sexta-feira, 8 de maio de 2026

QUADRAS DA BEIRA-LISBOA-MAR [Obras de Manuel Banet]



...E por falar em maresia

Veio-me à memória

Uma melodia

Do noctívago fado


Era outro o tempo

Outras as esperanças

Corações em sincronia

Batiam o ritmo 


Mas o que resta agora

A memória esvai-se

Como quem, caído

Na praia morre


Foram brilhantes

Os anos de vida

Que vivi contigo

São meu tesouro


As recordações 

Ajudam a viver

E a morrer

Com dignidade


São o teu rosto

A tua voz suave

A companheira

No naufrágio


Este barco da vida

Seria uma jangada

Desconjuntada

Sem o teu amor


É eternidade

O instante 

Em que estamos

Nunca se desfaz


És tu que dás cor 

À Natureza; tu que

Desfias  palavras

Música ao meu ouvido


Tenho de dar graças

A Deus por tudo

O que aconteceu

Se foi para te encontrar


Tranquilo, posso

Morrer no instante

Em que for chamado

Para o novo viver


Porque me deste

Tua alegria tranquila

De ser por ti amado

E todo eu te amar 









terça-feira, 5 de maio de 2026

[proso-poemas e música] NO PAÍS DOS SONHOS - VOL. II

 Este é o volume II da recolha de proso-poemas e música «NO PAÍS DOS SONHOS»

Consultar o volume I em : 

[proso-poemas e música] NO PAÍS DOS SONHOS - VOL. I




sexta-feira, 29 de julho de 2022

[NO PAÍS DOS SONHOS] «Dança dos Cavaleiros» de Prokofiev


 

Este é um sonho que preferia não ter. Preferia um vazio, um manto branco, ocultando todas as imagens terríveis que passam diante dos meus olhos fechados. 

Estas imagens, não as podemos ocultar, porque são o cinema interior que o nosso cérebro produz. De tal maneira nos implica, que ficamos exaustos, esgotados, trementes e gélidos, mas nada podemos fazer. 

Nada nos pode afastar daquela caminhada rítmica, compassada, obsessiva, dos Montagus e Capuletos. Vejo que se dispõem numa dança hierática, macabra, pois já se sabe que não haverá quartel; será que irei presenciar o desencadear do ódio hereditário, da «vendetta», entre as duas casas aristocráticas? 

Não, a música é essa mesma, da Suite de Prokofiev, porém o contexto é outro. É bem mais real, mais assustador, por isso mesmo. Aqui, neste sonho, não estamos no teatro, estamos numa rua qualquer duma cidade banal, no Século XXI. 

A civilização ruiu, só restam bandos de assassinos desapiedados, que ditam a sua lei. Não há lugar para o amor, ou para qualquer sentimento humano. Em breve, será a matança. Os olhos, de ambos os lados, estão injetados de sangue. Se não estás num dos campos, então, és inimigo a abater; este é o cálculo feito por qualquer um dos lados. 

Na vida do sonho, como na vida real, não me alinharei jamais com um dos campos de bandidos que se digladiam, para impor a sua lei às gentes. As pessoas comuns são como as presas das aves de rapina: Movem-se, sem saber que, dentro de instantes, vão ser atacadas, feridas, liquidadas e devoradas.

Esta dança obsessiva tem a altivez brutal da fatalidade que avança. Tem o peso inexorável do destino em cada nota. Depois de acordar, interpretei este sonho como premonitório da nova era trágica em que estamos a entrar; como em 1940, o ano da estreia da obra-prima de Prokofiev.





quarta-feira, 22 de junho de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] À BATIDA DO CORAÇÃO


                                            Vivaldi : Sinfonia ''al Santo Sepolcro'' RV 169

                Estou dentro de um longo túnel. A luz difunde-se desde uma extremidade, por detràs de mim. Oiço uma música muito calma e envolvente. Sinto um bafo quente, semelhante ao do vento na praia.

Agora a paisagem mudou, só se vê uma planície semi-desértica com ervas amarelecidas e outras plantas rasteiras. Ao nível do solo há uma evaporação intensa. Todas as imagens estão defocadas. O Sol põe-se magestoso, inundando pro fim o horizonte de tons fúlgidos.

Quando, por fim, o astro do dia se põe, ele irradia uns últimos clarões de luz para lá do horizonte, iluminando um céu de oiro e azul.

Em breve, não mais se ouvem as cigarras e a planície vive um momento de suspensão no tempo. O silêncio é tão real, que ressoa... no coração.