domingo, 9 de agosto de 2026

DEMOGRAFIA, MAIS UM PÂNICO FABRICADO

 



Os media e o establishment começaram por colocar os problemas em termos de sobrepovoação do planeta, de esgotamento dos recursos, de explosões sociais causadas pela miséria, etc. Na realidade, houve uma «explosão» demográfica, tendo esta porém decorrido ao longo de centenas de anos.

 Mas esta «explosão», resultante da transformação das sociedades rurais em industriais, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, na Europa e mais tarde para o resto do Mundo, proporcionou condições globalmente mais favoráveis para a vida humana: 

A higiene aumentou, o acesso aos alimentos foi mais regular, menos sujeita ao acaso das colheitas, sobretudo, houve contribuição significativa, tanto de produtos alimentares como de manufaturados, em proveniência das colónias. Isto permitiu maior dinamismo das economias do mundo «desenvolvido» dessa época (a Europa e a América do Norte) e que a Iª Revolução Industrial ocorresse. 

Nos países sujeitos ao domínio colonial ou neo-colonial, apesar das condições de quase escravatura, ou mesmo de escravatura (que se estenderam do século XVI ao séc. XX), o facto de haver campanhas melhorando as condições sanitárias, os esgotos, o tratamento das águas e campanhas de vacinação na população autóctone, fizeram com que, também aí, houvesse um vigoroso crescimento populacional. 

Na ausência de contracepção de qualquer espécie, as doenças infantis, as epidemias que assolavam periodicamente as populações, os frequentes episódios de fome e de escassez alimentar, provocavam uma baixa taxa de sobrevivência das crianças. Os que chegavam ao estado adulto, em idade de procriar, eram apenas uma fracção do total dos nascidos numa dada geração.  As mortes precoces, infantis e juvenis, eram tais, que mantinham o equilíbrio populacional, compensando uma  fecundidade média muito elevada. 

Estes fenómenos ocorriam praticamente com a mesma severidade na Europa e nos países colonizados, talvez até mesmo piores na Europa, onde a concentração de pessoas nos centros industriais, sem condições de higiene e sujeitas a longas horas de trabalho violento, acabava por encurtar a vida, mesmo dos mais resistentes. 

A transformação na agricultura permitindo maiores rendimentos e libertando braços ocupados nas tarefas do campo para as indústrias das cidades, as condições de higiene nas habitações destinadas aos operários, a generalização de vacinas para algumas doenças causadoras de grandes mortalidades e morbilidades,  foram fatores que proporcionaram o crescimento vigoroso das populações europeias durante o século XIX e na primeira década do século XX. 

A Primeira Guerra Mundial, com todos os seus horrores e com o despovoamento dalgumas zonas, foi somente uma paragem momentânea do crescimento populacional. 

Pouco tempo após o fim das hostilidades (1918) as curvas demográficas em todos os países retomavam seu trajecto ascendente. O mesmo fenómeno verificou-se no pós II Guerra Mundial. Hoje em dia, fala-se da geração do «Baby boom»: começou com as pessoas nascidas em 1945 e vai até aos nascidos no ano de 1965, mais ou menos. 

O processo de desaceleração do crescimento populacional nos países industrializados, foi tanto consequência da «pílula» contracetiva, como duma nova atitude dos casais, procurando dar condições de educação, saúde e bem-estar à sua progenitura, limitando conscientemente o número de filhos. 

O papel atribuído à pílula contraceptiva talvez seja um bocado exagerado. Nos países do Sul da Europa a pílula foi proíbida oficialmente, durante algum tempo e condenada por entidades religiosas. Nestas sociedades, tradicionalistas, católicas e menos ricas que a Europa do Norte e a América, ocorreu, apesar disso, um fenómeno semelhante de redução da natalidade, embora de modo menos acentuado. As condições materiais, mais do que o uso de contraceptivos orais, tiveram o papel principal, tanto nas sociedades mais tolerantes, como nas mais tradicionais. 

Muitos países do Sul Global seguiram este padrão, com um pequeno atraso. Isso traduziu-se numa nítida desaceleração do crescimento global da população, contrariando os vaticínios malthusianos do «Clube de Roma» (nos anos 70).

Agora, vê-se e ouve-se, por todo o lado, que a população humana, em particular em países muito povoados, como a China, a Índia e outros, está a regredir, que a taxa de natalidade não permite repor os efetivos da população existente, que a percentagem de idosos e reformados supera a de pessoas em idade de trabalhar, etc. Estas reportagens e artigos são o simétrico do catastrofismo dos anos 70 do século passado.

Felizmente, as condições de vida das populações, na grande maioria dos países, melhoraram de modo substancial. As consequências do desajustamento populacional são transitórias. As sociedades em toda a História encontraram soluções para se manterem, para dar continuidade à base económica, às infra-estruturas e aos serviços que são prestados à população. 

A redução da taxa de fertilidade em quase todos os países industrializados, abaixo do número médio de 2,1 bébés por mulher fértil, é atirada constantemente pelos fazedores de apocalipse,  como se este fosse o único número, o mais importante que os países industrializados têm de enfrentar. 

Eu não creio que as campanhas estatais, com incentivos, sobretudo económicos, para jóvens casais terem mais filhos tenham sido um sucesso, até agora. Sem dúvida, podem ter contribuído para minorar o problema mas, o que irá contar, será o comportamento dos casais, o número de filhos que desejam. 

Creio que a redução da família a um núcleo isolado, pai-mãe-criança, sendo necessário que os dois progenitores trabalhem para obter o rendimento necessário para sustentar o seu estilo de vida e a educação que ambicionam para seu filho/filha, tem sido o fator decisivo. 

Esta situação não se resolve com incentivos económicos (apenas), nem sequer com melhores condições de apoio à maternidade e paternidade. Um progresso importante seria o reconhecimento real (não apenas na letra da lei) à dispensa no trabalho para apoio a filho(s) doente(s).  Claro que as condições melhoradas, tanto em termos financeiros, como de apoios diversos, não são de desprezar; devem ser levadas a cabo pelos Estados, mas - sobretudo - pelos patrões. 

A transição para um retorno ao equilíbrio virá quando a sociedade no seu todo estiver mais virada para a garantia de boas condições de crescimento, desenvolvimento e educação das crianças, proporcionando às famílias uma rede real de apoio. 

Isto vai implicar o recuo, senão mesmo o desaparecimento da mentalidade inoculada nos decénios de neo-liberalismo. Nestes, o individualismo - para não dizer o egoísmo - foi erguido como direito «sagrado», como expressão da «liberdade», da «maturidade», etc. 

Tudo isto fez parte da ideologia segregada pelo neoliberalismo. O enorme fracasso desta «ideologia do mercado antes de acima de tudo», em especial, acima da vontade política dos cidadãos, ainda não está bem vincado na consciência de muitos. 

Como proponentes e beneficiários principais, a casta política de hoje «não quer ver» os estragos causados pelo neoliberalismo: Em vez de examinar as coisas por outros ângulos, continua a reproduzir a cantilena da «TINA» (There Is No Alternative). Mas, assim como outras correntes político-ideológicas, o neoliberalismo vai tornar-se obsoleto. 

A sociedade, mais cedo ou mais tarde, irá encontrar forma de adoptar soluções que permitirão novo equilíbrio. No futuro, será mais fácil e gratificante uma família basear-se no campo, em vilas ou pequenas cidades, do que em mega-urbes. Nestas circunstâncias, a entreajuda entre vizinhos ainda é uma realidade.

A existência de robots de apoio às tarefas domésticas, não me parece escandalosa. A alternativa é a existência de trabalhador*s (em geral, são mulheres) que efetuam os trabalhos domésticos. Outros empregos melhor pagos e mais satisfatórios serão criados. A produtividade do trabalho, em geral, tenderá a aumentar.

Não vale a pena fazer futurologia sociológica, já sabemos que as pessoas, individual e coletivamente, chegam a novas soluções. Estas podem ter aspetos técnicos mas, sobretudo, relacionam-se com nova organização do trabalho. 

Uma coisa parece-me certa: A sociedade organizada em torno do trabalho, sobretudo do trabalho assalariado, com as pessoas a serem exploradas desta ou daquela maneira, nesta ou naquela indústria, vai caducar

Já existem sinais evidentes disso, porém a estrutura da divisão em classes não tem deixado que as coisas evoluam naturalmente. Os empresários bem podem lamentar-se, hipocritamente, que as relações de trabalho são demasiado rígidas: São fruto de relações de exploração impostas por eles!

 Agora, novas gerações de adultos têm de tomar em mãos as mudanças necessárias, por forma a que a sociedade alcance novos patamares de bem-estar real e não do falso «paraíso» consumista.

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EM COMPLEMENTO: https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2017/11/malthusianismo-e-neo-malthusianismo.html


A LUA - MAIS MISTERIOSA DO QUE PENSAVAS


 

sábado, 8 de agosto de 2026

COMO ENCONTRAR O HUMANO NUM MUNDO DE MÁQUINAS ?

(Um breve auto-guia para os tempos vindouros.)




C


«Um autor com fama de profundo, fazia a apresentação de seu novo livro de poemas. 

Após leitura perante audiência, uma voz perguntou-lhe: Mestre, acaba de nos declamar um subtil e profundo poema... podia nos dizer qual o título?

- Houve um silêncio prolongado, após o que replicou o poeta: Não há título; não se trata de poema nenhum, mas do índice, da lista das obras deste volume.»

Esta história humorística contaram-ma, há muitos anos, para ridiculizar os vanguardismos. Mas aplica-se como uma luva para «produções literárias» por  IA.

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A tradução de um texto poético sobre qualquer assunto é  - em si mesma - um desafio para o bom tradutor, alguém que deseja preservar a beleza formal e conservar o essencial do conteúdo. Tenho experiência pessoal de que é um exercício muito mais difícil do que parece, à primeira vista. É preciso conhecer a fundo ambas as línguas. É muito difícil obter uma tradução com rima  e métrica, quando elas existem no poema original. 

Um texto em prosa banal,  traduzido literalmente, dá um texto-tradução pouco criativo, mas cujo significado se conserva, geralmente. É isto que fazem os algorítmos de tradução automática. Mas, o resultado é muito insatisfatório quando o texto é de prosa literária ou de poesia. 

Os algorítmos falham a vários níveis: Geralmente não identificam ambiguidades ou ironias, tendem a reproduzir, palavra a palavra, as expressões proverbiais, etc. Muitas coisas que não passariam em traduções «normais». A tradução palavra a palavra perde todo o sentido. 

O algorítmo não reflete sobre o que está a reproduzir; na realidade, não existe criação ou reflexão própria da IA, como seria de prever. 

Um mau tradutor é melhor que o programa mais caro de IA, não por a tecnologia não estar avançada o suficiente, mas porque o cérebro humano não é uma máquina, nem funciona como uma máquina; as suas produções não se confundem, afinal e como seria de prever, com as de uma máquina! 

Pode-se aplicar - com modificações - o famoso teste de Alan Turing: Segundo este, o computador terá atingido um certo grau de inteligência, quando o indivíduo julga que está em diálogo com uma pessoa; mas está a interagir com uma máquina. 

A minha receita é simples de aplicar: fornece um texto poético e pede para o traduzir, ou para dar uma explicação do conteúdo. 

Uma pessoa poderá fazer uma interpretação medíocre. Mas o algorítmo irá sair-se com algo completamente disparatado: Interpreta literalmente - com uma série falhas do significado real - tomando as metáforas por imagens factuais, por exemplo.

Um ser humano percebe que está perante um texto poético, percebe que as coisas que lá estão não se podem interpretar em sentido literal. O algorítmo de IA não pode fazer isso, nem há maneira de o «treinar» para fazer isso. 

Também podemos perguntar afinal, para que serve a IA: 

- Por exemplo,  pode ser um auxiliar para termos uma ideia sobre o que trata um texto - um artigo científico, por exemplo - escrito em língua que nós não conhecemos. Se o texto traduzido com a ajuda de IA for do nosso interesse, então podemos pedir uma tradução «à moda antiga» a um tradutor dessa língua, que tenha familiariedade com a área científica do tal artigo.

Não digo que as máquinas sejam incapazes de compor música, de escrever poesia... Digo, que estas produções não terão qualquer apelo para mim, não me fazem vibrar: 

- Eu já experimentei ouvir música (ao estilo do rock dos anos 70) feita inteiramente por IA, mas achei o resultado destituído de qualquer interesse musical. Tinha os traços típicos da música rock dessa época (anos 70). Mas, qualquer coisa fazia com que não transmitisse a mínima vibração, a mínima emoção. Era música sem alma, embora os instrumentos e as vozes sintéticas fossem de tal maneira, que pareciam reais. A autenticidade, o magnetismo, estavam completamente ausentes...  

                      Música dos anos 70, inimitável.... Jefferson Airplane

A HISTÓRIA DO QUEIJO


 O queijo está indissoluvelmente ligado à civilização agrária,  que se estende do Neolítico aos nossos dias. É um exemplo clássico de elemento cultural de toda a civilização de raízes euroasiáticas,  embora se tenha espalhado por outras zonas do globo. Porém, entre  os exemplos apontados como os mais antigos derivados lácteos, contam-se exemplos africanos e sul-americanos.

É um produto de engenharia biológica, uma indústria multimilenar, tal como a da produção de bebidas alcoolizadas: a cerveja, o vinho, o hidromel...

A massificação do consumo, na atual etapa da "revolução  industrial", transformou radicalmente o processo de fabrico e a própria natureza do queijo. 

A produção  em massa, a necessidade de produzir padronizado, com longo tempo de validade, degradaram a subtileza dos paladares, uniformizaram por baixo os produtos oferecidos ao consumo das massas, ao ponto de haver coisas etiquetadas como «queijo», que deste só têm o nome!

Penso que o bom queijo é um produto essencialmente artesanal,  tanto ou mais que os bons vinhos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O Paradoxo da Pressão [Prof. Jiang Xueqin]



 Uma lição de geoestratégia que - goste-se ou não - dá a chave para o imbróglio em que os americanos e o Ocidente se meteram: 
Ao confrontar o Irão, estavam a dar forte argumento para a própria existência  (e reforço) dos BRICS, da OCX. Os seus membros mais poderosos (Rússia e China) resgataram a economia do Irão, forneceram-lhe apoio logístico, alimentos, medicamentos e «inteligência» (Espionagem por satélite).  Os EUA estavam a criar as condições para a construção de um sistema financeiro-monetário alternativo e viável em relação ao petrodólar, logo ao poderio hegemónico dos EUA. 
Eu digo que isto é um imbróglio, pois quanto mais agressivos forem nas guerras de sanções e de agressões contra países não-vassalos, mais criam argumentos e razões objetivas para uma resistência e para a criação de estruturas de emergência alternativas. Estas, após uns poucos anos, deixam de ser soluções de recurso, passando à construção de instituições globais, com vida própria, com dinâmica própria.
 Ou seja; as políticas pelas quais os imperialistas americanos queriam a todo o custo impedir a subida desses rivais,  foram elas que criaram as condições necessárias para que tal acontecesse.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

CONSEQUÊNCIAS DA "IA" SERÃO DEVASTADORAS...


 Não se trata de "brincadeira", o SEQUESTRAR de palavras, construíndo novos conceitos ou fantasias. Isso tem repercussão no universo mental de biliões de pessoas. É com palavras que as pessoas raciocinam. 

A representação do mundo das coisas, dos objectos, mas igualmente dos conceitos teóricos, religiosos, ou afetivos... passa pela palavra. 

Os antropólogos culturais constataram que nas sociedades por eles estudadas, quando não existem palavras para exprimir certos conceitos, isso equivale a não serem concebidos, nas referidas culturas.

Os manipuladores, domadores, demagogos, pessoas que pretendem controlar as massas, como fazem? 
- Eles distorcem, impõem novos significados às palavras.
O mesmo fazem os publicitários. 

Quando as pessoas acreditam literalmente na «inteligência» das máquinas, estão a ser iguais a povos ditos primitivos, que colocam a sua fé em estátuas de deuses, portadoras de poderes divinos. 

Qual a diferença? Os crentes na «IA» serão mais «sofisiticados»? Na realidade, estão adorando e endeusando máquinas: Querem acreditar, de modo extravagante e ingénuo, que elas lhes vão dar «a cura do cancro e de todas as doenças» ou a solução para todos os problemas complexos, que a ciência ainda não conseguiu penetrar.
 
Quando rebentar bolha das empresas de IA, o que fatalmente acontecerá, as pessoas que investiram suas poupanças em ações dessas empresas perderão tudo. Depois, só algumas delas irão recuperar a lucidez, um pouco tarde. As restantes ficarão desesperadas e acusarão tudo e todos, menos elas próprias, pelos males decorrentes do rebentar desta bolha.

Eu não posso ficar indiferente, embora não tenha pessoalmente investimentos em «IA», ou relacionados com isso. Diz-me respeito (e a toda a cidadania), porque os sistemas de pensões estão desde há muitos anos investidos (sem as pessoas o saberem, na maior parte) no casino das bolsas e noutros investimentos financeiros de elevado risco. 
Isto significa que as somas astronómicas (biliões...) que se «evaporam» quando as bolhas especulativas estoiram vêem, em grande parte, de sistemas de pensões, públicos ou privados. 
Além disso, depois de cada crise sistémica, perfeitamente previsível, aliás, os grandes capitalistas vão pedir ajuda ao Estado, para este resgatar as empresas cujos donos fizeram apostas arriscadas ou mesmo «tontas». Este capital oferecido ou emprestado em condições muito favoráveis,  pelo Estado, é desviado. Os grandes capitalistas fazem esse dinheiro desaparecer em compras e fusões de empresas, em auto-compra de ações, etc. 
Se investidos na economia produtiva, esses capitais poderiam representar um aumento de riqueza e bem-estar, para a sociedade em geral: Faltam investimentos em infraestruturas, investigação, educação, saúde, bem-estar social... 
É um roubo organizado pelos grandes capitalistas, à economia produtiva, com a conivência do governo.