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segunda-feira, 2 de março de 2026

Três Compositores Portugueses dos Séc. XVI e XVII [Segundas-f. Musicais nº51]

Órgão da Sé de Évora (tubaria do renascimento)


António Carreira (ca.1525- ca.1587)
 Canção a Quatro Vozes, Grosada


Contemporâneo de Carreira, Gonçalo de Baena editava em 1536 um livro de órgão didático, com entabulações (ou glosas) de canções polifónicas na moda (sobretudo franco-flamengas) e outras, dele próprio e de mestres ibéricos. 





Susana grosada a quatro vozes sobre a canção de Lassus




Aqui a obra vocal de Roland de Lassus «Suzanne un jour» que inspirou muitas glosas.



Pedro de Araújo (cerca de 1640-1705)
Batalha de Sexto Tom



Os compositores acima estão inseridos na tradição ibérica, que inclui tanto figuras de Espanha como de Portugal. Já nos séculos XIV e XV, ao nível das cortes reais, havia um fluxo constante de músicos oriundos dos diversos centros da Península Ibérica e também de outros países europeus, da Flandres à Itália. Porém, apesar dos compositores estarem mergulhados em ambientes cosmopolitas (as cortes) ou eclesiásticos, um forte «sabor ibérico» conservou-se nas suas composições, tanto vocais como instrumentais. 

António Carreira, como mestre da Capela Real, estava bem no centro de um meio favorável à música, acolhedor em relação às tradições da Europa do Norte, quer dos Países Baixos e Flandres, quer da Borgonha e, certamente, bem ao corrente da produção musical nos Reinos de Aragão e Castela.

O Padre Manuel Rodrigues Coelho (organista da Sé de Elvas), esteve em contacto com polifonistas portugueses (Frei Manuel Cardoso fez a revisão da sua obra magna),  e conheceu pessoalmente o filho de António de Cabezón, Hernando de Cabezón. As suas obras classificadas como «Tentos» revelam influências de Sweelinck*. A sua colectânea «Flores de Música» (impressa em 1620) revela elevado grau de maestria nos estilos de escrita musical da época (fim do séc. XVI- princípios do Séc. XVII). 

Pedro Araújo foi organista na Sé de Braga e exerceu outros cargos. As suas composições, designadas por «Meios-Registos», «Obras» e «Fantasias», estão na continuidade da tradição ibérica. A sua composição mais célebre, aqui reproduzida, é designada por «Batalha». Estas peças utilizavam a célebre «La Guerre de Janequin» (peça vocal do Renascimento), como base para variações exuberantes. Algumas das suas partes são compostas de sucessões de acordes, imitando as trombetas e outras sonoridades nas batalhas. São peças bastante extrovertidas. Pelo contrário, as outras obras do Mestre Araújo, são muito mais reflexivas e adequadas para acompanhar partes da Missa.
 
A escassez das fontes desta época não nos permite saber muito sobre a prática da música em contextos profanos. Restam poucos exemplos de danças ou de outro reportório com características profanas. Porém, existem pelo menos duas fontes que nos revelam aspectos importantes da música profana em Portugal, nesta época: 
A) Os cancioneiros eram pequenos livros («livros de mão») contendo poesia lírica de vários autores, cuja música correspondente é conhecida, em muitos casos. Tais canções circulavam nas cortes, sendo a lírica, ora em castelhano, ora em português. A parte vocal superior correspondia frequentemente à melodia. As restantes duas ou três vozes, podiam ser executadas pela vihuela (forma ibérica do alaúde) e/ou por outros instrumentos. 
B) As canções postas em tablatura para os instrumentos de tecla, mas igualmente para vihuela ou harpa. Existem exemplos nas obras de Gonçalo de Baena, António Carreira, António de Cabezón e de Rodrigues Coelho (do início do século XVI, ao início do séc. XVII) e noutros compositores. Foi muito cultivado este tipo de versões instrumentais de obras vocais. Estas grosas ou glosas estão na origem da música instrumental, em particular, para os instrumentos de tecla. Estas glosas  evoluiram desde simples transcrições, somente acomodando as diferentes vozes à execução num teclado, para se tornarem peças elaboradas, conservando a estrutura original, mas enriquecida com comentários e paráfrases. A arte da glosa consistia em usar ornamentos e variações das vozes. Provavelmente, deixava grande latitude à improvisação pelo executante. As peças escolhidas para tal adaptação instrumental eram frequentemente canções da escola franco-flamenga (Thomas Créquillon, Clément Janequin, Adrien Willaert, etc.). Estas canções, agrupadas em recolhas impressas, possuíam larga circulação europeia na época. Também várias canções ibéricas foram  glosadas («Con qué la lavaré», «Para quien crie yo cabellos», «Canto del Caballero», etc.)
A forma «tema com variações» surgiu em várias partes da Europa, incluindo na Península Ibérica, onde se usava o termo «diferencias». O procedimento era basicamente o mesmo: através de glosas, sucediam-se versões ornamentadas/variadas de um tema. Nomes diferentes, nas várias nações europeias, referem-se um processo de composição igual ou semelhante. As danças, nomeadamente a Pavana, Pasacalle, Chaconne... também obedecem ao padrão de «tema e variações». 



Relacionado: Obra de M S Kastner «Três compositores lusitanos para instrumentos de tecla, séculos XVI e XVII: António Carreira, Manuel Rodrigues Coelho, Pedro de Araújo. Lisbonne, 1979.»
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*Não nos espanta que tenha o Padre Rodrigues Coelho recolhido muita informação na preciosa biblioteca musical do futuro Rei D. João IV (O «rei músico»). Desta biblioteca, só subsiste o catálogo; o seu conteúdo ardeu completamente, aquando do Terramoto de 1755.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

FRANÇOIS COUPERIN «L' Art de Toucher le Clavecin» (Segundas-f. musicais nº48)

 

                                                          Acima, frontispicio da edição de 1716 

Nós já mencionámos aqui, nas «Segundas-feiras musicais», a importância de François Couperin na música em geral e no barroco francês, em particular. Também dedicámos um artigo aos 2 livros de órgão, por ele escritos. 

Embora François Couperin tenha escrito obras estrictamente litúrgicas, não é propriamente nessa qualidade que ele é recordado, mas na de músico da corte de Luís XIV, o «Rei Sol». As suas composições para vários instrumentos, nomeadamente a série de concertos intitulada «Les Nations», dão continuidade à música concertante francesa, distinta, na sua estrutura e conteúdos, do concerto italiano.  Este, como toda a espécie de música italiana (ópera, oratória, concerto com solistas, etc.), apoderou-se das cortes e dos palcos, durante mais de um século.    

François Couperin atingiu celebridade comparável à de muitos outros grandes vultos da era barroca. Porém, só muito tarde (anos 1960 e posteriores) começaram suas peças a ser estudadas e apreciadas por um público mais amplo, graças ao movimento de fazer reviver a música das eras passadas com instrumentos de origem, ou suas cópias fiéis. Não apenas isso, como a séria investigação em musicologia e análise musical, que permitiram restituir a maneira graciosa e subtil da «arte de tanger as teclas» e a adaptação da ornamentação às regras implícitas ou explícitas em cada escola, em cada época.

No estudo e formação de jovens cravistas, o breve tratado que apresentamos aqui, composto e editado pelo próprio François Couperin, desempenha um papel central. Os oito prelúdios (e a Allemande que abre a obra) acompanham-se de conselhos sobre como dedilhar as peças e a utilização dos ornamentos. Enquanto a edição inicial (de 1716) apenas refere exercícios de técnica e notas sobre como dedilhar a obra «Pièces de Clavecin», além de um ensaio sobre ornamentação, a edição de 1717 inclui um novo prefácio e um suplemento descrevendo o modo de dedilhar o segundo volume das «Pièces de Clavecin». O autor propõe também que os possuidores da primeira edição a troquem gratuitamente pela edição de 1717, com o novo prefácio e os suplementos acima descritos. Por esta razão, os exemplares da primeira edição, são hoje muito raros.

Uma característica notável destes prelúdios, é a sua musicalidade, a sua variedade também, ao ponto de serem tangidos por si mesmos, não como uma introdução de Suite (ou Ordre) no mesmo tom, como era costume fazer-se. 

Os prelúdios têm personalidade própria; são muito usados como peças pedagógicas para os principantes no estudo do cravo; mas também, em disco ou em concerto, por cravistas de renome. 

Abaixo, pode escutar a integral das partes musicais da «Art de Toucher Le Clavecin» com as respectivas partituras, numa edição moderna. Os textos em francês são os originais de François Couperin, com traduções (pelo editor contemporâneo) em alemão e inglês.

 

Para estudiosos e melómanos com interesse em comparar os estilos interpretativos na música para cravo, existem hoje várias obras eruditas de musicólogos, pelo que um cravista pode adequar a sua execução das peças ao que se sabe seguramente sobre os estilos intepretativos dos finais do século XVII e princípios do século XVIII, tanto em França, como na Alemanha, nos Países Baixos, na Península Ibérica ou em Itália. Respeitando os canons interpretativos da região e da época, ele é livre de escolher a interpretação que lhe é própria, dentro de uma vasta gama de hipóteses sem - com isso - trair a autenticidade das peças. 

A fluidez da música barroca e especialmente da música para cravo solo, deve-se ao papel importante que desempenhava a improvisação: Esta, podia ser livre, embora geralmente a partir de um tema. Podia corresponder a uma série de variações improvisadas sobre uma canção ou trecho. Podia existir dentro de cada peça, ao nível das ornamentações, das mudanças de teclado, dos registos, do andamento... Nestas circunstâncias, os grandes interpretes do tempo de Couperin - e os de hoje - podiam ser fiéis ao espírito de uma peça, apesar de divergirem  nos aspectos acima mencionados.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

MISTÉRIOS QUE ESTE QUADRO ESCONDE... À VISTA DE TODOS

 




O famoso quadro de Bruegel, o Velho, surge como um apanhado de cenas da colheita de trigo e da vida camponesa, que ele pode ter muitas vezes observado na Flandres, sua terra natal, então pertencente ao Império dos Habsburgs.

Mas será que este é um quadro  apenas sobre um momento idílico da vida camponesa? A comentadora, pertencente ao Metropolitan Museum of Art, aprofunda os detalhes, as incoerências, no quadro deste mestre, pintado cerca de 1565. Se ouvir atentamente, vai descobrir que a pintura de Bruegel não é assim tão fácil de decifrar, como pode parecer, à primeira vista.

NOTA: Na tradição realista europeia, era comum pintar personagens do povo, não como figurantes, mas como protagonistas da cena pintada. Naturalmente, pensamos em Bruegel, o célebre pintor que nos dá a ver as autênticas tradições, de um povo nos seus trabalhos e prazeres. Mas, não podemos esquecer que ele não foi o único; Jerónimo Bosch, antes de Bruegel, já tinha representado o povo, com verve e realismo. Muitos artistas da Flandres e Países Baixos especializaram-se, na mesma época e posteriormente, em pintar cenas campestres. 
Também na Itália, Península Ibérica e noutras regiões, era frequente cenas camponesas estarem inseridas na paisagem de fundo duma tela, cujo tema em primeiro plano, era uma cena religiosa ou profana. Tratava-se então de «um quadro dentro do quadro». Como também é o caso no quadro d'«A Colheita», aqui apresentada.

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Sobre pintura europeia:



















segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O GÉNIO BARROCO de TOMASO ALBINONI [Segundas-f. musicais nº45]




Há muito mais a apreciar em Albinoni, além do «seu» Adágio. 

 Remo Giazotto  (1910- 1998) foi um musicólogo italiano que estudou e editou obras de compositores italianos do barroco e teve a sorte de ter encontrado um manuscrito com fragmentos de um Adagio de Albinoni. Este manuscrito continha a linha do baixo e alguns compassos, escritos para o violino. O célebre adagio não se pode - na realidade - designar como obra de Albinoni; nem sequer se deve considerar que Giazotto efetuou um "restauro" de tal peça. Seria mais correcto considerar a composição como sendo sua, de Giazotto, embora utilizando elementos do manuscrito de Albinoni, acima referido.

Porém, Albinoni não tem culpa deste equívoco. Sua obra (abundante, mas parcialmente destruída em incêndio, no bombardeamento de Dresden, no final da IIª Guerra Mundial pelos aliados) é de qualidade cimeira, a julgar pelo que nos resta. São peças muito perfeitas do ponto de vista formal.  Tal legado não deve ser visto à luz de uma só peça, de atribuição questionável. Com efeito, o famoso Adagio, tem muito pouco do compositor veneziano do século XVIII. 

De qualquer maneira, a qualidade de Albinoni, enquanto compositor, está claramente ao nível dos melhores de  Itália, da primeira metade do Século XVIII.

 J. S. Bach tinha acesso à biblioteca de manuscritos e edições coleccionadas pelo seu patrão, o Príncipe de Köthen. Bach conheceu e apreciou obras de Albinoni, tal como em relação a Vivaldi, Marcello e vários outros. Bach fez transcrições de obras destes mestres italianos. Alguns concertos foram adaptados para o órgão; a maioria, no entanto, destinava-se ao cravo. 

 Igualmente notável, é o conhecimento aprofundado de Haendel em relação à música italiana: Ele tirou imenso partido da estadia  em Roma, na sua juventude. Compôs óperas italianas, oratórias em latim segundo o rito católico e música instrumental ao gosto italiano. Várias obras instrumentais, que compôs estando já em Inglaterra,  evocam concertos de Corelli, de Locatelli, de Vivaldi e de outros italianos. Estava na moda a música italiana. Esta atingiu o auge de popularidade em meados do século XVIII. Durante muito tempo, foi «obrigatório» os músicos das diversas nacionalidades europeias comporem óperas ao estilo italiano e utilizando a língua italiana. Mozart (entre outros) compôs algumas das suas  melhores óperas em italiano. 

Nas cortes europeias, abundavam  os italianos. Muitos deles eram músicos instrumentistas, outros cantores; os mais célebres eram mestres-de-capela, ou músicos ao serviço exclusivo de monarcas e príncipes (ex.: Domenico Scarlatti).

As melodias, nos concertos de Albinoni, que se podem ouvir no vídeo abaixo (concertos para oboé ou violino), possuem grande qualidade expressiva. Os «tutti» são vigorosos e as partes de orquestra são discretas, ao  acompanhar os solistas.  Os movimentos são quase sempre Allegro-Adagio-Allegro, o que não é monótono devido à  variedade de tratamento dos temas (variações, modulações...) e aos diversos acompanhamentos utilizados. 

A arquitetura sonora geral é muito equilibrada, o que permite ao(s) solista(s) desenrolar o discurso "cantabile" e personalizado: Uma panóplia de ornamentos não escritos, permitia aos solistas enriquecer a melodia. Os melhores executantes não sobrecarregavam as melodias com adornos; tratava-se antes de adornar, sem adulterar a linha melódica.

Esta música, aparentemente «fácil», é possuidora de grande subtileza. Tal como, nos séculos XVI e XVII, as igrejas e basílicas em estilo barroco, tinham um traçado exterior austero e um interior cheio de ricas decorações requintadas

Estes concertos de Albinoni não nos deixam de impressionar, ainda hoje, passados mais de três séculos. 




PS1: apreciem o Adágio  no 2° movimento do concerto em Ré menor para oboé e orquestra de cordas.
 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

A IMIGRAÇÃO NA EUROPA


Decidi abordar este assunto muito grave em todos os planos, para as populações de acolhimento, para as populações migrantes e para a economia dos países de origem e de destino.

Quero deixar claro - desde já - - que defendo o princípio base da igualdade entre os humanos, o que implica a igualdade de tratamento perante situações onde, segundo a lei humanitária (e o humanismo), devemos acolher pessoas oriundas de zonas em guerra ou em desastre, sejam elas quais forem. 

Mas, em simultâneo, não podemos nem devemos fingir que não haverá muitos migrantes económicos, atraídos pelas sociedades onde -aparentemente - as condições de vida são bem melhores, que as dos respectivos países de origem. Existem imigrantes económicos que se fazem passar por refugiados de guerra ou de perseguições políticas, quando - de facto - não o são. 


Muitos são atraídos para fazer a marcha ou travessia custosa e perigosa, às mãos de máfias sem escrúpulos, que devemos caraterizar como «negreiros» do nosso tempo. São negócios lucrativos para estas máfias; elas, muitas vezes, disfarçam-se de «ONGs humanitárias», para melhor explorar as suas vítimas. 

Aos que gritam que é um dever humanitário acolher tais vítimas de guerras, de fomes, de regimes ditatoriais, eu respondo que isso tornou-se um véu transparente para toda uma casta abjeta de aproveitadores, que vão desde os passadores, a redes organizadas de tráfico humano, passando por quantidade de empresários que utilizam a fragilidade dos imigrantes para os ter como quase escravos ao seu serviço.

É um facto pouco conhecido, mas o patronato dos países de acolhimento é o grande beneficiário deste comércio moderno de escravos. Mas como? - Os imigrantes são obrigados a trabalhar, muitas vezes sem contratos, em condições brutais e indignas: Não há para estes imigrantes ditos «ilegais» outra alternativa; não podem defender-se de qualquer abuso, de modo nenhum. Estão inteiramente à mercê dos seus patrões. 

Mas, do lado dos explorados nos países receptores de mão-de-obra, há uma grande cegueira. A classe trabalhadora autóctone, não vendo nos imigrantes senão pessoas de outras «raças», de outras culturas, que vêm «roubar-lhes o trabalho», não irá sentir solidariedade para com os proletários vindos do estrangeiro. Há um fraccionamento da classe trabalhadora desses países, pois os trabalhos efetuados pela imensa maioria dos imigrantes de que falamos, são pouco ou nada escolhidos pelos trabalhadores autóctones. São, em geral, tarefas duras, perigosas, sem prestígio social e com salário muito baixo.

Noutros casos, efetivamente, há trabalhadores imigrantes com qualificações suficientes para desempenhar trabalhos que os autóctones gostariam de ter. Assim - e tendo em conta que a concorrência para ocupar postos de trabalho aumenta, devido ao maior número de candidatos para o mesmo posto de trabalho, vai haver maior capacidade dos patrões em fazer pressão sobre os salários. Aliás, observa-se o não-cumprimento das normas inscritas na Lei do trabalho, desde incumprimento das tabelas salarais, aos tralhadores serem despedidos arbitrariamente e sem indemnização. Há, igualmente, muitos casos de sobre-trabalho, trabalhar mais horas do que contratualmente acordado, etc.

A solução para estas migrações de refugiados de guerra e da miséria, seria óbvia para qualquer pessoa que veja como estas guerras - em países frágeis - são desencadeadas, alimentadas, mantidas pelas oligarquias dos países afluentes. A propaganda, disfarçada de informação, porém, vai apresentar os casos dramáticos, sem no entanto procurar esclarecer, como e porquê as pessoas dessas nações foram obrigadas a fugir dos seus países. Não é difícil compreender, por que isto acontece. A média 'mainstream' no Ocidente, está vinculada exclusivamente aos grandes grupos económicos, cujos proprietários também controlam órgãos de comunicação social.

Na raíz deste problema está a manutenção de formas de domínio imperialista, ou neo-colonial, nos povos que outrora foram colonizados pelos Estados europeus continentais ou anglo-americanos. Há um vasto império (neo)colonial que se esconde por detrás do véu das independências formais, onde as estruturas económica, política e cultural, funcionam, não ao serviço dos povos, mas para extração daquilo que tenha interesse para a potência neo-colonial. 

O que se passa agora em África, em várias nações (Tchad, Niger, etc...) é a  confluência de militares patriotas, com a possibilidade de um desenvolvimento real, sobretudo impulsionado pela China, que se traduz em infraestruturas, portos, linhas de combóio e meios para industrializar esses países, sem contrapartida de dependência, de dívida, de comércio exclusivo. Pela primeira vez, desde as independências nos anos 50 e 60, os Estados e as populações estão capazes de beneficiar do fruto do seu trabalho e dos recursos naturais que possuem*.


A EXTREMA-DIREITA** em vários países da Europa, está em crescimento, por vontade da burguesia. Pois, se os trabalhadores tivessem a noção clara de quem está realmente a degradar as suas condições de vida e de trabalho, podia virar-se CONTRA a burguesia e não contra grupos de imigrantes que são super-explorados. Se os trabalhadores autóctones europeus fossem devidamente esclarecidos, veriam que a extrema-direita que se diz nacionalista, tem fomentado - de todas as maneiras - este fluxo de imigração. Os seus arautos políticos, depois, vêm clamar pela «restrição» da imigração, só que a classe empresarial (que apoia esta extrema-direita) não pára de contratar imigrantes, em especial «clandestinos», e sempre continua a «fechar os olhos» perante organizações de tráfico humano (máfias disfarçadas de ONGs).


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(*)Um Estado africano, o Niger, tinha contratos com a França, pelos quais recebia somente 1 a 2 %  do valor do urânio extraído do seu subsolo!

(**) França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Espanha, Portugal, Hungria...

segunda-feira, 31 de março de 2025

(Segundas.f. musicais nº32) AS FOLIAS, DO FOLCLORE AOS MEIOS ARISTOCRÁTICOS

La Follia por Arcangelo Corelli

 Veja o comentário no blog Le Lutin D'Écouves

Excerto do texto do blog acima citado:

«A Folia é na sua origem uma dança, mencionada pela primeira vez num texto português do século XV. Tratava-se duma coreografia ligada a ritos de fertilidade e na qual os homens apareciam com vestidos de mulheres. O rítmo rápido, assim como o seu aspecto «louco», devem ter estado na origem do nome, as Folias».

https://lelutindecouves.blogspot.com/2010/09/les-folies-despagne-1.html

Quanto à sucessão dos acordes que formam a sequência base e sobre a qual são construídas as variações, notam-se semelhanças com o que veio a ser designado como «o Flamenco», o qual tem origem na canção renascentista «Guardame las Vacas»
As Folias também utilizam o baixo obstinado, na base de acordes formando uma armadura harmónica sobre a qual se desenvolvem variações, em geral, nas tessituras mais agudas. 
A Folia foi muito utilizada por compositores dos séculos XVI, XVII e XVIII, onde sobressaem, a par de anónimos, ibéricos célebres e, para além da Península Ibérica, de Itália, França, etc.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Segundas-f. Musicais nº27: Rameau e os Enciclopedistas / cosmopolitismo e nacionalismo




                                           Livro de Rameau sobre erros musicais na Enciclopédia


Rameau e os Enciclopedistas

 A vida e obra de Jean-Philipe Rameau já foram citadas, neste blog [ver em baixo*]. 
Porém, faltava descrever a relação conflituosa deste grande compositor com os Enciclopedistas, nomeadamente com D'Alembert (que estudou, do ponto de vista matemático, o sistema de harmonia proposto por Rameau)  e com Jean-Jacques Rousseau. Este último, adoptou uma postura antagónica e polémica contra Rameau, defensor da ópera genuinamente francesa. A controvérsia conhecida como «Querelle des Bouffons» teve grande eco, pois envolveu em campos antagónicos, não apenas os citados filósofo e compositor, como muitos outros, colaboradores da Enciclopédia (tomaram o partido de Rousseau, em maioria), além de numerosos membros da aristocracia e burguesia. 
O público da época tomou partido, contra ou a favor de Rameau e da ópera francesa, iniciada no século passado com Jean-Baptiste Lully, músico ao serviço de Luís XIV. Os «pró-ópera francesa» não eram grandes apreciadores de ópera italiana e vice-versa. 
Itália tinha-se tornado mais que uma moda, pois invadira (literalmente) as cortes e os palcos dos teatros, desde São  Petersburgo a Lisboa, passando por Londres, Paris, Hamburgo e todas as grandes cidades da Europa do Século XVIII. 
Hoje em dia, Jean-Jacques Rousseau é conhecido como autor de obras tais como «Le Contrat Social» e «Les Confessions». Porém, Rousseau também foi autor duma peça musical ao gosto italiano, «Le Devin du Village» pouco conhecida e relegada, hoje, à categoria de «curiosidade musical». Ela estaria totalmente esquecida, se não fosse seu compositor, o célebre Jean-Jacques Rousseau. 

                               D'Alembert, por Quentin de la Tour (1753)

 O matemático e editor da Enciclopédia acolheu muito favoravelmente -no início - as contribuições de Rameau para a Enciclopédia. Os artigos do músico sobre teoria musical continuam relevantes hoje e não apenas em História da Música. Mas, D'Alembert acabou por se incompatibilizar pessoalmente com Rameau. Talvez isso explique a sua preferência pelos pontos de vista de Jean-Jacques Rousseau.

Os artigos redigidos por J-J Rouseau para a Enciclopédia e os seus panfletos, em defesa apaixonada da ópera ao gosto italiano, podem parecer-nos excessivos... Mas, neste século XVIII, a vivacidade das trocas era normal. 
Havia paixão pelas ideias na elite intelectual, apadrinhada por reis filósofos, como Frederico da Prússia, ou damas aristocratas como a Marquesa de PompadourNos salões palacianos, conviviam aristocratas com os intelectuais em voga. O ambiente de ecletismo e tolerância, "a libertinagem do espírito", contribuiu para forjar e difundir as teorias filosóficas das Luzes, para além das habituais intrigas políticas, dos mexericos e das modas. 


Nacionalismo e Cosmopolitismo


E hoje, pergunta-se; que resta de tudo isso?

- Na minha modesta opinião, a polémica dos «Bouffons», em si mesma, nada trouxe de essencial ao avanço das teorias e estéticas musicais. Porém, julgo encontrar aí um "fio de Ariadne", que liga a estética do barroco tardio ao século seguinte, o romântico século XIX
Ideologicamente, no século XIX houve uma ascenção das correntes nacionalistas; enquanto as tendências cosmopolitas perderam parte do seu lustre.
Compositores célebres - como Verdi, Wagner, Brahms, Liszt, Tchaikovsky, Bizet, Debussy etc. -, eram defendidos pelos públicos das pátrias respectivas: Mas, afinal, por motivos que pouco tinham de musicais. 
O legado de Rameau foi essencial para a construção do gosto francês, cosmopolita, centrado na elegância do discurso musical, tendo recurso frequente aos enredos mitológicos da antiguidade clássica para as óperas. 
Quanto ao gosto italianizante, este apreciava a leveza da construção musical, o predomínio da melodia, a utilização de clichés teatrais, como nas intrigas da «Commedia dell' Arte». 
A escola napolitana - com Pergolesi, autor da ópera buffa «La Serva Padrona» - influiu nos compositores ibéricos: Como exemplo de estilo italiano, cite-se o português Francisco António de Almeida, autor de óperas italianas. Enquanto a comédia em língua portuguesa, «Guerras do Alecrim e da Manjerona», de António José da Silva, posta em música por António Teixeira, é mais próxima da tradição teatral ibérica. Quanto a Carlos Seixas, utiliza a matriz da sonata bipartida de Domenico Scarlatti, mestre de música da Infanta Dona Bárbara e futura Rainha de Espanha. Porém, Carlos Seixas não abandona a tradição da Escola portuguesa e o Tento ibérico, por um lado; por outro, inclui frequentemente danças, inseridas enquanto 2º e 3º movimento das suas sonatas: o Minueto, de origem francesa ou a Giga, de origem inglesa. 


                                  Ópera-Ballet «Les Indes Galantes» 
 
O Século XVIII é cosmopolita, na música e nas outras artes. Os compositores integraram suas tradições nacionais com outras formas, vindas do estrangeiro. Muitas peças do Século XVIII foram compostas à maneira de uma escola nacional, embora seus compositores fossem doutra nacionalidade. São abundantes os exemplos nas obras de Bach, Haendel e Telemann


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(*) Alguns artigos sobre a vida e obra de Rameau, neste blog:



 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

O LANÇAMENTO DA DIVISA DOS BRICS PODE ESTAR PERTO

 



O BIS cancelou a sua participação na construção de m-BRIDGE após 4 anos a participar na construção desta plataforma, com parceiros dos BRICS e candidatos a membros dos BRICS.

Por outro lado, a França já  avançou uma proposta de integração  nos BRICS. Quanto à Itália e Alemanha, querem manter boas relações comerciais com a China e tudo farão para isso!

As ameaças de Trump somente aceleram o processo da desdolarização. A política de sanções e tarifas alfandegárias para punir os países que não se submetam vai sair-lhe pela culatra: Vai apenas confirmar que os EUA já não são parceiros comerciais estáveis e credíveis.


RELACIONADO:

FIM DA HEGEMONIA DO DÓLAR: CONSEQUÊNCIAS PARA A ECONOMIA GLOBAL (com o Dr W. Powell )

CIMEIRA DE KAZAN: MUDANÇA DE MARÉ NAS DIVISAS FIAT (Alasdair Mcleod)





segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

A LENTA AGONIA DO EURO*


O vídeo acima analisa a economia da Zona Euro e deixa pouca esperança de ser evitada a crise final. 

 A fraqueza do Euro está patente quando a sua taxa de câmbio em relação ao Dólar vai diminuindo, ao ponto de se estar perto de atingir a paridade Dólar/Euro. Mas será que esta indicação é a mais relevante? 

- De facto, todas as moedas fiducitárias, em particular as do Ocidente, têm vindo a perder poder de compra a uma velocidade estonteante. A forma mais correta de avaliar a perda de valor, será em relação ao ouro. O metal amarelo é, de facto, o «metal monetário» que sempre foi reconhecido como portador de um valor estável, servindo como instrumento de troca,  dinheiro, desde há mais de 5000 anos.**

Se nos reportarmos ao valor das moedas fiat mais utilizadas nas trocas comerciais dos mercados internacionais do Ocidente (Dólar, Euro, Yen, Libra...), verificamos que o valor de todas elas, em relação à onça de ouro, tem diminuído exponencialmente nos últimos 5 anos, com uma aceleração da descida nos últimos seis meses. Em relação ao Dólar, para se comprar um quilograma de ouro, há 5 anos, eram necessários 50.000 Dólares US. Hoje, a mesma quantidade de ouro, apenas pode ser adquirida por 85.000 Dólares US.  Quanto ao Euro, no início de Dez. de 2019, custava 45.000 Euros um quilograma de ouro; agora, custa 81.000 Euros. 

Esta relação entre o ouro e as moedas fiat é importante, pois - na verdade - é como uma linha-base para se medir a inflação. Porque o valor de todas as outras mercadorias sobe no médio prazo, acima das percentagens de aumento do ouro. Por outras palavras se, no espaço temporal de 5 anos, o ouro aumentou (em moedas fiat) de 60% ou um pouco mais, podemos ter a certeza de que os items de consumo corrente, no mesmo intervalo de tempo, aumentaram acima dessa percentagem. Com efeito, o custo da alimentação, avaliada em termos de preços médios nos países do Euro, subiu mais de 100%, mais do dobro em apenas 5 anos. 

A população europeia, geralmente, ficou mais pobre, pois os seus rendimentos (em salários, pensões, ou outras fontes) foram crescendo nominalmente a um ritmo muito menor que os preços dos bens e serviços básicos. Só a oligarquia,  já muito rica, viu as suas fortunas aumentar realmente, ou seja, em termos de capacidade aquisitiva. 

O valor duma moeda, mesmo se medido da forma mais rigorosa possível, nunca está numa relação linear estricta com a política económica de uma nação e, neste caso, do conjunto de nações que adoptaram o Euro. Do mesmo modo, os juros dos bonds emitidos pelos vários países do Euro (dívida soberana) não reflectem, desde a crise do Euro em 2012, a avaliação dos mercados em relação à solidez das respectivas economias. Esta dissociação deveu-se à política «excecional» do BCE, que aliás se prolonga até agora, em comprar a dívida emitida pelos Estados mais fracos da Zona Euro, falseando assim o valor de mercado dos bonds emitidos. Os compradores de tais bonds tinham a garantia de que estes eram sustentados pelo BCE, sendo portanto avaliados como investimentos semelhantes em risco à  compra de bonds das melhores economias europeias, como a Alemanha e outros Estados do Norte da Europa: Mas, com a vantagem dos juros serem um pouco mais elevados,que destes últimos. 

Nestas condições, os Estados mais endividados, em vez de reduzir de modo significativo seu endividamento, continuaram a pedir emprestado, ano após ano, mais do que as quantias que liquidavam da sua dívida soberana, aumentando assim o seu endividamento. Todos os Estados do Sul da Euro Zona (incluindo a França e a Itália) estão hoje numa posição de dívida em percentagem do PIB, equivalente aos casos da Grécia, de Portugal e doutros, no ano de 2012.   

Mesmo na ausência de políticas erradas por parte dos Estados participantes do Euro, o Sistema Monetário Europeu acumula desequilíbrios de modo estrutural, ou seja, devido a um défice da capacidade produtiva e de exportação nos países do Sul, enquanto o oposto acontece em relação aos países do Norte. Não pode ser de outro modo, num sistema que funciona largamente como mercado interno, «A Eurolândia». Onde existir um défice, tem de haver, do outro lado, um superávit: Se a balança comercial de certos países do Euro é cronicamente deficitária (os chamados «PIGS»), isso significa que outros países  do Euro têm um superávit crónico: Este caso é o das economias mais vigorosas, a Alemanha, a Holanda e países Escandinavos.  Isto porque a grande maioria das trocas comerciais ocorre dentro do espaço Euro. 

O Euro não pode ser assimilado sequer à divisa dum Estado soberano, porque se assim fosse, esse Estado poderia subir ou baixar a taxa de câmbio em relação às divisas estrangeiras e aumentar ou diminuir os juros das obrigações soberanas. Tal não acontece no sistema do Euro. Assim, o crónico défice das contas externas só pode ser mantido com uma política de austeridade,  castigando sobretudo os produtores, os que produzem a riqueza. 

Ao longo de décadas, o défice das contas públicas e do comércio externo nos países mais endividados, implicou o défice de investimento em  infrestruturas, em educação e em inovação, tudo o que garante, no longo prazo, que um país progrida economicamente. Só lhes resta então vender «as jóias da coroa», ou seja, as empresas e recursos nacionais que dão lucro, ou que possuam capacidade de gerar lucro. 

Estamos em Portugal e noutros países europeus, neste estádio. A situação é análoga à dos países do «Terceiro Mundo», com dívidas excessivas aos bancos e entidades financeiras internacionais e que se foram agravando, ficando aqueles países cada vez mais atolados no ciclo da dependência.   

Por outro lado, os EUA, a potência tutelar da Europa através da OTAN, accentua o seu peso, forçando os países europeus a alinhar na guerra da Ucrânia por eles provocada metodicamente - e que estava perdida, à partida - contra a Rússia, o principal fornecedor de energia aos países europeus mais industrializados e o grande importador de géneros alimentares dos países meridionais. 

Este conflito foi a «receita perfeita» para o Império, pois os súbditos europeus ficavam cada vez mais dependentes, não apenas em termos militares; também em aspetos essenciais da economia, como o abastecimento energético. O aprofundamento da crise económica na U.E. foi devido, em grande parte, ao seu envolvimento na aventura belicista contra a Rússia. O corolário foi a fuga de indústrias europeias para o outro lado do Atlântico, para os EUA, para beneficiar das condições mais favoráveis, em termos de impostos, de custos da energia e outras vantagens competitivas. 

Claro que os investidores internacionais estão conscientes do ponto em que a economia europeia se encontra e do desfecho mais provável: Haverá aumento dos juros da dívida soberana dos Estados europeus, assinalando a falta de confiança na sua economia, com a concomitante espiral descendente: Inflação, perda de competitividade, desemprego, recessão e contração da economia...

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*Devido ao "colete de forças" da Comissão Europeia, o mais provável será o definhar da Zona Euro, potenciando a crise política dentro dos Estados dominantes. A saída de países individuais do Euro vai ser contrariada, de todas as maneiras possíveis, por Bruxelas.

** Da newsletter de Buillon Vault, veja no gráfico abaixo, que descreve a evolução do retorno sobre investimento para uma série de classes de ativos; o ouro supera qualquer outro ativo no intervalo de tempo representado (de 1999 - até hoje):

O ouro cresceu 820% em Dólares US...

 

...770% em Euros...

 

...e bem acima de 1 000% em Libras esterlinas.


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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

PLANO DRAGHI: SUPER ESTADO EUROPEU

 

Numa recente reunião de chefes de Estado e de governo da UE, Mário Draghi expôs o seu plano de revitalização da economia da Europa, tendo insistido no completar do mercado único, que implica uma planificação comum, uma integração total e uma centralização, que fariam da UE não mais a união de Estados independentes mas um super Estado.

Esta ideia de que, face a dificuldades, se deva acentuar o caráter centralista, irá favorecer o domínio - a todos os níveis - das partes mais fortes, as principais economias. A Alemanha, a França, a Itália e a Holanda ficarão ao leme, com as restantes nações ainda mais dependentes. 

No fundo, trata-se de um modelo neocolonial e não federal ou confederal. 

 Macron e Van der Leyen têm pressionado fortemente para que tal plano seja implementado após "discussão" no parlamento europeu. Esta fuga para a frente foi justificada, como era de esperar, com "ameaças " externas: A eleição de Trump, a Rússia de Putin e os BRICS+ .

Parece loucura querer reformar profundamente a estrutura económica, financeira e política da UE, no momento presente; mas tem sido este o comportamento das forças dominantes, ao longo da história da UE: Veja-se o lamentável caso da constituição europeia, rejeitada em referendo pela França e a Holanda, reintroduzida - com outro nome - enquanto «Tratado de Lisboa».

 Porém, as condições para realizar esta centralização, já seriam difíceis, mesmo num contexto bem menos tenso. A subida contínua de correntes do euro-cepticismo, relaciona-se de perto com a profunda crise económica associada à destruição do Estado Social durante mais de três décadas, com a imposição aos países mais fracos da moeda única e favorecendo as economias do Norte (Alemanha, Holanda e Escandinávia), o sobre-endividamento, a manutenção da política de "austeridade", mas só para as classes trabalhadoras.

Esta tentativa de consolidar o "barco" da UE, através de mais centralização, mais burocracia e maiores assimetrias sociais e regionais, vai ter um dos dois desfechos seguintes: 

- Ou falha, logo à partida, porque não obtem apoio suficiente para ser implementada;

- Ou, caso seja implementada, vai ser mais um fator de discórdia, precipitando a saída de vários países e a explosão social nos outros.

Até agora, as populações dos países mais poderosos não sofriam, de forma acentuada, com as crises económicas. Mas, já se vê que estes povos estão a ser fortemente atingidos pela crise mundial económica e financeira que já começou.

 As pessoas mais revoltadas são - em geral - as que possuíam algum bem-estar, que perdem o seu emprego. São as classes trabalhadora e média, reduzidas à pobreza, que irão revoltar-se contra os governos que elas apoiaram, ativa ou passivamente.

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