É tudo uma questão de «décor»
Está-se numa cama, muda-se para outra
Muda-se de corpo, como de camisa
A vida plena não é mais que vazio
Dentro de antros escuros trafica-se
De tudo, bebendo cocktails exóticos
A luz forte do dia mata ilusões
Mas, se quiseres... vai por aí
Não te encontrarás, mas isso
Nada significa, o momento
O instante, o frisson, são ersatz
Da vida: Tu sabes isso, afinal...
Muito para além do frémito,
Da erecção e do cio, existe
Em cada pessoa um além
Que teima em vir à superfície
Nos momentos mais inoportunos
Abrem-se as portas, de par em par
Como estranho corpo ao luar
Desnudado pelo vento
Mas ninguém hoje se importa;
A verdadeira cultura está morta
Só restam cenas de teatro,
ou cabaret, captadas em filme
Não querem ver-se ao espelho
Olham pelo orifício do smartphone
Onde um camelo cabe no buraco,
Por mais que digam que não
Já não sei se estou vivo no meio
De zombies, ou se meu espectro
Se passeia pelo mundo real
Anónimo. Cá vou registando
Colecciono espantos e cruzes
Ruídos e sonhos abstrusos
Organizo estes retalhos
E mostro-os em vitrinas
São a colecção efémera
De coincidências naturais
Tão naturais como zumbidos
De insectos aos ouvidos
Deste naufrágio algo restará
Como fragmento ou fóssil
Pelo arqueólogo recolhido,
Enquanto outra forma de vida
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