Frequentemente nós, os humanos, projetamos, de forma mais ou menos ingénua, os nossos sentimentos, valores e pensamentos noutras espécies animais.
Este vídeo ajuda-nos a reflectir sobre os sons, sua natureza, seu significado e a sua perceção em várias espécies animais.
Co-evolução humanos-cães: De facto, a «compreensão» da linguagem humana pelos cães, não é devida às suas supostas capacidades linguísticas em decifrar e analisar o conteúdo das frases.
Mas, é devida aos muitos milhares de anos de co-evolução cão/homem, que foi seleccionando os animais mais atentos aos sinais gestuais e sonoros dos humanos.
Quando um cão fica atento perante uma música não é por sentido estético, como as pessoas julgam, é porque o comportamento de atenção àquilo que o dono fizer (incluindo tocar música num instrumento ou cantar...), está interiorizado na sua memória genética.
Serenata para seis trombones : O vídeo abaixo é um bom (e divertido) exemplo. Os bovinos são movidos por curiosidade perante os sons, não por «deleite estético»!
Quanto às aves canoras, estas evoluiram (muito antes da existência de humanos) um comportamento de canto, relacionado com o cortejamento e a comunicação dentro do bando. Por isso, estão especialmente atentos a sinais sonoros.
Numerosas espécies de papagaios, vivendo em liberdade imitam, com perfeição, os sons de outras espécies ou até ruídos; não admira pois que, em cativeiro, reproduzam vozes humanas, ou outros sons.
Mas, várias outras espécies de aves são conhecidas pela sua habilidade em reconhecer e reproduzir melodias:
- Mozart tinha um estorninho que reproduzia as melodias que ele lhe ensinava, com toda a facilidade.
Mozart adorava a ave, ao ponto de inserir uma das melodias preferidas* do estorninho num concerto para piano.
Não iremos aqui enumerar a imensa quantidade de lendas que envolvem a capacidade da música em seduzir animais.
Uma hipótese para a origem destas histórias, seria a observação comum de animais que parecem «cativados» pela audição de peças instrumentais... No entanto, estamos equivocados quando imaginamos que o seu sentido estético seja idêntico ao nosso.
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* O referido tema do estorninho, no Allegretto do Concerto nº17, com Lang Lang:
[NO PAÍS DOS SONHOS] «Dança dos Cavaleiros» de Prokofiev
Este é um sonho que preferia não ter. Preferia um vazio, um manto branco, ocultando todas as imagens terríveis que passam diante dos meus olhos fechados.
Estas imagens, não as podemos ocultar, porque são o cinema interior que o nosso cérebro produz. De tal maneira nos implica, que ficamos exaustos, esgotados, trementes e gélidos, mas nada podemos fazer.
Nada nos pode afastar daquela caminhada rítmica, compassada, obsessiva, dos Montagus e Capuletos. Vejo que se dispõem numa dança hierática, macabra, pois já se sabe que não haverá quartel; será que irei presenciar o desencadear do ódio hereditário, da «vendetta», entre as duas casas aristocráticas?
Não, a música é essa mesma, da Suite de Prokofiev, porém o contexto é outro. É bem mais real, mais assustador, por isso mesmo. Aqui, neste sonho, não estamos no teatro, estamos numa rua qualquer duma cidade banal, no Século XXI.
A civilização ruiu, só restam bandos de assassinos desapiedados, que ditam a sua lei. Não há lugar para o amor, ou para qualquer sentimento humano. Em breve, será a matança. Os olhos, de ambos os lados, estão injetados de sangue. Se não estás num dos campos, então, és inimigo a abater; este é o cálculo feito por qualquer um dos lados.
Na vida do sonho, como na vida real, não me alinharei jamais com um dos campos de bandidos que se digladiam, para impor a sua lei às gentes. As pessoas comuns são como as presas das aves de rapina: Movem-se, sem saber que, dentro de instantes, vão ser atacadas, feridas, liquidadas e devoradas.
Esta dança obsessiva tem a altivez brutal da fatalidade que avança. Tem o peso inexorável do destino em cada nota. Depois de acordar, interpretei este sonho como premonitório da nova era trágica em que estamos a entrar; como em 1940, o ano da estreia da obra-prima de Prokofiev.
Estou dentro de um longo túnel. A luz difunde-se desde uma extremidade, por detràs de mim. Oiço uma música muito calma e envolvente. Sinto um bafo quente, semelhante ao do vento na praia.
Agora a paisagem mudou, só se vê uma planície semi-desértica com ervas amarelecidas e outras plantas rasteiras. Ao nível do solo há uma evaporação intensa. Todas as imagens estão defocadas. O Sol põe-se magestoso, inundando pro fim o horizonte de tons fúlgidos.
Quando, por fim, o astro do dia se põe, ele irradia uns últimos clarões de luz para lá do horizonte, iluminando um céu de oiro e azul.
Em breve, não mais se ouvem as cigarras e a planície vive um momento de suspensão no tempo. O silêncio é tão real, que ressoa... no coração.