terça-feira, 8 de setembro de 2026
ENTREVISTA COM SHAUN REIN por George Galloway
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
A CHINA CONTINENTAL É COMUNISTA?
Lembro-me de ter visto um pedinte, com as pernas gravemente incapacidadas, que se arrastava pelo chão do acesso a uma estação de comboio, algures no centro da China. Ele pedia esmola, erguendo um copo, à caridade dos transeutes que passavam sem lhe prestar atenção. Esta cena deixou-me perturbado, não que não tivesse visto coisas semelhantes do Ocidente e no meu próprio país, mas justamente porque este tipo de estendal de miséria não era próprio de um país que se considera praticando uma moral comunista, um país do socialismo da abundância, ou seja, o tal «socialismo com características chinesas».
Não foi caso único, também encontrei um sem-domicílio enrolado numa manta numa passagem subterrânea duma grande avenida de Pequim. Não julguem que eu estava à procura desses casos, nada disso: Eu estava inserido num grupo de turistas, todos portugueses, que visitavam a China.
Numa noite em que jantámos num célebre restaurante de Pequim, deparei-me com uma mulher idosa a pedir na rua, onde estacionavam os carros, fazendo gestos de «levar comida à boca». Fez-me pena, embora tais cenas estejam igualmente presentes em capitais de países ocidentais e das mais opulentas.
Mas eu acreditava, ingenuamente, que tais manifestações de miséria eram impossíveis num país dito socialista e orgulhoso das suas façanhas económicas e em ter arrancado da miséria uma grande fatia da sua população. Mas, o pior de tudo era que tais exemplos concretos de miséria, recebiam apenas indiferença da população.
As pessoas são iguais em Pequim, Toronto, Londres, ou Madrid: quanto mais afluentes, menos se preocupam com as pessoas destituídas. Esta também é uma lição para confrontar a realidade com a propaganda de um «socialismo» com «rosto capitalista». Pode ser socialista na condução geral da economia, mas as pessoas concretas não «comem o PIB», nem se vestem com «estatísticas da produção».
Martin Armstrong é capitalista e favorável ao tipo de regime (dito de «democracia liberal») que vigora nos países ocidentais. No entanto, como pessoa inteligente e pragmática que também é, tanto apresenta os lados positivos como negativos do regime chinês. A bem da verdade, tenho de confirmar que ele tem razão em vários pontos de um artigo seu, abaixo (*).
O prof. Michael Hudson, que tem trabalhado em universidades chinesas, como professor convidado de economia, caracteriza a China como um sistema misto. Ele é globalmente favorável ao regime aí implantado, porém reconhece que foi a abertura à iniciativa privada, no tempo de Deng Xiao Ping, que permitiu o arranque para o desenvolvimento neste imenso país.
A China foi ficando para trás, após a implantação da RPC em 1949, durante mais de 20 anos de comunismo radical sob a batuta autoritária do partido e do seu «timoneiro» Mao Tsé Tung. Continua oficialmente o regime, continua a ditadura «proletária» do partido, mas o regime foi-se transformando profundamente por dentro.
As pessoas esperam que, no futuro, tal como no passado recente, o seu nível de vida vá melhorar ainda mais. As pessoas na China são iguais às pessoas noutro ponto qualquer do globo. Querem viver com o mínimo de decência e dignidade, não precisando de se dobrar perante cada «apparatchik» que lhes apareça.
Será «virtuoso» enriquecer, como dizia a propaganda no tempo de Deng? - Sim, na medida em que este enriquecimento provenha do trabalho e do reconhecimento social por esse mesmo trabalho. Este princípio pode e deve existir numa sociedade socialista, ao contrário do que a propaganda propala de que o socialismo é igualizador, de que mata toda a criatividade, etc. Aliá, esta propaganda é afinal auto-destruidora, pois ela não explica como o desenvolvimento técnico e científico, assim como a excelência nas artes, se desenvolveram na URSS, na China e em muitos países «socialistas» durante a Guerra-Fria.
Se as pessoas fossem condicionadas a pensarem rotineiramente, nem cientístas, nem engenheiros, nem artistas em todas as artes, poderiam ter excecional qualidade. Dirão que são uns poucos que escaparam a um condicionamento radical; pois, a ser assim, estes que se notabilizavam seriam logo esmagados por hierarcas e pelos seus iguais. Algo de semelhante a isso começou - como um vento destruidor - na China durante a «revolução cultural»: Nesta altura foram destruídos imensos monumentos e sobretudo criminosamente enxovalhadas, castigadas e humilhadas centenas de milhares de pessoas, intelectuais na maioria. Muitos indivíduos que deram o melhor de si próprios, nos anos anteriores, foram alvos preferidos dos «guardas vermelhos» da China.
Deng Xiao Ping foi uma vítima, assim como o pai de Xi Jin Pin e o próprio Xi. Se a «revolução cultural», iniciada com o pleno acordo e estímulo de Mao e continuada pelos seus mais chegados aliados, fosse coroada de sucesso, hoje a China seria um país miserável.
Para mim, que aceito de bom grado os objetivos últimos do comunismo, mas não os desmandos que foram cometidos em seu nome (numa grande parte do século XX, sobretudo), não tenho qualquer complexo de superioridade em relação ao povo chinês. Antes, fico maravilhado pela sua capacidade de «endurance», de trabalho árduo, de solidariedade familiar, de auto-disciplina, de espírito coletivista. Devo dizer, no entanto, que estas propriedades não se desenvolveram a partir da China «comunista». Foram, durante milénios, o produto das experiências, dos fracassos mais sangrentos aos períodos mais aúreos, do povo chinês.
Para mim, o trato com um chinês é o mais natural, pois eu tenho muito respeito pela sua civilização e procuro naturalmente pontes para me relacionar com ele. Os chineses que eu encontrei ao longo da minha vida, muitas vezes foram cordiais, nada distantes. Pois, eles intuíam que eu não tinha qualquer complexo racista, de ser produto duma «civilização superior».
Por isso, amo as pessoas, compreendo que todos somos uma raça única, temos todos as mesmas necessidades fundamentais e legitimidade para nos afirmar dentro da sociedade, dando o melhor de nós próprios e recebendo - em troca - a justa recompenasa.
Só não acredito que um sistema ferreamente hierárquico, mesmo que tal ocorra apenas numa fase de transição histórica, possa conduzir-nos a um comunismo verdadeiro, aquele em que as pessoas têm igualdade de direitos e deveres, um poder largamente distribuido por todos, uma liberdade de expressão e criação em todos os domínios .
É como se me quisessem convencer que a melhor maneira de ir de Lisboa ao Porto, é tomar a estrada em sentido contrário, a que vai de Lisboa a Setúbal. Por que razão toda a gente veria isto como loucura, mas uma parte das pessoas convenceu-se que a «ditadura do proletariado» (do partido, na verdade) era, não apenas o melhor mas o «único» caminho para o socialismo e comunismo?
- Eu chamo a isso alucinação, mais que endoutrinamento, porque muitas pessoas - minhas conhecidas - adoptaram esse ponto de vista e não eram estúpidas, eram inteligentes e pareciam-me sinceras.
----------
« The Chinese Communist Party is not “communist.” China permits private ownership and corporations. Consumerism and capitalism are alive and well. Forbes reported in April 2021 that a new billionaire was created worldwide every 17 hours, with the majority of newfound wealth coming from China.
The USA may be the billionaire capital of the world, with between 813 and 902 billionaires recorded, but China has seen a significant rise in the top wealth bracket in recent years. Mainland China currently has around 450 billionaires with a combined wealth of $1.7 trillion. China also hosts over 1,400 people with fortunes above $700 million. Billionaires do not exist in communist nations.
Karl Marx’s communism involved seizing the means of production. The government owns land, infrastructure, factories, and corporations under the premise that the ruling class could be eliminated by surrendering ownership to the state. Citizens may not accumulate wealth, as no one may have more than another, and certainly not more than the state. Everyone must be equal in poverty.
Under communism, the incentive for innovation is null and void. China has become a pioneer in innovative technologies and discoveries in every sector. Entrepreneurs are abundant in China, and investment and international trade are encouraged. The China of today is one of the leading players in the global economy, driven by modernization and competitiveness. The China of the past may have been communist, but the government is not going to take down statues of Mao or announce past wrongdoings.
China quietly moved away from communism decades ago. They saw it wasn’t working and made a change without a public declaration. Yes, the CCP is certainly authoritarian to some degree, but it is a fallacy to call China a communist nation.»
domingo, 1 de setembro de 2024
NUNCA ESTIVEMOS TÃO PRÓXIMOS DUMA GUERRA NUCLEAR (Entrevista com Ray McGovern)
Ray Mc Govern, ex-analista da CIA, explica o que está em jogo entre as grandes potências. Ele consegue estar «dentro das cabeças», não só de Putin e de Xi Jin Pin, como também de vários presidentes dos EUA.
O testemunho dele é fantástico, na medida em que nos fornece explicações plausíveis de como funciona a tomada de decisão dos decisores máximos e dos seus conselheiros.
Sem dúvida, esta entrevista é a mais densa de informação com que me deparei nestes últimos meses.
terça-feira, 2 de maio de 2023
A UCRÂNIA E A CHINA TÊM IMPORTANTES LAÇOS COMERCIAIS
A propaganda ocidental, que tenta criar sua «realidade-paralela» no caos causado pela guerra, tem ocultado - intencionalmente - o papel e o volume das relações económicas entre a Ucrânia e a China.
Com efeito, ambos são parceiros comerciais de peso no âmbito das Novas Rotas da Seda (ou BRI em inglês): Existem projetos e/ou realizações em vários domínios, na agricultura (sementes oleaginosas, cereais), no equipamento e máquinas industriais, no néon (um gás importante no fabrico dos microprocessadores), entre outros.
Pode-se conjeturar que - desde há longa data - um dos objetivos estratégicos dos falcões da OTAN era o de inviabilizar a extensão da BRI aos países da Europa, em especial, os orientais (Polónia, Bulgária, Roménia, Ucrânia) e da Europa Central (sobretudo, Alemanha).
A guerra -infelizmente - é o recurso dos imperialistas com pretensões hegemónicas, quando vêm que as suas presas (neste caso, a parte mais industrializada e mais rica em recursos da Europa) lhes está a escapar das garras. Compreende-se melhor porque tudo fizeram para acirrar a guerra em curso entre a Rússia e Ucrânia. É que antes de mais eles não encontraram outra maneira de contrariar que a China, com as Novas Rotas da Seda, viesse dar uma oportunidade aos europeus de se emanciparem do jugo neocolonial Yankee.
Junto aqui a ligação (clicar no título) para um artigo de Pepe Escobar, que dá detalhes que mais nenhum jornalista mainstream vos irá dar: «Qual É O Papel Que A China Está Realmente A Jogar Na Ucrânia»
sábado, 4 de fevereiro de 2023
UP, UP AND AWAY [5th Dimension] + COMENTÁRIO DE MB
O tempo dos balões está aí. Mas não inocentes veículos de turismo, sobrevoando pedaços da paisagem campestre.
A China está muito ativa a enviar balões para a estratosfera: claro, não consegue controlar tudo, nesses engenhos que se elevam, porque mais leves que o ar, mas que dificilmente se podem dirigir com precisão. Assim, para avaliar as diversas camadas da atmosfera, os seus parâmetros, as estações meteo do mundo inteiro enviam balões para a atmosfera. O seu destino quase certo, é perderem-se, serem arrastados pelos ventos.
A histeria do nosso tempo é que transforma estes instrumentos em perigosos instrumentos de espionagem disfarçados de inócuos auxiliares de meteo. Enfim, sabemos que a panóplia da espionagem vai crescendo: aviões-espiões; satélites-espiões... mas, balões-espiões (??!): Acho que não é muito boa ideia. Há muiita histeria no ar.
É clara a motivação dos que sopram ventos da discórdia entre as nações, em particular entre os EUA e a China, quando estava programada a viagem do secretário de Estado dos EUA, Blinken, para conversações ao mais alto nível, com Xi Jin Pin.
Podíamos dizer que a história do «balão-espia- chinês» é como «lançar um balão» para rebentar no momento certo, pondo em causa qualquer possibilidade de diminuição das tensões entre estes dois países gigantes, económicos e militares.
Diz-me quem beneficia com a situação, e eu te direi quem está na origem da campanha de medo.
PS: Os militares americanos (as altas patentes) frustrados de não conseguirem qualquer sucesso no terreno da Ucrânia, com as tropas mercenárias e os seus «brinquedos caros», decidiram dedicar-se ao «tiro ao balão», parece brincadeira, mas não é, verifiquem na notícia seguinte: https://caitlinjohnstone.com/2023/02/18/what-we-know-about-the-us-air-forces-balloon-party-so-far/
quarta-feira, 19 de outubro de 2022
SOBRE O XXº CONGRESSO DO PARTIDO COMUNISTA DA CHINA
Há quem diga que a China é um «país comunista ao nível do governo, com uma economia capitalista». Se a economia é capitalista, como é possível que seja «comunista» ou governado por um partido comunista. Não existe possibilidade de reconciliar os factos com as declarações. O poder monolítico do PCCh, não admite a mais leve dissidência, ou crítica, interna ou externa. O essencial deste regime é o de uma ditadura autocrática, com laivos totalitários. A ficção de que «é comunista» vai favorecer a clique no poder, assim como funciona como espantalho ou justificação para os governos capitalistas ocidentais. Estes, tão depressa louvam o sistema «do comunismo chinês» como fazem campanhas para denegrir o mesmo, sob pretexto (hipócrita) de defesa dos «direitos humanos».
Os que não estão enfeudados a um «marxismo-leninismo», como justificativo de contorções mentais e de posição política mais patéticas, mas que defendem o socialismo e comunismo enquanto emancipação, não precisam de se obnubilar com a propaganda de um lado ou doutro. Afinal, a verdade é revolucionária (sempre!) e a verdadeira solidariedade deve ser com os explorados, oprimidos, perseguidos, seja qual for a sua origem, etnia, nação...
Podemos ser críticos da casta dirigente chinesa e desejar boas relações com o governo de Pequim. Uma coisa não exclui a outra, pois a nossa liberdade e autonomia deve permitir-nos analisar todos os aspetos da questão, sem a-priori, sem sentenças drásticas. Afinal trata-se de ser realista, adulto politicamente, não interferir nos assuntos internos do povo chinês (como de qualquer outro povo), pois «a libertação dos trabalhadores é a tarefa dos próprios trabalhadores».
Um dos pontos mais notórios da ditadura a que está submetido o povo, é a campanha de intimidação disfarçada de campanha sanitária. Não é preciso tomar posições «negacionistas» em relação ao covid, para se perceber que, do ponto de vista médico e epidemiológico, a política de «COVID Zero», não tem validade científica, é mera construção política conveniente. Isto sobressai com a utilização dos testes e das quarentenas (lockdown) (1) como forma de controlo das populações.
Mas, todo o espetáculo encenado deste XXº congresso do PCCh é o da exibição da fidelidade aos órgãos do partido e ao seu chefe máximo, não tem qualquer papel de discussão dos caminhos e métodos para o partido e para o país. Xi Jin Pin aparece como aquele que se posiciona (2) entre Mao e Deng.
A fragilidade da economia chinesa, neste momento, não pode ser menosprezada. Com a proibição de exportação de semicondutores para a China e a interdição de quaisquer cidadãos americanos colaborarem com qualquer indústria de semicondutores sediada na China, a guerra económica e de sanções dos EUA intensifica-se. Porém, estas medidas terão consequências negativas(3) para os países ocidentais.
A política de deixar o setor imobiliário desenvolver-se até formar uma bolha enorme, (4) teve a consequência de ficarem arruinadas muitas pessoas modestas, que acreditaram que investir neste setor era seguro (70 % das poupanças privadas na China estão investidas no imobiliário; compare-se com cerca de 25% para os países ocidentais).
A China está limitada no seu desejo de investir massivamente na sua economia interna (consumo corrente, equipamento, educação...) não por limitação de capitais, mas por limitação de meios materiais e humanos para realizar esta viragem. Neste domínio da expansão da produção para consumo doméstico, a China pode mobilizar mais depressa (5) capital e recursos humanos do que muitos outros países.
A viragem também se dá em relação às exportações: Com a nova guerra fria, os países que crescem em termos de trocas comerciais com a China são a Rússia, (6) os países da Ásia Central, África, América Latina, muitos dos quais participando em projetos das Novas Rotas da Seda. Os países ocidentais, EUA, Austrália, Reino Unido, União Europeia, verão suas trocas comerciais com a China estagnarem ou recuarem.
(1) https://www.youtube.com/watch?v=VLWlMFrT7bQ
(2) https://www.youtube.com/watch?v=CbedG2j8fmY
(3)https://asiatimes.com/2022/10/china-chip-ban-a-us-exercise-in-extreme-self-harm/
(4) https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2022/09/se-china-implode.html
(5) https://en.ndrc.gov.cn/news/mediarusources/202202/t20220216_1315656.html
sexta-feira, 13 de maio de 2022
GERALD CELENTE DÁ O CONTEXTO DA GUERRA GLOBAL EM CURSO
sexta-feira, 21 de janeiro de 2022
A GRANDE CAMBALHOTA: fim inglório da «pandemia» de medo insuflada pela media e políticos
quinta-feira, 23 de dezembro de 2021
ECONOMIA: TRÊS DEMOLIÇÕES EM CURSO
1- EVERGRANDE E CRISE DO IMOBILIÁRIO NA CHINA
Na China, as poupanças das famílias têm estado investidas a 75% no imobiliário. Nos EUA e na Europa, o imobiliário representa cerca de 25% dos ativos das famílias.
Nas condições do boom inicial da economia chinesa, dos anos 90 até há bem pouco tempo, investir no imobiliário era a maneira «segura» de se obter mais-valias, visto que havia um crescimento enérgico da economia. Por outro lado, mantinha-se a tradicional tendência dos chineses em aforrar. Quanto a investimentos em ativos financeiros, as bolsas não inspiravam confiança a muitas pessoas, o capitalismo na China é algo recente.
Perante a enorme dívida de «Evergrande» , gigante do imobiliário chinês, Xi Jin Pin deu a entender que não haveria um resgate pelo Estado, quer de Evergrande, quer doutros, que partilhavam o colossal mercado. Isto significa que muitas pessoas de posses modestas terão suas poupanças fortemente diminuídas. Muitas venderam ao desbarato apartamentos, outras ficaram a dever ao banco somas bem superiores ao valor do imóvel que tinham comprado, com dinheiro emprestado. Muitos bancos, sobretudo ao nível regional, estão em maus lençóis e vão precisar de um resgate estatal.
O resultado das falências atuais e em perspetiva, é que muita capacidade instalada nas empresas de imobiliário vai ter de ser reorientada. Muitas destas empresas acabarão por ser adquiridas por empresas estatais, ou por parcerias públicas-privadas. Vai haver uma realocação dos meios de produção, num sector que estava há muito tempo a desperdiçar matérias-primas, capitais e mão-de-obra.
Portanto, aquilo que me parece mais provável é que esta crise irá doer a muitos, mas - por outro lado - haverá uma aceleração do programa do PCCh de dinamizar o mercado interno, de modo que a produção industrial chinesa não esteja tão virada para as exportações, mas também para o consumo interno.
2- A DESTRUIÇÃO DA LIRA TURCA
Na Turquia, Erdogan sonha ser o «guia» do Islão político, quer fazer renascer o esplendor do império otomano. A sua demagogia levou-o a provocar uma crise monetária, económica e financeira, ao teimar que os juros altos é que causam a inflação. Os economistas, no mundo inteiro, estão de acordo em que é exatamente o contrário: Os juros altos vão estimular a poupança e logo, fazer diminuir a massa monetária em circulação. Haverá menos dinheiro para comprar os bens na economia. O efeito, quando os juros aumentam, é de diminuição da inflação.
A destruição do valor da lira, por muitos discursos e truques que Erdogan faça, está garantida. Parece óbvio que esta política vai exacerbar a inflação, cronicamente alta na Turquia. A inflação acelerou bastante, desde Setembro passado. No presente, o valor oficial da inflação ronda os 20%, mas será maior, na realidade.
Alguns observadores colocam a hipótese de ser um ataque deliberado ao poder de compra da população, para embaratecer o custo do trabalho e propulsionar assim as exportações turcas. Mas eu penso que esta destruição do valor da lira atingiu uma proporção tal, que não pode ser benéfica. Veremos o que acontece no próximo ano.
3- O «QUANTATIVE EASING» VAI CONTINUAR
As manobras de J. Powell e da «FED» pretendem manter uma espectativa sobre a capacidade de controlo da inflação nos EUA, o que na realidade não possuem. Os investidores americanos, ou estrangeiros, com ativos denominados em dólares gostariam que assim fosse.
Porém, o euro- dólar não é controlável por ninguém, por nenhum banco central. Os «euro -dólares» são, muitos deles, emitidos fora da jurisdição dos EUA: São triliões de dólares, em mãos estrangeiras (não apenas na Europa, mas em todo o mundo), presentes em todos os mercados, dos mercados de divisas, aos de matérias primas. As possibilidades de controlar os movimentos dos euro- dólares, pela FED ou por qualquer outra entidade dos EUA, são zero. A acumulação de triliões em divisa americana, fora dos EUA, deu-se ao longo de decénios: desde Bretton Woods (1944), o dólar foi moeda de reserva mundial e principal divisa comercial internacional.
A política externa de Biden, teleguiada pelos «neoliberais- neoconservadores», entrincheirados no aparelho de Estado americano, tem sido no sentido de hostilizar a Rússia e a China. A Rússia despejou, há algum tempo, o excesso de dólares que detinha no banco central, comprando muito ouro. As suas vendas de gás e petróleo à China e a outros parceiros, representam uma parte importante das suas exportações: os pagamentos não estão a ser efetuados em dólares, mas nas respetivas moedas dos países, ou em ouro. Os chineses tinham acumulado mais de 1,2 triliões de dólares, em «bonds» do Tesouro americano, devido ao seu excedente comercial crónico com os EUA. Estes bonds têm sido escoados: primeiro convertidos em dólares e depois gastos para investimento nas Novas Rotas da Seda.
O congelamento ou a diminuição do comércio sino-americano afeta os chineses, mas é mais prejudicial para os EUA, que não têm a infraestrutura industrial (exportaram-na para a China!) para substituir as importações vindas do gigante asiático.
O resultado disto é a continuação da produção (digital) de dólares, sem contrapartida, em bens ou serviços: É a destruição lenta do valor do dólar, em relação ao que valia no início do século XX.
Aquando da criação da FED (1913), o dólar tinha um determinado valor em relação ao ouro, correspondente a uma determinada capacidade aquisitiva. Desde então, calcula-se que terá perdido ~97% do seu valor. Ao ponto de um dólar de hoje, comprar aquilo que podia ser adquirido apenas por 2 cents em 1971, quando Nixon unilateralmente desindexou o dólar do ouro.
domingo, 19 de dezembro de 2021
ÚLTIMAS GUERRAS DO IMPÉRIO
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
[Charles Hugh Smith] A CHINA FARÁ REBENTAR A BOLHA DE TUDO
Autor: Charles Hugh Smith escrevendo no blog OfTwoMinds blog,
É bem seguro que a China enfrenta problemas estruturais. Uma listagem de artigos no número da Agosto da revista «Foreign Affairs» consagrada à China reflete isso:
A Aposta de Xi: A Corrida para Consolidar o Poder e Evitar o Desastre
A Conta Económica Chinesa: O Preço de Reformas Falhadas
Os Barões-Ladrões de Pequim: Pode a China Sobreviver à Sua Idade Dourada?
A Vida do Partido: Quão Seguro Está o Partido Comunista da China?
Isto são questões espinhosas, difíceis: o precipício demográfico resultante da política de uma criança apenas, a crescente desigualdade de riqueza, a corrupção alastrando, problemas de saúde pública (obesidade e diabetes, etc.), depredação ambiental e uma economia a desacelerar.
O que os analistas convencionais não conseguem compreender plenamente, a meu ver, são 1) a ameaça existencial para o Partido Comunista da China e para a economia chinesa, decorrente da sua bolha de crédito, sem precedentes, formando metástases 2) a sua crise de energia que desponta.
Como expliquei num artigo do meu blog, What's Really Going On in China?, («O que está realmente a ocorrer na China?») o PCC e o governo institucionalizaram informalmente a «irresponsabilidade» (a desconexão entre o risco e as suas consequências) como estando no âmago da sua política.
Qualquer perda financeira, não importa quão arriscada ou quão cheia de dívidas, era coberta pelo Estado (por resgate externo, pelo refinanciar da dívida, por novos empréstimos, etc.). Tal era visto enquanto "custo do desenvolvimento rápido", consequência da visão de que a ineficiência e o desperdício eram inevitáveis no rápido desenvolvimento da indústria, da infraestrutura imobiliária e de uma economia virada para o consumidor.
Aquilo que os dirigentes da China não compreenderam plenamente foi que esta garantia implícita de «bailouts» (resgates) - o equivalente, nos EUA, ao «A Fed guarda-nos as costas» - incentivou a especulação baseada em dívida, como sendo o «investimento» de mais baixo risco, e de mais elevado retorno, especialmente quando comparado com os investimentos arriscados de baixo lucro, de estreitas margens, nas indústrias de exportação (Lembremos que as margens de lucro das empresas de exportação chinesas rondam os 1% a 3%).
Este é o fator oculto que está a minar a produtividade e a economia chinesas: a dívida em todos os sectores está a subir em flecha, para financiar a especulação, não os ganhos de produtividade.
Esta institucionalização da irresponsabilidade incentivou os jogos de apostas menos produtivos e de maior risco - Não somente para grandes conglomerados como EverGrande, mas também para as famílias da classe média, que investiram no sistema de «shadow-banking» (um conjunto de empréstimos desregulamentados no sector privado, para financiar devedores com risco elevado, a juros altos) e compraram dois, três ou quatro apartamentos para «investimento».
As contradições resultantes desta massa de poupança investida em condomínios vazios, são sistémicas e perigosas: 1) logo que um andar esteja arrendado, perde valor pelo facto de ser «usado» 2) a vasta maioria dos andares de «investimento» é ilíquida, visto que a maior parte dos novos compradores quer um andar novo, não um usado, portanto o mercado para os usados é extremamente estreito, fora das localizações mais desejáveis, no interior de cidades como Pequim ou Xangai.






