segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TRANSGÉNICA FOBIA DO MUNDO [Obras de Manuel Banet]



 É tudo uma questão de «décor»

Está-se numa cama, muda-se para outra

Muda-se de corpo, como de camisa

A vida plena não é mais que vazio


Dentro de antros escuros trafica-se

De tudo, bebendo cocktails exóticos

A luz forte do dia mata  ilusões

Mas, se quiseres... vai por aí


Não te encontrarás, mas isso 

Nada significa, o momento

O instante, o frisson, são ersatz

Da vida: Tu sabes isso, afinal...


Muito para além do frémito,

Da erecção e do cio, existe

Em cada pessoa um além

Que teima em vir à superfície


Nos momentos mais inoportunos

Abrem-se as portas, de par em par

Como estranho corpo ao luar

Desnudado pelo vento


Mas ninguém hoje se importa;

A verdadeira cultura está morta

Só restam cenas de teatro, 

ou cabaret, captadas em filme


Não querem ver-se ao espelho

Olham pelo orifício do smartphone

Onde um camelo cabe no buraco,

Por mais que digam que não


Já não sei se estou  vivo no meio

De zombies, ou se meu espectro

Se passeia pelo mundo real

Anónimo. Cá vou registando


Colecciono espantos e  cruzes

Ruídos e sonhos abstrusos

Organizo estes retalhos

E mostro-os em vitrinas


São a colecção efémera

De coincidências naturais

Tão naturais como zumbidos

De insectos aos ouvidos


Deste naufrágio algo restará

Como fragmento ou fóssil

Pelo arqueólogo recolhido,

Enquanto outra forma de vida











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