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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Louis Couperin e a Escola Francesa de Cravo (Segundas-f. musicais nº47)



             [Acima: cravo flamengo de 1610, com dois teclados]

Playlist Louis Couperin de obras para cravo: Clicar AQUI

Louis Couperin, cravista e organista francês  (1626- 1661) recebeu formação musical na sua própria família. Os Couperin são um exemplo de família de músicos, tal como a família de João Sebastião Bach. No seu curto tempo de vida, Louis Couperin deixou uma impressionante obra, notável pela qualidade, incluindo peças para o órgão , o cravo e a viola da gamba.
Estas obras não foram publicadas durante a sua vida. Estas composições provêm de vários manuscritos, dos quais nenhum é garantido ser do seu próprio punho, mas de copistas. Embora ele seja considerado um dos melhores autores da Escola Francesa para cravo, a sua obra teve muito menos divulgação - quer em disco, quer em concertos - que as composições do seu sobrinho, François Couperin. 
Porém, esta injustiça tem vindo a ser reparada em relação às obras para cravo, especialmente.



A Escola à qual Louis e François Couperin pertencem, inclui muitos cravistas notáveis, como D'Anglebert, Chambonières, Rameau, Duphly...
  Nós, hoje, podemos ter uma ideia mais nítida, graças à produção e biografas dos músicos e compositores. A musicologia e a crítica musical têm-se desenvolvido. Surgem com especial relevo as relações dos músicos entre si e as influências que receberam. Um importante contributo para a criação do estilo francês para o cravo, foi a importação de elementos típicos da música para alaúde. Na época de Louis Couperin, grandes alaúdistas, como Ennemond Gaultier, tiveram uma influência decisiva: Com efeito, Louis Couperin e outros, adaptaram muitas figuras características da música para o alaúde. Os acordes decompostos («accords brisés»), as danças das Suites, a intercambiável utilização do cravo ou do teórbo no baixo contínuo de conjuntos instrumentais e vocais, a utilização da cifra, etc. 
Os músicos / intérpretes podiam ler uma peça  em cifra para o alaúde e executar a mesma no cravo, ou vice-versa.   
As escolas de órgão e de cravo também estiveram muito ligadas logo à partida, pois os organistas não podiam ensaiar em órgãos (geralmente presentes na igreja), tinham de servir-se de cravos ou clavicórdios para comporem e treinarem. Muitas peças desta época (nos séculos XVI e XVII), eram executáveis em vários instrumentos de tecla*.   
Quanto a influências: Na produção para o cravo de Froberger, organista e cravista da Escola Alemã do Sul, vemos traços que evocam a escrita de Louis Couperin e vice-versa. No caso das peças chamadas «Tombeau», típicas da Escola Francesa, penso que é certo que tenha sido o músico alemão a receber a influência francesa. Mas, noutros casos, é  o alemão a influenciar o francês: A estrutura, o tratamento das vozes, etc. em Louis Couperin e em Froberger são semelhantes. A atribuição de peças é, por vezes, difícil  de destrinçar. Froberger esteve em Paris durante algum tempo, onde terá convivido com Louis Couperin. 
O legado de Louis Couperin, apesar de que morreu aos 35 anos, é notável em relação à inovação e consolidação estilística na Escola Francesa de cravo. 
A sua influência é perceptível em Froberger e em cravistas doutras regiões e de outras épocas: Por exemplo, João Sebastião Bach conhecia obras de Louis Couperin (e também de François Couperin).
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(*É evidente que certas maneiras de tocar se aplicavam ao cravo e não ao órgão, e reciprocamente.)


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

JOHANN JAKOB FROBERGER, SUAS OBRAS (Segundas-f. musicais nº20)

 Johann Jakob Froberger não é deste tempo. Talvez não seja demais considerar ser ele de outra civilização, que não da nossa: Porque tudo o que se encontra na obra deste grande compositor do século XVII é delicadeza, expressão de sentimentos com contenção, subtileza no discurso musical, apelo à interioridade, reflexão filosófica. Nada do que enumerei tem grande repercussão nos auditores da nossa época. Alguns músicos profissionais com vasto conhecimento da sua obra e da época em que foi escrita,  tentaram divulgá-lo, fazendo sobressair as suas qualidades. Mas, em vão! 

Uma parte do público, nem sequer vai parar e escutar esta música: Só lhes interessa o ribombar do efeito fácil. Os que têm ainda sensibilidade musical e não foram tragados pela medíocre reprodução "ad nauseam" dos «hits» (que também existem) na música antiga, clássica, ou erudita; estes poucos, adoradores da beleza serena e reflexiva da música virada para o interior,  são muito facilmente captados pela música de Froberger. Nesta, são capazes de encontrar ecos de seus próprios sentimentos e estados psicológicos, que lhes dão uma proximidade especial a esta música. 

A Duquesa Sibila de Wittemberg estimava tanto as composições do seu músico pela sua rara qualidade, que, graças a ela, parte muito significativa da obra do seu súbdito foi preservada e chegou até nós.   

Abaixo, reproduzo as seis Partitas «Auf der Mayerin» seguidas de Courante, Double e Sarabande, extraídas do volume dedicado a Sybill, Duquesa de Württemberg.


VI Partite "Auf Die Mayerin"
1-17 29:39 Prima Partita
1-18 31:00 Second Partita
1-19 32:14 Terza Partita
1-20 33:06 Quarta Partita
1-21 34:03 Quinta Partita
1-22 35:11 Sexta Partita (Crommatica)
1-23 37:22 Courant Sopra Mayerin
1-24 38:20 Double
1-25 39:19 Saraband Sopra Mayerin

Podeis apreciar as peças isoladas, ou em Suites, que organizei na playlist FROBERGER - MEDITATION


Froberger está plenamente inserido na sua época. Pode-se dizer que a sua música vai buscar as melhores partes da tradição germânica, da francesa (sobretudo, do rico reportório de alaúde)  e também da Itália do Norte. Compreende-se, pois ele esteve numa posição privilegiada, como músico nas cortes da Alemanha do Sul e Central, que eram outros tantos focos onde se cruzavam as tendências referidas. 

A sua interioridade e subtileza celebrizaram peças como "Le Tombeau de Monsieur de Blancroche", homenageando a memória do Mestre alaudista parisiense, que morreu nos braços de Johann Jakob, após uma queda nas escadas. Note-se, esta peça está toda virada para o interior, para os sentimentos de profunda estima que Froberger tinha para com o alaudista, seu amigo. Só no final, com uma longa escala descendente, aparece o elemento obviamente descritivo da queda, que lhe foi fatal. 

Não me vou alongar com as outras peças que vos proponho, pois podeis ler muito boas análises por músicos e musicólogos profissionais. Penso que quem esteja disponível para uma audição atenta, pode intuir qual o idioma dos afetos neste músico extraordinário, subtil e melancólico

No contexto histórico e em termos estilísticos, contribuiu para o amadurecimento da forma «Suite» para o cravo. Além disso, alargou a técnica de composição e de execução deste instrumento, através da variada paleta expressiva.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

J. J. FROBERGER: «Tombeau faict à Paris sur la mort de Monsieur Blancheroche»



[Na imagem de capa do disco: um cravista a afinar seu instrumento]

Johann Jacob Froberger (1616-1667) é hoje reconhecido como um compositor fundamental, dentro da grande tradição do cravo barroco. A música para cravo foi, provavelmente, o que o século XVII nos deu de mais precioso na arte dos sons. Não há dúvida de que a música específica para instrumentos de tecla e corda (cravo, virginal, espineta, clavicórdio) surgiu mais cedo. Porém, o mais precioso reportório da música dedicada ao nobre instrumento, data dos séculos XVII e XVIII.

A nostalgia que se desprende desta peça é bem adequada ao seu tema: Descreve a morte do amigo e colega, o alaudista francês Blancrocher. Com uma retórica de tristeza contida, Froberger exprime o seu desgosto pela morte inesperada do amigo,  falecido após ter caído de uma escada abaixo. O aspeto descritivo está bem presente na escala descendente que termina a peça.
Na tradição francesa de música para o cravo e o alaúde, as peças designadas por Tombeau (= túmulo) eram uma homenagem musical póstuma a um príncipe, patrono, colega ou amigo.
Froberger deixou-nos meditações musicais e outras peças descritivas, de caráter melancólico. Porém, o compositor barroco merece ser conhecido e apreciado, igualmente, pelas suas suites e toccatas.
Na evolução da música para cravo, embora Froberger não tivesse deixado discípulos diretos, firmou a estética deste instrumento. Muitos dos traços idiomáticos e estilísticos próprios do cravo estão codificados e ilustrados - de modo magnífico - nas suas obras. As peças para cravo, da segunda metade do século XVII e da primeira metade do século seguinte, são específicas para este instrumento e, quanto muito, poderão ser interpretadas no clavicórdio
Pode-se dizer, sem exagero que, a partir da época de Froberger, a música para cravo atinge a maturidade.

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Gustav Leonhardt deixou-nos gravações de uma perfeição tal, que podem ser igualadas por outros intérpretes, mas não creio possam ser ultrapassadas. De facto,  foi um dos grandes mestres do renovo na interpretação da música barroca.

quinta-feira, 16 de março de 2017

FROBERGER «TOMBEAU...» POR SOPHIE YATES


                                   

Johann Jacob Froberger foi um compositor, organista e cravista, originário do sul da Alemanha (Stuttgard), muito famoso no seu tempo - século XVII - tendo exercido o seu talento na corte de Viena, assim como na da Duquesa Sibila de Wurtemberg, a qual guardou os manuscritos de seu músico após sua morte. 
Pode dizer-se que Froberger foi um músico cosmopolita, tendo visitado não apenas regiões de língua alemã, mas também Roma e Paris. 
Nesta cidade, Froberger relacionou-se com os grandes mestres do cravo da escola francesa, assim como dos alaúdistas. Nota-se que o estilo de Froberger influenciou músicos como Louis Couperin. 
A peça aqui seleccionada foi composta como uma reflexão filosófica sobre a transitoriedade da vida «memento mori». 
Compôs também um célebre «tombeau» em honra do alaudista  seu amigo Monsieur de Blanrocher, que morreu nos seus braços. 
Outros compositores franceses seus contemporâneos também compuseram «Tombeaux», em memória do mesmo músico.
A música de cravo de Froberger e de outros seus contemporâneos integra o estilo de execução comum no alaúde, o «style brisé». 
Pode dizer-se que as suas composições para cravo são um cume da música escrita para este instrumento. Ele obtém uma grande variedade expressiva graças às diversas figurações, idiossincrasias próprias do instrumento, nas suas composições. 
Nota-se na sua obra um gosto pronunciado pela música descritiva. Sabemos que a literatura das décadas seguintes para cravo, nomeadamente, está cheia de peças descritivas. 
Froberger, sendo um precursor do estilo cravístico dos finais do século XVII e primeira metade do XVIII,  é também um músico de primeira grandeza pela originalidade e perfeição das suas composições para cravo.