terça-feira, 2 de junho de 2026

POVOAMENTO INICIAL DA AMÉRICA: POVO DE ORIGEM REVELADO

... pela sequenciação de dois dentes de crianças que viveram há 31 800 anos


 As migrações dos povos, incluindo das espécies que antecederam o Homo sapiens, estão inscritas (indiretamente) no ADN. Este pode ser sequenciadao e estudado quando são feitas amostragens de ADN retirado de povos contemporâneos. Mais recentemente, a técnica de extração e sequenciação de ADN antigo veio trazer inestimáveis precisões que, não apenas informam sobre as relações entre indivíduos vivendo há milhares de anos, como permitem ligar as populações hoje existentes, com as linhagens de que foram identificadas nos ADN antigos.
Não se deve esquecer que grandes passos foram dados antes das técnicas acima descritas estarem disponíveis para a paleoantropologia: nomeadamente, os trabalhos de Cavalli-Sforza e sua equipa, nos anos 1960 e 1970 conseguiram distribuir mais ou menos todas as populações conhecidas, num Mapa Mundi, sobrepondo os grupos linguísticos com os dados obtidos por marcadores sanguíneos (ABO, Rhesus, etc). Indiretamente, eles estavam a mapear genes e suas derivas e os outros fenómenos de genética populacional, que ocorreram ao longo de muitos séculos nas diversas populações contemporâneas. 
Mas, a utilização do ADN para estudos em grande escala, só veio com a automatização da sequenciação*. Ela torna possível fazerem-se amostragens representativas das populações que se pretende estudar. Tais estudos só  se generalizaram no Séc. XXI. A utilização do ADN antigo é ainda mais recente; só  em 2010 foi publicado um primeiro genoma completo de neandertal.  
Estas técnicas não são «mágicas»; obrigam a uma rigorosa disciplina, desde a colheita dos itens de onde o ADN será extraído, à purificação do ADN e à discriminação entre o ADN contaminante e o genuíno, nos restos em estudo.
Esta técnica é poderosa, mas não isenta de erros, de toda a espécie: Dos artefactos (ou seja, sequências que não estavam no ADN inicial), às interpretações enviesadas de certos dados, por não os terem em conta, ou por serem hipervalorizados. 

O vídeo acima pareceu-me uma interessante atualização sobre os últimos decénios de estudos arqueológicos, paleogenéticos e biogeográficos. Eles permitem estabelecer ligações seguras entre populações ancestrais, nos dois continentes - euroasitático e americano. Estão em foco neste estudo, a Sibéria, o Alasca e a Beríngia.

(*) A origem dos cães também recebeu um decisivo contributo do ADN antigo, veja  AQUI 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Simplesmente humano [OBRAS DE MANUEL BANET]




Quantos sonhos despedaçados

No olhar de crianças, olhar mudo

Esperançado, como ponte humana

Para os outros, no meio da barbárie?


Quantas lágrimas de mães vertidas

Soluços de pais perante a tragédia

Tudo filmado, nada é perdido

Só se perdeu a humanidade


A insistência da propaganda

É o veículo mais perverso

Normaliza a catástrofe

Banaliza o horror


E sorvemos o veneno

Até que alguns de nós

Reproduzem a violência

No inimigo, no irmão


Alegres vão pró matadouro

Como há séculos e séculos!

A Humanidade ainda existe?

Talvez; mas não aprendeu nada!




ERIC SATIE - GNOSSIENNES [Segundas-f. musicais nº60]

 

Desenho do compositor, por Picasso, na capa de uma selecção de obras de Eric Satie

Aos 101 anos da sua morte, Eric Satie continua a ser mal compreendido pelo público, em geral e mesmo pelos críticos musicais. No entanto, como elemento verdadeiramente original dos princípios do século XX, a sua obra guarda enorme interesse e atualidade. Aliás, vários compositores dos séculos 20 e 21, foram influenciados pelas suas obras.




Gnossiennes (completa) nº1 a 7

https://www.youtube.com/watch?v=nfhza_GLKNg&list=RDnfhza_GLKNg&start_radio=1&t=1298s


A música de Eric Satie é especial. É simples na estrutura, subtil no discurso e sedutora na sua austeridade... Talvez sejam as razões porque é agora mais popular do que nunca, passados mais de cem anos sobre a sua morte.

As 7 peças das «Gnossiennes» têm um caráter de reflexão pausada. Elas estão na antítese de boa parte da música da sua época, apesar de terem traços comuns à escrita musical de Debussy ou Ravel. A atmosfera que emana das composições de Satie escapa ao encerramento dentro de uma escola, de uma época. 

Ele serve-se de estruturas musicais extra-europeias: Por exemplo, as peças são frequentemente modais, o que não era nada comum, pois a música tonal ainda era a dominante. Recusa-se a fazer modulações que se limitam a ser transposições de uns tons para outros. Por outro lado, a repetição insistente de alguns motivos melódicos, tem um efeito encantatório, hipnótico. 

Curiosamente, ele não se coloca formalmente em ruptura com o passado, como o fizeram, desde o início do Século XX, vários vanguardistas. 

Se há peças musicais que nos ajudam a nos concentrar numa tarefa - a estudar, desenhar, etc - as 'Gnossiennes' são das mais adequadas.