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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

COMO SE MANIPULA A DEMOCRACIA

 

Mais do que a alienação pelo trabalho, pelo desporto, pelo jogo, pelo sexo, pelas drogas... a indiferença social alastra com grande velocidade. 

Quando eu era criança havia indiferença social, com certeza. Mas, as pessoas «bem-pensantes» escandalizavam-se quando viam ou liam num jornal, que uma criança foi maltratada, que um pobre foi assassinado em plena rua, etc...  Hoje em dia, a quantidade de factos deste género é de tal maneira avassaladora, que é impossível uma pessoa guardar um sentimento genuíno de aversão pelas cenas revoltantes, de se indignar e exigir justiça, ou que vá em socorro da vítima. Sobretudo, é impossível pelo facto de se estar banhado numa sociedade indiferente, cínica, que olha para o outro lado, como se tal cena não tivesse nada que ver connosco. 

A sociedade massificada, implica um comportamento massificado. As pessoas são «ensinadas» ou condicionadas a apenas reagir quando certos «sinais desencadeadores» surgem: Por exemplo uma celebridade do espectáculo ou do desporto (ou outra...) a participar ativamente numa marcha, ou num «clip» transmitido na tv ou no telemóvel... 

Poucas pessoas se apercebem da extensão do medo social que impera nas nossas sociedades. Mas, um caso paradigmático é da monstruosa campanha do COVID, a maneira como os poderes se auto-designaram como «salvadores», à custa de um generalizado estado de sítio, uma repressão arbitrária, uma violenta e totalitária exclusão das vozes dissidentes, mesmo quando (ou sobretudo quando) estas vozes pertenciam aos mais credenciados especialistas da biologia e medicina. Foi tão violenta esta campanha de «psyop» (psychological operation), que um número considerável dos que se ergueram e denunciaram as sucessivas fraudes, foram arredados sumariamente dos empregos, foram ostracizados, excluídos de qualquer meio de defesa. Os meios da «justiça» apareceram claramente como inadequados, incapazes de pôr um travão (mesmo que o quisessem) à catadupa de ilegalidades do poder. O poder de Estado não estava só: Era serventuário de poderes corporativos, as grandes farmacêuticas, mas também sectores das profissões médicas, que rasgaram o juramento de Hipócrates, que supostamente deveriam reger sua ética, para alcançarem o beneplácito do poder político, via sua vedetização mediática.

O ato seguinte foi a campanha de provocações dos países da OTAN contra a Rússia, que começou durante o golpe do chamado EuroMaidan (em Kiev) e culminou com o derrube violento de um governo legítimo, democraticamente eleito, colocando no poder revanchistas, gente com ódio por tudo o que fosse russo; estes puseram Stepan Bandera num altar e fabricaram um «santo», dum indivíduo que participou pessoalmente, durante a IIª Guerra Mundial, nos massacres organizados durante a invasão alemã da Polónia e da Ucrânia soviética, de muitos milhares de polacos, de judeus e de russos.

Neste contexto, a burguesia dominante nas instituições europeias, fez discretamente sinais de apoio. O regime que violou os princípios da própria UE e da ONU, foi insensado em todas as capitais europeias, como se fosse o «regresso da democracia à Ucrânia». Nesse mesmo momento - e refiro-me ao antes de 2022 e da invasão russa - era perfeitamente evidente que os políticos e cidadãos comuns que não se conformavam com a «Ordem Nova» instaurada na Ucrânia, eram perseguidos, agredidos, presos, forçados ao exílio. Tudo o que a imprensa ocidental - nessa altura - relatava sobre Batalhões AZOV e outras milícias da extrema-direita era pouco, mas esse pouco era suficiente para que as pessoas vissem a realidade.

Mas, a propaganda, nos nossos dias tem a particularidade de conseguir que a imensa maioria das pessoas se contente com a «selecção» e «gestão» dos factos que os media corporativos lhes forneçam. Os que não cedem à propaganda, são uma minoria e nessa minoria, poucos levam a cabo o trabalho de investigação pessoal, passando as opiniões ao crivo do seu espírito crítico e  confrontando fontes diversas sobre as notícias. Por isso, a principal força do lado da OTAN é a massiva colaboração da media corporativa. Só ela conseguiria manter, ano após ano, o mito «do corajoso Zelensky e seu governo», o lado dos «bons», dos patriotas ucranianos, contra os maus dos russos, que «invadiram sem provocação prévia» uma parte do território da Ucrânia.  Mas não dizem (não ignoravam...) que a população russa dos Oblasts do Leste da Ucrânia (Lugansk e Donetsk) tinha sido sujeita a uma guerra de desgaste pelo exército ucraniano, enviando quotidianamente bombas e mísseis para os centros urbanos populosos, durante os anos 2014-2021. Além disso tinha-se  o exército ucraniano concentrado em Janeiro de 2022 com as melhores divisões, para efetuar uma incursão massiça destinada a aniquilar qualquer resistência. Foram pelo menos 14 mil civis, os mortos pelas bombas ucranianas, nesses territórios maioritariamente russófonos. A OSCE deu conta das atividades bélicas nos anos anteriores a 2022 e, portanto, os meios criminosos e genocidas usados pelo governo de Kiev, eram do conhecimento tanto os governantes da UE, como as redações dos media. 

A política tem sido transformada num desesperante combate desigual, em que os senhores do momento podem fazer a lei, não através de um consenso resultante de debate franco, com os eleitores e  com participação aberta de forças políticas rivais. O processo político está viciado à partida, pois os órgãos de comunicação principais (os canais de televisão, sobretudo) estão transformados em câmara de eco dos interesses corporativos. Estes, por sua vez, decidem quem são os que vão ganhar as eleições: Graças às suas doações, às diretivas para os media que eles controlam, graças a um sem fim de conivências no tecido governamental e empresarial... Assim, «anulam» ou «encolhem» na perceção do público, as soluções que apresentam outras forças políticas. O público é muito condicionado, embora não se aperceba, pela chamada «dinâmica de vitória», se lhes parece que existe (pode ser verdade, ou não) uma maioria que vai votar num partido X, há uma percentagem dos eleitores que antes se teria abstido ou que votaria noutros partidos, que acaba por dar seu voto à força «vencedora».  

De qualquer maneira, aquilo que é o discurso corrente dos partidos nos períodos pré-eleitorais e eleitorais não tem nada que ver, no essencial, com  o verdadeiro programa de governo, se um desses partidos ganhar as eleições. As campanhas eleitorais foram sempre muito pouco propícias para o esclarecimento da cidadania sobre as diversas opções em jogo. Porém, agora, o discurso político é propositamente confuso, ocultando as reais intenções dos candidatos.  

A partir do momento em que se instaurou o sufrágio universal, nos países da Europa Ocidental e da América do Norte, principalmente, punha-se a questão para a classe dirigente, de exercer continuamente o seu domínio, sem ter que - periodicamente - instaurar ditaduras, o que acabaria por dessacralizar a «vaca sagrada» da «democracia liberal». Assim, com a peritagem de homens como Edward Bernays e muitos outros, instaurou-se uma ordem onde o público era mantido numa ficção permanente. Ficção de que o «soberano» era o povo, que ditava com a sua vontade as leis e orientações do governo. Ingénuo e vaidoso, desde que elogiado nos discursos que gostava de ouvir, o público caíria na esparrela facilmente, votando no partido designado pela elite do dinheiro, que decidiria qual o próximo governo. Portanto, o poder continuava nas mãos duma pequena minoria, da oligarquia, mas com a aparência do governo e decisões serem a expressão da vontade dos votantes. Nada melhor, para os verdadeiros detentores do poder, desde que eles conseguissem fazer este jogo suficientemente bem para que o povo não duvidasse. 

Além disso, a existência de eleições «livres» fazem com que o governo, a sua ação e as leis emanadas do parlamento, te implicam a ti, cidadão eleitor: As  decisões importantes seriam - no fundo - resultantes do «jogo democrático»: «Ou tu estiveste de acordo, porque votaste no partido agora no poder, ou , caso tenhas votado contra, deves ter a honestidade e o «fair-play» de deixar os outros governar, visto que as eleições foram «limpas».  É esta a sofística da chamada democracia, não da democracia dos gregos da antiguidade, nem a dos «sans-culottes» da revolução francesa. 

Aquilo que é mais nojento e que todos os políticos do sistema sabem bem é que - de facto - os eleitores não têm absolutamente nenhuma ideia sobre a personalidade dos que eles são convidados a eleger; não sabem também qual o real programa de governo, aquele que entrará em vigor se o partido que eles «escolheram» ganhar as  eleições. Também não existe, de modo legal, procedimento de retirar dos seus lugares aqueles governantes ou deputados, que tiverem um comportamento muito diferente do que prometeram, ou por incompetência, ou por venalidade, ou por perfídia...

Infelizmente, a imensa maioria das pessoas está convencida que «isto» que têm à sua frente é «democracia» e que não existe nada mais... Ou então, que será uma variante de um regime totalitário. É muito difícil exercer uma pedagogia no sentido de esclarecer o povo. Seria necessário instaurar-se (ou restaurar-se) associações de várias finalidades - associações sindicais; cooperativas; culturais; desportivas - que fossem locais onde se pudesse exercer uma forma diferente da democracia, a democracia direta. Depois, esta prática continuada poderia desembocar no exercício de formas de democracia direta em municípios e regiões. Não creio que este progressivo alastrar da democracia direta ou de base, fosse logo capaz de destronar a falsa democracia, baseada na fraude e na corrupção a todos os níveis. Mas, por outro lado, também não é com «tomadas do poder» do tipo bolchevique, ou outras, que uma sociedade pode encetar o caminho para mais democracia. 

Penso que um sistema onde os eleitores tiverem efetivos mecanismos para destituir ou fazer caducar o mandato de algum eleito, se ele não estiver a agir e votar de acordo com o mandato pelo qual concorreu, seria um bom princípio, porque iria introduzir a responsabilidade política efetiva nos eleitos perante os seus eleitores. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O JAPÃO À BEIRA DO COLAPSO, AGORA [Crónica da Terceira Guerra Mundial nº69]


O vídeo acima mostra como as relações laborais no Japão são destrutivas da própria vida dos trabalhadores, causando também uma sociedade doente: Nas esferas da família, da juventude, da educação e mesmo do ponto de vista espiritual. 

Não se deve esquecer como foi erguido o sistema político, depois da derrota da IIª Guerra Mundial, graças à «protecção» do ocupante americano, que se preocupou mais em manter o Japão dentro do círculo dos países anti-comunistas, tal como a Alemanha Federal, do que em criar as condições de uma democratização verdadeira, expondo os crimes do governo e militares do regime imperialista derrotado. 

Nos países que estiveram associados ao «Eixo» e que depois ficaram na esfera de influência americana, as pessoas que formaram a elite pós-IIª Guerra Mundial eram - em larga percentagem - agentes dos grandes capitalistas associados aos governos fascistas, dos quais tinham beneficiado. 

Todos esses fatores juntos foram criar um bloqueio. Em todos estes anos, pós IIª Guerra, a sociedade, a economia e a política japonesas nunca puderam «virar a página» do Japão militarista e imperialista.

O governo japonês nunca conseguiu realmente sair da crise financeira que se iniciou há 40 anos. Apesar de ser a segunda potência industrial nessa altura, foi perdendo aos poucos, para concorrentes (a China, a Coreia do Sul ...) cujas economias estavam em ascenção.

A situação de défice financeiro agravado foi colmatada, em grande parte, pelo facto dos japoneses reformados, individualmente ou associados nos fundos de pensões, terem investido muito em títulos do tesouro japonês. A parte da dívida detida por entidades públicas ou privadas estrangeiras era muito menor. Deu-se então o caso da dívida crescer sem parar, embora as consequências  fossem aparentemente insignificantes para a economia produtiva e a sociedade. 

Porém, os juros muito baixos artificiais, gerados por este mecanismo de «auto-compra» da dívida estatal, foi atraír a finança internacional. Desde os grandes bancos ocidentais aos especuladores, praticamente todos praticavam o «Yen Carry- Trade». Este consistia em pedir emprestado a instituições bancárias japonesas a juro muito baixo, quase zero, para depois aplicar estes capitais em investimentos, que forneciam um juro bem maior. O montante próprio da dívida era facilmente recuperado e devolvido aos bancos emprestadores, sendo o resto lucro para os investidores. 

Mas, com o aprofundamento da crise económica e financeira, o governo japonês viu-se forçado a aumentar em cerca de 1% (aumento modesto) as obrigações estatais, arrastando assim os diversos juros (bancários, hipotecários, de consumo) para cima. Pode parecer algo insignificante, porém inviabilizou muitos dos negócios de «carry trade». O «carry trade» já não fornecia um intervalo de juros suficiente para manter a rentabilidade do negócio.

Historicamente, as potências que estão numa situação financeira apertada têm tendência a tomar (ou retomar) atitudes agressivas em relação ao estrangeiro, em relação aos inimigos (verdadeiros ou de convenência). 

A retoma da produção armamentista, as manobras da marinha de guerra nos mares do Sul da China, vêm confortar o eleitorado nacionalista e militarista da primeira-ministra Sanae Takaichi. 

Em todos os casos em que ocorre uma viragem realmente autoritária, com um governo de extrema-direita, verifica-se que a economia não ia bem, que o povo estava a sofrer com uma redução significativa do nível de vida, com inflação, desemprego. Mas numa tal situação, a classe no poder nunca iria assumir-se como responsável pelos males presentes. Daí, as derivas militaristas, a designação dum inimigo externo, desviando assim o público da origem interna dos males da economia desse país. 

Prevê-se que a situação internacional ainda piore mais, se o  Japão mergulhar no caos. Foi o que desencadeou o empréstimo de emergência dos EUA, oferecendo euros, dos seus fundos em divisas da FED, para comprar Yen: O governo da oligarquia dos EUA percebeu a necessidade deste empréstimo de emergência. Evidentemente, o Império não estava interessado no caos, como «senhor feudal» do Japão, possuindo importantes bases militares, com sistemas de lançamento de mísseis, com capacidade para transportar ogivas nucleares, apontados para a China. 

Mas, dado contexto financeiro mundial caótico, existe uma possibilidade não desprezível, desse empréstimo ser insuficiente para equilibrar a situação do Yen e das finanças japonesas.

Haverá uma evolução da situação do Japão. Na presente situação internacional muito complexa, pode desencadear-se uma expansão da IIIª Guerra Mundial para os países do Extremo-Oriente.



RELACIONADO:

https://youtu.be/FnraS2GwJU8?si=83SdlKqiwu_kawJU


https://youtu.be/qw8REvHV2QU?si=m2JKebNUEizhFPL_


https://youtu.be/mJ9Q2Xpzf1Y?si=5yPPiNv7Bbxn2SZE


https://youtu.be/yh18YXKMk3g?is=QRM74Gqo2vsC636U

domingo, 12 de julho de 2026

Prof. JEFFREY SACHS AVALIA A CIMEIRA DA OTAN


 Muito se falou de despesas militares e sobre a guerra. 
Mas, as questões realmente pertinentes, estão a ser abordadas com imensa irresponsabilidade. 
O desempenho de Trump, neste encontro, mostra que o Mundo Ocidental está completamente destituído de orientação. 
Os membros são incapazes de avaliar os riscos com um mínimo de seriedade. A banalização de tais comportamentos não significa que esteja tudo «bem». Atualmente, existem guerras que causam mortes e isso não é brincadeira, por mais que os dirigentes iludam os factos. 
Chegámos ao ponto absurdo de considerar que o ataque à Rússia irá gerar desenvolvimento. Só haverá «desenvolvimento» nas empresas de armamento e de vigilância digital. 
Quanto ao resto, será o alastrar de austeridade fabricada, o desvio das componentes sociais (segurança social, subsídios desemprego, de apoio a pessoas com deficiências, etc.) e o empobrecimento geral da população.
Para cobrir a enorme gatunagem em curso, usam a falsa capa da «proteção social»: Pensam criar um «rendimento básico universal», independente dos receptores contribuírem, ou não, com trabalho (o trabalho assalariado será, portanto, ainda mais desvalorizado). 

Mas, entretanto, estão empenhados em desviar - desde já -  partes importantes dos orçamentos nacionais para a indústria de armamento e vigilância!

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Reflexão de Manuel Banet: 

De forma quase automática, os que presidem agora aos destinos dos povos, estão a copiar o comportamento dos seus antecessores, nas vésperas da Iª Guerra Mundial. Tal como nessa altura, os partidos que antes se consideravam representando a vontade dos trabalhadores, os partidos social-democratas, «votaram os orçamentos de guerra». Agora também o fazem, mas com antecipação, «programando» desde já o início da guerra total com a Rússia para 2030. Note-se que a guerra não declarada, com «autorização» aos ucranianos de alcançar com ogivas de longo alcance alvos bem no interior da Rússia, foi intensificando-se, com o objetivo claro de provocar na Rússia uma contra-ofensiva aos territórios onde são fabricados os drones e outros armamentos usados pelos ucranianos. Igualmente, os sistemas de satélites e de «inteligência» ocidentais, têm guiado a par e passo as ofensivas das forças ucranianas, sendo certo que sem essa peritagem, seriam incapazes de atingir alvos na Rússia com um mínimo de precisão.

Também, quanto às provocações, sabemos bem que várias potências, nomeadamente a Inglaterra e outras, em vésperas de 1914, tinham todo o interesse em multiplicar os assassinatos na classe política e militar, causando instabilidade e provocando os poderes - empurrados pela opinião pública - a reagir. Temos assistido a uma multiplicação das intervenções terroristas, com a OTAN na origem, mas supostamente realizadas por serviços secretos ucranianos.  

Finalmente, a campanha distorcendo grosseiramente a natureza do «inimigo», dando a entender que se trata dum ditador sanguinário, tem sido «o pão nosso de cada dia» de uma série de media em todo o Ocidente, sinal da campanha de condicionamento das mentes, por forma a amedrontar os cidadãos e impedi-los de considerar argumentos racionais, que poriam de rastos os elementos de propaganda raivosa anti-russa e anti-Putin.

A enorme sucção de capitais para a máquina de guerra, acompanha-se por uma militarização da sociedade civil.  As leis celeradas (completamente anti-constitucionais) são aprovadas à pressa; servem para criminalizar demonstrações pacifistas. A «rédea livre» é dada a uma extrema-direita cada vez mais arrogante, promovida para intimidar os que à esquerda pudessem ajudar a formar uma resistência popular e de massas. 

Tem-se o equivalente de há cerca de 120 anos atrás. É provável que os manuais de guerra psicológica, atualmente usados na OTAN e noutras instâncias, sejam atualizações de manuais descrevendo as técnicas ensaiadas antes e durante a Iª Guerra Mundial.


Consultar também:

Douglas Macgregor: Disastrous NATO Summit - Renewed War on Iran & Russia



PS1: Um importante artigo de John Helmer, descrevendo a situação sem concessões nem rodeios, quer para os dirigentes da OTAN, quer para Putin:

quarta-feira, 10 de junho de 2026

NOS PAÍSES DA OTAN O FASCISMO NUNCA DESAPARECEU











A afirmação do título fundamenta-se com numerosos factos, dos quais muitos se podem documentar simplesmente com consultas à Internet em relação aos termos e expressões que eu utilizei. Mas, atenção: a Internet e o Youtube, em particular, estão saturados com falsificações da História. O método DOS FALSIFICADORES é dizer umas coisas verdadeiras, mas sem dizer a Verdade. 
A História oficialmente apresentada e ensinada é sempre «lavada e engomada», para lhe retirar as nódoas e saliências, reveladoras de factos contraditórios com a narrativa dominante.


1ª Numerosos nazis foram «salvos» do exército soviético triunfante, através de múltiplas vias de fuga, algumas organizadas pelo Vaticano e muitas pelos aliados Ocidentais, promovendo a «recuperação» de milhares de alemães através da operação organizada pelos serviços americanos e intitulada «Paperclip». No meio havia não poucos torturadores da Gestapo e das SS. Também havia médicos que faziam pseudo-experimentação científica nos campos de concentração (ao estilo do dr. Mengele). Se uns tantos foram para a Argentina e outros países da América do Sul, a maioria dos «resgatados» foi parar aos centros da CIA (chamava-se OSS na época), ou aos serviços de «inteligência» canadenses (em cooperação com o MI6 britânico). Muitos desses nazis obtiveram novos nomes, com dados de identidade fabricados, quer na América do Sul, quer do Norte.

2ª Na Espanha de Franco e no Portugal de Salazar, torcionários membros da Gestapo alemã foram acolhidos para ensinar os métodos de interrogatório e de tortura à polícias políticas, em ambos países.

3º Portugal foi membro fundador da OTAN em 1949. Uma organização que estava dirigida contra o bloco soviético e se vangloriava de ser «democrática». Ora, na verdade, Portugal tinha um regime autoritário semelhante ao fascismo de Mussolini, o «corporativismo». Nenhum dos governos dos outros países da OTAN, tinha dúvidas sobre isto, nem classificava o regime de Salazar como «democracia». No entanto, a OTAN apresentava-se sempre como «aliança defensora da democracia» e contra o comunismo.

4º Em nome da «defesa das democracias contra a ameaça soviética», foi organizada a «Rede Gládio», formada por grupos que tinham como função a resistência e sabotagens, na hipótese duma invasão soviética a países da OTAN.

Em Itália, nomeadamente, a rede Gládio levou a cabo atentados terroristas «de falsa bandeira», cuja autoria foi - falsamente - atribuída a grupos esquerdistas. A sua interferência em assuntos internos do Estado italiano foi múltipla e constante. Contribuiu para a desestabilização dos governos de centro-direita ou centro-esquerda.

5º Mas não foi só em Itália que houve interferências ilegítimas. Na Grécia, a OTAN organizou a guerra contra as forças comunistas e de esquerda que tinham lutado contra o invasor nazi. A monarquia conservadora instalada, foi sucedida por um golpe protagonizado pelos « coronéis» e início duma cruel ditadura fascista (sempre com o apoio da OTAN).

6º A OTAN, temendo uma vitória eleitoral comunista em Itália, forneceu armas, dinheiro e cobertura a grupos terroristas de extrema-direita (fascistas), com ramificações na loja maçónica P2, nas forças armadas, na polícia, etc. Tanto estas forças de extrema-direita como as chefias da OTAN, estavam preparados para pôr em prática uma campanha de desestabilização da Península Itálica, indo até ao golpe militar, no caso dos comunistas de Berlinguer obterem uma maioria dos deputados, capaz de formar governo.

7º Os fugitivos originários dos países do bloco soviético, URSS e  doutros países do Pacto de Varsóvia, eram acolhidos e integrados em serviços de espionagem e propaganda do Ocidente, principalmente na CIA (EUA) e no MI6 (Reino Unido) e noutros países da OTAN. Os papéis que lhes eram atribuídos, eram diversos: participavam em emissões rádiofónicas dirigidas aos países de Leste (Radio Free Europa e outros) e noutras ações de propaganda de cunho «anti-comunista». Porém, entre esses dissidentes do Leste, um bom número era criminoso de guerra: Tinham participado em chacinas de civis e de prisioneiros de guerra, de judeus, de comunistas e de resistentes... A CIA e o MI6 sabiam desses antecedentes, mas encobriam. Para os governos do Ocidente, isso não era grave; o importante era que eles servirem para múltiplas operações, incluindo sabotagens, contra os países do Bloco do Leste (para descrição pormenorizada, veja link:   https://www.kitklarenberg.com/p/how-the-cia-conjured-ukrainian-nationalism)

8º No Ocidente, a desnazificação depois de 1945, foi praticamente nula. Promoveram ex-oficiais nazis de alta patente em postos-chave da OTAN ( ver AQUI a história incrível mas verdadeira, do General nazi Heuzinger). Na função pública e noutros corpos do Estado da Alemanha Federal, praticamente não houve desnazificação. Esta foi levada a cabo, na Alemanha de Leste, pelo governo, na parte da Alemanha sob ocupação soviética. No Ocidente, a luta anti-comunista e anti-forças de esquerda, tornou-se muito depressa a primeira prioridade.

Além disso, a existência de grupos abertamente nazis foi tolerada (pelo menos, não os perseguiram) em muitos países da OTAN, ao longo de todos os anos pós-IIª Guerra Mundial. Até hoje, além de grupos que exibem uma ideologia extrema, nazista ou fascista, existem muitos outros, que se dizem «nacionais» ou «nacionalistas». Estes, possuem a mesma ideologia, programa e comportamento da extrema-direita, não têm qualquer problema em organizar-se e fazer sua propaganda racista e xenófoba, abertamente. Porém, esta propaganda é explicitamente contrária às leis e constituições de vários países da UE,  Portugal incluído.

A sistemática condescendência de forças políticas no poder, ditas «democráticas» e até de certa esquerda, historicamente anti-fascista, vai para grupos racistas, que perseguem os elementos isolados de emigrantes doutras «raças» (os «não-brancos»), dando-lhes pancada, matando-os ou ferindo-os gravemente. Agora, torna-se muito difícil processar e condenar tais grupos de criminosos, porque têm cumplicidades na polícia e no governo. Na extrema-esquerda não existe comportamento de gravidade equivalente ao dos acima mencionados grupos violentos de extrema-direita.

9º O golpe sangrento dito da «Praça Maidan» em Kiev, na Ucrânia em 2014, foi dirigido por elementos nazis, disfarçados de patriotas. Esta tática permitiu enganar, inicialmente, uma parte da população. Não enganou, com certeza, a OTAN e os governos americano e europeu, pois estes estiveram diretamente implicados no golpe: Eles sabiam quem estavam a colocar no poder, pessoas que idolatravam Stepan Bandera, colaborador dos nazistas, responsável direto e autor moral da execução de dezenas de milhares de pessoas (incluindo polacos, judeus e pessoas de esquerda...), nos territórios da URSS sob ocupação nazi. Esta ligação ao nazismo não foi dada a conhecer - antes foi ocultada - ao público ocidental.

10º Uma declaração do Parlamento Europeu, há poucos anos (2019), fazia a amálgama totalmente falsificadora , entre ideologias nazista e comunista. Declarava que o nazismo era totalitário, porém punha um sinal de igualdade entre o nazismo e o comunismo. Provocatoriamente, «exigia» que a Rússia se «arrependesse oficialmente dos crimes atribuídos a Estaline» e que a Rússia «se desfizesse» dos monumentos, erigidos em memória dos 26 milhões de mortos e dos seus militares, na IIª Guerra Mundial, como condição para ser admitida no «clube democrátrico europeu»!
A declaração - na verdade - não era dirigida contra os totalitários de extrema-direita, nem contra colaboradores dos fascistas e nazistas dos países da UE: Isto seria o mesmo que acusarem seus antecessores genéticos ou políticos, dos quais eram herdeiros. Este é o background de anti-comunismo fervoroso, de quem votou a declaração.
 É um exemplo de falsificação histórica* (*https://noticias.juridicas.com/actualidad/noticias/14569-memoria-historica:-el-parlamento-europeo-condena-los-crimenes-del-nazismo-y-el-comunismo/«Afirma la resolución aprobada por el Parlamento que Rusia sigue siendo la mayor víctima del totalitarismo comunista y que su evolución hacia un Estado democrático seguirá obstaculizada mientras el Gobierno, la élite política y la propaganda política continúen encubriendo los crímenes comunistas y ensalzando el régimen totalitario soviético y pide a la sociedad rusa que acepte su trágico pasado».)


11º A maioria das entidades governamentais e partidos parlamentares, nos países membros da UE, tem dado ao governo  da Ucrânia um apoio entusiástico e generosas ofertas, à custa do erário público dos países-membros e do orçamento da Comunidade, em armas, munições, equipamento e dotações financeiras. Este dinheiro tem enchido os bolsos das figuras principais do regime de Kiev. A UE tem feito entregas repetidas de ajudas incondicionais e muito vultuosas ao governo saído do golpe da Maidan, cujos membros se afirmam herdeiros de Stepan Bandera e da OUN. Esta última organização, era uma facção nacionalista ucraniana que alinhou - na IIª Guerra Mundial - com as tropas nazistas que invadiram a URSS (a Ucrânia fazia parte da URSS nessa altura). Os banderistas são autores de chacinas e genocídio de cerca 100 mil mortos, só em relação a nacionais da Polónia ! Estes polacos habitavam a região de Lvov. Os membros da OUN foram também responsáveis por inúmeras chacinas contra judeus, contra comunistas e resistentes.

12º Depois da derrota do nazi-fascismo em 1945, os fascistas/banderistas ucranianos foram recrutados pela CIA e outros serviços de informação ocidentais. Alguns trabalhavam em propaganda, dirigida por americanos, em Munique e noutros pontos da Europa. Vários ucranianos ao serviço da CIA foram infiltrados na URSS e em países do Pacto de Varsóvia, para recolha direta de informação e para actividades subversivas.

13º Em França, o Presidente Miterrand, para se manter no poder, desenhou uma estratégia de erosão da direita francesa «clássica», reconhecendo o direito ao «Front National» de Jean-Marie Lepen, concorrer à eleições. Assim, um grupozinho pouco conhecido, foi-se tornando mais e mais importante em votos, em activistas e em presença mediática. Isto, enquanto os socialistas iam revertendo, uma por uma, as medidas do «Front Comum de Gauche», maioritária e formando governo, desde os anos oitenta. É preciso lembrar que muitos dos lepenistas tinham um currículo colaboracionista conhecido, o que incluia participação ativa e apoio ao governo de Vichy (governo colaborador da Alemanha hitleriana). Vários, de extrema-direita tiveram participação ativa e apoio aos membros da terrorista OAS, que rejeitava a independência da Algéria e que organizaram e quase conseguiram ter sucesso, um golpe de Estado contra o governo legítimo da República francesa.

14º Em muitos países, a extrema-direita escondeu-se, enquanto afixar publicamente esta pertença significava um risco real. Assim, muitos elementos de extrema-direita entraram como membros de partidos de direita ou centro-direita, legais e institucionais; assim, elementos da direita mais extrema (mas disfarçados) foram frequentemente membros dos governos e grupos parlamentares,  em países da UE (França, Espanha, Portugal, Alemanha, Itália, etc). Evidentemente, esses elementos de ideologia fascista, não se afirmavam publicamente como tal: Diziam-se nacionalistas, de direita, anti-comunistas, monárquicos, etc... Formavam, em paralelo, organizações clandestinas, mas continuavam filiados em partidos de direita «clássica» que funcionavam como máscara e cobertura às suas atividades.

15º Os governos ditos «democráticos» da Europa Ocidental, depois da 2ª Guerra Mundial continuaram com seus impérios coloniais. Estes, não foram transformados em Nações independentes, de forma negociada, numa transição pacífica, mas pela luta armada, em muitos casos. Nas colónias do Reino-Unido, de Portugal, de Espanha, de França, e doutros... As tropas dos governos reprimiam da forma mais brutal os manifestantes, aos milhares. Muitos, dos políticos da metrópole das colónias tiveram uma reação desfavorável à exigência de autodeterminação avançadas como propostas de partidos e personalidades das colónias. Por exemplo, Salazar negou quando rebentou a guerra de guerrilha em Angola (1961), qualquer abertura negocial, por teimosia, mas sobretudo pelo arreigado princípio racista de que «as colónias não eram capazes de se auto-governar» e que «Portugal tinha o dever de impedir que caíssem nas mãos do comunismo internacional». Muitos casos houve de barbárie e de genocídio, pelas tropas coloniais, martirizando populações das antigas colónias, sobretudo em África e na Ásia, desde finais  da IIª Guerra Mundial, até hoje. As guerras atuais em África e na Ásia do Sul estão na continuidade histórica direta do período colonial. Podem considerar-se guerras provocadas pelo domínio neo-colonial, impedindo o desenvolvimento de vastas regiões e das numerosas populações. Certamente, não se pode ser democrata «em casa» e colonialista ou neo-colonialista no exterior.

16º O nazi-fascismo tem tido cobertura das correntes mais militaristas na OTAN. Nesta organização, os governos mais poderosos não agem assim por "capricho": A extrema-direita tem sido muito útil, na medida em que aterrotiza grupos de emigrantes, de sindicalistas e de militantes de esquerda. Ela tem sido um braço repressivo, à disposição dos governos que querem manter uma fachada democrática, ao mesmo tempo que se abate o terror contra os opositores, através dessa extrema-direita. 
A «incapacidade  dos governos em reprimir» essas organizações é totalmente falsa. Os poderes usam as polícias nalguns casos; noutros casos, é mais vantajoso darem luz verde, discretamente, a esses tais grupos, pois os governos não podem ou não querem a recorrer a métodos ilegais. Esta, a verdadeira razão porque não destroem os grupos fascistas ou de extrema-direita violentos. Os governos têm meios e legitimidade para fazê-lo. Porém, eles servem-se de terroristas fascistas para golpear os opositores de esquerda.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O PONTO DE VIRAGEM [CRÓNICA DA IIIª GUERRA MUNDIAL, Nº63]

 São "necessários" sacrifícios de inocentes numa escala tal, que abala a confiança do público nas instituições que governam em nome deles  e sobre eles. Exemplos? 

A repressão feroz e com o aval dum ministro israelita Ben Gvir, sobre a Flotilha pela Palestina. A atitude do público do «Ocidente», virou-se subitamente contra a barbárie sionista, a rotina da tortura, das humilhões, a indiferença em relação à Lei Internacional. No entanto, o comportamento tem sido esse em relação aos palestinianos, há anos, muitos anos. Um comportamento observável desde antes da proclamação do Estado de Israel. Só agora, a opinião pública dos países apoiantes de Israel ao nível governamental, manifesta o seu repúdio e considera Israel como o pior e mais odioso Estado ao nível mundial.

O ataque mortífero contra um dormitório dum colégio de formação de educadores, na região de Lugansk, utilizando drones britânicos, foi executado há dias, pelo exército da Ucrânia. Desde há um longo tempo, que os ucranianos e certos países europeus da OTAN e os EUA, se têm dedicado a ultrapassar as «linhas vermelhas», claramente sinalizadas por Moscovo. Estas provocações ucranianas com aval ocidental incluem atentados terroristas, ataques contra alvos civis - como refinarias, bairros residenciais, etc - assassinatos de generais ou tentativa de assassinato de Putin, etc. A atitude de Putin, tem sido de contenção, ciente de que a resposta a essas provocações poderia ser a «acendalha» que desencadearia uma guerra nuclear. Agora, a morte destes jovens num dormitório e indignação da população fez com que o Estado russo e as suas forças armadas, tivessem de tomar medidas punitivas - não meramente simbólicas - devastadoras para Kiev e para o regime que apoia Zelensky. 

O ataque brutal (enquanto decorriam negociações) dos EUA e Israel contra o Irão, causando a morte do seu líder Kamenei e muitos membros da alta hierarquia do Estado e forças armadas, assim como número muito elevado de civis e as destruições massiças de infraestruturas vitais, como pontes, escolas, centrais eléctricas, etc... Teve o efeito de galvanizar a população iraniana, mesmo os que - 2 meses antes - se manifestaram contra a carestia e foram brutalmente reprimidos pelo regime. A capacidade de resposta iraniana tem muito que ver com o moral da população, não apenas com os arsenais de mísseis e drones, cuidadosamente guardados ao abrigo de bombas inimigas. O resultado de ofensiva EUA-Israel foi fulgurante: Uma enorme derrota que ficará na História, como ponto de viragem do poderio bélico dos EUA e seu mais próximo aliado. 

Este ponto de viragem, tem como corolário uma mudança qualitativa na situação geopolítica mundial e, em particular, no Médio-Oriente.


Todas as guerras têm motivações económicas. Esta IIIª Guerra Mundial não é excepção, com as óbvias manobras para fazer fraquejar adversários, tomando controle de suas reservas de energia (caso venezuelano) ou levando a cabo uma guerra de destruição dos recursos (Irão e países do Golfo Pérsico). Isto traduz-se por uma internacionalização ou generalização, das dificuldades do abastecimento internacional em energia. Depois, muitos analistas prevêm que haverá escassez de alimentos, terríveis fomes causadas pela brusca subida dos preços de adubos sintéticos, do gasóleo e de muitos derivados do petróleo, correntemente usados nas mais diversas indústrias.

Perante a situação de crise múltipla - energética, alimentar, económica - os que detêm lugares de poder, agem como se esta generalização da guerra lhes trouxesse vantagens. Esta miopia tem precedentes históricos, mas os «nossos» dirigentes não sabem grande coisa de História, ou se sabem, agem de modo inconsequente. 

Os povos tidos como «civilizados» estão na vanguarda do retorno à barbárie, manobrados - sem dúvida - por forças racistas e de extrema-direita, mas que se apresentam como salvadoras, «populistas». 

As mesmas fórmulas de manipulação que serviram nas duas últimas Guerras Mundiais, nos países que se julgavam o centro do mundo, são agora  reutilizadas. As pessoas lúcidas têm muita dificuldade em estabelecer contacto direto com as massas, pois estas estão sob o efeito de uma hipnose coletiva, de um condicionamento massivo, que as impede de tomar plena consciência da realidade. 

PATRICK HENNIGSEN DESMASCARA A EXTREMA-DIREITA


 Um importantíssimo testemunho, de um dos melhores jornalistas de terreno, que mostra o ciclo vicioso da violência criada nas zonas ex-colonizadas pelos europeus, na sua imensa maioria, para controlar o acesso aos recursos destes países, seguido pelas catástrofes afetando principalmente os civis, populações indefesas que fogem para os mesmos países que estiveram na origem das guerras. 
Nestas paragens europeias e ex-impérios coloniais, a extrema-direita afirma-se, de cara destapada ou encoberta por partidos de «centro-direita» e começa a exigir um erguer de muros, de restrições, com o pretexto de que as populações emigradas estão a «desnaturar» a base étnica da população. 
No entanto, ninguém no status quo, explica e muito menos tenta corrigir as causas que levam as pessoas a emigrar em massa. 

quinta-feira, 5 de março de 2026

A GLOBALIZAÇÃO NÃO MORREU; ELA APENAS MUDOU DE ROUPAGENS



A consolidação do poder globalista avança em silêncio, enquanto a guerra lavra no Irão e noutras nações do Médio-Oriente. Os Estados estão a ficar endividados como nunca.
O dinheiro serve para comprar armamentos aos grandes consórcios e a desenvolver programas de Inteligência Artificial : Estes significam uma transferência massiva de capital para os grandes empresários, não para os cidadãos comuns, pois somente  empobrece estes últimos. A dívida tem sido assumida pelos Estados. Estes vão extorquir mais em impostos (instalam-se dispositivos de vigilância autoritários).
A disponibilidade deste montão de capital será para os bilionários das indústrias bélicas e tecnológicas. Assim,  eles irão enriquecer ainda mais!



As pessoas são de uma ingenuidade atroz! As atoardas nacionalistas e retrógadas de um Trump e de seus acólitos, são tomadas como significando que eles querem aquilo que declaram. Declaram o fim da globalização, um retorno a que o interesse nacional anteceda o do estrangeiro e toda uma série de atoardas contra a OTAN, a UE e a ONU. Curiosamente, foi por vontade explícita dos EUA e sua casta dirigente que estas instituições globalistas (tal como o FMI e Banco Mundial) foram erguidas e têm dominado, ao nível mundial, a política, as trocas comerciais, a finança etc. O grande capital financeiro e industrial é quem tem decidido, nos EUA, quais os presidentes e a política que eles devem tomar, desde o primeiro quartel do Séc. XX (do presidente Woodrow Wilson ... em diante). Nos países da Europa Ocidental, as intrigas e golpes tiveram como protagonistas ocultos, os grandes magnates. São eles quem escolhe os dirigentes e o programa que devem aplicar. Basta pensarmos nos ditadores Salazar e Franco: Eles nunca teriam conseguido manter-se, sem o apoio de industriais e financeiros, que foram decisivos para sua subida ao poder; ou ainda, em França, G. Pompidou (um funcionário da banca Rothschild) etc.

Muitas pessoas ignorantes pensam que estou a exagerar; que tais conexões são falseadas; que relaciono várias coisas desconexas, apenas pela minha ideologia. A eles só lhes digo: Vão estudar a sério a História dos últimos 100 ou 150 anos e verão que há muitas evidências que reforçam aquilo que afirmo.

O «anti-capitalismo» do discurso de extrema-direita, também não é novidade, não surgiu na onda «MAGA», nem nos políticos de direita conservadora, ou de extrema-direita, que disputam o poder em muitos países da UE, incluíndo Portugal. Também o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler se apresentavam com uma faceta anti-capitalista, mas apenas discursiva, para melhor enganar uma classe trabalhadora pouco instruída e sujeita a ser arrastada pela demagogia. Aliás, estes discursos nunca impediram os grandes capitalistas de «apoiar com a carteira» aqueles candidatos ao poder absoluto.
A ideologia não se destina a esclarecer as massas sobre as intenções profundas dos dirigentes: Bem pelo contrário, destina-se a ocultar o verdadeiro programa; aquele que só é conhecido pela hierarquia mais elevada desses partidos e pelos seus financiadores.

A grande transferência massiva do capital público para o privado, faz-se com manobras óbvias, mas que têm sido obscurecidas de forma a que se continue a fazer esta transferência.
1ª Os Estados vão-se endividando ao longo do tempo, supostamente para fazer face a despesas urgentes e não orçamentadas, num primeiro tempo. Num segundo tempo, a finalidade real deste endividamento nem sequer é ocultada. Por exemplo, para dotar os países da U.E. de uma indústria bélica capaz de - a prazo - «derrotar a Rússia». Ou ainda, gastar o que for preciso em desenvolvimento da IA (Inteligência Artificial) para construir sistemas - civis ou militares - que multipliquem as capacidades presentes, tendo em conta que a China está num patamar tão ou mais avançado que os ocidentais, a este respeito.
2ª As transferências do capital levantado pelos Estados, para indústrias que se quer privilegiar, dão-se de várias maneiras: Doações para «desenvolvimento», empréstimos a juros muito baixos, encomendas de equipamentos para o Estado, parcerias do Estado com grandes empresas privadas, etc.
3º A dívida pública é a prazos largos, de 20 ou mais anos, quando se destina a financiar um projeto de longo prazo. Os juros dessa dívida são - por norma - baixos, o que torna esta aplicação de capital «pouco apetitosa» para o público. Então, o Estado obriga por lei uma série de instituições a terem uma certa quantia em obrigações do Estado nas suas reservas. São os casos de Bancos, Companhias de Seguros e Fundos de Pensões. A norma aplica-se com o argumento falacioso de que um Estado nunca entra em falência, logo tal reserva seria para «proteger» os clientes destas instituições. Ora, os juros tendem a ser muito baixos e a não acompanhar a inflação real, que se verifica ao longo de muitos anos. Estes juros fixos custam cada vez menos, em termos reais, a pagar. O principal em dívida, também vai perdendo valor, consoante os episódios de inflação no tempo decorrido. Deste modo, o Estado vai buscar o capital a juro muito baixo, emprestado por investidores (sobretudo) institucionais.
4º O Estado está nas mãos dos grupos de interesses mais poderosos, que controlam a política, através de doações chorudas a cada campanha eleitoral. Estas doações permitem que tal ou tal partido tenha muito mais dinheiro (que os outros) para gastar em publicidade, em comícios, em materiais de propaganda, etc... Assim, o partido tem a eleição quase assegurada. Mas, o consórcio de capitalistas financiadores tem os dirigentes desse partido na mão. Se estes se afastarem do programa (o verdadeiro, não o que apresentaram a eleição) serão castigados, não havendo dinheiro para financiar as suas campanhas futuras; podem até desviar os subsídos para outros canditados, adversários do partido «rebelde». Uma das coisas mais decisivas no pós-eleições, é saber-se para que projetos e investimentos o novo governo canaliza os capitais de que dispõe.

5º A «necessidade» de criar ou de reforçar fábricas de armamento, pode até ser um disparate de todo o tamanho, mas o público nunca será autorizado a examinar a questão com toda a transparência. Os apoios eleitorais foram efetivados; as somas  prometidas foram entregues e seria impensável que o partido que beneficiou de tais apoios, fosse descartar este aspecto do seu programa. Por isso, as questões relacionadas com a defesa, a guerra, ou  as ameaças à segurança do nosso país, nunca são tratadas na media de massas, com um mínimo de seriedade. O poder encarrega-se de fazer com que a média "mainstream " diga aquilo que é preciso, para defender o rearmamento e que desqualifique os críticos, pelos processos habituais da calúnia, de distorcer  afirmações, ou de black-out...

Isto acontece também nos países mais poderosos, que possuem indústrias de ponta, capazes de produzir e de melhorar microprocessadores, programas de software para IA, etc. Estes produtos da indústria são de aplicação dúplice, ou seja, tanto podem ser aplicados para fins pacíficos, como bélicos. O desenvolvimento da IA tem  potenciado as armas sofisticadas, os robots, os drones, os aviões de combate e os mísseis. Pode dizer-se que um investimento em IA será como na indústria bélica, somente ligeiramente disfarçado.

Temos aqui, nos 5 passos acima, a essência do que os governos dos Estados capitalistas mais poderosos fazem para desviar somas bilionárias para fins bélicos. Esta escolha vai submeter a sociedade, as pessoas, os tralhadores, a uma política de austeridade (mais uma vez!). Daí que os regimes se tenham vindo a transformar em «democracias musculadas», com polícia de intervenção, pressões sobre toda a resistência social e pacífica (sindicatos, associações diversas). Neste exercício de «democracia» apenas formal, não haverá real oportunidade para se afirmarem, e muito menos ganhar eleições, as forças que permitiriam uma alternativa real ao sistema.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Portugal retoma a sua vocação ?

 



COMENTÁRIO:

Eu não estou dentro do segredo dos deuses. Não posso portanto confirmar ( nem por grosso, nem ao detalhe), as trocas tidas à margem de cimeiras da Organização dos Países de Língua Portugesa, ou de outros eventos, em que ministros dos estrangeiros participaram. 
O que me parece é que determinadas correntes, nos «principais partidos de poder» em Portugal (PSD e PS), têm uma visceral ligação com a U.E. e com a OTAN, muito em desfavor dos seus respectivos eleitorados e do próprio povo português. 
A «punição» da Troica em relação a Portugal, que Pepe Escobar refere, aconteceu e foi realmente muito dura, como ele diz. Porém, a consciência política do facto ficou confinada às franjas mais radicalizadas do eleitorado, que votaram PCP ou "Bloco de Esquerda". 
Nisso, como noutros assuntos de importância magna, a não independência da média tem desempenhado um papel de ocultação, ou de desinformação com  fidelidade canina aos «Senhores seus Donos». 
Portugal durante gerações, foi sujeito ao fascismo salazarento, mais obscurantista ainda que o franquismo. A curta «festa revolucionária», após 25 de Abril de 74,  não inverteu fundamentalmente a ignorância do povo, mormente devido à contrarevolução em 25 de Nov. de 1975 e aos anos que se seguiram, de involução dos projetos baseados em ideias generosas de democracia «a caminho do socialismo». 
A educação cívica e política, que se pretendeu introduzir ao nível do ensino secundário, muito depressa fracassou, por sabotagem das próprias lideranças do Ministério da Educação. 
A demagogia dos partidos, quase todos, serviu-se da ignorância do povo, apresentando-lhe a cada eleição a imagem que lhes daria mais votos, sem nenhuma tentativa séria de apresentação das questões políticas que se colocavam no momento, ou a longo prazo. 
Infelizmente, este estilo de «democracia» eleiçoeira, foi descendo de nível, de eleição em eleição. Nas últimas eleições para a Assembleia da República, cada partido encontrou slogans que não queriam dizer nada de concreto, para colocar nos seus cartazes. Ou não significavam nada ou tinham o mais inócuo conteúdo que se possa imaginar.  As frases eram tão destituídas de significado político ou programático, que eram intercambiáveis. Sem as caras dos candidatos ou respectivos emblemas partidários, os cartazes não eram sequer identificáveis com tal ou tal partido. Portugal está no grau zero da política; também pela ausência de conteúdo esclarecedor nos debates televisionados. O resultado disto, foi um terramoto eleitoral da extrema-direita, que soube explorar as facetas mais mesquinhas, presentes numa parte do povo, nomeadamente o seu ódio pelos estrangeiros, erroneamente vistos como roubando o ganha-pão dos portugueses: Na verdade, os empregos que os emigrantes tomavam, eram  os de menor prestígio social, aos quais 99% dos portugueses - mesmo no desemprego - não se queriam candidatar. Mas, a incapacidade de fazer frente à vaga de xenofobia e de racismo, foi tanto mais devastadora, quanto o maior partido (dito) de esquerda, o PS, estava incapaz de contra-atacar, perante a ofensiva da extrema-direita. Nos anos de governo do PS de António Costa, foi promovida a vaga de emigração para o nosso país, permitindo reduzir a grave deficiência de trabalhadores na agricultura, na construção, na restauração... 
Turismo e habitação de luxo; foram os sectores onde o PS convidou o grande capital português e estrangeiro a investir, para superar a crise profunda dos anos 2011-2014. 
Entretanto, a subserviência ao grande capital e à finança especulativa, não podiam ser compatíveis com iniciativas de desenvolvimento industrial. 
A incapacidade da oligarquia portuguesa, que tem estado no poder nestes cinquenta anos, com excepção da curta fase revolucionária (1974-75), deveria ser patente aos olhos dos meus concidadãos. Porém, muitas pessoas deixam-se enganar por polémicas políticas ou pela «fulanização» da política, não vendo realmente o que está em jogo. Outros, pelo contrário, percebem bem o jogo, mas estão interessados em tirar daí o melhor partido pessoal.
Eu nunca vi, na História geral ou contemporânea, uma burguesia de tipo «comprador» se erguer, exprimindo os interesses vitais de um povo. Pode haver momentos em que, por demagogia, os lobos vistam a pele dos cordeiros (.. para os devorar); ou que fazem poses de «leão», mas os seus donos sabem perfeitamente que eles são «gatinhos». 
Gostava de acreditar numa mudança para um pragmatismo desenvolvimentista, como Pepe Escobar parece conceber, para os alinhamentos exteriores de Portugal. Porém, tenho como muito mais provável, por observação do «terreno» e dos actores mais significativos, que a classe «burguesa comprador» jamais irá dar um golpe de rins e fazer as escolhas necessárias para o país. 
Não; o país só poderá renascer pela vontade dos «de baixo», da classe trabalhadora, quando estes tiverem consciência de como foram manipulados, para perpetuação do poder dos oligarcas .

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O EFÉMERO do PODERIO IMPERIAL; EXEMPLO PORTUGUÊS

 


No ensino português, é dada com grande pormenor, mas com muito pouco senso crítico, a «gesta dos portugueses», nos séculos XV-XVI, na conquista de terras do ultramar. 

Mas, na verdade, se esta história tem alguma coisa de edificante, não será o «heroísmo» de soldados e marinheiros e ainda menos dos chefes que os comandavam.

Muita coisa seria necessária dizer, para se ter uma ideia do que foi a tal «conquista» de terras em vastas zonas geográficas, que se estenderam rapidamente por três continentes, além do continente europeu.

Deveria ser motivo de reflexão, não pelos tais actos de heroísmo, reais ou forjados, mas antes, uma lição de sabedoria, a observação do destino do  império colonial português. 

Com efeito, o colonialismo marítimo, pelo controlo das rotas e portos estratégicos na Índia, Ásia do Sul e Extremo-Oriente, foi seguido por um colonialismo territorial (África e Brasil, sobretudo). Este, teve como corolário a reação, quer dos povos colonizados, quer de potências em rápida ascensão  (Inglaterra, Holanda...).

Assim, o Império Português, que iniciou suas conquistas no século XV e se consolidou no século XVI, logo sucumbiu em 1580, perante as forças militares invasoras de Espanha e da subsequente perda da independência de Portugal.  Durante 60 anos, os Filipes de Espanha foram os soberanos do reino de Portugal, sem que houvesse, no entanto, unificação dos dois reinos ibéricos. 

Foi o golpe de Estado de 1° de Dezembro de 1640 em Portugal e subsequentes  anos de guerras (mais de meio século), que restauraram e consolidaram a independência de Portugal. Mas, com perda de possessões coloniais, sobretudo, asiáticas. Havia de novo um reino independente, com territórios em vastas áreas  da América e de África, mas sem capacidade de os desenvolver e explorar. Não somente no período de domínio da coroa Espanhola como mesmo antes, já muitas potências europeias cobiçavam e não perdiam a oportunidade de conquistar praças-fortes portuguesas e respectivos territórios adjacentes, em três continentes: Na América do Sul, na África e na Ásia.

A Inglaterra dominava no final do século XVI, as vias marítimas. Apesar dela ter sido aliada de Portugal nos dois séculos  anteriores, agora estava em guerra com os portugueses: Estes pertenciam - desde a perda da independência - ao império dos Habsburgos, no qual Portugal tinha sido incorporado, tendo de fornecer, entre outras coisas, navios de guerra para a "Invencível Armada". Esta - como é sabido - sofreu uma derrota tremenda no Canal da Mancha, ao largo das costas Inglesas, em  1588.

As potências europeias faziam guerra entre si, na Europa e também  se guerreavam nos domínios coloniais respectivos. Por exemplo, os Holandeses tomaram aos portugueses pedaços substanciais de territórios no Brasil e na Ásia do Suleste, pontos nevrálgicos para o império marítimo português. 

Os piratas e corsários interceptavam navios nas rotas comerciais, atacando navios mercantes carregados de bens valiosos, desde ouro e prata, até às especiarias. Os sobreviventes destes ataques eram vendidos como escravos, no Norte de África, principalmente. Este era, geralmente, um comércio muito lucrativo.  Os piratas libertavam os cativos, mediante o pagamento de avultado resgate. Mesmo países com poderosas armadas e soldados embarcados, para proteger os navios de comércio, sofriam grandes perdas.

O comércio trans-oceânico, por mais lucrativo que parecesse, à primeira vista, não o era, por causa de numerosos fatores de risco: Além da pirataria, havia  quantidade de naufrágios. Os países europeus gastavam somas colossais para manter o seu império: Tinham de construir e manter a frota de guerra,  construir fortalezas e as guarnecer com forças militares, em pontos estratégicos costeiros. Tinham frequentes perdas de mercadorias. 

Sobretudo, tinham grandes perdas humanas, na altura em que a população era um décimo da de hoje: Portugal continental hoje, tem cerca de 10 milhões de habitantes; nos finais do século XV e durante todo o século XVI, teria cerca de 1 milhão, apenas. 

Por todos estes motivos, a colonização, não apenas portuguesa, como de todos os poderes marítimos, nos séculos XV, XVI e XVII, não foi a operação lucrativa tão grande que se imagina. Embora as metrópoles beneficiassem do afluxo do ouro, da prata, ou de produtos de luxo (pedras preciosas, sedas e tecidos caros, marfim, especiarias), as suas despesas cresceram exponencialmente. Em Espanha e Portugal, por outro lado, deu-se o abandono dos campos e a consequente falta de braços para trabalhar a terra, originando a incapacidade duma auto-suficiência  agrícola, além de inflação severa e persistente. Terão  sido estes, os principais factores que levaram à decadência as estruturas económicas e sociais dos reinos ibéricos. 

Pelo contrário, os países do Norte da Europa viveram a sua época de ouro, ao receberem e transformarem o que vinha dos reinos de Portugal e Espanha. O nascimento e desenvolvimento das indústrias do Norte da Europa, aconteceu  em paralelo com a contração das economias portuguesa e espanhola. 

O resultado foi que os países ibéricos gastavam o maná proveniente das suas possessões do ultramar para pagar a importação de muitos produtos, incluindo alimentares. Foram ficando cada vez mais endividados,  porque tinham deixado de produzir o essencial. Nem tinham já o dinamismo económico necessário para tirar partido das matérias-primas que lhes chegavam das suas colonias. Tinham de fazer despesas avultadas para manter sua frota militar e seu exército, para o controlo de terras distantes. O declínio demográfico acentuou-se numa espiral descendente.

A importação maciça de escravos africanos para trabalhar nas fazendas das Américas (os dois sub-continentes americanos e as Caraíbas), foi uma consequência do genocídio dos ameríndios, como um contemporâneo destes horrores, Frei Bartolomeu de las Casas, descreveu. Assim, o tráfico de africanos - durante séculos - enriqueceu os donos dos navios negreiros que faziam a travessia do Atlântico e os fazendeiros do Novo Mundo, que exploravam o trabalho escravo,  quase gratuito e abundante. A famosa «acumulação primitiva», do capitalismo nascente foi - sobretudo -  uma acumulação de riqueza obtida pelo trabalho escravo. O sistema da escravatura só começou a ser desmantelado nas Américas, na segunda metade do século XIX. Depois disso, ela ainda continuou em muitas colónias de África.

Sem dúvida, a história dos impérios coloniais não é algo de que os povos colonizadores se possam orgulhar. Porém, a forma como estes impérios se desmoronaram é (ou devia ser) motivo de aprofundado estudo, político e económico. 

Eu não sou competente para fazer a História dos imperialismos. Porém, devo salientar o facto dos cidadãos meus contemporâneos estarem, de novo, a ser alimentados com narrativas falsas,  que branqueiam as eras coloniais passadas. Serve tal branqueamento para sustentar ideologias reaccionárias e racistas. A  ignorância que está  na sua origem, vem ao de cima, quando se  manifesta o desprezo pelos povos das ex-colónias. 

Nota-se hoje, que estas ideologias são de novo propagadas por sectores de extrema-direita, em países europeus. Assim, os povos são mantidos no medo «do outro» e condicionados para uma nova guerra mundial.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

DEPUTADOS ALEMÃES ACUSADOS DE «SEREM ESPIÕES AO SERVIÇO DA RÚSSIA»



Num debate parlamentar sobre as armas e financiamentos destinados à Ucrânia, deputados da AfD (Alternativ für Deutschland) foram acusados de estarem a recolher informações para as passarem aos russos! No entanto, aqueles deputados apenas levantaram questões e apresentaram pedidos de esclarecimento, perfeitamente legítimos, que qualquer força política responsável poderia (deveria) levantar.

Hoje, AfD é considerado o partido mais popular na Alemanha segundo numerosas sondagens, deixando histéricos o governo de coligação e os partidos que o constituem. As acusações feitas, por mais ofensivas e gratuitas que sejam, têm o perverso pressuposto duma campanha destinada à ilegalização da AfD.  

Não há dúvida que o partido AfD tem acolhido pessoas de extrema-direita, que não tiveram possibilidade de singar dentro do partido do Centro-Direita (CDU-CSU) do Chanceler Merz, embora este tenha e sempre teve elementos da extrema-direita. Mas, é verdade que o tom de perseguição histérico também se nota noutros partidos de governo (inclui os social-democratas), em especial, contra a extrema-esquerda*: Mas, porque esta não poderá, no curto prazo, ganhar eleições e alcançar o poder, os insultos mais verrinosos são reservados aos conservadores de direita da AfD. Estes estariam em boa posição para serem governo, caso houvesse agora eleições antecipadas.


«O deputado da União Cristã Democrata (CDU) Marc Heinrichmass, que é membro do Comité Parlamentar que tutela os serviços secretos, alegou durante um debate no Parlamento Federal que o AfD tem “estado a ser conduzido pela trela pelo Kremlin". Também denunciou que «no mínimo, existe uma célula dormente favorável à Rússia, no seio da AfD. Também disse: "Que sorte para Vladimir Putin, que a AfD exista na Alemanha.” Estas afirmações foram no contexto da sua objecção ao inquérito parlamentar sobre assuntos militares e de infraestruturas.»

                   
A montagem da foto mostra uma bandeira da AfD com a silhueta de Putin sobreposta.

Nunca tive especial admiração pelo parlamentarismo burguês, mas nunca pensei que este poderia descer tão baixo e desmascarar-se de forma tão óbvia.

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*Sara Wagenknecht foi apodada de «agente de Moscovo» pela cadeia de televisão oficiosa.

PS1: O Coronel Douglas MacGregor pensa que a Alemanha vai sair da OTAN e da UE.


terça-feira, 3 de junho de 2025

«A ORDEM A PARTIR DO CAOS» ?

 









Tenho encontrado muitas vezes este conceito de que uma «nova ordem» possa resultar da desordem, do «caos». Esta formulação tem sido aplicada por muitos. É um conceito partilhado pelos revolucionários que ambicionam derrubar a «ordem vigente», para impor a «sua nova ordem», uma ordem nova, superior tanto no plano moral, como material.

Esta ideia é traçável até bastante longe, no tempo. Foi muito propagada nas sociedades secretas que se fortaleceram nas vésperas das grandes revoluções burguesas no século XVIII, a Revolução Americana e, alguns anos depois, a Revolução Francesa.

Sabemos que o papel das sociedades secretas, como a Maçonaria, os Illuminati e outras, foi decisivo para agregar forças e vencer as monarquias vigentes: A monarquia absoluta, no caso francês, ou o poder colonial, no caso da colónia americana da corôa britânica.

A ideia segundo a qual «do caos possa nascer uma nova ordem», é contrária às Leis da Física. A IIª Lei da Termodinâmica define que qualquer transformação, num sistema fechado ou isolado, não pode conservar 100% da energia presente no momento inicial.

Pode haver percentagem maior ou menor de perda energética, sob forma de calor, mas toda a transformação energética (por ex.: a transformação de energia química, em energia cinética) implica aumento da entropia, ou seja, há uma fração de energia que não pode ser conservada, nem recuperada.

Mas, no século XVIII as leis da termodinâmica ainda não tinham sido formuladas. Portanto, podemos admitir que os melhores espíritos (como Lavoisier, Benjamin Franklin, e muitos outros),  julgassem ser possível uma transformação tal que do caos, surgisse uma nova ordem.

De facto, os espíritos esclarecidos do século XVIII e protagonistas da filosofia das Luzes, tinham o modelo subconsciente de tal transformação do caos em ordem: Era o modelo da Criação, tal como está descrita na Bíblia. Mesmo os que tinham abandonado a fé cristã, tinham absorvido este modelo bíblico. Ainda não se desenvolvera, em larga escala, a visão evolucionista da Natureza. Só mais tarde isso aconteceu, quer na formulação Lamarckiana, quer Darwiniana.

Somente começou a ser possível uma ciência do «Caos e da Ordem» em meados do século XIX, durante a revolução industrial triunfante: É nesta altura que a ideia de transformação do caos em ordem começa a ser posta em causa, com o nascimento da Termodinâmica, a ciência da Energia, com Sadi Carnot, Bolzmann, J.W. Gibbs e William Thomson (Lord Kelvin).




A ideia maçónica da revolução (o caos), que seria a parideira da nova ordem, continuou a ser defendida e teorizada por intelectuais revolucionários no século XIX. Em particular, por Marx, o qual pretendia que suas teorias eram científicas. Em geral, todos os teóricos da revolução social, seguidores ou não de Marx, tomavam como verdade evidente este conceito de que "a ordem podia ser engendrada a partir do caos".

Nos séculos dezanove e vinte, múltiplos avatares desta ideia agitaram as massas, frustradas pelas suas condições de vida e pela exploração do seu trabalho pelos donos do capital. Sabemos que a burguesia aproveitou movimentos progressistas, até mesmo revolucionários, para se impor com maior eficácia. Frequentemente, ao colocar-se na liderança, o elemento burguês acabava por instrumentalizar os protestos para satisfazer as suas ambições políticas (1).

A utilização do caos para fins políticos é uma constante na História: Mas, a transformação da «ordem antiga» em «ordem nova» tem sido, frequentemente desfavorável à grande maioria. São tipicamente resultantes de revoluções, os regimes com repressão e subida ao poder duma clique governante.

A «revolução» portuguesa do 25 de Abril parece excepção. Porém, ela apenas substituiu uma facção por outra (uma burguesia fascista, por uma burguesia liberal) no governo. De resto, nas revoluções, em geral, há mais mortes e maiores sofrimentos, não nas fileiras dos opressores, mas nas dos insurrectos.

Quanto às revoluções (aparentemente) bem sucedidas, como o bolchevismo ou o maoismo, foram-no não por qualquer propriedade intrínseca destas convulsões (sangrentas), mas porque libertaram energias para a modernização da estrutura produtiva nestas sociedades e completaram a revolução industrial. Note-se que tanto os regimes czarista da Rússia, como de Chang Kai Tchek, na China, não tinham condições para levar a cabo as transformações acima mencionadas.

O capitalismo, por muito que seus defensores digam o contrário, não é amigo da ordem. Tem multiplicado o caos, através de golpes de Estado, guerras civis, guerras entre países, incluindo guerras «por procuração» (proxi wars). No século passado e neste, tem favorecido perigosamente o confronto entre potências nucleares.

Diz-se que as ideias não têm peso no mundo real, porém a ideia difusa, ainda presente em muitos espíritos, de que «uma nova ordem vai brotar a partir do caos» pode causar muita confusão. É uma ideia falsa em Física e perniciosa em História e Sociologia.

De entre as ideias falsas, esta tem um potencial devastador (2), pois coloca as pessoas a desempenhar papéis que - julgam elas - conduziriam ao «Paraíso na Terra». No entanto, só produzem um «Inferno», pois do caos só pode sair mais caos.

Quanto à ordem, ela só pode ser originada a partir do investimento de energias construtivas, que permitem elevar a sociedade a um novo patamar de organização/civilização.
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(1) Os autoritários de todas tendências,  da extrema direita à extrema-esquerda, passando pelo "extremo-centro", sempre consideraram a violência geradora do caos, como bemvinda, desde que os ajudasse a guindarem-se ao poder.

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(2) O mais claro exemplo disso, é a guerra: Esta é o caos, e a ordem dela resultante é a «paz dos cemitérios».