terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O MUNDO CARACOL

                    

O mundo-caracol (ou o mundo-concha) é aquela construção que emana de nós, que construímos camada após camada, sempre em espirais cada vez maiores, para nos defendermos, ocultarmos, explorando em segurança o nosso entorno. 
O mundo-caracol é autocentrado, é egocêntrico; não é sempre e necessariamente egoísta. 

Para torná-lo hermético, será possível fabricar um opérculo, uma pequena porta fechada, como os caracóis fazem quando vão estivar (o mesmo que hibernar mas no Estio, a estação da seca). 

Digo isto, porque opérculos fechados, é o que mais vemos por aí. Fala-se de epidemia de autismo. Eu falaria antes de epidemia de pequenos mundos auto-centrados, com pessoas completamente dobradas sobre si próprias, como o feto no útero.

Não me parece mal que se esteja auto-centrado, que se assuma o seu subjectivismo; mas todas as coisas têm  sua medida. 
O caracol - propriamente dito - tem natural curiosidade e necessidade de explorar o mundo. Arrasta consigo a carapaça que o protege. Pode retirar-se instantaneamente para dentro dela, tornando-se inexpugnável, pelo menos para predadores de dimensão não muito diferente dele. 
Estes caracóis naturais são saudáveis, porque optimizaram duas condições essenciais da sua sobrevivência: exploração do meio e defesa contra predadores. 

As pessoas que se posicionam sempre como os caracóis em período de seca, que constantemente se fecham, podem não ter consciência disso, como nós não temos consciência de que estamos mergulhados na atmosfera. Porém, o seu auto-centramento extremo significa que não estarão capazes de uma abertura ao exterior, equilibrada e saudável.

Para satisfazer a necessidade de protecção,  totalmente natural e legítima, que todos os seres vivos possuem, o que se pode então fazer? 
- Ela deve ser encontrada na sociedade, na comunidade com os outros, com a família, com os colegas, com os amigos. 
Sem uma teia de relacionamento social, que nos sustenta do ponto de vista emocional e mesmo material, todo o indivíduo tende a ser como o caracol no Estio: fechado hermeticamente sobre si próprio em posição fetal, sem interacção com o entorno.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

UM PAÍS DE OPERETA ...mas eu não PESCO!

Após o escândalo da IPSS (Instituição Pública de Solidariedade Social) «Raríssima» rebentar, veio-se a saber que o ministro Vieira da Silva ...

             

... foi vice-presidente da assembleia geral da associação, que tinha como missão apoiar a investigação e tratamento de doenças raras, cujo financiamento -público e privado - tem sido descurado. Muito boa intenção, só que esta intenção serviu como capa para uma vida de luxo e de privilégio da presidente da IPSS, Paula Brito Costa. 

        Foto de Alfredo Barroso.


Tudo o que um ministro nestas circunstâncias deveria ter feito, mesmo tendo ordenado um inquérito a todos os aspetos suspeitos da gestão desta associação, era - no mínimo e logo de seguida -demitir-se:
- Pois se ele estivera, porventura com a maior das boas intenções, associado aos corpos gerentes desta IPSS, o inquérito que ordenou está - à partida - sob suspeita caso ele continue a ser o ministro da tutela que ordenou este mesmo inquérito.
- A segunda questão é a de que qualquer pessoa de bem, se está envolvida num escândalo deste género, ao demitir-se de uma posição de poder poderá ser sujeita a inquérito, a ser questionada como arguido, inclusive, pois quem não deve não teme. Mas neste país de opereta, não se pode sequer imaginar que isto aconteça. São os poderosos a escudarem-se nas suas imunidades para fugirem a que as suas ações passadas sejam inquiridas. Ora, quem não deve, não teme! Por isso, qualquer pessoa de consciência tranquila, que tenha um cargo de responsabilidade e que esse cargo confira imunidade a inquérito em caso de investigação criminal, como é o caso, deve - em boa ética - demitir-se desse cargo.
É nestas «pequenas» coisas que se vê que a política em Portugal é simplesmente a de um país neo-colonial, onde os verdadeiros donos «disto tudo» se estão nas tintas para a «honra» dos que eles comandam na sombra. São como os bonecreiros que comandam marionetas articuladas com fios; não têm que se ralar com a integridade moral das marionetas que manipulam por detrás do pano.

Para cúmulo, no mesmo dia, venho a saber que o país foi metido à má fila numa estrutura militar criada no âmbito da UE, sem discussão de qualquer espécie, nem sequer a nível parlamentar, tendo o governo «desprezado» anunciar ao país que Portugal era agora membro do PESCO. 
Ou seja: a vocação deles - governo, primeiro-ministro, presidente da república - é de baixar a cerviz aos poderes que comandam a UE, de facto, ou seja ao dueto franco-alemão (Macron/Merkel)... Isso é suficiente, na mentalidade deles. 
Para quê esclarecer os «parolos», eles até votam segundo a cor dos emblemas ou da aparência física ou da simpatia e calor humano que eles simulam em «banhos de povo»... 

Nunca se viu tanta sobranceria face ao povo, tanta servilidade face aos poderes estrangeiros, tanta gula, tanta corrupção, tanta cobardia... 
Mas isto que importa??? Não importa nada! «Portugal»  (na verdade a sua «elite política e económica» ou seja, a casta oligárquica e mafiosa que nos desgoverna) é o  eterno «bom aluno», o eterno colonizado pelos mais «desenvolvidos», agradece humilde e ainda pede por mais...por outro lado, o «bom povo português» continua alheado de tudo, incapaz de compreender devido à lavagem ao cérebro permanente da media corporativa, espalhando incultura total em termos cívicos. 

A situação é mantida em proveito exclusivo da casta parasitária de cavalheiros e damas ... raríssimas!!!!!!!!!!!

SOMOS TOLERANTES? EM QUE SENTIDO?

Quando se invoca a tolerância, não é certo que estejamos todos a falar da mesma coisa; ou que uma equivale à outra.
Detalhando:

1) A tolerância, entendida do ponto de vista do poder, é a atitude daquele que pode sancionar, mas que prefere não agir, porque a conduta a sancionar não põe em causa o seu próprio poder.  
Perante os súbditos, pode capitalizar este «espírito de tolerância», que afinal não é senão uma táctica, pois se as coisas começarem a tornar-se ameaçadoras para o seu poder, então já não hesitará em aplicar a sanção. 

2) A tolerância que consiste em dar o benefício da dúvida aos opositores, mesmo quando estes se opõem às nossas convicções mais profundas. Somos tolerantes, se aceitamos que as nossas convicções por muito legítimas que sejam, não o são mais do que as convicções dos outros. 

Em termos mais profundos, este termo recobre duas concepções muito distantes do mundo e da forma em lidar com ele: 

- No primeiro caso, está-se na órbita do mundo do poder, dos que avaliam tudo e todos em termos de poder, de «estar por cima...»

- No segundo, procura-se a equidade, confia-se no ser humano. Quem adopta tal postura não pretende ser «aquele que sabe»... Pelo contrário, mantém abertura para a perspectiva do(s) outro(s), sem necessitar de deitar pela borda fora a sua própria perspectiva.

domingo, 10 de dezembro de 2017

JERUSALÉM TEM DE SER PROMESSA DE PAZ UNIVERSAL, NÃO DE GUERRAS DE RELIGIÕES OU «RAÇAS»

JERUSALÉM - CONCERTO DE JORDI SAVALL EM 2011 



As três grandes religiões monoteístas, no Ocidente, produziram um caldo de cultura que é, hoje, a Europa, juntamente com a herança grega. Foi essa cultura que se disseminou por toda a bacia mediterrânea, durante séculos. Nem sempre foram relações fáceis, mas esquecemos que - nos intervalos das cruzadas, conquistas e guerras de religião diversas - houve períodos de cruzamento genético, cultural, civilizacional. 
É isso que faz com que  esta zona do Mundo seja tão especial.

O Estatuto de Jerusalém está estabelecido desde 1950, pela ONU, como Cidade Santa, de facto não pertença de um Estado, embora esteja situada no território de Israel-Palestina. É a Jerusalém celeste e terrestre. 

O facto de Israel pretender transferir a sua capital para Jerusalém é visto em TODO o mundo como uma violação ostensiva do frágil equilíbrio e de querer acabar com uma luz de esperança que ainda luzia no olhar das gentes dessa região e da «diáspora» palestiniana. 

A intenção proclamada de transferir a embaixada dos EUA junto de Israel, para Jerusalém e a declaração reconhecendo esta cidade como capital do Estado de Israel, vem contrariar toda a tradição diplomática dos EUA como mediador «neutral» no pós-Segunda Guerra Mundial. 

O que fez o seu presidente, Donald Trump, explica-se segundo Paul Craig Roberts, pela política interna dos EUA. Trump, assediado com casos fabricados contra ele para o controlar, como o «Russiagate» e outros escândalos fabricados, decidiu jogar a carta do apoio incondicional ao Estado de Israel, assim tendo a seu  lado o poderoso lóbi pró-sionista, o qual inclui não apenas a AIPAC (uma poderosa associação de amizade com Israel), como também Igrejas Evangélicas (não todas, apenas uma parte), que sonham com uma unificação da religião Judaica com a Cristã, no fim dos tempos, que - segundo eles - está próximo. São estes lóbis que - nos EUA - decidem da eleição ou não de deputados, senadores e presidentes...

Porém, o problema é simples de enunciar, embora muito complexo na sua resolução:

- Aquando da Declaração Balfour (1917) criou-se uma situação explosiva, pois se sobrepôs uma legitimidade «histórica» a outra, aliás não menos histórica, decorrente dos séculos de ocupação otomana. O Mundo estava um caos, mergulhado na 1ª Guerra Mundial; as pessoas não deram importância ou apenas viram um lado do problema.

- Actualmente, isto resultou (em 1947) num Estado - Israel - cujas leis e princípios constitucionais discriminam com base na religião e na etnia. Isto está em contradição com os princípios proclamados da ONU, da qual este Estado é membro (situação criada pelo Conselho de Segurança da ONU dessa época, que incluia a URSS).

- Os espoliados e sobreviventes dos diversos episódios sangrentos desde a independência de Israel não podem aceitar as promessas não cumpridas. 
São levados a cometer - por vezes - actos de desespero, vendo que a injustiça de que são vítimas não suscita mais do que «lágrimas de crocodilo» dos EUA, dos ex-poderes coloniais na região (França e Inglaterra; veja-se o acordo secreto Sykes-Picot) e das diplomacias mundiais.

- A paz na zona precisa do contributo das três grandes religiões monoteístas, entendidas enquanto diversas formas de prestar culto a Deus. 
Estas têm de ser a inspiração dos poderes seculares, evitando a exaltação de «razões» religiosas, étnicas, históricas, ou outras, para continuar a manter reféns, numa guerra sem fim, tanto os povos de Israel-Palestina, como de todo o Médio Oriente. 

Só quando houver uma paz verdadeira e justa em Jerusalém, o resto do Mundo poderá ter também condições para viver em paz.


sábado, 9 de dezembro de 2017

A CRENÇA E A CIÊNCIA: CASO DO AQUECIMENTO CLIMÁTICO

Vejam AQUI a curta e esclarecedora resposta de M. Armstrong a um crente do aquecimento climático antropogénico. 


MUDANÇAS CLIMÁTICAS SIM, CLARO... HOUVE CONSTANTEMENTE, AO LONGO DE TODA A HISTÓRIA GEOLÓGICA... 

Se existe algum consenso, é SOMENTE em torno da afirmação acima!

          global-warming-cyclical
Se quiseres saber as causas de complexos fenómenos, como a evolução climática, então terás de estudar muitos aspectos; não é apenas compreender a fundo o efeito de estufa - é preciso ainda mais! 
Tens de compreender fenómenos físicos complexos, mas igualmente a biologia evolutiva, a geologia, a astronomia. 

Confesso que fico estarrecido com toda a prosápia dos que afirmam a validade INQUESTIONÁVEL de uma teoria, a do aquecimento antropogénico do clima.
Eu imagino que - se estivéssemos no século XVI, ou lá próximo - a questão  já estaria resolvida; acendiam umas fogueiras e queimavam os hereges, os que se atrevessem a pôr em dúvida o «veredicto inapelável» da ciência oficial.

A CIÊNCIA NÃO É, NEM NUNCA FOI, A IMPOSIÇÃO DE TEORIAS DITAS «CONSENSUAIS» ENTRE CIENTISTAS:

- FOI E CONTINUA A SER UM ESPAÇO DE DEBATE TEÓRICO E PRÁTICO SOBRE AS EVIDÊNCIAS E AS METODOLOGIAS QUE SE APLICAM. TUDO O RESTO, É DOGMATISMO E/OU DEMAGOGIA. 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ONTEM JÁ SE FOI; MAS O AMANHÃ DEMORA A CHEGAR

Foto de Madura 55.




Vem este título a propósito do excelente «happening comunitário», evocando as cheias de 1967, a peça «A lama nos bolsos», apresentada ontém, no teatro municipal Amélia Rey Colaço de Algés, em récita única (?).

Excelente trabalho colectivo da equipa, sobretudo de amadores, que actuou nesta peça e que pacientemente a montou, durante meses.

Curiosamente eu, com 13 anos na altura das cheias de 1967, tinha memórias desse acontecimento, mas não da dimensão trágica do mesmo. 

Reflectindo hoje sobre o espectáculo que vi, veio-me a reflexão seguinte: 
- As  mais importantes mudanças que ocorreram nesta sociedade não são as mais visíveis, são as mudanças subterrâneas.

Digo isto porque as pessoas concretas, as comunidades, não esquecem as tragédias passadas e organizaram este evento de memória, em solidariedade para com as vítimas dos incêndios mortíferos e devastadores deste verão e outono, em Portugal.

            

              um grande obrigado musical à mulheres e homens, que construíram este espectáculo




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O FÉTICHE DO «HOMEM CIVILIZADO»

O fétiche do homem civilizado é o dinheiro. Mas esse deus é muito ciumento do culto que os homens lhe prestam. Não deixa que outros deuses, que já foram grandes, voltem a invadir o domínio cognitivo-mental do homem, desviando-o do seu culto, da sua sacralização.
  
Nos finais do século XIX, a Arte surgiu - por breves instantes-  como deusa adorável: «A Arte pela Arte»... Porém, num contexto em que a deusa Fortuna tinha entreaberto - só um mínimo, é certo - aos artistas, a sua cornucópia. 

                                        Gustave MOREAU : Oedipe et le Sphinx 186

Depois, substituiu-se a Arte pela deusa Fortuna, revestida porém das aparências daquela antiga deusa, que destronara.

O mesmo processo geral, embora por caminhos diversos, pode ser retraçado observando  outros ícones/deuses: 
A Beleza feminina deixa de ser o reflexo/imagem da Natureza ou de Deus no mundo; deixa de ser a excelência da Criação

                         

Passa a ser sinónimo do deus dinheiro, pois - nos dias de hoje - com «estéticas», maquilhagem, roupa de estilista e umas aulas de modelo, qualquer mulher jovem pode desfilar nas «passerelles», ou seja, vender sua imagem como chamariz para uma marca de luxo... Sempre a adoração ao deus dinheiro.

Poderia continuar, num sem-número de exemplos, falando da religião, da família, da moral, da ética, da política, etc.
Deixo ao leitor o cuidado de preencher as minhas lacunas. Realmente, meu intuito aqui é outro; pretendo reflectir e deixar um aviso sobre o deus dinheiro. 
A extensão do seu poder é bem maior do que se julga, como se pode verificar pelo seguinte:  os mais assíduos cultores do deus dinheiro são ... quem menos se espera. Refiro-me aos que dizem detestá-lo, mas lhe prestam um culto secreto. Rancorosos, são difusores de uma «moral» da inveja e da vingança. 
São homens desses que, caso tomem o poder, com a maior das boas consciências, irão expropriar ricos e pobres dos seus bens, de suas propriedades e até da sua vida.  

Julgará o leitor que eu penso que não existe nenhuma pessoa sincera, que realmente não preste culto ao dinheiro? Sem dúvida que sim, que existem tais pessoas! Mas essas tais pessoas não podem (ninguém pode, aliás) ser «servas de dois Senhores». 


                                     

Leonardo da Vinci, pintou (?) o «Salvador do Mundo» ou seja, representou «O Homem, Filho de Deus, senhor todo poderoso do Universo». 

Não sei se este quadro é falso ou não (até pode ser atribuído a Da Vinci e ser de um discípulo seu); não sei quem foi o ricaço que  o adquiriu no leilão da Christie's, pela soma de 450 milhões de dólares. Sim, leu bem, não é erro da minha parte! 

Isto é - antes de mais - muito simbólico: o deus dinheiro tomando posse dos deuses da arte, da beleza, da sabedoria e do génio. 
É simbólico de muitas maneiras, porque o dinheiro é um símbolo, a arte é altamente simbólica,  também devido ao estarrecedor montante da compra e de ser num leilão, supra-sumo do culto ao dinheiro...

Mas, pouco tempo depois da transacção - suprema ironia - o referido deus dinheiro começa a perder o seu valor, vai encolhendo, retraindo-se, até não valer virtualmente nada! 
- Nessa altura, ficarão arruinados muitos magnates que compram obras de arte na Christie's. Perante uma crise sistémica, ficará destruída quase toda a riqueza, pequena ou grande, pública ou privada: Muita gente irá sofrer, a maioria das pessoas, sejam elas das classes média ou pobre! 
Nessa altura os adoradores do deus dinheiro (ricos e pobres) ficarão enraivecidos e haverá muito sangue e destruição.

- Será o prenúncio duma crise cataclísmica
- Alguns pensam que sim. É certo que se acumulam sinais de que o sistema monetário mundial se dirige para uma transformação profunda. 
Pensa-se que não ocorrerá apenas mais uma crise cíclica habitual daquelas típicas do capitalismo. 

Mas não sou profeta, não sei o que o amanhã irá trazer.