um novo indivíduo.

Dando um salto para a biologia moderna, sabemos que nos Reinos dos Fungos, dos Vegetais e dos Animais, existem muitas soluções para o problema de formar um novo ser. Existem modalidades de reprodução sem sexo; as reproduções assexuadas são tanto mais banais, quanto passamos dos Animais, para as Plantas e destas, para os Fungos. As modalidades concretas de fusão das células sexuais (os gâmetas), são muito diversas; as barreiras para haver interfecundidade em espécies distintas, mas aparentadas, são grandes mas não absolutas, etc.

A centralidade do fenómeno da reprodução sexuada nos animais ditos superiores (os vertebrados...), ajuda-nos a compreender a vantagem evolutiva desta modalidade de reprodução. Nesta, gera-se uma descendância heterogénea, com fenótipos distintos, capazes de enfrentar condições ambientais das mais diversas. Daí que muitos seres vivos conservem esta modalidade. Ela não é isenta de problemas, desde o problema do encontro entre gâmetas para haver fecundação, até à limitação do número de descendentes: Em geral, na espécie humana e noutros grandes mamíferos, há apenas um ou poucos descendentes por cada fecundação, enquanto num fungo, planta, ou animal invertebrado com reprodução assexuada, podem-se produzir muitos milhares de novos indivíduos, nalguns casos.

Todas estas noções da biologia evolutiva, da sexualidade e da biologia populacional são deficientemente ensinadas nos sistemas de ensino. Para isso, contribui a influência da visão tecnocrática e dos resquícios de mentalidade falsamente religiosa. Este complexo de razões, contra as quais me bati enquanto fui professor de biologia no ensino secundário, tem consequências ao nível da imagem difusa, da «sopa cultural», que prevalece na sociedade. Felizmente, há pessoas que educam as novas gerações, em família, desfazendo os mitos em torno da sexualidade e da biologia humana em geral; mas estes casos ainda são muito minoritários nas nossas sociedades.

Não me repugna reconhecer a existência da grande maleabilidade comportamental dos humanos: Verifica-se que a rigidez de consignar tarefas, por supostas inclinações dos homens ou das mulheres, é constantemente negada na prática. A visão dita tradicional da família não é mais do que pretexto para negar aquela flexibilidade. Porém, a questão da família não se resume à própria família, mas alarga-se à sociedade no seu todo.

Durante milénios, a família era simultaneamente a unidade de reprodução, de produção de géneros alimentares (cultivo da terra) e de transmissão cultural. Nesta tripla função, a família tinha de ser alargada, incluindo irmãos e irmãs, tios e tias, primos e primas, avós... Estes elementos da família, em geral, eram capazes de ajudar à subsistência e educação dos jóvens. Isto era uma necessidade, pois muitas pessoas adultas morriam cedo, especialmente as mulheres, que frequentemente morriam de infecções pós-parto. As crianças órfãs não eram deixadas ao abandono.

Esta família alargada tornou-se apenas «teórica» quando evoluíu o modelo de sociedade industrial. A família passou a ser composta exclusivamente, pelos progenitores e os seus filhos [A chamada família nuclear]. Tal família ficou relegada ao papel de reprodutora (produzindo filhos), sendo a função de subsistência obtida com trabalho externo (geralmente assalariado). Quanto à função educadora e sociabilizadora, foi entregue a entidades coletivas externas, estatais ou privadas. Já se vê que a organização social contemporânea é muito menos protetora no sentido de assegurar que - em caso de falta de um ou dos dois progenitores - as crianças ou adolescentes possam ter as necessidades básicas cobertas. Os Estados procuram suprir estas funções, mas fazem-no de forma mais incompleta, mais tardia e - sobretudo - menos humana, que a comunidade da família alargada.

Penso que a mentalidade prevalecente nos costumes, que acompanhou a instalação dos Estados neo-liberais e a anulação ou desvirtuação dos Estados de Bem-Estar Social, enfatiza uma espécie de liberdade: Um individualismo extremado, que pode seduzir algumas pessoas a pensar que todas as matérias respeitantes à sua individualidade (a determinação sexual, especialemente) são direitos inerentes à sua pessoa e que ninguém tem o direito de objetar. Esta visão coloca as pessoas jovens como «super-homens» ou «super-mulheres», para lhes fazer carregar com a responsabilidade exclusiva pelo seu «sucesso». Mas, o sucesso que eles entendem é o de passar para a classe «superior», a que está acima da contingência de viver, mês após mês, do magro salário. Obviamente, muitas dessas pessoas fracassam nesta ambição. Se algumas interiorizam este fracasso e culpabilizam-se a si próprias, outras deitam as culpas para aspectos sociais parciais; por exemplo, estrangeiros de cor e de baixo estatuto social, etc. Poucas pessoas tomam consciência de que seu fracasso é resultado da selecção classista.

Sou optimista, no entanto. Muitos jóvens estão cada vez mais capazes de compreender o condicionamento a que estão sujeitos, podendo assim descondicionar-se e ficar realmente responsáveis pela sua vida, sem se esquecerem de ajudar os outros à sua volta, a compreender as causas reais dos problemas.

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