«Um autor com fama de profundo, fazia a apresentação de seu novo livro de poemas.
Após leitura perante audiência, uma voz perguntou-lhe: Mestre, acaba de nos declamar um subtil e profundo poema... podia nos dizer qual o título?
- Houve um silêncio prolongado, após o que replicou o poeta: Não há título; não se trata de poema nenhum, mas do índice, da lista das obras deste volume.»
Esta história humorística contaram-ma, há muitos anos, para ridiculizar os vanguardismos. Mas aplica-se como uma luva para «produções literárias» por IA.
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A tradução de um texto poético sobre qualquer assunto é - em si mesma - um desafio para o bom tradutor, alguém que deseja preservar a beleza formal e conservar o essencial do conteúdo. Tenho experiência pessoal de que é um exercício muito mais difícil do que parece, à primeira vista. É preciso conhecer a fundo ambas as línguas. É muito difícil obter uma tradução com rima e métrica, quando elas existem no poema original.
Um texto em prosa banal, traduzido literalmente, dá um texto-tradução pouco criativo, mas cujo significado se conserva, geralmente. É isto que fazem os algorítmos de tradução automática. Mas, o resultado é muito insatisfatório quando o texto é de prosa literária ou de poesia.
Os algorítmos falham a vários níveis: Geralmente não identificam ambiguidades ou ironias, tendem a reproduzir, palavra a palavra, as expressões proverbiais, etc. Muitas coisas que não passariam em traduções «normais». A tradução palavra a palavra perde todo o sentido.
O algorítmo não reflete sobre o que está a reproduzir; na realidade, não existe criação ou reflexão própria da IA, como seria de prever.
Um mau tradutor é melhor que o programa mais caro de IA, não por a tecnologia não estar avançada o suficiente, mas porque o cérebro humano não é uma máquina, nem funciona como uma máquina; as suas produções não se confundem, afinal e como seria de prever, com as de uma máquina!
Pode-se aplicar - com modificações - o famoso teste de Alan Turing: Segundo este, o computador terá atingido um certo grau de inteligência, quando o indivíduo julga que está em diálogo com uma pessoa; mas está a interagir com uma máquina.
A minha receita é simples de aplicar: fornece um texto poético e pede para o traduzir, ou para dar uma explicação do conteúdo.
Uma pessoa poderá fazer uma interpretação medíocre. Mas o algorítmo irá sair-se com algo completamente disparatado: Interpreta literalmente - com uma série falhas do significado real - tomando as metáforas por imagens factuais, por exemplo.
Um ser humano percebe que está perante um texto poético, percebe que as coisas que lá estão não se podem interpretar em sentido literal. O algorítmo de IA não pode fazer isso, nem há maneira de o «treinar» para fazer isso.
Também podemos perguntar afinal, para que serve a IA:
- Por exemplo, pode ser um auxiliar para termos uma ideia sobre o que trata um texto - um artigo científico, por exemplo - escrito em língua que nós não conhecemos. Se o texto traduzido com a ajuda de IA for do nosso interesse, então podemos pedir uma tradução «à moda antiga» a um tradutor dessa língua, que tenha familiariedade com a área científica do tal artigo.
Não digo que as máquinas sejam incapazes de compor música, de escrever poesia... Digo, que estas produções não terão qualquer apelo para mim, não me fazem vibrar:
- Eu já experimentei ouvir música (ao estilo do rock dos anos 70) feita inteiramente por IA, mas achei o resultado destituído de qualquer interesse musical. Tinha os traços típicos da música rock dessa época (anos 70). Mas, qualquer coisa fazia com que não transmitisse a mínima vibração, a mínima emoção. Era música sem alma, embora os instrumentos e as vozes sintéticas fossem de tal maneira, que pareciam reais. A autenticidade, o magnetismo, estavam completamente ausentes...
Música dos anos 70, inimitável.... Jefferson Airplane
A palavra FADO tem orígem no latim, FATUM, que significa destino.
No português corrente, tem seguramente conotação de má sorte, quando se diz «é o meu fado». Não admira, pois tem sido o fado deste povo que atravessou oceanos em busca de «El Dorados». Muitos deles, nunca chegaram a alcançar fortuna e voltaram à terra natal em estado miserável, como Camões, ou morreram em terras distantes e, muitas vezes, a tumba foi de água oceânica, em numerosos naufrágios, que engoliram caravelas e suas tripulações, transportando preciosas especiarias (canela, pimenta...) para os mercados europeus.
O passado trágico do século XVI, dito «grandioso», acabou com a derrota de Alcacer Quibir, seguido pela a perda de independência com a união do reino de Portugal à coroa de Filipe de Espanha. Esta sucessão de tragédias ficou refletida numa mágoa persistente nas vozes do povo anónimo, que nunca são citadas nos livros de História. Porém, são a história pessoal de muita gente. As «viúvas de vivos», era como se designavam as mulheres de emigrantes, que partiam para longe. Eles, labutando duramente em países estrangeiros, para construir um bem-estar sólido para as suas famílias.
Uma grande parte do Fado é, porém, de temática amorosa, como aliás a canção popular em geral. Mas no fado, é muito frequente o lamento da separação, do desencontro, do engano e desengano, enfim de histórias de amor que correram mal, de alguma forma.
Também está muito presente o tema da saudade, no fado e na poesia portuguesa. Esta expressão, não tendo correspondência exata noutras línguas, exprime um estado de melancolia e de fixação no passado, onde se projetam recordações o ser amado e de todos os momentos felizes, em geral.
Há muitos estudos sobre as origens do fado.
O fado, hoje, realmente corresponde a um tipo definido de música, pese embora a diversidade dos seus compositores e interpretes. Dizem que o fado tem origem no «lundum», um cântico negro, cantado pelos escravos negros no Brasil, desde que estes foram levados para as plantações (as roças), sofrendo a brutalidade dos donos coloniais.
Mas, também se fala da relação com as melopeias árabes - lembrança longínqua do Portugal que foi mouro, com uma presença de sete séculos, e deixou raízes profundas no folclore, embora o povo não tivesse ideia que suas expressões artísticas tinham efetiva origem na riquíssima civilização arabe ibérica (El Andaluz era a designação da Ibéria pelos mouros), que foi a mais avançada na Idade Média.
Na origem, o que hoje se chama «fado», estava enraizado em várias tradições orais, na fluidez e musicalidade próprias da música popular. Mas, como documentos, os mais antigos fados escritos e partituras editadas datam de finais do século XIX. Eles estão curiosamente associados, em muitos casos, com o proletariado urbano lisboeta, não ainda maioritariamente trabalhando na grande indústria, mas em pequenas fábricas e oficinas, que se situavam em bairros pobres: Alfama, Mouraria, Castelo, Madragoa ... eram bairros habitados por pessoas humildes, as casas não tinham condições mínimas, as ruas eram estreitas e mal iluminadas. Havia neles muita pobreza e com ela, alcoolismo, prostituição, marginalidade, etc. Havia nessa época uma estricta divisão das classes, embora alguns nobres boémios frequentassem prostíbulos situados nesses bairros. Tais boémias estão na origem de histórias romanceadas, como a da Severa , que foi amante do Conde de Vimioso.
Sendo impossível falar em pormenor dos muitos compositores e poetas que escreveram para Amália especificamente, ou daqueles que Amália apropriou as canções pré-existentes e lhes deu nova vida, com a sua voz e sensibilidade magníficas, queria sublinhar o caso de Alain Oulman. Ele compôs música sobre poemas escritos por poetas famosos ou bem conhecidos, da literatura portuguesa. No total, não sei quantos poetas de renome foram cantados por Amália: Luíz de Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O' Neill, José Régio, Manuel Alegre, Pedro Homem de Mello, Cecília Meirelles, Ary dos Santos, etc. A própria Amália assinou letras de fados.
Para terem uma ideia da qualidade e diversidade da poesia nos fados de Amália Rodrigues, podem ouvir a playlist, com o título «AMÁLIA RODRIGUES: O FADO».
A vida corpórea dos compositores e intérpretes é finita. Porém, eles são eternizados pela execução das composições/canções/poemas e pela constante presença na memória coletiva.
É o caso de Amália e doutros, que comparticiparam na gesta de transformar o fado num expoente da alma portuguesa.
PS: Juntei recentemente um poema de Camões, musicado por Alain Oulman, «Dura Memória»:
Dura Memória
Memória do meu bem, cortado em flores, Por ordem de meus tristes e maus fados Deixai-me descansar com meus cuidados Nesta inquietação dos meus amores.
Basta-me o mal presente, e os temores Dos sucessos que espero infortunados Sem que venham, de novo, bens passados Afrontar meu repouso com suas dores.
Perdi numa hora tudo quanto em termos Tão vagarosos e largos, alcancei; Deixai-me, com as lembranças desta glória
Cumpre-se e acaba a vida nestes ermos Porque neles com meu mal acabarei Mil vidas não, uma só - dura memória!...
[NO PAÍS DOS SONHOS] «Dança dos Cavaleiros» de Prokofiev
Este é um sonho que preferia não ter. Preferia um vazio, um manto branco, ocultando todas as imagens terríveis que passam diante dos meus olhos fechados.
Estas imagens, não as podemos ocultar, porque são o cinema interior que o nosso cérebro produz. De tal maneira nos implica, que ficamos exaustos, esgotados, trementes e gélidos, mas nada podemos fazer.
Nada nos pode afastar daquela caminhada rítmica, compassada, obsessiva, dos Montagus e Capuletos. Vejo que se dispõem numa dança hierática, macabra, pois já se sabe que não haverá quartel; será que irei presenciar o desencadear do ódio hereditário, da «vendetta», entre as duas casas aristocráticas?
Não, a música é essa mesma, da Suite de Prokofiev, porém o contexto é outro. É bem mais real, mais assustador, por isso mesmo. Aqui, neste sonho, não estamos no teatro, estamos numa rua qualquer duma cidade banal, no Século XXI.
A civilização ruiu, só restam bandos de assassinos desapiedados, que ditam a sua lei. Não há lugar para o amor, ou para qualquer sentimento humano. Em breve, será a matança. Os olhos, de ambos os lados, estão injetados de sangue. Se não estás num dos campos, então, és inimigo a abater; este é o cálculo feito por qualquer um dos lados.
Na vida do sonho, como na vida real, não me alinharei jamais com um dos campos de bandidos que se digladiam, para impor a sua lei às gentes. As pessoas comuns são como as presas das aves de rapina: Movem-se, sem saber que, dentro de instantes, vão ser atacadas, feridas, liquidadas e devoradas.
Esta dança obsessiva tem a altivez brutal da fatalidade que avança. Tem o peso inexorável do destino em cada nota. Depois de acordar, interpretei este sonho como premonitório da nova era trágica em que estamos a entrar; como em 1940, o ano da estreia da obra-prima de Prokofiev.
Estou dentro de um longo túnel. A luz difunde-se desde uma extremidade, por detràs de mim. Oiço uma música muito calma e envolvente. Sinto um bafo quente, semelhante ao do vento na praia.
Agora a paisagem mudou, só se vê uma planície semi-desértica com ervas amarelecidas e outras plantas rasteiras. Ao nível do solo há uma evaporação intensa. Todas as imagens estão defocadas. O Sol põe-se magestoso, inundando pro fim o horizonte de tons fúlgidos.
Quando, por fim, o astro do dia se põe, ele irradia uns últimos clarões de luz para lá do horizonte, iluminando um céu de oiro e azul.
Em breve, não mais se ouvem as cigarras e a planície vive um momento de suspensão no tempo. O silêncio é tão real, que ressoa... no coração.