domingo, 6 de abril de 2025

REFLETINDO SOBRE CULTURA, SABEDORIA E SABER TÉCNICO-CIENTÍFICO

 Se fosse tão fácil medir a concentração de sabedoria, como a concentração de riqueza num país, veríamos que certos países, desprezados como «atrasados» estão muito melhor equipados desta qualidade - a sabedoria - que outros.

 Infelizmente, a dissociação entre sabedoria e saber, entre sabedoria e poder, tem vindo a aumentar. 

Nas zonas europeias cujo desenvolvimento científico e técnico se adiantou ao resto do Mundo, por volta do séc. XVI, formando o núcleo da modernidade,  as rápidas descobertas, invenções e suas aplicações técnicas tiveram efeitos revolucionários na indústria, produzindo a 1ª revolução industrial (desde cerca de 1700, até ao presente). 

Igualmente, produziram armamento mortífero em quantidade e qualidade superiores às de outros povos, mesmo das civilizações florescentes e requintadas, como a China ou a Índia. 

A partir daqui e até agora, a dominação económica, política e militar foi mantida pelo chamado «Ocidente». Este passou a incluir países que - estando na órbita política anglo-americana (como a Austrália, a Coreia do Sul, o Japão) - não são ocidentais do ponto de vista da Geografia.  

Porém, em termos de civilização, os países ocidentais experimentam uma enorme fragilidade. Traços como a sua abertura, modernidade, tolerância relativa e avanços científicos e tecnológicos, foram e são ainda o motivo principal para outros povos  - mesmo não aceitando o seu domínio - reconhecerem e admirarem vários dos seus frutos. Muitas elites governantes em nações «Não-Ocidentais» foram formadas e educadas, dentro de valores semelhantes ou idênticos à elites do Ocidente. 

A incapacidade de muitas pessoas comuns - e mesmo dos intelectuais - nos países ocidentais se elevarem acima de uma visão do mundo centrada nas suas próprias raízes, tradições e valores, deve-se a uma arreigada visão racista do que seja a cultura, o valor do intelecto, da espiritualidade, etc. 

É frequente as pessoas pensarem em termos semelhantes ao tempo em que os seus antepassados colonizavam povos e nações noutros continentes (África, Ásia, América Latina), sendo a extensão desses impérios coloniais múltiplas vezes a da área geográfica da própria metrópole colonial. Depois destes países terem perdido as suas colónias, alguns ficam com uma espécie de «orgulho ferido», por terem «sido roubados» esses territórios coloniais à sua nação. No caso de Portugal, a incapacidade de compreender a inevitabilidade da independência das colónias africanas (Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angol, Moçambique) e asiáticas (Macau, Timor-Leste) verificou-se em contactos pessoais tidos com várias pessoas. 

É surpreendente que Portugal, um país tão atrasado, tão cheio de analfabetos, tivesse tanto orgulho em «possuir» estes territórios, que supostamente lhe pertenceriam porque os «conquistou»... Na verdade, o colonialismo mais atrasado, mais retrógado, que sacrificara o próprio desenvolvimento da sua metrópole a manter essas colonías durante uma longa guerra colonial, sem qualquer esperança de ser ganha pelo exército colonial, não desapareceu inteiramente das mentes de certos indivíduos, incluindo nalguns das gerações mais novas, que não conheceram o tempo da guerra colonial. 

Esta perpetuação duma visão completamente distorcida da realidade é o que permite que uma extrema-direita autóctone, com óbvios laivos racistas, se pavoneie nas ruas e agora também no parlamento, com a indiferença dos «democratas» arrumados, endinheirados, que hoje e amanhã serão capazes de fazer coligações com esta extrema-direita. Isto, porque existe muita incultura, mesmo nas pessoas com diplomas universitários: Existe um vazio enorme - um quase silêncio - sobre o que foi verdadeiramente para os povos colonizados, os séculos em que Portugal foi potência conolial. Há mesmo intelectuais «de meia-tigela», que se dedicam a branquear a imagem do colonialismo português, supostamente «mais brando» que dos outros potentados europeus. 

Este complexo colonial tem efeitos graves na mentalidade de muitas pessoas. Estas, não são cultas, mesmo que o aparentem: exibem um complexo de superioridade racial, óbvio ou semi-disfarçado; uma ignorância total das contribuições de outros povos e das personalidades notáveis destes outros povos para o desenvolvimento espiritual, científico e artístico, da humanidade no seu todo; uma incapacidade prática de dialogar com pessoas oriundas de outras culturas; um desprezo pela humanidade dos 4/5 da população mundial; uma total contradição com a matriz espiritual do cristianismo, a religião e berço cultural de que esses indivíduos, quase todos, se reivindicam.  

A persistência deste complexo, tem relação com a forma deturpada como lhes é ensinada a História do seu país, assim como das regiões colonizadas pelos portugueses. Tem também relação com o dogmatismo característico dos ignorantes; aqueles que menos sabem sobre um assunto, são os que falam mais sobre ele, e dão a ilusão (aos incautos) de terem uma vasta cultura, de terem estudado aprofundadamente o assunto, etc. 

A minha convicção é de que será necessário que as gerações mais jovens descolem das narrativas efabuladas e enganadoras sobre o seu passado, que aprendam os factos buscando em boas e diversas fontes, porque só assim estes jóvens podem ter um papel construtivo no mundo de hoje/amanhã. 

Os que estiverem bem equipados cietificamente, mas não do ponto de vista da sabedoria, terão menos hipóteses de ser aceites e de serem apreciados em trabalho de equipa. Pelo contrário, as pessoas que tiverem uma abertura maior às outras culturas, a outras espiritualidades, todas elas dignas e representativas da riqueza da humanidade, estas  não serão marginalizadas, serão acolhidas e terão experiências gratificantes, como muitos de nós tivemos. 

TRUMP, 2 DE ABRIL, EUA: DIA DA LIBERTAÇÃO... PARA QUEM???

 


Segundo Peter Schiff, o dia "da libertação " de Donald Trump vai ser o começo  de um período extremamente penoso para os consumidores dos EUA, de aprofundamento da crise de solvência  das contas públicas, de aceleração  da inflação americana e de escassez de bens e matérias-primas no mercado americano. 

Mas não será  necessariamente assim para o resto do mundo. Será fácil para as economias que exportavam para os EUA bens de consumo, reorientarem-se para outros mercados, incluindo os dos países  emergentes. Haverá também  mais capitais disponíveis para investir nestas economias. Se os países emergentes não imitarem os americanos, taxando tudo e todos indiscriminadamente, vão melhorar a sua posição na competição  mundial. Seria irónico  mas muito justo, que - afinal  - este dia (2 de Abril de 2025) da imposição de tarifas alfandegárias pelos EUA, fosse O DIA DA LIBERTAÇÃO DO MUNDO*, EM RELAÇÃO À  PARASITAGEM DOS EUA SOBRE AS ECONOMIAS DOS PAÍSES  EXPORTADORES.

(*Dentro de um ano, a 02 de Abril de 2026, penso que já estaremos em condições de fazer um primeiro balanço do efeito dessas medidas na economia dos EUA e no Mundo)

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PS1: Prof. Warwick Powell considera aas tarifas uma prenda para a China e os BRICS. Veja AQUI

sexta-feira, 4 de abril de 2025

QUANTO MAIS GRAVES AS ATROCIDADES EM GAZA, MAIS SILENCIOSA É A BBC [JONATHAN COOK]


The graver Israel’s atrocities in Gaza, the quieter the BBC grows
Once again the UK state broadcaster goes missing in action – this time at the discovery of a mass grave of emergency workers executed by Israel                           

https://substack.com/@jonathancookOs nossos políticos têm consentido com tudo o que tem sido feito pelo Estado de Israel, e não apenas em Gaza, nos últimos 18 meses. Este genocídio tem sido cometido ao longo de decénios.


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PS1: Acumulam-se mais provas de que as alegadas violações em massa de mulheres israelitas pelo Hamas, no 7 de Outubro, eram uma completa fabricação de propaganda. Veja aqui: 



quinta-feira, 3 de abril de 2025

TRUMP PRECIPITA A CRISE DO CAPITALISMO DOS EUA

 A ideia de que as tarifas seriam a salvação para a América, possibilitando a sua reindustrialização, é daquelas ideias peregrinas que costumam entusiasmar um público já cativado, um público de crentes nas virtudes de um líder, de uma visão, de uma ideologia. 

Basta pensarmos que reindustrializar um país, envolve a sua profunda transformação em relação a muitos domínios, que  - à partida - não parecem estar correlacionados:

- A educação: esta terá de obedecer a padrões de qualidade, desde os primeiros anos de escolaridade, até à universidade. A deriva do ensino seguindo critérios ideológicos de uma certa «esquerda wooke», apenas afundou todo o sistema de ensino. Faço notar que os chineses tinham aprendido a lição, ao expurgarem seu sistema de ensino da ideologia do maoismo. Esta foi uma condição para progredirem em todos os domínios, incluindo científicos. Eles concluíram, nos anos 1980 no início da era de Deng, que para haver desenvolvimento industrial, era imperativo - ao nível académico -  colocar-se como prioridade a qualidade científica e técnica dos estudantes.

- Num mundo capitalista, são os fluxos de capitais que determinam a prevalência dum setor da economia sobre os outros. Neste caso, estamos a falar da atração exercida pelo lucro fácil no setor financeiro, muito mais atraente pelas suas margens de lucro, em relação ao investimento industrial. Como consequência do processo, muito capital foi para atividades financeiras. O capital industrial viu-se privado de grande parte do financiamento necessário, nos últimos 40 anos. Para se inverter esta tendência, seriam necessárias enérgicas medidas, limitando o investimento em ativos financeiros e forçando o investimento em projetos industriais. Dificilmente consigo imaginar - no curto prazo - tal viragem, num sistema de «capitalismo liberal». 

- A existência de tarifas terá sido protetora numa fase bem particular dos EUA. Na sua ascenção a potência industrial de primeira grandeza, o «gilded age», deu-se o crescimento vigoroso da indústria, por volta dos finais do século XIX, princípios do século XX. Mas, neste contexto, tratava-se de impor tarifas alfandegárias em produtos acabados. As matérias-primas, pelo contrário, tinham tarifas baixas. Também os produtos manufaturados de grande relevância para a indústria, como as máquinas industriais, as ferramentas, tudo o que fosse essencial para o desenvolvimento da capacidade industrial dos EUA, beneficiou de regimes de exceção, permitindo a sua importação. Estes equipamentos necessários eram provenientes, em maior parte, do Reino Unido, da Alemanha, da França e doutros países. Pelo contrário, hoje a Administração Trump não estabelece selectividade em relação às tarifas nas classes de produtos a importar. Existe apenas «punição», país a país, pela sua suposta não-conformidade ao domínio dos EUA na cena mundial. 

- A criação de ambiente favorável à produção industrial e sua (re)implantação nos EUA, implicaria o esforço direccionado para setores considerados prioritários. Implicaria um claro dirigismo da economia pelo Estado, ao contrário do que se verifica atualmente nos EUA e nos países de capitalismo financeirizado, onde os gigantes tecnológicos, não apenas ditam a política industrial, como a política global. A inversão disto, implicaria que o setor mais forte no capitalismo dos EUA, seria derrotado e colocado sob tutela do poder político. Só a ascenção dum Estado do tipo totalitário poderia realizar esta proeza. Não prevejo -por enquanto - uma mudança desta natureza, na política dos EUA. 

- A subida das tarifas, enquanto meio de proteger a produção de bens industriais americanos, não existe. Simplesmente, os EUA estão - desde há decénios - destituídos de capacidade industrial para fabricar a enorme maioria dos bens industriais importados. Ao contrário da política proteccionista num país que já produza esses bens industriais, a imposição de tarifas nos EUA irá somente desencadear o encarecimento geral e brutal dos bens industriais e de consumo. 

- Quanto às indústrias que subsistem nos EUA, estas estão dependentes de muitas componentes fabricadas no exterior, de instrumentação, etc., de produtos semi-transformados, como o aço, etc... Esta subida indiscriminada de tarifas vai ser um fator suplementar de estrangulamento para as indústrias que não deixaram os EUA. Considero provável que se acelerem as falências das pequenas e médias empresas, após algum tempo de vigência deste regime tarifário, cego e brutal.  

- A estrutura produtiva dos EUA já estava no limiar do descalabro, mesmo antes da entrada em vigor destas tarifas. Agora, mais rápida e mais violenta, virá a hecatombe industrial, e em paralelo com o brusco agravamento da inflação.


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PS1: Prof. Jeffrey Sachs sobre as tarifas:

🇺🇸JEFFREY SACHS:

"Tariffs are going to lower living standards.
They're going to wreck the US economy, and they're being put on for unbelievably bizarre and mistaken reasons that are completely fallacious.
Let me explain.
The United States runs a large deficit in its trade in goods and services — what's called the current account of the United States — and that deficit is about a trillion dollars.
Trump says, 'Oh, that's because other countries are ripping off the United States.'
I can't even begin to say how absurd that line is.
[The word is childish.]
Running a current account deficit means — and it means precisely — that the United States is spending more than it's producing. That's what leads to a deficit. You spend more than you produce.
And we spend more than we produce because we have very low savings in this country. We have an enormous budget deficit.
So the government is like the national credit card — it runs on credit.
It transfers money, pays for wars, pays for Israel’s wars, pays for military bases in 80 countries around the world, pays for that more than a trillion-dollar-a-year military establishment, and hundreds of billions more of associated spending on the military-industrial complex.
And it gives tax cuts for the richest Americans.
It allows for tax evasion by the richest Americans — and I mean evasion, because it doesn't do audits, and it guts enforcement of the tax laws.
So we hemorrhage deficits and have rising public debt.
And because of all that, the spending of our country is much larger than our national income.
It’s a trillion dollars more than national income.
It is exactly the imbalance of our imports of goods and services over our exports of goods and services.
All of this is to say that what Trump calls a 'ripoff' is just the absolute irresponsibility of the political class in Washington.
It's a corrupt, plutocratic gangsterism that gives away the taxes and tax cuts to the richest people and goes on war after war — on credit.
And that leads to these large deficits that Trump then blames on other countries.
Now he's going to correct these deficits, he thinks, by raising tariffs.
And of course, it's going to do nothing of the kind.
The deficits are going to continue because they come from the profligacy of Washington.
They don't come from the fact that other countries are ripping us off.
So he'll raise the tariffs. Americans will shift their spending, say, from an imported automobile to domestic automobiles. That's true. They'll pay higher prices for those domestic automobiles. And our auto industry will export less abroad.
So yes — there will be fewer imports and fewer exports, and the balance won’t budge.
And none of it's going to change the fiscal recklessness.
Because what's Trump’s highest aspiration? It is to continue tax cuts for the richest Americans, which is going to cost another $4 trillion over the next 10 years in the budget.
Because these tax cuts are supposed to end, but he says, 'No, no, no — these are taxes for my rich donors, so they're going to continue.'
So he's not going to solve the budget crisis.
He's not going to solve the trade deficit — because that comes from the budget crisis.
But what he's going to do is lower the living standards of our country and the world.
Because trade is beneficial in living standards — it's called gains from trade.
We buy more cheaply. We sell goods that we have a comparative advantage in. And both sides gain from trade.
Of course, we overdo it, because we overspend — but that’s a completely different thing.
No one’s ripping off the United States by these numbers.
I don’t know whether it's just rhetoric or ignorance or confusion, but it's unbelievably bad economic policy.
It will come to no good.
And incidentally, you mentioned rightly that tariffs are, of course, a tax. So who’s supposed to have authority over taxes?
[Congress.]
And Congress has nothing to say in this. This is a one-person show.
What did we become in this country? Even King George wouldn't levy taxes without the British Parliament in the 18th century.
So what happened to this country? Trump just says, 'Oh, it's an emergency,' and now we have one-person rule — and one-person rule on completely fallacious premises that don’t pass the first day of study of what a trade deficit is.
I taught that for more than 20 years at Harvard University — what is a trade deficit, how does it relate to the excess of spending over production, how does it relate to the excess of investment in a country over a low saving rate?
Well, none of this seems to register.
No one asks a question.
There isn’t a day of hearings.
There isn’t any analysis.
It’s a one-person show based on economic fallacies that are going to wreck our economy, wreck the world trading system.
And I can tell you — all over the world, because I am talking with leaders all over the world, and recently in Asia — the words to describe this, you can’t say in polite company."



terça-feira, 1 de abril de 2025

AS SOCIEDADES ESTÃO EM COLAPSO... PARA LÁ DELE, O QUE VIRÁ?

 Estamos a viver o colapso. 

A chamada civilização ocidental está a desfazer-se diante dos nossos olhos e não se trata dum fenómeno natural. É resultante da vontade da oligarquia, dos multimilionários, que constituem a «super-classe» capitalista. Esta tem ditado a agenda, não apenas em relação à concentração do capital, com a consequente potenciação dos lucros, como em relação ao poder político, em particular, nos grandes potentados imperialistas. 

Não se pense que este processo de demolição seja inteiramente caótico; porém, para nós, que estamos por baixo, ele parece efetivamente um caos, uma catástrofe, um pesadelo: tudo aquilo que tivemos, como mais ou menos certo e seguro nas nossas vidas particulares e sociais, se está a desmoronar. Mas o processo é - afinal - de uma demolição controlada, programada com o rigor necessário, para que não sejam postos em causa os fundamentos da sociedade capitalista. O processo tem sido designado por vários nomes, entre eles «The Great Reset» e outros chavões e frases ideológicas que se destinam a fazer crer numa explicação do que está a acontecer, mas sem dar realmente as chaves para a compreensão global dos fenómenos. 

Não serve de nada dizer que «o capitalismo está em crise»: De facto, a crise é um dos principais processos que ele tem, enquanto modo de produção, para se adaptar aos novos contextos, desde invenções e suas aplicações na economia, até às transformações na política das grandes potências.

O que o processo atual mostra, não é que o «capitalismo esteja a morrer», longe disso; podemos ver como ele se está a desenvolver de modo pujante, na Ásia, em particular, na China. Mais uma vez se constata que está na própria natureza do sistema capitalista, a sua adaptação  ás grandes transformações. 

Hoje, a exploração já não se limita ao trabalhador individual, embora esta persista e até se tenha intensificado, nos últimos decénios. São relativamente novas, as modalidades de exploração  da classe operária através do Estado todo poderoso, o capitalismo de Estado. A primeira versão - a soviética - acabou por se afundar nas suas próprias contradições. Mas o modelo «misto», o «socialismo com características chinesas», tem mostrado o seu vigor. 

A classe capitalista ocidental não se engana ao colocar na China uma parte importante do aparelho produtivo das suas empresas, em estabelecer parcerias «win-win» com o Estado chinês, a fazer depender a extração de lucro do funcionamento bem oleado da exploração da classe operária chinesa, sob o controlo político da «elite comunista». 

As pessoas, no Ocidente estão ainda a pensar em termos de ontém, ou mesmo, de antes-de-ontém. Não veem que, para se perpetuar o sistema capitalista no Ocidente, informatizado, digitalizado, robotizado, elas terão de se submeter à intensificação da exploração, que implica precariedade, dependência aos mecanismos assistenciais e a completa destituição social para os 90%, enquanto uma reduzida classe média irá servir os interesses da classe neofeudal, os 0.01%.

Esta classe neofeudal não terá muitas das características da classe feudal histórica: Não haverá ligação à terra, às grandes propriedades agrícolas; não haverá títulos de nobreza hereditária, embora as fortunas passem de geração em geração. Mas será uma nova classe feudal e a sociedade estará em breve debaixo deste novo feudalismo, pois as pessoas comuns terão perdido qualquer réstea de liberdade de movimentos, qualquer hipótese de determinar a sua carreira ou profissão, apenas terão escolha (se isso se pode chamar assim) entre serem assistidos crónicos, recebendo o mísero rendimento universal, o mínimo de subsistência na nova sociedade, ou submeterem-se a condições de exploração máxima, competindo com robots e algorítmos de IA, escravos-assalariados num dos gigantescos conglomerados mundiais que acumulam produção, serviços e comércio, como já se verifica na Coreia do Sul, com os "Chaebol" (Samsung, Hyundai, LG...).

Isto não é sequer a descrição de um futuro sombrio. Porque é o presente; está o mundo encaminhado nesta direção, quer queiramos quer não. Algumas regiões do mundo mostram-nos o seu presente, que será também o nosso, no futuro próximo. As muitas variações superficiais escondem a uniformidade do modo de agir e de explorar  os recursos, humanos e naturais. 

A capacidade das pessoas comprenderem o que se está a passar é sempre muito limitada. Na melhor das hipóteses, conseguem delinear as tendências principais. Mas, não podem socorrer-se duma teoria, seja ela qual for. A razão disto, é muito simples: os dados de que uma pessoa, ou um grande número de pessoas, dispõe sobre o presente, são limitados; há dados que pura e simplesmente não estão disponíveis, seja intencionalmente ou não. Há até elementos de informação não disponíveis, porque os investigadores das áreas de economia, sociologia, etc, não os consideram relevantes. Mas, alguns deles serão relevantes, apesar da opinião dos «especialistas». 

Por outro lado, é sempre necessário um certo recuo histórico para se ter uma ideia geral da evolução social e económica. Não podemos fazer «história do presente», isso é somente a projeção da nossa ideologia sobre as ocorrências que se podem observar. Então como encarar a atual transformação? Como encontrar o fio condutor para se avaliar as evoluções possíveis?

As grandes transformações saem sempre fora dos modelos estabelecidos. Nada do que é realmente novo se pode plasmar numa realidade do passado. Quando se usa o termo «neo-feudalismo», é porque há aspectos superficiais que evocam o período feudal, mas sobretudo porque não se conseguiu compreender a lógica do supermonopolismo que se vem afirmando em diversas partes do globo.

Os arautos do capitalismo, por mais que possuam títulos académicos, apenas reproduzem a lenga-lenga «da sociedade de livre concorrência», do «livre mercado». Porém, esta visão está longe de corresponder à realidade. 

O que um grande grupo capitalista atual faz, é tentar minimizar a concorrência, a todo o custo e por todos os processos. Desde a influência no aparelho de Estado, para colocar em inferioridade os seus concorrentes, às fusões e aquisições, para neutralizar o potencial de crescimento doutras empresas operando no mesmo sector, ou ainda outras e diversas táticas, envolvendo patentes, ou redes exclusivas de distribuição, etc. Se estudarmos - no concreto - a estratégia dos grandes grupos, vemos que sua máxima preocupação é conseguir uma situação de monopólio no mercado e, uma vez conseguida, mantê-la,   usando toda a panóplia de meios legais e ilegais, para liquidar toda a concorrência, logo à nascença, se possível.

A sociedade capitalista atual será portanto caracterizada pelo domínio estratégico de grandes conglomerados, monopolizando setores inteiros ou, nalguns casos, partilhando o mercado apenas com um, ou com poucos concorrentes, em duopólio ou oligopólio

Nesta sociedade, algumas atividades são deixadas a empresas familiares ou outras, porque não desempenham papel relevante para o controlo estratégico dos mercados. Mesmo nestes casos, difundiu-se o sistema de  «franchising» ou seja, a exploração por concessionários, com a empresa-mãe a controlar tudo o que é produzido e recebendo uma renda, pelo facto do concessionário ter autorização para usar a marca prestigiosa.

Nesta sociedade, a produção em massa será abundante e barata: o trabalho humano será quase nulo e servirá somente para controlar os robots em ação. Uma cadeia de montagem de automóveis - atualmente - corresponde ao novo paradigma, onde quase tudo está robotizado, sendo a parte humana confinada a duas áreas: a concepção dos modelos, assistida por algorítmos de IA; e o controlo do produto saído da cadeia de montagem, também este assistido por computadores utilizando IA.

Numa sociedade com caraterísticas socialistas ou igualitárias, o mesmo processo de produção iria permitir uma sociedade com ócios maiores; as pessoas trabalhariam apenas 4 horas por dia, 5 dias por semana, por exemplo. Numa sociedade onde o bem-estar das pessoas é uma preocupação central, a robotização seria algo muito positivo: Iria livrar os humanos da execução de trabalhos perigosos, insalubres, fatigantes, ou repetitivos. Mas numa sociedade onde as assimetrias sociais se extremaram, isso não irá passar-se assim. Dum lado, os  multimilionários, do outro, pessoas destituídas, relegadas aos trabalhos pouco ou nada prestigiosos... Nesta sociedade, a robotização, a generalização da IA, irá servir para acentuar as condições de exploração e de submissão dos assalariados. Estes, não terão boas condições de vida, serão menos considerados que os robots, tanto mais que haverá um abundante «exército de reserva» de desempregados, ou de ultra-precários.

As condições objetivas da transição para uma sociedade de tipo socialista estão reunidas, e isto não é de agora. No final do século XIX, já se podia claramente afirmar a mesma coisa. Certamente, as condições concretas de produção eram totalmente diferentes, das de hoje. Mas o fundamental estava realizado, tanto no passado, como hoje: A existência dum excedente, do qual os produtores podiam beneficiar ( se conservassem o fruto do seu trabalho), permitindo-lhes ter uma vida digna, ao abrigo das carências vitais. 

Hoje, as condições objetivas existem, embora não pareça ser o caso, porque enormes quantidades da riqueza social produzida são constantemente desviadas para o usufruto exclusivo dos oligarcas parasitas, ou para construções faraónicas dos Estados, os quais estão controlados pela oligarquia e não pelo povo.

A transformação para um tipo real e realizável de socialismo é sobretudo obstacularizada pela campanha permanente, contra tudo o que - no passado e no presente - se aproxime do modelo socialista. Os  próprios (nominais) defensores do socialismo, por vezes, têm contribuído para desprestigiar este modo de produção, junto dos trabalhadores. 

A batalha pelo socialismo faz parte de uma luta multissecular, que implica - antes de mais - uma ética própria, que tem de se desenvolver nas fileiras dos que efetivamente desejam o socialismo. Para um modelo destes ser realizável, é preciso que existam estruturas sociais, como cooperativas, comunas (rurais ou urbanas) e associações de tipo igualitário, que irradiem uma cultura diferente e apelativa. A atração por outro modo de vida e por relações sociais mais satisfatórias a todos os níveis, tem de ser essencialmente através do exemplo. Só assim se poderão vencer os preconceitos e campanhas difamatórias dos propagandistas pró-capitalistas. 

O «New York Times» Admite Que A Ucrânia Foi Uma Guerra Dirigida Pelos Americanos.

 Depois de mais de três anos, antecipando-se à restante media mainstream do Ocidente, o New York Times, vem - através de um longo e detalhado artigo - mostrar aquilo que muitos de nós (opositores à guerra) sabíamos desde o princípio. O famoso estribilho de que os russos eram os responsáveis porque levaram a cabo uma «guerra não provocada» cai pela base, a partir da própria boca dos arautos do império americano. 

Isto significa, além do facto de que a media mainstream se tornou mero apêndice de propaganda dos poderes no Ocidente, que a guerra está inapelavelmente perdida do lado da OTAN

Eles, no NYT, sabiam perfeitamente  a verdade sobre a maior parte do que  -agora - contam com enorme desenvoltura, como se não tivessem participado na  empresa de construção da narrativa [= propaganda de guerra] destinada a provocar a adesão do público. Para conservar alguma credibilidade, precisam de apresentar esta narrativa, completamente contrária à que andaram a promover, desde o golpe de Maidan de 2014. Uma «revelação», na realidade uma confissão, mas indispensável para a  «limpeza» da sua imagem. Eles precisam desta reviravolta para continuar o seu «business». 



«The New York Times Had Now Revealed That The Ukraine War Was An American Led Proxy War And Offers Some Shocking New Details.»

(O New York Times Revelou Recentemente Que A Guerra Na Ucrânia Foi Uma Guerra Dirigida Pelos Americanos E Dá Conta de Alguns Novos Detalhes Chocantes).


Leia o artigo pelo «The Dissident» AQUI

segunda-feira, 31 de março de 2025

REFLEXÃO: OS PIORES INIMIGOS DOS EUROPEUS

Esqueçam todas as carradas de propaganda disfarçada de informação que vos têm feito engolir, às pazadas: a propaganda do medo é a dos poderes oligárquicos, que têm de vos instilar o medo do «outro», do inimigo, do «bárbaro», só assim as pessoas comuns ficarão preparadas para odiar aquilo que desconhecem, para entrar em sintonia com a histeria anti-qualquer coisa.

As campanhas de ódio servem para desviar as pessoas dos verdadeiros problemas, das questões prementes do seu quotidiano. Como irão ganhar o sustento, quando nem com dois ordenados têm o suficiente para suprir as necessidades básicas? Como se poderão precaver de situações como a doença, um acidente ou quaisquer acontecimentos não previstos, mas com graves consequências nas suas vidas?

- As pessoas procuram segurança e bem-estar para os seus, em primeiro lugar para as crianças, dando-lhes afeto, satisfazendo suas necessidades de alimento, agasalho e teto; também de uma educação de qualidade, que os forme para a vida, para serem agentes ativos do seu próprio futuro, com independência.

- Quais são os pais e mães que não desejam isso, que não anseiam por que isso não lhes falte? Estas preocupações são legítimas e humanas.

Os políticos estão muito longe de as satisfazer; na verdade, subiram ao poder com promessas vazias, que esqueceram, logo que foram eleitos. É com essas pessoas que os Estados são desencaminhados; assim, eles atribuem prioridades de financiamento para o rearmamento, para as guerras. Quer o digam quer não, é claro que se vai cortar na satisfação das necessidades reais do povo, nas despesas com a saúde pública, com a educação, nas pensões de reforma e nas proteções sociais; contra o desemprego, contra doença incapacitante, contra catástrofes (inundações, tremores de terra, incêndios), que podem afetar uma ou várias comunidades.

As guerras só servem os ricos; a falácia de que a indústria de guerra é geradora de riqueza cai pela base, se virmos que ela apenas enriquece os acionistas das empresas de armamento, mas empobrece duradoiramente as nações, os contribuintes, pois serão estes que terão de pagar as enormes despesas improdutivas.

Qualquer investimento numa área social ou em infraestruturas é susceptível de gerar, a prazo, mais riqueza do que aquela que foi gasta para realizar a obra. Mas, as despesas com armamento são improdutivas, na sua essência, pois se não forem utilizadas só «servem» para ficar armazenadas; mas se são utilizadas, ainda pior, pois causam grandes destruições: mortes, estropiados, devastação, miséria.

A deriva belicista dos poderes na União Europeia é consequência da oligarquia sentir que o chão lhes está a fugir debaixo dos pés; que não tem nada para justificar sua loucura, com a qual destruíram a Ucrânia, empurrando-a para uma guerra suicidária contra a Rússia*. Ato profundamente estúpido e criminoso, em si mesmo, ainda agravado pelo facto de que sabiam desde o início que o desenlace só podia ser a derrota militar ucraniana, face às forças bem maiores e melhor equipadas da Rússia.

E tudo isto, para quê? Para satisfazer a gula insaciável de multimilionários, que viam a sua fortuna na guerra e na hipotética derrota da Rússia, abrindo este imenso país à pilhagem dos seus recursos. Esta é que foi a verdadeira motivação, por detrás do insuflar da guerra às fronteiras da Rússia, usando todo o apoio logístico da OTAN, incluindo a participação no reconhecimento, em teleguiarem os mísseis para os alvos, no treino de tropas da Ucrânia durante longos anos antes de 2022, que se dedicaram à limpeza étnica nas Repúblicas do Don (14 mil mortes civis em 8 anos), que se tinham insurgido perante o Estado, oficialmente russófobo, resultante do golpe de Maidan. 
O objetivo estratégico era bem claro: Ficaria a OTAN às fronteiras da Rússia, o que significava a colocação de mísseis de longo alcance, a 4 minutos de atingirem Moscovo, inviabilizando assim qualquer defesa anti-míssil, do lado russo.

A criminalidade dos dirigentes não me oferece dúvidas, pois eles sabiam isto perfeitamente e estavam de acordo em jogar este jogo. Eles destruíram as vidas de centenas de milhares de ucranianos e de russos, além de também colocarem as nossas em risco direto. Eles devem ser julgados por tribunais adequados, que determinem para além de que qualquer dúvida, as suas responsabilidades nestes crimes.

A cidadania europeia adormecida, embalada, ignorante ou crente na propaganda mais descarada, tem as suas responsabilidades, também: Os apoiantes destes políticos criminosos, vejo-os como coniventes. O que teriam eles (esses meus concidadãos) a menos, em termos de capacidade cognitiva, de bom senso e de formação, que um grupo - infelizmente minoritário - de outros cidadãos, opositores à guerra?

Os piores inimigos dos europeus são os próprios europeus: Porque descreem nos valores que enformaram a sua civilização: O humanismo, o respeito mútuo, a promoção da paz e do entendimento entre os povos.

É confrangedor notar se proclamem «cristãos» muitos destes europeus, mas que espezinham os valores que derivam, numa larga medida, da moral cristã. É certo que houve períodos, ao longo dos séculos, de destruições e guerras, mas também se construiu, ao longo desse tempo, uma forma de relacionamento mais humana, mais respeitadora dos outros povos, que nos habituámos a considerar como formando o substrato comum da «civilização europeia». Infelizmente, isto é uma ilusão, um verniz que estala com a maior das facilidades.

Gandhi, numa entrevista, em que lhe perguntaram o que pensava sobre a «civilização europeia»: Ele respondeu, «Acho que é uma boa ideia»... [ou seja, algo que ainda está por acontecer!].
Antes, considerei que ele exagerava um pouco; agora penso que, afinal, a sua resposta era absolutamente objetiva: Nós não evoluimos nada; somos tão destituidos de civilização como nos séculos anteriores.

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* Atualmente, mesmo um órgão tão comprometido com o imperialismo como o New York Times, reconhece no artigo  “The Partnership: The Secret History of the War in Ukraine”, as responsabilidades dos EUA em empurrarem a Ucrânia para a guerra com a Rússia.