Conheci pessoalmente, por acaso, Rão Kyao nos bastidores dum festival de Jazz de Cascais, há muitos anos, não me lembro exactamente quando; apenas sei que foi nos anos 1980.
Ele domina um vasto espectro de instrumentos e de estilos musicais. Além das adaptações instrumentais, belíssimas, de música popular portuguesa, na flauta de bambu e saxofone, ele tem muitas composições originais.
A playlist que aqui apresento, dá uma ideia do sincretismo musical de Rão Kyao: além de se inspirar no folclore de Portugal, também recorre a temas da Índia, do Norte de África, da China, etc.
No jazz convergiram vários tipos de música vindos de várias origens: Não só o cantado, dançado e tocado nas roças do Sul por jornaleiros que faziam trabalho duro e mal pago (nesse meio nasceram os blues). Também a música urbana do Sul, de Nova Orleans em particular, abundante em lupanares e cabarets, onde nasceram o ragtime e o stride.
Não podia encetar este programa melhor do que com a versão a dois pianos do sucesso da Broadway, depois vertido em filme, de «Cabaret», com o desempenho de Liza Minnelli (filha de Judy Garland e de Vincent Minnelli).
O programa segue com duas obras que ilustram a criatividade de James P. Johnson, um dos criadores do estilo «stride».
Muitas enciclopédias e dicionários dão uma panorâmica das origens e evolução do jazz.
Poucos, no entanto, enfatizam o enorme papel do «stride» na sua história. No entanto, os maiores pianistas de jazz utilizaram* este estilo, pelo menos numa fase da sua carreira.
Para mais esclarecimento sobre o stride, pode consultar:
Música alegre, viruosística sem o parecer, ganha todo o seu brilho nas mãos do casal Stephanie e Paolo. Deliciem-se com o «stride», correspondente às primeiras formas do jazz.
Poucos artistas têm o privilégio de agradar aos cultores de música erudita e simultaneamente aos do jazz e música popular. É o caso de George Gershwin, este russo (de origem judaica) emigrado, que se afirmou ao longo das décadas como incontornável compositor, quer de peças musicais da Broadway ou de peças clássicas, como «Rapsody in Blue» ou ainda a ópera famosíssima «Porgy and Bess».
Esta ópera apresenta a vida dos negros sujeitos à exploração, já não no tempo do esclavagismo, mas ainda com relentos dessa época. Foi calorosamente recebida, embora muitos, na classe alta (e nas outras), não vissem os negros como inteiramente humanos. Porém, a tragédia representada na ópera Porgy and Bess, ia muito além do cliché, as personagens tinham real espessura humana. A sociedade «educada» dos anos 20 e 30 nos EUA, tinha cultura (musical e outra) essencialmente europeia. A sua aderência a uma inovação musical e teatral como esta, tinha que ver com a fase ascendente da sociedade e cultura nos EUA. Mas, não foi senão com uma luta de decénios, que foram reconhecidos aos antigos escravos direitos iguais aos dos brancos, culminando com o Movimento pelos Direitos Civis (no início dos anos 1960). Esta luta custou a vida a Martin Luther King e a Malcolm X, entre muitas outras vítimas da vingança de brancos racistas.
As composições de Gershwin para o Music Hall são - em grande maioria - notáveis pela musicalidade e naturalidade. Têm sido gravadas em disco por várias gerações de artistas.
Dou abaixo apenas três exemplos, de entre a minhas peças preferidas:
- «Embreacable You», escrita em 1928, mas celebrizada em 1930, com Ginger Rogers e Fred Astaire e depois por uma coorte de cantores, incluindo Billie Holiday. Aqui, a versão de Judy Garland (1940) .
-«They can't take that away from me»: Canção que se presta muito bem à forma de cantar característica de Sarah Vaughan.
Existem muitos outros artistas que cantaram e gravaram obras de George Gershwin. Esta curta nota não tem a ambição de cobrir a abundante discografia.
Note-se que o fluxo de novas versões de temas famosos do jazz (os standards) continua: Gershwin continua a ser um dos compositores mais frequentemente interpretados, sem dúvida.
Ele é um marco da música erudita e uma referência incontornável na música de jazz.
Don't know why
There's no sun up in the sky
Stormy weather
Since my man and I ain't together
Keeps raining all the time
Life is bare
Gloom and misery everywhere
Stormy weather
Just can't get my poor self together
I'm weary all the time,The time
So weary all the time
When he went away
The blues walked in and met me
If he stays away
Old rocking chair will get me
All I do is pray
The Lord above will let me
Walk in the sun once more
Can't go on
Everything I had is gone
Stormy weather
Since my man and I ain't together
Keeps raining all the time
Keeps raining all the time
When he went away
The blues walked in and met me
If he stays away
Old rocking chair will get me
All I do is pray
The Lord above will let me
Walk in the sun once more
Can't go on
Everything I had is gone
Stormy weather
Since my man and I ain't together
Keeps raining all the time
Keeps raining all the time
Half a love, never appealed to me If your heart, never could yield to me Then I'd rather have nothing at all
All or nothing at all If it's love, there ain't no in between Why begin then cry for something that might have been? No, I'd rather, rather have nothing at all
Please don't bring your lips so close to my cheek Don't you smile or I'll be lost beyond recall The kiss in your eyes, the touch of your hand makes me weak And my heart, it may grow dizzy and fall
And if I fell under the spell of your call I would be, I'd be caught in the undertow So you see, I have got to say no, no All or nothing at all
All or nothing at all Nothing at all There ain't nothing at all Nothing at all
A voz de Billie Holiday tem-me acompanhado nos bons e maus momentos, como se fosse uma secreta mensagem, dando-me coragem ou alegria, conforme as situações...Porque tudo me soa perfeito nestas gravações, a voz e o acompanhamento dos músicos. Uma «cançoneta na moda», interpretada por ela, transforma-se num pequeno cofre cheio de joias. Confesso-me incapaz de fazer uma lista definitiva das gravações da Lady 'Day, embora tenha tentado. Há uma autenticidade nestas gravações, uma perfeita adequação interpretativa, que raramente encontro noutras vozes do jazz. Há interpretes de quem gostamos tanto, que queremos nos apropriar das suas canções, da sua arte. Mas, afinal, acabam por ser eles a apropriarem-se de nós!!
Aqui têm a «playlist» RECALLING BILLIE. Mergulhem no seu universo sonoro: Verão que as melodias e letras, na sua voz, carregam muita energia. Não sei explicar a atração que sinto, mas acabo sempre por voltar à Billie Holiday.
Dedico esta playlist aos que frequentavam comigo o Hot Clube nas décadas de 70-80, quando aprendi a apreciar o jazz e «descobri» a voz e personalidade extraordinárias de Billie Holiday:
Para quem aprecia o reportório da guitarra clássica ou de jazz, consultar a lista AQUI
Na interpretação de Stan Getz e Charlie Byrd, a melodia é executada pela guitarra (a cargo de Charlie Byrd), enquanto o saxofone de Stan Getz elabora improvisos sobre a melodia, usando o famoso tema do flamenco (ele próprio retirado da canção renascentista «Guarda me las vacas»). A utilização do tema do flamenco é também frequente nos fados. A base harmónica é a mesma, pelo que a inventividade reside nas variações.
Na sua versão original, este Samba Triste é uma pequena amostra da alma lusófona, aqui interpretada pelo seu criador, o genial Baden Powell. É um dos grandes compositores brasileiros, que compôs célebres peças musicando poemas de Vinícius de Moraes, «o branco mais negro do Brasil» que nos traduziu em palavras o mistério e a sedução do Brasil. A sua poesia foi servida por excelentes músicos compositores, que souberam exprimir a música fluida e sensual desta grande nação.