segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
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O «INSTANTÂNEO» NAS RELAÇÕES HUMANAS CONTEMPORÂNEAS
Sabemos que - em termos físicos - não existe o instantâneo, pois a luz tem uma determinada velocidade no vácuo e nenhuma partícula, fotónica ou outra, pode ultrapassar esse limite. Sim, mas há uma incapacidade de distinguir o que teoricamente é realmente instantâneo, daquilo que aparenta sê-lo, se confiarmos nos nossos sentidos, apenas. O mundo em que nos movemos é um mundo cheio de ilusões. Temos a ilusão - em particular - do instantâneo e esta está ancorada profundamente no psiquismo. Decorre daí que a nossa percepção, nos dá a sensação de instantâneo, que afinal nós próprios, ao refletirmos, chegamos à conclusão de que é uma sensação ilusória, na esmagadora maioria dos casos.
Não devíamos ficar surpreendidos com esta ilusão sobre o "instante" num mundo em que a mediação eletrónica e digital está omnipresente. Porém, mesmo as pessoas cultas e sofisticadas se deixam iludir ou se auto-iludem. Praticamente todas as pessoas, cultas ou incultas, com formação científica ou sem ela, no dia-a-dia prestam «culto religioso», à instantaneidade, como se isso fosse algo positivo, em si mesmo. Espelhando perfeitamente a mentalidade que prevalece no grande público, a publicidade referente à enorme quantidade de mercadorias e serviços, usa o argumento do «instantâneo», como se fosse o superlativo de muito rápido. Ao fazerem isso, estão a reforçar naturalmente o preconceito do público.
Este culto da extrema rapidez, ao ponto dela ser assimilada ao «intantâneo», tem como corolário que as pessoas cometem muitos mais erros, evitáveis, porque não se dão um tempo mínimo, necessário para avaliar uma situação. Não vejo solução instrumental para corrigir esta ilusão persistente. Apenas a consciência do indivíduo, compreendendo que estar imbuído do preconceito de que algo é «instantâneo», não apenas é falso na imensa maioria concreta das ocorrências da vida diária. Também representa um handicap sério, pois retira ao cérebro aquele tempo mínimo, necessário para avaliar uma situação e decidir o que fazer.
Observando os animais - selvagens ou domésticos - verifico que se costuma projetar «intenções humanas» aos seus comportamentos. A nossa ignorância sobre o comportamento animal faz com que - frequentemente- se atribua tudo «ao instinto», coisa que afinal, não explica nada (creio até que não pode ser definido como conceito científico, por ser demasiado vago).
Ora, é muito frequente, em observação de animais, observar neles um tempo de «avaliação», que pode ir de uma fração de segundo, até vários segundos. Por exemplo, antes de dar um salto para capturar a presa. Pelo contrário, muitas presas têm o comportamento bem definido, de ficar totalmente imóveis e apenas pular ou voar, caso o predador se mova em sua direção.
Não quero reduzir os comportamentos humanos, complexos e muito variáveis, aos comportamentos de animais, quer sejam presas ou predadores. Com esta referência, apenas quero chamar a atenção para o forte valor evolutivo de se avaliar uma situação previamente, para dar a resposta que convém. Se a rapidez ou resposta «instantânea» fosse a mais vantajosa do ponto de vista evolutivo, o padrão comportamental acima mencionado, quer para as presas, quer para os predadores, não seria bem sucedido; haveria unviversalmente, tal resposta «instantânea» no Reino Animal.
O «culto» do instante é vantajoso para uma sociedade que viva do sobreconsumo, do consumo hedónico. Compreende-se que numa sociedade como a nossa, desde há várias dezenas de anos, a publicidade esteja apontada para suscitar os desejos do público e não em enumerar as vantagens da mercadoria. Com efeito, toda a construção do reclamo publicitário está baseada no efeito psicológico exercido na nossa mente, não na «performance» do objeto ou serviço em si, que se pretende vender.
Os serviços de notícias, nas suas formas de rádio, televisão ou Internet... são desenhados para passarem o mais rapidamente possível, pelos órgãos dos sentidos e cérebros dos receptores. São catadupas de notícias, quer «em contínuo» quer em condensados (em geral, a determinadas horas), cuja trivialidade, natureza fragmentária, ou adjetivação, são típicas. O mesmo acontece com as imagens, que vão conduzir, no inconsciente das pessoas, ao efeito de «saber ilusório».
Por exemplo, o encontro entre dois chefes de Estado, é «noticiado» com imagens protocolares, apertos de mãos, passagem em revista da guarda de honra, entrada para os carros oficiais, breves discursos de boas-vindas... Tudo, coisas que aconteceram, mas que não possuem valor informativo. O dispêndio de preciosos minutos com aspectos protocolares, porém, dá-nos a ilusão de termos «presenciado» o acontecimento, de estarmos «informados».
A «instantaneidade» no campo da informação é realmente muito enganadora, pois se podemos apreciar em direto um concerto ou uma competição desportiva, o «instantâneo» que nos colocam à frente, em relação a acontecimentos políticos, sociais, militares, etc., não é geralmente composto por filmagens contínuas: É sempre resultado de imagens seleccionadas e retransmitidas.
A manipulação provoca a nossa ilusão de que estamos a «presenciar» um acontecimento. Esta ilusão decorre ao nível inconsciente, na psique profunda. Não podemos fazer um distanciamento objectivo das imagens que nos são «servidas». O nosso grau de instrução, de inteligência, etc, é de pouco ou nenhum socorro para isso, ou então teríamos que analisar em detalhe cada imagem, fotograma, frase, som... Com certeza que quase ninguém tem tempo para fazer isso. O resultado é que todos somos condicionados, talvez uns mais que outros, porque a nossa mente consciente é «fintada» pela informação subliminar dirigida ao e analizada por nosso cérebro «emocional».
Se nós tivessemos selectividade no que «ingerimos» em termos de informação, num grau parecido com a nossa selectividade em como nos alimentamos, talvez o trabalho fosse mais complicado para os manipuladores profissionais. São pessoas das profissões da PR ou propaganda, o que inclui o sub-sector político. São quem assegura a «nobre» tarefa de nos manter iludidos, fascinados pelo instante, convencidos de «tudo» saber, pelo menos, sobre os assuntos que nos interessam mais. Isto chama-se «lavagem ao cérebro» em portugês corrente, mas o termo está mal atribuído (a não ser que seja por ironia) pois se trata de atafulhar o cérebro com coisas, desde as mais relevantes às mais inúteis. Existem pessoas cuja casa está sempre cheia de objectos, tudo desarrumado, sendo perigoso fazer um passo ou um gesto, sem perigo de colidir com algo. Estas pessoas são doentes mentais; e, para nós, isso é óbvio. Mas se pudessemos passear dentro do psiquismo de alguém contemporâneo, teríamos - estou certo - uma experiência análoga.