O que os bem informados não se apercebem, é que, em contraste com a «Guerra Fria Nº1», os poderes usam os avanços da tecnologia e da I.A. para fabricar uma falsa realidade, uma informação «cientificamente» manipulada. Isso, é uma situação inteiramente nova.
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sexta-feira, 26 de junho de 2020

OLHANDO O MUNDO DA MINHA JANELA (PARTE VII)

                                   

                             [Venezuela: exemplo concreto de hiperinflação]


Ao decidir escrever esta crónica, na continuidade dos temas das anteriores, deparo-me com uma dificuldade maior: Embora esteja a escrever apenas um trimestre depois da última crónica (a parte VI foi escrita em finais de Março de 2020), é um pouco como se fosse 20 anos depois, tão densa e dramática a actualidade tem sido.  Ela tem sido isso, para além da crise sanitária, largamente exagerada e convenientemente prolongada, quer pelos media, quer pelas políticas de «lockdown»
Não irei alongar-me sobre o assunto que tenho debatido extensivamente nas páginas deste blog. 
Vou antes chamar a atenção para o facto de que esta crise é uma crise sistémica: Estamos perante algo que nunca experimentámos nas nossas vidas, a não ser que tenhamos nascido antes de 1929. Mesmo assim, praticamente não sobrevive ninguém que fosse adulto nesse momento. De qualquer maneira, a crise de 1929 deixou marcas tão profundas em todas as esferas, que não poderíamos imaginar o mundo de hoje, sem as convulsões que foram desencadeadas a partir dessa data. 
Será quase impossível imaginar um mundo sem as consequências da Grande Depressão de 1929-1933: Um mundo onde não tivesse havido a ascensão ao poder de Hitler, ou a IIª Guerra Mundial, ou a concentração do capital financeiro, ou a criação do chamado Welfare State, ou... ou ...ou...

Não sou, nem quero ser um «profeta», mas  pelo que já se vê agora, ou pelas consequências muito próximas e lógicas das situações criadas, há algo absolutamente essencial, que descrevo abaixo, não mencionado pelos analistas, ou por miopia, ou por estratégia. 
O sistema económico, financeiro e monetário está em completa desarticulação. Os bancos centrais e os governos não conseguem ter «mão» nesta situação. Tradicionalmente, a «impressão monetária» servia para causar uma ilusão de maior riqueza e este optimismo ilusório era considerado suficiente para «dar uma chicotada» na economia, impulsionando o consumo e o crédito, fazendo arrancar um novo ciclo. A impressão monetária atingiu píncaros absolutamente inéditos, mas a economia mundial simplesmente não é estimulada. Isto não deveria surpreender ninguém, pois a destruição catastrófica de emprego e empresas causada pelos «lockdown» um pouco por todo o mundo, nos dois meses anteriores, deitaram por terra qualquer hipótese da máquina produtiva se activar, em consequência de um «estímulo» monetário. O próprio FMI está a apontar para números de PIB dos países desenvolvidos, da ordem de 10 pontos negativos (uma contracção de 10% do PIB da eurolândia) para o corrente ano.
A crise - que está nas primeiras etapas - inicia-se com um período de deflação. Dentro de algum tempo, dá-se o agravamento do desemprego, a espiral descendente, com falências em série. Para evitar este cenário, governos e bancos centrais vão accionar as únicas políticas que sabem aplicar, nestes casos: impressão monetária.
Segundo a teoria prevalecente, designada «neokeynesianismo», em situação de recessão ou depressão, deve-se fornecer dinheiro fresco, vindo dos bancos centrais para os bancos comerciais, que fluirá destes para empresas e para o crédito ao consumidor. Este ficará estimulado a consumir e espera-se assim que passe a depressão económica. 
Vão «estimular» com políticas monetárias cada vez mais arrojadas, mas isso não terá qualquer efeito real: é como se dessem injecções de adrenalina num corpo em estado comatoso:
- Primeiro, farão injecções de dinheiro nos bancos, com esperança de uma expansão do crédito e reactivação da subida nas bolsas. 
- Depois, vendo que este processo não traz nenhum estímulo real, irão fazer uma política muito menos convencional, de compra directa das obrigações de empresas e das acções cotadas em bolsa. Irão a imitar o trajecto tomado pelo Bank of Japan desde há décadas, sem outro resultado, senão uma profunda estagnação/depressão. 
- Em desespero, vão fazer injecções directamente aos consumidores, através do «rendimento básico universal». Isto significa que qualquer pessoa, simplesmente por existir, independentemente de ter ou não trabalho, rendimentos, etc... vai receber uma soma - por exemplo 600 euros mensais - como «complemento» ou «sustentáculo vital». Este dinheiro, espera-se, vai ser utilizado para consumo, não vai ser aforrado, visto que os juros são negativos, em termos reais. 

A hipótese do «rendimento de  base universal» ser utilizado para aumento do consumo das famílias parece sensata, à primeira vista. 
Mas tem um grave e evidente inconveniente: a multiplicação de dinheiro, sem contrapartida em bens consumíveis. 
Havendo muito mais dinheiro para o mesmo número de produtos, o preço destes vai aumentar. Na situação presente, também poderá haver uma contracção da oferta, por menor produção, causada pelas falências em série e pela ruptura das cadeias de abastecimento. 

O que se prepara é um ciclo de hiperinflação. A oligarquia deseja causar o colapso completo, mas controlado por ela, para poder impor a sua nova ordem. Esta, incluirá o reforço das organizações transnacionais, do globalismo, o controlo absoluto da emissão de moeda a nível mundial (provavelmente sob os auspícios do FMI) e reforço dos mercados também fortemente centralizados, globalizados.  
Perante este cenário, já se verifica que bancos comerciais e os mais afortunados (o 0.01%) estão a acumular ouro. Actores importantes, como o banco de investimento Goldman Sachs e vários «Hedge Funds» (fundos de investimento) estão abertamente a aconselhar seus clientes a comprar ouro.
No futuro, haverá uma transição para um novo sistema monetário, cujos contornos não estão ainda visíveis, mas a oligarquia globalista tem a firme intenção de manter e reforçar o seu controlo sobre a emissão e circulação da moeda. Com certeza, o ouro terá um papel a desempenhar nessa nova arquitectura monetária mundial, resta saber qual será, exactamente. É também provável que lancem uma «moeda digital», mas não será descentralizada e fora do controlo estatal, como é o caso, hoje em dia, com o bitcoin e congéneres.
Como tenho escrito repetidas vezes, a única maneira das pessoas comuns evitarem que o que se avizinha, as afecte de modo particularmente cruel, é estarem bem informadas e construírem uma maior autonomia, face a um eventual agravamento da situação.   
Os dirigentes políticos e económicos e a media convencional estão a ocultar um risco enorme, muito mais grave que uma eventual «segunda onda» do coronavírus : a hiperinflação, que é a destruição violenta de património, dos meios de vida, das vidas mesmo, comparável à devastação de uma guerra.  

                      

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

MÁRIO VIEGAS DIZ «TABACARIA» DE ALVARO DE CAMPOS/ FERNANDO PESSOA





      TABACARIA

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.
    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

OLHANDO O MUNDO DA MINHA JANELA, PARTE XVI

 Estamos no fim de um ano que nos marcou a todos. Eu aqui direi o que sinto, não pelo mero desejo de exibir sentimentos (até sou contrário a isso, neste tipo de escritos), mas antes, porque me parece que a sociedade -toda ela - sente o efeito de uma propaganda «non stop», primeiro, nos dois anos «Covid» e, agora, com a guerra da Rússia contra a OTAN, no território da Ucrânia. 

A guerra não parece estar pronta a chegar a um desenlace, os beligerantes, de um lado e do outro, parecem estar bem decididos a «ganhar» esta guerra. Mas, parece-me que estas guerras não podem ser ganhas. Nem sequer, no plano estrito militar. Ainda mais improvável que uns fiquem em posição económica e social muito mais favorável, que os outros. Os estragos destas guerras contemporâneas fazem-se sentir durante muitos anos. São, com certeza, situações que nunca chegam a termo, do ponto de vista daqueles cuja vida ou a vida de próximos ficou completamente destruída. Pode-se argumentar que populações oprimidas noutras regiões do Mundo têm estado a sofrer durante tanto ou mais tempo, o que as populações ucranianas - quer as russófonas quer as não-russófonas - estão agora a sofrer nestes últimos 8 anos, desde o golpe de Estado de 2014 de «Maidan». Embora isso seja verdade, os sofrimentos de uns não aliviam os sofrimentos de outros. 

Pessoalmente, o que me choca é a indiferença - e falta de pudor - de pessoas «corajosas» em fazer afirmações peremptórias, bem longe do teatro dos combates. Sinto uma certa náusea, quando penso na maneira estúpida como aquelas pessoas, aparentemente mais «informadas», se debruçam sobre a catástrofe dos outros e se apressam a fazer juízos definitivos. 

A involução civilizacional, que eu invoquei em vários textos meus, muito antes de rebentar esta guerra,  está agora à vista de todos. Aliás, esta involução começou muito antes de Fevereiro deste ano. Nem sei ao certo quando. 
Na realidade, o que importa é que vejo que as forças da paz, do bom-senso, da racionalidade, do humanismo e do coração generoso, estão em franca minoria, estão dispersas pelo vendaval de belicismo, que varre as sociedades a Oeste e a Leste, sem que se possa fazer muito mais - de momento - do que constatar o estrago desta onda de imbecilidade e bestialidade coletivas. 
Não temo em relação a mim próprio; estou relativamente bem protegido, ao nível pessoal, das tragédias da guerra e dos males correlativos que a acompanham. 
Porém, estou psicologicamente afetado, desencorajado pela cobardia, pela visão primária de uns e de outros, pela indiferença pelo sofrimento alheio: 
- Onde estão as forças pacifistas, que deveriam erguer-se e afirmar a razão, contra as razões de Estado, de uns e de outros? 
- Onde estão os intelectuais lúcidos, para desmontar a propaganda, mostrando como se aproveitam dos instintos mais elementares - o medo, o gregarismo, a sede de vingança, etc. -  das pessoas? 

Não me admira que a situação piore em termos de confrontos bélicos. Nem que rebentem outras guerras, ou que haja  um alargar da mesma, noutras frentes. 
O mundo está em colapso económico e financeiro e - por isso - as «elites» do poder e do dinheiro estão a servir-se de tudo o que podem, para desviar a atenção das pessoas. Usam agora a guerra, como há escassos dois anos usaram a pandemia do COVID, francamente amplificada e dramatizada. 
Agora, o sistema económico e financeiro está a ruir, em resultado da forma como foi gerido durante décadas. Vários economistas sérios têm dito que não pode haver outro desenlace. Porém, as «elites» não querem que as pessoas vejam, querem - pelo contrário - que todas as desgraças sejam imputadas à guerra e, anteriormente, à pandemia viral: Não querem que as pessoas se apercebam que houve uma estratégia no desencadear destas catástrofes, pelas grandes corporações e setor financeiro: Uma estratégia desenhada e executada para tirar o máximo dos Estados. Assim, essas tais corporações poderão remanejar em seu proveito os sistemas económicos e financeiros, desde as moedas digitais produzidas pelos bancos centrais, à completa destruição do Estado de Direito e do Estado-Providência. 

Se os deixarmos, somente ficará um sistema distópico, cujos elementos já têm sido ensaiados, neste ou naquele ponto do Globo. As massas, aflitas com a «austeridade», que têm de suportar, não conseguirão ver para além da sua sobrevivência imediata. É esse o cálculo da oligarquia que se pavoneia em Davos e noutros «palcos». É assim que os muito ricos e poderosos estão a jogar; têm a pretensão de serem eles a decidir como será o futuro. Esta é a aposta dos globalistas. 

Cabe às pessoas lúcidas e corajosas organizarem-se, para que os planos deles falhem e para que se construa uma sociedade mais justa e mais humana, em vez da sociedade do medo e das desigualdades abismais. 

                                                  Enterro na Ucrânia; foto de Maio de 2022

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

NA ECONOMIA, «BOM ANO» DE 2021?

 Bom ano de 2021? Charles Sannat considera que o ano que agora entrou pode nos «fazer ter saudades» do que saiu, por mais incrível que nos pareça agora. Ele tem argumentos muito sólidos que permitem dar crédito ou verosimilhança a tal situação. 
                                                                                                                       

Abaixo, tentarei fazer uma síntese do que Charles Sannat apresentou neste vídeo, juntando a minha avaliação própria.


Primeiro, a questão da «crise do COVID»: Quando temos um Bill Gates a vaticinar que a crise do coronavírus não vai desaparecer antes de 2022, dá um arrepio na espinha, pois ele e seus congéneres «previram» em 2019 o essencial do que se passou ao longo do ano 2020. 

Segundo, as empresas ficam totalmente dependentes de ajudas dos governos, não apenas nos EUA, como na UE e noutras economias desenvolvidas. Estas empresas não irão ter subsídios eternamente e, nalgum momento, os subsídios irão parar. Nessa altura, haverá uma aceleração do desemprego. Se os bancos centrais continuarem a imprimir divisas como no ano passado, vão desencadear uma crise de hiperinflação. Neste caso também, haverá destruição acelerada de empresas e de postos de trabalho. 

Nos gráficos abaixo, da Reserva Federal de St. Louis, pode-se ver o que se passa nos EUA. 

Nos países europeus*, tanto do Euro, como os outros, a situação é substancialmente a mesma: um crescimento vertiginoso da massa monetária, do endividamento estatal e, tudo isto, com um pano de fundo de séria depressão da economia.

  * Nota: No caso do ECB e outros bancos centrais, os gráficos revelam situações bastante semelhantes ao que se passa com a Reserva Federal Americana.

                                     https://fred.stlouisfed.org/series/MABMM301USM189S

          
Fig. 1: agregado da massa monetária M3, de 1960 até hoje (clicar na imagem para ampliar)


         
Fig.: dívida em relação ao PIB dos EUA, de 1966 até hoje (clicar na imagem para ampliar) 

Terceiro, a descolagem completa da finança em relação às realidades de economia produtiva vai acelerar. Os valores bolsistas já estão, em geral, completamente dissociados do valor real das empresas cotadas e das suas performances, em termos de produção e de lucro. 

O que se observa agora com a economia financeirizada dos países ocidentais, é aquilo que se observou nas crises económicas e financeiras, que levaram à bancarrota o Zimbabué e a Venezuela: uma fuga para a frente, com multiplicação da impressão monetária, conjugada com o desejo do público salvar as suas poupanças, consciente de que o valor das moedas estava a ser destruído. As pessoas aplicavam tudo o que tinham em acções das bolsas. Nesta fase, as bolsas da Venezuela e do Zimbabué obtiveram subidas espectaculares, mas o valor em termos reais dessas acções, descia mais depressa do que as subidas nominais.

No geral, mantenho o que afirmei na minha avaliação periódica OLHANDO O MUNDO DA MINHA JANELA - PARTE IX. Convido-vos a ler e discutir esta e outras análises, pois o colapso (termo usado também por Sannat) não está longe; está em cima das nossas cabeças e , por isso, temos de saber muito bem o que fazer nestas circunstâncias. 

Estão todos/todas convidados/as a escrever comentários sobre estes temas. A discussão é livre no meu blog; podem exprimir vossas opiniões sem censura, aqui!

  

quarta-feira, 28 de junho de 2023

OLHANDO O MUNDO DA MINHA JANELA, PARTE XVIII

             Se eu fosse um profissional de escrita e de política, se estivesse envolvido no jornalismo mediático, estaria a remoer o que poderia vender para o meu público, desde a minha última crónica. O meu ponto de observação, sendo de alguém muito pouco interessado na «agenda» de uns e de outros, é na verdade, o que realmente me interessa no tempo transcorrido entre a última crónica (a nº XVII) e a de hoje.

Primeiro, quero dizer-vos que não irei falar do golpe de Prighozin e de Wagner, por uma razão muito simples; estou farto de desinformação, de uns e de outros, não creio que nada de realmente novo possa ser dito sobre o ocorrido, pelo menos nos tempos mais próximos, até porque os arquivos (em geral, só abertos aos historiadores, passados 50 anos...) poderão fazer deitar por terra as versões de uns e de outros, e até mesmo dos que não estejam em nenhum campo. Dito isto, quero deixar claro que lamento o derrame de sangue ocorrido, a morte de aviadores russos; para eles e suas famílias é uma tragédia: Ainda por cima, sem-sentido. 

Olhar o Mundo, como gostaria que isso fosse possível, mas de longe, de muito longe; não no tempo, mas - pelo menos - no espaço!

Há quem diga que a História se repete, há quem atribua essa repetição à incapacidade de jovens gerações «se lembrarem» de eventos ocorridos antes delas serem adultas, ou mesmo de terem nascido. O estudo da História é levado a cabo com uma superficialidade enorme, mesmo entre muitos dos indivíduos que se dizem «cultivados». E, até os que se dignam debruçar sobre a História do Mundo, aprendendo o que ocorreu umas décadas antes de terem nascido, é quase certo que ingiram versões de História fabricadas para confortar esta ou aquela tese. Sabemos que não existe nenhum historiador, no presente ou passado, que não seja (... que não fosse) tendencioso. Todos têm a sua ideologia, todos interpretam os acontecimentos de acordo com os seus credos respetivos. Não posso atirar-lhes a pedra! Pois eu também vejo o presente e o passado de acordo com as minhas convicções e simpatias, ou seja, com subjetivismo.

No presente, eu seria um pouco como o herói de Stendhal, Fabrice (do romance «La Chartreuse de Parme»), no meio da confusão da batalha de Waterloo: 


Vê umas tropas a avançar, depois uma carga de cavalaria, soldados mortos e feridos por estilhaços de balas de canhões, um grande alarido... Mas, ele está tão perto do que se passa, que não consegue perceber nada. Nem quem está a perder, ou a ganhar; nem a lógica dos movimentos de uns e de outros. Nem as estranhas ordens gritadas no meio da confusão... Tudo lhe parece um enorme caos, que efetivamente terá sido. É sempre assim, para quem está metido no meio de uma batalha. 

O fresco magnífico de Victor  Hugo, sobre a mesma batalha, inserido na sua obra-prima («Les Misérables»), é muito diferente. Ele descreve em pormenor a carga da cavalaria pesada francesa, que se desenvolve colina acima, encontrando um inferno de metralha britânica pela frente.

 É, sem dúvida, um estilo épico, mas de certeza que não foi como tal, que o viveram ou sentiram os protagonistas do acontecimento (do lado napoleónico, ou britânico). 

Muito mais próxima da realidade é a descrição da batalha da Moskva, ou de Borodino, em 1812, entre «La Grande Armée», composta por tropas de toda a Europa ocidental e central e o exército russo, feita por Leão Tolstoi

no romance «Guerra e Paz», escrito cerca de meio-século depois da referida batalha. 

De qualquer maneira, o elemento épico dum combate, seja uma escaramuça ou uma batalha decisiva, está completamente ausente, na realidade: É a posteridade que elimina os casos que não satisfaçam os padrões, que não se coadunem com a «coragem» e o «heroísmo», do lado que se pretende glorificar.  Será surpreendente encontrar um escritor de uma dada nação, que faça a apologia do comportamento de militares da nação inimiga. Em geral, as cenas atrozes e reprováveis, são tidas como da responsabilidade do campo que mais se detesta. 

Os pacifistas verdadeiros, que não estão em nenhum dos campos, são considerados «traidores» ou «cobardes», por ambos os lados. Ficam sujeitos a levar um tiro na nuca, ou algo assim, pois estão «fora do quadro»; são uma «mancha» na pintura; quanto muito, serão «homenageados» depois de mortos mas, seu exemplo de retidão moral, de coerência e humanismo, não será cultivado pelas gerações vindouras.

Por estas razões, uma guerra, seja ela qual for, é sempre um recuo civilizacional. Não somente para as gerações que nela participam; também para a descendência de ambos os lados. Os vencedores, segregam um nacionalismo «otimista» e os vencidos um nacionalismo «pessimista».

Por isso, um ciclo de guerra recomeça, após cerca de uma centena de anos: Os horrores da guerra de 1914-18, já não são percetíveis às gerações que nasceram  por volta de 2000. 

Os Estados ergueram monumentos em memória dos soldados caídos nesta guerra chamada «A Grande Guerra», para os enterrar uma segunda vez, mais fundo ainda, no esquecimento. Os livros de história preocupam-se em fornecer causas económicas, aspetos ideológicos ou de geoestratégia, que permitam atribuir os motivos de tudo o que se passou. Mas, apenas alguns livros, romances quase esquecidos, detalham os horrores da tal «guerra para acabar com todas as guerras». 

E agora, temos os bisnetos dos combatentes da Iª Guerra mundial,  a deixarem arrastar-se pelo «fervor patriótico», ou pelo «terror do inimigo», para matar e morrer, como se isso fosse o maior e mais nobre dever. Como se as suas famílias devessem ficar eternamente gratas pelo seu sacrifício inútil! Todos os ditadores, seja qual for a sua tendência, gostam da guerra: ela permite forçar a «união sagrada» em torno dos regimes. Estes, supostamente, seriam a barreira para a «barbárie» (sempre a do outro).

Francamente, isto é realmente estúpido, primário e criminoso, ao ponto de despertar em mim um desejo de não ter nada que ver, de não querer saber de nada, de me retirar física e mentalmente para um refúgio onde possa ilusoriamente desfrutar de paz da alma. Mas, este desejo é contrariado pelo meu entendimento de que as pessoas mais sacrificadas são, quase sempre, as que menos responsabilidades têm no conflito. De que os poderosos - de um e do outro lado - estão a jogar as vidas dos seus soldados e civis, para engrandecer o seu nome e o seu regime... Não há os bons e os maus; há os poderosos e os humildes. Estes últimos, estão destinados a serem triturados sem piedade, para justificar sonhos megalómanos, seja de quem for. 

Não existe «causa justa» numa guerra: Ou melhor; a única causa que se deve considerar humanamente justa é a que defende o cessar-fogo imediato, a procura de uma resolução pacífica para o conflito. 

O que mantém uma guerra, embora reconhecida por todos como tragédia, é que as pessoas foram doutrinadas a considerá-la  «inevitável, por causa de X» (X= nome de Chefe-de-Estado e da Nação inimigos). É um truque muito velho, mas que funciona; e continua a funcionar, porque as pessoas preferem continuar dentro do rebanho, em vez de mostrarem independência, de terem a coragem de dizer «não!».

Não me compete dizer o que os outros têm de pensar ou fazer. Mas gostaria de ver pessoas de elevada estatura intelectual e moral, erguerem-se e denunciarem a barbárie. 

Voltando à Primeira Guerra Mundial, creio que a censura e o fanatismo xenófobo (em todos os países beligerantes), não conseguiram impedir que vozes de vários quadrantes políticos e ideológicos se pronunciassem, falassem contra a corrente: essas personalidades, terão sido mais tarde homenageadas em vida, ou depois de falecerem, por aqueles mesmos que os ignoraram ou insultaram, anos antes.  

Desculpem, mas o que saiu nesta prosa não é verdadeiramente o que deveria ser, ou seja, um relato do que se passou. Os meus leitores me desculpem. Eu realmente disse o que - a meu ver - não deveria ter acontecido, mas acontece e aquilo que eu gostaria de ver, mas que não vejo. Por este motivo, decidi chamá-la «UMA NÃO-CRÓNICA»


quinta-feira, 23 de julho de 2020

POESIAS 2016-2021 [OBRAS DE MANUEL BANET] (*)

Prefácio

Se mais soubera, melhor diria. 

Pois a verdadeira poesia não se compadece com palavreado barato e míseras ficções literárias.

Desde que comecei a escrever poesia (há quase 50 anos), desejei falar verdade, com simplicidade e beleza.

Nem sempre escrevo algo publicável, tem então de ficar no caderno de rascunhos, ou no caixote do lixo. Só dou a público o que plenamente me satisfaz!


As palavras, para mim, são esculturas, as frases são paisagens que pinto ao longo das linhas. Desenrolam-se, às vezes, como melodia: Só esperando o talento dum compositor para serem postas em música.

Não imponho a mim próprio uma forma, um estilo único: Mas colho, ao acaso das minhas leituras, impressões que ficam e me ajudam a distinguir o que é poesia verdadeira, do resto.

Muitas vezes, chamam «poesia» a coisas escritas em verso. Falta-lhes, no entanto, arte poética. Outros textos não são, nem pretendem ser poemas; porém, são poesia pura.

Não consigo definir poesia, portanto. Para mim, é música. Qualquer que seja o estilo da composição, tem de ter melodia, vibração, emoção. Mas, sobretudo, autenticidade, pois tem de reverberar no auditor. 

Talvez a poesia verdadeira esteja para lá da literatura, como voz da natureza, os sons da maré, da chuva caindo, o cântico das aves, o céu trovejando. Não que ela deva imitar a natureza; apenas estaria condenada ao ridículo. Mas, que nos faça estremecer e nos evoque - tal como cordas vibrando por simpatia - fortes impressões das nossas memórias, de episódios reais ou sonhados.

Manuel Banet

(Murtal - Parede, 23 de Julho de 2020) 


 *NOTA: Os poemas aqui recolhidos são produção poética já publicada no blog «MANUEL BANET, ELE PRÓPRIO» entre 2016 e 2021. São diferentes, no estilo e no propósito, de outros textos de poesia, que acoplei a vídeos com peças musicais e que pertencem a uma recolha separada.

Na sua primeira versão, os textos da presente recolha vinham acompanhados de fotos ou de pequenos vídeos: o facto de não publicar quaisquer imagens, foi minha escolha deliberada. Com efeito, se um texto tem qualidade, vale por si próprio. A ilustração de um texto apenas vai restringir o «campo de imaginação» do leitor. 

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1- Canção: UM AMOR VERDADEIRO

            


Olhei para o mar, Amor

e vi teus olhos 


Olhei para a areia, Amor 

e vi tua pele 


Senti o vento fresco, Amor 

e soube que eras tu 


Comigo passeias na praia 

comigo cantas baixinho 


Contigo estou na onda, no vento 

na areia, no sol, nas aves, nas montanhas 

nos rios, nas fontes, na terra, nas árvores

no sorriso e nas canções das crianças






2- CONTO: A ESTRELA DO MAR


Nasci aqui, aqui cresci.

A terra e o mar ... tanto que ver, 
refletia, olhando o céu.
Cedo aprendi
que havia vida por todo o lado, 
                                                  até debaixo das rochas!

Um belo dia
saí de casa, fui ao mar alto
                                   Mas voltarei, outro dia.
                                   Outro dia darei à costa 

Estrela de luz
no céu 
das estrelas do mar...




3- CAMBRIDGE, MON AMOUR


Vejo e beijo estas pedras vetustas,

Talhadas, de fino grão, âmbar sombreado, 

Como as areias da minha distante costa

Este fino grão ecoa do murmúrio de um salmo


O também fino raio de luz, equação 

Newtoniana cintilação plácida do rio

Gentilmente patrulhado pelos gansos 

Monásticos guardas deste lugar


Olho o crepúsculo, por cima dos torreões 

Sobrevoando colégios e capelas

Farrapos improváveis de fantasmas 

em tons púrpura, bailando e fundindo-se...


Sinto que estás aqui, que me acompanhas...

«Aquele quadro, aquela fonte, aquela esquina, lembras-te?»

Evocarás os breves instantes de Cambridge

Um piscar de olho, uma cotovelada, um puxão de orelha

Abrirão meu rosto, nos meus velhos dias, e sorrirei.

                                                                                  (06-07-2017)




4- O CUIDAR DAS COISAS EFÉMERAS



O cuidar das coisas efémeras...


As essências que de nós emanam, são acaso mais que os dias?

A nossa procura é sempre brincadeira de criança solitária


Colhemos rosas em Setembro, sem qualquer malícia

Visitámos recônditos antros e neles buscámos o sonho

Porém, da ausência se fez presença e do silêncio, brado


Soubemos -por fim- a sabedoria:  nossas naus,

ardidas em praia calcinada,     olhando para elas

nos acordámos.




I.

Alvejavam já os cortinados, soprados pela brisa; as aves não buliam

Pelas pálpebras dormentes, um frémito perpassou

Depois, voltou a mergulhar em sono profundo

Por dentro do secreto casulo de seda 

O sonho desenrolava-se, denso, incompreensível



II.


Estava deitado, olhando a abóbada celeste

Perto de mastros destroçados e velas rasgadas

Mas, seu olhar não podia ver as estrelas

Nem, tão pouco, seu ouvido podia ouvir 

Estas vagas suaves que se enrolam na areia




III.


Caminheiros das estrelas

Fomos enganados por fogos fátuos

as centelhas do nosso ego

que nos desviavam da rota de vida

Nós estávamos no seio do Universo

A vida veio e abriu-nos os corações

simples momento de iluminação

despidos de morte

só luz e entendimento

da palavra «amor»



5- FRAGMENTOS



SOBRE ARTE TRANSCENDENTE


Há algo de transcendente na arte, por mais humana que seja sua expressão e por mais humanos que sejam os seus temas. Na verdade, ninguém saberá explicar exactamente a transcendência da arte. Não se estará nunca em condições de o fazer, porque esta qualidade é do foro emocional, não do racional. 
Algumas pessoas poderão dizer que todos os juízos sobre arte e, mesmo, todos os objectos de arte, se valem. Mas igualizar assim, de modo brutal, tudo o que seja produção artística, soa antes a um sofisma: Com efeito, a comunicação em arte ocorre, se e somente se houver transmissão da emoção, do sentimento, do objecto ou do ser representado, para o observador. 
A emoção em bruto, ressentida pelo artista, é filtrada, é trabalhada interiormente e transmite-se ao espectador/receptor... Será isto a essência do que se considera arte?

Na verdade, a arte estará sempre presente. Pelo olhar, estou sempre a ver arte: A natureza que contemplo, o mar, o céu, o jardim e os animais que se abrigam nele, tudo isto faz parte do meu mundo emocional. A arte, o encontrar beleza nas coisas, nos objectos, ou nas pessoas, está no olhar...

Com os anos, aprendi a apreciar as coisas ótimas ao meu alcance, já não me preocupando que os outros tivessem ou não os mesmos gostos. 
Sempre soube, ou intui antes de o teorizar, que o passado é que é real, mesmo que já não se possa experimentar directamente a emoção dum instante passado. 
Confesso ser influenciado pela música, pela pintura, etc. de eras passadas. Recebo a reverberação do passado sobre o presente. O passado, reactualizado na vivência do presente, está presente ... 


SOBRE SABEDORIA


Estar em modo de abertura e - ao mesmo tempo - centrado em si próprio, seria a base da sabedoria e da paz de espírito. Sabemos que o mundo sempre se agitou com paixões, com ambições, com desejos, com violência de vária ordem e com imenso amor, também. Compreendemos que não é coisa fácil, aceitar o mundo tal como ele é; será indispensável, porém, para uma tranquilidade de espírito. 
Os grandes sábios, os mestres iniciadores de religiões e correntes filosóficas, ao longo das eras, souberam dominar o medo e olhar sem vendas para o mundo tal como ele é. 
O princípio da sabedoria, poderia enunciar-se deste modo: manter a abertura para o mundo tal como ele é, sem descurar as tarefas necessárias para preservar o nosso ser. 

SOBRE OS INSTINTOS

Seria inútil ou mesmo impossível, toda e qualquer acumulação do saber e de arte se, a cada geração, fosse necessário tudo refazer. 
Tal equivaleria ao ciclo de vida  típico dos insectos, em que a geração filial está separada temporalmente da geração parental: os novos seres nascem de ovos, na estação favorável, quando seus progenitores já estão todos mortos. 
Em consequência disto, o comportamento destas espécies tem de ser quase todo determinado pelo instinto, pois não têm oportunidade de realizar aprendizagens, durante sua curta existência, que lhes ensinem como sobreviver e prosperar. 
À medida que se passa às formas mais complexas, mais elaboradas de seres vivos, a parte de instinto no comportamento vai diminuindo, a parte de cultura vai aumentando. 
O humano, será, afinal, um ser animal cujos instintos, não foram suprimidos, mas apenas dominados: no interior, pela mais recente aquisição evolutiva do cérebro (o neocórtex) e, no exterior, pela organização social e pela cultura, no sentido lato.


SOBRE A EDUCAÇÃO

Atribui-se uma importância primordial à educação. Esta não deveria estar centrada nos aspectos cognitivos, nas aprendizagens dos saberes teóricos, somente, mas deveria desenvolver-se enquanto prática social integradora, não amestradora, não castradora, dos jovens. 
A observação por dentro do sistema de «educação» permitiu-me constatar que, apesar de todos os discursos, a prática integradora exercida pela instituição escolar é ainda sobretudo «amestradora e  castradora», ou seja, limitadora da liberdade dos indivíduos. Pelo contrário, a componente de aprendizagem potencialmente emancipadora, o adquirir de competências socialmente úteis e capazes de gerar rendimento e, portanto que auxiliasse à autonomia real do indivíduo, tem estado atrofiada, marginalizada nos programas escolares e académicos. Tive ocasião de constatar que é algo que tem vindo a acentuar-se, cada vez mais, da escola básica até à universidade, inclusive. 


SOBRE A MEMÓRIA

A possibilidade de reescrever o passado existe, por mais estranho que pareça, à primeira vista: ela resulta da propriedade chamada resiliência. Sem ela, a existência dos humanos seria impossível, ou seria apenas mera sobrevivência.  
Seria útil reequacionar o conceito de memória humana como emanação dum órgão, como tendo uma essência orgânica. Não é ela de essência maquinal, como a memória de um computador. A analogia cérebro-computador está errada, ao nível profundo. Os mecanismos e modos de funcionamento inseridos nos  planos de construção respectivos são completamente distintos: 
- A memória humana é plástica, selectiva, altamente subjectiva, umas vezes precisa, outras vezes vaga. Ela também se pode auto-estimular, auto-construir e reconstruir-se; não tem nada que ver com máquinas fabricadas pelos homens. Estas podem simular, apenas e de modo muito imperfeito, o raciocínio lógico cerebral. Quanto ao domínio emocional, permanece exclusivo do cérebro humano (e animal).
O funcionamento da memória permite que sejamos quem somos, que tenhamos consciência de nós próprios. Não existe qualquer máquina com verdadeira consciência de si própria, por mais que os romances de ficção científica tentem tornar isso verosímil, os mundos dominados por robots. 


SOBRE O NARCISISMO

As pessoas confundem, muitas vezes, o conhecimento de si próprio com narcisismo. Enquanto o mito de Narciso tem profundo significado psicológico, o termo «narcisismo» é usado - de forma redutora - para designar uma patologia, uma forma extremada do amor de si. 
Mas o facto de estarmos atentos e olharmos nossa imagem ao espelho da alma, não somente será saudável, consiste mesmo na base do comportamento reflectido, da consciência, da ética. 
Só um certo grau de auto-conhecimento pode proporcionar ao individuo que este veja o mundo (e se veja no mundo) de forma equilibrada. A visão do real está implicitamente centrada no ser que observa. Só podemos observar literalmente com os próprios olhos, com o nosso ponto de vista. Porém, o fio que separa a auto-consciência, da auto-indulgência (do narcisismo patológico),  pode ser bastante ténue. 
Será necessária uma certa dose de amor de si, de auto-estima. Como traço estruturante da psique e do relacionamento na sociedade, será bem diferente do «narcisismo patológico».





6- ESTÂNCIAS




Hoje, como outro dia qualquer 

Podia ser Primavera

Marulhar de seixos rolados

N' areia firme da baixa-mar

Na espuma de dias

Coleantes sem fim...


Assumo como passos na areia

Este destino

Imanente ilusão e

Real se misturam


Aqui estou;

Posso descrever, pintar,

Ou fotografar a paisagem

Mas, como fazê-lo 

Com a paisagem interior?

Esta beleza que me mata

E me embala

Tenho fome de azul


O dentro está fora e fora o dentro

Sábio? Louco? - Eu sei lá

Gosto de pedras castanhas

Com laivos de roxo

Erodidas conchas encastoadas

Junto ao cristal


Podia ser noutro tempo

Podia, eterno instante

Ave cruzando o horizonte

A espuma e a rocha

A falésia intemporal


Naquele dia vi

Vi  sempre com devoção

Recordarei

Sempre e sempre voltarei

Ao recôndito lugar 

Do teu templo

Aqui neste preciso lugar 

Da minha escrita


Um dia sonhei a minha morte

E fiquei tranquilo

Guardo imagens dela

sem igual no coração

e nos olhos quando se fecham


Meu pobre intelecto!

Sempre descrente

Sempre a duvidar 

Da natural divindade

Da Natureza

Até sempre, doutor! 

Apenas lhe desejo coisas boas,

Bom caminho, boa viagem!


Gosto de estar aqui 

Não lamento aqui ficar

Aqui, além, noutro lugar,

Em ti mesmo estou 

Estarei em ti somente 

Tu... que sabes 


Um simples calhau

Mais que todas as palavras

Deu eco à rocha

No calor do raio solar

Que me afaga o rosto

Neste instante preciso


Tudo é eterno

O tempo não existe

O mundo é vibração-onda

Eleva-se esvai-se

A onda sempre

Não se cansa e segue sempre

O sopro da respiração


Mar primordial 

Te adoro e venero

Te dou e me dou

Mudo de encanto


 S. Pedro do Estoril, 28-01-2018






7- SE, ALGUM DIA, LHE ESCREVESSE UM POEMA DE AMOR



Se, algum dia, lhe escrevesse um poema de amor

Ah, ela nunca saberia, nunca por nunca lho diria

Dentro de mim o guardaria, sem jamais lho mostrar!


Bem melhor que ela nem suspeite estes devaneios

De palavras. São falsos brilhantes. Não merece seu peito

Tal dúbio enfeite; ou, por vezes, num punhal embainhado


Seu resplandecente olhar jamais cairá sobre versos

De Romeu de opereta, falsos como todos os 

Que dizem o que não se diz, o que não se pode...


Morram as palavras nas masmorras cranianas!

Sem qualquer piedade eu as imolo todas

As queimo diante do severo ou divertido juízo 


Este sem-sentido da vontade inebriada

Estonteada que me compele a escrever

Em segredo a dor antiga no peito calada


Nunca deixarei que sonoros bramidos fendam 

O ar em seu redor, violentando a natural harmonia

- No silêncio vivem seus nobres pensamentos


Com sinceridade e por querer jamais darei

Nome ou sinal: ela corre invisível pelas ruas; 

Em meus braços carinhosos se vem acolher 


Não, este tosco escrevinhar apenas confessa

A impossibilidade de dizê-lo, o amor

A futilidade das palavras e a nossa vaidade





8- VERSOS LUNÁTICOS


                   

Atiro invectivas à Lua, escravo da minha loucura

Seria mais fácil tornar-me Chopin, do que reviver

Os momentos felizes da ilusão passada.

                                        


Gostaria de sonhar para fora com palavras a borbotar

Nos lábios tremendo salmo sussurrado

Antes que a Morte diga: Vem a meus braços e fica tranquilo

                                   


«Fiz o que pude e não me arrependo; não quero pena ou compaixão. 

Apenas vivi e sofri como os demais.

Uma mudança de estado, só isso. Sim, estou tranquilo perante ti.» 

Assim lhe responderei 

                                                         


Só a Lua reflectirá no silêncio do lago o que agora estou murmurando.

Sem ela, não haveria música nas águas nem cantos nocturnos nos bosques.

Como, como saberia todas as coisas que me ensinou, o caminho dos sonhos?

                                                  


Vieste, mais uma vez na límpida noite, gentil fantasma, melodia sem descanso.

Repousa no velho e cansado peito na lembrança das coisas terrestres.

Saberei guardar silêncio, fantasma também o sou, contigo me casei...

                                                     


Agora que decidi tudo falar, que verdade tenho para dizer?

Como estátua pousada num ermo ou estrela distante...que importa?!

O som que escorre dos meus versos só ele conta; só o som, a música!

                                                           


Perdi alegre o sentido do verso, que naquela melodia encontro

Mais verdade e puros sentidos. Mais real que o sonho não há;

E da realidade, apenas desejo a brisa acariciando os cabelos 

                                                             


Na Lua há sempre alguém ouvindo os loucos e eles nem precisam falar 

- Basta-lhes mentalmente dedicar um verso.

Da Lua, alguém responde: Nem deusa, nem astronauta, mas a própria alma 

                                                           


Ondas sonoras concêntricas sobre o lago onde me afundo 

A canção serena e silenciosa. Lua, secreta amante, responde

Assim poderei nascer de novo à tempestuosa paixão... 



(Murtal, 12 de Agosto, 2018)





9- CANÇÃO DO VENTO E DAS PEDRAS



Não esqueças a voz do vento

aquela voz que te embalou

aquele olhar que te ensinou

a simples dádiva d’amor



Não creio que te vás esquecer

em imaginário país d’oriente

das humildes pedras batidas

por ventos e sóis poentes



Um dia mais tarde, depois

a teu porto retornarás

tranquilo e sem medo, dirás:

o vento é sol que trazes na mão



Murtal, Parede (23 Novembro 2018)






10 -  COMPOSIÇÃO


Fazer poesia com as mãos

Moldar estátuas de fumo branco

Entoar as horas pelos valados

De noite escalar as dunas

De dia ouvir zumbidos no lugar


Assim irei rente ao rio 

Canoa sem mastro e sem remos

Serei aquela ave de falcoaria

Ou aquela raposa assustada

Clandestina senha do juncal


Mais não saberei que meus dias

Minhas errantes caminhadas

Aquelas visões de poente


E me extinguirei sem dor

Sem assumir dívida ou herança

Apenas assoprado como vento

Da alma entregue ao universo



(Murtal, Parede, 23 de Janeiro, 2019)






11 - PRECES AO VENTO



Antes que o vento na colina me leve  

quero ficar um pouco, sozinho, olhando o mar

quero beber o cristal das ondas, em silêncio

afagando a areia, ao de leve, como pele



Seria muito pedir, antes que o vento norte

entre por essa porta e me envolva de gelo,

que eu possa a terra molhada respirar  

inebriado pelos aromas d' ervas humildes?


Serei surdo a todas as canções

que ao meu ouvido sussurram,

menos à sábia melodia em surdina

que se escapa dos lábios do vento


Mas, que quer isto tudo dizer, afinal ?

Nada, absolutamente. Somente

peço-te, coração, não te amargures

eleva-te como a brisa no Verão


[Murtal, 4 de Abril 2019]




12 - O DIA EM QUE MORREU A CIVILIZAÇÃO DO DINHEIRO

[Por ocasião do Dia Mundial da Poesia, 21 de Março de 2020]



Esta esgotada civilização já só se arrasta pelo mundo das aparências

Abandonámos o encanto da Natureza, o encanto do mistério cósmico, a troco de quê?

Duma arrogante e vazia pretensão de saber? Mas de que saber?

Um saber apostado em destruir, em desfazer o que é produto da Natureza.

O próprio saber ancestral dos homens - tudo!- foi espezinhado

Em proveito do deus dinheiro, o deus impiedoso,

Que sacrifica os humanos, os submete aos piores sofrimentos:

Estes ainda suspiram por suas cadeias, por seus alçapões fedorentos...


Há quem diga, perante esta esmagadora evidência, que a humanidade foi um erro do Criador, 

Que, em breve, ela se vai auto-extinguir neste planeta ínfimo, insignificante, nesta galáxia banal.

Mas, eu estou em desacordo com isso - não por ter esperança ou ilusão na bondade intrínseca dos humanos. 

Não; apenas que as civilizações são mortais, que esta civilização está a morrer

Em frente dos nossos olhos. Pois que morra! e nos libertemos! 


A civilização que vier, que não esqueça os abismos de estupidez  Destes longos decénios de decadência... 

Espero que saiba encontrar seu caminho

No respeito dos ecossistemas e do Cosmos. 

Caso contrário, nem valerá a pena construir nova civilização ...


Não sei quanto tempo irá durar a transição; 

Sei que virão grandes perturbações, haverá muita destruição, 

Mas será também um novo amanhecer. 

Que se cumpram as promessas mais belas: 

As que brilham no olhar das crianças.





13- SÓ ME RESTA ALUCINAR

               

Só me resta alucinar de ver a realidade em frente

A realidade sem fardo ou cenário pintado

A realidade como a que vejo pela janela

A que tão bela me penetra na alma

Serpenteia pelo cérebro como serpente

Lasciva serpente que enrodilha o tronco,

Sussurra sem mal, sem perfídia nenhuma

Nem qualquer suspeita de romantismo

Apenas assim, como é

Como a corda da guitarra que vibra

Ela está em consonância comigo 

E eu com ela, simplesmente sem pensar

Assim de chofre como o azul sem mácula

Deste céu de Verão, acima do muro branco

Das traseiras.


Não esperem algo sobrenatural, não

A realidade das cores e a densidade dos sólidos

Estão para meu entendimento

Como a superfície para a espessura

Como o reflexo para a laguna

Não tem outro mistério, que o de tão aberto

Estar a todos... e se todos são cegos

Que culpa tenho eu, que culpa tens tu?


Já sei que não sei pintar uma paisagem

Mas será para isso que escrevo?

Ou para produzir um milhão de ruídos,

sons, cores, pedras e odores

Da realidade em que me passeio

Pelo sonho de estar aqui sentado e escrevendo

Este chorrilho de palavras e imagens

Soltas.

Que o vento as leve, mas as leve mesmo

Que não fiquem

Aqui, nem por mais um instante!

Que levantem voo, ou serpenteiem ou se escapem

como fumo de lareira pela chaminé

Ou ainda, como a osga que me visitou ontem


Porque só as coisas naturais me importam

Só as coisas e seres que não tenho

De explicar porque elas são

Existem por si e para si

Não preciso de teorias para as entender

Até para dialogar com elas

Portanto, só a realidade me interessa

E o mais é ilusão, cansaço, tédio

Falso esplendor e pouca vergonha

Nada que valha a pena ser meditado


Dizia que a realidade me entra pela janela adentro

Mas ela também jorra de dentro de mim

Para fora

Sim; a verdade é que estou envolvido

No que vejo e perceciono.

Nada que não soubesse!

De momento, estou pouco interessado em filosofar

E menos ainda em filosofar o olhar, o ver


A realidade apresenta-se a mim: eu bebo-a

Sou ébrio de beleza

No estado puro, forte licor de realidade

Incomensurável, estarei sempre sedento de ti

Enquanto estiver cá, neste Mundo

Para além de todas as palavras que eu possa dizer

Para além dos equívocos que delas possam surgir

Para lá também da moral e dos ritos sociais

Contemplo o mar, o meu mar, o céu, o meu céu

A terra, a minha terra, a floresta, a minha floresta

Tudo o que existe

Porque tudo o que existe, eu me aproprio


E não preciso de pedir licença

É o bem de todos, que eles o aprendam também

E dou graças a Deus, pelo que me deu

Sem jogos ou negócios, pagas ou empréstimos


Ele dá verdadeiramente de graça.

Só Ele dá de Graça!

E como não sou nada fora da natureza,

Sou inteiramente criatura Dele

Faça o que fizer, estarei sempre na Sua mão.







14 -  É MELHOR FICAR SENTADO



É melhor ficar sentado

e  esperar que a loucura passe

àqueles que se agitam, ao luar de néon

Apenas reflectem os espectros

que habitam seu interior

Descurei viver demasiado tempo

agora contemplo pensativo

este mundo sem sentido

que não nos foi ofertado

Talvez um dia viaje de novo

apesar de saber que a Terra

é redonda e se move 

igual a si própria, no vazio

Mas que me importa

se for para resgatar o sonho,

uma vez mais, das aves

agoirentas que pairam

no ar?




15-  OUTONO NO MEU JARDIM


                                                      

O Outono chegou pontualmente ao meu jardim. O Sol entre nuvens, lança tímido, um ou outro raio. Sua luz aquece, sem porém secar as folhas das árvores e plantas.

O ar fica mais leve, mas o frio não morde como no Inverno. 
É o meu tempo preferido para passeios no bosque, em tapetes de folhas mortas... ou nas praias desertas, onde a areia lisa e lustrosa cede, aos pés  descalços, um revestimento de brilhantes.
A aves migratórias já começam a reunir-se para a grande viagem. Num arrozal, vi centenas de cegonhas agrupadas. Nos fios telefónicos, as andorinhas alinham-se, sabendo que é chegado o momento. Formigas, em procissão, recolhem preciosas sementes para armazenar no formigueiro. Toda a natureza se prepara para a estação difícil. 

A vida corre, feita de ciclos e de períodos: o Outono é ocasião para recolhimento, para sentirmos que somos Natureza, também; que todas as estações da vida são uma dádiva preciosa.




16 - OS ASTROS, INDIFERENTES

                 

Os astros, indiferentes, olham para a Terra

Desde suas órbitas e dialogam uns com os outros.

Na conversa, ritmada pelos rodopios dos planetas,

Lançam, entre si, meteoros, ondas magnéticas.

Assim, trocam argumentos e pontos de vista

E, que dizem eles:

- Nada mais cómico do que ver a humanidade, estas formigas que se tomam por deuses: Estão tão convencidas da sua importância, que julgam que nós existimos para eles e suas paixões! Estão convencidos que os nossos percursos no espaço são apenas sinais de aquilo que os preocupa!

- É realmente cómico verificar que esta espécie, incompletamente amadurecida, tem constantes atitudes de total irracionalidade e - no entanto - se autointitulam de «animais racionais».

- Mas, não se fica por aí pois, no meio das desgraças, ainda tem energia para fabricar narrativas míticas onde deuses (nós!) se iriam imiscuir nas suas vidas de térmitas, de formigas, de bactérias...

- A sua soberba não tem paralelo, a não ser com a sua parcialidade. Consoante estejam a favor ou contra alguma nação, ou algum grupo dentro dela, designarão tal grupo ou nação de «bom» ou «mau», «justo» ou «pecador», «progressivo» ou «reaccionário». Enfim, seus juízos são sempre absurdos e sem qualquer justiça.

- Gostam de revestir-se dos mantos da legalidade e das leis. Deste modo, com esses mantos ilusórios, designam o «bode expiatório», do momento. Graças essa capa, vão cometendo os piores massacres e barbaridades, sempre com boa consciência.

- Não aprendem nada, pois vão repetindo até ao infinito as piores travessuras e os erros mais graves, cometidos ao longo da sua história. Têm conhecimento do passado, conhecem mesmo as causas das suas desgraças passadas. Mas têm uma doença estranha - amnésia social e colectiva. Basta uma geração, para que repitam os mesmíssimos erros do passado, que conhecem e às suas nefastas consequências.

- Que erijam alguns de sua tribo em profetas salvadores, nas suas variadas religiões, não surpreende por aí além. O que surpreende é que façam tudo para transgredir os ensinamentos e mandamentos das mesmas, e dos seus profetas respectivos. Então, que sentido faz adorarem esses profetas, esses ditos mensageiros dos deuses ...

Assim dialogam entre si os Corpos Astrais que sulcam o Cosmos, deveras divertidos com a grotesca farsa que os humanos representam, milénio após milénio, atribuindo as «culpas» aos astros, aos deuses ou às «forças malignas»!

Claro, eles próprios, humanos, causam suas desgraças, seus fracassos e infortúnios; mas a sua vaidade e egoísmo tem de os «isentar» - a todo o custo - de se verem eles próprios ao espelho de sua consciência!!!

Murtal, Parede, 25 de Dezembro de 2020



17- PERANTE A NOVA IDADE DAS TREVAS

                        
Dias estranhos vieram e parece que vão ficar. Mais dia, menos dia, as coisas mudarão, sim. Mas, entretanto, o tempo passa e nada daquilo por que ansiámos se realiza. 

Estamos metidos num túnel do tempo. Não podemos virar para um ou outro lado, não podemos recuar, só podemos avançar e não existe luz ao fundo do túnel. 

Acham exagerada esta perspectiva? 
-Eu também a achei; eu também refreei o pessimismo, tentei ver as coisas com olhos mais tranquilos... tentei e não consegui. 

Agora, só espero que as pessoas saibam, por instinto, conservar a sua humanidade fundamental. Pois não se trata de menos, para mim, que uma luta gigantesca entre a civilização verdadeira e as trevas. Deixámos que as trevas se alongassem demasiado. Fomos condescendentes com os nossos pequenos pecados, de homens e mulheres vivendo nesta era super-sofisticada, nesta era de automatização, digitalização e de isolamento egocêntrico. 
Pior; adorámos deuses de pacotilha, os nossos brinquedos de tecnologia, julgando com desprezo tudo o resto. Não desprezámos apenas os que não tinham acesso a tais «maravilhas», como desprezámos toda a herança cultural que os povos e culturas transportam, absortos e viciados na sofreguidão do prazer instantâneo, da ilusão de saber, potência, conhecimento, sabedoria... 

O que melhor nos caracteriza é a impotência. A incapacidade em nos auto-governar, uma incapacidade que seria desculpável em crianças inexperientes, mas que ocorre em adultos e adultos muitas vezes caprichosos, embriagados de poder e honrarias. 

No fundo, a humanidade está a encaminhar-se para o longo período das trevas, de livre vontade, pois várias são as vozes cheias de bom-senso que têm vindo a avisá-la. Estas vozes, de vários quadrantes espirituais, de várias escolas de pensamento, são a consciência da humanidade, mas pouco ou nada contam nas circunstâncias presentes.
  
Pelo contrário, a saturação de informação, vai relativizar tudo. Será necessário muito saber, sabedoria e coragem para destrinçar - num universo de falsas notícias e de pseudo-notícias - quais são as relevantes. Tornou-se impossível o cidadão comum efectuar esta triagem de informação. 

No entanto, os que o fazem para nos fornecer informação, extensa ou resumida, não são neutrais, não são pessoas desejosas de comunicar a verdade; por outras palavras, não são repórteres ou jornalistas honestos, são propagandistas disfarçados de profissionais de informação.

Então, falando em relação a mim próprio e aos ideais que transporto: 
- Que esta idade das trevas seja vista como parecida, em vários aspectos, à que fez a ponte entre a antiguidade e a idade moderna, da queda do império de Roma, ao Renascimento.  Nessa altura, os restos da civilização greco-romana foram salvos da aniquilação por um pequeno número de eruditos, tanto cristãos, como muçulmanos ou judeus. Eles salvaram preciosos manuscritos, textos de ciência, literatura, filosofia, religião, dos séculos passados. 

Os monges medievais passaram - de geração em geração - este legado, copiando manuscritos que, de outro modo, seriam perdidos para todo o sempre. Para mim, foram tão «heróis», como os humanistas do Renascimento, que se encarregaram de devolver à luz esses escritos, os traduziram, os comentaram, e construíram uma nova cultura sobre as bases da antiguidade clássica. 

Estou lendo agora o D. Quixote na versão integral, em tradução de Aquilino Ribeiro. 
Sinto que é importante nos apropriarmos novamente das obras clássicas da nossa cultura.  Pois ela nos enriquece para além das nossas próprias expectativas mais optimistas. Saberão alguns que me leem o que é essa sensação estranha e deliciosa, como se estivéssemos em colóquio íntimo com esses mestres do passado.

Não posso dar conselhos a ninguém, só a mim próprio: Serei como os monges medievais, guardando uma espiritualidade, uma cultura e um saber, o melhor que puder, divulgando-os com o mesmo carinho com que as gerações anteriores se dedicaram a fazê-lo. Estou a fazer o meu dever, apenas, a restituir aquilo que recebi, o legado ou herança imaterial que molda verdadeiramente as nossas vidas em sociedade. 

Quem não quiser ser triturado por robots ditos de Inteligência Artificial, que faça o que há de mais humano: reflicta, pense, emocione-se, exprima os sentimentos e as reflexões, comunique com os seus semelhantes, homens e mulheres de igual inclinação, dialogue por todos os meios com outras almas que sejam também sensíveis, curiosas, desejosas de fazer o bem. 

Se conseguirmos manter esta corrente, nas várias sociedades, culturas e etnias que compõem o «puzzle» humano, outros poderão, mais tarde, retomar o fio da humanidade e comporão as obras de um novo Renascimento.


18- Quando eu estiver a fazer barro


Quando eu estiver a fazer barro

Sim, que resta de tudo o que este corpo desejou

Quando eu estiver num diálogo com os vermes

Que amor se acalenta ou se acabou?


Estamos sempre escutando aquela voz

Que nos diz sermos eternos

Porém, da vida eterna descremos

Não há coerência, nem senso


As coisas transitórias eu amo

Na sua transitoriedade,

A sua fugaz aparência

Não me ilude, mas encanta


Assim somos feitos, como sempre

Sem qualquer renúncia a tomar

O que é efémero, por eterno

E o eterno, menos que um sopro  


Vogue eu, venhas tu,

Acordados neste sonho, para 

Mais viajarmos em voo

Não de asa, mas de vento


Só nos cantos obscuros da mente

Encontro aquele fio de lã

Que nos dá o discernimento

De Ariadne nos Infernos


O resto é como uma barca,

Que se toma sonhando, no Verão

E as gaivotas deslizam audazes

Junto dos nossos mastros


Navego pelo sonho como pela vida

Sem distinguir, não vá eu acordar

Numa terra desconhecida

Acordar sim, mas no outro lado,

Naquele sereno céu estrelado



19 - LIBERDADE MINHA



Onde está a tua liberdade? Onde está ela?
Onde foi parar? Afinal, quem mo pode dizer?

A minha liberdade está no olhar, não embaciado,
nítido, sem azedume, sem prosápia, nem desejo de poder

Olho o mundo, olho as pessoas. 
- O que penso do mundo, das pessoas?
Apenas eu sei. Aliás, sei que não sei... 
quase nada, sobre o mundo e sobre as pessoas

Mas, para além do mundo existe o sopro do espírito, 
do espírito cósmico.
Negá-lo é fechamento: Negá-lo não é ciência, nem sabedoria

O paradigma da falsa educação inverteu os nossos valores.
Mas, como o boomerang, a realidade vem ter connosco.

Que grande lição de vida! Cada derrota é uma lição.
A verdadeira vitória, é ver a vitória sem orgulho, 
apenas como um dado.

Nada disto é paradoxal.
Só o pensamento binário faz disto um paradoxo.
A minha lógica escapa ao dualismo. 

E vivo num mundo muito pouco frequentado.
Um mundo que se desvaneceu, que não está na montra,
que está fora do palco, nos bastidores

Afinal, existe... 
Digo, afinal a liberdade existe, porque eu existo.

Esta é a minha leitura; não vos imponho nada.

Murmuro ao teu ouvido, Alma fina: 
Agora sei, o que sempre soubeste

Não trocaria este saber por nada neste mundo.
Como não troco meu amor.
Impossível! Impensável!
 
O que é verdadeiro está no fundo, 
tão lá no fundo.
É como uma batida do coração.
Sim, uma batida do coração

Murtal, Parede, 25/04/2021



20- O TEATRO DA VIDA


Tudo o que vês
Tudo o que se passa em teu redor
Os protagonistas, os figurantes
Tudo
É um teatro
É o teatro da vida
Não é comédia, nem tragédia
Embora possa ter cenas e atos
Que se conformam mais 
com uma ou com outra

A vida é para ser vista como um espetáculo
Se estás metido nesse espetáculo,
Como ator ou figurante
Tenta fazer-te espectador.
Serás capaz disso?
E se o fores, garanto-te que
Terás uma certa paz
A paz de saber que
Agradável ou não
Este espetáculo
Tem um fim
Haverá um final - um tombar da cortina
E tudo acabou!

Sim, as chatices são transitórias,
Sim, as dores, os sofrimentos
Os gostos e os desgostos
Os prazeres e as frustrações
Tudo é transitório
Alegra-te:
É assim a vida, não vale
de nada te lamentares que
ela seja como é.

Se a vires como uma imensa
peça de teatro, ao fim e ao cabo
O que lá se passa pode implicar-te
Ou não, conforme queiras jogar:
Queres ser ativo, intervir, modificar
o enredo, acrescentar o teu grão de sal?

Pois seja; terás então de te aguentar
No palco da vida; é mesmo um palco,
Não se trata de metáfora.
Estás aqui durante o tempo da peça
E nem mais um instante.
Será uma convenção chamar
«morte» ao cair do pano,
«falecimento» à sineta que incita à saída
ou à musica pomposa que acompanha
O fim do filme na tela prateada.
Tanto faz: a saída acontece sempre

Podemos dizer: «ó, tão cedo! que pena»
ou «que alívio»...
ou não dizer nada.
Como numa peça ou num filme,
devemos usufruir de cada instante,
Com a melhor disposição possível

Apreciar os volteios dos acrobatas
As cabriolas dos animais de circo
As proezas dos ilusionistas
contorcionistas,
amestradores,
hipnotistas,
palhaços
etc...
Aplaudir, ou assobiar em protesto,
Mas, sempre com a noção
De estar perante um espetáculo.

Pessoalmente, quero assim proceder.
Não ficar empolgado
Com o que passa no palco
Porque a vida real é tão mais
profunda, atravessa
aquilo que chamam «a morte»

A morte pode ser um renascer, ou  ser o vazio
Aceito-a, sem hesitação
Querer fugir a este destino
Faz da vida um inferno:
Não atrasa verdadeiramente o fim
E não se gozam os mais preciosos momentos
da curta existência.

A morte não me assusta,
a morte, a minha pessoal
Não a temo, nem vejo como seja para temer
Aceito que sou mortal
Tenho ganas de viver, sim,
mas isso não me inibe que aceite
a morte, como transformação.

No Universo é impossível haver desaparecimento, aniquilação
Tudo se transforma, nada permanece





21- PALAVRAS QUE SE EVADEM DO PRESÍDIO


Assim começa a história, assim se compõe a vida; somente um sopro de vela na vela da despedida

Como saber o que seria, se não fosses -tu- presença do quotidiano?

 Sonhar outros mundos: assim se escapa da realidade, se esquece - por instantes - o olhar impiedoso do espelho.

Vou sinceramente procurar ser como um bicho, um animal que sente e reage e não pensa; não pensa, isto é... pensa, mas com as células todas do corpo.  

Numa manhã de nevoeiro, imaginei-me a caminhar pela beira-mar. Não sei o que lá fazia; nem porquê. Apenas a brisa recolhia, que me beijava os lábios e os cabelos.

Sonho secreto dum eu que não se manifesta, que se esconde numa toca, uma doninha ou um coelho. Como viver, afinal? Respeitando o animal secreto, deixando-o tranquilo, lá na sua toca?  Sim, sem dúvida!

Se tu não existisses, o mundo seria totalmente diferente; seria muito diferente, porque a tua existência é um facto indelével da realidade; é uma realidade indelével do real; sem ti, o mundo não seria o mesmo; porque o mundo precisa de ti, tanto como tu precisas do mundo. Com isto, não deves orgulhar-te nem encolher-te. Deves aceitar o facto, como um simples constatar de que a equação matemática está correta.

Oiço o teu respirar no silêncio da noite: é como se ouvisse a minha respiração... é a minha respiração.


22- ODE À MÚSICA ETERNA


Música, que nos comunicas calor na escuridão dos tempos,

Dás vida e desejo de prosseguir, em plena luz e d'alma inteira

Quero te adorar e te beber como criatura eternamente no Éden.

Sem ti, a sensaborona mediocridade arrastaria tudo para o abismo.

Imerso em ti, oceano sem limite, o espírito ressalta, retemperado.



23- ELOGIO DO SORRISO

Espontâneo, instintivo, o que desmascara o sorriso?

Desmascara o ser por detrás da máscara, 

Com ou sem ela, tanto faz; 

Eu vejo quando teus olhos sorriem para mim

Estou satisfeito pelo contacto humano que revelas

Não te conhecia há instantes

Agora, levo-te comigo 

Desconhecido velhote, 

Ou desconhecida empregada de balcão,

Desconhecido miúdo de sacola às costas,

Ou senhora anónima passeando o cão.


Afinal, não estou sozinho, no mundo; há pessoas

Que sorriem, que devolvem os meus  sorrisos.

São pessoas, não são robots, são pessoas sensíveis

Ao contrário de tecnocratas e sociopatas, embora

Estes também sejam homens e mulheres

Que também foram menino ou menina,

Completamente inocente.

O que lhes terão feito para serem soldados

No exército devorador das nossas vidas?


Assim vai o mundo. Mas só, isolado, eu não estou!

Desafio as pessoas a sorrirem-me, a falarem-me, 

Convido-as a não terem medo umas das outras.

Querem um antídoto para o vírus mortífero 

Da estupidez?

Aqui têm:  Sorrir...

Sentirmos que somos humanos,

Que a simpatia para connosco 

E de nós para com os outros

Nos faz viver e ter esperança.



24- SONHOS QUE SÓ EU SONHEI


Emergi do sonho, ainda estonteado pela vertiginosa corrida, que fizera na dimensão onírica, onde tudo é possível e onde nada é aquilo que parece.

A pouco e pouco, as imagens maravilhosas esfumam-se.

Viro-me para o outro lado, na cama. Mas o sonho foi-se, nada o poderá fazer regressar.

Ficou-me o sabor a insólito, a sensação de segunda vida, o quarto secreto que se fecha quando voltamos ao quotidiano banal.

As respostas que tanto ansiava, tardavam em chegar, e os dias iam passando. 

Só as noites eram minhas, e dormindo acordava no reino onde outra vida - forte - desabrochava.

Tudo o que me interessava estava para além do racional, da experiência sensível comum.

Mas não buscava o esotérico, nem sensações estranhas, ou visões alucinogénias. 

Estava à beira de desvendar um grande mistério, não havia ponto de referência nesse oceano cósmico

Em suspensão durante o dia, em que todas as tarefas se repetiam sem surpresa, levantava voo nas asas do sonho

Realmente, não é demasiado difícil vogar assim.

 Exercitava manter o equilíbrio entre o sonho e o real, naqueles instantes quando se está prestes a acordar

Agia por intuição, não de forma deliberada. O que me atraía?

Um mundo onde as coisas e pessoas se moviam, comunicavam, de forma semelhante à nossa realidade «vulgar».

Porém, nada era vulgar, nele. Tudo se revestia duma solene e tranquila sabedoria.

Eu emergia dessas viagens imóveis, inspirado, pousando lúcido olhar sobre os meus problemas diurnos.

Pelo sonho, vinha-me a chave para a melhor forma de enfrentar a vida. 

Se isto tudo é ilusório, se é real,  não sei!

Serão descargas de neurónios cerebrais, ou reflexo de universos paralelos, onde nos movemos? Não sei!

Possuo esta fonte de beleza, de sabedoria e de força anímica dentro de mim, e conto com ela.

Não quero - nunca me passou pela cabeça - domá-la, mas estou grato por ela zelar por mim,

À Deusa Cósmica, que desce em silêncio,  que se manifesta no sonho e se despede de mim, quando estou semiacordado.


25 - MEDITAÇÃO,  OUVINDO CHOPIN


Enquanto ressoar música nos meus ouvidos
Estarei em paz com Deus, mas não com os outros
Pois os outros estão demasiado cheios das suas vaidades
Para conseguirem parar um pouco seus afazeres
E olharem, ouvirem, sentirem

A Natureza está em roda deles
E neles próprios, mas estão
Fechados à maravilha do sopro
Vital que transforma o ser

Estou contigo, que me dás este bem
Infinito - a música! Estou com o espírito
De Deus, essência criadora e propulsionadora
Do Universo

 


26 - AS MONTANHAS DA LUA


Estou no tempo de contemplar

através da janela mais bem situada

o espetáculo sempre renovado

da natureza não desnaturada

que sempre me dá razão de viver


As montanhas da Lua

erguem-se maciças, tranquilas

com um relevo semelhante

à Deusa reclinada e esquecida


Ela veste-se de Sol e nuvens

de escuras nuvens de tempestade

ou de suave manto branco

pelas secretas encostas desenrolado 


É para junto dela que vou procurar

a frescura do arvoredo, no Verão

a cálida fermentação foliar

no Outono, o uivo do vento

nas árvores, no Inverno

na Primavera, pérolas d' orvalho

irisadas nas verdes ervas 


Sempre esteja eu próximo de ti

Deusa-Natureza,   do oceano

à terra, dos astros à montanha



 27 - TESTAMENTO


Não quero morrer sem escrever um testamento.

Mas que posso eu aí colocar como bens herdáveis?
As coisas materiais estão todas atribuídas, há muito tempo.
As coisas não materiais estão no ar, no vento, no sopro!

Assim, de vento e de imagens farei o meu testamento.
Que vos pertença, Vós que me ledes, assim como se tropeça
Num pequeno tesouro, numa pedra preciosa, abandonada
Um pequeno anel, um nada que deixa o achador contente

Assim gostaria que tu ficasses ao encontrar
Nestas palavras ocas algo que te aproveite!
Não estou inclinado a fazer inventário, porventura
Vós o tendes feito ou não, tanto faz

O que me importa não são obras ditas eternas
Que se esquecem ao virar da esquina,
Nem tão pouco a sorumbática lição de moral
Fustigando que é vão tudo o que nos dá prazer

Não! Esta voz sussurra para vos assegurar
que, quando me for embora desta vida,
Terei muito arrependimento
Muito desaconchego, também!

Não irei de bom grado visitar os outros mundos
Que haja por detrás da cortina, este umbral
De porta que se abre à imensa escuridão e luz.

Para quê escondê-lo? Mais vale dizer
Sempre serei adorador da vida, até ao último sopro
Não tenho nada de mais precioso a dar
Aos mortais como eu, que ficais aqui
Alguns instantes mais, depois
De eu me ir:

- Vede como é bela a vida, não a desfeais
com pequenezas, com mesquinhezes, com raivas ou ódios
Em tudo o que vos couber como destino, dai graças a Deus
Não fiqueis orgulhosos das benesses que tiverdes neste mundo
Mas não desprezai a amizade, o amor, a estima, que são
Afinal, as mais belas e preciosas joias que existem.

Tudo é vão, a não ser o amor que recebeste e que dás
sem cálculo, sem fazer contabilidade; essa é palavra Divina
Amar ao próximo e a Deus, como a nós próprios.

Ámen

28- A MANJEDOURA


Que sentido tem para mim, a história do nascimento de Jesus: Foi assim, foi assado? 

- Mas, afinal, já não tenho dúvidas, nenhumas, desde que vi a manjedoura, 

as palhinhas onde repousou o Salvador 

e nos disse:

«Aqui estou, entre vós

Humilde e humano

Sem mal ou astúcia

Enviado pelo nosso Pai

Que vós, meus irmãos,

Escutais ou esqueceis,

Mas que não adorais,

Não seguis, nem amais!»

Mais, não me disse Ele. 

Fechou-se o pedaço de céu aberto, na grisalha de Dezembro. 

Paciente vou caminhando. 

O Tempo Novo virá, Ele nos prometeu!

Após tantas destruições

Violências e desmandos

Dos enlouquecidos

Pela ganância e vaidade

Que seus irmãos

Oprimem, enquanto

Cantam loas a Cristo

E O crucificam ainda mais

Na carne das crianças:

São oferendas, sacrifícios

a Baal, ou outro qualquer

Ídolo de pacotilha

Neste mundo invertido.

Os poderes são celerados,

Banidos são os justos

Amordaçados,

Escarnecidos,

Padecendo

No caminho

Da Cruz

Que Deus nos ponha

Jesus no coração

Que milhões de vezes

Irradie sua Luz!

Coração de amor

Humano e Divino

Por fim renascido

(Murtal, Parede, 05-12-2021)



29- Desejo de azul


Desejo de azul

Com brumas no horizonte

De mar e céu abertos

De montes e planuras


Desejo de azul

Na montanha, no oceano

Onda e vento escutados

Segredos ao anoitecer


Desejo de azul

No olhar de uma criança

Maravilhamento dum mundo

A cada dia por descobrir


Desejo de azul

Na asa da borboleta

Na anémona-do-mar

No reflexo do riacho


Desejo de azul

 Em cada olhar

Fugaz e terno

De nosso encontro

(Murtal, Parede, Jan. 2017)