O lançamento de uma pequena pedra na superfíe da água, pode originar um ressalto da pedra, chocando com a superfíce líquida num determinado ângulo, compatível com o ressalto. Não existe determinismo neste exercício que todos fizemos em crianças (ou adultos) à beira-mar ou de um lago. Sem dúvida a nossa experiência é decisiva para o número de vezes em que a pedra pula - em saltos sucessivos - na superfície aquosa. Porém, a forma e o tamanho da pedra também contam, tal como a movimentação da massa aquática. São fatores, todos os «especialistas» do ricochete concordarão, mas são difíceis ou impossíveis de determinar ou de quantificar.
Pessoas treinadas na visão analítica da ciência física, dirão que as variáveis são muitas, mas não infinitas; que elas são todas quantificáveis, só que o dispêndio de tempo e energia para tal, não se justifica, se for apenas para analisar a performance dos atiradores...
Contrastando com a visão reducionista e analítica, os cultores da ação espontânea, do ímpeto vital, da vontade psíquica comandando a matéria, dirão que a arte de fazer ricochete com pedras à superfície dum charco, tem de existir, ser treinável e aperfeiçoável, senão, como haveria de existir um progresso significativo na perícia dos lançadores? Por maior número de lançamentos que fizessem, teriam sempre o mesmo grau de sucesso, ou de insucesso!
Se a visão quântica do Universo prevalece, teremos um certo número de explicações científicas. Se predomina a vertente ondulatória, será um conjunto diferente de «leis» e modos de ver o real. Mas, nas duas visões do Mundo, existe determinismo:
- É um determinismo «granular», no caso da visão quântica. Não são poucos os paradoxos, reais ou aparentes, que emergem de tal visão. Os físicos estão - há mais de um século - a tentar integrar as novas leis nos seus cérebros, feitos para o mundo visível e não para o mundo subatómico.
No caso da vertente ondulatória, teremos múltiplas questões, como:
A velocidade constante das ondas luminosas; a interferência entre feixes luminosos, causando extinção nos nódulos; a não materialidade da luz e das ondas electro-magnéticas; o seu percurso constante e quase sem perdas de energia, desde os confins do Universo. Etc.
Também neste tópico se colocam questões da nossa percepção dos fenómenos, como os limites e erros do sentido da visão e o que isso implica para a compreensão da realidade.
Que um fenómeno se «faça» ondulatório quando o observador se dedica a observá-lo; quando mede as propriedades ondulatórias do mesmo; ou que o mesmo fenómeno se «faça» quântico pela mera observação (sem interferência?) da nossa parte, parece-me ser a interpretação na origem da experiência mental do «Gato de Schrodinger». Que o fenómeno não seja, na essência, nem uma coisa, nem outra; nem sequer seja as duas, cabendo ao observador captar os parâmetros de uma ou de outra... é muito difícil de aceitar, pois entra em conflito com a realidade sensível à nossa escala e com o nosso sentido de lógica.
Na raíz dessa dificuldade, partilhamos todos uma noção espontânea de que, quando observamos um dado fenómeno, ele tem subjacente uma realidade física, independente do observador, uma realidade intrínseca, mesmo quando não estamos lá, e mesmo quando não haja «matéria», mas um pacote quântico de energia do fotão.
Dada a imensa complexidade e diversidade dos mundos naturais e das «leis» que nós atribuímos aos objetos e fenómenos, deveríamos ter uma enorme humildade e precaução, ao interpretar o que observamos. Sem dúvida, os profissionais da ciência - treinados para inquirir sobre o mundo físico e as suas «leis» - deveriam ser o exemplo mesmo dessa humildade. Porém, eles têm muitas vezes uma enorme soberba, uma auto-confiança excessiva, querem impor as suas «verdades» (teorias) aos outros, etc.
Um princípio de bom-senso e sabedoria, especialmente dos cientistas, seria analisar a complexidade de um fenómeno. O ricochete de pedras na água, é afinal um entre muitos, de banalidade aparente. Porém, se tentarmos encontrar uma «lei», com um grau mínimo de validade, de poder predictivo e como guia empírico, veremos que as situações reais são muito mais complexas do que aparentam. No caso em exemplo, a pessoa treinada em lançar as pedras para obter ricochete, adquiriu a sua habilidade técnica à custa de centenas ou milhares de ensaios, mas sem nunca ter pensado na física do fenómeno. Ou se a pensou, foi antes como um questionar, não como ter de seguir uma sequência lógica, racional decorrente do enunciado de uma «lei».
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