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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Sanjay Roy: «Inteligência artificial e revolução social»

«INTELIGÊNCIA» OU «INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL» ?


No sub-título (da minha autoria), tento chamar a atenção para um aspecto não contemplado no artigo muito bom de Sanjay Roy, publicado no Jornal Mudar de Vida

Em várias línguas, a semântica da palavra «inteligência» é substancialmente diferente. 

Por exemplo, nos países do Norte da Europa, chama-se (ou chamava-se) «intelligentsia» ao que nós chamaríamos uma elite cultural, um conjunto hereteogéneo de sábios, filósofos, artistas, que produzem uma boa parte das ideias que circulam numa dada sociedade. Trata-se dum conceito  forjado no século XIX e no século XX, que depois foi alargado a todo o mundo e não apenas aos países da Europa do Norte. Como conceito sociológico, designa uma classe de pessoas ou um setor dessa classe. Designa pessoas que «trabalham sobretudo com os neurónios». O conceito não pressupõe nada em relação ao grau de inteligência de indivíduos da classe ou grupo social designado.  

Pelo contrário, se dizemos que um indivíduo tem inteligência, estamos a falar, geralmente, de capacidades mentais, de qualidades intelectuais acima da média... quando falamos em português ou noutros idiomas de origem latina.

Em inglês moderno, é de uso corrente a expressão «intelligence», para designar serviços secretos ou atividades de espionagem. Foi neste contexto semântico, creio, que nasceu o vocábulo «Artificial Intelligence». No entanto, o termo inglês «intelligence» pode significar também o mesmo que nas línguas latinas. Aliás, o vocábulo é obviamente importado do latim.

Eu não me oponho, nem critico o uso da expressão «Inteligência Artificial» nas línguas derivadas do latim.  Somente, quero sublinhar que o seu uso nestes idiomas não contempla - usualmente - a conotação do vocábulo «intelligence» que, para os anglo-saxónicos pode evocar «espiar», «roubar dados», «controlo do estado», «manipulação subreptícia», etc. Por muito banalizado que o termo esteja, ele não perde a ambiguidade semântica da expressão.

  Posso diferir do conteúdo do artigo de Sanjay Roy, nalguns aspectos. Porém, julgo que perspectiva correctamente a necessidade de uma revolução social, para que a humanidade deixe de estar submetida ao  controlo de uma vigilância em massa. Esta aplicação, a tecnologia «AI» já permite isso. Ela tem sido posta em prática, sem que muita gente disso se aperceba! 

Mas, vou deixar-vos com o artigo abaixo.

Inteligência artificial e revolução social

Editor / Sanjay Roy — 2 Junho 2026


As tecnologias não transformam as sociedades, mas criam a necessidade dessa transformação

Os debates sobre o desenvolvimento e a aplicação prática da inteligência artificial vagueiam entre a desconfiança perante uma tecnologia que as pessoas comuns não dominam, as ameaças de desemprego que pairam no ar com selo de “progresso económico”, e o receio de ver tal arma nas mãos de uma elite todo-poderosa e sem escrúpulos.

O risco não está em dar demasiado poder “às máquinas”, como se tem ouvido. Todo o progresso é libertador e bem-vindo enquanto património coletivo. O risco está no facto de a nova tecnologia (como aliás todas as outras) ser detida, desde a investigação à utilização, por uma estreita camada capitalista poderosíssima, movida por interesses privados anti-sociais, capaz de a usar sem restrições no propósito de dispor da vida e da morte da humanidade.

A questão, portanto, não está em “desarmar a IA”, como sonoramente pretende o Papa, mas em desarmar os monopólios do poder que, com e sem IA, fazem da vida de milhões de pessoas um inferno quotidiano.

O indiano Sanjay Roy aborda a questão justamente pelo lado da contradição marcante das sociedades contemporâneas: a premência de transformação social que as novas condições materiais apontam, contra o colete-de-forças que o capitalismo imperialista impõe ao mundo.

(Editor de Mudar de Vida)

 

MARX, NOVA TECNOLOGIA E NOVA SOCIEDADE

Sanjay Roy, Peoples Democracy, 10 maio 2026

O desenvolvimento tecnológico e a inovação têm sido a força motriz da civilização humana. Com as mudanças nas tecnologias, o processo de produção, o processo de trabalho e a mensuração da contribuição humana para o produto social também se transformam. A atual fase da tecnologia digital, com a IA como tecnologia de uso geral emergente, também irá alterar radicalmente o processo de produção.

As inovações tecnológicas reduzem o custo de produção de bens e serviços existentes, criam novos produtos ou novos valores de uso que não existiam anteriormente, podendo ainda reduzir o tempo de circulação de bens e serviços ao diminuir os custos de transação ou transporte. Todas essas inovações, de uma forma ou de outra, reduzem o esforço humano direto ou o trabalho no mundo da produção e distribuição.

Na fase recente do desenvolvimento tecnológico, vivenciamos uma mudança na tecnologia que Marx vislumbrou como uma progressão lógica desse desenvolvimento. No contexto das grandes indústrias, em Grundrisse [Manuscritos de 1857-58], Marx discutiu a possibilidade de um declínio drástico do trabalho humano direto no processo produtivo, quando os seres humanos atuam como observadores e supervisores de um processo mecanizado e o trabalho humano direto deixa de ser a medida da contribuição humana para o produto social. Em vez de aptidões específicas e aprendizagem pela produção, é a ciência e o conhecimento em geral, ou o “intelecto geral”, que assumem o papel de principal força produtiva no capitalismo.

Marx argumenta em Grundrisse : “A verdadeira riqueza manifesta-se, antes – e a grande indústria revela isso – na monstruosa desproporção entre o tempo de trabalho aplicado e o seu produto, bem como no desequilíbrio qualitativo entre o trabalho, reduzido a uma pura abstração, e o poder do processo produtivo que ele supervisiona […]. Nessa transformação, não é o trabalho humano direto que ele [o trabalhador] realiza, nem o tempo durante o qual trabalha, mas sim a apropriação da sua própria força produtiva geral […] que se apresenta como a grande pedra fundamental da produção e da riqueza. O roubo do tempo de trabalho alheio, sobre o qual se baseia a riqueza atual, revela-se um fundamento miserável diante desse novo fundamento, criado pela própria indústria em larga escala”. (*)

Economia do conhecimento

A atual onda de novas tecnologias, com a IA emergindo como tecnologia de uso geral, é baseada no conhecimento. Isso não implica que as tecnologias anteriores não exigissem conhecimento para serem produzidas. A questão reside na mudança da contribuição do conhecimento no processo produtivo.

Tecnologias anteriores substituíram o trabalho físico por máquinas. Novas máquinas inteligentes não apenas substituem o trabalho físico, mas também interiorizam parte do trabalho mental. Mais importante ainda, a transformação dos valores de uso envolve um processo muito menos relacionado com a fisicalidade do produto, ou seja, com a mudança de materiais e componentes, e mais com a incorporação de características adicionais que envolvem processos mentais.

Marx, ainda em Grundrisse, argumentou que, com o tempo, produtos do conhecimento como ferramentas, produtos químicos ou máquinas tornam-se menos importantes; é a ciência e o intelecto geral que se tornam o poder produtivo mais importante. Nesse processo, o capital não apenas controla máquinas e recursos, mas subordina a ciência e o conhecimento ao controlar o seu principal recurso: os dados.

Na era da tecnologia digital, os dados emergem como o novo petróleo da civilização humana. O fluxo de dados é amplamente produzido por interações humanas, incluindo as interações em plataformas digitais. As pessoas interagem nas redes sociais e criam grandes quantidades de dados gratuitamente, que são apropriados como matéria-prima para identificar padrões de escolhas dos consumidores. O controlo sobre os grandes dados (big data), portanto, resume-se a estabelecer controlo sobre as escolhas humanas, tanto presentes quanto futuras. Assim, colonizar a mente humana para servir os interesses do capital é o propósito final das novas tecnologias sob o capitalismo.

O trabalho cognitivo envolvido na produção de bens de conhecimento é, por vezes, considerado diferente do trabalho tradicional, uma vez que produz bens de conhecimento que são bens “imateriais”. Contudo, esse trabalho não é imaterial, pois também envolve o dispêndio de músculos, nervos e cérebro. O conhecimento não surge do nada.

A característica distintiva do trabalho cognitivo reside no facto de a sua contribuição não poder ser compreendida por meio de medidas simplistas de tempo de trabalho empregado. À medida que os processos mentais se tornam relativamente mais importantes na produção de novos valores de uso, a distinção entre tempo de trabalho e tempo livre torna-se cada vez mais ténue. Um designer, um programador de software ou um especialista em IA não podem parar de pensar depois do horário de trabalho. De facto, a aptidão relacionada com esse trabalho é cultivada no tempo livre por meio de um processo separado de pensamento e aprendizagem.

Mais importante ainda, à medida que a intensidade do conhecimento no processo de produção aumenta, cresce a dependência da produção em relação ao “intelecto geral”. O conhecimento torna-se cada vez mais social. Utilizando a internet, é possível aceder a um fluxo infinito de dados e ideias produzidos em todo o mundo. A produção torna-se cada vez mais socializada. As plataformas digitais mediatizam um espaço infinito de interações humanas, que é utilizado na produção de bens de conhecimento.

Contudo, os lucros e rendimentos gerados pela produção de conhecimento são apropriados por uns quantos gigantes da tecnologia que detêm o controlo do enorme fluxo de dados. Recursos como carvão, petróleo, minério de ferro ou outros minerais estão localizados em regiões geográficas específicas, e o controlo sobre esse espaço ou região era suficiente para garantir o monopólio desses recursos. Mas o fluxo de dados é global, o que exige controlo em escala planetária. Consequentemente, a concentração e a centralização de capital atingem níveis sem precedentes na atual fase de desenvolvimento tecnológico.

Rumo a uma nova sociedade

O conhecimento é, por natureza, não rival. Diferencia-se de todos os outros recursos por não se degradar com o uso. O conteúdo de um livro não diminui com a sua leitura. Pelo contrário, o leitor pode acrescentar novas dimensões ao texto existente e interpretá-lo de uma forma que não havia sido considerada inicialmente. Assim, o conhecimento prospera através da partilha e da interação.

As novas tecnologias também dependem de um mecanismo de feedback que incorpora no processo a contribuição dos utilizadores com novos dados. Isto implica uma maior socialização da produção, que transcende as divisões convencionais entre tempo de trabalho e tempo livre. A produção torna-se cada vez mais colaboracional e, em vez de depender de competências individuais, passa a depender mais da apropriação do poder produtivo geral e do conhecimento coletivo.

Além disso, espera-se que a utilização da tecnologia reduza drasticamente a necessidade de mão de obra humana direta. Este é o propósito da tecnologia. Mas reduzir o esforço humano não significa necessariamente reduzir o emprego; apenas garante que a mesma produção possa ser obtida com menos esforço humano direto. Tal mudança deverá, na realidade, reduzir o tempo de trabalho necessário e aumentar o “tempo livre”. O desenvolvimento de uma nova tecnologia mais rápida permite reduzir a jornada de trabalho diária ou o número de dias de trabalho por semana.

Mas isso dificilmente acontece com o uso de novas tecnologias sob o capitalismo. As relações capitalistas geram um resultado completamente diferente: um número menor de trabalhadores trabalharia a mesma quantidade de horas ou até mais, enquanto muitos perderiam os seus empregos.

Isto ocorre porque o capitalista que detém a tecnologia está na corrida para realizar o valor do investimento o mais rápido possível, com o receio de que uma nova geração de tecnologia surja e supere as existentes. Portanto, para extrair o excedente o mais rápido possível, as horas de trabalho dificilmente diminuem, podendo até mesmo aumentar com a introdução de novas tecnologias.

Pelo contrário, se a tecnologia e os recursos forem de propriedade social, o uso do intelecto coletivo não seria subordinado aos interesses restritos do lucro. As horas de trabalho necessárias diminuiriam e o tempo livre dos seres humanos aumentaria. Libertar as tecnologias baseadas no conhecimento da busca pelo lucro privado garantirá um progresso mais rápido dessas tecnologias.

Além disso, a redução do esforço humano direto no processo de produção sob propriedade social não levaria ao desemprego e à miséria da maioria, mas sim a um aumento do tempo livre, o que facilita o poder criativo.

A produção baseada no conhecimento, portanto, é consistente com uma relação de produção que se apoia mais na colaboração e na partilha. Tal sociedade deve preservar a autonomia dos produtores diretos para que decidam democraticamente o que será produzido e o que não será, organizando a distribuição dos ganhos segundo os princípios da solidariedade.

As tecnologias, contudo, não transformam as sociedades. Elas apenas criam a necessidade dessa transformação. A mudança social só pode ser alcançada por meio da alteração radical da relação capitalista baseada na propriedade privada, substituindo-a pela produção e distribuição socializadas, que gradualmente dão origem a uma comunidade de produtores associados que determinam seu próprio futuro.

 

(*) Manuscrits de 1857-1858 («Grundrisse»), tome II, p. 192-193, Éditions Sociales


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LEITURAS COMPEMENTARES.


https://www.youtube.com/watch?v=jh3d8xO9NHg


https://karat.substack.com/p/the-surveillance-state-found-its

quinta-feira, 23 de março de 2023

OS MUITO RICOS SABIAM -DE ANTEMÃO - DESTA CRISE



No rescaldo dos últimos acontecimentos desastrosos, podemos ver a FED continuando teimosamente a subir a taxa de juro diretora (de 0.25%).
Eles fazem-no, sabendo bem que na raiz do colapso de uma série de bancos de média dimensão (pelo menos, 4 bancos, só nos EUA) estava realmente a subida faseada a intervalos muito curtos, das taxas de juros, com a consequente descida do valor das obrigações do Tesouro, portanto fazendo com que o principal ativo de reserva destes bancos (e de quase todos os outros, inclusive noutros países) ficaria reduzido. Nalguns casos, foi o suficiente para eles ficarem em défice de cobertura e sem hipótese de obterem um reforço de reservas.
Não houve bailout para estes bancos. Muitos depositantes devem ter ficado a perder o dinheiro dos seus depósitos, nomeadamente, pequenas e médias empresas que possuíssem mais de 250.000 dólares depositados, o que não é muito, visto que uma empresa tem de pagar salários e fornecedores. Quanto ao despoletar da crise, note-se que esses bancos não fizeram nada de ilegal, nem sequer de incorreto face às regras bancárias.
Pelo contrário, na crise de 2008, muitos dos bancos e entidades (Bear Sterns, Lehman Brothers, AIG) que se afundaram e outras, que foram salvas pelo Governo dos EUA, tinham-se envolvido em empréstimos fraudulentos para a habitação e na venda de pacotes desses empréstimos, até para além dos EUA.

Agora foi a vez do Crédit Suisse, um banco há anos considerado dos mais fortes mundialmente. Houve uma clara intervenção estatal, que levou a um bail-in (ou seja, um resgate interno, à custa dos depositantes do banco) disfarçado. Os detentores de obrigações viram, de um momento para o outro, as suas obrigações do Crédit Suisse, que valiam (no total) 17 mil milhões de Francos Suíços na última cotação, serem levadas a zero: Não por ação dos mercados, mas porque era uma das condições impostas pela UBS para aceitar realizar a compra da sua ex-rival. Há base para uma ação contra o Estado, pois na ordem de prioridades de uma falência, os detentores de ações só devem ser indemnizados depois dos detentores de obrigações. Ora, a UBS «comprou» o Crédit Suisse, por uns meros 3 mil milhões de Francos Suíços, que terão servido para indemnizar os possuidores de ações. Os possuidores de obrigações ficaram sem nada.

Não existe paralelo histórico para esta crise bancária, que se alastra como mancha de óleo, em países do «coração» do capitalismo. Estamos ainda muito longe do seu final. Uma coisa é certa; os banqueiros centrais e os governos são impotentes para travar a crise em curso, são quadriliões de dólares de ativos em «papéis dos mais diversos tipos». Destes, os mais problemáticos são os derivados, cuja avaliação é difícil de se fazer: As operações de compra e venda fazem-se fora do balanço das instituições bancárias («over the counter», por cima do balcão, é a expressão consagrada).

O sistema não pode estar seguro, porque o capitalismo financeirizado se baseia em esquemas de Ponzi, quer sejam promovidos por empresas, bancos, «hedge funds», ou pelo próprio Estado, como na gestão das pensões.

Podemos ter a certeza de que os grandes capitalistas souberam transformar muitos dos seus ativos financeiros (ações, obrigações, contas a prazo, derivados...) em propriedade não-financeira:
- terras agrícolas: uma aquisição maciça de terras agrícolas por Bill Gates, fez dele o maior detentor individual de terras nos EUA.
- imobiliário: apesar de muito sujeito a especulação, é algo «sólido», seu valor nunca pode reverter  para zero.
- metais preciosos: o ouro, comprado nas praças do Ocidente excede em muito, as quantidades adquiridas pelos bancos centrais ocidentais, pelo que uma porção desse ouro deve estar em mãos privadas.
- obras de arte: verifica-se uma nítida inflação do mercado da arte, em especial, nos segmentos de topo do mercado, obras arrematadas em leilão por milhões. Elas são guardadas em cofres-fortes, durante anos, para depois serem vendidas com imenso lucro.

Quem vai sofrer são as pessoas comuns, cujo rendimento (salário, pensão ...) nunca é atualizado de acordo com a taxa de inflação. Ou seja, a imensa maioria fica realmente mais pobre. Os muito ricos não se importam, até gostam, pois um pobre sujeita-se a trabalhar em condições de grande precariedade, de forma desregulamentada, não se atrevendo nunca a reivindicar.

Há quem diga que muito do que se passa, ao nível dos mercados financeiros e dos principais bancos centrais ocidentais, é orquestrado, no sentido de que a população, castigada por tanta miséria, vai ter que «engolir» a mentira do dinheiro digital de bancos centrais (CBDC), como «panaceia» para a crise. A vantagem do dinheiro digitalizado a 100%, é que os poderosos poderão dirigir as nossas compras de bens e serviços, de acordo com aquilo que eles consideram ser «bom para a economia». Também torna impossível a verdadeira dissidência, pois os poderes podem, com toda a facilidade, «cancelar» a conta dos que eles consideram estar a incorrer no «crime de dissidência» e estes ficam sem meios de subsistência. Os poderes ocidentais, nisso, copiam o regime chinês, embora façam sempre propaganda contra a China.

terça-feira, 5 de abril de 2022

LUTA ENTRE BLOCOS MAS UM MODELO COMUM DE TECNOCRACIA



 Veja no link abaixo a conversa entre James Corbett e Iain Davies sobre «A Nova Ordem Mundial e como a ela nos podemos opor»

https://off-guardian.org/2022/04/04/watch-iain-davis-on-the-new-world-order-and-how-to-oppose-it/


Comentário : 

Se os protagonistas desta conversa têm razão, muito pouco se poderá fazer para proteção  contra tal tecnocracia totalitária pois a sua forma de domínio vai tomar controlo  sobre nossos corpos. 

Creio que, se eles estiverem corretos, só  haverá lugar para outro modo de vida nas margens: 

- Ou dentro da sociedade tecnologizada como «cyber-punks», 

- Ou fora das zonas onde reina o novo modelo de sociedade, junto de povos que sempre viveram próximo do limiar da sobrevivência, ignorados, com seu modo de vida ancestral, relíquias antropológicas anteriores às sociedades globalizadas pela ciberbiotecnocracia.


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Mentiras, Malditas Mentiras e Estatísticas de Saúde

MÉDICOS PELA VERDADE (ESPANHA) 
             (Vídeo censurado pelo Youtube)                           

 Como complemento, pode-se ler um excelente ponto da situação da utilização da epidemia pelo governo britânico:

PS1: Esta Carta Aberta dirigida às Autoridades públicas de Saúde da Bélgica foi subscrita por 394 doutores em medicina 1,340 profissionais de saúde e 8,897 cidadãos, até agora (23/09/2020).

segunda-feira, 17 de junho de 2019

A INDIFERENÇA COMO ARMA


Num mundo zombificado pelas maquinetas electrónicas, os poderes podem manipular à vontade os desejos, as aspirações, e mesmo os sonhos, de um bilião de utilizadores. 
O tempo tornou-se a matéria-prima principal para fazer dinheiro. Se algo tem capacidade para reter, nem que seja por um segundo, o tempo do consumidor médio, então essa 'coisa' (seja visual, seja sonora, seja conceptual...) tem potencial para interessar os novos capitalistas, os quais constroem o seu poder e património sobre o capital-tempo
Assim, o mundo mais tradicional do poder, encarnado nos governos e nas máquinas dos Estados, incluindo, não esqueçamos, os exércitos, armadas e forças aéreas,  pode dispor de um conhecimento praticamente infinito sobre os seus súbditos (cidadãos, pressuporia vontade em participar activamente na coisa pública). Para que lhes serve esse conhecimento? 
- Como matéria-prima para suas «psi-ops» ou seja, operações psicológicas. Note-se que, hoje em dia, tudo é psi-op, mesmo aquilo que à partida não parece ser. 
A manipulação das mentes pode implicar a saturação com coisas triviais, a satisfação dos desejos hedónicos, a adição compulsiva a comunicar com a sua rede de amigos e conhecidos, a manipulação do medo e da angústia (que é um medo indefinido, não objectivável) e de muitas outras formas mais subtis ou mais grosseiras. 
Com efeito, a propaganda, rebaptizada de «fake news» e cuja utilização massiva se verifica sobretudo na informação «mainstream», é apenas um mecanismo entre outros, aliás a sua eficácia depende exclusivamente do prévio abaixamento das defesas dos seus alvos (nós), através das diversas técnicas de manipulação. 
Os cientistas do cérebro, da psicologia, da sociologia, estão fornecendo - muitas vezes sem o saberem - elementos preciosos para que outros, menos «puros», se esmerem em refinar as técnicas de condicionamento psicológico e de controlo das massas.  
Não existe nenhuma grande potência mundial que esteja fora deste jogo, de capturar não apenas a atenção, mas mesmo a vontade do seu público e, se possível, de neutralizar as mensagens dos seus inimigos internos e externos. 
É risível ver-se a oligarquia dos regimes ocidentais gritar indignada com as violações dos direitos humanos que ocorrem na China e noutros países de que eles não gostam. Risível, não por essas violações não existirem, elas existem de facto. Mas, porque eles estão a denunciar aquilo que eles próprios fazem «em casa», com os seus aparelhos de vigilância em massa. 
Aliás, porque pensam que estão eles tão assanhados contra Julian Assange? Seria bastante incoerente que fosse pelas razões que eles invocam. Pelo contrário, a sua raiva e ódio são devidas ao facto de Wikileaks ter demonstrado perante todo o mundo, o cinismo e crueldade do poder, precisamente aquilo que ele temia ver revelado, porque o desautoriza e desmascara seus discursos de «direitos humanos».
Existe uma resistência a todo esse desenrolar de estratégias de controle do comportamento? 
- Sim, existe; tal como no romance «1984» de Orwell também existia.  Mas essa resistência é desproporcionada ao poderio dos Estados e suas armas tecnológicas sofisticadas. 
A única hipótese de algo se transformar em proveito dos cidadãos e em desfavor dos que controlam as alavancas dos Estados, seria que os próprios zombificados tomando consciência de serem manipulados, de seus instintos serem usados... se insurgissem. Em suma, uma revolta geral dos escravos. Não acredito que essa revolta ocorra enquanto forem dadas as doses diárias de «soma» (ver romance da Aldous Huxley, «O Melhor dos Mundos»).  Algo terá de correr terrivelmente mal, rupturas no aparelho da ilusão perfeita, no suporte básico da vida, a um ponto tal, que a fabricação duma realidade ilusória deixe de ser possível... 

Isso é verificável, hoje em dia, na região de Chernobyl e na região de Fukushima: uma natureza que se reconstitui parcialmente, mas onde a ingestão de alimento contamina os animais, impossibilitando vida humana «normal» por muitos séculos, nos solos e aquíferos contaminados pela radioactividade. Os habitantes dessas zonas sabem; mas a sua experiência traumática não é passada, antes ocultada, aos restantes cidadãos... 

A ignorância da monstruosa corrida aos armamentos, que está agora ocorrendo, é -em parte -devida ao efeito de ocultação dos media, mas isto não explica tudo.  A psicologia social explica como é que as pessoas se colocam numa postura de «denegação»: 
- Elas sentem medo, mas julgam que suas tentativas de evitar esses perigos são inúteis; então, no seu «Eu profundo» ocorre uma transformação, que consiste em «anular» todos os sinais de perigo que vêm de tal fonte. Concentrando-se nas suas tarefas do dia-a-dia, elas pensam que poderão evitar o sofrimento ou que, pelo menos, não irão acrescentar sofrimento inútil ao presente, aos sofrimentos que poderão ter, num futuro indefinido...
A fabricação da indiferença e não somente do consentimento (Chomsky) é o grande instrumento de subjugação da elite plutocrática sobre a massa amorfa. Se tal não fosse assim, mesmo com a superioridade do material técnico (incluindo o armamento...), não seria possível tão poucos controlarem tantos. 

A raiz do totalitarismo reside nisso, como analisou Hannah Arendt, em relação aos fenómenos da sua época, da ascensão dos totalitarismos, soviético e nazi... 

domingo, 2 de junho de 2019

SNOWDEN FALA SOBRE TECNOLOGIAS DO CONTROLO SOCIAL

                           
https://www.commondreams.org/news/2019/05/31/edward-snowden-technology-institutions-have-made-most-effective-means-social-control

COM A TECNOLOGIA, AS INSTITUIÇÕES CONSTRUÍRAM «O MEIO MAIS EFICAZ DE CONTROLO SOCIAL NA HISTÓRIA DA NOSSA ESPÉCIE» . 


O lançador de alerta ex-contratante da NSA, disse - numa entrevista por videoconferência numa série intitulada «Diálogo Aberto» duma unidersidade canadiana da Nova Escócia - que as pessoas que controlam os sistemas de poder exploraram o desejo dos humanos de estarem conectados, em ordem a criar sistemas de vigilância em massa.  Disse que, agora mesmo, a Humanidade se encontra numa espécie de «momento atómico» no campo da ciência da computação 
"Estamos a assistir à maior redistribuição de poder desde a Revolução Industrial e isto acontece porque a tecnologia forneceu uma nova capacidade." 
"Isto está relacionado com a influência que alcança qualquer um, em qualquer lugar". "Não atende a fronteiras. O seu alcance é ilimitado se assim se desejar; porém as salvaguardas não o são".  Sem tais resguardos, as tecnologias conseguem afectar o comportamento humano.

As instituições podem "monitorizar e gravar as actividades privadas de pessoas numa escala tal, que está próxima da omnipotência" disse Snowden. Isto é feito através de «novas plataformas e algoritmos», através dos quais o comportamento pode ser modificado. Nalguns casos, conseguem prever o nosso comportamento ou decisões - e também influenciá-los - em várias circunstâncias. Também exploram a necessidade humana de pertença"
"Nós não subscrevemos uma coisa dessas," acrescentou, descartando a noção de que as pessoas sabem exactamente o que estão fazendo quando se envolvem em plataformas sociais como o Facebook.
"Quantos de vós tendes uma conta Facebook e leram realmente os termos de serviço?" perguntou Snowden. "Tudo tem centenas e centenas de páginas de linguagem jurídica que nem sequer estamos qualificados para ler e avaliar - e no entanto, é considerado que nós estamos obrigados a respeitar esses termos.
"É através de uma ilegítima conexão entra a tecnologia e uma forma incomum de interpretar a lei contratual que estas instituições têm sido capazes de transformar a maior virtude da humanidade - que é o seu desejo de interagir e conectar-se para cooperar e partilhar - transformar isso tudo numa fragilidade."
"Agora essas instituições são tanto comerciais como governamentais ... estruturaram-se de modo que se tornaram o mais potente meio de controlo na história da nossa espécie. Esta realidade é o que se chama de vigilância de massa."

Pode ouvir Snowden na íntegra (começa a falar em torno dos 25 minutos do vídeo.)

https://vimeo.com/337847675

https://www.youtube.com/watch?time_continue=2203&v=oizhVJstxC4



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

PAUL CRAIG ROBERTS: UMA ENTREVISTA ABSOLUTAMENTE ESCLARECEDORA


Paul Craig Roberts esclarece a lógica do complexo militar-securitário-industrial. 
Para Roberts a desdolarização é um processo que poderá, no futuro, retirar a hegemonia dos EUA, no sistema financeiro mundial.
Também explica como é que a classe dominante está na guerra de propaganda, ou seja, no controlo total da media, incluindo da media «alternativa». 
Sobre a política identitária e como esta se tornou a política oficial do partido democrático, esclarece porque razão isto é muito importante para o sistema político americano. 
A política identitária e «o politicamente correcto» implicam a impossibilidade de unidade na base contra a plutocracia.
Para Paul Craig Roberts o conceito de super-poder dos EUA é já um anacronismo.

[Estes, são apenas alguns tópicos mais interessantes para mim, mas existem muitos outros conteúdos, com imenso interesse e bom senso, nesta entrevista]



domingo, 3 de julho de 2016

A ARTE DE AMAR



«A arte de amar»

De todas as artes, a que suscita maior entusiasmo, queiram ou não queiram os puritanos, é a arte de amar.
Este amor, o amor entre pessoas, entre seres de carne e osso. Este amor, feito queimadura, que nos toma as entranhas; esse sentimento, que se traduz em vertigem, que pode ser tão potente ao ponto de nos levar a um estado de quase loucura, ou mesmo de loucura propriamente dita.
O desencadear das paixões amorosas é como essa outra paixão – bem mais nefasta – a paixão da guerra. Há muitas maneiras de iniciar uma guerra, mas nunca se sabe… uma vez começada, como irá terminar. A analogia guerreira é muito usada para descrever as paixões amorosas.
Só na literatura do Ocidente, a lista de filósofos, poetas, escritores, cientistas e artistas que se debruçaram sobre o tema é interminável!
Se tudo foi dito, no que respeita à «Arte de Amar», as obras que vão surgindo - populares ou eruditas- sobre o tema, só podem interessar enquanto testemunhos da época:
- Diz-me como falas do amor e eu te direi em que tempo vives, a que cultura e sociedade pertences…



Um assunto desenvolvido em todo o género de literatura, desde os livros de «autoajuda», aos romances …O tema corresponde obviamente a um interesse muito especial do público, que compra abundantemente esses livros pelo prazer, sem dúvida, mas também por desejo de aprender e por pressão social.
Estamos tão mergulhados no quotidiano que não nos apercebemos, por vezes, da grande velocidade das mudanças na nossa sociedade. Hoje, há um matraquear permanente sobre amor e sexo: o sexo «sugerido», na publicidade ou nos filmes; ou o sexo «explícito» com a banalização da pornografia. Hoje em dia, qualquer pessoa tem fácil acesso a vídeos pornográficos.
A outro nível, a imposição permanente no discurso político e mediático de numerosas questões ditas «fraturantes», relacionadas com reprodução e sexualidade, lançadas sob forma de campanhas, por grupos de pressão organizados (… a favor ou contra isto ou aquilo) e logo aproveitadas (quando não fomentadas) por políticos desejosos de protagonismo…
Tudo isto cria um enorme complexo obsessivo, um enorme «mercado» … mas também uma enorme frustração, pois um vulgar e pacato cidadão (ou cidadã) nunca se deixa de ter diante dos olhos os tais impossíveis objetos de desejo, perfeitos, inatingíveis ao indivíduo vulgar. É deste modo que as pessoas comuns, frustradas, sentem necessidade (por vezes obsessiva) de recorrer à pornografia.
Cria-se o desejo, no contexto de uma sociedade dita de «mercado», onde a publicidade é o motor do consumo, sendo esta - por sua vez- o motor da economia «real» (=de produção de bens e serviços). A «indústria» de pornografia é pois a «resposta» do capitalismo tardio, capitalismo da transformação robótica, da instrumentalização, não apenas dos corpos, como das psiques. Devemos ter sempre presente que a ideologia totalitária/ pensamento «único» quase nunca utiliza as palavras «capital», «capitalismo», prefere usar expressões como «sociedade de livre mercado», para erigir o seu próprio sistema político e económico em modelo inultrapassável, tão «natural» e indispensável como as próprias trocas económicas.



A explosão da pornografia não se pode atribuir somente nem principalmente à invenção da Internet. A pornografia ou erotismo pré-existiu, de muitos séculos, à era digital. Mas o fenómeno de exposição total, de sobre-exposição, de oferta sem limites e sob perfeito anonimato… é peculiar à nossa época.
O recurso massivo e obsessivo dos jovens, em especial, tem a ver com uma forma de condicionamento que vai aproveitar a frustração sexual para a canalizar para a satisfação hedónica imediata.
A adolescência é uma fabricação da sociedade. Pode-se considerar que o ser humano (de ambos os sexos) atinge a maturidade sexual plena por volta dos 16-17 anos, o que, aliás, correspondia à idade média de aparecimento da menarca das jovens.
A não satisfação de uma função natural, com implicações bioquímicas/hormonais, psíquicas e comportamentais, origina a frustração.
Numa sociedade patriarcal repressiva, na qual o poder dos machos dominantes é decisivo para o jovem macho ter acesso aos «prazeres» deste mundo, leia-se a uma vida sexual, e a procriar «ter família» … o sexo é regulado, proibido, delimitado, por uma moral estrita.
Numa sociedade pseudoliberal, a nossa, o sexo já não é tabu, mas pelo contrário, tema obrigatório e obsessivo. A «tara» moral é substituída pelas «taras» psíquica e mesmo física. Os adolescentes têm pensamentos obsessivos sobre sexo e sofrem pressão para deixarem de ser «virgens» o mais depressa possível e de qualquer maneira.  

Assim, conseguem os poderes que os próprios escravos se conformem alegremente com a sua servidão. Ao desviarem os indivíduos de uma sexualidade libertada e harmoniosa, através de um «Ersatz de satisfação», conseguem uma dupla vitória: Os próprios escravos reforçam a sua relação de escravidão e fazem-no, julgando-se mais «livres» por «livremente escolher» os produtos que lhes são oferecidos. 
Algumas pessoas, sob influência dos clichés desta sociedade em relação a questões de sexualidade, poderão achar que a nossa visão bastante crítica em relação à pornografia corresponde a uma defesa de alguma forma de censura. De facto, não é nada inteligente censurar, especialmente neste caso, pois tornaria esse «produto» ainda mais procurado em segredo. Talvez poucas pessoas saibam que existe toda uma rede de exploração – por vezes violenta – associada à indústria de vídeos pornográficos.
Pensar que informação sobre sexualidade seria veiculada por via dos vídeos porno, toca as raias da estupidez! O objetivo dos magnatas que produzem estes filmes pornográficos é somente o lucro.



A acusação ideológica/moral com que se rotula de «censura» qualquer crítica pode e deve ser devolvida aos que a fazem. Pois o tal rótulo infamante permite eludir um debate considerado «inoportuno» ou encobrir os interesses obscuros mais sórdidos, sob pretexto de «modernidade» ou de «liberdade de expressão». Com efeito, os tais pseudoliberais serão, porventura, os mais diretos beneficiários e aproveitadores da exploração sexual, sob todas as formas, incluindo o tráfico e a escravatura sexual.
O discurso pseudoliberal no que respeita à pornografia e ao uso constante das mensagens sexualizadas na comunicação social, na publicidade e no cinema, tem servido para manter impunes, para encobrir, para banalizar práticas criminosas.
Assim se compreende como é tornada escassa a oportunidade de debates públicos necessários, sobre questões de saúde e de educação sexuais. Se, por um lado, não faz sentido proibir que os adolescentes e adultos de ambos os sexos tenham acesso ao visionamento de vídeos com cenas eróticas, por outro lado, parece-nos hipócrita não educar, especialmente os jovens de ambos os sexos, para realmente terem uma gestão própria da sua sexualidade, sem subordinação a quaisquer ideias feitas. 





Os afetos podem ser educados, sem se violentar as opções pessoais. Pode-se ajudar, por todos os meios, a que as pessoas possam crescer saudáveis. A sexualidade faz parte integrante da saúde física e mental dos indivíduos, da sua integração social harmoniosa e da sua realização pessoal.
Devemos interrogar-nos sobre a adição aos vídeos porno. Ela tornou-se muito vulgar em adultos (especialmente jovens) do sexo masculino. Quais as causas e consequências de tal adição?
O cérebro é feito de tal maneira que, as imagens, por exemplo num vídeo, são compreendidas pelo cérebro «racional» (o pré-frontal), como sendo apenas e somente imagens (resultantes de um artefacto), mas o cérebro humano tem uma zona profunda (cérebro límbico), que é sede das pulsões, dos desejos, dos reflexos. Este sistema límbico não distingue entre imagem filmada e a que resulta da cena real; o cérebro mais primitivo responde como se o indivíduo estivesse presente e participante nas cenas que são visionadas no ecrã.
Além disso, o cérebro humano tem uma forma muito especial de interpretar os movimentos que as outras pessoas fazem. As zonas motoras correspondentes do nosso cérebro mimetizam os gestos que fazem as outras pessoas; porém, quando se está no papel de observador, as imagens cerebrais são tratadas como sendo apenas um simulacro, ou seja, o nosso cérebro racional intervém e reprime a concretização do gesto. É assim que o nosso cérebro apreende, mimeticamente, a realizar os gestos observados nos outros. A imitação dos gestos dos outros é muito espontânea. Aliás, se a demonstração por gestos é um processo eficiente de ensinar e aprender nos desportos, na dança, nas artes, etc., isso deve-se a uma criação de imagens neuronais «em espelho»: o ser humano aprende a fazer gestos complexos por imitação. Este tipo corriqueiro de aprendizagem tem excelentes resultados devido à nossa maravilhosa capacidade de «programação flexível» do cérebro.
A ciência neurológica tem muito a dizer e a divulgar sobre cérebro e amor. Essa divulgação nem sempre se revestiu de simplicidade e clareza necessárias para compreensão pelo leigo. Porém, penso que estes factos devem ser do conhecimento de todas as pessoas, devemos compreender que nós somos feitos assim, que existe todo um passado evolutivo que faz com que a nossa organização cerebral se traduza num determinado funcionamento e este, por sua vez, num comportamento.
Sim, o modo como captamos, armazenamos e reelaboramos as imagens vindas do exterior é muito complexo! Envolve estruturas biológicas, processos bioquímicos, etc. 
Mas as pessoas adultas e adolescentes (de ambos os sexos) devem compreender algo que lhes diz respeito e cuja ignorância, de modo nenhum, pode beneficiá-las. Todas as pessoas podem ser educadas nestes domínios, quaisquer que sejam seus conhecimentos prévios nestas matérias. Podemos explicar com simplicidade as coisas básicas, sem falsidades, de maneira esclarecedora.
A complexidade do amor humano, nas suas quase infinitas formas, matizes ou modalidades corresponde, afinal, à nossa imensa complexidade e diversidade orgânica e social.


A complexidade na organização de um ser humano é, na verdade, muito maior que a duma galáxia, constituída por milhões de estrelas, porque as estruturas, no caso do humano,  têm um grau de organização em muitos patamares, o que não se encontra nos corpos constituindo uma galáxia.
Considere-se que, no fundo, a complexidade acima descrita é que está na base do livre-arbítrio. Se o livre-arbítrio existe é porque, tanto as organizações dos indivíduos, como das sociedades, são de tal modo complexas, não é possível quaisquer inteligências, mesmo «dez Einstein» reunidos, descreverem adequadamente em termos bioquímicos e neuronais os mecanismos subjacentes às motivações e comportamentos das pessoas.
Considerando agora, também o amor – todas as modalidades de amor – enquanto fenómeno que envolve duas pessoas, temos a complexidade acima referida... ao quadrado. Constata-se então que a ideia de determinismo ou de fatalismo no domínio amoroso, um traço típico do amor dito «romântico», cai pela base.




No domínio das relações amorosas, uma série de clichés em relação ao que supostamente deve ser o comportamento das pessoas, é simplesmente uma soma de preconceitos, não contribuindo em nada para a libertação das pessoas, para uma fruição maior dessa arte necessária de amar.


Ao recusarmos todos aqueles falsos conceitos, o sentimento no amor não será diminuído, mas reforçado, pelo facto de já não se basear em ilusões.