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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Domenico Scarlatti e a sonata bipartita [Segundas-f. musicais, nº68]




O napolitano Domenico Scarlatti (Nápoles, 1685 - Madrid, 1757), filho do também célebre Alexandre Scarlatti, foi praticamente adoptado pelos dois reinos ibéricos: primeiro, na corte de D. João V de Portugal, como mestre de capela e professor particular da Infanta Maria Bárbara.
Aquando da «troca de príncipes» (casamentos recíprocos entre príncipes das casas reais portuguesa e espanhola), que consolidou a paz entre os reinos em guerra desde 1640 (Restauração da independência de Portugal) até à Paz de Utrech (1715), a infanta Maria Bárbara tornou-se esposa do príncipe herdeiro da coroa de Espanha, sendo depois rainha de Espanha.
O seu professor na corte portuguesa, Domenico Scarlatti, foi convidado a continuar como seu mestre de música privado. Esta situação implicava uma dependência muito estreita à casa real e à corte de Espanha, mas isto serviu bem Scarlatti. A sua posição permitia-lhe desenvolver os seus talentos criativos, aperfeiçoando a escrita para tecla (sobretudo no cravo) e produzindo assim a obra monumental com centenas de sonatas bipartitas (pelo menos 555!), quase todas escritas para o cravo. Algumas, poucas, são para órgão ou adaptáveis a este instrumento. Frequentemente, as sonatas de Scarlatti são interpretadas no piano.
Curiosamente, Scarlatti, Haendel e Bach, nascidos no mesmo ano de 1685, tornaram-se grandes músicos. Sua música caracterizou a época barroca. Sem dúvida, as obras deles para os instrumentos de tecla (órgão, cravo, clavicórdio) são das mais inspiradas e populares no século XVIII.


A sonata bipartita ibérica e italiana [diferente da forma-sonata da Europa central ou vienense], obedece a uma ordem imutável: A primeira metade (normalmente repetida), vai da tónica para a dominante; a segunda metade inicia-se na dominante e acaba na tónica. O tema inicial da primeira metade é retomado na segunda metade, mas transposto para o tom da dominante.
O conteúdo destas sonatas pode variar muitíssimo, das que possuem um caráter nostálgico, às mais energéticas. Elas usam as figuras típicas da escrita para tecla e não apresentam (em geral) carácter contrapontístico acentuado; existe um predomínio nítido da voz portadora da melodia, sobre as outras.
A propósito, a escrita de Bach deve ser considerada anacrónica, pois ele recorria ao contraponto sistematicamente -aliás- com grande criatividade, quando poucos o faziam, na sua época. Haendel e Scarlattti, entre outros, compunham segundo a moda: A voz solística era o real foco de interesse dos compositores; as outras vozes serviam apenas como acompanhamento.
Embora não se possa falar de discípulos propriamente, tanto Carlos Seixas como o Padre Antoni Soler, entre os mais famosos, foram influenciados pelo Napolitano.
Hoje, as sonatas de Domenico Scarlatti podem ouvir-se em concertos e gravações de piano. Porém, nem sempre estas adaptações são de molde a preservar o caráter fundamental das peças, embora concedendo que haverá mudanças necessárias, dada a transposição de instrumento.
O facto da música para cravo editada no séc. XVIII raramente ter indicações de tempo, de expressão ou de ornamentação... Tal não significa que fosse indiferente o modo como se interpretavam estas peças. Na época barroca, havia «boas maneiras» para ornamentar e glosar as peças, que se apoiavam numa longa tradição, desde o Renascimento. Havia também tratados explícitos sobre o modo de tanger os instrumentos de tecla encordoados ou de tubos: Nestas obras eram codificadas práticas instauradas em tradições seculares.
Um Mestre, como Domenico Scarlatti, orientava seus alunos e discípulos para resolver tanto as dificuldades técnicas, como as interpretativas. As lições permitiam que os alunos consolidassem o cânon de interpretação.



DOMENICO SCARLATTI: SONATA EM RÉ MENOR Kk. 141, por SCOTT ROSS 


                                             https://www.youtube.com/watch?v=pk-Ef10pAIg


 Scott Ross, já falecido, foi um dos maiores interpretes de música barroca no cravo. 
O vídeo da sonata Kk. 141 de Domenico Scarlatti pareceu-me uma boa oportunidade para aguçar a curiosidade do leitor. 
Assim, se o leitor desejar, pode explorar a INTEGRAL DAS SONATAS PARA CRAVO DE DOMENICO SCARLATTI, POR SCOTT ROSS.


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Consultar também:



terça-feira, 5 de maio de 2026

[proso-poemas e música] NO PAÍS DOS SONHOS - VOL. II

 Este é o volume II da recolha de proso-poemas e música «NO PAÍS DOS SONHOS»

Consultar o volume I em : 

[proso-poemas e música] NO PAÍS DOS SONHOS - VOL. I




sexta-feira, 29 de julho de 2022

[NO PAÍS DOS SONHOS] «Dança dos Cavaleiros» de Prokofiev


 

Este é um sonho que preferia não ter. Preferia um vazio, um manto branco, ocultando todas as imagens terríveis que passam diante dos meus olhos fechados. 

Estas imagens, não as podemos ocultar, porque são o cinema interior que o nosso cérebro produz. De tal maneira nos implica, que ficamos exaustos, esgotados, trementes e gélidos, mas nada podemos fazer. 

Nada nos pode afastar daquela caminhada rítmica, compassada, obsessiva, dos Montagus e Capuletos. Vejo que se dispõem numa dança hierática, macabra, pois já se sabe que não haverá quartel; será que irei presenciar o desencadear do ódio hereditário, da «vendetta», entre as duas casas aristocráticas? 

Não, a música é essa mesma, da Suite de Prokofiev, porém o contexto é outro. É bem mais real, mais assustador, por isso mesmo. Aqui, neste sonho, não estamos no teatro, estamos numa rua qualquer duma cidade banal, no Século XXI. 

A civilização ruiu, só restam bandos de assassinos desapiedados, que ditam a sua lei. Não há lugar para o amor, ou para qualquer sentimento humano. Em breve, será a matança. Os olhos, de ambos os lados, estão injetados de sangue. Se não estás num dos campos, então, és inimigo a abater; este é o cálculo feito por qualquer um dos lados. 

Na vida do sonho, como na vida real, não me alinharei jamais com um dos campos de bandidos que se digladiam, para impor a sua lei às gentes. As pessoas comuns são como as presas das aves de rapina: Movem-se, sem saber que, dentro de instantes, vão ser atacadas, feridas, liquidadas e devoradas.

Esta dança obsessiva tem a altivez brutal da fatalidade que avança. Tem o peso inexorável do destino em cada nota. Depois de acordar, interpretei este sonho como premonitório da nova era trágica em que estamos a entrar; como em 1940, o ano da estreia da obra-prima de Prokofiev.





quarta-feira, 22 de junho de 2016

[NO PAÍS DOS SONHOS] À BATIDA DO CORAÇÃO


                                            Vivaldi : Sinfonia ''al Santo Sepolcro'' RV 169

                Estou dentro de um longo túnel. A luz difunde-se desde uma extremidade, por detràs de mim. Oiço uma música muito calma e envolvente. Sinto um bafo quente, semelhante ao do vento na praia.

Agora a paisagem mudou, só se vê uma planície semi-desértica com ervas amarelecidas e outras plantas rasteiras. Ao nível do solo há uma evaporação intensa. Todas as imagens estão defocadas. O Sol põe-se magestoso, inundando pro fim o horizonte de tons fúlgidos.

Quando, por fim, o astro do dia se põe, ele irradia uns últimos clarões de luz para lá do horizonte, iluminando um céu de oiro e azul.

Em breve, não mais se ouvem as cigarras e a planície vive um momento de suspensão no tempo. O silêncio é tão real, que ressoa... no coração.