Seria melhor aplicar-se o conceito de "fator limitante" industrial:
Seria melhor aplicar-se o conceito de "fator limitante" industrial:
Esta bolha, quando rebentar, vai transformar-se em monumentais perdas para os grandes investidores, mas também para os fundos de pensões, os pequenos investidores nas bolsas e os Estados ocidentais, que investiram, direta ou indiretamente, muito nesta miragem.
Reencontramos aqui um estribilho, que esteve muito na moda, quando mais ou menos todos no Ocidente, ou eram marxistas ou eram influenciados por tal culto.
Assim, a crença na «magia da Internet» provocou a bolha dos «dot.com», as empresas que apenas tinham um nome e praticamente nenhum capital, que não geravam nem um centavo de rendimento, mas foram introduzidas em bolsa, na viragem do século (por volta do ano 2000).
Algo completamente louco foi a febre holandesa dos bolbos de túlipa: Também eles, objectos de grande especulação. Foram modelo para uma bolsa de bens «sólidos», ou de «bolsas de matérias-primas». Mas foi - sobretudo - uma lição para muitos capitalistas holandeses do século XVII; para serem mais comedidos e não embarcarem logo na primeira moda, gerada pelo entusiasmo das multidões.
Teríamos de escrever uma obra espessa, com vários volumes, para descrever todas as fantasias e falcatruas, que precipitaram países poderosos - como a França do início do Séc. XVIII - na ruína ou que estiveram na base da construção de grandes fortunas, como a dos Rothchilds: Graças a redes de informadores fidedignos, eles sabiam realmente o que se passava no Mundo e lançavam os boatos em Londres, Paris ou Berlim, consoante, para obterem o desejado efeito de pânico.
Não sei ao certo como vai rebentar, mas tenho a certeza que a IA vai pelo mesmo caminho que as bolhas financeiras do passado; o montante das somas investidas vai fazer rebentar esta bolha; será um acontecimento financeiro de primeira grandeza, com repercussões económicas comparáveis às que outros acontecimentos análogos tiveram.
A história da Ilha de Páscoa e da sua população originária, que nos foi vendida (e popularizada pelo geógrafo Jared Diamond) é a dum crescimento exponencial da população, seguida pelo abate indiscriminado da floresta, implicando uma quebra da capacidade de auto-sustento, agravadas por guerras entre grupos rivais, conduzindo à quase extinção deste povo.
Mas, as evidências arqueológicas contemporâneas, os cientistas que foram ver e avaliar in situ a verosimilhança da versão acima resumida, negam praticamente tudo dessa narrativa. Esta arqueologia contemporânea tem evidências que suportam uma história completamente diferente e muito mais optimista que a versão divulgada ao longo de vários decénios.
Veja o documentário, pois ele está cheio de factos novos e interessantes sobre este povo fantástico, os Rapa Nui.
Noutra vida, quando eu fui jovem
Todas as experiências descarrilaram
Por mais que eu me empenhasse
Estava condenado a viver em sonho
E a sonhar a vida; e os anos passando
Mas as experiências ficaram e pesaram
De nada serve lamentar os percursos
Eles foram condicionar quem eu sou
Em vão me revolto, quando recordo
Não serve de nada leccionar o passado
Pelo menos, ficou-me algo desses anos
Ao certo, não sei o quê; uma condenação
Sem apelo, que arrasto: É como a marca
Vincada no corpo e nada a pode apagar.
Na segunda metade da minha vida,
Tenho-me dedicado a viver o destino
Sem demasiado sofrer. Nem alegre nem triste.
Sou o conglomerado de demasiados eus
Não os consigo distinguir nem avaliar
São uma multidão sempre à espera que eu
Lhes abra a porta, por vezes conseguindo
Ultrapassá-la, mas não lhes dou refúgio
Seria demasiado estúpido!
Felizmente, o mundo exterior chama sempre
De sua voz imperativa, quando esboço
Uma absurda procura dentro das casas
Obscuras do passado.
Tenho a luz do Sol
Ou luzes interiores que me indicam
Os caminhos; por mais estranhos que
Sejam, sempre me conduzem
A algum lado.
Não irei medir os passos
Mas sou capaz de , num olhar, ver
O que já foi percorrido.
E, nem orgulhoso, nem insatisfeito,
Vou continuando por serras e planícies
Até encontrar aquele portal , sem medo
Atravessando
E tudo o que foram preocupações
E afetos de vivente, depositarei
À entrada...
Este concerto para piano é justamente um ponto alto na criatividade do compositor russo.
Tudo nele soa grandioso, como um sopro de heroísmo que estivesse presente inspirando a composição.
A orquestra realiza um verdadeiro diálogo com o piano. Este, por sua vez, aborda a matéria sonora com um sentido orquestral, preenchendo o espectro sonoro com os seus acordes. Mas, existe o contraste com passagens mais subtis, que não nos deixam um instante desatentos. É tão forte esta energia telúrica, que nos prende do princípio ao fim. Mesmo quando conhecemos muito bem a obra, somos atraídos pela sucessão de melodias e pelas surpresas que ligam entre si os diversos momentos: uns temas apresentam-se num naipe de instrumentos, para logo depois serem base de variação ao piano.
Há passagens que me soam muito atuais. Têm qualquer coisa de "jazzístico", muito antes da existência do próprio jazz.
Talvez nos pareça muito «clássico» aos nossos ouvidos: Porém, neste concerto, Tschaikovski rompe com o molde clássico da «forma sonata» e deixa fluir vibrante uma música animicamente romântica, mas já pós-romântica no tratamento dos temas e na orquestração.
A força que se desprende de todo este aparato musical, coloca este concerto entre os melhores que foram escritos em três séculos de literatura para o piano.
...................
PATRICK HAHN E A ORQUESTRA FILARMÓNICA DE ISTAMBUL COM OLGA SCHEPS, SOLISTA, NUM FANTÁSTICO ESPECTÁCULO AO VIVO, EM 2022.
PS: Música religiosa a capella: Salmos e Vésperas
Este documentário foi feito pelo canal público PBS.
Algumas anotações:
- O Klu-Klux-Klan tinha uma enorme influência.
- O anti-semitismo e o racismo contra os negros, tinham grandes sponsors, como Henry Ford (autor de «The International Jew»).
- O eugenismo era adoptado por grande parte da oligarquia; era baseado na «necessidade» de evitar a propagação de «raças inferiores» ou «doenças», mesmo as que eram obviamente adquiridas e não genéticas: Muitas pessoas foram forçadamente esterilizadas dentro deste contexto.
- O fascismo foi promovido na Europa para contrariar o comunismo.
Tudo isto e muito mais é mantido escondido das pessoas, de um lado e do outro do Atlântico.
As pessoas têm uma visão não apenas esquemática, mas errónea do movimento fascista internacional e do que ele representava; que interesses se escondiam por detrás das suas figuras de proa; quem os financiava; sobretudo, não fazem a mínima ideia do que seriam o presente e o futuro, se os fascistas tivessem triunfado na IIª Guerra Mundial.
No 2° video, põe em evidência as políticas alemãs e dos EUA, acerca da Ucrânia, que explicam grande parte do golpe dos nacionalistas banderistas de 2014 e constante pressão da OTAN para colocar a Ucrânia nesta aliança, subordinada ao Império EUA.
SOMENTE A COMPREENSÃO DOS ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS PERMITE UMA CLARA AVALIAÇÃO DO PRESENTE: A História que nos pretendem fazer crer é a narrativa que inocenta os grandes poderes. Ela pretende provocar uma adesão emocional e não racional ao projeto antigo de esmagamento da Rússia e sua transformação numa série de Estados fracos, subordinados ao imperialismo anglo-saxónico.
As cantigas em louvor de Sta Maria são um dos grandes monumentos da música trovadoresca ocidental. Para esta recolha contribuiram muitos autores, dos quais poucos deixaram um nome e muito menos elementos biográficos. Mas isto é algo que não deve cegar o amador de música do século XXI. Contrariamente à convenção bastante recente, datando do período romântico, a composição musical e poética não se destinava a valorizar o seu autor, mas - pelo contrário - o objeto do poema/cantiga. A dama formal, estilizada, é apenas uma forma de encobrir a verdadeira inspiradora dos poemas e canções trovadorescas? A Igreja estava presente em todos os domínios da vida social e pessoal, pelo que lendas como a de Tristão e Isolda, tinham pouquíssima hipótese de ocorrer na realidade.
Por outro lado, esta época sucede à heresia do Catarismo, em que numerosos nobres, tiveram uma participação - aberta ou oculta - sendo esta heresia brutalmente reprimida pela Igreja de Roma. Foi nessa altura que foi instituída a 1ª Inquisição, com as torturas e as fogueiras, «para salvar as almas dos penitentes». Sendo tão perigoso confessar a sua fidelidade àquela que era considerada pelos adeptos do Catarismo a verdadeira religião, os sobreviventes da 1ª Inquisição só podiam difundir sua ligação ao Catarismo metaforicamente*, escrevendo poesia e cantando: O resultado seriam cânticos codificados, com duplo sentido: Os cânticos seriam proclamações de fidelidade à Igreja Cátara, ou em louvor de Sta Maria, Mãe de Deus?
Esta hipótese está de acordo com um florescer de hinos e cânticos em louvor da Virgem, desde aqueles inscritos do Códice de Afonso X, ditos «Cantigas de Santa Maria», até peças para-litúrgicas, que tiveram muita difusão na Ibéria, como «Ave Maris Stella», em que Sta Maria é assimilada à «estrela» do Dia. Estariam fazendo culto a Vénus, mas fingindo ver na «estrela» da Manhã o sinal redentor da fé cristã?
De qualquer maneira, a lírica medieval foi abundantemente enriquecida pela contribuição dos trovadores em todas as regiões da península Hispânica (incluindo galaico-portugueses). Em paralelo, também aumentou a devoção a Sta Maria, tão intensa e favorecida pelas autoridades eclesiásticas. Esta devoção mariana acabou, mais tarde, por influenciar as doutrinas teológicas cristãs na Ibéria e no Ocidente, Católico e ligado a Roma, ao trono de S. Pedro. Note-se que muitos cátaros, fugindo às perseguições nos países de «Oc» (Occitânia, uma boa parte da França atual, a sul do rio Loire), se terão refugiado em terras de Espanha. Algumas zonas tinham laços com a Occitânia e simpatia pelo catarismo. Eram os casos dos reinos de Aragão e Catalunha. É bem possível ter existido uma difusão subterrânea de tradições do Catarismo nos Caminhos de Santiago, nas várias rotas da peregrinação a Santiago de Compostela, convergindo na Galiza.
Note-se a existência de documentos como os dos Goliardos, difundidos em várias regiões europeias e que atestam duma visão heterodoxa da religião, na mesma época medieval.
As anotações musicais são escassas em toda a produção trovadoresca. Muitos poemas de trovadores chegaram até nós sem notação musical. Mas sabemos que os versos eram cantados. Os poucos exemplos de anotação musical que se possui, são a matéria-prima a partir da qual têm de trabalhar musicólogos e artistas dedicados a fazer reviver a arte musical trovadoresca.
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* Leia abaixo uma análise sobre a poesia trovadoresca, sua ligação ao catarismo e seu caráter esotérico.
Par dessus tout, on peut reconnaître dans la poésie des troubadours presque tous les grands thèmes du Catharisme : hostilité au mariage et tolérance envers l’union libre, mais aussi idéal de chasteté qui reflète exactement l’idéal des Parfaits ; affirmation que le monde est foncièrement mauvais, si souvent répétée par le troubadour Peire Cardinal ; haine contre l’Église de Rome qui éclate chez le troubadour Guilhem Figueira. Quand on sait tout cela, on découvre que la clef de la poésie des troubadours est une clef cathare. La Dame, c’est l’Église Cathare ; l’Amant, c’est son adepte ; le Mari jaloux, c’est l’Église romaine ; les lauzengiers, ce sont les dénonciateurs.
In https://dangersetmerveilles.com/troubadours-et-esoterisme/
Abaixo, um disco de Hespérion XX e de Jordi Savall com Cantigas de Santa Maria
O intelectualismo pode descrever-se como comportamento que previlegia o intelecto, a parte racional do cérebro, como sendo o factor principal da nossa vida, da nossa atividade social. As pessoas são classificadas segundo parâmetros, escalas, que pretendem medir o grau de «inteligência» como sinónimo de «bom» intelecto.
Esta característica está tão difundida na sociedade, que a maior parte das pessoas nem se apercebe da sua existência. Mas, não se trata de algo natural, nem pouco mais ou menos. Trata-se de um fenómeno social e psicológico induzido, que atribui uma valoração aos indivíduos, em função de seus desempenhos teóricos, abstactos; confunde - aliás - a memória, a capacidade de reproduzir um determinado padrão, com a inteligência. Esta última, só faz sentido enquanto propriedade sistémica: por exemplo, a capacidade de adaptação a novas situações. Mas, em vez disto, a capacidade de regorgitar o que se decorou é - segundo certos «pedagogos» - sinal de inteligência quando, afinal, apenas se trata de capacidade de memorização.
Insiste-se na vertente quantitativa - na quandidade de dados armazenados- ou na velocidade de processamento dos mesmos, como se estas propriedades definissem um intelecto «superiormente inteligente». Apesar dos computadores terem, hoje, um desempenho muito melhor que os humanos nestas funções, no armazenar e reproduzir informação. Recentemente, os algorítmos da IA (Inteligência Artificial) têm-se mostrado muito mais eficazes, em comparação com nossos cérebros, para relacionar dados e apresentá-los de modo coerente.
- Mas, será que a inteligência se reduz a isso? Reduz-se a ter um desempenho mais rápido, um maior volume de armazenagem, etc?
As pessoas mais convencionais - são a maioria - creem que sim, mas se examinarmos a questão com um pouco de aprofundamento, vemos que se trata de uma falácia: Na realidade, a construção de máquinas complexas, a descoberta das leis da Natureza, a criação de obras literárias, musicais, ou doutras artes, com características únicas, mostram-nos que nossos cérebros e as sociedades humanas são obviamente os inventores e inovadores destes produtos.
Os Teoremas Incompletude de Gödel, implicam que, qualquer subsistema de um Todo, não consegue descrever esse mesmo Todo, nem sequer consegue ter uma visão de conjunto dele.
A máquina inventada, o teorema, a criação literária, etc., são produtos humanos; não apenas do indivíduo a quem se atribui a autoria da criação, como de toda a Humanidade, com todo o contexto civilizacional, que lhe confere as bases materiais...
O «pesadelo de ficção científica» de uns robots virem a alcançar um desenvolvimento tal, que ultrapassem as capacidades dos seus criadores e acabem por dominar a sociedade humana, pondo os humanos ao serviço duma «civilização de robots», é um guião muito banal nas obras de ficção científica.
Porém, não tem a mínima verosimilhança. Desde já, porque a criatura (robot, algorítmo, etc.) não poderá estar acima do seu criador, segundo os teoremas de Gödel.
Estas ficções podem ser consideradas meras visões pessimistas da sociedade futura. No entanto, é muito mais interessante do que isso, o que elas nos indicam, sobre a psicologia e sociologia das massas contemporâneas:
Com efeito, a supressão sistemática dos impulsos criativos, a repressão das actividades artísticas não orientadas para a subsistência imediata, a criminalização ou a repressão de todas as ideias que entram em choque com as convenções, tem sido o modo concreto como o capitalismo tardio tem mantido os súbditos sob controlo.
O medo difuso duma sociedade controladora de todos os impulsos, sentimentos e pensamentos, tem plena razão de existir. E não se trata de um medo irracional, mas do reflexo, não de uma «atávica» natureza humana, mas antes da vaga consciência de como, perante o rápido desenvolvimento material e tecnológico, os humanos são confrontados e oprimidos pela oligarquia detentora das máquinas e recursos.
O estado de coisas é apresentado como a invasão dos domínios de decisão por máquinas, super-computadores, robots, algorítmos de IA, como se eles tivessem «vontade». Na realidade, é evidente, trata-se dos donos das mesmas máquinas, que as programam de forma a que as pessoas sejam submetidas à sua vontade.
Todas as obras de antecipação que apontam para um inevitável controlo da sociedade por máquinas, como o fatal desenvolvimento da sociedade tecnológica, estão a propiciar a aceitação da manutenção desta sociedade, onde um pequeno número, servindo-se de máquinas sofisticadas, detém o poder.
Também é muito interessante o seguinte:
CORRIDA DE ROBOTS EM PEQUIM [*] parece ficção, mas não é.
Os robots humanóides estão a atingir e ultrapassar as possibilidades humanas em termos físicos e acrobáticos.
A capacidade de desempenho autómono dos humanóides é avaliada nestes «Jogos Olímpicos de Robótica» em Pequim. Aqui, são postos em «feroz» competição os diversos robots .
Este tipo de concurso é um campo de testes em situações reais, que mostram o grau de avanço em tecnologia robótica das equipas concorrentes.
O que aconteceu a estes Animals meus preferidos (nos anos 60) ?
Um Estado que «não se importa» de ter um presidente que põe as suas forças armadas praticando operações de pirataria (caso mais recente: Venezuela), é um Estado profundamente corrupto e hipócrita, que continua a «jurar» pela Constituição, pelos Direitos Civis, pela Legalidade, etc. É este mesmo Estado que ataca o Irão, sem agressão deste aos EUA ou ameaça dela, depois de ter feito o mesmo no caso da Somália, da Jugoslávia, do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Síria ... e que apoia crimes de genocídio, como o que está a acontecer, neste momento, pelo governo de Israel.
Trump nunca foi uma alternativa ao «pântano». Foi o candidato escolhido pela oligarquia para gerir o dito pântano.
Muitas pessoas comuns não conseguem imaginar tanta perversidade e podridão. Não acreditam e vão ignorar notícias verídicas, que se podem ver no vídeo acima.
Esta atitude dos cidadãos vai recair sobre eles próprios e sobre nós todos.
Reflexão de Manuel Banet:
O termo "terrorismo" não descreve actos (como seria o caso de "assassinato", ou "tentativa de assassinato"). Portanto, tal acusação é vaga e genérica. É uma falsa categoria no vocabulário jurídico. Não existe nunca um consenso genérico sobre quem são os «terroristas». Isto é uma indicação segura de que é um termo manipulado para difamação de um campo pelo outro: Os acusados são chamados de «terroristas» por uns e de «libertadores» por outros. Isto ocorre em múltiplos conflitos, insurreições, guerras, não só agora, como desde há séculos!
A acusão feita ao britânico reformado, por causa de um «twitt», é ainda pior do que «crime de opinião», porque o sistema judicial que o vai julgar, esse mesmo sistema, não pode definir de forma não ambígua o que tem de «terrorismo», concretamente, o conteúdo da frase num twitter, que é a base da acusação.
Isto é revelador de um poder arbitrário, que se pode aplicar a criminalizar qualquer pensamento dissidente...
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Transcrevo a seguir a notícia de autoria de Thomas Karat, publicada na sua página do Substack:
Hoje, um aposentado de Brighton vai a julgamento por um tweet. Nove meses atrás, o homem que fundou a filial síria da Al-Qaeda foi recebido no Salão Oval. Uma palavra rege ambas as histórias — e ela perdeu todo o seu significado.
Na manhã desta terça-feira, 18 de agosto de 2026, Tony Greenstein, um avô de 72 anos, entra no Tribunal da Coroa de Kingston, no sudoeste de Londres, para ser julgado por um júri por terrorismo. Ele é cuidador e filho de um rabino ortodoxo que participou das marchas contra os Camisas Negras de Mosley. A prova contra ele é um tweet de sete palavras de 2023 e, se o júri concordar com a acusação, ele poderá ser condenado a 14 anos de prisão .
Quero comparar o caso dele com outro, porque só juntos os dois fazem sentido. Nove meses atrás, um homem que fundou a filial síria da Al-Qaeda — um homem que os Estados Unidos caçavam com uma recompensa de 10 milhões de dólares — tornou-se o primeiro chefe de Estado sírio a ser recebido na Casa Branca. Tony Greenstein e Ahmed al-Sharaa nunca se encontrarão. Mas, juntos, eles mostram o que a palavra "terrorista" realmente passou a significar nas mãos dos governos que a utilizam. Não se trata de uma descrição do que uma pessoa fez. Trata-se de uma medida da utilidade dessa pessoa.
O aposentado
Deixe-me apresentar o histórico completo de Greenstein, pois a acusação o fará, e eu prefiro que você o ouça de alguém que simpatize com ele. Ele foi expulso do Partido Trabalhista em 2018. Processou a Campanha Contra o Antissemitismo por tê-lo chamado de "antissemita notório" e perdeu, com o tribunal decidindo que a expressão era uma opinião honesta. Recebeu uma sentença suspensa por um ataque da organização Palestine Action a uma fábrica de armas da Elbit. Ele é agressivo, litigioso e totalmente impenitente. Nada disso é o motivo pelo qual ele está sendo julgado hoje.
Ele está sendo julgado porque, em novembro de 2023, uma conta anônima o incitou a se declarar, e ele respondeu : “Eu apoio o Hamas contra o exército israelense”. Cinco semanas depois, às seis e meia da manhã, agentes antiterrorismo estavam à sua porta. Levaram seus computadores e telefones, o mantiveram detido por nove horas e o libertaram sob fiança, com a condição de não poder publicar nada sobre a guerra. “Isso é orwelliano”, disse ele a eles. Ele não estava errado e, na verdade, estava sendo generoso.
Então o Estado se preparou para um cerco. Levou onze meses para acusá-lo e quase um ano inteiro para levá-lo a julgamento, que já foi adiado uma vez. Quando o júri tomar posse hoje, ele terá passado trinta e dois meses sob custódia, mordaça e ameaça de prisão — a pena cumprida integralmente antes mesmo de qualquer veredicto ser proferido. E enquanto esperava, seus bancos o abandonaram, um após o outro. Em uma declaração publicada há duas semanas, ele descreveu ter sido cortado de suas contas por cinco instituições desde sua prisão: o Nationwide, após vinte e cinco anos; depois o HSBC e o First Direct — incluindo a conta que ele e sua esposa mantinham para o cuidado de seu filho autista; depois o Santander, que congelou suas contas pessoais e as de uma instituição de caridade registrada da qual ele é tesoureiro; e, por fim, um banco de poupança que excluiu completamente sua família. Nenhum deles deu uma explicação. Nenhum precisa. Os bancos que avisam um cliente que está sob suspeita são proibidos por lei de lhe dizer o motivo.
Ele suspeita de envolvimento do Estado, e aqui está a parte que você talvez não espere: o próprio órgão de vigilância antiterrorista do governo já previa isso. O Revisor Independente da Legislação Antiterrorista alertou, em 2023, que a aplicação da proibição levaria os bancos a se desfazerem de clientes para evitar problemas com a lei — uma prática chamada "redução de risco", como o setor bancário a denomina, como se as contas bancárias de uma família fossem um mau investimento. Quando o Coutts fechou uma única conta pertencente a Nigel Farage, o primeiro-ministro se manifestou e o diretor executivo do NatWest foi demitido em poucas semanas. O caso de um aposentado judeu que teve suas contas bancárias encerradas seis vezes a caminho de um julgamento por terrorismo gerou, nos mesmos jornais, quase total silêncio.
O presidente
Agora, o outro homem. Seu histórico não precisa de um narrador simpático ou de um advogado especializado em difamação, porque o governo dos Estados Unidos o registrou e publicou. Ahmed al-Sharaa — que na época se chamava Abu Mohammad al-Jolani — juntou-se à Al-Qaeda no Iraque em 2003, foi capturado por forças americanas, passou cinco anos sob custódia delas e depois foi para a Síria para construir a Frente al-Nusra, o braço local da Al-Qaeda, jurando lealdade em vídeo a Ayman al-Zawahiri.
O próprio alerta de procurado do Departamento de Estado registra as ações de sua organização. Ela “realizou múltiplos ataques terroristas em toda a Síria, frequentemente visando civis”. Sequestrou cerca de 300 civis curdos em um posto de controle. Na vila drusa de Qalb Lawzeh, em Idlib, seus combatentes se alinharam e atiraram em vinte moradores. Reivindicou a autoria de atentados suicidas em Damasco, Homs e Quneitra. Em 2014, al-Sharaa pessoalmente incitou ataques retaliatórios contra a coalizão liderada pelos Estados Unidos. Por tudo isso, a ONU congelou seus bens e proibiu suas viagens, e a recompensa de US$ 10 milhões por sua captura o colocou entre os cinco jihadistas mais procurados do mundo — a mesma lista de Baghdadi, a mesma lista de Zawahiri. Essa é a conduta que a palavra “terrorista” foi criada para representar: vilarejos esvaziados, centros urbanos detonados, anos de civis e soldados mortos no solo.
Como a palavra surgiu
Então Damasco caiu, em 8 de dezembro de 2024, e quero que vocês observem como a notícia se dissipou rapidamente. Doze dias depois — doze — uma delegação americana se reuniu com al-Sharaa e anunciou que a recompensa estava sendo suspensa. O dossiê não havia mudado. A sepultura em Qalb Lawzeh estava exatamente onde havia sido deixada.
O que se seguiu não foi uma normalização tranquila, mas sim um namoro público, e isso se deu por meio de derramamento de sangue. Em março de 2025, enquanto milícias alinhadas ao novo governo de al-Sharaa varriam a costa alauíta, a Anistia Internacional documentou o assassinato deliberado e sectário de civis e exigiu uma investigação de crimes de guerra. O próprio comitê de apuração de fatos de al-Sharaa confirmaria mais tarde que 1.426 pessoas morreram, a maioria civis. Dois meses após esses massacres, em maio, Donald Trump recebeu al-Sharaa em Riad e o avaliou diante das câmeras como um boxeador: “ Jovem, atraente, durão, passado forte ”. Em junho, veio uma ordem executiva suspendendo as sanções para que os sírios pudessem ter “uma chance de grandeza”. Em julho, Washington revogou a designação de organização terrorista do próprio grupo que ele havia criado.
A Grã-Bretanha acompanhou o ritmo. Poucas semanas antes, o primeiro-ministro havia afirmado que a revogação da proscrição era “ muito prematura ” para ser sequer considerada. Em julho, seu secretário de Relações Exteriores voou para Damasco para cumprimentar al-Sharaa — enquanto a organização do homem ainda estava formalmente proscrita pela Lei Antiterrorismo como um pseudônimo da Al-Qaeda. Esse é o mesmo status legal que o Hamas possui na acusação que Tony Greenstein enfrenta hoje. Quando a contradição se tornou incômoda, o governo não processou o secretário de Relações Exteriores. Revogou a proscrição em outubro, sob o argumento declarado de que isso “serve ao interesse nacional”. Em novembro, al-Sharaa estava no Salão Oval, assinando a entrada da Síria na coalizão liderada pelos Estados Unidos contra o Estado Islâmico. Nenhum júri avaliou as consequências. Nenhuma batida policial ao amanhecer precedeu os apertos de mão. Os homens que haviam escrito o cartaz de procurado simplesmente o retiraram.
A cláusula que nenhum redator escreveu.
Coloque os dois arquivos lado a lado e a lei confessará sua função. A Seção 12 da Lei Antiterrorismo foi alterada em 2019, de modo que uma pessoa agora comete um crime simplesmente por expressar uma opinião de apoio a uma organização proscrita, sem se importar se alguém que a ouça poderá ser encorajado. O Parlamento redigiu essa cláusula precisamente porque os tribunais haviam decidido que a lei anterior não abrangia opiniões. Em outras palavras, um Ministro das Relações Exteriores que renova relações com o comandante de um grupo então proscrito está mais próximo do crime do que qualquer coisa que Greenstein tenha escrito. Ninguém propõe acusá-lo, e esse é exatamente o ponto.
Para meus leitores americanos, entendam que tal lei não teria validade nos Estados Unidos. Mesmo no caso Holder v. Humanitarian Law Project, o mais longe que a Suprema Corte chegou na criminalização do “apoio material”, ficou expressamente estabelecido que “ qualquer defesa independente na qual os demandantes desejem se engajar não é proibida”. As sete palavras de Greenstein são protegidas pela liberdade de expressão nos Estados Unidos. É por isso que o governo que revogou a recompensa concedida a al-Sharaa, incapaz de processar as palavras de seus próprios dissidentes, simplesmente deporta as pessoas que as proferem. Mahmoud Khalil, portador de green card, foi detido por seu ativismo estudantil e mantido preso por 104 dias , perdendo o nascimento de seu primeiro filho, sem jamais ser acusado de qualquer crime. Rümeysa Öztürk, estudante de doutorado, foi levada de uma rua de Massachusetts por agentes mascarados e presa por 45 dias por causa de um artigo de opinião . O mesmo Departamento de Estado que certificou um artigo de opinião de um estudante como uma ameaça à política externa americana passou o ano certificando que o governo de um dos fundadores da Al-Qaeda não o era. A lista de terroristas e a lista de vistos, na verdade, são a mesma lista, mantidas para o mesmo propósito.
O que os números admitem
Se você acha que estou baseando minhas afirmações em alguns poucos casos isolados, observe os dados oficiais. Ao longo dos quatorze anos até meados de 2025, o Ministério da Justiça registrou apenas 55 pessoas processadas sob as disposições da Lei Antiterrorismo relativas à filiação e ao apoio a grupos terroristas — cerca de quatro por ano, durante toda a era do Estado Islâmico. Em seguida, o foco mudou de bombas para opiniões. Nos doze meses até setembro de 2025, o Ministério do Interior contabilizou 1.886 prisões por terrorismo, um aumento de 660%, e 86% delas foram por apoio ao Palestine Action — um grupo de protesto proscrito por pichar aviões de guerra na mesma época em que al-Sharaa estava sendo reabilitada. No mesmo período, a proporção de prisões por terrorismo que resultaram em acusações caiu de 47% para 17%. Leia isso em outras palavras: cinco em cada seis pessoas detidas sob a lei antiterrorismo nunca chegam a comparecer a um tribunal. A prisão em si é o resultado.
Mais de 2.700 pessoas já foram presas por apoiarem a Ação Palestina, 522 delas em um único dia, a maioria portando cartazes de papelão. O chefe de direitos humanos da ONU classificou a proibição como “ desproporcional e desnecessária ”. Quando o Supremo Tribunal Federal a considerou ilegal em fevereiro deste ano, a polícia suspendeu as ações por seis semanas e depois as retomou , com um comissário explicando que era preciso “fazer cumprir a lei vigente”, enquanto policiais retiravam mais dezoito pessoas da escadaria da Scotland Yard. A Suprema Corte decidirá em novembro se alguma dessas medidas foi legal. O próprio órgão de revisão do governo confirma que os processos por terrorismo estão em níveis recordes, “dominados por crimes documentais e acusações relacionadas à proscrição”. Um aparato criado para prender os autores de Qalb Lawzeh agora processa cartazes — enquanto o autor de Qalb Lawzeh assina documentos da coalizão no Salão Oval.
O veredicto já foi dado.
A máquina não poupou os repórteres que a cobrem. Richard Medhurst foi o primeiro jornalista preso sob a mesma seção agora direcionada a Greenstein — quatorze meses sob investigação, sem acusação formal, seus arquivos discretamente transferidos para a Áustria para que o calvário pudesse continuar no exterior. Dez policiais invadiram a casa de Asa Winstanley por causa de suas publicações; um tribunal posteriormente considerou os mandados ilegais e ordenou a devolução de seus dispositivos. Ninguém foi condenado. Todos perderam meses de trabalho e sono, o que talvez seja o objetivo. Mesmo hoje, dentro do Tribunal da Coroa de Kingston, os promotores lutaram para manter os próprios escritos de Greenstein sobre o Hamas e Gaza fora do alcance do júri , com o juiz citando uma antiga regra de que os tribunais não são fóruns para opiniões políticas — em um julgamento onde as opiniões políticas do réu são a própria acusação.
Greenstein acredita que seu veredicto definirá o preço para todos os presos depois dele: uma absolvição põe em risco toda a campanha, uma condenação a legitima. Ele pode estar certo. Mas o veredicto mais profundo foi proferido muito antes de o júri se reunir esta manhã — entregue em Riad, lacrado no Salão Oval. O terrorismo, como nossos governos o praticam de fato, não é uma categoria de ato. É uma categoria de utilidade. Ahmed al-Sharaa tornou-se útil, e a palavra o deixou ir. Tony Greenstein continua sendo um incômodo, e assim a palavra chega à sua porta antes do amanhecer, congela a conta que ele mantém para seu filho deficiente e pede a doze de seus vizinhos que classifiquem sete palavras como um ato de terror.
O julgamento está previsto para durar cinco dias. Independentemente da decisão do júri sobre Tony Greenstein, a palavra sob a qual ele é acusado já foi testada em outro lugar, com base em um conjunto de provas muito maior, e considerada sem qualquer significado. Observe o que Kingston fará com ele esta semana. Depois, lembre-se de quem saiu da Casa Branca como um homem livre e respeitado, e pergunte-se o que "terrorista" alguma vez deveria ter significado.
Veja: Entrevista com o Prof. David Miller