domingo, 31 de julho de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] CARLOS SEIXAS AOS QUATORZE ANOS




Deslocava-me por vielas esconsas e desertas, não sabendo muito bem em que sítio me encontrava, se nos velhos bairros de Lisboa, se nos de Setúbal ou mesmo de Coimbra. 
Eis senão quando encontro um frade, com o seu hábito de burel e o rosto totalmente na sombra do capuz. 
Perguntei-lhe, naturalmente, onde me encontrava. Ele olhou para mim e, espantado, disse-me: 

- «Está na presença de José António de Seixas»  

Retirou o capuz, deixando ver um rosto trigueiro, quase infantil na sua extrema juventude. 
Mal me recompus do choque, pegou-me gentilmente pela mão e disse-me em voz sussurrada: 

- «Quer ver um espetáculo único, exclusivo e delicioso?»

Não sabia o que responder, então apertei-lhe a mão, em sinal de assentimento... Mais perdido do que já estava, era realmente difícil, naqueles tempos...

Arrastou-me o jovem Seixas ao portal de uma casa apalaçada de imponente fachada. Logo dois criados em libré abriram as pesadas portas de madeiro, para deixar-nos passar. O músico era, com certeza, esperado. 
Este, sempre braço-dado comigo, subiu a majestática escadaria, iluminada por tochas, sustentadas por estátuas de escravos negros profusamente policromadas. 
- Mas onde me encontrava eu, agora? Não sabia. Continuava a não ter a mínima ideia, embora já tivesse percebido que se tratava de Lisboa... Mas de uma Lisboa do início do século XVIII. 

Nisto, o jovem que aqui me trouxera abriu uma porta de duplo batente, com brasões e relevos em talha dourada, revelando um salão onde várias damas e senhores, sentados, conversavam e pigarreavam rapé. 
Assim que viram o jovem, aplaudiram-no efusivamente, dando vivas e palavras simpáticas de encorajamento. 
Este fez uma vénia galante, apesar de ser um jovem frade. 

Sem demoras, pôs-se ao cravo, um instrumento de um só teclado. Ele tangia o singelo instrumento, como se acariciasse o dorso de um belo animal; tirava dele sons subtis ou arrojados, com a maior naturalidade, como quem conversa. 
Ele improvisava como se as teclas e cordas fossem os seus próprios instrumentos fonadores, ou seja, cantava com os dedos.

Após cerca de meia hora parou a exibição virtuosistica do jovem e  um senhor muito bem arranjado e empoado - provavelmente o dono da casa - apresentou aos presentes um nobre cavaleiro, de porte majestático, austero:

- «Il Signore Domenico Scarlatti»

Este fez uma breve reverência dirigindo-se sem hesitação ao fradinho que se erguera entretanto e o olhava com um misto de adoração e de terror.

- «Não temas, Caro...cuidarei que tu faças parte da Capela de sua Alteza el Rei Dom João. Ainda ontem, ele me pediu se eu conhecia em Napoli um bom e talentoso organista... Eu repliquei: Pois tem Vossa Majestade quem muito bem o sirva no Seu próprio Reino». 


Não recordo mais nada desta memorável cena. Talvez eles tenham jogado uma partida de cartas, bebendo um vinho do Porto e cavaqueando, até muito tarde.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Mais...(+ Léo Ferré chante Baudelaire)

                                        MAIS ...


NB: Ce poème, de 1985, donne son nom à un recueuil inédit de poésie écrite à la même époque, en langue française. Le poème «Mon Pays» (déjà publié dans ce blog) est aussi dans le même recueuil.


Y aurait-il ...
                      des paroles sans voix
                      des idées sans chemin
                      des voitures sans routes
                      des visages sans mains
                      des oiseaux sans plumage
                      des maîtres sans chevaux
                      des paquebots sans équipage
                      des ombres sans teint
                      des traîtres sans servage
                      des semences sans fruits
                      des sentiers sans villages
                      des hommes sans cerveau
                      des maîtresses sans corsages
                      des soupes sans pain
                      des bergers sans troupeaux
                      des fenêtres sans nuages
                      des portes sans maisons
                      des prairies sans corbeaux
                      des yeux sans mirages
                      des festins sans passions
                      des glaces sans couteaux
                      des pays sans esclavage
                      des empires sans nations
                      des couleurs sans drapeaux
                      des domaines sans partages
                      des vignes sans tonneaux

                              …



Disque 1

Disque 2



quarta-feira, 20 de julho de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] COLLOQUE SENTIMENTAL - VERLAINE, FÉRRÉ, JAROUSSKY





Não existem fronteiras para o passado 
Somente as que nós colocamos no nosso coração 
A música vem-nos banhar 
com sua atmosfera d'encantamento de eras passadas, 
de ondas vibrantes, ecos d' épocas doiradas, 
magia da infância, p'ra sempre abandonada...

A minha voz fica embargada 
com o sentido profundo da melodia unida às palavras
 entretecidas num poema de nostálgica e sábia meditação.

Serei um náufrago do passado, por opção, 
deliberadamente, neste presente de banalidade, de infinita chateza... 
prefiro os espectros de um passado 
que nunca se foi embora, graças a alguns vultos cimeiros da Arte. 


segunda-feira, 18 de julho de 2016

RAZÃO MORAL E CONSCIÊNCIA



De que é que serve a nossa razão moral, anos depois de centenas de milhares de mortos?
Isabel do Carmo

Esta reputada médica coloca a questão num artigo de opinião surgido nas páginas do «Público». 
Eu coloco a questão de outro modo.
Se a razão moral é uma medida de alguma coisa, será da nossa impotência. Ou – simetricamente – da força brutal dos poderes do capital, dos governos e dos media, que puderam ignorar completamente o grito moral de muitos milhões de pessoas que se manifestaram, incluindo nos países que seriam – dias depois - agressores nesta guerra criminosa do Iraque.
Esta guerra de 2003 foi antecedida de uma década de sanções crudelíssimas contra as populações civis iraquianas, elas próprias atos de guerra, assim como esporádicos ataques aéreos «preventivos», com devastadoras consequências nas depauperadas infraestruturas do Iraque.
Muitos se recordam da entrevista dada por Madeleine Allbright (da administração Clinton) que respondeu a uma pergunta da entrevistadora sobre se este regime de sanções contra o Iraque se justificava em face de cerca de quinhentas mil mortes de crianças, provocadas pelas condições sanitárias deficientíssimas e carências alimentares, além de outras carências. Ao que a representante da diplomacia dos EUA respondeu que sim, que estas sanções se justificavam.
As pessoas do Ocidente, supostamente educadas, civilizadas, não podem deitar para traz das costas a sua objetiva conivência, com os facínoras, os Blair, os Bush, os Obama e todos os seus acólitos e agentes, incluindo as hierarquias das forças armadas, do comando da NATO, etc. Elas – ao saberem dos crimes de guerra – quando escolheram «ignorar», comportaram-se como se fossem pessoalmente inocentes desses crimes. Na realidade, se elas se consideram livres, logicamente deveriam considerar que livremente elegeram políticos monstruosos capazes de mentira, de crimes contra a humanidade, para se manterem no poder. Ainda maior sua responsabilidade será, no caso de nada terem feito para impedir essas monstruosidades, mesmo depois de denunciadas por organizações e pessoas inteiramente credíveis.
Nem sequer estão totalmente isentas de responsabilidade moral em relação ao terrorismo, perpetrado por pessoas desesperadas pelas devastações que ocorreram nos seus países: Os crimes de guerra efetuados pelas potências nessas terras são uma mancha indelével, uma ferida sangrando nessas zonas do globo.
O cinismo das potências vai ao ponto de levarem a cabo ataques com gases venenosos, causadores de dezenas de mortes, como foi o caso há apenas 3 anos, na Síria, para depois, falsamente, acusarem o presidente desse país, Assad, da responsabilidade deste crime…
A responsabilidade da média corrupta e mercenária é grande ao deitar poeira para os olhos da opinião pública dos diversos países, ditos democráticos, desviando o seu olhar dos comportamentos criminosos dos seus dirigentes, carregando outros, Assad, Putin, Kim Jong Un, etc. com todos os males, diabolizando esses dirigentes, assim como os seus governos e Estados. Ora, se nenhum governo é perfeito, nós sabemos também que não se tolera, num Estado dito de «de Direito», que alguém seja enxovalhado publicamente e sem possibilidade sequer de se defender eficazmente, por crimes que lhes são imputados, mas nunca são minimamente demonstrados.
Este critério, perfeitamente válido e aceite em relação a qualquer cidadão de um dos tais países ditos civilizados, é alegremente ignorado quando se trata de governos «inimigos».
Vale tudo; tudo é aceite para nutrir o medo insuflado numa opinião pública cobarde, infantilizada e disposta a tudo para não ter que se confrontar com a triste realidade da sua inegável decadência moral.
Por esses motivos todos, considero que só são dignos os que resistem, os que dizem não a esta barbárie, especialmente os cidadãos e cidadãs dos países da NATO e outros aliados dos EUA, cujos governos e forças armadas têm contribuído para a destruição da paz e agredido violentamente populações indefesas.
A única defesa contra o terrorismo é depor os governos que direta ou indiretamente o fomentam, se alimentam dele, precisam dele para desencadear as suas campanhas de medo e de ódio.

A NATO, porventura a maior ameaça terrorista que ameaça a paz mundial e a sobrevivência do planeta, deveria ser dissolvida quanto antes e, no imediato, abolida qualquer pretensão de ela ser «polícia mundial».

sexta-feira, 15 de julho de 2016

DEPOIS DE NICE...



A reação ao horrendo atentado de Nice vai desenhar um novo mapa da Europa.

Há alguns dias atrás, li algumas análises e informações que me deixaram perplexo. Diziam essas fontes, algumas delas provenientes de hierarquias de serviços secretos de França e da Alemanha, que a população dos países europeus estava a chegar ao limite, devido aos vários incidentes que envolviam muçulmanos, comunidades de diversos países estavam à beira de uma onda de violência reativa. Pois bem; diziam também que faltava apenas uma faísca para fazer explodir essas massas descontentes. Mas não se tratava de insurreições contra os poderes manipuladores e opressores de que essas fontes falavam. Mas antes uma radicalização no sentido da extrema-direita, da xenofobia sem disfarce e violenta.

Os que se sentem ameaçados na sua identidade reagem com extrema violência a aspetos, mesmo meramente simbólicos, que venham suposta ou realmente pôr em causa o seu «way of life». O medo tem sido a constante mais forte, a que movimenta as massas, as induz a fazer isto ou aquilo.
O «Brexit» foi essencialmente uma resposta do medo face a uma suposta invasão de estrangeiros.
As massas aterrorizadas farão qualquer coisa, entregarão todo o poder, renunciarão alegremente às liberdades mais fundamentais, entregarão o seu destino a qualquer demagogo que lhes prometa «segurança» e «firmeza contra o inimigo» de forma suficientemente convincente para suscitar a sua adesão.

As massas são crédulas e gostam de «acreditar». Estamos, por isso, perante um momento muito difícil na Europa pois, por um lado temos uma massa desinformada, por outro temos os poderes a aproveitarem-se (ou suscitarem) de ataques terroristas, que (quase) ninguém compreende.
Se nós interrogarmos a realidade como ela deve ser interrogada, fazendo a pergunta chave «a quem aproveita o crime?», vamos inevitavelmente virar o olhar para a superpotência dos EUA, cujo império está em declínio, ameaçado de desagregação, que sabe apenas poder manter os seus vassalos da NATO debaixo de tutela, infundindo-lhes medo, persuadindo-os que não poderão lidar com o problema sozinhos. Tentaram isso com a crise ucraniana e demonização da Rússia; tentaram isso também com o islamismo radical... Ambos os cenários são «operações em curso».
Os eurocratas, a «nata» dos dirigentes europeus são vassalos abjetos do «Império» ou seja, dos verdadeiros poderes, da grande finança, das grandes multinacionais...

É patético que o público se vire para esses com esperança de que eles irão aliviar os europeus de seus medos (ancestrais e recentes). É como esperar que a alcateia de lobos cuide e proteja  o rebanho de cordeiros.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

CHANSON FRANÇAISE (AZNAVOUR) - DE L'AMOUR


                                        Charles Aznavour - «L'amour c'est comme un jour»

Parte superior do formulário

De l’Amour


Soyons conscients de ce que chacun de nous a besoin d’amour. D’un amour qui ne soit pas simplement l’expression d’une carence... qui soit, au contraire, au-delà du désir.

Ce mot «amour» est trop plein de signifiants, donc je dois en clarifier le sens: dans ce contexte, j’entends que l’amour est une profonde communion d’intention, de la sympathie profonde et réciproque, l’ouverture à l’autre et un refuge dans le cœur de l’autre. «L’autre», s’entend, quelqu’un d’âge, de sexe, de condition sociale, familiale, etc.…identique ou différente.
Il faut être attentif à l’autre, non seulement parce qu’on attend quelque chose de lui ou l’elle. Être attentif à l’autre en soi-même.

Si tu veux recevoir l’amour de l’autre, tu dois d’abord fortifier ton cœur de telle sorte que ce soit une «maison» où cet autre aimera s’y tenir. Offrir de l’assurance, de la confiance, de la tendresse, c’est cela l’amour véritable.
Peu importe que cet amour soit entre parents et enfants, entre mari et femme, entre amis etc… Sans cela, où est l’amour? Ce serait une posture philosophique abstraite, sans substance!

 Je dois encore me perfectionner beaucoup dans mon for intérieur.
Mais, heureusement j’ai compris ce que l’amour n’est pas. Je me suis détaché de cela. Il me reste des obstacles internes à dépasser, mais je crois être dans la bonne voie. Je suis tranquillement optimiste parce que je compte, aussi, sur mes amis. Nous savons bien que l’amitié vraie et sincère est une forme d’amour!

Je sens et je pense; je pense et je sens. Je donne et je reçois, je reçois et je donne. Mais je ne fais pas de «marchandage» avec les sentiments. Je préfère donner. Si j’ai le bonheur de recevoir en retour, je suis heureux et reconnaissant. Mais si je ne reçois pas, la vérité est que j’ai déjà du plaisir en offrant… J’aimerais donner sans même y penser. 

Nous devons regarder les autres avec respect, avec le même respect que nous pensons qui nous est dû. On ne va pas cesser de faire ce que l’on doit faire, simplement par peur du regard et du jugement des autres. Mais, cependant, on doit être éveillés, ne pas ignorer l’entourage. Ne pas se comporter comme si l’on vivait en vase clos.

Regarder l’autre, les autres, sans peur et sans mépris c’est apparemment une chose très difficile, cependant c’est très important, si l’on veut se placer dans une voie de transformation intérieure. 





segunda-feira, 11 de julho de 2016

Nacionalismo e Desporto de Massas (*)

Vem isto a propósito dos hinos nacionais de Portugal e de França cantados em coro pelas multidões, antes da «histórica» partida da final da copa UEFA em Paris de 10/07/2016
Os nacionalismos são um ingrediente absolutamente vital dos Estados. Sem eles, não existe a tal «coesão nacional», ou seja, os oprimidos, espoliados, humilhados sentirem-se «iguais» dos afortunados, dos poderosos, dos patrões.
Lamento. Mas eu não cantei o hino nacional português («… Contra os canhões, marchar, Marchar…») nem a marselhesa («D’un sang impur, abreuve nos sillons…» ) por tudo aquilo que têm de bélico, permanentemente reatualizado, nem que seja em manifestações «desportivas» como estas. Detesto o desporto transformado em enorme empresa de manipulação dos povos!
Sempre detestei! Será politicamente «incorreto»? - Pois que seja, tanto melhor!
A vivência de alguns anitos mostra-me como estes atos «inócuos» são muito importantes dentro do inconsciente coletivo dos povos.
Os comportamentos dos «soldados» desta guerra simbólica do futebol, dos «guerreiros» destas tribos coloridas, solidárias com os seus totens tribais… dos governantes a «prestar homenagem» aos ídolos do povo porque senão, serão escorraçados na próxima eleição…
Tudo isso me deixa frio e irónico. Um pouco nostálgico de um mundo utópico, sonhado, em que o desporto fosse realmente desporto, não confronto de tacanhez nacionalista…Fica abaixo uma crónica, publicada no Jornal «A Batalha», a propósito dos Jogos Olímpicos e do Euro de 2004.


Nacionalismo e Desporto de Massas - No ano das Olimpíadas e do EURO 2004

Esta circunstância, ano de Olimpíadas e do Euro 2004, estimulou-me a escrever sobre nações e nacionalismo.
O conceito de "nação" é frequentemente reduzido ao de “Estado”, um conceito político, e portanto suscetível de se modificar com o tempo, de ser completamente alterado ou até, mesmo, de desaparecer.

As nações, hoje, o que são? Há nações sem Estado e Estados plurinacionais: quem duvida hoje em dia de que o povo palestiniano constitui uma nação? Quem pode negar o facto de que a Espanha, aqui ao nosso lado, é uma entidade política - um Estado - plurinacional?
Claro que não podemos confundir Estado com nação. O tempo de vigência dos Estados é, em muitos casos, bastante menor do que o da existência de nações. Veja-se o tempo em que a Polónia não existiu como Estado, mas que o continuou a ser como nação. Poderíamos multiplicar os exemplos, tanto retirados a História europeia, como do resto do Mundo.

As nações sem Estado não são uma exceção, são antes a regra. Esta afirmação pode parecer surpreendente, mas ela resulta da observação da história da humanidade. Os primeiros Estados, foram construídos a partir de há cerca de dez mil anos atrás, com o surgimento da revolução agrária, o aparecimento da escrita, das primeiras cidades, de uma casta sacerdotal, de funcionários, etc. ... Porém, as nações já existiam muito antes; a espécie humana moderna tem pelo menos 200 mil anos.
 
No presente, apesar do genocídio dos índios das Américas, existem muitas nações índias, confederações de tribos ou de grupos étnicos que mantêm laços estreitos entre si. Isto tanto na América do Norte, como Central, como do Sul.

Os povos Africanos, em particular subsaarianos, também têm numerosas nações, as quais possuem uma enorme riqueza linguística, em risco de perda pela urbanização (catastrófica) das populações. Os territórios de tais nações étnicas africanas são complemente diferentes das fronteiras dos Estados, traçadas em virtude da partilha colonial e uma das causas de sangrentos confrontos, que têm mantido este continente na miséria.

Os Estados pretendem representar as nações; porém, eles apenas conseguem isso através de um artifício. As pessoas, atomizadas, individualizadas, desenraizadas da sua cultura, de suas tradições, aceitam de bom grado (na imensa maioria) que lhes imponham uma "cidadania".
Esta "cidadania" mais parece uma espécie de "salvo-conduto", permitindo a uma pessoa viver em condições mais ou menos semelhantes (em teoria) com os outros. Caso não se seja "cidadão", entra-se na categoria de "estrangeiro".

É curioso o caso de turcos de segunda geração, que apenas falavam alemão e que não tinham da Turquia mais do que relatos e recordações de seus pais, considerados como estrangeiros face à lei alemã, até há bem pouco tempo. A lei mudou, mas sempre com muitas restrições, por receio de "desalemanização" de uma bem nutrida, egoísta e paranoica pequena e média burguesia.
Nós, em Portugal, temos os mesmos complexos, os mesmos comportamentos e não sabemos sequer olhar para nós próprios com um mínimo de objetividade.

Realmente, a "cidadania" é uma daquelas violências que os Estados infligem ao conjunto das pessoas que, por qualquer motivo, nasceram ou vieram viver para um dado território. Não tanto por que seja imposta, como de facto é (ninguém me perguntou se eu desejava ser cidadão português), mas  antes porque se define como exclusão, se define justamente por confronto com “aquele que não é cidadão”, o qual é colocado nessa situação de  negação de direitos, pelo arbítrio de regras e de normas que não dependem jamais da sua vontade.  Por exemplo, toma-se como critérios principais ter nascido em tal local; ser filho de determinados mãe e pai, etc.. Estes critérios, independentes da vontade do indivíduo, sobrepõem-se a outros, como sejam: a capacidade de se exprimir no idioma, estar inserido  na sociedade, dando contributos relevantes para a mesma, etc. critérios que estariam em larga medida dependentes da vontade.
No início dos tempos modernos, no tempo da Revolução Francesa, os constituintes de então não tiveram hesitações em ligar cidadania à identificação com um determinado projeto político (a república). Assim, houve acolhimento como cidadãos de irlandeses, britânicos, polacos, etc.
Três quartos de século mais tarde, na Comuna de Paris, o Comité Central da Comuna também não hesitou em incorporar elementos de outras nacionalidades, incluindo-os nas fileiras da Guarda Nacional, em postos de comando (capitão, etc. ).

Hoje em dia o conceito de "cidadania", ligado ao de "sociedade civil", como entidade mítica suprapartidária, supraclassista, etc... vem sendo reforçado, face à crise de representação que experimentam todos os partidos políticos e todas as correntes ideológicas. Porém, o modo de que se reveste, na maior parte dos discursos que tive oportunidade de ler, é de uma singular estreiteza, bem menos generoso do que o dos Convencionais de 1793 ou dos Communards de 1871.
O desporto é transformado numa expressão de nacionalismo, muito desvirtuando o ideal de uns Jogos Olímpicos como símbolo da paz e da fraternidade entre todos os humanos, independentemente das suas identidades nacionais, étnicas, religiosas, etc.
É aproveitado como espetáculo de massas. Isto aconteceu, quer com o regime de Hitler (a sua encenação dos Jogos de Berlim), quer com os regimes de "democracia liberal", quer ainda com o regime soviético.

A partir da generalização da televisão, o desporto torna-se também o maior trunfo da sociedade do espetáculo. Com a sedentarização das pessoas, acompanhando a terceirização das economias nos países mais ricos, a generalização do automóvel, etc.
As pessoas "vivem" simbolicamente os feitos desportivos, através do mágico fluorescente cubo televisual, como se fossem elas próprias a realizar os feitos; como se estivessem na pele deste ou daquele “herói”.

O campeão (a equipa campeã) tem "a honra" de subir ao pódio e de ouvir em silêncio recolhido os acordes do seu hino nacional enquanto é içada a bandeira nacional respetiva. O efeito, nos espectadores, deste cerimonial desportivo é de reforço inconsciente (e portanto mais eficaz) do orgulho "nacional", na realidade nacionalista.

Também conhecemos a utilização das exaltações nacionalistas em torno do desporto (quase sempre de futebol) por gangs de hooligans com ligações bastante claras a grupos violentos de extrema-direita.
Sem dúvida que a possibilidade dos grupos humanos se encontrarem e competirem desportivamente, de forma saudável, não é aqui posta em causa. O que ponho em causa é o aproveitamento de um desejo natural de perfeição física, de superação dos obstáculos, de entreajuda, de camaradagem, de confronto leal e, na sua essência, não-violento, para manter, cultivar e mesmo exaltar o "vírus" nacionalista.

As pessoas que se deixam enredar pelo imaginário desse desporto-espetáculo, que vivem obcecadas com as "performances" dos seus ídolos, constituem para mim uma causa de espanto e de angústia.

Eu tenho assistido ao vivo ou pela tv a espetáculos desportivos, pratiquei várias modalidades desportivas como amador, não tenho nenhum preconceito contra a educação da mente e do físico em que consiste o treino e a competição desportiva.
 
Não gosto de lhes colocar o rótulo de "alienadas", mas de facto, que outra expressão serve para caracterizar o comportamento de pessoas que apenas se interessam por futebol, com exclusão quase universal de todas as outras coisas, que desprezam aqueles que não têm interesse nisso, que fazem alianças ou tecem ódios em função dos clubes, que são capazes de decorar - sem esforço- nomes, locais, datas, etc. relativos aos grandes feitos de sua equipa preferida (e de outras) mas completamente ignorantes da história, da literatura, da arte, da ciência?

Fica aqui esta interrogação: será isto tudo "desporto" ou será antes, operação de propaganda ideológica dos Estados, em sua autopromoção?




  

sábado, 9 de julho de 2016

CHANSON FRANÇAISE

CHANSON FRANÇAISE: en Poésie, je suis toujours chez moi!



Je serai toujours culturellement français, j'ai un

 rapport d'amour avec cette langue langoureuse,

 sensuelle, subtile, féminine... Pessoa disait que

 «Ma Patrie est la Langue Portugaise», 

lui, qui était aussi de culture British...

  Qu'est que je dirai de ma langue maternelle,

 autant que le portugais?

J'ai - depuis longtemps - pensé qu'une «patrie»

 ce n'est pas une veste qui sied à un esprit libre... 

cependant...

                

...en poésie, je suis toujours chez moi... 



Poème inédit de Manuel Banet, extrait de

«Mais...» (1983)
  

MON PAYS (CHANSON)*

Dans mon pays,
                          il y a des gens

Au visage serein

Qui vous prennent par la main

Avant que l’on sombre dans l’ennui …



Dans mon pays,
                           il y a des maisons

 Qui n’ont ni poutres ni chevron

Mais où l’on trouve du pain

Et une place à deux pour la nuit …



Dans mon pays,
                          il y a des trains

      Gonflés de larmes et d’illusions

      Sans doute il y aura des déceptions

      Car le bonheur est un train qui fuit …



      Dans mon pays,
                                il y a des bateaux

      Avec en proue des mots d’amour

      De femme, d’espoir sans défaut

      Mais qui ne reviennent pas toujours …



      Dans mon pays,    
                                 il y a une terre

      Pauvre – du granit et de la chaux –

      Mais c’est le mien, c’est bien mon lot

      Et je veux que l’on m’y enterre …



ATLANTIS / ATLÂNTIDA - ELOGIO DA HIBRIDAÇÃO CULTURAL


Vivemos na orla do grande «Mare Nostrum», somos Atlântides
A nossa cultura é de grande universalismo, pois somos gentes do mar, gentes de dar a volta ao mundo, de ir aonde for preciso para nossa subsistência, a dos nossos filhos.
Somos ambiciosos, sim, mas não temos uma vaidade baseada na genética. Nos defeitos mesmo somos diferentes dos povos continentais típicos, daqueles que quase não conhecem outra coisa senão paisagens de planícies e montanhas. Porque nós somos «naturalmente» vocacionados para o universalismo.
Muitos intelectuais das nossas culturas atlânticas exprimem esse universalismo. Em Portugal, o espírito de Antero de Quental, de Fernando Pessoa, de Paula Rego, de João Magueijo,  só para citar algumas pessoas célebres, vivas ou mortas, é claramente cosmopolita ou universalista.

Sem dúvida, existem bairrismos, tacanhez, como têm todos os povos. O que eu defendo aqui é que o espírito de aventura, de procurar ir mais além, de descoberta exterior e interior, está bem vivo na nossa História e que esta História é indissociável da dos outros povos da «Atlântida». Por isso, nos damos bem junto de outros povos, especialmente dos que partilham um fundo cultural e genético de povos viajantes, de nómadas, de aves de arribação.

A miscigenação é a maior demonstração prática da pseudocientificidade e imbecilidade do racismo. O povo de Portugal ou os seus descendentes, cultural e geneticamente presentes em todo o Atlântico, de um lado e do outro, nos hemisférios Norte e Sul…eis a prova mais evidente do «vigor dos híbridos».

Penso que a globalização dos humildes está muito mais adiantada que a globalização da elite do poder e do dinheiro. 
Primeiro, houve necessariamente a globalização resultante do entendimento espontâneo entre pessoas de diferentes povos, condição primeira para que uma comunidade emigrada se integre no país de acolhimento. 
Foi por isso que a globalização capitalista se tornou possível e «rentável» e não ao contrário, como – muitas vezes - nos querem fazer crer.


ATLANTIS
The continent of Atlantis was an island
Which lay before the great flood
In the area we now call the Atlantic Ocean.
So great an area of land,
That from her western shores
Those beautiful sailors journeyed
To the South and the North Americas with ease,
In their ships with painted sails.
To the East Africa was a neighbour,
Across a short strait of sea miles.
The great Egyptian age is
But a remnant of The Atlantian culture.
The antediluvian kings colonised the world
All the Gods who play in the mythological dramas
In all legends from all lands were from far Atlantis.
Knowing her fate,
Atlantis sent out ships to all corners of the Earth.
On board were the Twelve:
The poet, the physician, The farmer, the scientist,
The magician and the other so-called Gods of our legends.
Though Gods they were -
And as the elders of our time choose to remain blind
Let us rejoice
And let us sing
And dance and ring in the new Hail Atlantis!
Way down below the ocean where I wanna be she may be,
Way down below the ocean where I wanna be she may be,
Way down below the ocean where I wanna be she may be.
Way down below the ocean where I wanna be she may be,
Way down below the ocean where I wanna be she may be.
My antediluvian baby, oh yeah yeah, yeah yeah yeah,
I wanna see you some day
My antediluvian baby, oh yeah yeah, yeah yeah yeah,
My antediluvian baby,

quarta-feira, 6 de julho de 2016

POESIA DO FADO PORTUGUÊS





                                     










TUDO É BELO NESTE ÁLBUM mas, para mim, «Gaivota» é a mais extraordinária e rara combinação de talentos: a letra do poeta Alexandre O'Neill, a música do compositor Alain Oulman, com a interpretação inultrapassável de Amália Rodrigues.


- MINHA SINGELA HOMENAGEM.

FADO*

No vinho procurei o abrigo
Que teus braços recusaram
As doçuras cedo acabaram
Só mágoas guardo comigo

Do peito pisado como uva
Rios de sangue ardente
Tingiram esta alma doente
De negro manto de viúva

Sem carinho, sem ternura
Como viver esta vida
Errante, triste e dura...

Alma pra sempre dorida
Perdida em noite escura
A Morte lhe dê guarida

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* Da recolha de Poemas «Tenção»; inéditos de 1973 -1978 de autoria de Manuel Banet