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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ANÁLISE DE CLASSE DO CAPITALISMO



Da herança deixada pela obra de Marx e Engels, assim como seus seguidores mais ortodoxos, a análise das relações entre indivíduos e classes no interior de uma sociedade capitalista, é porventura, aquilo que conserva - se atualizado, obviamente - operacionalidade. Os grandes rasgos de «Materialismo Histórico» são apenas uma forma de ideologia, um cozinhado de hegelianismo, messianismo judeo-cristão, materialismo mecanicista e determinismo. Marx era um filósofo; ele e Engels tinham a «mania dos sistemas», como era comum na classe intelectual da sua época, tendo este traço sido repercutido e perpetuado, nas sucessivas gerações de marxistas.

Mas, algo mantém-se válido, nesta profusão de teoria construída com objetivo bem claro, de legitimar um programa (o Manifesto do Partido Comunista) e esse algo é a visão de que as classes estruturam a sociedade, não só no presente, como desde a existência de um Estado hierarquizado, há cerca de 10 mil anos. Não apenas as classes existem, como estão imbrincadas umas nas outras; não há exploradores sem explorados e vice-versa. O funcionamento da sociedade apenas pode ser plenamente compreendido, se se estudar a relação das classes existentes. A luta de classes não é um desejo, ou uma fantasia voluntarista, mas uma realidade objetiva, por mais que seja negada. Essa luta é resultante das forças em presença num dado momento. Todas as classes estão relacionadas e desempenham especificamente um papel em relação ao processo produtivo. Claro que existe (sempre existiu) uma fração da população que não participa diretamente desse processo produtivo; os desempregados (o «exército de reserva») e também todos os que não contribuem nem diretamente nem indiretamente para esse processo. De facto, o capitalismo acomoda-se bem de um e de outro, na medida em que a sua existência exerce uma pressão para a baixa dos salários, permitindo assim uma maior rentabilidade da exploração.

Porém, a análise marxista não consegue dar conta do nível de concentração do capital, ao ponto deste ter constituído uma «super-classe» capitalista, de bilionários, que desempenha um papel muito direto na orientação dos poderes políticos. Já não há um relativo retraimento do «mundo dos negócios», em relação ao mundo da política. Já não acontece que os muito ricos se «contentem» em acumular os dividendos (e a esbanjá-los, muitas vezes). Esta fase do capitalismo está ultrapassada há muito tempo. A intervenção direta do super-capitalismo na direção dos Estados, seu papel é decisivo em todo o processo político, através da alavanca do financiamento. Isto vai desde a escolha de candidatos, até à inspiração das leis e das políticas gerais, mesmo nos Estados mais poderosos.

Fala-se muito de «neo-feudalismo»: Mas, construir um termo para designar a situação presente usando o termo «feudalismo», gera ambiguidades. No passado, os senhores feudais tinham âmbitos de intervenção vastos no seu feudo, porém, estavam subordinados ao poder real, em última instância. Algumas vezes sacudiam esse jugo, mas acabavam por eleger um deles como novo monarca. Estavam, de algum modo, limitados pelo poder eclesiástico, ele próprio com características feudais, mas que se movia por interesses próprios.

O presente corresponde a uma internacionalização sem precedentes do capital, com impérios corporativos constituídos, com base em monopólios. Estes, são veículos de extração de «renda», no sentido de beneficiarem da situação de monopólio, para ditarem preços muito acima do que conseguiriam numa situação de concorrência. Nos casos em que ocorre um oligopólio, as grandes empresas que o constituem, encontram-se para anular a concorrência entre elas. O exemplo das grandes cadeias de supermercados e hípermercados, que exploram continentes inteiros (ou mesmo transcontinentais) é bem visível, pois combinam os bens, os serviços e os preços respectivos, de forma a que não entrem em concorrência direta, umas com as outras. Também a própria malha de supermercados demonstra isso, ao se implantarem as novas unidades a certa distância de outras, já presentes, num dado raio.

Estes arranjos, que não são novos, passam a ser muito mais complicados na era da Internet, com a profusão de toda a espécie de vendas «on line». Mas, muito rapidamente, no Ocidente, apareceu um gigante da distribuição, a «Amazon», que monopoliza a própria clientela, fazendo com que esta acabe por ser cliente cativa dos produtos e serviços on-line. Por outro lado, a empresa que não tem seus produtos na Amazon, fica praticamente excluída do mercado. O mesmo se passa com as plataformas gigantes da China e de outros países asiáticos.

Em todos os domínios da economia, o Estado, por mais poderoso que seja, fica relegado para o papel de «homem de vendas», estabelecendo acordos comerciais, acordos de fornecimento de armas ou de energia, etc., com outros Estados. Este seu papel de «caixeiro viajante» ao serviço dos grandes potentados da indústria e serviços, mostra a secundarização do papel das entidades estatais, sobretudo no âmbito internacional. Note-se que o Estado está - em simultâneo - cada vez mais presente e invasivo (com a ajuda das grandes empresas tecnológicas) no interior de cada país. O Estado-polícia, ao serviço dos grandes interesses corporativos, está a fusionar com estes mesmos interesses, em tudo o que lhes possa trazer vantagens.

Na economia, os  sectores produtivos já não estão sob comando do Estado desde os anos oitenta, pelo menos. O exercício de «traçar as grandes linhas do plano», já não subsiste em muitos casos, noutros ainda se pratica, mas sem qualquer efeito, apenas como mero exercício retórico.

A economia, sob o comando do capital monopolista, está a subordinar os poderes do Estado, desde o Governo, ao Poder Legislativo e mesmo ao Judicial. Os grandes multibilionários ditam os seus termos ao Estado, sendo este obrigado a promulgar sob forma de decreto ou de lei, com ou sem um arremedo de debate no parlamento. A inteira classe política sabe isso perfeitamente; continua a representar o "teatro do poder", pois isso lhes traz vantagens pessoais. O enriquecimento súbito de certo número de políticos não pode ser devido a eles terem extraordinárias capacidades, nos domínios dos negócios. Proliferam formas encobertas de suborno, incluindo a corrupção «legal». Mas, também continuam e florescem formas de enriquecimento ilícito: As contas «off-shore» acumulam no total muitos biliões de dólares, protegidas por «Estados fictícios» com zero vigiliância sobre o que as sucursais dos bancos fazem no seu território. De vez em quando, alguns políticos acenam com a extinção de tais «paraísos fiscais», mas é apenas para se revestirem de um manto de virtude, para impressionar eleitores ingénuos. Este regime de encobrimento de capitais tem sido protegido, ao ponto de atividades claramente criminosas (tráfico de drogas, de seres humanos, e crimes financeiros diversos...) serem protegidas por arrastamento. Não são aplicadas regras de transparência, pois estas também atingiriam as contas de dinheiro desviado ao fisco , ou resultando de corrupção, ou de negócios «legais» mas encobertos.

Quando abordamos a estrutura deste capitalismo, não podemos passar por cima dos principais atores. Estes estão concentrados nos EUA e Reino Unido, com uma grande percentagem dos tais paraísos fiscais. Os principais beneficiários deste «escudo protetor» são - sobretudo - magnates anglo-americanos. Claro que as «elites» políticas e económicas de outras nações se aproveitam das facilidades conceditas nestas jurisdições aos muito ricos. É mais um elo de corrupção e dependência, em relação ao poder anglo-americano. Um dos pólos desta estrutura receptadora, está em Delawere, o Estado dos EUA de que Joe Biden foi governador. Mas os bancos e os locais geográficos onde se efetuam os branqueamentos de capitais do crime, são muitos. As malhas são muito largas. A CIA e outras agências estão bem ao corrente desse sub-mundo de negócios mafiosos. Servem-se dessas redes como forma de financiar operações de subversão nos mais diversos recantos do Mundo. Outro pólo é a City de Londres, que controla os fluxos de capitais de boa parte do mundo ocidental. Associados à City, estão muitos territórios ligados à coroa britânica, que não são formalmente colónias; têm regimes jurídicos a preceito, para ninguém controlar o que se passa nas suas instituições bancárias.

Entendo que a «grande acumulação primitiva» ocorreu quando espanhóis e portugueses se expandiram no século XVI, com as expropriações violentas e genocidas. Elas marcaram a fase inicial do capitalismo. Porém, a acumulação continuou pelos séculos, sob forma de colonialismo e de neo-colonialismo, até ao presente. As formas evoluíram, pois já não se trata agora de genocídio de ameríndios, nem de escravização de grande parte do continente africano. Mas os processos atuais de extração de renda não são numa escala menor: Considere-se as riquezas minerais que são extraídas de África, desde há séculos e até hoje. Estas atividades de mineração são de grande brutalidade, debelitam muito cedo os que aí trabalham, mantém-se uma população semi-escrava (incluíndo crianças), que aí trabalham. Estas condições de exploração são perfeitamente conhecidas das instituições internacionais, muitas destas atividades mineiras são realizadas por exploração direta das multinacionais ocidentais, outras são por empresas locais, mas fornecendo os mercados ocidentais. O público dos países que beneficiam destas formas de exploração é mantido «numa santa ignorância».
O processo de ocultação da exploração, com umas migalhas para as classes laboriosas dos países ricos, não é de agora. De facto, todo um setor das «ciências empresariais» dedica-se a encontrar formas, não apenas de fornecer novos produtos e serviços, como de suscitar no público a euforia consumista, com todo o desperdício que isso implica, mas com o benefício para os agentes de tal desperdício. No capitalismo, o ambiente foi sempre tratado como um recurso explorável, como algo que é lícito o empresário maltratar como quiser, visto que - ou é sua propriedade, ou de «ninguém», ou seja, são terras «baldias». Esta mentalidade foi-se mantendo e reforçando. Porém, o progressivo aumento da consciência sobre a destruição embiental que ocasiona, obrigou os especialistas de «Public Relations» a inventar o «capitalismo verde», «amigo do ambiente», cujos produtos e serviços podem ser consumidos, sem má-consciência, pelo público sofisticado e «ecológico» dos países ricos. Muito do chamado «capitalismo verde», tem estado a revelar-se uma forma ainda mais agressiva de depredação ambiental, pior ainda que os métodos tradicionais. Mas, muitos dos efeitos nefastos para o ambiente e para as sociedades, passam-se a milhares de quilómetros dos locais de consumo. É caso para dizer: «longe da vista, longe do coração».

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

SYLVIE LAURENT - «CAPITAL E RAÇA»*

CAPITALISMO PROMOVENDO A EMANCIPAÇÃO... REALMENTE?!? Quantas doses de fábulas, de autoabsolvições, de mitos e distorções da história, para que o homem branco, o homem comum das sociedades capitalistas ocidentais, ensinado (amestrado), conserve sua «boa consciência de civilizado»? 

O vídeo seguinte dá-nos uma perspetiva rápida através da autora de um livro sobre o tema seguinte: O capitalismo está intrinsecamente ligado ao racismo. 

Tem o mérito de mostrar até que ponto as pessoas «bem pensantes» se esmeram em fazer uma amnésia seletiva sobre o modo como se deu o arranque do capitalismo, desde o início na colonização das Américas e continuou no resto do Mundo, nos séculos seguintes. 

                                          


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(*) Sylvie Laurent, historiadora e especialista da sociedade americana retraça o nascimento do que se poderá designar por capitalismo racial.

Através da sua obra, "Capital e Raça", editado na Seuil, ela demonstra que o racismo é parte integrante do nascimento do capitalismo.


PS1:  O racismo entrincheirado na sociedade israelense é demonstrado com a autenticidade do testemunho vivido, pelo jornalista Sylvain Cypel:

https://www.youtube.com/watch?v=Z1ARYWeO1Wc

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

MALTHUSIANISMO E NEO-MALTHUSIANISMO

Neste curto ensaio vou desenvolver alguns aspetos da questão populacional. A biologia das populações sempre foi um domínio de que eu gostei, embora não tenha especificamente trabalhado como biólogo das populações. 
O malthusianismo, do economista inglês Thomas Malthus (1766-1834) é uma teoria que encara a população sob o duplo prisma dos recursos e da sua taxa de reprodução. Malthus postulou que os recursos - os bens necessários à subsistência humana tais como alimentos, casas, roupas, etc. - poderiam - quanto muito - progredir numa progressão linear (ou diretamente proporcional), enquanto a multiplicação dos indivíduos ocorria numa progressão geométrica ou exponencial.  Da divergência entre estes dois crescimentos, originava-se fatalmente uma escassez, que se traduzia em fomes, violências e guerra. Para evitar este terrível destino, teriam de ser tomadas medidas concretas para limitar a população (encorajamento da contraceção, esterilizações...), com vista à estabilidade populacional.
O princípio malthusiano era pessimista porque postulava que as pessoas, ao multiplicarem-se, iriam necessariamente ficar cada vez mais pobres, mais destituídas. A elite aproveitou o mesmo princípio para lutar contra a tendência para aumento dos salários e diminuição das horas de jornada de trabalho, que foram as grandes causas movimentando o proletariado, desde a primeira metade do século XIX, até hoje. 

                                     
A obra de Malthus foi utilizada por Marx e Engels assim como por Darwin, entre outros. Marx e seguidores tiraram daí o conceito da autodestruição inerente ao sistema de exploração capitalista. 
                                            
Darwin inspirou-se em Malthus para explicar a inerente competição pelos recursos escassos entre todas as espécies vivas; foi também buscar a este autor a ideia do efeito da predação (e incluindo o parasitismo) como forma de ajustar os efetivos das populações de presas e de predadores.                 
Após Darwin, o seu sobrinho Galton adaptou os conceitos de seu tio e de outros. Numa linha neomalthusiana defendeu a eugenia - ou seja - que os «melhores» deviam ser estimulados a procriar enquanto os que eram portadores de «taras» deviam ser impedidos de procriar. 

                    
Vários países praticaram a esterilização sistemática de pessoas consideradas «inferiores». Muitas pessoas têm ideia de que apenas a Alemanha de Hitler e quanto muito alguns dos seus estados-vassalos da Europa praticaram essas medidas. Hoje, sabe-se que não foi assim: Desde a Suécia à Austrália, sucedem-se histórias verídicas de políticas de Estado, da esterilização forçada de certos grupos de cidadãos.
  

A grande indústria e em particular o império Rockefeller estão associados desde o principio, ou seja, antes ainda do partido NAZI subir ao poder, através da Fundação Rockefeller, em apoio entusiástico ao eugenismo prático, além de serem financiadores de muita da investigação científica destinada a melhoramento da espécie humana. É com base em programas financiados pelos grandes empórios da agroquímica que são criados OGM, organismos geneticamente modificados. William Engdahl explica de modo muito convincente e exaustivo, no livro «As sementes da destruição»,  que a oligarquia (Rockfeller e outros bilionários) esteve - desde o princípio - a subsidiar e promover as OGM. Décadas antes (nos anos 70), defendendo uma estratégia tipicamente neo-malthusiana, o seu protegido H. Kissinger tinha já delineado uma estratégia de guerra económica utilizando sementes, trigo, soja, leite, principalmente.

                  
A utilização dos alimentos estratégicos (sobretudo dos cereais) como arma de chantagem permitiu a Washington impor aos governos de países do Terceiro Mundo, programas de «controlo da natalidade» (que incluíram esterilizações em massa e sem conhecimento/consentimento das mulheres) como condição para beneficiarem do apoio alimentar não só dos EUA, directamente, como também de agências internacionais, mas de facto controladas pelos EUA.

Actualmente, as chamadas guerras contra o terror têm uma dimensão de destruição massiva não apenas das populações como também das infraestruturas. Assim, no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia, no Iémene, estão documentados actos destinados a destruir ou inviabilizar estruturas fundamentais para a população civil, desde centrais eléctricas e geradores de corrente, a sistemas de canalização e tratamento de água potável e de esgotos. O resultado é a morte de milhões de crianças, principalmente causada pela desnutrição, ausência de cuidados básicos de saúde, de água potável, etc. Note-se que estes países ficam com uma população reduzida, não somente porque tem de emigrar para longe, como refugiados, como também está desnutrida, enfraquecida, mais sujeita a doenças, em países devastados, onde não existem os recursos médicos e sanitários mais elementares. 
                 

Estas guerras do Império, de uma crueldade incrível, seriam suficientes, por si só, para condenar os presidentes e seus respectivos governos (George H. Bush, Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump), se houvesse o equivalente do tribunal de Nuremberga. Infelizmente, os países que participam no tribunal da Haia, consentiram que os EUA se auto-excluíssem de poder jamais comparecer no dito cujo tribunal, apesar de terem sido os mais fervorosos impulsionadores do mesmo.
A política de destruição sistemática ocorre nos países do «crescente fértil», onde nasceu a agricultura há 12 mil anos, onde existe uma parte muito grande do petróleo explorado.

O trazer aí o caos, encorajando a intolerância religiosa, sectária e étnica, não é fruto do acaso ou daquilo que os  media corporativos nos querem fazer crer: é resultado duma política neo-malthusiana destinada a reduzir drasticamente certas populações, sobretudo,  se elas são dos países que detêm recursos (o petróleo, mas também certos minerais) de que o «Ocidente» carece para as suas indústrias, para satisfazer o seu estilo de vida e consumo.


Existe uma forte corrente que se designa de «neocon» que capturou sectores inteiros do governo dos EUA e sobretudo do chamado «Estado Profundo», incluindo as agências CIA, NSA, Homeland Security, etc. Esta corrente advoga que é possível uma guerra nuclear ser «ganha» pelos EUA, havendo depois um redistribuir de poderes e de recursos em benefício dos mesmos e de seus vassalos de «primeira» (essencialmente anglossaxónicos «de pele branca»: Grã-Bretanha, Austrália, Canadá, Nova-Zelândia).

Todos os outros países sofreriam devastações tais, que durariam muitos anos a recomporem-se. Loucamente, delirantemente, imaginam conseguir obter uma redução de 4/5 da população mundial, por este meio (o holocausto nuclear) e que as populações sobreviventes viverão em condições muito satisfatórias. Mas uma guerra nuclear significa a destruição completa da habitabilidade do planeta ou, no mínimo, a perda irreversível das condições para os sobreviventes. É este o perigo que o mundo enfrenta, se deixar um punhado de pessoas com poder (os neocons e a oligarquia mundial) manobrar as políticas dos Estados.