segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

«INTERROGAÇÃO» E «PAISAGENS DE INVERNO» - Camilo Pessanha




Interrogação


Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
 Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo; 
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar 
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo. 

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito. 

E nunca te escrevi nenhuns versos românticos. 
Nem depois de acordar te procurei no leito 
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos. 

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo 

A tua cor sadia, o teu sorriso terno... 
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso 
Que me penetra bem, como este sol de Inverno. 

Passo contigo a tarde e sempre sem receio 

Da luz crepuscular, que enerva, que provoca. 
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio 
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca. 

Eu não sei se é amor. Será talvez começo... 

Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço, 
Que adoecia talvez de te saber doente.



       

Paisagens de Inverno



Ó meu coração, torna para trás. 
Onde vais a correr, desatinado? 
Meus olhos incendidos que o pecado 
Queimou! o sol! Volvei, noites de paz. 

Vergam da neve os olmos dos caminhos. 
A cinza arrefeceu sobre o brasido. 
Noites da serra, o casebre transido... 
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.
 
Extintas primaveras evocai-as: 
- Já vai florir o pomar das maceiras. 
Hemos de enfeitar os chapéus de maias.
 
- Sossegai, esfriai, olhos febris. 
- E hemos de ir cantar nas derradeiras 
Ladainhas...Doces vozes senis...
 

II 

Passou o outono já, já torna o frio... 
- Outono de seu riso magoado. 
llgido inverno! Oblíquo o sol, gelado... 
- O sol, e as águas límpidas do rio. 

Águas claras do rio! Águas do rio, 
Fugindo sob o meu olhar cansado, 
Para onde me levais meu vão cuidado? 
Aonde vais, meu coração vazio? 

Ficai, cabelos dela, flutuando, 
E, debaixo das águas fugidias, 
Os seus olhos abertos e cismando... 

Onde ides a correr, melancolias? 
- E, refractadas, longamente ondeando, 
As suas mãos translúcidas e frias... 


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra' 

A música, intrínseca aos versos do nosso maior poeta do início do século XX, ecoa fluída e límpida, na sua aparente espontaneidade.
Haverá algum compositor que já tenha escrito partituras musicais sobre estes mesmos versos? 

Autógrafo de paisagens de inverno:


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domingo, 14 de janeiro de 2018

FALSO ALERTA DE ATAQUE NUCLEAR PÕE O HAWAI EM PÂNICO

Esta insólita notícia, causando uma onda de pânico no público em Hawai, terá sido propositada, não acreditemos nem num instante que foi um «erro humano»!

                            ‘Won’t happen again’: Hawaii officials apologize, blame missile warning fiasco on ‘human error’

Digo isto, porque as forças do «Estado profundo» estão apostadas em criar e alimentar uma psicose de pânico coletiva, pelo suposto risco de um míssil nuclear norte-coreano atingir o Hawai ou as costas dos EUA. 

Em geral, os vários componentes do «Estado profundo» (CIA, NSA, Pentágono, etc.) que manipulam os governos,  dispõem de acesso aos meios de controlo dos dispositivos de alerta, incluindo os que permitem desencadear, quase automaticamente, um ataque nuclear, em resposta ou não a um ataque sofrido ou duma ameaça - real ou suposta - dum ataque desses. 
Ao fazerem «um teste», como eles disseram na atabalhoada justificação do incidente, deixaram que alguém tivesse (por «engano», claro) premido o dispositivo de alerta real e não o do suposto teste. Mas, de facto, o que eles queriam testar era a resposta do público a um alerta, tendo-o efetuado, sem nenhum escrúpulo, com pessoas reais, fazendo de «cobaias», uma população indefesa e desorientada ... mas indefesa perante os seus próprios poderes e desorientada pela intencional mentira dos mesmos! 
Porém, tudo tem um lado positivo. Graças ao «falso» alerta ficamos a saber que um míssil disparado da Coreia do Norte levaria 20 minutos a chegar ao Hawai. Tal deve-nos fazer refletir como seria a mesma situação se um míssil ou uma bateria deles, fosse disparada pelos americanos e forças da NATO, de algures na fronteira  com a Rússia, desde a Polónia, a Ucrânia ou a Roménia, num ataque relâmpago dirigido a Moscovo e outras grandes cidades russas? Quantos minutos haveria para verificar que se trata de um alerta falso? Eu calculo que não chegariam a 5 minutos! Então vemos a criminalidade desta colocação de armamento com capacidade nuclear mesmo às portas da Rússia, pois terá um efeito não dissuasor sobre a mesma, mas antes o contrário: com efeito, se nos colocarmos na perspetiva dos dirigentes russos, qual a garantia de que UM ALARME FALSO, é mesmo FALSO?  Não têm eles imensos exemplos de que os ocidentais não cumprem NUNCA uma promessa? Não se lembrarão eles do que foi PROMETIDO A GORBACHOV em troca deste deixar sem intervenção soviética que a reunificação alemã prosseguisse e o pacto de Varsóvia se desfizesse? 
Que garantias têm os dirigentes políticos e militares máximos da Rússia de que tal ataque não se realize, assim, sem mais nem menos? Pois... nenhuma, visto que, desde há uma década e meia, a doutrina militar oficial dos EUA pressupõe que uma primeira utilização de um ataque nuclear seria uma estratégia aceitável, pois, supostamente, deixaria a parte adversária sem capacidade de resposta. 
É esta loucura que Paul Craig Roberts e outros corajosos e verdadeiros patriotas americanos têm vindo a denunciar. 
Talvez a Coreia do Norte tenha uma vaga hipótese de atingir, com um míssil, o Hawai ou mesmo o continente americano; porém, seria um ataque suicidário. 
A haver um tal lançamento, este seria detetado por satélites espiões no seu ponto de origem, visto que o disparo do míssil seria imediatamente denunciado pelos detetores de infravermelhos dos satélites e o trajeto do mesmo calculado de forma precisa, nos primeiros segundos, graças aos supercomputadores situados algures em bases subterrâneas nos EUA. 
O que me assusta é a possibilidade de um «falso falso alarme», como pretexto para desencadear um criminoso e cobarde ataque à Coreia do Norte. 
Esta hipótese deve fazer abrir os olhos do público na Coreia do Sul e fazer com que ele perca as ilusões em relação aos americanos, que ainda existam. 
Se os coreanos querem ver a sua nação lentamente morrer dos efeitos da radiação causada por um ataque surpresa nuclear à Coreia do Norte, não precisam de fazer mais do que provocar uma subida de tensão na guerra assimétrica do vizinho do norte, contra a maior super potência, os EUA. 
Uma guerra na península da Coreia é por definição criminosa, mas mais ainda o será, porque - num momento ou noutro - uma vez desencadeada, se transformará em guerra nuclear. 
O poder político de Washington e os estrategas do Pentágono sabem que têm como alvo a população indefesa da Coreia. Toda ela -do Sul ou Norte- é refém, não haverá grande vantagem em estar-se na parte sul da península coreana, se houver um ataque nuclear dirigido ao norte.

Somente um programa mundial de desnuclearização, levado a cabo pelas potências nucleares (EUA, China, Rússia, França, Grã-Bretanha, Paquistão, Índia, Israel, Coreia do Norte) sob os auspícios da ONU, poderia fazer sentido, porém os mercadores de morte, os construtores das armas e - em particular - das armas de destruição massiva, não teriam mais lucros e são eles que puxam os cordelinhos (ainda) dos governos, muito em particular nos EUA, obrigando a corrida aos armamentos a prosseguir sem fim à vista. 

Não compreendo como se possa ainda admirar os dirigentes políticos daqueles países com armas nucleares, sendo certo que estes sabem bem os riscos que estão a fazer correr ao Planeta inteiro e às suas próprias populações!

sábado, 13 de janeiro de 2018

O JEJUM TERAPÊUTICO DESDE A ANTIGUIDADE ATÉ HOJE

Um documentário ARTE de grande qualidade. 
O jejuar é uma das formas tradicionais de higiene pessoal, prescrita pelas religiões. 
Como forma de purificação, pode ser levada a cabo por motivos espirituais, mas pode também ser adotada, independentemente de qualquer obediência religiosa ou ideológica.

Já Hipócrates afirmava que o repouso e o jejum são os melhores tratamentos para manter e recuperar a saúde.
Como método, é muito natural: nós fazemos jejum desde a última refeição do dia, até ao dia seguinte. Breakfast, déjeuner significam a mesma coisa: literalmente, é quebrar o jejum.

O homem primitivo estava adaptado a jejuar periodicamente. Pela natureza do seu modo de vida, vivia na escassez, a maior parte do tempo. Foi assim que viveu o homem paleolítico, da caça-recoleta, durante cerca de 200 mil anos, desde o aparecimento da espécie Homo sapiens, até há uns 12 mil anos atrás com a transição para a agricultura e a pastorícia, a revolução neolítica. 
A nossa anatomia e fisiologia «lembra-se» dessa época e armazena energia com grande eficácia, gere o consumo dessa reserva de energia de modo muito prudente, mas tudo isso como se nós ainda estivéssemos sujeitos a episódios de fome, a falta crónica ou aguda de alimento. Mas na nossa civilização, não é normalmente difícil de saciar a fome, pelo contrário, tudo incita a um sobre consumo de alimentos. 
Os jovens são condicionados a comerem muitas vezes por dia; a sua dieta é muito energética e isso pode ser causador de obesidade, caso eles não tenham um consumo de energia devido a atividades físicas como se espera que crianças e jovens tenham. Simplesmente, são incentivados a não gastarem a sua energia, a permanecer sedentários, devido à própria forma de organização da sociedade, desde as creches, jardins de infância, escola, casa, todos os locais onde a criança é mantida preferencialmente «tranquila», com um brinquedo ou um jogo-vídeo, no seu cantinho.

Experimentei uma restrição alimentar num episódio de gripe recente e creio que isso, junto com o repouso, ajudou a superar a infeção. Porém, o meu estado de saúde geral melhorou, para além da cura da gripe. Deixei de estar sujeito a certas pequenas afeções, como cefaleias, rinite alérgica, ligeira hipertensão, etc...
Comecei a limitar intencionalmente a ingestão de comida, estendendo o jejum «natural» do ciclo dia/noite, para cerca de 16 horas (das 16 h. de um dia até às 8 h. do dia seguinte). 
É suportável, apesar de inicialmente o nosso organismo estar sujeito a um ciclo de estímulo hormonal (níveis da grelina). Com o tempo, ele habitua-se; o relógio hormonal já não antecipa a hora de jantar.
As defesas imunitárias aumentam; o organismo interpreta a restrição alimentar como uma situação de stress. Ativam-se as respostas ao stress, incluindo a capacidade do sistema imunitário em combater os agentes patogénicos. 

Nós estamos agora, apesar da indústria farmacêutica e da medicina convencional, a redescobrir a profunda sabedoria de comportamentos e de modos de vida recomendados desde há milénios, que foram codificados nas grandes religiões. 
Muitas doenças são reconhecidas como doenças de civilização e/ou iatrogénicas (causadas ou agravadas pela intervenção médica); a diabetes, a obesidade, o cancro, as alergias, etc. estão em crescimento. Porém, as formas mais eficazes de combater estes males passam por uma mudança de atitude fundamental. Várias terapias tradicionais (adaptadas), como o jejum terapêutico, seriam muito mais adequadas e poderiam, em muitos casos, ser aplicadas de forma preventiva, para fortalecer os mecanismos naturais de defesa.



                   https://www.youtube.com/watch?time_continue=2739&v=JhCWqlJ7uk0

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

CONCERTO PARA VIOLINO DE BEETHOVEN INTERPRETADO POR MAXIM VENGEROV

A interpretação perfeita para uma grande obra do reportório de violino.






Maxim Vengerov plays Beethoven Violin Concerto in D major op. 61



14th International Henryk Wieniawski Violin Competition: Special Concert of Maxim Vengerov: 'And yet he will play!' Poznań, 23 October 2011 Venue: A. Mickiewicz University Auditorium TV Production / Realizacja telewizyjna: Robert Ćwikliński Maxim Vengerov -- violin Poznań Philharmonic Orchestra conducted by Marek Pijarowski J. Massenet - Meditation from opera "Thais" (encore)


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

MEDICINAS ALTERNATIVAS E HUMANISMO

A HOMEOPATIA E RICHARD DAWKINS 

DAMÁSIO E A ESTRANHA ORDEM DAS COISAS  

Existe um fascínio, hoje em dia, que é muito bem explorado e publicitado, para tudo o que é «medicina alternativa», ou seja, afinal o quê?

Nós sabemos que a Medicina foi sendo codificada, ao longo do tempo, assim como a sua prática foi sendo regulamentada, de modo cada vez mais estrito. 
Os futuros médicos foram sujeitos a uma formação académica cada vez mais diversificada e rigorosa nos requisitos científicos, ao ponto de que, cada vez mais, a figura do médico se confunde com a dum «cientista», que passa os seus dias fechado no laboratório a fazer pesquisa.
Esta imagem ingénua é mais difundida do que se pensa. As pessoas continuam a ter uma veneração muito especial pelos que dispensam a «cura», como nos tempos dos alquimistas, que infestavam as cortes e propunham a monarcas e súbditos pseudo-curas, a começar pela «cura de juventude»... os famosos elixires que tinham essa propriedade mágica do rejuvenescimento. A transmutação dos metais como o chumbo em ouro, era apenas uma forma de confirmar o poder mágico dos alquimistas, detentores da «pedra filosofal», que tudo curava.

                                     

Em relação à homeopatia, vale a pena ver e ouvir este pequeno vídeo acima, realizado por Richard Dawkins, um autor que - com certeza - tem ideias bem definidas sobre o que seja ciência e racionalidade. Dawkins tem a coragem de questionar as suas próprias convicções, de ir buscar argumentos que dêem razão à parte contrária. Não é neutro, pois é impossível ser-se neutro neste domínio. 
Se, efectivamente, a homeopatia for uma pseudo-ciência, anda-se a vender uma falsa esperança a milhões de pessoas, anda-se a desviar também recursos escassos (não apenas dinheiro, como meios técnicos e humanos consideráveis), à conta do contribuinte!  

Na verdade, estou interessado em procurar um caminho de empatia, quer para com os pacientes, quer para com os terapeutas, especialistas em terapias ditas «alternativas». 

Isto, porque acredito na eficácia do efeito sobre o paciente da convicção do terapeuta; do facto do paciente compreender que o terapeuta é uma pessoa com grande desejo de ajudar, que se preocupa em ouvir o paciente, que o examina com cuidado, etc. 

Se, por cima deste efeito de empatia, temos um efeito concreto das terapias ensaiadas ou não, é algo que pode ser sujeito a teste, a verificações objectivas, tratadas estatisticamente, para se verificar se, sim ou não, existe um mecanismo bioquímico ou biofísico no paciente que o conduz à cura, ou à regressão dos sintomas. 
Foi o que vários estudos tentaram fazer, mas os resultados destas avaliações são ambíguos, não esclarecem de facto, ao contrário do que  Dawkins diz no referido vídeo.

O complexo da questão reside no facto de estarmos perante um ser que sente e pensa, o paciente, o qual tem uma psique, que exerce um poderoso efeito sobre o «corpo» ou a «soma»: os efeitos psicossomáticos são muitos e complexos. Aliás, têm sido estudados muito a sério pela medicina e psicologia. 

O efeito placebo, nomeadamente, é tão importante, que os estudos para testar a eficácia terapêutica de qualquer medicamento, antes de ser aprovado, obrigatoriamente têm de incluir ensaios-controlo, em que todas as variáveis são iguais, excepto que a substância supostamente terapêutica, é substituída por algo inócuo, «um placebo», que não tem nenhuma acção curativa da doença, mas que também não afecta os voluntários. 
Assim, grande parte da melhoria observada nestes sujeitos é apenas devida a um efeito psíquico, o «efeito placebo»: o indivíduo, convencido de que está a tomar algo que terá efeitos positivos, tende a melhorar significativamente. 
Há um mecanismo misterioso e complexo que se põe em marcha, que fortalece as defesas endógenas do organismo, melhora o funcionamento dos órgãos, numa série de retro-controlos que se exercem, numa escala de complexidade impossível de se analisar. Impossível, porque não faz sentido fragmentar um todo, que é o ser, o indivíduo, com a psique unida ao corpo.

Agora, o que me parece cardeal é tirar a lição razoável das medicinas alternativas. 
Em vez de procurar denegrir/deslegitimar/ilegalizar algo que tem marcados efeitos benéficos em certos indivíduos, pelo menos, os médicos convencionais deveriam aprender dos terapeutas «alternativos», as formas mais atenciosas, mais pessoalizadas, do trato com o paciente.                                                  
Eu acredito que o paciente irá fazer muito caso das prescrições  e recomendações terapêuticas que o médico (convencional ou «alternativo») fizer, se e somente se plenamente convencido de que o terapeuta é uma pessoa realmente idónea, empenhada, que deseja sinceramente ajudar. 
Se o médico ou terapeuta se mostra apressado, distraído, ausente, nervoso, impaciente... o que estamos à espera? 
- Qualquer pessoa sensível irá sentir-se diminuída, na sua própria essência, sentirá que, ou se «submete» ao tratamento que não é questionável, ou então abandona. Muitos fracassos terapêuticos têm mais que ver com a falta de convicção do paciente do que com outros aspectos. 

As pessoas deveriam - de forma acessível ao seu nível de compreensão dos conceitos da biologia - receber uma explicação honesta das razões porque se fez um determinado diagnóstico, porque se segue um determinado tratamento. 
Há que convencer, que fazer com que o paciente assuma a sua quota-parte de responsabilidade, não no mero sentido do médico se descartar, para o caso de as coisas correrem mal, mas no sentido da cura ou melhoria ser comparticipada pelo paciente.
É evidente para mim que, se o paciente tiver a compreensão das causas da enfermidade e dos meios de sua superação, ele irá participar, conscientemente e também com o seu sub-consciente, no processo de cura. 
A terapêutica, seja ela qual for, terá maior eficácia, desta forma. Pois, só assim poderá conseguir mobilizar o organismo a operar internamente as transformações que conduzirão à derrota dos factores patogénicos. De facto, é assim que a terapêutica pode ir ao encontro do ser profundo; é assim que ambos se aliam, se conjugam e harmonizam. Quer a doença seja causada por factores intrínsecos ao indivíduo, ou por agentes externos, ele vai produzir moléculas que interferem com os agentes patogénicos. 

Sabemos como é complexo o mecanismo da imunidade, a vários níveis. Sabemos como são complexas e subtis as regulações homeostáticas  nos seres vivos, dos mais elementares (bactérias), aos mais complexos (humanos).

                                                   Bertrand.pt - A Estranha Ordem das Coisas

António Damásio produziu um belíssimo ensaio, cuja leitura aconselho a todos: «A estranha ordem das coisas». 
No decurso da sua leitura pude reafirmar ou fundamentar melhor as minhas convicções de longa data, como biólogo e como apaixonado da ciência da evolução. Foi uma ocasião para eu reflectir sobre conceitos biológicos que nos apresenta este autor, sob forma inteligível, incluindo as surpreendentes formas que a vida inventou para conseguir alcançar seus objectivos. Refiro, nomeadamente, os conceitos de sentimento, de autonomia, de homeostase, e muitos outros. É verdade, trata-se de uma «estranha ordem», quer para leigos, quer para estudiosos de biologia.

Se os princípios da homeoestasia, da simbiose e da empatia tomam cada vez maior importância na ciência de hoje, como parece ser o caso, tenho esperança de que algo se passe ao nível da relação das pessoas com a sua saúde, em geral. 
Tenho esperança que as pessoas assumam as suas responsabilidades na manutenção do equilíbrio corpo-espírito e que tomem parte activa na recuperação deste equilíbrio, quando caem doentes. 
Haverá maior preocupação na sociedade, em seguir os princípios da sabedoria? Assumiremos cuidar de nós próprios e dos outros, com verdadeiro amor?
Da parte dos profissionais de saúde, espero que haja mais humildade, maior respeito pela natureza. Esta é tão mais sábia, tão mais subtil nos seus fenómenos e processos, do que os saberes e técnicas, disponíveis ao nível médico-científico! 
Maior humanismo também, se deveria esperar de todos os agentes de saúde, médicos ou não, não esquecendo nunca que o paciente é um ser humano, digno da maior consideração.
  

JOAN MIRÓ - EXPOSIÇÃO DE COLECÇÃO DO ESTADO PORTUGUÊS

A história atribulada desta magnífica colecção de obras de Miró, um dos nomes mais relevantes da arte do século XX é conhecida:
O Banco BPN entrou em insolvência, o Estado Português tomou o controlo do banco (nacionalizou-o) e assumiu o passivo do mesmo, à custa do contribuinte. Este banco possuía uma colecção de arte notável,  a qual tinha gerido como um investimento, que guardava longe do público, sendo o seu valor comercial avaliado em muitas centenas de milhares de euros. O Estado, ele próprio falido e pressionado pela «troika», há dois anos atrás não hesitou em colocar esta colecção de arte em leilão na Christie's. Porém, várias vozes de intelectuais e artistas se rebelaram pois estavam conscientes da importância deste património público, que poderia ser valorizado culturalmente. Houve gente saloia que se insurgiu contra a conservação desta colecção do artista catalão em mãos do Estado, pois achavam que - não sendo sequer um artista português - não haveria nenhum motivo especial para conservar estas obras no património do Estado. 
Esta visão provinciana, tacanha, felizmente não prevaleceu (por uma vez, viva!).  O Estado retirou estas obras do leilão. Aliás, a Christie's não deve ter criado muitas dificuldades, visto que tinha pouco interesse em intermediar a operação de alienação dum património nacional que se tornara polémica. 


                                   Imagen relacionada

Eu não deixo de ver a obra de Miró e esta colecção, em particular, como a coisa «em si», para além das circunstâncias que rodearam esta exposição agora, transitoriamente, no Palácio Nacional da Ajuda e depois - em exposição permanente-  no Museu de Serralves.

                             


Sempre tive um fascínio muito particular por esta obra, multifacetada, produzida desde a década de 20 até à de 80 do século passado, como expressão de uma procura... Procura da infância, da criança que está dentro de nós, que comunica imediatamente - sem filtros - com o  mundo das coisas e os seres. 

                                             

Miró percorreu várias etapas mas, a partir de certo ponto na sua carreira, privilegia certas formas-arquétipos. Poucos são os artistas que realmente conseguem imprimir um cunho tão pessoal e tão universal, pois ele foi buscar à profundeza dos sonhos, à visão do homem dito primitivo, à expressão espontânea do gesto. 

                                           

Admirei, na exposição, os seus desenhos do início dos anos 60, que mostram uma faceta completamente zen, numa altura em que quase ninguém, no Ocidente, estava ao corrente desta estética e filosofia orientais.

Muitos espantos e descobertas se poderão fazer quando somos colocados em contacto com estas 85 obras em exposição do Palácio da Ajuda

                                             

Há cerca de doze anos atrás, visitei com imenso prazer o Museu Miró em Barcelona. Foi para mim uma revelação, embora já tivesse muita familiaridade com a obra deste artista, não apenas em livros de arte, como através de museus em vários países, como - por exemplo - a colecção do Centre Pompidou, em Paris. 

                                

Porém, a colecção de obras de Miró agora expostas na Galeria D. Luís do Palácio da Ajuda, conseguiu surpreender-me: não será isto a marca dum artista genial? A de, sempre que nos debruçamos sobre a obra, termos a sensação forte de descobrir algo de novo, de acrescentar novas facetas às que tínhamos armazenado na memória? 

Estou de acordo com Robert Lubar Messeri, quando afirma... "a maioria do povo português quer que a colecção fique no país, pois esta colecção de arte é extraordinária, uma verdadeira riqueza para Portugal, que tem atraído cada vez mais turismo internacional".


"Miró é um dos artistas mais importantes de todos os tempos. É uma questão subjectiva em termos de avaliação, mas na arte do século XX, os três maiores artistas são Picasso, Matisse e Miró. Ao ter mantido a coleção, Portugal fica colocado como um país que apoia a arte moderna e contemporânea", sublinhou.


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

CONCERTO PARA PIANO Nº1 DE LIZT, POR LANG LANG NOS PROMS

                  

O concerto para piano nº1 de Lizt é um manifesto da música romântica. Nele se condensam todas as características musicais e estilísticas do romantismo... a revolução que marcou a música ocidental, desde os finais do século XVIII, à primeira metade do século XIX. 

A orquestra sinfónica da BBC, nesta noite dos «Proms» de 2011, é dirigida por Edward Gardner.

Lang Lang é, porventura, o meu interprete preferido desta peça: seu desempenho é caracterizado por uma grande energia, uma técnica perfeita, resultando numa interpretação totalmente conseguida, sublinhando a grandiosidade da arquitectura musical subjacente, o acento heróico...
Note-se que romantismo musical não tem nada de efeminado, contrariamente ao que muita gente pensa, como se pode comprovar pela audição desta obra.