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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Sanjay Roy: «Inteligência artificial e revolução social»

«INTELIGÊNCIA» OU «INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL» ?


No sub-título (da minha autoria), tento chamar a atenção para um aspecto não contemplado no artigo muito bom de Sanjay Roy, publicado no Jornal Mudar de Vida

Em várias línguas, a semântica da palavra «inteligência» é substancialmente diferente. 

Por exemplo, nos países do Norte da Europa, chama-se (ou chamava-se) «intelligentsia» ao que nós chamaríamos uma elite cultural, um conjunto hereteogéneo de sábios, filósofos, artistas, que produzem uma boa parte das ideias que circulam numa dada sociedade. Trata-se dum conceito  forjado no século XIX e no século XX, que depois foi alargado a todo o mundo e não apenas aos países da Europa do Norte. Como conceito sociológico, designa uma classe de pessoas ou um setor dessa classe. Designa pessoas que «trabalham sobretudo com os neurónios». O conceito não pressupõe nada em relação ao grau de inteligência de indivíduos da classe ou grupo social designado.  

Pelo contrário, se dizemos que um indivíduo tem inteligência, estamos a falar, geralmente, de capacidades mentais, de qualidades intelectuais acima da média... quando falamos em português ou noutros idiomas de origem latina.

Em inglês moderno, é de uso corrente a expressão «intelligence», para designar serviços secretos ou atividades de espionagem. Foi neste contexto semântico, creio, que nasceu o vocábulo «Artificial Intelligence». No entanto, o termo inglês «intelligence» pode significar também o mesmo que nas línguas latinas. Aliás, o vocábulo é obviamente importado do latim.

Eu não me oponho, nem critico o uso da expressão «Inteligência Artificial» nas línguas derivadas do latim.  Somente, quero sublinhar que o seu uso nestes idiomas não contempla - usualmente - a conotação do vocábulo «intelligence» que, para os anglo-saxónicos pode evocar «espiar», «roubar dados», «controlo do estado», «manipulação subreptícia», etc. Por muito banalizado que o termo esteja, ele não perde a ambiguidade semântica da expressão.

  Posso diferir do conteúdo do artigo de Sanjay Roy, nalguns aspectos. Porém, julgo que perspectiva correctamente a necessidade de uma revolução social, para que a humanidade deixe de estar submetida ao  controlo de uma vigilância em massa. Esta aplicação, a tecnologia «AI» já permite isso. Ela tem sido posta em prática, sem que muita gente disso se aperceba! 

Mas, vou deixar-vos com o artigo abaixo.

Inteligência artificial e revolução social

Editor / Sanjay Roy — 2 Junho 2026


As tecnologias não transformam as sociedades, mas criam a necessidade dessa transformação

Os debates sobre o desenvolvimento e a aplicação prática da inteligência artificial vagueiam entre a desconfiança perante uma tecnologia que as pessoas comuns não dominam, as ameaças de desemprego que pairam no ar com selo de “progresso económico”, e o receio de ver tal arma nas mãos de uma elite todo-poderosa e sem escrúpulos.

O risco não está em dar demasiado poder “às máquinas”, como se tem ouvido. Todo o progresso é libertador e bem-vindo enquanto património coletivo. O risco está no facto de a nova tecnologia (como aliás todas as outras) ser detida, desde a investigação à utilização, por uma estreita camada capitalista poderosíssima, movida por interesses privados anti-sociais, capaz de a usar sem restrições no propósito de dispor da vida e da morte da humanidade.

A questão, portanto, não está em “desarmar a IA”, como sonoramente pretende o Papa, mas em desarmar os monopólios do poder que, com e sem IA, fazem da vida de milhões de pessoas um inferno quotidiano.

O indiano Sanjay Roy aborda a questão justamente pelo lado da contradição marcante das sociedades contemporâneas: a premência de transformação social que as novas condições materiais apontam, contra o colete-de-forças que o capitalismo imperialista impõe ao mundo.

(Editor de Mudar de Vida)

 

MARX, NOVA TECNOLOGIA E NOVA SOCIEDADE

Sanjay Roy, Peoples Democracy, 10 maio 2026

O desenvolvimento tecnológico e a inovação têm sido a força motriz da civilização humana. Com as mudanças nas tecnologias, o processo de produção, o processo de trabalho e a mensuração da contribuição humana para o produto social também se transformam. A atual fase da tecnologia digital, com a IA como tecnologia de uso geral emergente, também irá alterar radicalmente o processo de produção.

As inovações tecnológicas reduzem o custo de produção de bens e serviços existentes, criam novos produtos ou novos valores de uso que não existiam anteriormente, podendo ainda reduzir o tempo de circulação de bens e serviços ao diminuir os custos de transação ou transporte. Todas essas inovações, de uma forma ou de outra, reduzem o esforço humano direto ou o trabalho no mundo da produção e distribuição.

Na fase recente do desenvolvimento tecnológico, vivenciamos uma mudança na tecnologia que Marx vislumbrou como uma progressão lógica desse desenvolvimento. No contexto das grandes indústrias, em Grundrisse [Manuscritos de 1857-58], Marx discutiu a possibilidade de um declínio drástico do trabalho humano direto no processo produtivo, quando os seres humanos atuam como observadores e supervisores de um processo mecanizado e o trabalho humano direto deixa de ser a medida da contribuição humana para o produto social. Em vez de aptidões específicas e aprendizagem pela produção, é a ciência e o conhecimento em geral, ou o “intelecto geral”, que assumem o papel de principal força produtiva no capitalismo.

Marx argumenta em Grundrisse : “A verdadeira riqueza manifesta-se, antes – e a grande indústria revela isso – na monstruosa desproporção entre o tempo de trabalho aplicado e o seu produto, bem como no desequilíbrio qualitativo entre o trabalho, reduzido a uma pura abstração, e o poder do processo produtivo que ele supervisiona […]. Nessa transformação, não é o trabalho humano direto que ele [o trabalhador] realiza, nem o tempo durante o qual trabalha, mas sim a apropriação da sua própria força produtiva geral […] que se apresenta como a grande pedra fundamental da produção e da riqueza. O roubo do tempo de trabalho alheio, sobre o qual se baseia a riqueza atual, revela-se um fundamento miserável diante desse novo fundamento, criado pela própria indústria em larga escala”. (*)

Economia do conhecimento

A atual onda de novas tecnologias, com a IA emergindo como tecnologia de uso geral, é baseada no conhecimento. Isso não implica que as tecnologias anteriores não exigissem conhecimento para serem produzidas. A questão reside na mudança da contribuição do conhecimento no processo produtivo.

Tecnologias anteriores substituíram o trabalho físico por máquinas. Novas máquinas inteligentes não apenas substituem o trabalho físico, mas também interiorizam parte do trabalho mental. Mais importante ainda, a transformação dos valores de uso envolve um processo muito menos relacionado com a fisicalidade do produto, ou seja, com a mudança de materiais e componentes, e mais com a incorporação de características adicionais que envolvem processos mentais.

Marx, ainda em Grundrisse, argumentou que, com o tempo, produtos do conhecimento como ferramentas, produtos químicos ou máquinas tornam-se menos importantes; é a ciência e o intelecto geral que se tornam o poder produtivo mais importante. Nesse processo, o capital não apenas controla máquinas e recursos, mas subordina a ciência e o conhecimento ao controlar o seu principal recurso: os dados.

Na era da tecnologia digital, os dados emergem como o novo petróleo da civilização humana. O fluxo de dados é amplamente produzido por interações humanas, incluindo as interações em plataformas digitais. As pessoas interagem nas redes sociais e criam grandes quantidades de dados gratuitamente, que são apropriados como matéria-prima para identificar padrões de escolhas dos consumidores. O controlo sobre os grandes dados (big data), portanto, resume-se a estabelecer controlo sobre as escolhas humanas, tanto presentes quanto futuras. Assim, colonizar a mente humana para servir os interesses do capital é o propósito final das novas tecnologias sob o capitalismo.

O trabalho cognitivo envolvido na produção de bens de conhecimento é, por vezes, considerado diferente do trabalho tradicional, uma vez que produz bens de conhecimento que são bens “imateriais”. Contudo, esse trabalho não é imaterial, pois também envolve o dispêndio de músculos, nervos e cérebro. O conhecimento não surge do nada.

A característica distintiva do trabalho cognitivo reside no facto de a sua contribuição não poder ser compreendida por meio de medidas simplistas de tempo de trabalho empregado. À medida que os processos mentais se tornam relativamente mais importantes na produção de novos valores de uso, a distinção entre tempo de trabalho e tempo livre torna-se cada vez mais ténue. Um designer, um programador de software ou um especialista em IA não podem parar de pensar depois do horário de trabalho. De facto, a aptidão relacionada com esse trabalho é cultivada no tempo livre por meio de um processo separado de pensamento e aprendizagem.

Mais importante ainda, à medida que a intensidade do conhecimento no processo de produção aumenta, cresce a dependência da produção em relação ao “intelecto geral”. O conhecimento torna-se cada vez mais social. Utilizando a internet, é possível aceder a um fluxo infinito de dados e ideias produzidos em todo o mundo. A produção torna-se cada vez mais socializada. As plataformas digitais mediatizam um espaço infinito de interações humanas, que é utilizado na produção de bens de conhecimento.

Contudo, os lucros e rendimentos gerados pela produção de conhecimento são apropriados por uns quantos gigantes da tecnologia que detêm o controlo do enorme fluxo de dados. Recursos como carvão, petróleo, minério de ferro ou outros minerais estão localizados em regiões geográficas específicas, e o controlo sobre esse espaço ou região era suficiente para garantir o monopólio desses recursos. Mas o fluxo de dados é global, o que exige controlo em escala planetária. Consequentemente, a concentração e a centralização de capital atingem níveis sem precedentes na atual fase de desenvolvimento tecnológico.

Rumo a uma nova sociedade

O conhecimento é, por natureza, não rival. Diferencia-se de todos os outros recursos por não se degradar com o uso. O conteúdo de um livro não diminui com a sua leitura. Pelo contrário, o leitor pode acrescentar novas dimensões ao texto existente e interpretá-lo de uma forma que não havia sido considerada inicialmente. Assim, o conhecimento prospera através da partilha e da interação.

As novas tecnologias também dependem de um mecanismo de feedback que incorpora no processo a contribuição dos utilizadores com novos dados. Isto implica uma maior socialização da produção, que transcende as divisões convencionais entre tempo de trabalho e tempo livre. A produção torna-se cada vez mais colaboracional e, em vez de depender de competências individuais, passa a depender mais da apropriação do poder produtivo geral e do conhecimento coletivo.

Além disso, espera-se que a utilização da tecnologia reduza drasticamente a necessidade de mão de obra humana direta. Este é o propósito da tecnologia. Mas reduzir o esforço humano não significa necessariamente reduzir o emprego; apenas garante que a mesma produção possa ser obtida com menos esforço humano direto. Tal mudança deverá, na realidade, reduzir o tempo de trabalho necessário e aumentar o “tempo livre”. O desenvolvimento de uma nova tecnologia mais rápida permite reduzir a jornada de trabalho diária ou o número de dias de trabalho por semana.

Mas isso dificilmente acontece com o uso de novas tecnologias sob o capitalismo. As relações capitalistas geram um resultado completamente diferente: um número menor de trabalhadores trabalharia a mesma quantidade de horas ou até mais, enquanto muitos perderiam os seus empregos.

Isto ocorre porque o capitalista que detém a tecnologia está na corrida para realizar o valor do investimento o mais rápido possível, com o receio de que uma nova geração de tecnologia surja e supere as existentes. Portanto, para extrair o excedente o mais rápido possível, as horas de trabalho dificilmente diminuem, podendo até mesmo aumentar com a introdução de novas tecnologias.

Pelo contrário, se a tecnologia e os recursos forem de propriedade social, o uso do intelecto coletivo não seria subordinado aos interesses restritos do lucro. As horas de trabalho necessárias diminuiriam e o tempo livre dos seres humanos aumentaria. Libertar as tecnologias baseadas no conhecimento da busca pelo lucro privado garantirá um progresso mais rápido dessas tecnologias.

Além disso, a redução do esforço humano direto no processo de produção sob propriedade social não levaria ao desemprego e à miséria da maioria, mas sim a um aumento do tempo livre, o que facilita o poder criativo.

A produção baseada no conhecimento, portanto, é consistente com uma relação de produção que se apoia mais na colaboração e na partilha. Tal sociedade deve preservar a autonomia dos produtores diretos para que decidam democraticamente o que será produzido e o que não será, organizando a distribuição dos ganhos segundo os princípios da solidariedade.

As tecnologias, contudo, não transformam as sociedades. Elas apenas criam a necessidade dessa transformação. A mudança social só pode ser alcançada por meio da alteração radical da relação capitalista baseada na propriedade privada, substituindo-a pela produção e distribuição socializadas, que gradualmente dão origem a uma comunidade de produtores associados que determinam seu próprio futuro.

 

(*) Manuscrits de 1857-1858 («Grundrisse»), tome II, p. 192-193, Éditions Sociales


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LEITURAS COMPEMENTARES.


https://www.youtube.com/watch?v=jh3d8xO9NHg


https://karat.substack.com/p/the-surveillance-state-found-its

quarta-feira, 17 de abril de 2024

COMO SITUAR O CONCEITO DE «REVOLUÇÃO», NA HISTÓRIA?

 A história que nos é ensinada nas escolas, desde há gerações, segue uma vulgata marxista, o mesmo é dizer, que é algo ideológico.

No cerne dos preconceitos que enformam as gerações de estudantes formados após o 25 de Abril de 74, sobressai o de «revolução». Nenhum conceito poderia ser ensinado de modo mais confuso e mais ideológico. Fala-se de revolução a torto e a direito, a propósito de golpes de Estado e outros derrubes mais ou menos violentos, em contradição com os sistemas políticos instituídos.

Mas, na verdade, não houve senão duas revoluções, no sentido marxista (sem ironia!): pois a teoria marxista acentua o facto de uma revolução implicar profundas modificações no modo de produção, por sua vez, transformando as relações sociais, em profundidade e de modo duradoiro. A partir da consolidação da nova ordem, muitos aspetos super estruturais das sociedades, ficam profundamente modificados.

Para se aderir a esta visão do que seja «a revolução», teremos necessariamente de excluir as «revoluções políticas», as mudanças políticas, mesmo que elas nos pareçam muito significativas. De facto, o que é apontado como revoluções não o foram, por certo; mas foram antes epifenómenos de algo que estava a agir em maior profundidade.

A «revolução francesa», por exemplo, foi o derrube de uma ordem monárquica mas, nem por isso foi a transformação radical da forma produtiva, nem sequer da dominância das classes. A transição da sociedade agrária para a sociedade industrial estava muito avançada quando, a 14 de Julho de 1798, um grupo de populares parisienses tomou a Bastilha. As relações de produção continuaram as mesmas, antes e depois da «revolução», não foi pelo facto de um certo número de cabeças rolarem, nem de propriedades, que antes pertenciam a aristocratas, passarem a pertencer a burgueses, que se modificou em profundidade a relação entre as classes e nem sequer ao nível do poder político. Note-se que os cargos políticos, já antes da chamada revolução, eram largamente ocupados por elementos da alta burguesia, os quais exerciam esses cargos no poder central e provincial do Estado, muitas vezes relacionados com funções legislativas e da justiça. Mesmo nos altos postos das forças armadas, um campo supostamente reservado à nobreza, as classes não nobres iam progressivamente tomando conta de mais e mais postos. Não devemos ficar iludidos pelo facto do monarca enobrecer um alto funcionário ou uma alta patente do exército: era uma forma, por um lado, de mostrar confiança nesse indivíduo e, por  outro, demonstrar que, servindo o reino, se podia ascender aos cargos e privilégios mais elevados, independentemente da origem social. Napoleão, auto- coroando-se de imperador dos franceses, apenas acentuou essa tendência, que já vinha de longe, criando uma nova  aristocracia, desde barões a príncipes.

Não se encontra, no domínio  da política, nenhum aspeto de fundo que tenha modificado realmente a estrutura das relações sociais. Alguns burgueses tiveram oportunidade de enriquecer, tomando as propriedades das ordens religiosas. Note-se que, eles já pertenciam aos extratos elevados da burguesia, quando compraram (por bem pouco!) os bens das ordens religiosas, postos à venda pelo Estado «revolucionário». 

Poderíamos facilmente mostrar que, ao longo do período napoleónico, contrariamente à mitologia, as classes populares (operários, artesãos, camponeses), não só ficaram subjugadas pelos mesmos ou por outros senhores, como se acentuou a proletarização brutal. Foram colocadas pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e incluindo crianças, numa relação de dependência e precariedade, que se traduziu em miséria para as classes populares urbanas. As pessoas esquecem muitas vezes a enorme sangria que foram as guerras revolucionárias e napoleónicas: Durou cerca de 25 anos, em várias partes da Europa. Foi um rasto de destruição «a ferro e a fogo», desde Lisboa  até Moscovo. Estas guerras forçaram comunidades rurais inteiras a migrarem para as cidades, visto que as suas explorações agrícolas tinham sido devastadas ou tinham perdido sua viabilidade económica. 

Do ponto de vista estritamente político, após as guerras napoleónicas reconstituiu-se rapidamente a aliança entre a alta burguesia e a aristocracia. Os governos e monarquias constitucionais que se formaram em quase toda a Europa, são o resultado disso. De fora, ficaram apenas elementos mais radicais, como os republicanos, que continuaram a ser perseguidos: não houve «liberdade de imprensa», nem liberdade de qualquer espécie, durante largos períodos do século XIX, tanto nos países onde tinha havido forte apoio às ideias revolucionárias, como nos que não se deixaram seduzir por elas.  

Na verdade, o fenómeno político, as revoluções liberais, anti autoritárias, anti monárquicas, que houve ao longo do século XIX, são sobretudo o epifenómeno duma profunda transformação na estrutura produtiva. A revolução industrial, que se tinha desenvolvido bem antes, desde o século XVIII, pelo menos, estava a transformar as relações entre classes em profundidade, mas de uma forma silenciosa, não em consequência de qualquer proclamação de princípios revolucionários. O que houve de revolucionário (sem aspas) ao nível da produção, foram, entre outros, a primeira mecanização, a utilização de máquinas a vapor e a concentração de trabalhadores em grandes manufaturas. Estes, eram frescamente saídos dos campos, onde seu trabalho deixou de ter viabilidade económica. 

A concentração de proletários nos centros urbanos, por sua vez, obrigou à transformação das práticas agrícolas: a utilização de processos mecânicos, a generalização dos adubos, os tratamentos fitossanitários, a maior racionalidade no uso dos solos e das culturas, produziram aumentos significativos da produtividade agrícola. Assim se criaram os excedentes que permitiram alimentar a massa humana cada vez maior, nas cidades industriais, porém utilizando muito menos braços nas tarefas agrícolas.  

Portanto, a revolução industrial é o grande motor das transformações. Estas, não se limitaram ao século XIX:

Obviamente, a «grande revolução russa» correspondeu à transformação do país essencialmente agrário, numa potência industrial moderna. Que esta transformação se tenha operado a partir de 1917 sob um governo despótico, totalitário, não impede que tal transformação tenha sido o principal aspeto estrutural da «revolução russa». Os bolcheviques, para efetivação da sua tomada de poder, souberam aproveitar as simpatias de partes do campesinato e do proletariado citadino, por determinadas ideias sociais, o socialismo, o comunismo e o anarquismo. Estes foram instrumentalizados, por vezes esmagados, para a transformação desejada pela «elite» soviética. Não esqueçamos a famosa fórmula de Lenine: «o comunismo consiste nos sovietes, mais a eletrificação do país».

É estranho, mas os que se dizem marxistas não conseguem fazer leituras objetivas dos fenómenos sociais e políticos, quando neles estão envolvidos partidos e correntes «comunistas». A mesma incompreensão dos fenómenos leva certos «revolucionários auto-proclamados » a fazerem uma leitura totalmente errada do  maoismo e do processo de emancipação da China, da sua passagem de uma sociedade atrasada, com características feudais, para uma grande potência industrial e tecnológica. 

Nós - porém - não estamos bloqueados por preconceitos ideológicos. Temos acesso  a um manancial de factos registados, pelo menos desde o início do século XIX, até hoje: não precisamos de distorcer a realidade, ou de fabricar «narrativas convenientes», para convencer os outros de que temos razão, que estamos na linha justa, etc. 

É necessário compreender que a revolução industrial continua, que ela não parou: não é como um comboio que parte dum ponto, para chegar à estação de destino final. A revolução industrial tem vários episódios, continua a modificar a infraestrutura produtiva, a transformar as relações sociais, a condicionar a vida das nações e dos indivíduos e (como epifenómeno) segrega ideologias, as quais são uma espécie de «secreção» que o tecido social produz, enquanto este vai sofrendo inúmeras micro transformações.

A outra grande revolução na história da humanidade, é a revolução agrária. Ela dura desde há cerca de 10 mil anos. No presente, também continua e as suas transformações estão interligadas com as transformações da revolução industrial. Talvez, um dia escreva sobre a revolução agrária. De qualquer maneira, está tão ligada com as primeiras civilizações, que seria necessário compulsar um número impressionante de dados, só para darmos conta da origem e do desenvolvimento desta revolução agrária. É como fazer a história da humanidade, excetuando o longo período paleolítico.

Não poderei pretender mais, neste pequeno texto, do que delinear as questões teóricas em relação com o conceito de revolução e expressar estranheza, perante a «cegueira voluntária» dos que se assumem como sábios, como sabendo em profundidade as coisas, mas que cometem as mais grosseiras falhas de lógica, de bom-senso, para já não falar de método científico. Não poderei convencer tais  indivíduos de que estão errados. Estão numa esfera do tipo crença religiosa, dentro dos seus casulos mentais, sem nenhuma abertura para a realidade... 

Assim constatei, em vários, ao longo da minha vida. Felizmente, existem espíritos mais abertos, que conseguiram aperceber-se das falsidades que lhes andaram a contar durante boa parte da sua vida. 

Mas, aos outros, que não estejam vinculados às falsas religiões das ideologias, digo-lhes: - Vejam este escrito como chamada de atenção e um apelo ao vosso espírito crítico. Não é por algo ser crença de muita gente à vossa volta, que isso é «verdade», nem tão pouco, que seja a verdade a versão oficial, canónica da História, ensinada desde a escola primária, à universidade! 

Eu não pretendo ser detentor da verdade. Apenas tento equacionar os dados do problema ... claro que posso também me enganar. Porém, espero que o meu comportamento desinibido desencadeie nalguns o desejo de inquirir estes assuntos por eles próprios.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

O QUE É O ROMANTISMO?

Aqui, não vos irei falar sobre a infinidade de sentidos que é dada à expressão ou a forma como o público, em geral, avalia qualquer obra como sendo «romântica» ou não. Isso terá pouco interesse, se não se compreender previamente a existência de um movimento dentro da História, que é simultaneamente estético, político e filosófico.

É esse movimento romântico que me interessa: o que  foi assim designado por críticos contemporâneos ou posteriores, ao movimento sobre o qual escreveram.

Muito haveria a escrever sobre as componentes que o caracterizam - a estética, a política e a filosofia. Estão entrançadas de tal modo que, ao distingui-las, devemos ter em mente que isso se deve antes a conveniência na exposição, pois se misturarmos os aspetos, acabamos por não clarificar nada sobre as várias facetas do movimento.

A definição de romantismo poderia dá-la  sintetizando definições de dicionários; mas estou convicto que essas definições «congelam» ideias, causam a sua cristalização, tanto na mente de quem escreve como de que lê.

É inegável a ligação do romantismo com algumas ideias que «andavam no ar», nos finais do século XVIII: A ideologia liberal, na sua formulação primeira, a da Declaração de Independência dos Estados Unidos. A filosofia dialética de Hegel, a filosofia da Natureza de Goethe e de muitos mais. Nota-se a emancipação da Escolástica medieval. Embora o ser humano ainda seja colocado no centro da Criação, não é um «pedaço de argila moldado por Deus», antes o construtor de si próprio, da sua própria vida, do seu devir. Num tempo em que as estruturas do passado se desmoronam, a realeza absoluta, a Igreja da Inquisição, a família patriarcal, começo de emancipação da mulher (somente na aristocracia e na burguesia), tendência a acabar o regime de monopólio e privilégio das companhias de comércio, protegidas pelo poder real, levando à entrada de vários atores no mercado. Tudo isso, tinha relação com um dos pilares da nova visão do Homem enquanto indivíduo, um ser dotado de inteligência, sensibilidade e senso moral: ele não podia já ser tratado como mera criança, obrigado a aceitar como as únicas ideias «legítimas», as que lhe impunham os padres, os reis e os nobres. A descoberta doutros mundos, para além do Velho Mundo, da Europa, Ásia e África, implicava relativizar ou por francamente em causa «certezas» ensinadas e reproduzidas em austeros tratados, nas Universidades europeias. O saber deixou de estar limitado à elite universitária e eclesiástica, com a nova dimensão do saber técnico, o saber-fazer. Pense-se nos saberes associados à navegação: a geografia, a cartografia, as técnicas de construção de navios, a descoberta e descrição de novas espécies vegetais e animais, nos continentes explorados pelos europeus. Nos dois séculos anteriores ao século XIX, houve um constante alargar dos horizontes. Foi, propriamente, o início da revolução científica e técnica. Esta revolução não foi política, ou não teve como motivação substituir a ordem política vigente. Os reis e os poderosos encorajavam as expedições longínquas, acolhendo os novos dados científicos que delas resultavam, com a mesma abertura com que acolhiam novas trocas comerciais.

Foi assim nascendo a ideia do ser humano enquanto indivíduo. Não que dantes não existisse uma tal noção. Mas, de uma forma ou doutra, ela esteve subordinada ao coletivo: o povo, a pátria, a pertença ao reino, à zona geográfica, à profissão (as corporações de ofícios). O homem do século XVIII/XIX ainda continua conectado a essas realidades, que moldam o seu destino. Mas, aquilo que muda, é a ênfase: o essencial, já não é a proveniência do indivíduo, a sua classe de origem ou a sua pertença a tal ou tal reino.

Na música, no teatro, na pintura e escultura, as sociedades aceitam o cosmopolitismo dos artistas e até o encorajam. Por exemplo, a corte do rei D. João V de Portugal, que beneficiou das muitas riquezas das colónias, em particular do Brasil, estava repleta de estrangeiros, músicos, artistas plásticos, cientistas, etc. na sua maioria, italianos.

A ênfase tornou-se mais política, a partir da Revolução Francesa. O cidadão, era aquele individuo que aderia ao projeto revolucionário. Assim, houve deputados polacos, irlandeses e alemães à Convenção da França revolucionária. Eram homens que se tinham identificado com a causa revolucionária; eram legitimamente membros deste corpo representativo. Note-se que, mais tarde, esta noção política de cidadania foi instrumentalizada por Napoleão: Em todas as suas campanhas militares utilizou estrangeiros (regimentos de irlandeses, de polacos, de suíços, de alemães), completamente subordinados ao poder imperial. 

Na literatura, a grande revolução foi o dar-se primazia ao indivíduo, através da exposição dos sentimentos: Rousseau (Confessions), Goethe (Werther) etc. 
Na música, o cânon clássico representado por Haydn e outros músicos, foi destronado a favor do romantismo nascente, correspondente ao movimento literário «Sturm und Drang» (Tempestade e Ímpeto).  
A crítica foi muito negativa, na estreia da  3ª Sinfonia de Beethoven.  Porém, a nova estética acabou por triunfar. Os músicos românticos, após a morte de Beethoven, foram célebres: Mendelssohn, Schubert, Liszt, Chopin, Berlioz, etc. A estes, seguiu-se uma segunda e uma terceira vaga. Na época do romantismo ascendente não são produzidas peças «delico-doces», associadas pelo público à expressão música romântica. A ideia do romantismo como música «lamecha» e com falta de imaginação, tem origem na utilização de fórmulas, por pessoas sem talento, mas que se atreviam a compor.
A música e a poesia romântica vão de par com uma sensibilidade emancipatória, envolvendo as determinantes nacionais e sociais.
 
Os heróis românticos não dependiam senão do seu destino. O seu devir era moldado por suas características psicológicas; pela sua capacidade em amar, o seu sentido do dever, a sua determinação. Também existe a imagem estereotipada do herói/heroína que sucumbe ao destino trágico: Eles lutam até ao limite de suas forças. São vencidos, mas não resignados. 
Mesmo a vertente «negra» do romantismo (ver poema de Baudelaire, abaixo*),  não implica uma renúncia ao bem ou ao que há de saudável nos humanos e na sociedade. Se Baudelaire adota, nalguns poemas, uma pose «decadentista» ou mesmo «satânica», isso deve-se, sobretudo, à sua condição pessoal: ele sofre, mas não aceita esse sofrimento com resignação. A revolta é percetível, em muitos dos seus poemas.

                       Foto de Charles Baudelaire, por Nadar

*
Charles BAUDELAIRE
1821 - 1867

Épigraphe pour un livre condamné

Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et naïf homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et mélancolique.

Si tu n'as fait ta rhétorique
Chez Satan, le rusé doyen,
Jette ! tu n'y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hystérique.

Mais si, sans se laisser charmer,
Ton oeil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre à m'aimer ;

Ame curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi !... sinon, je te maudis !

terça-feira, 11 de abril de 2023

O QUE SIGNIFICA «REVOLUÇÃO»?

 Revolução é uma das palavras mais ambíguas do vocabulário. Ela é usada a torto e a direito, desde políticos, propagandistas, ideólogos, até mesmo historiadores. Na realidade, eu penso que existe uma indefinição semântica que só permite manter a ambiguidade e é disso que vivem todos os oportunismos.

Como ninguém tem a propriedade da língua e ainda menos da sua utilização, o que posso eu criticar, afinal? Seria legítima esta  autocrítica, se eu ficasse por aqui. Porém, irei mais fundo, pois este tema é dos mais estimulantes. Creio que - para um pensamento crítico e com verdadeiro substrato filosófico - é preciso fazer um ponto prévio, já aqui feito noutros textos, de que a língua humana é capaz de preencher muitas funções, simultaneamente. Se não tivermos atenção ao contexto e a outros fatores, arriscamo-nos a cair como preza dum locutor pouco escrupuloso com as palavras que utiliza.  

A muitos, parecerá uma preocupação excessiva com as palavras e o seu significado. Mas, eu verifico que a propaganda, usada constantemente por Estados, governos, partidos e outras instâncias segregadoras de ideologias, tem o (mau) hábito de dar «nomes», que não correspondem à descrição clássica dos mesmos.  E não faz isso por acaso!

Estudando a História, verifico que -  em ocasiões de rutura de paradigma - aparecem muitas pessoas a reivindicar a qualidade de revolucionários.  Muitas pessoas são levadas a fazer tomadas de posição, de que se envergonham mais tarde, caso tenham um mínimo espírito autocrítico. 

Não deveríamos cair nas garras dos demagogos: Eles são tais como aqueles vendedores, que antes iam de porta em porta, agora estão no écran do «smartphone, ou tv ou doutro meio eletrónico. No caso dos comerciais, podemos acabar por comprar algo de que realmente não precisamos; mas, no caso dos demagogos de todas as cores e feitios, é muito pior: podem vender-te a guerra, como sendo o caminho para a «paz», a espoliação dos países e povos mais empobrecidos, como a sua «libertação» ou «emancipação» e por aí adiante! Reparem como o célebre romance 1984, de Orwell caracteriza o estado totalitário. Ele descreve a inversão e transformação radical da língua, a «novilíngua» e a erradicação do passado («quem domina o passado, domina o presente e quem domina o presente, domina o futuro»). Além disso, havia uma total ausência de propósito estratégico, nas sucessivas guerras que Oceânia e Eurásia se faziam, assim como na inversão das alianças, sem lógica compreensível. 

Não «ressoa» isto com situações* que se estão a passar, importantes e muito reais, mas que nós - desde os mais «bem» informados, aos que estão totalmente desfasados - não compreendemos? Todos, estamos na ignorância do que será o futuro. O futuro, querem-no definir alguns megalómanos, como Klaus Schwab, que - com certeza - estudou Lenine e Mao, entre outros. 

Na nossa ingenuidade, de forma implícita e explícita, estamos sempre a «dar crédito» (= a acreditar) aos indivíduos que pronunciam belas palavras e frases, que ressoam com os nossos sentimentos, convicções, ideologias... É assim que se consegue a adesão ou a simpatia de pessoas pouco ginasticadas na análise crítica, ou seja, que confundem a palavra com o ato: ora, esta distinção é fundamental para se perceber o mundo dos homens. No campo da política, são inúmeros os exemplos dos que se apresentam aos eleitores como defensores disto e daquilo, quando na verdade, o que querem é simplesmente arrebanhar votos e consciências, para levar a cabo suas ambições de poder. 

Os típicos demagogos, os políticos com maior ambição e portanto com mais probabilidade de alcançar lugares cimeiros são aqueles que dominam perfeitamente o código dos sentimentos humanos, das paixões. Isto porque como dizia  Robert A. Heinlein, um grande autor de Ficção Científica: «os humanos não são seres racionais; mas racionalizadores». Isto aplica-se a todas as atividades humanas. Em particular, à governação e a «conduzir as massas», a liderar as «revoluções». Trata-se da técnica de pôr as pessoas a fazerem exatamente o contrário do que seriam os seus interesses, os seus sentimentos genuínos. Mas de as levar a isso, convencidas de que estão a fazê-lo para o «bem», para «o interesse coletivo», etc.  

Não é preciso o leitor estar equipado em permanência com um dicionário enciclopédico, para conseguir descortinar a profusão de sentidos da palavra «revolução», quando está a ser pronunciada ou escrita por alguém. O «segredo» é simplesmente não dar atenção exclusiva ao que essa pessoa diz ou escreve, mas antes, qual é a coerência entre o seu discurso, a sua narrativa e os seus atos concretos, neste momento e no passado. 

Pense neste exemplo: Seria ridículo um ator de cinema, de teatro ou de ópera, ser tomado como alguém deveras convencido do que diz, ou representa. Assim, o talento de ator/atriz está em fazer-nos crer que ele/ela não está a representar. De outro modo, o seu desempenho soa a «falso». É o mesmo com o mundo da política, da ideologia, de «pensadores» e «fazedores de opinião». 

Não pretendo anunciar nada de novo. Basta lembrar o provérbio, que existe em várias versões, em várias línguas, mas dizendo o mesmo: «Não sejas como Frei TOMÁS, FAZ O QUE ELE DIZ E NÃO O QUE ELE FAZ!» 

Tome-se o provérbio acima como critério, é um bom instrumento para evitarmos ser enganados. Por exemplo, na vida real encontramo-nos com um sujeito; ele apresenta-se e fala connosco sobre diversos assuntos. Após algum tempo, descobrimos que esse sujeito estava a «fazer teatro»; na realidade, ele omitiu muitas coisas, inventou outras, provavelmente com o intuito de nos induzir a fazer qualquer coisa (no interesse dele, não no nosso!). É quase impossível não se ter encontrado um tipo de pessoa assim; pode-se ter encontrado, e não se ter percebido o que ele queria realmente. 

Quanto a mim, se alguém fala de revolução, eu quero saber desde logo:

- Para quê, para que fim, com que objetivo(s) de longo alcance

- Como, ou seja, que meios serão necessários para levar a cabo essa transformação

- E quais os protagonistas: Será um grupo de revolucionários treinados? Se diz que é uma «multidão», ou é pouco inteligente, ou pensa que nós somos pouco inteligentes...

No caso em que eu fique esclarecido dos três pontos acima, depois quero ver, na prática, como agem essas pessoas que se reclamam de um objetivo «revolucionário». Pois é infinitamente mais fácil traçar um programa revolucionário, do que levá-lo a cabo. E, mais fácil proclamar os princípios, do que fazer com que todos ajam de acordo com esses mesmos princípios. Não é por um certo número de indivíduos ter uma fixação obsessiva, uma «mística» revolucionária, que estes indivíduos são realmente revolucionários! 

Certamente, outras pessoas podem ter abordagens melhores que a minha. Gostava de ler as opiniões dos leitores. Se noutra língua, que não o português, podem ser escritas na língua original e traduzidas pelo app- tradutor, que se encontra no lado direito desta página. 

Muito obrigado!

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(*) Um exemplo claro de ocultação de responsabilidades, pelos media ocidentais, é o caso Nordstream, leia: 

https://www.unz.com/jcook/why-the-media-dont-want-to-know-the-truth-about-the-nord-stream-blasts/

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

[BYUNG CHUL-HAN] A REVOLUÇÃO IMPOSSÍVEL?


 A exposição animada resumindo o livro, feita por Claudio Alvarez Teran, talvez deixe de fora aspetos essenciais ou dê um enfoque demasiado subjetivo do mesmo. Não sei, porque não li (ainda) esta obra de Byung Chul-Han. 
Agora, aquilo  que posso dizer, se compreendi realmente a essência da obra, é que ela é uma aposta. No futuro próximo se verá. Eu temo que Byung Chul-Han tenha razão, no curto prazo: 
- Uma dominação cada vez mais aprofundada do neoliberalismo, entranhando-se nos nossos neurónios, como se fosse uma droga, não é uma ficção científica distópica. 
Basta olhar criticamente à nossa volta e vermos a quantidade de pessoas alheadas de qualquer coisa que saia um pouco fora dos seus interesses imediatos. 
Um entorno de pessoas egoístas, complacentes consigo próprias, mas intransigentes em relação aos outros, é o mais vulgar padrão de comportamento com que me tenho deparado, em múltiplas situações. 
As pessoas despertas para os outros, atentas, dispostas a ajudar, não por interesse mesquinho (esperando recompensa) mas  por genuína empatia ou solidariedade, pelo contrário, é o que eu encontro de mais raro. 
Assim a revolução que faz falta, não é a revolução contra o indivíduo da outra classe social, que supostamente nos oprime, pois este indivíduo foi instrumentalizado por forças poderosas que o moldaram e deformaram. 
Ele não  está menos alienado do que o operário, só que o está diferentemente. A alienação é geral, a alienação é o conceito-chave, quanto a mim. 

Vivemos num sistema que mata o humano, em que a própria palavra humanismo não é compreendida, pelo menos em sentido filosófico, mas é confundida com uma atitude de falsa compaixão, de falso amor pelo próximo. 

Para o sistema capitalista atual, não lhe chega dobrar os humanos ás exigências da produção e do lucro. Isso era o que o capitalismo industrial exigia das pessoas: Fora das horas de escravidão assalariada, o proletário podia ocupar-se do que quisesse, tal não entrava nas preocupações do capitalista. 

Hoje em dia, o proletário tem de estar inteiramente submetido através da internet, com disponibilidade para qualquer tarefa a que decidam submetê-lo, controlado via «smartphones», «tablets» ou «laptops». 

A sua escravidão já não é só física e limitada no tempo; também é uma prisão mental, emotiva e perpétua. Nesta barbárie civilizada, os grilhões que encadeiam todos não são visíveis. São mais poderosos que as sedas de que são feitas as teias de aranha. Estas últimas são fios muito finos, mas muito resistentes e elásticos. 

Quanto ao proletário moderno (não importa que seja «rico», ou «médio», ou «pobre») está enterrado no inextricável novelo de «teias de aranhas virtuais», ou seja, de sujeições das quais -mesmo que quisesse - não poderia escapar-se. 

O homem (ou mulher) rico/a (no sentido de possuindo plenitude) da nossa época, será aquele/a que tem liberdade de se mover, de se determinar, por si próprio/a; mas não em função desta teia invisível. Ele/a determina-se por outros parâmetros. 

Quanto à satisfação dos desejos, por si só, não é marca de verdadeira emancipação. A sociedade tentacular adora encerrar as pessoas através de seus desejos, para melhor as dominar. 

O ser livre está consciente da degradação da psique humana, do abaixamento dos padrões éticos e morais. Este ser, embora dificilmente, tenta encontrar as pontas dos novelos em que os outros estão enovelados, para lhes indicar a saída do labirinto, não para os acorrentar ainda mais. 

No fundo, o desejo de liberdade e de plenitude (chamemos pelo nome que quisermos: Amor, Deus ... etc.) não pode ser erradicado, está presente em todos os humanos. Eles - os que se especializaram em controlar a psique das pessoas - sabem isso; por isso temem, mais que tudo, aquilo que seja do âmbito espiritual. 

A sociedade contemporânea é caracterizada pelo seu materialismo, hedonismo e egoísmo generalizados. Nada disso obedece a uma procura de ideal, de elevação, de nobreza do coração.   

Se esta fase não desembocar na completa destruição dos humanos e do ecossistema global planetário, a época que virá será a do renovo da humanidade, a que podemos chamar de «comunismo». Um comunismo liberto da falsa e presunçosa gana de domínio, de poder sobre os outros. 

O verdadeiro comunismo está em embrião nas várias tradições dos povos (práticas comunitárias, cultos religiosos, formas de arte), mas ainda não alcançou o grau de consciência global necessário para que exista na realidade social.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

THE ANIMALS E OS ANOS 60

Os britânicos «The Animals» são um marco inesquecível dos anos 60. Em homenagem ao grupo e seus membros, deixo aqui algumas das melhores gravações:


               https://www.youtube.com/playlist?list=PLUv1WgIwP9IORf7pGl2Et34u40666iOQs

Nestes anos, os jovens eram revolucionários:  Ocuparam fábricas e faculdades, puseram em cheque as políticas repressivas, não tiveram medo de enfrentar tanto a repressão policial, como a repressão burocrática. 

Nos anos 60 passaram-se muitas coisas que eu não imagino possíveis na atualidade. Pelo menos, nos países ditos «ocidentais».  

Era assim, nos anos 60, à beira da revolução que acabou por não acontecer no plano político, mas foi bem sucedida na sociedade civil:

LIBERTAÇÃO SEXUAL, LUTA AUTÓNOMA DAS MINORIAS OPRIMIDAS, LUTA ANTI-COLONIAL E ANTI-IMPERIALISTA, SOCIALISMO NÃO-BUROCRÁTICO.

https://www.youtube.com/playlist?list=PLUv1WgIwP9IORf7pGl2Et34u40666iOQs


sexta-feira, 26 de novembro de 2021

[Portugal 1974-75] COMO SE DESFAZ UMA REVOLUÇÃO

                                                                           Cartaz de Helena Vieira da Silva 

Como se desmonta uma revolução peça por peça 

Para a história do pós 25 de Abril

É talvez mais difícil do que parece, efetuar um trabalho de reflexão e análise sobre acontecimentos históricos, sociais e políticos, nos quais se participou. Isto é válido, tanto para os que participaram ao nível de atores principais, como para os figurantes: pela simples razão que a sua subjetividade está presente em todas as suas recordações (boas e más), associadas nas suas mentes, aos acontecimentos e à época que pretendem retratar. Por isso, irei abordar o assunto ao nível das generalidades e não me debruçarei explicitamente sobre episódios em que participei, de que fui testemunha ou de que tive conhecimento mais ou menos direto.
Mas estou convicto que ser verdadeiro é honrar devidamente o povo anónimo e as conhecidas figuras, que participaram nesta revolução. Isto tem o significado para mim, de fazer - tanto quanto possível - a correta avaliação das forças em presença, do que estava em jogo, do real, e não ficcionado, desenrolar dos acontecimentos, dos erros cometidos de parte a parte.
Infelizmente, muitos dos que escrevem sobre acontecimentos nos quais estiveram envolvidos, costumam omitir ou distorcer o seu papel pessoal, ou das forças nas quais estavam integrados. Por esse motivo, os seus testemunhos têm de ser vistos sempre criticamente, mesmo se tiverem a nossa simpatia.
Os movimentos revolucionários emancipatórios que se desenrolaram nos vários países e continentes, nas várias épocas que nos é dado estudar através da História, têm - a meu ver - a característica de enormes fracassos: ou porque falharam e resultaram em banhos de sangue, ou porque, aparentemente triunfantes, degeneraram em regimes cuja prática está no polo oposto daquilo que os revolucionários da primeira hora defendiam. A revolução bolchevique foi um fracasso, a revolução maoista, idem. Nestas, como em muitas outras, a edificação do poder decorrente, veio colocar uma chapa suplementar «em nome do povo», sobre as opressões multiseculares que estes povos sofriam.
Portanto, as «revoluções triunfantes» têm sido, quase sempre, triunfantes pela burocracia e sobre os desapossados, os desclassificados. O facto de institucionalizarem um ritual, uma doutrina, uma verdade de Estado sobre os acontecimentos históricos, sobre os seus desenvolvimentos e significados, é uma mordaça suplementar, que colocam a eventuais críticos que possam surgir nas suas fileiras. Estão assim a designá-los – a priori - como contrarrevolucionários, ou como traidores à causa do povo.
Diria que é uma tragédia mais, a adicionar à tragédia concreta destes eventos históricos designados por «revolução», o facto de que nem os protagonistas, nem as gerações seguintes, aprendem algo de substancial com eles. Isso é assim, em grande parte, porque tais acontecimentos foram usados como argumento, como «demonstração», pelas várias correntes, sejam elas revolucionárias, ou antirrevolucionárias. Os relatos históricos nunca são neutros, sabemo-lo bem mas, no caso destes episódios, carregados de significado ideológico, dá-se a sua transformação precoce em narrativas míticas. É quase inevitável que assim seja. Sobretudo, se nos limitarmos às narrativas da história oficial, ou oficiosa. A estas, aplica-se a expressão de que «a história é escrita pelos vencedores». Porém, não chega haver uma «contra-história», produzida, cultivada e difundida em círculos reduzidos, para que a situação possa inverter-se.
Perante esta situação, qual será a atitude possível, tanto do ponto de vista da ética, como duma prática de mudança?
- Os que se assumiram do lado da revolução, deveriam perguntar a si próprios porque falharam. Mas, a sério: Não tentando aliviar culpas, não procurando atenuantes, embora sem fazer disso um exercício de autoflagelação. Isto não é simples de se fazer, mas é possível, no entanto. É um caminho que implica o pôr-se em causa as certezas e preconceitos. Mas, sobretudo, implica aceitar-se que as premissas que levaram os protagonistas a agir de tal ou tal maneira, estavam erradas.
É frequente as pessoas que estiveram envolvidas nos acontecimentos do 25 de Abril e posteriores, reconhecerem que existiu sectarismo. É tempo de se despirem desse sectarismo. Só o podem fazer, se aceitarem que estavam imbuídas de preconceitos: o preconceito do vanguardismo, a convicção da verdade «infalível» e «científica» da teoria marxista-leninista; a ideia de que tudo o que não estivesse de acordo com seus pontos de vista, era «reacionário», «contrarrevolucionário»; a ideia da inevitabilidade e da irreversibilidade do «caminho para o socialismo».
Enfim, existiram tantos erros fundamentais, que o resultado prático foi os «revolucionários» comportarem-se de um modo irrealista, reflexo de um pensamento totalmente alienado. Uma tal situação só podia dar naquilo que deu. Só podia resultar no triunfo das forças moderadas e antirrevolucionárias. Porque o povo, a maioria não arregimentada no ideário marxista, percebia que o estavam a levar para um beco ou para uma catástrofe.
As pessoas realmente revolucionárias devem reconhecer que estiveram erradas. Pois, se não percebem o erro, a sua natureza, sua extensão e gravidade, vão persistir nele. Os intoxicados com a sua própria ideologia são como drogados: Estes julgam estar perfeitamente capazes de dominar, de «controlar» a droga, quando é exatamente o contrário. As pessoas imbuídas de ideologias também se julgam muito sábias, muito capazes de compreender o mundo, graças à ideologia que lhes daria a chave de tudo. Como indica o próprio nome «ideologia», é um sistema de ideias que se sobrepõe ao real. As ideologias são sempre ilusórias; não são a realidade, não são a ciência. São apenas discurso de ideias.
É preciso colocar as coisas no devido pé: A ideologia é uma inversão da realidade. É uma miragem, uma ilusão de ótica, que mantém os indivíduos enganados. É costume pensar-se que as pessoas são impelidas a agir por causa de suas ideias, ou que atuam sob influência de certas ideias. Porém, não são «as ideias que os guiam para a ação», é antes o oposto. O resultado da ação é que exerce um papel significativo, transformativo, nas ideias e sentimentos das pessoas envolvidas em determinados acontecimentos.
A única possibilidade de se teorizar, seja no que for, é sempre a posteriori: Primeiro vem o fenómeno, depois vem a teoria. Os que se dizem marxistas, muitas vezes põem a teoria à frente, a «guiar» a práxis. Eu penso que alguém mergulhado na ciência, se colocará antes na postura inversa, de testar a teoria: perante a práxis e seus resultados, muda-se o que se deve mudar, na teoria.
Os revolucionários, tal como os estrategas militares, que estudam as táticas e estratégias da última guerra, costumam estudar a(s) revolução/ões passada(s). Isto não lhes dá nenhum guião sobre como conduzir-se na revolução seguinte. Mas, ao menos, o seu estudo inteligente poderá impedi-los de cair exatamente nos mesmos erros, ou parecidos. Isto já é alguma coisa.
A crítica e autocrítica não deveria ser vista como exercício para determinar qual ou quais seguem a linha justa ou quais «são oportunistas e revisionistas» (os «inimigos» interiores). Esta paranoia é uma doença crónica que tem servido para esfacelar organizações revolucionárias.
Enfim, um espírito aberto, o mais amplo possível, é necessário. Não se pode ter certezas definitivas nenhumas. Há pessoas que invocam a torto e a direito a «ciência», sem saberem que a ciência nunca prova nada, apenas fornece hipóteses. Estas hipóteses são consideradas válidas como aproximações da realidade, até vir um facto, ou conjunto de factos, que as invalida. Portanto, a modéstia e a humildade deveriam proibir os revolucionários de chamar a suas teses de «científicas» e, muito menos, de «cientificamente provadas».
Eu baseio-me neste princípio, tanto nas ciências naturais, como nas ciências humanas, na história e na sociologia. Se determinado evento correu desta maneira, e não como nós desejávamos ou esperávamos, é porque a análise feita na altura estava equivocada, a um ou outro nível. A modéstia e inteligência consistem em ver os nossos erros, não atirando culpas para a maldade do inimigo, a traição de aliados ou a imaturidade do povo, tudo argumentos que tenho me cansado de ouvir, até em bocas ilustres. Tais falsos argumentos são apenas autoilusão, sacudir água do capote.
O período do «PREC» («Processo Revolucionário em Curso»), foi marcado pelo florescimento da liberdade e pela aprendizagem da política mas, igualmente, por radicalismos e visões marcadamente ideologizadas da sociedade portuguesa. Só quem esteve por dentro do torvelinho nesse período,  compreenderá como ele pôde, em breve sucessão, suscitar uma enorme vaga de esperança e uma profunda deceção.
Penso que não sou o primeiro a considerar que o 25 de Abril foi a última revolução leninista na Europa, ou no «Ocidente». É verdade que uma parte dos jovens, fossem eles trabalhadores, estudantes ou soldados, estavam influenciados pela ideologia marxista-leninista, não só veiculada pelo PCP, como por grupos esquerdistas que, também em Portugal, apesar da repressão, se tinham desenvolvido após o Maio de 68. Esta «sacudidela revolucionária», cujo epicentro foi em França, teve repercussão internacional e desencadeou, por sua vez, movimentações em muitos outros países.
A guerra colonial arrastava-se, sem outra perspetiva que a humilhante derrota à vista. Isto era a convicção, não apenas dos «capitães de Abril», como de todas as pessoas que refletiam. Este facto, conjugado com o congelamento das «reformas» de Marcelo Caetano (o sucessor de Salazar), assim como a crise social e industrial, que empurrava cada vez maior número de jovens para a emigração, eram causas de descontentamento e de radicalização específicas da situação portuguesa.
Precisamos de ouvir historiadores sérios, quaisquer que sejam os seus pontos de vista, que se debrucem em profundidade sobre o período entre o 25 de Abril de 74 e o 25 de Novembro de 75 (o «PREC»). Precisamos de confrontar os vários pontos de vista. Devemos ponderar as análises, face a dados objetiváveis, de que possamos dispor.
Não creio que este tão rico momento da História de Portugal esteja suficientemente estudado. Sobretudo, falta debater serenamente, não «a favor ou contra» as correntes políticas intervenientes, mas antes a génese e dinâmica do processo. 
É uma lacuna que se deveria colmatar agora, que se aproximam os 50 anos do 25 de Abril de 74 e estando vivos muitos protagonistas dessa época, que podem dar o seu testemunho. Não creio que as jovens gerações, que não viveram esse período, possam compreender o Portugal contemporâneo, se os mantêm na ignorância, disfarçada por alguns clichés, sobre o pós 25 de Abril, sobretudo o período dito revolucionário. Porém, é certamente uma chave necessária para se compreender a evolução da sociedade portuguesa, de 1974 até à atualidade.


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

OLHANDO O MUNDO DA MINHA JANELA (IV)

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Ver parte I aqui / parte II aqui / parte III aqui

ESTAMOS NUM MOMENTO DE VIRAGEM, NO DOMÍNIO MUNDIAL.

A possibilidade técnica do Império ganhar uma guerra, seja com «botas no terreno» (Síria) seja através de seus mercenários (Afeganistão) ou guerras por procuração (Arábia Saudita no Iémene) está completamente posta em causa.

A existência de um aparato militar pesado, que consome uma parte enorme do orçamento americano e dos seus aliados, torna impossível a tarefa aos EUA e aliados, de manterem a hegemonia, que implica aguentarem o esforço constante de renovação do armamento e de equipamentos diversos, face a competidores capazes de produzir armas de grande precisão e superiores às do Império. Além disso, esses países estão em expansão económica, enquanto os países na órbita do Império, estão em estagnação ou em recessão. Isto é um facto, mesmo que seja negado pelas estatísticas falsificadas e pela media mercenária.

Do ponto de vista económico, os bancos centrais ocidentais têm levado a cabo uma série de medidas, não apenas «pouco ortodoxas», mas que resultam em fracasso completo, com um crescimento económico «a fingir», com repercussões no muito curto prazo, além de terem produzido montantes de dívida monstruosos, não digeríveis, nem pelas actuais gerações, nem pelas próximas.

A falência do modelo neo-keynesiano pode medir-se pela constante erosão das garantias de que os menos afortunados têm beneficiado, mesmo no próprio coração do Império. Países como os EUA, o Reino Unido, a França, a Alemanha, etc., considerados países ricos, proporcionavam às suas populações níveis elevados de bem-estar (Welfare State). São estes, agora, os pontos do globo onde se nota maior crescimento da miséria, dos sem abrigo, do alcoolismo, de suicídios; tudo isto, em paralelo com a constante perda dos direitos sociais nas últimas três décadas e uma ausência de futuro para as jovens gerações.

A oligarquia, no momento presente, já percebeu que tem de inventar qualquer coisa para ir aguentando, para manter - a todo o custo - a ilusão de que «não há alternativa». Porém, o contraste com outras paragens constitui uma permanente e humilhante negação das suas falaciosas «verdades»: Falo da construção da poderosa e diversificada rede de comércio internacional (OBOR =«One Belt, One Road»), que eles tentaram em vão inviabilizar, para depois - também em vão - dissuadirem de aderir, os países sujeitos ao domínio neo-colonial .

Claro que ainda têm uma parte importante do mundo nas suas garras. Mas, mesmo estas zonas escapam ao seu controlo; ultimamente, eclodiram revoltas no Chile e no Equador. Quanto ao processo de paz em curso no Médio Oriente, os americanos ficaram relegados para um canto, sendo a Rússia de Putin a dar as cartas, como interlocutor capaz de aplanar caminhos para a resolução dos conflitos na Síria e no Iémene.

Quanto à União Europeia, os seus dirigentes deviam ser processados e condenados por tudo o que têm feito no Médio Oriente. Mas os dirigentes nunca fazem «mea culpa». Os povos é que têm de arcar com as consequências da falta de visão estratégica dos líderes.

Pelo menos, em França, isto já não se passa exactamente assim: A revolta dos «gilets jaunes» responde à arrogância do poder, não ainda com a mudança desejada, mas - pelo menos- com um movimento de amplitude suficiente para desmascarar quem fala em «consensos» na sociedade francesa.

O agravamento das condições económicas vai acelerar o processo de deslegitimação da oligarquia. Com a Alemanha a entrar em recessão, observam-se vagas de despedimentos aos milhares, nos sectores automóvel, da metalurgia e outros, que irão desencadear novas ondas. Muitas pequenas e médias empresas sub-contratantes estão ameaçadas. Se a Alemanha é o motor económico da UE, logicamente, vai haver um efeito em toda a zona, a própria economia mundial ficará profundamente afectada, devido ao lugar que nela desempenham a Alemanha e a UE.

A viragem para uma economia centrada no consumo interno, e já não tanto na exportação, prossegue na China, o que tem originado menor crescimento económico, fenómeno que pode ser transitório, ou não. Aos valores altíssimos de crescimento das economias na Europa ocidental, nos anos do imediato pós II Guerra Mundial, sucedeu a progressiva diminuição, até ao ponto de que hoje existe uma contracção do PIB real, em vários países.

Estando o crescimento do PIB, sem dúvida, ligado ao crescimento da população, as economias com saldo populacional positivo vão continuar a crescer, enquanto os países industrializados (Europa, América do Norte, Japão...) irão estagnar ou regredir. 
A China está agora a começar a sentir o efeito de duas décadas de política de filho único (1980-2000), com o envelhecimento e a impossibilidade de substituição das actuais gerações de activos.
Nos países ocidentais, o envelhecimento populacional e a não substituição das gerações, devido a uma natalidade demasiado fraca, já eram fenómenos perfeitamente previsíveis, há muitos anos. Porém, a visão curta e centrada no lucro, tem impedido, nestes países, as transformações económicas e sociais necessárias. Seria preciso uma total mudança de paradigma, quer em termos de trabalho (menos horas de trabalho, distribuição do trabalho pelas pessoas), quer de recursos sociais colectivos (a segurança social, as estruturas da saúde, da educação, etc...). Mas, nenhuma política séria foi até agora ensaiada, face a esta mutação demográfica.

Parafraseando Paul Valéry, digo que todos os impérios têm um fim, todos são mortais. Agora, é a vez do Império dos EUA.
Já vimos isto - na História - com a decadência, até ao estertor final, do Império Romano. Outros impérios sofreram processos análogos; todos eles nos podem dar exemplos semelhantes. A escala do Império dos EUA será mais vasta, mas as etapas fundamentais são as mesmas.
Por exemplo, também o Império Romano decadente produziu dinheiro que valia cada vez menos, por ter cada vez menor percentagem de prata. Hoje em dia, a impressão monetária desenfreada - levada a cabo por quase todos os grandes bancos centrais - faz o mesmo, só que na modalidade digital: o seu efeito prático é de diminuir o valor real da moeda, mantendo seu valor nominal.

Verificam-se agora - como então - a multiplicação de cultos estranhos e de seitas obscuras, a decadência total da moral, sobretudo na classe oligárquica, com suas práticas pedófilas e satânicas. O escândalo de Jeffrey Epstein foi convenientemente abafado, com o «suicídio» deste fornecedor de crianças para pedófilos bilionários e seus lacaios da política.

Efeito imprevisível, nos primeiros tempos da Internet: o potencial de indignação e de revolta das massas não foi multiplicado, pois a Internet, mais ainda que a TV (a «droga» da geração anterior) manipulada pelos interesses poderosos, adormece e desvia a atenção das pessoas para futilidades. Pode-se prever que as pessoas, privadas da sua droga, por motivo de uma rotura social, entrem em carência e sejam capazes de actos violentos, desesperados, por não poderem satisfazer a sua adição.

A fragilidade do sistema é tal, que me espanta não existirem mais situações de ruptura, além daquelas que nós já conhecemos.

A canalização das energias para falsos problemas como seja a emissão de CO2 pelas actividades humanas, tida como «a causa» de todas as perturbações do clima, sabendo-se que o clima é algo - por essência - mutável e que concorrem imensas causas para as suas variações, é um dos processos para manter as massas distraídas das questões realmente fulcrais. 

Nunca se toca, sequer ao de leve, na questão central da extrema assimetria na distribuição do poder e do dinheiro.

O modo de proceder da elite tem sido o de gerir, ao nível dos meios de comunicação destinados ao grande público, a percepção (efeito «matrix»).
As pessoas encontram-se enredadas numa série de mitos e falsos conceitos, mas julgam saber muito sobre os vários assuntos, quando - na verdade - não sabem quase nada. Muitas são incapazes de compreender conceitos elementares e não adoptam uma visão racional da natureza e da sociedade. Daí, o seu recurso à astrologia, às pseudo-ciências, às pseudo-medicinas, etc.
Não é por acaso que a educação se transformou num enorme fracasso para os indivíduos, uma fábrica de insucesso. Os poucos que são capazes de passar através do crivo, são condicionados no seu modo de pensar e agir: os «bons» alunos são insistente e constantemente sujeitos a doutrinação, que se confunde - erroneamente - com saber.

A complexidade dos desafios implica que muitas pessoas vão ser apanhas completamente desprevenidas. Estamos a entrar num período de conturbações económicas, onde serão inevitáveis graves perturbações nas sociedades. Haverá instabilidade social e política.

É dever de quem já abriu os olhos do entendimento, ajudar a abrir os olhos das restantes pessoas. Não só é muito positivo para estas, pois saberão melhor como se defender, como é positivo para as pessoas esclarecidas, porque estas não terão um entorno social hostil.
Em vez de «guias do povo», precisamos de pessoas sábias, serenas e esclarecidas, que sejam respeitadas e ouvidas pela maioria.