Estas peças para cravo (cerca de 130), não foram editadas em vida do compositor e estão dispersas por vários manuscritos. Os movimentos e as tonalidades indicam que elas se destinavam a ser executadas agrupadas em suites. Porém, a composição das mesmas é - nalguns casos - difícil de determinar. Por outro lado, tem-se indicações de que em França, nessa época a música para cravo** não especificava rigorosamente quais as peças de uma Suite, deixando uma certa margem de escolha ao interprete, para incluir - ou não - determinada dança, encurtar ou alargar o conjunto da Suite, etc.
Quanto ao prelúdio, este era praticamente obrigatório, pois desempenhava uma dupla função: Por um lado, permitia o executante certificar-se que o instrumento estava bem afinado para a tonalidade na qual se iriam desenrolar as sucessivas peças da suite; por outro lado, ajudava a criar o ambiente sonoro adequado para os auditores poderem melhor apreciar as subtilezas das diferentes peças da suite, todas no mesmo tom (ou no tom relativo) do prelúdio.
Em todo o caso, o grau de latitude improvisatória que exprimem estes prelúdios «non-mesurés», não nos deveria surpreender. A música barroca em geral ( quer na França ou noutro país participante no grande movimento estético, que se estendeu, pelo menos, durante um século e meio ) era música com elevado grau de improviso. Improvisar era não só admitido, como encorajado. Mas, o improviso obedecia a regras gerais e específicas aos instrumentos utilizados e ao carácter das peças.
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* Os préludes non-mesurés são peças onde as notas não têm os seus valores relativos (colcheias, semínimas, etc), onde apenas estão registadas as alturas relativas dos sons. Não têm compasso ("non-mesurés"), pelo que nestas incertezas de tempo e de rítmo, a sensibilidade e perícia do intérprete contavam mais ainda do que numa peça «vulgar». Pode dizer-se que é uma particularidade da Escola Francesa de cravo. Não conheço exemplos não-franceses de peças «non-mesurées»
** François Couperin, sobrinho de Luis Couperin, escreveu um célebre livro didático para o cravo «L'Art de Toucher le Clavecin» .
Veja o artigo sobre o mesmo (também com exemplos de prelúdio):
A primeira peça é uma Allemande da suite francesa BWV 815. Ela é interpretada por Robert Hill, num cravo com registo de alaúde.
A suite instrumental no tempo de J. S. Bach, era constituída por danças estilizadas (Allemande, Courante, Sarabande, Menuet, Gigue), às quais se juntavam, frequentemente, peças facultativas. Nesta categoria, incluiam-se danças como a Bourrée, o Rigaudon, etc. Mas, também eram frequentes, sobretudo nos cravistas franceses (François Couperin, J-P Rameau, etc), outras peças, homenageando uma personagem, a quem o autor dedicava a partitura.
Na sequência de danças estilizadas da suite, a Allemande costumava ser a primeira peça. Mas, por vezes, esta sequência de danças era antecedida de um preâmbulo (ou prelúdio).
O número de suites para alaúde que Bach deixou para a posteridade não é elevado. Algumas suites para violoncelo solo foram transcritas para alaúde, por Hopkinson Smith. Estão em conformidade com a prática da época barroca de não limitar a interpretação duma peça, a um instrumento em particular; muitas peças podem ser interpretadas noutros instrumentos (diferentes do habitual), com as devidas adaptações.
As suites de Bach para o alaúde iniciam-se com um prelúdio. O prelúdio destinava-se a criar um ambiente, desenvolvendo uma sucessão de acordes, habituando o auditor à tonalidade geral da suite. Além disso, permitia verificar a afinação do instrumento. A afinação «desigual» ou «não temperada», permitia ao instrumentista adequar a afinação do instrumento ao caráter da peça que ia interpretar: Esta prática desapareceu na música ocidental; encontra-se apenas na música clássica da Índia, nas ragas indianas, com as centenas de escalas diferentes e as diferentes afinações do instrumento, que se combinam segundo o caráter da peça e o gosto do instrumentista.
No vídeo abaixo, podemos ouvir o Prelúdio da Suite para alaúde BWV 998 pelo alaúdista Luciano Contini.
A terceira peça, igualmente interpretada por Robert Hill, é o magnífico prelúdio em Si menor BWV 923. É um exemplo típico de «stylus fantasticus», que simula a livre improvisação, habitual nos organistas, cravistas e alaúdistas barrocos.
Nesta época, o músico profissional tinha de ser proficiente na improvisação. O caráter improvisatório traduz-se em profusões de escalas, de acordes decompostos e de mudanças rítmicas e/ou de andamento, dentro da mesma peça.
Os dotes de improvisador do jóvem Bach devem ter sido um dos fatores decisivos para obter, por concurso, o posto de organista titular na Igreja de S. Blasius de Mühlhausen