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sábado, 3 de outubro de 2026

MINHAS ESCOLHAS DE MÚSICA BARROCA [Segundas-f musicais n° 78 ]


Músicos no Palácio de Versailles


 Porque não fazer uma selecção de música barroca, que tem tanto significado para mim?!
- Embora eu não seja pessoa de gostos exclusivos, seja na música ou noutro domínio, posso dizer-vos que, se tivesse de me exilar numa ilha deserta, tendo de escolher um só estilo musical em discos para levar comigo, a escolha seria uma selecção de obras barrocas. 

A selecção que vos apresento agora tem mais a ver comigo e com os meus afectos, do que com uma avaliação da música pela sua importância, representatividade, etc. 
Mesmo assim,  estimo que a escolha feita pode abrir novos horizontes aos neófitos em música barroca. Em relação aos interpretes, não podia deixar de escolher os que acho serem os melhores, ou entre os melhores. 
A música deveria ser - ao mesmo tempo - sensual e espiritual, pois se for deficitária num dos dois atributos, não satisfará inteiramente.
Por sorte, vivo numa época em que se conhece e se pode apreciar o que existiu de melhor na música dos séculos anteriores. Nós somos, portanto, uns privilegiados, no que toca à possibilidade de conhecer e de usufruir das obras-primas musicais do passado. 
De seguida, apresento-vos 4 amostras musicais do sublime ...




1º) «Concerto Italiano» J.S. Bach

Nesta perfeita interpretação de Scott Ross ao cravo, é toda a alegria de viver do Mediterrâneo, toda a extroversão dos italianos, que transparecem... mas Bach nunca se deslocou a Itália, nem a outros países meridionais da Europa. Fez uma longa viagem (a pé) ao norte da Alemanha, para aprender com o muito respeitado Buxtehude. Sabemos muitos pormenores da vida de Bach e de suas outras deslocações; pode-se afirmar (com segurança) que ele nunca pôs os pés em Itália. Então, como é possível que esta peça exiba a criatividade melódica, a surpresa harmónica, a agilidade no discurso, típicas da música italiana?
- Estes traços estão bem presentes, podemos dizer que é realmente música italiana e do melhor quilate! Somente, foi um alemão que a compôs: Mas, não foi qualquer um. Ele estava destinado a ser um dos maiores músicos na sua época e na posteridade. Com efeito, ele continua a ser muito apreciado e estudado, passados cerca de 300 anos sobre a composição deste Concerto Italiano.
 




2º)«Cum Dederit» de Nisi Dominus por António Vivaldi

E por vos falar de música italiana, homenagem é devida a António Vivaldi, o «Padre Ruivo». Ele ensinava música às meninas órfãs do Ospetalle della Pietà, em Veneza. Quem ouvisse apenas esta peça e não soubesse rigorosamente mais nada de Vivaldi, diria que se trata dum compositor muito espiritual... No que estaria correto! 
Porém, como a alma tem muita complexidade e o talento imensos recursos, sua arte era também sensual (no sentido nobre). A obra «As Quatro Estações» e inúmeros outros exemplos, incluindo as óperas, vêm confirmar a sensualidade na arte de Vivaldi, para além de qualquer dúvida.




3º)«Gavotte com seis variações» por J.-P. Rameau

Rameau constrói "uma suite" dentro doutra suite: A peça «Gavotte com variações», está integrada na Suite em Lá. Esta, tem várias danças estilizadas, unidas pela mesma tonalidade. 
A minha escolha da interpretação de Natacha Kudritskaya ao piano, não é casual. Aprendi com os meus mestres (e por audição em concertos ou em discos), que era perfeitamente legítimo usar um instrumento diferente daquele usado na época do compositor. Há uma técnica e uma sensibilidade próprias na adaptação para o piano, de peças inicialmente concebidas para outros instrumentos de tecla (cravo, espineta,  clavicórdio...). 
Posso apreciar - ou não - a interpretação ao piano duma peça escrita para o cravo. Caso não aprecie, a «culpa» não é do instrumento... é do instrumentista que não teve o bom gosto e a técnica para adaptar a peça referida.




4º)«Eternal Source Of Light Divine», G. F. Haendel

Termino com a peça de Haendel, muito conhecida e utilizada ainda hoje, em cerimónias oficiais  (não é por isso que ela é melhor ou pior). Esta peça, simplesmente, encanta-me. 
Conta-se que a Rainha de Inglaterra, a quem Haendel dedicou esta cantata de aniversário, se mostrou indiferente, na ocasião da estreia. Porém, pouco tempo depois, enviou a Haendel uma generosa remuneração em moedas de ouro. 
Quando oiço esta cantata, porém, não fico a pensar nas circunstâncias exteriores da composição. 
Para mim, esta peça tem um apelo imediato de autenticidade, apesar de saber quanta arte e técnica existem nela. Ela tem uma «respiração» ampla, majestosa e serena. O diálogo entre a voz humana e a trompete, dá-lhe uma luminosidade inigualável, solene e profunda. 


Exemplos da genialidade de Haendel:







quarta-feira, 24 de julho de 2024

CELEBRANDO A LUZ ETERNA E DIVINA COM HAENDEL

 

                                 https://www.youtube.com/watch?v=RNj0lI7j6pE

Esta Ária* faz parte da Ode HWV 74 composta por Haendel, provavelmente em Janeiro de 1713. Ela foi composta e executada para celebrar o aniversário da Rainha Anne (a última monarca da Casa de Stuart).
Desde então, esta ária tem sido aproveitada para enquadramento musical solene na corte real, nomeadamente, em casamentos de príncipes e princesas. É muito célebre e frequentemente executada. Não será por isso que tem menos valor, nem que deixa de merecer cuidadosa audição e análise.

Esta cantata celebra o aniversário da Rainha Ana mas - igualmente - o tratado de paz de Utrecht (negociado pelo ministro Tory da Rainha, em 1712) pondo fim à Guerra de Sucessão de Espanha.
Diz-se que a Rainha Ana não se interessou demasiado pela obra de Haendel. No entanto, concedeu-lhe uma «tença» (ou subsídio para a vida inteira) de duzentas libras.
O título da ária é "Eternal source of light divine" («fonte eterna da luz divina»). A ária, com solo de trompete e cordas em apoio, tem a seguinte letra:

«Eternal source of light divine
With double warmth thy beams display
And with distinguish'd glory shine
To add a lustre to this day.»

(Texto integral da Ode, de Ambrose Philips, em: https://en.wikipedia.org/wiki/Ode_for_the_Birthday_of_Queen_Anne )

Do ponto de vista musical, destaca-se a preferência por notas longas, sustentadas pela trompete, o que lhe dá a solenidade perfeitamente adequada ao texto.
Haendel mostra aqui, como noutras obras, o seu grande domínio em moldar a matéria-prima sonora, em especial, a voz**. Se houvesse que "apresentar prova" de que Haendel era um génio de primeira grandeza, esta seria uma das peças que eu escolheria para esse fim.

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*) Músicos nesta gravação:
Kathrin Hottiger | soprano – https://kathrinhottiger.ch Dominic Wunderli | baroque trumpet – https://dominicwunderli.jimdofree.com Jonathan Pesek | violoncello –   / jonathan-pes.  . Frédéric Champion | organ – http://www.fredericchampion.com This recording was made by Leonart Studio on the 7th of Mai 2021 in the church of Männedorf, Switzerland. – https://leonart.org/

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**) Listagem de algumas obras de Haendel reproduzidas neste blog:





quarta-feira, 13 de abril de 2022

HAENDEL: ORATÓRIO JUDAS MACABEU (HWV 63) «MOURN YE AFFLICTED CHILDREN»

                      


                                                           Mourn ye afflicted Children

Judas Macabeu foi um general judeu que se opôs aos exércitos invasores Selêucidas. É uma história bíblica, que tem muito mais de militar do que espiritual. Haendel compôs este oratório, num momento em que o rei de Inglaterra George II, da dinastia de Hannover, via o seu trono posto em risco pela rebelião Jacobita (escoceses). 

Mas, independentemente das circunstâncias históricas, creio que este é o oratório mais notável de todos os grandes momentos de música de inspiração religiosa que Haendel produziu, na minha modesta opinião.  

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Keiko Omura interpreta Suite N.7 de Haendel para cravo

 



As produções de Haendel mais célebres (como Water Music, por exemplo) são justamente celebradas e executadas com frequência em concerto, ou gravadas em disco. Mas, o que eu mais aprecio, é a sua música de câmara, para pequenos conjuntos ou para instrumentos solistas (órgão e cravo). 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

George Frederic Haendel: PASSACAGLIA da suite em sol menor HWV 432



Haendel é tão essencial ao barroco, como Bach. 

A sua personalidade é totalmente diferente da do Mestre de Leipzig, embora os dois usem -afinal- os mesmos processos de composição e as mesmas técnicas de execução. 

Mas, não é justo acentuar o contraste até à caricatura.  Se Bach, por vezes, pode parecer pesado ou enfático, isso deve-se ao facto de retomar com frequência certas fórmulas. Mas o processo é muito banal, na época: Os compositores barrocos copiavam-se a si próprios e uns aos outros, profusamente. Não havia «copyright»; era um conceito não existente, sequer, na época. O artista que escrevesse uma passagem inspirada numa peça de outro, estava a homenagear esse mestre ou colega. Não era visto como «roubo», a utilização de certa melodia. Enfim, o «progresso » neste campo não existe. Porque a música, como todas as outras artes, se mercantilizou: E isso, queiram ou não, resulta em empobrecimento.  

Em milhares e milhares de páginas musicais, nem sempre a inspiração genial de um Haendel pode estar patente. Ele copiou-se a si próprio e copiou outros, tal como o fizeram Bach e muitos contemporâneos. Ele e seus colegas tinham de satisfazer encomendas para festas nos palácios, para as cerimónias religiosas e para os teatros e óperas.  Haverá algo de surpreendente, se uma ária de ópera era adaptada para integrar uma obra de caráter sacro, ou vice-versa?

Há quem -erroneamente - considere a produção de Haendel, fútil ou superficial. Mas, a meu ver, ele corresponde à melhor versão daquilo que chamo o «espírito otimista das Luzes», e que perpassa também em obras doutros músicos do barroco tardio:  Telemann, Rameau e Domenico Scarlatti. 

Ideologicamente, é a época de Newton e Leibniz, a do triunfo de nova visão do Universo. O homem sente-se confiante perante os mistérios do Cosmos. Note-se que a origem divina do mesmo não está em causa. No entanto, ao contrário de épocas anteriores, não hesita em considerar que o Cosmos é inteligível: Se existem mistérios, é porque o espírito humano é demasiado imperfeito para compreender as leis da Natureza, dadas por Deus na Criação.

Musicalmente, Bach e Haendel são ambos complexos e multifacetados: em muitas páginas musicais, podemos encontrar um Bach galante e um Haendel místico. O que implica, afinal, não nos deixarmos encerrar em «visões-clichés»! 




 A passacaglia em sol menor é uma das mais populares peças de Haendel. 
Ela tem sido interpretada por muitos cravistas e pianistas. Tive dificuldade em encontrar uma interpretação que me satisfizesse plenamente. A interpretação aqui transcrita, satisfaz as minhas exigências estéticas. Possui energia interna, e também qualquer coisa de nostálgico.

 Sou particularmente sensível às questões de tempo, de andamento. Através da escolha criteriosa do tempo, o interprete pode comunicar de forma adequada o espírito da música. Note-se que, na época de Haendel, a execução direta e ao vivo era a única forma de fazer ouvir uma peça de música.

Gosto particularmente desta Passacaglia, muito bela na sua simplicidade. Pode servir pedagogicamente, para ilustrar a forma «tema com variações».


Playlist "Haendel" AQUI


sexta-feira, 5 de novembro de 2021

[Sonya Yoncheva] «Io t'abraccio»* de G.F. HAENDEL



 Uma joia musical, extraída da ópera "Rodelinda" de Haendel, interpretada pela potente e subtil soprano búlgara (com a «Accademia Montis Regalis» dirigida por Alessandro de Marchi, e com a mezzo-soprano Karine Deshayes). 
Esta gravação dá testemunho das qualidades essenciais da cantora: Nesta peça em dueto Sonya Yoncheva evidencia a sua maleabilidade expressiva, e o seu timbre rico.. Quem quiser apreciar a sua arte, pode ouvi-la na playlist seguinte: Yoncheva

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(* EU TE ABRAÇO)

quinta-feira, 23 de julho de 2020

AKADEMIE FUR ALTE MUSIK BERLIN - WATER MUSIC - HAENDEL


G.F. Händel: Water Music - Akademie für alte Musik Berlin - Live concert HD Georg Kallweit, viool/leiding G.F. Händel 1685-1759. Water Music, HWV 348-350 - - Overture: Largo-Allegro - Adagio e staccato - Allegro / Andante / Allegro da capo - Allegro - Air - Minuet - Bourrée - Hornpipe - Allegro moderato - Allegro - Alla hornpipe - Minuet - Rigaudon 1 / Rigaudon 2 / Rigaudon 1 - Lentement - Bourrée - Minuet 1 / Minuet 2 - Gigue 1 / Gigue 2 da capo - Minuet

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

HAENDEL: SONATA PARA DOIS VIOLONCELOS E CONTÍNUO EM SOL MENOR

                   
Yuliya Rozhkovskaya - cello

Aleksandr Ivanov - cello
Dasha Moroz - piano
Belarusian State Philharmony


O único exemplar manuscrito desta sonata datado da época de Handel, pertence à biblioteca real de Dresden onde ele fez uma estadia no ano de 1719.
A partitura está efectivamente escrita para trio de dois violinos e baixo contínuo, mas tornou-se muito frequente ouvir-se a sua transcrição para dois violoncelos.
Como é sabido, na época barroca, a atribuição de determinados instrumentos para interpretação das peças na música erudita, ainda não era tão estrita como passou a ser, nos séculos posteriores. Não fica nada mal, esta sonata com dois violoncelos, pois as sonoridades mais cheias, mais plenas de harmónicos, destes, por contraste com os violinos, permitem apreciar a beleza do desenho melódico.
Handel era realmente um génio da melodia. Beethoven, apreciava tanto isso, que considerava ser o velho mestre Georg Friedrich, o «maior músico de todos os tempos»...
A mestria de Handel no domínio melódico, transparece aqui muito claramente nos dois movimentos lentos da sonata (o inicial e o terceiro): A máxima expressividade com meios afinal muito simples; não será isto a marca de um génio?

Esta interpretação da célebre sonata de Haendel, parece-me ser muito apropriada, na sua sobriedade.
Ela reflecte o bom gosto do barroco, no seu auge, que dava o seu lugar aos sentimentos, sem no entanto os expor de modo desbragado, mas com contenção.

domingo, 7 de julho de 2019

G. PH. TELEMANN: CONCERTO EM FÁ MAIOR DA «TAFEL MUSIK»



A alegria de viver de um Vivaldi, conjugada com a sabedoria de um Bach, transparecem neste concerto, extraído da célebre recolha de «Música para a Mesa». Este concerto é, para mim, dos  melhores de Telemann. 

Ele era amigo (e não um rival) de J. S. Bach. A sua amizade significava muito para ambos; havia mesmo uma relação familiar, pois Telemann foi o padrinho de Carl Philip Emmanuel Bach.

Sendo um compositor prolífico, as suas composições não poderão ser todas de nível altíssimo; porém, em vida, ele foi muito célebre e apreciado, mais que seu amigo e «cantor» (director) da Escola de São Tomás em Leipzig 

Por que razão Telemann não é colocado lado a lado de J.  S. Bach ou de G. F. Haendel, outros grandes compositores barrocos, pelo grande público? 
Não é devido ao desprezo dos musicólogos, nem dos intérpretes de música barroca: hoje em dia, muitos  reconhecem que os três compositores são igualmente importantes. 
Talvez a inércia ou o conformismo levem as pessoas a escolher - em disco ou em concerto - o que já é arque-conhecido, em detrimento de outras obras geniais, mas menos divulgadas. 
Perante isto, tanto músicos como editoras, reforçam a execução em concerto ou a gravação do que seja mais famoso neste reportório, para terem maiores receitas.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

HAENDEL: «FALL'N IS THE FOE» (CORO DE ORATÓRIO "JUDAS MACCABAEUS")




O oratório «Judas Macabeu» foi composto num tempo recorde, para ser cantado em comemoração da vitória na batalha de Culloden.
Nesta, as tropas inglesas do Duque de Cumberland esmagaram definitivamente as escocesas, da rebelião jacobita liderada por Charles Edward Stuart, a 16 de Abril 1746. A batalha foi de uma ferocidade atroz. Além disso, perante a crueldade da repressão que se seguiu à vitória da Coroa Inglesa, a possibilidade duma futura independência da Escócia ficou arredada.

                         Image result for culloden battle

Muitas vezes, as obras-primas têm como patronos os opressores dos povos. É frequente o génio criativo ser posto ao serviço dos vencedores. Nisso, Handel não será excepção.

Mas, para mim, agora e à distância de quase três séculos, estou mais interessado pelo processo dramático usado por Handel para descrever a derrota do inimigo (Fall'n is the foe...): aquele acorde descendente e repetido, tem o evidente papel de mimetizar uma queda.

Handel terá pedido ao autor da letra, Thomas Morell, para começar a escrever os versos, para ele os por em música. O primeiro verso saído da pena de Thomas Morell (*), foi logo aproveitado por Handel, que improvisou ao cravo a melodia e restantes vozes do tão inspirado coro, que conhecemos.

Tal não me parece inverosímil, pois o alemão naturalizado inglês possuía um génio melódico ímpar e um sentido dramático muito agudo, como testemunham muitas das suas obras, sacras ou profanas.

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(*) Fall'n is the foe! So fall thy foes, O LORD,
when warlike Judas wields his righteous sword!

[trad.] «Caído está o inimigo! Assim caem teus inimigos, ó Senhor,
Quando o bélico Judas ergue sua espada justiceira!»
[música com partitura, aqui:] https://www.youtube.com/watch?v=iA11wIhZbno 

sábado, 10 de novembro de 2018

HAENDEL - ODE PARA A FESTA DE STA. CECÍLIA

A confraria de Sta. Cecília agrupava os músicos. Haendel, não apenas foi um destacado membro desta confraria, em Inglaterra, como também foi seu generoso benfeitor.  
Tive um dos maiores prazeres musicais da minha adolescência ao descobrir a riqueza sonora e grandiosidade do desenho desta obra. 

Haendel compõe uma obra verdadeiramente inspirada, sobre o texto poético de John Dryden. O tema principal do poema revolve em torno da centralidade da música na Criação, de acordo com a teoria pitagórica de «Harmonia mundi».





Letra


From Harmony (Recit)

TENOR: From harmony, from heavenly harmony
This universal frame began.
When nature, underneath a heap
Of jarring atoms lay,
And could not heave her head.
The tuneful Voice, was heard from high,
Arise! Arise!
Arise ye more than dead!
Then cold, and hot, and moist, and dry,
In order to their stations leap!
And music's power obey!
And music's power obey!

From Harmony (Chorus)

CHORUS: From harmony, from heavenly harmony,
This universal frame began.
Through all the compass of the notes it ran,
The diapason closing full in man.

What Passion Cannot Music Raise and Quell

SOPRANO: What passion cannot music raise, and quell?
When Jubal struck the chorded shell,
His listening brethren stood 'round.
And wondering on their faces fell,
To worship that celestial sound!
Less than a god they thought there could not dwell
Within the hollow of that shell
That spoke so sweetly and so well.
What passion cannot Music raise and quell?

The Trumpet's Loud Clangour

TENOR: The trumpet's loud clangour excites us to arms,
With shrill notes of anger and mortal alarms,
The double-double-double beat,
Of the thund'ring drum,
Cries hark! Hark! Cries hark the foes come!
Charge! Charge! Charge! Charge!
'Tis too late, 'tis too late to retreat!
Charge 'tis too late, too late to retreat!

The Soft Complaining Flute

SOPRANO: The soft complaining flute
In dying notes discovers
The woes of hopeless lovers,
Whose dirge is whispered by the warbling lute.

Sharp Violins Proclaim

TENOR: Sharp violins proclaim,
Their jealous pangs,
And desperation!
Fury, frantic indignation!
Depth of pains, and height of passion,
For the fair disdainful dame!

But Oh! What Art Can Teach

SOPRANO: But oh! what art can teach,
What human voice can reach
The sacred organ's praise?
Notes inspiring holy love,
Notes that wing their heavenly ways
To join the choirs above.

Orpheus Could Lead The Savage Race

SOPRANO: Orpheus could lead the savage race,
And trees uprooted left their place
Sequacious of the lyre:
But bright Cecilia raised the wonder higher:
When to her Organ vocal breath was given
An Angel heard, and straight appeared –
Mistaking Earth for Heaven.

As From The Power Of Sacred Lays

SOPRANO: As from the power of sacred lays
The spheres began to move,
And sung the great Creator's praise
To all the blest above;
So when the last and dreadful hour
This crumbling pageant shall devour,
The trumpet shall be heard on high,

CHORUS: The dead shall live, the living die,
And music shall untune the sky

terça-feira, 6 de novembro de 2018

PIANGERÒ LA SORTE MIA... da ÓPERA GIULIO CESARE, DE HAENDEL

"Piangerò la sorte mia" - Giulio Cesare - Haendel

https://www.youtube.com/watch?v=X3uYxKlJDC4


Roberta Mameli, soprano Ensemble Fratres

Na ópera de Haendel «Giulio Cesare in Egito» (estreia em 1724) Cleópatra lamenta, nesta ária, a perda simultânea do seu reino, em resultado da batalha e do seu amante, Júlio César (no entanto, este não está morto).
A intensidade dramática e expressiva está presente na partitura, mas a enorme qualidade vocal de Roberta Mameli também contribui para nos convencer, por alguns instantes, de que estamos perante uma tragédia. Oiça-se como a sua voz se reveste de ternura e depois de fúria, por aquilo que lhe está a acontecer.
Na minha opinião, o facto de ser uma gravação ao vivo, não diminui a qualidade da mesma; as imperfeições eventuais que se poderá notar na qualidade sonora, podem ser colocadas entre parêntesis, devido à emoção que transparece.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

HAENDEL - «DA TEMPESTE»

                        Amanda Forsythe/Apollo's Fire


Aprecio esta interpretação de Amanda Forsythe na ária de Cleópatra, da ópera «Julius César». 
Privilegio sempre a qualidade e o bom gosto sobre quaisquer outras considerações. 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

SUITES PARA CRAVO DE HAENDEL, NO CRAVO E NO PIANO

                          

Oiça-se em primeiro lugar uma interpretação magistral da Sarabande por Ludger Rémy. Para mim, uma versão de cravo imprescindível. As gravações das mesmas peças, por Kenneth Gilbert, continuam ser outra referência fundamental, embora mais antiga.

Em baixo, a versão ao piano por Gavrilov, da Sarabande da belíssima suite em Sol menor, uma das mais tocadas de Haendel. 

                        


Se interpretadas com inteligência e sensibilidade, as versões ao piano de peças para cravo, podem ser extremamente agradáveis. Temos, porém consciência de que estamos a ouvir uma adaptação, uma transcrição, pois as exigências interpretativas no piano obrigam a escolhas diversas das do cravo. 
Além do mais, o cravo não permite uma variação de volume instantânea, possível no fraseado ao piano. Por outro lado, o piano tem basicamente a mesma sonoridade, enquanto os diferentes registos e os dois teclados (comuns nos cravos a partir do século XVIII) permitem variação do timbre entre peças e dentro de uma mesma peça, no cravo.

A musicalidade e o gosto é que decidem: Gavrilov é um dos grandes a adaptar com perfeito gosto este reportório. 
Também Grigori Solokov ou Alexandre Tharaud, entre outros, têm incluído peças de reportório do cravo nos seus recitais e discos.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

DIXIT DOMINUS - HAENDEL


Esta obra de juventude de Haendel (tinha apenas 21 anos) ganhou merecida fama. Corresponde ao seu período romano, na cidade do Papa. 
Quando a compôs para o rito católico - ele, protestante luterano - as autoridades, que presidiam aos ritos da Igreja Católica, não viram nisso qualquer inconveniente. 
No início do século XVIII, havia muito maior tolerância religiosa do que nos dois séculos anteriores, pelo menos, nas figuras de proa da sociedade e no alto clero. 
As épocas de tolerância são, geralmente, épocas de paz e de progresso em todos os planos. São - porém - momentos frágeis, sempre suscetíveis de sucumbirem às paixões fanáticas de uns e outros. 
Com esta obra, merecidamente ressuscitada e frequentemente executada nos últimos anos, pode ver-se que «o Saxão», como era conhecido Haendel em Itália, tinha um domínio magistral das várias técnicas de composição que floresceram no barroco. 

A secção inicial, o grande coro sobre «Dixit Dominus», é um monumento, como poucas peças de carácter sacro: neste grande fresco inicial, a tensão entre as notas de valor longo e as frases curtas, incisivas, confere à peça uma energia irresistível.

Quanto às árias para vozes solistas, acompanhadas pela secção de arcos da orquestra, pontuadas por discretas intervenções do coro, são das mais expressivas do reportório sacro. 

O grande fresco final do «Gloria Patri» é um outro grande monumento de contraponto «fugato», com um brilhantismo inultrapassável.

Vivaldi, no mesmo período - princípios do século XVIII - também compôs «Dixit Dominus» dos quais sobreviveram dois. Parece-me muito interessante confrontar o tratamento que estes dois mestres, Haendel e Vivaldi, lhe deram. Cada um soube imprimir o seu cunho pessoal, mas em plena conformidade com o espírito do texto.

A ideia de que J. S. Bach seria o «mestre do contraponto e da fuga», enquanto Haendel seria antes o «autor de peças para solistas e para a ópera», fica completamente posta de rastos, aqui. 
Basta ouvir com atenção as grandes obras vocais de Bach e de Haendel, para se reconhecer que ambos dominavam todas as técnicas de composição e  as utilizavam como mestres.

A repetição (como extra) da ária «De Torrente» para solistas, coro e orquestra, foi muito bem escolhida por Elliot Gardiner, outro mestre do barroco, como gosto de chamá-lo: ele eleva a interpretação desta e de muitas outras peças a cumes inexcedíveis.