quarta-feira, 12 de agosto de 2026

MEDITAÇÕES [12 DE AGOSTO DE 2026]

 A  constante agitação e desatenção em relação ao próprio e aos demais, como se toda essa agitação fosse positiva, é o fenómeno visível do descentramento de certas pessoas.

Mas, a agitação não é a ação.  É a expressão de uma inquietude , de uma instabilidade, dum  desejo insaciável.  Esta sociedade impregna seus membros, desde crianças, com os seus não-valores. Reforça  assim a crença na hierarquia, na meritocracia e na visão dicotómica do mundo.

O sábio não vai contrariar a maré de estupidez, não vai tentar convencer as pessoas de que não estão certas; isso seria inútil e até perigoso. 

Não é errado estar centrado em si mesmo. Não significa que se esteja num postura egoista, pelo contrário: Poderá ser um modo de estar responsável, ciente de que se tem de cuidar de si próprio, dos seus assuntos, da sua vida, não sobrecarregando os membros da família e os amigos com obrigações que são as do indivíduo. Salvo situação de incapacidade por doença, cuidar dos seus próprios assuntos é elementar. Sem o grau de autonomia acima mencionado, como é possível desempenhar um papel lúcido e consciente no seu entorno imediato e na sociedade em geral? 

Estar consciente da efemeridade da vida, não quer dizer desleixar diversos aspectos relacionados com o presente e o futuro. Quem se desinteressa da sua manutenção própria e da sua família, não está a ser altruísta, nem desligado dos interesses materiais. Pelo contrário, está a ser parasita dos outros, da família e da sociedade, visto que ninguém sobrevive sem receber algo dos outros. 

Na época que atravessamos, estar consciente de como a vida é efémera, deveria aumentar o cuidado de si próprio e dos outros.  

Por outro lado, a valorização de cada dia, de cada instante na nossa vida, deveria obrigar à maior consciência do que se faz, ou do que se omite. 

Somos tanto mais realizados e a nossa vida é tanto mais harmoniosa, quanto mais nossas ações se conformarem com ideias que assumimos. As ideias podem ser muito boas, teoricamente, mas sem a sua aplicação no domínio do real, apenas são sonhos. Sonhos por realizar, não substituem as realizações práticas da vida. 

Quando oiço alguém me falar de seus «projectos de vida», sei que ele não viveu e que provavelmente irá passar ao lado das coisas importantes da vida. Mas, não vou corrigi-lo, porque isso seria inútil, talvez causador de antipatia em relação à minha pessoa. Em todo o caso, seria compreendido de um modo equivocado, como se tivesse dito que é 'incapaz', 'incompetente'. 

Não! As pessoas estão sob o efeito hipnótico da cultura da «performance», que as empurra a correr sempre e cada vez mais, a esforçarem-se, custe o que custar, em busca duma ilusória «recompensa» social e monetária.

Não é pelo facto de se saber muito, que se aumenta o seu potencial de realização concreta, prática, real das coisas da vida. As pessoas não são ensinadas levar a cabo uma aprendizagem útil, no momento adequado das suas vidas e recorrendo aos meios pertinentes. 

Não! A totalidade da juventude é encaminnhada para uma corrida ao diploma, que obriga a assimilar um dilúvio de livros e artigos, a atafulhar o cérebro com um amontoado heteróclito de conceitos, treinando a regurgitação do que ingeriram (mas não assimilaram), a serem áses a responder aos testes - completamente imbecis - de resposta múltipla. 

Assim, o establishment da educação, particularmente os ministros da educação e sumidades académicas, garantiram a prevalência social da mediocridade, da falsa noção do mérito, da incompetência prática, mas com «excelentes» classificações... Sei de exemplos concretos disso e estou certo que os leitores também conhecem este novo tipo de imbecil - o «imbecil erudito». 

Dá-se o paradoxo aparente seguinte: Houve um grande aumento da educação e dos graus académicos mais elevados, em praticamente todas as sociedades, em paralelo com maior incompetência em termos de saberes (skills) sociais e - mesmo - de saberes teóricos que -supostamente- os alunos teriam adquirido no curso universitário. 

O paradoxo é aparente, pois a finalidade da extensão de cursos e formações universitárias, tem como objectivo primeiro capturar as pessoas jovens numa rede de dependências, de sujeição perante a autoridade, de aceitação do status quo e da halucinação da meritocracia. De outro modo, a juventude iria revoltar-se com dez vezes mais energia e - sobretudo - mais coerência do que o fez em tantos países, nos finais dos anos 60. 

No conjunto de muitos milhares de jovens, há sempre alguns que são excepcionais, que realmente fazem a diferença: são os inovadores. Mesmo estes, muitas vezes, são desprezados ou reprimidos, pois o génio, o talento, vão de par com irreverência, com o não acatar da autoridade. Se virmos o «output» real do sistema de ensino, verificamos que é dum enorme desperdício.

Mas será isso fruto de incompetência de dirigentes políticos e planificadores? - Com certeza que não; pois estes têm feito sempre com que as tendências acima indicadas se acentuem. Quem deseja uma mudança real ao nível dos efeitos, não irá insistir nas mesmas causas, que estão na origem das disfunções do sistema.



PS1: Hoje, dia de eclipse total do Sol, na Europa Ocidental, fenómeno  que anteriormente ocorreu em 1912, enquanto eclipse solar total nestas regiões.  Sei que se trata dum fenómeno astronómico apenas, mas, simbolicamente, vejo-o como aviso da Mãe-Natureza. 

A Europa e o Ocidente estão em decadência acelerada, em colapso civilizacional. Gostaria que o ponto mais escuro do dia de hoje fosse o ponto de novo arranque  para a luz do conhecimento e da sabedoria.

  

YIN-YANG NA FILOSOFIA DO TAO




Comentário de Manuel Banet


Este filósofo Taoista coloca o conceito de Yin-Yang no seu verdadeiro significado, dentro da filosofia do Tao (Dao).
O exemplo do conceito Yin-Yang ilustra a situação geral. A filosofia Daoista é muito mal interpretada por pessoas que não compreendem nada da sua essência, apenas se servem dos símbolos, impondo-lhes significado que eles não têm.
Eu constato que a compreensão comum nos nossos países do Ocidente, sobre o Oriente é completamente equivocada.
Por contraste, constato que um oriental de cultura «média» está muito mais familiarizado com a cultura ocidental, suas religiões, seus filósofos, políticos, sua música, etc.
Ao nível individual há - com certeza - muitos casos que contrariam as afirmações das duas frases acima. Porém, verificam-se globalmente, ao nível da difusão dum estereótipo.
A imagem projectada das culturas exóticas em relação à nossa cultura, mostra uma ignorância abismal.
Não creio que seja «culpa» da cidadania dos países ocidentais. São fornecidos imagens, estereótipos, «fast-food mental», constantemente pela media.
Ora, a media corporativa tem como princípio e guia «as audiências»: O que favorece o aumento de audiências «é bom», o que retira audiências, «é mau». O que reforça os preconceitos das pessoas, fâ-las sentirem-se «melhores», mais «inteligentes», em «empatia» com o emissor da mensagem e portanto com o próprio medium em causa.
É esta uma das causas da falsificação permanente de filosofias orientais, da sua ocultação através da exibição de «clichés», apesar de esforços válidos e de qualidade, no Ocidente, como de Alan Watts e doutros.
A outra causa é ainda mais sombria: É o arreigado racismo, supremacismo e etnocentrismo dos que controlam a opinião pública: Os chamados «opinion makers», os políticos, os empresários, os falsos intelectuais... Alguns deles, têm enorme pobreza espiritual interior, uma mentalidade completamente retrógada, mas têm que a disfarçar, para não perder a audiência.
Então, deformam tudo aquilo que não compreendem, dão a «versão» cómoda para eles, pois podem assim atacar impunemente esse «homem de palha». Assim, o mundo das ideias acaba por ser o reflexo (deformado) do mundo dos interesses materiais mais mesquinhos.


Manuel ( 12 de Agosto de 2026)


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COMPLEMENTO:


WU WEI EXPLICADO 
https://youtu.be/ymejSLrS9dw?si=0rxPE0GL5gwUcl1J

terça-feira, 11 de agosto de 2026

RICOCHETE OU OS LIMITES DO PENSAMENTO CIENTÍFICO



 O lançamento de uma pequena pedra na superfíe da água, pode originar um ressalto da pedra, chocando com a superfíce líquida num determinado ângulo, compatível com o ressalto. Não existe determinismo neste exercício que todos fizemos em crianças (ou adultos) à beira-mar ou de um lago. Sem dúvida a nossa experiência é decisiva para o número de vezes em que a pedra pula - em saltos sucessivos - na superfície aquosa. Porém, a forma e o tamanho da pedra também contam, tal como a movimentação da massa aquática. São fatores, todos os «especialistas» do ricochete concordarão, mas são difíceis ou impossíveis de determinar ou de quantificar. 

Pessoas treinadas na visão analítica da ciência física, dirão que as variáveis são muitas, mas não infinitas; que elas são todas quantificáveis, só que o dispêndio de tempo e energia para tal, não se justifica,  se for apenas para analisar a performance dos atiradores... 

Contrastando com a visão reducionista e analítica, os cultores da ação espontânea, do ímpeto vital, da vontade psíquica comandando a matéria, dirão que a arte de fazer ricochete com pedras à superfície dum charco, tem de existir, ser  treinável e aperfeiçoável, senão, como haveria de existir um progresso significativo na perícia dos lançadores? Por maior número de lançamentos que fizessem, teriam sempre o mesmo grau de sucesso, ou de insucesso!

Se a visão quântica do Universo prevalece, teremos um certo número de explicações científicas. Se predomina a vertente ondulatória, será um conjunto diferente de «leis» e modos de ver o real. Mas, nas duas visões do Mundo, existe determinismo:

- É um determinismo «granular», no caso da visão quântica. Não são poucos os paradoxos, reais  ou aparentes, que emergem de tal visão. Os físicos estão - há mais de um século - a tentar integrar as novas leis nos seus cérebros, feitos para o mundo visível e não para o mundo subatómico.

No caso da vertente ondulatória, teremos múltiplas questões, como:

A velocidade constante das ondas luminosas; a interferência entre feixes luminosos, causando extinção nos nódulos; a não materialidade da luz e das ondas electro-magnéticas; o seu percurso constante e quase sem perdas de energia, desde os confins do Universo. Etc.

 Também neste tópico se colocam questões da nossa percepção dos fenómenos, como os limites e erros do sentido da visão e o que isso implica para a compreensão da realidade. 

Que um fenómeno se «faça» ondulatório quando o observador se dedica a observá-lo; quando mede as propriedades ondulatórias do mesmo; ou que o mesmo fenómeno se «faça» quântico pela mera observação  (sem interferência?) da nossa parte, parece-me ser a interpretação  na origem da experiência mental do «Gato de Schrodinger». Que o fenómeno não seja, na essência, nem uma coisa, nem outra; nem sequer seja as duas, cabendo ao observador captar os parâmetros de uma ou de outra... é muito difícil de aceitar, pois entra em conflito com a realidade sensível à nossa  escala e com o nosso sentido de lógica. 

Na raíz dessa dificuldade, partilhamos todos uma noção espontânea de que, quando observamos um dado fenómeno, ele tem subjacente uma realidade física, independente do observador, uma realidade intrínseca, mesmo quando não estamos lá, e mesmo quando não haja «matéria», mas um pacote quântico de energia do fotão.

Dada a imensa complexidade e diversidade dos mundos naturais e das «leis» que nós atribuímos aos objetos e fenómenos, deveríamos ter uma enorme humildade e precaução, ao interpretar o que observamos. Sem dúvida, os profissionais da ciência -  treinados para inquirir sobre o mundo físico e as suas «leis» - deveriam ser o exemplo mesmo dessa humildade. Porém, eles têm muitas vezes uma enorme soberba, uma auto-confiança excessiva, querem impor as suas «verdades» (teorias) aos outros, etc.  

Um princípio de bom-senso e sabedoria, especialmente dos cientistas, seria analisar a complexidade de um fenómeno. O ricochete de pedras na água, é afinal um entre muitos, de banalidade aparente. Porém, se tentarmos encontrar uma «lei», com um grau mínimo de validade, de poder predictivo e como guia empírico, veremos que as situações reais são muito mais complexas do que aparentam. No caso em exemplo, a pessoa treinada em lançar as pedras para obter ricochete, adquiriu a sua habilidade técnica à custa de centenas ou milhares de ensaios, mas sem nunca ter pensado na física do fenómeno. Ou, se a pensou, foi antes como um questionar, não como ter de seguir uma sequência lógica, racional decorrente do enunciado de uma «lei».  

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O JAPÃO À BEIRA DO COLAPSO, AGORA [Crónica da Terceira Guerra Mundial nº69]


O vídeo acima mostra como as relações laborais no Japão são destrutivas da própria vida dos trabalhadores, causando também uma sociedade doente: Nas esferas da família, da juventude, da educação e mesmo do ponto de vista espiritual. 

Não se deve esquecer como foi erguido o sistema político, depois da derrota da IIª Guerra Mundial, graças à «protecção» do ocupante americano, que se preocupou mais em manter o Japão dentro do círculo dos países anti-comunistas, tal como a Alemanha Federal, do que em criar as condições de uma democratização verdadeira, expondo os crimes do governo e militares do regime imperialista derrotado. 

Nos países que estiveram associados ao «Eixo» e que depois ficaram na esfera de influência americana, as pessoas que formaram a elite pós-IIª Guerra Mundial eram - em larga percentagem - agentes dos grandes capitalistas associados aos governos fascistas, dos quais tinham beneficiado. 

Todos esses fatores juntos foram criar um bloqueio. Em todos estes anos, pós IIª Guerra, a sociedade, a economia e a política japonesas nunca puderam «virar a página» do Japão militarista e imperialista.

O governo japonês nunca conseguiu realmente sair da crise financeira que se iniciou há 40 anos. Apesar de ser a segunda potência industrial nessa altura, foi perdendo aos poucos, para concorrentes (a China, a Coreia do Sul ...) cujas economias estavam em ascenção.

A situação de défice financeiro agravado foi colmatada, em grande parte, pelo facto dos japoneses reformados, individualmente ou associados nos fundos de pensões, terem investido muito em títulos do tesouro japonês. A parte da dívida detida por entidades públicas ou privadas estrangeiras era muito menor. Deu-se então o caso da dívida crescer sem parar, embora as consequências  fossem aparentemente insignificantes para a economia produtiva e a sociedade. 

Porém, os juros muito baixos artificiais, gerados por este mecanismo de «auto-compra» da dívida estatal, foi atraír a finança internacional. Desde os grandes bancos ocidentais aos especuladores, praticamente todos praticavam o «Yen Carry- Trade». Este consistia em pedir emprestado a instituições bancárias japonesas a juro muito baixo, quase zero, para depois aplicar estes capitais em investimentos, que forneciam um juro bem maior. O montante próprio da dívida era facilmente recuperado e devolvido aos bancos emprestadores, sendo o resto lucro para os investidores. 

Mas, com o aprofundamento da crise económica e financeira, o governo japonês viu-se forçado a aumentar em cerca de 1% (aumento modesto) as obrigações estatais, arrastando assim os diversos juros (bancários, hipotecários, de consumo) para cima. Pode parecer algo insignificante, porém inviabilizou muitos dos negócios de «carry trade». O «carry trade» já não fornecia um intervalo de juros suficiente para manter a rentabilidade do negócio.

Historicamente, as potências que estão numa situação financeira apertada têm tendência a tomar (ou retomar) atitudes agressivas em relação ao estrangeiro, em relação aos inimigos (verdadeiros ou de convenência). 

A retoma da produção armamentista, as manobras da marinha de guerra nos mares do Sul da China, vêm confortar o eleitorado nacionalista e militarista da primeira-ministra Sanae Takaichi

Em todos os casos em que ocorre uma viragem realmente autoritária, com um governo de extrema-direita, verifica-se que a economia não ia bem, que o povo estava a sofrer com uma redução significativa do nível de vida, com inflação, desemprego. Mas numa tal situação, a classe no poder nunca iria assumir-se como responsável pelos males presentes. Daí, as derivas militaristas, a designação dum inimigo externo, desviando assim o público da origem interna dos males da economia desse país. 

Prevê-se que a situação internacional ainda piore mais, se o  Japão mergulhar no caos. Foi o que desencadeou o empréstimo de emergência dos EUA, oferecendo euros, dos seus fundos em divisas da FED, para comprar Yen: O governo da oligarquia dos EUA percebeu a necessidade deste empréstimo de emergência. Evidentemente, o Império não estava interessado no caos, como «senhor feudal» do Japão, possuindo importantes bases militares, com sistemas de lançamento de mísseis, com capacidade para transportar ogivas nucleares, apontados para a China. 

Mas, dado contexto financeiro mundial caótico, existe uma possibilidade não desprezível, desse empréstimo ser insuficiente para equilibrar a situação do Yen e das finanças japonesas.

Haverá uma evolução da situação do Japão. Na presente situação internacional muito complexa, pode desencadear-se uma expansão da IIIª Guerra Mundial para os países do Extremo-Oriente.



RELACIONADO:

https://youtu.be/FnraS2GwJU8?si=83SdlKqiwu_kawJU

ELISABETH JACQUET DE LA GUERRE, CONHECES? [Segundas-f. musicais nº70]


 Uma das primeiras mulheres-compositoras na tradição ocidental.



Suites para cravo: intérprete Elizabetta Gugilielmin

(pode acompanhar cada suite com sua partitura e escolher cada movimento no lado direito, no vídeo)





Numa altura em que prevaleciam ainda os preconceitos contra elas serem criativas e praticarem um ofício ou arte, Elisabeth de la Guerre soube impor-se pela sua qualidade.

Foi protegida de Louis XIV, sem dúvida porque era totalmente merecido dar a esta cravista e compositora o reconhecimento do seu talento. É verdade que ela vinha de uma família de músicos profissionais e de artesãos construtores de instrumentos.
Mas, ela tinha um talento próprio inegável, pois as suas composições sobressaem, pela qualidade, na literatura da época. As suas suites para cravo contribuíram para fixar as características do género e merecem ser ouvidas, em gravação ou recital.
Dizem que foi a primeira mulher compositora, pelo menos, na cultura ocidental. Existem alguns  poucos casos semelhantes nesta época e anterior (Renascimento). Mas, o que  é mesmo excecional,  são suas composições, perfeitamente comparáveis em qualidade com as do contemporâneo François Couperin, por exemplo.



domingo, 9 de agosto de 2026

DEMOGRAFIA, MAIS UM PÂNICO FABRICADO

 



Os media e o establishment começaram por colocar os problemas em termos de sobrepovoação do planeta, de esgotamento dos recursos, de explosões sociais causadas pela miséria, etc. Na realidade, houve uma «explosão» demográfica, tendo esta porém decorrido ao longo de centenas de anos.

 Mas esta «explosão», resultante da transformação das sociedades rurais em industriais, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, na Europa e mais tarde para o resto do Mundo, proporcionou condições globalmente mais favoráveis para a vida humana: 

A higiene aumentou, o acesso aos alimentos foi mais regular, menos sujeita ao acaso das colheitas, sobretudo, houve contribuição significativa, tanto de produtos alimentares como de manufaturados, em proveniência das colónias. Isto permitiu maior dinamismo das economias do mundo «desenvolvido» dessa época (a Europa e a América do Norte) e que a Iª Revolução Industrial ocorresse. 

Nos países sujeitos ao domínio colonial ou neo-colonial, apesar das condições de quase escravatura, ou mesmo de escravatura (que se estenderam do século XVI ao séc. XX), o facto de haver campanhas melhorando as condições sanitárias, os esgotos, o tratamento das águas e campanhas de vacinação na população autóctone, fizeram com que, também aí, houvesse um vigoroso crescimento populacional. 

Na ausência de contracepção de qualquer espécie, as doenças infantis, as epidemias que assolavam periodicamente as populações, os frequentes episódios de fome e de escassez alimentar, provocavam uma baixa taxa de sobrevivência das crianças. Os que chegavam ao estado adulto, em idade de procriar, eram apenas uma fracção do total dos nascidos numa dada geração.  As mortes precoces, infantis e juvenis, eram tais, que mantinham o equilíbrio populacional, compensando uma  fecundidade média muito elevada. 

Estes fenómenos ocorriam praticamente com a mesma severidade na Europa e nos países colonizados, talvez até mesmo piores na Europa, onde a concentração de pessoas nos centros industriais, sem condições de higiene e sujeitas a longas horas de trabalho violento, acabava por encurtar a vida, mesmo dos mais resistentes. 

A transformação na agricultura permitindo maiores rendimentos e libertando braços ocupados nas tarefas do campo para as indústrias das cidades, as condições de higiene nas habitações destinadas aos operários, a generalização de vacinas para algumas doenças causadoras de grandes mortalidades e morbilidades,  foram fatores que proporcionaram o crescimento vigoroso das populações europeias durante o século XIX e na primeira década do século XX. 

A Primeira Guerra Mundial, com todos os seus horrores e com o despovoamento dalgumas zonas, foi somente uma paragem momentânea do crescimento populacional. 

Pouco tempo após o fim das hostilidades (1918) as curvas demográficas em todos os países retomavam seu trajecto ascendente. O mesmo fenómeno verificou-se no pós II Guerra Mundial. Hoje em dia, fala-se da geração do «Baby boom»: começou com as pessoas nascidas em 1945 e vai até aos nascidos no ano de 1965, mais ou menos. 

O processo de desaceleração do crescimento populacional nos países industrializados, foi tanto consequência da «pílula» contracetiva, como duma nova atitude dos casais, procurando dar condições de educação, saúde e bem-estar à sua progenitura, limitando conscientemente o número de filhos. 

O papel atribuído à pílula contraceptiva talvez seja um bocado exagerado. Nos países do Sul da Europa a pílula foi proíbida oficialmente, durante algum tempo e condenada por entidades religiosas. Nestas sociedades, tradicionalistas, católicas e menos ricas que a Europa do Norte e a América, ocorreu, apesar disso, um fenómeno semelhante de redução da natalidade, embora de modo menos acentuado. As condições materiais, mais do que o uso de contraceptivos orais, tiveram o papel principal, tanto nas sociedades mais tolerantes, como nas mais tradicionais. 

Muitos países do Sul Global seguiram este padrão, com um pequeno atraso. Isso traduziu-se numa nítida desaceleração do crescimento global da população, contrariando os vaticínios malthusianos do «Clube de Roma» (nos anos 70).

Agora, vê-se e ouve-se, por todo o lado, que a população humana, em particular em países muito povoados, como a China, a Índia e outros, está a regredir, que a taxa de natalidade não permite repor os efetivos da população existente, que a percentagem de idosos e reformados supera a de pessoas em idade de trabalhar, etc. Estas reportagens e artigos são o simétrico do catastrofismo dos anos 70 do século passado.

Felizmente, as condições de vida das populações, na grande maioria dos países, melhoraram de modo substancial. As consequências do desajustamento populacional são transitórias. As sociedades em toda a História encontraram soluções para se manterem, para dar continuidade à base económica, às infra-estruturas e aos serviços que são prestados à população. 

A redução da taxa de fertilidade em quase todos os países industrializados, abaixo do número médio de 2,1 bébés por mulher fértil, é atirada constantemente pelos fazedores de apocalipse,  como se este fosse o único número, o mais importante que os países industrializados têm de enfrentar. 

Eu não creio que as campanhas estatais, com incentivos, sobretudo económicos, para jóvens casais terem mais filhos tenham sido um sucesso, até agora. Sem dúvida, podem ter contribuído para minorar o problema mas, o que irá contar, será o comportamento dos casais, o número de filhos que desejam. 

Creio que a redução da família a um núcleo isolado, pai-mãe-criança, sendo necessário que os dois progenitores trabalhem para obter o rendimento necessário para sustentar o seu estilo de vida e a educação que ambicionam para seu filho/filha, tem sido o fator decisivo. 

Esta situação não se resolve com incentivos económicos (apenas), nem sequer com melhores condições de apoio à maternidade e paternidade. Um progresso importante seria o reconhecimento real (não apenas na letra da lei) à dispensa no trabalho para apoio a filho(s) doente(s).  Claro que as condições melhoradas, tanto em termos financeiros, como de apoios diversos, não são de desprezar; devem ser levadas a cabo pelos Estados, mas - sobretudo - pelos patrões. 

A transição para um retorno ao equilíbrio virá quando a sociedade no seu todo estiver mais virada para a garantia de boas condições de crescimento, desenvolvimento e educação das crianças, proporcionando às famílias uma rede real de apoio. 

Isto vai implicar o recuo, senão mesmo o desaparecimento da mentalidade inoculada nos decénios de neo-liberalismo. Nestes, o individualismo - para não dizer o egoísmo - foi erguido como direito «sagrado», como expressão da «liberdade», da «maturidade», etc. 

Tudo isto fez parte da ideologia segregada pelo neoliberalismo. O enorme fracasso desta «ideologia do mercado antes de acima de tudo», em especial, acima da vontade política dos cidadãos, ainda não está bem vincado na consciência de muitos. 

Como proponentes e beneficiários principais, a casta política de hoje «não quer ver» os estragos causados pelo neoliberalismo: Em vez de examinar as coisas por outros ângulos, continua a reproduzir a cantilena da «TINA» (There Is No Alternative). Mas, assim como outras correntes político-ideológicas, o neoliberalismo vai tornar-se obsoleto. 

A sociedade, mais cedo ou mais tarde, irá encontrar forma de adoptar soluções que permitirão novo equilíbrio. No futuro, será mais fácil e gratificante uma família basear-se no campo, em vilas ou pequenas cidades, do que em mega-urbes. Nestas circunstâncias, a entreajuda entre vizinhos ainda é uma realidade.

A existência de robots de apoio às tarefas domésticas, não me parece escandalosa. A alternativa é a existência de trabalhador*s (em geral, são mulheres) que efetuam os trabalhos domésticos. Outros empregos melhor pagos e mais satisfatórios serão criados. A produtividade do trabalho, em geral, tenderá a aumentar.

Não vale a pena fazer futurologia sociológica, já sabemos que as pessoas, individual e coletivamente, chegam a novas soluções. Estas podem ter aspetos técnicos mas, sobretudo, relacionam-se com nova organização do trabalho. 

Uma coisa parece-me certa: A sociedade organizada em torno do trabalho, sobretudo do trabalho assalariado, com as pessoas a serem exploradas desta ou daquela maneira, nesta ou naquela indústria, vai caducar

Já existem sinais evidentes disso, porém a estrutura da divisão em classes não tem deixado que as coisas evoluam naturalmente. Os empresários bem podem lamentar-se, hipocritamente, que as relações de trabalho são demasiado rígidas: São fruto de relações de exploração impostas por eles!

 Agora, novas gerações de adultos têm de tomar em mãos as mudanças necessárias, por forma a que a sociedade alcance novos patamares de bem-estar real e não do falso «paraíso» consumista.

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EM COMPLEMENTO: https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2017/11/malthusianismo-e-neo-malthusianismo.html


A LUA - MAIS MISTERIOSA DO QUE PENSAVAS