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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O EFÉMERO do PODERIO IMPERIAL; EXEMPLO PORTUGUÊS

 


No ensino português, é dada com grande pormenor, mas com muito pouco senso crítico, a «gesta dos portugueses», nos séculos XV-XVI, na conquista de terras do ultramar. 

Mas, na verdade, se esta história tem alguma coisa de edificante, não será o «heroísmo» de soldados e marinheiros e ainda menos dos chefes que os comandavam.

Muita coisa seria necessária dizer, para se ter uma ideia do que foi a tal «conquista» de terras em vastas zonas geográficas, que se estenderam rapidamente por três continentes, além do continente europeu.

Deveria ser motivo de reflexão, não pelos tais actos de heroísmo, reais ou forjados, mas antes, uma lição de sabedoria, a observação do destino do  império colonial português. 

Com efeito, o colonialismo marítimo, pelo controlo das rotas e portos estratégicos na Índia, Ásia do Sul e Extremo-Oriente, foi seguido por um colonialismo territorial (África e Brasil, sobretudo). Este, teve como corolário a reação, quer dos povos colonizados, quer de potências em rápida ascensão  (Inglaterra, Holanda...).

Assim, o Império Português, que iniciou suas conquistas no século XV e se consolidou no século XVI, logo sucumbiu em 1580, perante as forças militares invasoras de Espanha e da subsequente perda da independência de Portugal.  Durante 60 anos, os Filipes de Espanha foram os soberanos do reino de Portugal, sem que houvesse, no entanto, unificação dos dois reinos ibéricos. 

Foi o golpe de Estado de 1° de Dezembro de 1640 em Portugal e subsequentes  anos de guerras (mais de meio século), que restauraram e consolidaram a independência de Portugal. Mas, com perda de possessões coloniais, sobretudo, asiáticas. Havia de novo um reino independente, com territórios em vastas áreas  da América e de África, mas sem capacidade de os desenvolver e explorar. Não somente no período de domínio da coroa Espanhola como mesmo antes, já muitas potências europeias cobiçavam e não perdiam a oportunidade de conquistar praças-fortes portuguesas e respectivos territórios adjacentes, em três continentes: Na América do Sul, na África e na Ásia.

A Inglaterra dominava no final do século XVI, as vias marítimas. Apesar dela ter sido aliada de Portugal nos dois séculos  anteriores, agora estava em guerra com os portugueses: Estes pertenciam - desde a perda da independência - ao império dos Habsburgos, no qual Portugal tinha sido incorporado, tendo de fornecer, entre outras coisas, navios de guerra para a "Invencível Armada". Esta - como é sabido - sofreu uma derrota tremenda no Canal da Mancha, ao largo das costas Inglesas, em  1588.

As potências europeias faziam guerra entre si, na Europa e também  se guerreavam nos domínios coloniais respectivos. Por exemplo, os Holandeses tomaram aos portugueses pedaços substanciais de territórios no Brasil e na Ásia do Suleste, pontos nevrálgicos para o império marítimo português. 

Os piratas e corsários interceptavam navios nas rotas comerciais, atacando navios mercantes carregados de bens valiosos, desde ouro e prata, até às especiarias. Os sobreviventes destes ataques eram vendidos como escravos, no Norte de África, principalmente. Este era, geralmente, um comércio muito lucrativo.  Os piratas libertavam os cativos, mediante o pagamento de avultado resgate. Mesmo países com poderosas armadas e soldados embarcados, para proteger os navios de comércio, sofriam grandes perdas.

O comércio trans-oceânico, por mais lucrativo que parecesse, à primeira vista, não o era, por causa de numerosos fatores de risco: Além da pirataria, havia  quantidade de naufrágios. Os países europeus gastavam somas colossais para manter o seu império: Tinham de construir e manter a frota de guerra,  construir fortalezas e as guarnecer com forças militares, em pontos estratégicos costeiros. Tinham frequentes perdas de mercadorias. 

Sobretudo, tinham grandes perdas humanas, na altura em que a população era um décimo da de hoje: Portugal continental hoje, tem cerca de 10 milhões de habitantes; nos finais do século XV e durante todo o século XVI, teria cerca de 1 milhão, apenas. 

Por todos estes motivos, a colonização, não apenas portuguesa, como de todos os poderes marítimos, nos séculos XV, XVI e XVII, não foi a operação lucrativa tão grande que se imagina. Embora as metrópoles beneficiassem do afluxo do ouro, da prata, ou de produtos de luxo (pedras preciosas, sedas e tecidos caros, marfim, especiarias), as suas despesas cresceram exponencialmente. Em Espanha e Portugal, por outro lado, deu-se o abandono dos campos e a consequente falta de braços para trabalhar a terra, originando a incapacidade duma auto-suficiência  agrícola, além de inflação severa e persistente. Terão  sido estes, os principais factores que levaram à decadência as estruturas económicas e sociais dos reinos ibéricos. 

Pelo contrário, os países do Norte da Europa viveram a sua época de ouro, ao receberem e transformarem o que vinha dos reinos de Portugal e Espanha. O nascimento e desenvolvimento das indústrias do Norte da Europa, aconteceu  em paralelo com a contração das economias portuguesa e espanhola. 

O resultado foi que os países ibéricos gastavam o maná proveniente das suas possessões do ultramar para pagar a importação de muitos produtos, incluindo alimentares. Foram ficando cada vez mais endividados,  porque tinham deixado de produzir o essencial. Nem tinham já o dinamismo económico necessário para tirar partido das matérias-primas que lhes chegavam das suas colonias. Tinham de fazer despesas avultadas para manter sua frota militar e seu exército, para o controlo de terras distantes. O declínio demográfico acentuou-se numa espiral descendente.

A importação maciça de escravos africanos para trabalhar nas fazendas das Américas (os dois sub-continentes americanos e as Caraíbas), foi uma consequência do genocídio dos ameríndios, como um contemporâneo destes horrores, Frei Bartolomeu de las Casas, descreveu. Assim, o tráfico de africanos - durante séculos - enriqueceu os donos dos navios negreiros que faziam a travessia do Atlântico e os fazendeiros do Novo Mundo, que exploravam o trabalho escravo,  quase gratuito e abundante. A famosa «acumulação primitiva», do capitalismo nascente foi - sobretudo -  uma acumulação de riqueza obtida pelo trabalho escravo. O sistema da escravatura só começou a ser desmantelado nas Américas, na segunda metade do século XIX. Depois disso, ela ainda continuou em muitas colónias de África.

Sem dúvida, a história dos impérios coloniais não é algo de que os povos colonizadores se possam orgulhar. Porém, a forma como estes impérios se desmoronaram é (ou devia ser) motivo de aprofundado estudo, político e económico. 

Eu não sou competente para fazer a História dos imperialismos. Porém, devo salientar o facto dos cidadãos meus contemporâneos estarem, de novo, a ser alimentados com narrativas falsas,  que branqueiam as eras coloniais passadas. Serve tal branqueamento para sustentar ideologias reaccionárias e racistas. A  ignorância que está  na sua origem, vem ao de cima, quando se  manifesta o desprezo pelos povos das ex-colónias

Nota-se hoje, que estas ideologias são de novo propagadas por sectores de extrema-direita, em países europeus. Assim, os povos são mantidos no medo «do outro» e condicionados para uma nova guerra mundial.

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