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segunda-feira, 3 de junho de 2024

MÚSICA COPIADA, TRANSCRITA, ADAPTADA (segundas-feiras musicais nº3)

Imagem: um retrato de J. S. Bach quando jovem, do período em que terá copiado e adaptado muita música italiana, nomeadamente de Vivaldi

Hoje em dia, com o conceito de «copyright», temos tendência a ver qualquer empréstimo como uma espécie de «roubo». Porém, na era do barroco (e mesmo, depois), era comum uma peça de música dum compositor, ser adaptada por outro.  

São célebres as adaptações, feitas para o órgão (ou cravo) pelo jovem Bach, dos concertos para cordas do «Estro Armonico» de Vivaldi*. São adaptações de pleno direito, pois as modificações necessárias para serem executadas no cravo ou no órgão implicavam mudanças substanciais: quer na tessitura das vozes, quer no enchimento harmónico e noutros detalhes, que fazem destas «transcrições» mais propriamente «adaptações».

Muitos músicos fizeram adaptações do mesmo tipo. Franz Liszt, por exemplo, transcreveu peças de Bach (originalmente para órgão solo) em peças para piano. Busoni, mais tarde, também efetuou transcrições para piano doutras obras de Bach. Estas transcrições são conhecidas e frequentemente interpretadas.  


Vivaldi: Concerto para 2 violinos e orquestra, RV 522

https://www.youtube.com/watch?v=7E-RTI-H2oI


Versão para órgão solo de Bach: BWV 593:



No estudo abaixo citado, são contabilizadas e explicadas as modificações que Bach  fez nas partituras originais  de Vivaldi, para tornar as peças plenamente executáveis ao órgão: «Bach the Transcriber: His Organ Concertos after Vivaldi (Vincent C. K. Cheung)»

Alexandre Tharaud (piano) realizou um disco em 2001, com transcrições feitas por Bach de obras de Vivaldi, de Alexandro e Benedetto Marcello e Torelli, além de obras do próprio Bach: «Concerto Italien».

No século XIX continuou a tradição: O tema de «La Campanella» (o sininho) para violino, de Paganini, foi transcrito e usado para variações, em inúmeras peças, sendo a mais célebre a versão de Lizt para o piano.

No século XX, muitos compositores continuaram a usar temas de peças musicais de autores do passado para compor suas próprias peças, de forma mais ou menos livre.

Veja-se, por exemplo, a utilização do «Dies Irae» e dum Capriccio de Paganini, na Rapsódia para piano e orquestra de Rachmaninoff. 

A «Rapsódia sobre Tema de Paganini», estreou-se a 7 de Novembro de 1934, pela orquestra de Filadélfia, sob direção de Leopold Stokowski, sendo o próprio Rachmaninoff solista ao piano

Abaixo, Yuja Wang interpreta a parte de piano da Rapsódia de Rachaminoff:

Não nos devemos surpreender que grandes músicos copiem e usem materiais de outros: Pode ser visto como exercício, ou como forma de estudar as técnicas de composição dos mestres. Em tais circunstâncias, não se trata de "plágio", mas antes de homenagem!

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(*) música de Vivaldi e transcrições por Bach, nesta PLAYLIST

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

BACH AO PIANO

Houve, desde a segunda metade do século XX, um renovo de interesse pela música antiga, especialmente barroca, na perspectiva de uma maior fidelidade às sonoridades de origem, da restituição do ambiente sonoro da época, o que implica a interpretação apropriada, usando instrumentos antigos (ou cópias dos mesmos) e as técnicas adequadas para os tanger. 

Porém, a música de J. S. Bach, desde o século XIX nomeadamente, a partir de Mendelssohn, foi sendo «redescoberta» e reinterpretada por sucessivas gerações, usando a orquestra moderna e o piano, o que realmente coloca estas interpretações e reportório numa categoria à parte. 

Hoje, o ensino de instrumentos de tecla dá um enorme relevo às peças de Bach. De facto, o próprio deixou para a posteridade recolhas com intuitos claramente didáticos: os Livrinhos (Büchlein) para Ana Magdalena e Wilhelm Friedmann, os Orgelbüchlein (versões de corais para órgão solo, de variados estilos) e os Clavier Übung. Um dos volumes dos Clavier-übung inclui as partitas e o concerto italiano, aqui interpretado por Lang Lang:

                        

                              https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=_pdcTqNn2qQ


Na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX, a transcrição ou «redução» para piano solo de peças inicialmente compostas para orquestra ou para órgão, tornou-se muito comum. Helène Grimaud tem uma excelente interpretação da Chaconne (composta para órgão solo) em Ré menor, transcrita por Busoni

                                     
                                    https://www.youtube.com/watch?v=sw9DlMNnpPM

Os concertos para cravo e orquestra foram populares antes dos anos 1970, antes do renovo do interesse do grande público pela interpretação mais genuína da música antiga e em especial da música para cravo. Vários intérpretes dos anos 50 e 60 incluíam estas peças de Bach no seu reportório. Um deles foi Glenn Gould, cujas gravações de Bach são reeditadas e apreciadas muitos anos após sua morte precoce. 



A criação de um reportório para o piano usando música de Bach tornou-se de novo «moda», recentemente, graças a alguns grandes interpretes. A adaptação ou transcrição ao piano implica uma «reinvenção» ou «reinterpretação» de música que manifestamente não tinha sido pensada para este instrumento. Evgeny Kissin interpreta de forma bastante convincente a siciliana da sonata para flauta e cravo BWV 1031, transcrita para piano.

                                         

                             https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=SGUd_kWdrkQ









sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Fantasia Cromática e Fuga BWV 903 de J. S. BACH

 ( ANDRÁS SCHIFF ao vivo)


Pode acompanhar a audição da peça lendo a partitura no vídeo seguinte: 



Esta obra para o cravo só se tornou conhecida muitos anos após a morte do seu autor, em 1802; a partitura completa (incluindo a fuga), ainda mais tarde. O manuscrito* que serviu para a primeira edição por Forkel, é do discípulo  de Bach, J. F. Agricola
A transcrição para piano foi efetuada por vários compositores, incluindo Liszt e Brahms, ao longo do século XIX. A transcrição aqui interpretada por András Schiff, é a de Busoni 

Podem ler-se muitas análises desta peça, em vários sites. O que escrevo abaixo é antes a minha apreciação estética, subjetiva.

Não posso deixar de colocar a Fantasia e fuga cromática, no cume da arte de Bach e mesmo, entre as mais geniais peças para teclado de todos os tempos. 
Pertence a um tipo de composição em díptico: Fantasia e fuga; Tocata e fuga;  Prelúdio e fuga. 
- Na primeira parte do díptico, predominam escalas ascendentes e descendentes, arpejos, etc., figuras típicas que simulam uma improvisação.  Quanto à escala cromática, esta proporciona dissonâncias e dramatismo, que se resolvem em harmonia. 
Este tratamento extrovertido, exuberante, corresponde ao «Stylus Fantasticus», uma designação dada pelo crítico musical Matheson contemporâneo de Bach.
- A segunda parte do díptico contrasta pelo  rigor matemático da fuga. Com efeito, esta é como «peça de ourivesaria», de artesanato musical requintado e subtil. Nesta fuga, em particular, verifica-se uma tensão permanente entre as vozes, uma incerteza que apenas se resolve nas últimas barras de compasso da peça.  Esta fuga sai bastante fora do que se considera típico em Bach, como nas fugas do «Cravo Bem Temperado». 

A interpretação ao piano desta composição é um exercício de virtuosismo, não só pelas dificuldades técnicas inerentes ao texto musical, como pela importância de se conservar uma certa contenção, de não se cair na excessiva exposição de sentimentos. No barroco, não se nega a sensibilidade da alma,  mas o «bom gosto» é de que os sentimentos sejam contidos, codificados.  Não se procura exibir os sentimentos numa efusão descontrolada mas, em vez disso, a sua representação sublimada.
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*Não se conhece nenhum manuscrito autógrafo de Bach para esta peça, mas a atribuição da autoria ao Mestre de Leipzig é segura.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O Temperamento em J. S. BACH: «DAS WOHLTEMPERIERTE CLAVIER»




«O Teclado Bem Temperado, ou Prelúdios e Fugas em todos os tons e meios-tons, tanto no que respeita à terça maior como à terça menor. Destinado a ser usado por jovens músicos ávidos de aprender e para o deleite dos que já são executantes hábeis. 
Composto por João Sebastião Bach mestre de capela do príncipe de Anhalt- Cöthen. Ano de 1722» (1)


O costume de se designar a obra-prima de J.S. Bach por «o cravo bem temperado» carece de rigor e também é redutor do sentido, pois a obra era destinada a instrumentos de tecla, não especificando o cravo - ou outro instrumento - como obrigatório ou preferido, para a sua execução. 
Com efeito, na época de Bach, o clavicórdio era um instrumento de tecla e corda muito popular, sobretudo nos lares menos abastados; era muito menos caro do que um cravo. Bach, com certeza, compôs e ensaiou inúmeras peças ao clavicórdio. 
Na introdução que Bach redigiu, a preocupação pedagógica é explícita. Bach ensinou muitos jovens, não apenas os seus filhos, mas muitos outros, incluindo príncipes, nas cortes onde trabalhou.


Pode-se abordar esta obra monumental de muitas maneiras. Uma importante questão tem a ver com o temperamento, ou seja, a subtil mudança das notas musicais em relação ao que seria a estrita relação física da frequência de vibração das cordas. 
A invenção do «temperamento igual» foi aplicada ao forte-piano, o novo instrumento de tecla popularizado, sobretudo, nos finais do século XVIII e no século XIX. Mas, na época em que Bach compôs, não se utilizava sequer o temperamento igual. Este, consiste em desviar um pouco a afinação de todas as notas, para que nenhum acorde soe agreste. 
Porém, o temperamento, na época de Bach, consistia em aplicar ajustes de afinação, para que os acordes soassem melhor numa dada peça, com uma dada tonalidade, havendo portanto que mudar a afinação ao longo do ciclo dos 24 prelúdios e fugas. 
A manutenção da mesma afinação, ao longo de várias horas de execução, é apanágio do piano, sobretudo quando este passou a ser construído com moldura de ferro e cordas metálicas, no século XIX e nos séculos seguintes. 
Por contraste, durante um recital de cravo ou de outros instrumentos de corda, é perfeitamente comum o executante gastar algum tempo, entre peças, para afinar o instrumento. 
Era e é possível fazer variar a afinação do instrumento ao longo do recital, de forma a adequar a sonoridade do instrumento às características de cada peça. Um executante com sensibilidade e ciência do seu instrumento, sabe ajustar a afinação deste, em função da tonalidade da peça. 
Note-se que - nesta época - cada tonalidade tinha um carácter próprio. A escolha do compositor em relação à tonalidade não era indiferente. Uma dada tonalidade seria a mais adequada para veicular certas ideias e sentimentos ... 
Estamos, afinal, perante um problema de interpretação musical e não meramente técnico, para executar a música da época, no «teclado bem temperado»!

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(1) Ler notas acompanhando o disco vinil, por Louis van der Paal

sábado, 3 de setembro de 2022

J.S. BACH: PRELÚDIO & FUGA E EM LÁ MENOR BWV 543



O Prelúdio e fuga em Lá menor é um exemplo de stylus fantasticus, designação utilizada pelo teórico e crítico musical Matheson. Este estilo é característico das peças de órgão, não diretamente litúrgicas, da Escola do Norte da Europa, principalmente de Dieterich Buxtehude. Este mestre teve a maior influência no jovem Bach, nos seus anos de formação.
Conhecem-se alguns pormenores da visita que J. S. Bach efetuou a Buxtehude. É um episódio bem conhecido da sua biografia. O jovem organista de Muelhausen, para visitar Buxtehude, efetuou uma viagem a pé (centenas de quilómetros!), desde a Alemanha Central, até à cidade portuária do Báltico, Luebeck. Tal era o desejo de aprender com o Mestre da Escola do Norte!
Deparou-se-lhe em Luebeck a possibilidade ficar com o posto de organista da Marienkirche, ocupado por Buxtehude. Porém, nesses tempos, havia que respeitar as tradições. Era costume o candidato ao posto casar com a filha do organista-titular em funções. Esta regra rígida e autoritária, fazia da filha do organista-titular uma espécie de «moeda de troca» para um jovem poder alcançar o posto prestigioso. Se a regra funcionou para outros, tal não aconteceu com Bach: Talvez achasse demasiado feia e antipática a filha do Mestre Buxtehude, ou por qualquer outro motivo.

Bach regressou a Muelhausen sem noiva e sem o lugar de organista da Marienkirche. Ele demorou-se, porém, muito mais do que o tempo que lhe tinha sido autorizado. Apesar disso, Bach não foi despedido e manteve-se em Muelhausen como organista, até conseguir o mais prestigioso lugar de Mestre-de-Capela do Duque de Weimar.

Mas, afinal, a visita a Buxtehude permitiu que Bach assimilasse, deste e doutros mestres do Norte, o exuberante e luminoso estilo, que transparece nas Toccatas, Fantasias e Prelúdios.

O Grande Prelúdio e Fuga BWV 543 é uma magnífica peça no referido estilo!

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PRELÚDIO & FUGA E EM LÁ MENOR BWV 543

MARIE-CLAIRE ALAIN (órgão)

HELÈNE GRIMAUD (piano)




Este prelúdio e fuga BWV 543, é aqui executado por Marie-Claire Alain, da sua integral das obras de Bach para órgão (1980).



Helène Grimaud executa a transcrição para o piano por Franz Liszt, numa gravação memorável, de grande sensibilidade e perfeito domínio técnico, como é habitual na famosa interprete.


terça-feira, 6 de setembro de 2022

Prelúdio e fuga Nº. 6, BWV 875 do 2º LIVRO do «CRAVO BEM TEMPERADO»

 As peças dos 2 livros do «Cravo Bem Temperado» de J.S. Bach, são bem conhecidas: Não faltam integrais de ambas as recolhas, de entre as quais se podem escolher  interpretes e instrumentos ao gosto de cada um. 

Porém, uma das caraterísticas fundamentais destas COLETÂNEAS PEDAGÓGICAS é serem exercícios de estilo, de «bom gosto», mais do que meros exercícios de aperfeiçoamento da execução.

Praticamente todas as peças exigem muita destreza e controlo do executante, num ou noutro aspeto. Porém, não são certamente concebidas para exercitar a velocidade.  Ora, alguns interpretes caem no erro de executar certas peças, no máximo da velocidade de que são capazes. Com isso, lamentavelmente, desnaturam a musicalidade dos prelúdios e fugas!

É portanto crítico encontrar o andamento adequado para as referidas peças, de modo que possa sobressair sua beleza própria. É importante também o temperamento , quer enquanto sinónimo de afinação do instrumento, quer no sentido metafórico, ou seja do caráter. 

A escolha que fiz de interpretações abaixo podem não ser das mais célebres, mas são as que me pareceram mais apropriadas para exprimir o espírito da peça, quer interpretada ao cravo, quer ao piano.


Nicola Bisotti numa cópia de cravo Ruckers (1612)


András Schiff ao piano


Pode-se acompanhar o prelúdio com partitura,  AQUI.

                           A partitura da fuga, pode ser visualizada AQUI.

terça-feira, 5 de maio de 2026

[proso-poemas e música] NO PAÍS DOS SONHOS - VOL. I

 A fantasia que nos toma, nos eleva e nos enebria. 

A imaginação que levanta vôo, a audácia de colar textos próprios a partituras e sons de imortais génios, o atrevimento maior de dar a conhecer estes textos. 

Tudo isso, confesso, fi-lo, com respeitosa deferência, mas também como gesto de apropriação da música. Se consegui ou não fazer algo que fosse o pálido reflexo das obras-primas musicais que eu glosei, não sei. O meu público poderá ajuízar e deliciar-se (ou repudiar) com o exercício.

(Em breve recompilarei o vol. II da série NO PAÍS DOS SONHOS)

sábado, 21 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Frottola «Vergene Bella», Bartolomeo Tromboncino





Versos a Afrodite, Deusa da Geração do Amor e da Vida

A cada passo meu, dentro deste jardim, se vai aproximando o coração da luz. Em ti encontrei o fruto escondido do amor sem pecado. Do amor que se estabelece entre dois seres de luz, fora do tempo e do espaço, porque estão no plano universal do amor de Deus.

As guerras que nos atormentavam, as de ferro e fogo, as de corações inflamados pelas paixões terrenas, não desapareceram, mas não nos causam já esse abalo que nos desvia de Ti.

No meu coração te transporto sem o dizer a ninguém, pois o que há de bom e precioso deve ser preservado do olhar cobiçoso.

O ouro que é meu, esse que é verdadeiro, não é o que se encontra nos cofres e nas baixelas. O ouro que está em mim, não reluz e nem se pode cambiar, tem só uma existência: a do espírito comparticipando no Todo.

Estou em comunhão contigo, Deusa, com a beleza imóvel e intensamente compassiva do teu olhar poisado sobre mim. Em teu coração eu me refugio, recebo tua proteção. Sou teu, dou-te a minha fidelidade e a verdade de meu ser.


[NO PAÍS DOS SONHOS] Tento do Primeiro Tom, Manuel Rodrigues Coelho




O horizonte está entrecortado por colinas, onde tufos incertos de bosquedos teimam em assinalar a sua presença. O rio está quase seco, apenas serpenteando um fio de água por entre pedras e juncos. Oiço gritos ao longe, de uma aldeia ou quinta a duas léguas do ponto onde descanso. O cavalo entretém-se com os raquíticos pastos, ressequidos pelo longo Verão da meseta. O calor ainda é demasiado para nos pormos a caminho. Não consigo pregar olho, pois as moscas zumbem em torno de nós, sem descanso. O Sol ainda está acima do horizonte; quando o crepúsculo chegar, retomarei caminho na estrada de Toledo.

Penso no que acabo de deixar para trás, os olhos humedecem-me. Desterrado, por mim próprio, para o todo sempre, condenado pelo amor impossível que me atormenta. Leal e dignamente, apenas me resta a opção de tomar o hábito de monge numa ordem religiosa.
Ela sabe onde me irei acolher, somente ela e mais ninguém. 
Ao entrar nesta fraternidade monástica irei receber um nome, atribuído pelo superior: somente ele saberá a minha identidade, o meu nome civil, o título nobiliárquico de que sou portador, desaparecerão. As minhas propriedades, todos os meus bens terrenos, pertencerão à ordem monástica. 

Isto custa-me infinitamente menos do que o facto de nunca mais vê-la, a Dona e Senhora de meu coração, a única.



[NO PAÍS DOS SONHOS] Fantasia em Fá menor Op.49, Chopin






Num subterrâneo mundo, onde as águas são iluminadas por debaixo, vogam algumas canoas com misteriosos movimentos ondulantes, muito suaves. Tudo o que se pode entrever do local é adivinhado aquando de brevíssimos clarões azulados, que mostram instantâneos de cenas petrificadas. 
Homens nus reclinados, com a cabeça rapada, deixam-se transportar nas canoas. Estas movem-se sem nenhum gesto de seu passageiro. Cada canoa acosta, sucessivamente, a um pequeno cais. Aí, mulheres muito belas, nuas, vistas de costas, entram sucessivamente, uma em cada canoa. Afastam-se e perdem-se as suas silhuetas no fundo da gruta, que é afinal um rio subterrâneo, que serpenteia por debaixo da terra, silencioso. 

Agora estou numa dessas barcas. Ela dirige-se a uma abertura ao longe, enquadrada pela vermelhidão de archotes. O rio subterrâneo desemboca numa enseada. Observo a paisagem calma da noite com estrelas e sem luar. Oiço claramente o ruído suave da onda a lamber a areia da praia. O vai e vem da maré deixa um rasto fosforescente, desenhando um contorno sempre em mudança a cada ondulação levemente esboçada no limiar das águas. 

Os vultos que caminham desde umas rochas a uns duzentos metros, vão-se aproximando do ponto onde me encontro. Todo o grupo está silencioso, apenas se ouve o ruído do chapinhar da água ao nível de seus calcanhares, pernas, coxas e por fim, mergulham, num deslizar calmo. Nadam longamente, mas a uma distância curta do ponto onde estou. 

Emergem por fim e aproximam-se da praia, fosforescentes, corpos esplêndidos, bem proporcionados, apenas se distinguindo o seu contorno. Tudo é magnífico e nada assustador. Estes corpos espectrais passam perto de mim, mas sem notar-me.

O sonho deixa-me uma sensação de alegria serena; estou envolto num halo de luz e contemplo o céu estrelado, com profunda gratidão.



[NO PAÍS DOS SONHOS] Bachanias Nº5, Heitor Villa-Lobos

- Estou numa barca, ela desliza pela água, com a brisa que a transporta. Em cada margem há floresta, caprichosas formas de árvores de todos os tamanhos, tons e formas…
A minha memória, saturada da beleza deste sol poente vai ao encontro de uma estrela que luz no céu, tão alva e tão singela, apenas visível por alguém que eu amo profundamente:
- Essa mulher está no interior do canto de uma ave, existe neste rincão de selva escondido. Está e chora a sua solidão, pois seu amante está sempre ausente. Porém, deteta-lhe o rasto nos fragores da maresia, nos cânticos das aves e no restolhar das folhas nas árvores. Quando ela ergue o olhar para a estrela, a sua alma fusiona com a do seu amor.
- A espera transmuta-se em encontro … recebi a carícia suave da amada, o peito estremece-me com a brisa fresca do ar matinal.






quinta-feira, 19 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Largo do Concerto para Dois Violinos de J. S. Bach



Obrigado, Bach! 

A doçura deste Largo do concerto para dois violinos é um veículo de transporte mágico para o meu passado. Estou a vogar para o sítio onde os meus anos floresceram. Estou embalado e enlevado pela beleza que se abre, desabrocha, no seio desta música… tal e qual quando a ouvi pela primeira vez. É como se abrisse os olhos à visão do espírito. Deus está em cada partícula e em cada vibração do som, como está no meu coração, quando o abro a esta música.
Obrigado, Bach! Agora estou a pensar em ti, em ti, em ti… estou, eu mesmo, a aproximar-me do teu coração… estou dentro dele como quem está escondido numa gruta, muito calma, muito secreta. Sou eu, o mensageiro dos sonhos, que venho dar-te um abraço longo, como tu abraças o gato, este felino que gosta de se espreguiçar… assim…
Serei felino ou serei homem, não importa.
Estou aqui nesta música, como veículo de teu encontro com o Universo.
Assim, podes dizer-me o que quiseres, na resposta a esta mensagem. Certamente, será ouvida a tua voz… certamente, ela receberá acolhimento e resposta. De minha lavra ou de alguém, de alguma entidade espácio-temporal. Não é necessário especificar mais, nós sabemos… que

…A ciência é boa por essência, somente a preguiça e falta de cuidado dos humanos insiste em distorcer e ver outro maravilhoso onde está a maior de todas as maravilhas: a realidade do universo, a nossa existência e a nossa inteligência de humanos em perceber e comungar com este TODO.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] MOZART Andantino p/ flauta e harpa K299

Sonhado, ouvindo flauta


 




Capto o instante, num olhar reflexo de nuvem, nos olhos da Deusa que nos acorda dentro do sonho e nos conduz ao país em que a realidade e nosso verdadeiro Eu se unificam.


Mas o mistério está muito para lá do instante, pois perdura nos meus ouvidos e não estou a ouvir apenas a música de Mozart, mas a música do chilrear de todas as aves da alvorada.

Neste país sem fronteiras, o meu entendimento maravilhado satisfaz-se com o simples enunciado dum gesto.
Perdura o instante que sempre existiu, desde todo o tempo que existe humanidade.

O coração reaprende a bater o ritmo, em perfeita sincronia com o suave tanger de uma harpa. 


[NO PAÍS DOS SONHOS] Concerto para Piano Nº3 , Prokofiev

Ofegante corria como um louco, até ao portal da casa. Teve de parar, a respiração faltava-lhe. Foi nesse preciso momento que a porta da datcha se abriu e apareceu Nadja, resplandecente na glória os seus dezassete anos. Vestia uma camisa de cores variadas, saia castanha e tinha o cabelo mal apanhado num carrapito, caíam-lhe madeixas pelos ombros. Seu cabelo loiro acobreado enquadrava um rosto muito oval, com lábios desenhando um sorriso discreto, a maior parte do tempo, quando escutava aquele estroina: Inclinava ligeiramente a cabeça, como que para melhor adivinhar o que ia sair dessa cabeça oca e seus olhos cintilavam ou tornavam-se nevoentos, consoante o seu estado de alma. Como se toda a expressão do rosto se concentrasse nos olhos.
Não havia nada de especial naquele relacionamento. Ou melhor, tudo era especial. O jovem e a jovem tinham um pacto não dito de total entrega espiritual e total castidade corporal. Como é isso possível em jovens saudáveis e sem preconceitos? Impossível de explicar. O facto é que ambos se sentiam muito à vontade nessa situação de «não namoro» e nada poderia mudar a disposição dos dois, por mais que as famílias respetivas e os amigos achassem que as coisas não iriam permanecer nesse pé.
Este Verão seria o último, mas eles não suspeitavam de nada. Abraçaram-se e olharam-se nos olhos. Depois, com um sorriso muito terno, Victor poisou um beijo na fronte de Nadja.
Esta desprendeu-se logo do seu abraço, tomou-lhe a mão e arrastou-o numa corrida através do salão, atravessando a porta sempre aberta da cozinha e mostrou-lhe …
 - «Olha! Sua ninhada de oito gatinhos»…
 A gata siamesa estava deitada na alcofa e lambia a cabeça e dorso de um dos gatinhos, numa toilete interminável de mãe-gata.
…...
[não sei como foi a seguir… nada! Apenas me lembro de ter acordado deste sonho com uma opressão no peito, como se algo de terrível tivesse ocorrido. Não sei o quê…]



- Quando chegar o momento em que a Alma do Universo me vier acolher no seu seio, medo não terei.


- Não sei como, nem quando será essa passagem, mas sei que nada me assustará, pois irei para junto dos entes meus queridos.

[NO PAÍS DOS SONHOS] Ballade Nº1, Sol menor, Frédéric Chopin




Restava somente um, de toda aquela casa, outrora ilustre. Tinha forçosamente que fazer a «guarda do castelo», não havia mais ninguém, todos tinham morrido ou fugido. O tempo era de incertezas; roubava-se, aprisionava-se, mutilava-se, matava-se … a gente boa estava fugida. Os bandidos reinavam. Impunham a sua barbárie. Tinham prazer em submeter e humilhar.
Não te irei esconder que passei as horas mais angustiadas de minha vida, nessa época terrível.
Mas o meu medo foi-se transformando em força. Fui aprendendo a dominá-lo. Fazia pequenas sortidas para me abastecer por perto, onde houvesse alimento. Trocava comida por tudo o que pudesse despertar a cobiça dos comerciantes. Já não circulava dinheiro: apenas se trocavam objetos ou serviços.
Era um tempo muito duro de escassez generalizada, exceto para alguns. Estes tinham tudo, em resultado do saque e da extorsão permanente. O obscurantismo de há mil anos voltara e instalara-se. O medo fazia o resto. Tinha de me manter sempre vigilante, dia e noite; era uma autêntica tortura. Só podia dormitar uns minutos por dia, sempre com a arma ao alcance da mão. Agitavam-se vultos durante a noite, mesmo por debaixo das janelas.
Eu ouvia os sons que os homens desesperados faziam, a meio da noite, quando entravam furtivamente no jardim. Eram pobres diabos, exaustos, que apenas bebiam um pouco de água de uma fonte e dormiam umas poucas horas sobre a terra debaixo de um arbusto. De início, tive medo deles, depois compreendi que eu lhes metia respeito a eles também, pois as luzes do interior, filtradas através das gelosias fechadas eram indício seguro de que havia habitantes dentro.
A verdade é que a presença noturna dos fugitivos era protetora contra verdadeiros ladrões e assaltantes. Somente tinha de me manter vigilante para que não fosse surpreendido por um bando organizado de malfeitores armados.
Esta situação manteve-se durante algumas semanas. Depois, apesar da catástrofe, a vida foi retomando os seus direitos. Conseguia ver isso pelo ar menos contraído das pessoas, o seu olhar nem sempre era de medo ou inquietação, às vezes esboçavam um sorriso. 
Os animais selvagens também se acolhiam ao jardim. Escolhiam sempre as horas de maior calmaria. Onde estivesse um melro, um ouriço-cacheiro, uma serpente… era terreno (provisoriamente) seguro. Eles escolhiam locais pacíficos como refúgio.
Por vezes avistava-se um falcão peregrino, poisado sobre um poste de iluminação, de onde observava o entorno.
Os gatos selvagens gostavam de vir furtivamente beber água no tanque das traseiras. Marcavam o território enterrando, em determinados pontos do jardim, seus excrementos. Ao fazerem isso, estavam a dar-me uma ajuda, pois os ratos cheiravam à distância a presença dos felinos e não se aventuravam pelos canteiros da minha horta improvisada.
O mais difícil era manter o equilíbrio perante a situação de incerteza permanente, que obrigava a estar sempre alerta. Mas aprendi a afugentar o medo e a olhar para uma situação aparentemente desesperada com uma certa serenidade.
 As visões que perpassavam pela minha mente, os sonhos acordados dessa época, eram - evidentemente - projeções da minha mente perturbada, mas não insana.



segunda-feira, 16 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Magnificat BWV 243 J.S.Bach



Deixou repousar em cima do peito o livro que estava a ler; fechou os olhos. 
Sentia um agradável torpor, embalado pela música de J. S. Bach




Neste estado, as imagens que lhe apareciam diante do espírito e sobretudo os sentimentos no seu peito, o transportavam para o êxtase:
Uma luz difusa fazia rebrilhar miríades de partículas de poeira doirada. Uma pulsação rítmica movimentava o tronco do sonhador, era o movimento do cavalo dócil, que se transmitia ao cavaleiro. Um jovem, no meio de uma orquestra de músicos empoados; estava entoando uma pura melodia jamais ouvida antes.
(Tudo era estranho, justamente por tudo lhe parecer familiar. Até o gato do vizinho se imiscuíra no sonho, com os seus movimentos circunspectos, cautelosos…)
Sobretudo, a estranheza era devida à impossibilidade de decidir onde se encontrava: se no seio da música de Bach, se no conforto do seu estúdio ou se no universo dos sonhos… Talvez estivesse nesses três universos em simultâneo. Era a alegria metafísica que o invadia, que o impulsionava a subir aquela escada de luminoso cristal que se erguia pelos céus em arcada, num majestoso arco-íris. O livro que tinha estado a ler, porém, não estava relacionado com tal visão. Embora não se saiba o conteúdo exato do mesmo, sabe-se que era de bioquímica. Com efeito, no campo dos sonhos onde evoluía, bailavam várias espirais caprichosas de proteínas, enroladas em torno de eixos invisíveis, em tons de vermelho, roxo, castanho e azul-escuro. Deslocavam-se, rodavam e pulsavam ao ritmo da música. Por vezes, aproximavam-se umas das outras, ou se afastavam como galáxias no Universo.


[Depois, mergulhou num torpor profundo e sua visão esfumou-se rapidamente.]



sábado, 14 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Salmo Primeiro



SONHO 4:               Salmo Primeiro, Coro de monges do mosteiro de Optina (Rússia)



Eles aqueciam-se como podiam ao calor da fogueira. Estavam no meio da estepe gelada. Outros fogos tremeluzentes se viam por todo o horizonte. Irkutz estava a onze vestras. O acampamento fora ordenado ao cair da noite. Em Setembro já mordia o frio do outono. De vez em quando, ao longe, ouvia-se o tropel dos cascos da cavalaria, que passava perto do nosso acampamento. Ouviam-se também vozes em surdina, dos soldados do regimento de infantaria nº16, em torno da fogueira. Nunca mais se calavam; falavam de tudo e de nada. Rompido de cansaço, acabei por adormecer. Um suave calor bafejava-me o rosto.
Não sei se foi sonho ou foi realidade; não sei se ela se deslocou por artes mágicas até ao acampamento ou se sempre lá estivera:
- O que sei é que o seu rosto estava lá, no meio dos meus companheiros de armas. Aquele rosto trigueiro e oval, com olhos de faiança e cabelos de seda. Vestia com modéstia, mas o seu porte era de uma princesa. Sua doçura e espontânea bonomia derretiam-nos a todos. Ninguém era insensível à beleza, no meio de tanta fealdade.
Vi o seu vulto levantar-se da roda da fogueira, com um movimento ondulante e flexível, erguendo-se no meio dos meus companheiros. Logo começou a entoar uma prece. Ela dizia o verso e o coro de homens respondia-lhe. As vozes entoavam os salmos num uníssono perfeito, tanto as dos velhos e ressequidos sargentos, como as dos jovens quase imberbes.
Tal era a perfeição, que me pareceu um encanto; era como se nada tivessem feito na vida, senão cantar a salmódia. Os versos eram espaçados por pausas. Nestas, o crepitar do fogo fazia-se ouvir. Maria estava no meio de todos nós, seus familiares, vizinhos, amigos.
Não havia ninguém que não conhecesse Maria; não havia soldado que ela ignorasse, a todos cumprimentava pelo patrónimo. Numa ocasião, vira como ela tratava de um ferido que tremia de febre - já nem conseguia segurar a colher ou a malga.
Senti-me feliz como nunca, nessa noite! Sabia que estava sob proteção dum anjo enviado pelo Senhor. Nem a morte eu temia!
Desde então, trilhei os caminhos da luz e da bondade, seguindo a Palavra, que ressoava na voz do povo.
Se foi sonho ou realidade, não sei. Para mim, isso é indiferente, pois a vida mudou-se totalmente a partir dessa noite.
Tive de sofrer muito; vi horrores, tive medo, frio, fome, fui ferido, bati o dente de febre, corri como um coelho diante da metralha. Esporei desesperadamente cavalos e cruzei ferro com inimigos ferozes, tão desesperados como eu. Percorri milhares de vestras em países distantes, sob climas tórridos ou gélidos. Sou o que sou, sem dúvida. Mas não tenho a arrogância de me considerar mestre de meu destino. A minha vida foi igual à de muitos homens, tão bons ou tão maus quanto eu. No entanto, sinto-me diferente. Tornei-me outro, a partir da noite da visão acima descrita. A simples evocação dessa noite, enche-me de suave júbilo. Iluminou vários momentos e episódios da minha jornada.
Meu último desejo é somente que alguém transcreva estas palavras. Ámen.


[Alexei transcreveu, 17 de Outubro, Ano da Graça de 1842]

Posted by Manuel Baptista at 14.5.16



sexta-feira, 13 de maio de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] Allemande da partita para flauta solo BWV 1013 de J.S. Bach


(Adormeço e vou de novo para o país dos sonhos.)


Agora estou à porta de uma casa, no campo. Esta casa parece-me muito familiar, porém, ao mesmo tempo, não sei onde estou.
É como se tivesse sido transportado de repente a um local onde já estive no passado, mas ao ignorar todo o caminho percorrido, tenho de tentar buscar na memória em que circunstâncias eu me encontrei em frente desta casa ou de outra semelhante a esta.
De repente, a porta principal abre-se e sai de lá um jovem apressado. Leva uma sacola a tiracolo; aparenta uns 20 e poucos anos… Ele não olha para o sítio onde me encontro. Está decidido, no passo largo, ligeiramente curvado, olhando fixamente o chão à sua frente. Que estará ele a pensar? Impossível saber!
- Embora eu nunca venha a saber nada mais do jovem, agora já sei onde e como eu vi esta casa pela primeira vez: …. Curiosamente, este jovem desconhecido permitiu-me situar-me no tempo. Num tempo muito diferente deste, embora as casas e as indumentárias fossem pouco diferentes do que se vê agora.
Sim, foi há uns quarenta anos e aquele jovem…sim, era eu!


[NO PAÍS DOS SONHOS] «Impromptu» em Lá bemol maior, Op.90 D.899, nº4 de Schubert


[O impromptu, como o nome o indica é, na origem, um improviso. Estes improvisos transcritos de Schubert têm o dom de, magicamente, nos restituir a atmosfera dos serões vienenses.
Não sei se este é o impromptu que melhor faz vibrar a corda sensível dos outros. Mas, certamente no que toca á minha pessoa, quando o oiço, é impossível não começar a sonhar acordado:]
- Sonho que estou sentado à lareira de uma casa burguesa, está uma primavera fria - neva lá fora. Uma jovem está ao piano, de costas para mim, com um xaile de lã axadrezada e executa com nonchalance este impromptu.

O professor, um jovem com uma casaca escura e gravata branca, de pé no lado esquerdo da executante, ligeiramente inclinado, segue a interpretação lendo a partitura, uma mão pronta, ao canto da mesma, para virar a página.