Quanto menos dívida tivermos e quanto mais possuírmos e controlarmos e baixarmos nossos custos fixos e exposição aos riscos que não podemos controlar, tanto maior será a nossa autonomia. (Charles Hugh Smith)
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O EFÉMERO do PODERIO IMPERIAL; EXEMPLO PORTUGUÊS

 


No ensino português, é dada com grande pormenor, mas com muito pouco senso crítico, a «gesta dos portugueses», nos séculos XV-XVI, na conquista de terras do ultramar. 

Mas, na verdade, se esta história tem alguma coisa de edificante, não será o «heroísmo» de soldados e marinheiros e ainda menos dos chefes que os comandavam.

Muita coisa seria necessária dizer, para se ter uma ideia do que foi a tal «conquista» de terras em vastas zonas geográficas, que se estenderam rapidamente por três continentes, além do continente europeu.

Deveria ser motivo de reflexão, não pelos tais actos de heroísmo, reais ou forjados, mas antes, uma lição de sabedoria, a observação do destino do  império colonial português. 

Com efeito, o colonialismo marítimo, pelo controlo das rotas e portos estratégicos na Índia, Ásia do Sul e Extremo-Oriente, foi seguido por um colonialismo territorial (África e Brasil, sobretudo). Este, teve como corolário a reação, quer dos povos colonizados, quer de potências em rápida ascensão  (Inglaterra, Holanda...).

Assim, o Império Português, que iniciou suas conquistas no século XV e se consolidou no século XVI, logo sucumbiu em 1580, perante as forças militares invasoras de Espanha e da subsequente perda da independência de Portugal.  Durante 60 anos, os Filipes de Espanha foram os soberanos do reino de Portugal, sem que houvesse, no entanto, unificação dos dois reinos ibéricos. 

Foi o golpe de Estado de 1° de Dezembro de 1640 em Portugal e subsequentes  anos de guerras (mais de meio século), que restauraram e consolidaram a independência de Portugal. Mas, com perda de possessões coloniais, sobretudo, asiáticas. Havia de novo um reino independente, com territórios em vastas áreas  da América e de África, mas sem capacidade de os desenvolver e explorar. Não somente no período de domínio da coroa Espanhola como mesmo antes, já muitas potências europeias cobiçavam e não perdiam a oportunidade de conquistar praças-fortes portuguesas e respectivos territórios adjacentes, em três continentes: Na América do Sul, na África e na Ásia.

A Inglaterra dominava no final do século XVI, as vias marítimas. Apesar dela ter sido aliada de Portugal nos dois séculos  anteriores, agora estava em guerra com os portugueses: Estes pertenciam - desde a perda da independência - ao império dos Habsburgos, no qual Portugal tinha sido incorporado, tendo de fornecer, entre outras coisas, navios de guerra para a "Invencível Armada". Esta - como é sabido - sofreu uma derrota tremenda no Canal da Mancha, ao largo das costas Inglesas, em  1588.

As potências europeias faziam guerra entre si, na Europa e também  se guerreavam nos domínios coloniais respectivos. Por exemplo, os Holandeses tomaram aos portugueses pedaços substanciais de territórios no Brasil e na Ásia do Suleste, pontos nevrálgicos para o império marítimo português. 

Os piratas e corsários interceptavam navios nas rotas comerciais, atacando navios mercantes carregados de bens valiosos, desde ouro e prata, até às especiarias. Os sobreviventes destes ataques eram vendidos como escravos, no Norte de África, principalmente. Este era, geralmente, um comércio muito lucrativo.  Os piratas libertavam os cativos, mediante o pagamento de avultado resgate. Mesmo países com poderosas armadas e soldados embarcados, para proteger os navios de comércio, sofriam grandes perdas.

O comércio trans-oceânico, por mais lucrativo que parecesse, à primeira vista, não o era, por causa de numerosos fatores de risco: Além da pirataria, havia  quantidade de naufrágios. Os países europeus gastavam somas colossais para manter o seu império: Tinham de construir e manter a frota de guerra,  construir fortalezas e as guarnecer com forças militares, em pontos estratégicos costeiros. Tinham frequentes perdas de mercadorias. 

Sobretudo, tinham grandes perdas humanas, na altura em que a população era um décimo da de hoje: Portugal continental hoje, tem cerca de 10 milhões de habitantes; nos finais do século XV e durante todo o século XVI, teria cerca de 1 milhão, apenas. 

Por todos estes motivos, a colonização, não apenas portuguesa, como de todos os poderes marítimos, nos séculos XV, XVI e XVII, não foi a operação lucrativa tão grande que se imagina. Embora as metrópoles beneficiassem do afluxo do ouro, da prata, ou de produtos de luxo (pedras preciosas, sedas e tecidos caros, marfim, especiarias), as suas despesas cresceram exponencialmente. Em Espanha e Portugal, por outro lado, deu-se o abandono dos campos e a consequente falta de braços para trabalhar a terra, originando a incapacidade duma auto-suficiência  agrícola, além de inflação severa e persistente. Terão  sido estes, os principais factores que levaram à decadência as estruturas económicas e sociais dos reinos ibéricos. 

Pelo contrário, os países do Norte da Europa viveram a sua época de ouro, ao receberem e transformarem o que vinha dos reinos de Portugal e Espanha. O nascimento e desenvolvimento das indústrias do Norte da Europa, aconteceu  em paralelo com a contração das economias portuguesa e espanhola. 

O resultado foi que os países ibéricos gastavam o maná proveniente das suas possessões do ultramar para pagar a importação de muitos produtos, incluindo alimentares. Foram ficando cada vez mais endividados,  porque tinham deixado de produzir o essencial. Nem tinham já o dinamismo económico necessário para tirar partido das matérias-primas que lhes chegavam das suas colonias. Tinham de fazer despesas avultadas para manter sua frota militar e seu exército, para o controlo de terras distantes. O declínio demográfico acentuou-se numa espiral descendente.

A importação maciça de escravos africanos para trabalhar nas fazendas das Américas (os dois sub-continentes americanos e as Caraíbas), foi uma consequência do genocídio dos ameríndios, como um contemporâneo destes horrores, Frei Bartolomeu de las Casas, descreveu. Assim, o tráfico de africanos - durante séculos - enriqueceu os donos dos navios negreiros que faziam a travessia do Atlântico e os fazendeiros do Novo Mundo, que exploravam o trabalho escravo,  quase gratuito e abundante. A famosa «acumulação primitiva», do capitalismo nascente foi - sobretudo -  uma acumulação de riqueza obtida pelo trabalho escravo. O sistema da escravatura só começou a ser desmantelado nas Américas, na segunda metade do século XIX. Depois disso, ela ainda continuou em muitas colónias de África.

Sem dúvida, a história dos impérios coloniais não é algo de que os povos colonizadores se possam orgulhar. Porém, a forma como estes impérios se desmoronaram é (ou devia ser) motivo de aprofundado estudo, político e económico. 

Eu não sou competente para fazer a História dos imperialismos. Porém, devo salientar o facto dos cidadãos meus contemporâneos estarem, de novo, a ser alimentados com narrativas falsas,  que branqueiam as eras coloniais passadas. Serve tal branqueamento para sustentar ideologias reaccionárias e racistas. A  ignorância que está  na sua origem, vem ao de cima, quando se  manifesta o desprezo pelos povos das ex-colónias

Nota-se hoje, que estas ideologias são de novo propagadas por sectores de extrema-direita, em países europeus. Assim, os povos são mantidos no medo «do outro» e condicionados para uma nova guerra mundial.

terça-feira, 1 de julho de 2025

SOBRE RELIGIÃO



 Tenho verificado que a humanidade «precisa» de religião. Mesmo os regimes oficialmente ateus, são portadores de uma forma de religião, de culto. 

Mas, aqui irei falar no sentido tradicional de religião: O culto, a adoração de Deus, ou Deuses. 

As religiões são, por regra, crenças codificadas em livros, códices, corpus de doutrina, que se perpetuam como cânon, ao qual se somam ou se agregam textos explicativos e toda uma iconografia, mais ou menos simbólica, mais ou menos descritiva, da forma como os fiéis se identificam aos valores morais, éticos, filosóficos implícitos das supra-citadas doutrinas. 

Para mim, como habitante do Oeste europeu, a religião cristã teve sempre uma influência decisiva, quer na forma como construí os valores morais, quer como apreciava as expressões da arte. As formas sacras efetivamente predominavam, apesar da laicização da arte, ocorrida sobretudo desde o século XIX. 

Isto não significa que tenha vivido numa atmosfera imbuída de religião. A minha religião, se assim se pode chamar, foi sempre a veneração das obras, humanas, mormente as suas expressões cimeiras, na música, na pintura, escultura e arquitetura,  que, no meu universo cultural, eram muitas vezes inspiradas pelo cristianismo. 

A minha curiosidade levou-me a aprofundar, tanto os aspectos formais da arte sacra, como seus conteúdos implícitos ou explícitos. Assim, embora nascido em «berço ateu», fui sempre um «cristão cultural», durante boa parte da minha vida, sem o saber.

O fenómeno religioso é de importância decisiva em relação à compreensão da História, da Sociologia e mesmo, da Psicologia. As construções em torno das suas doutrinas são uma parte importante da própria vida intelectual dos séculos passados. Lembro que há uns três ou mais séculos, as pessoas davam a vida, sacrificavam-se pela sua fé, sem questionar essa mesma fé. 

Os humanos de há pouco tempo atrás, tinham ainda guardado esse sentido do sagrado, que não era questionável, fazia parte de seu ser assim como de toda a sua vivência pessoal, da sua família, da sua nação. O questionamento da religião surge a partir de meados do século XVII, nalguns países europeus, mormente sacudidos recentemente pelas guerras de religião e onde balbuciavam os primeiros avanços do método científico.

A oposição entre religião e ciência tornou-se, justamente nestas sociedades da Europa ocidental, uma questão que apaixonou os espíritos, em particular os mais filosóficos, que vieram a constituir o chamado Iluminismo. Mas, este não trazia verdadeira resposta aos dilemas que ele próprio levantara: o seu paradigma mecânico do Universo era demasiado fruste, podia facilmente ser visto como simplista e demasiado afastado do real. 

As crispações dos dogmas, por um lado e das visões menos convencionais da religião, por outro eram conducentes a posturas  de intolerância. Nessa altura, abundavam os "açaimes" e as "viseiras" do espírito. No século XIX seguinte, rico em polémicas políticas e filosóficas, além de ser palco de muitas transformações políticas e sociais, houve realmente lugar para diversas correntes, como sejam as liberais, anarquistas, comunistas, cooperativistas, nacionalistas, etc, etc, que agregavam à  sua doutrina política uma explicação totalizante da sociedade e do Universo. Em suma: eram sistemas que pretendiam abarcar, não apenas a totalidade das sociedades humanas, como da Natureza. 

As Leis universais que regiam o Cosmos pareciam estar firmemente fundamentadas na observação e na experimentação. Surgiu então um novo tipo de religião, o «cientismo», o qual pretendia reduzir tudo a movimentos mecânicos, desde os indivíduos e o funcionamento dos seus órgãos, até à alma, descrita como sendo uma função eletroquímica complexa do cérebro. Neste paradigma de cientismo ou de dogmatização pseudo-científica, evoluiam muitos dos espíritos mais inclinados para a ciência, nos séculos XIX, XX e mesmo XXI. 

Este cientismo esteve muito presente no  que, nesse tempo, chamavam de «materialismo», cobrindo «do véu da ciência» suas congeminações e teorias mecanicistas. Desgraçadamente, milhões de humanos sofreram uma lavagem ao cérebro, com as ideologias do «materialismo dialético» e «materialismo histórico». Poucos foram as pessoas que se emanciparam dessa doutrinação, ainda menos as que ousaram publicamente pôr em causa este sistema ideológico.

A grande tragédia, quando observamos as coisas do lado dos oprimidos, é que os opressores têm, praticamente, todos os meios de exercer o poder: Assim, os que têm uma visão alternativa, ou a mantêm em segredo ou terão  de sofrer, em consequência de terem desafiado os poderosos.

Na transição para o século XXI, face a uma série de crises e de mudanças em grande escala, algumas ainda em curso no presente, houve oportunidade para afirmar o que antes seriam consideradas heresias, em relação ao establishment. A crise dos sistemas políticos, económicos e civilizacionais, vai sempre de par com crises em termos espirituais, das visões do mundo e dos valores... Neste aspecto, a crise presente não difere, de maneira significativa, de múltiplas outras crises conhecidas na História da Humanidade. 

Com um renovo da espiritualidade, abre-se um leque muito mais vasto, que o das religiões instituídas: Permite a avaliação não-etnocêntrica, de complexos religioso-espirituais diferentes do nosso. Não se deve confundir esta constatação com  relativismo moral ou sincretismo. Tem a ver com a constatação da existência de constantes antropológicas, numa abortagem respeitadora das outras civilizações, ao contrário da etnologia do passado, imbuída de preconceitos coloniais e racistas.

Tudo isto permite que coloquemos a questão central do papel da religião, da noção do sagrado, do reconhecimento da nossa inserção no Universo, que percebemos e que nos ultrapassa. No plano sociológico, nota-se que todas as sociedades têm uma ou outra forma de religião, sendo falsas as narrativas que apresentam tal ou tal povo remoto, como «sem religião»: A visão eurocêntrica e colonial dos antropólogos projetou-se nos povos que vivem (viviam) em simbiose com o ambiente natural. As suas lendas e crenças particulares adotavam uma religião, que não se definia através de objectos sagrados, causando a confusão de etnólogos apressados, ao anunciar uma «sociedade sem religião».

O empobrecimento da espiritualidade, que se traduz na valoração dos aspectos materiais sobre os espirituais, na adoração da riqueza e do poder como metas, para as quais tendem quase todas as pessoas, já para não falar da ausência da ética e de sentido do dever, em favor do princípio do prazer... São sintomas de decadência, de empobrecimento intelectual e espiritual. Dificilmente, veremos uma mutação  civilizacional  que restaure o equilíbrio entre aspectos espirituais e materiais, nas sociedades globalizadas do século XXI.

Se a minha visão do presente estiver correta, tenho de colocar como futuro mais provável, a decadência continuada, a involução, que poderá arrastar-se durante muitos decénios. Muito menos provável é que sobressaltos políticos nos venham trazer alguma modificação substancial neste aspecto. Digo isto, porque somente uma revolução do tipo anti-autoritária e libertária poderia abrir novos caminhos à aventura humana, e não consigo imaginar como uma tal revolução conseguisse brotar e perdurar, no contexto atual. Nenhuma revolução autoritária do passado, nos trouxe, de facto, uma subida do nível espiritual nas massas.


terça-feira, 3 de junho de 2025

«A ORDEM A PARTIR DO CAOS» ?

 









Tenho encontrado muitas vezes este conceito de que uma «nova ordem» possa resultar da desordem, do «caos». Esta formulação tem sido aplicada por muitos. É um conceito partilhado pelos revolucionários que ambicionam derrubar a «ordem vigente», para impor a «sua nova ordem», uma ordem nova, superior tanto no plano moral, como material.

Esta ideia é traçável até bastante longe, no tempo. Foi muito propagada nas sociedades secretas que se fortaleceram nas vésperas das grandes revoluções burguesas no século XVIII, a Revolução Americana e, alguns anos depois, a Revolução Francesa.

Sabemos que o papel das sociedades secretas, como a Maçonaria, os Illuminati e outras, foi decisivo para agregar forças e vencer as monarquias vigentes: A monarquia absoluta, no caso francês, ou o poder colonial, no caso da colónia americana da corôa britânica.

A ideia segundo a qual «do caos possa nascer uma nova ordem», é contrária às Leis da Física. A IIª Lei da Termodinâmica define que qualquer transformação, num sistema fechado ou isolado, não pode conservar 100% da energia presente no momento inicial.

Pode haver percentagem maior ou menor de perda energética, sob forma de calor, mas toda a transformação energética (por ex.: a transformação de energia química, em energia cinética) implica aumento da entropia, ou seja, há uma fração de energia que não pode ser conservada, nem recuperada.

Mas, no século XVIII as leis da termodinâmica ainda não tinham sido formuladas. Portanto, podemos admitir que os melhores espíritos (como Lavoisier, Benjamin Franklin, e muitos outros),  julgassem ser possível uma transformação tal que do caos, surgisse uma nova ordem.

De facto, os espíritos esclarecidos do século XVIII e protagonistas da filosofia das Luzes, tinham o modelo subconsciente de tal transformação do caos em ordem: Era o modelo da Criação, tal como está descrita na Bíblia. Mesmo os que tinham abandonado a fé cristã, tinham absorvido este modelo bíblico. Ainda não se desenvolvera, em larga escala, a visão evolucionista da Natureza. Só mais tarde isso aconteceu, quer na formulação Lamarckiana, quer Darwiniana.

Somente começou a ser possível uma ciência do «Caos e da Ordem» em meados do século XIX, durante a revolução industrial triunfante: É nesta altura que a ideia de transformação do caos em ordem começa a ser posta em causa, com o nascimento da Termodinâmica, a ciência da Energia, com Sadi Carnot, Bolzmann, J.W. Gibbs e William Thomson (Lord Kelvin).




A ideia maçónica da revolução (o caos), que seria a parideira da nova ordem, continuou a ser defendida e teorizada por intelectuais revolucionários no século XIX. Em particular, por Marx, o qual pretendia que suas teorias eram científicas. Em geral, todos os teóricos da revolução social, seguidores ou não de Marx, tomavam como verdade evidente este conceito de que "a ordem podia ser engendrada a partir do caos".

Nos séculos dezanove e vinte, múltiplos avatares desta ideia agitaram as massas, frustradas pelas suas condições de vida e pela exploração do seu trabalho pelos donos do capital. Sabemos que a burguesia aproveitou movimentos progressistas, até mesmo revolucionários, para se impor com maior eficácia. Frequentemente, ao colocar-se na liderança, o elemento burguês acabava por instrumentalizar os protestos para satisfazer as suas ambições políticas (1).

A utilização do caos para fins políticos é uma constante na História: Mas, a transformação da «ordem antiga» em «ordem nova» tem sido, frequentemente desfavorável à grande maioria. São tipicamente resultantes de revoluções, os regimes com repressão e subida ao poder duma clique governante.

A «revolução» portuguesa do 25 de Abril parece excepção. Porém, ela apenas substituiu uma facção por outra (uma burguesia fascista, por uma burguesia liberal) no governo. De resto, nas revoluções, em geral, há mais mortes e maiores sofrimentos, não nas fileiras dos opressores, mas nas dos insurrectos.

Quanto às revoluções (aparentemente) bem sucedidas, como o bolchevismo ou o maoismo, foram-no não por qualquer propriedade intrínseca destas convulsões (sangrentas), mas porque libertaram energias para a modernização da estrutura produtiva nestas sociedades e completaram a revolução industrial. Note-se que tanto os regimes czarista da Rússia, como de Chang Kai Tchek, na China, não tinham condições para levar a cabo as transformações acima mencionadas.

O capitalismo, por muito que seus defensores digam o contrário, não é amigo da ordem. Tem multiplicado o caos, através de golpes de Estado, guerras civis, guerras entre países, incluindo guerras «por procuração» (proxi wars). No século passado e neste, tem favorecido perigosamente o confronto entre potências nucleares.

Diz-se que as ideias não têm peso no mundo real, porém a ideia difusa, ainda presente em muitos espíritos, de que «uma nova ordem vai brotar a partir do caos» pode causar muita confusão. É uma ideia falsa em Física e perniciosa em História e Sociologia.

De entre as ideias falsas, esta tem um potencial devastador (2), pois coloca as pessoas a desempenhar papéis que - julgam elas - conduziriam ao «Paraíso na Terra». No entanto, só produzem um «Inferno», pois do caos só pode sair mais caos.

Quanto à ordem, ela só pode ser originada a partir do investimento de energias construtivas, que permitem elevar a sociedade a um novo patamar de organização/civilização.
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(1) Os autoritários de todas tendências,  da extrema direita à extrema-esquerda, passando pelo "extremo-centro", sempre consideraram a violência geradora do caos, como bemvinda, desde que os ajudasse a guindarem-se ao poder.

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(2) O mais claro exemplo disso, é a guerra: Esta é o caos, e a ordem dela resultante é a «paz dos cemitérios». 

domingo, 4 de maio de 2025

CRIAÇÃO DE ISRAEL PELOS OCIDENTAIS: Entrevista a Saïd Bouamama

 Esclarecedora entrevista efetuada por Michel Collon, ao militante argelino Saïd Bouamama (Forum nº1)

Tal como na 1ª NAKBA, nesta NAKBA Nº2, o horror é «ignorado» pelas potências ocidentais. O mesmo se passou com os responsáveis pela criação artificial do Estado de Israel. Em 1947, a criação do Estado de Israel resultou, aparentemente, do gesto da ONU de então, para remediar o Holocausto judeu na 2ª Guerra Mundial. Mas, na realidade, foi um ato de negação dos direitos humanos elementares da população autóctone palestina, traída pelos países que dominavam a ONU, em 1947-48.





sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Reflexão: POLÍTICA E SOCIEDADE

 Dizia-me, há anos, um amigo e companheiro: «quem se mete na política, é como se aceitasse mergulhar num barril de merda». 

Pois, é verdade que algumas pessoas se têm metido na política com a melhor das intenções e têm mergulhado "na merda" com a convicção de estarem imunes à contaminação que este ato implica. A política é feita por homens, não por anjos ou figuras etéreas, e ainda menos por ideias. 

A maioria das pessoas deixa-se arrastar por ideias que as entusiasmam, muitas vezes, na adolescência. Isto abona a favor dos seus instintos humanos, quererem ajudar a «curar os males» do mundo. Mas os males são tantos, que a única forma de servir com inteligência uma causa, seja ela qual for, é com agudo sentido crítico e auto-crítico. Além disso, é preciso constantemente monitorizar a política que está a ser realmente realizada (muitas vezes por detrás das cortinas) onde se tomam decisões, cujos efeitos todos nós vemos: A «evolução» da economia mundial, de crise em crise; a «evolução» da geo-política, de guerra em guerra; a descida da humanidade para novos horrores às mãos dos poderosos.

Surge então a pergunta inevitável: «Que fazer?»



Ao contrário de Lenine e do bolchevismo, não preconizo estratégia(s) para "conduzir" os oprimidos à revolução.

Tal revolução, se acontecer de forma violenta, será um banho de sangue seguido da ascenção ao poder dum ditador ou dum novo bando. Estou convencido que as revoluções políticas não mudam o substrato profundo do poder. Elas apenas substituem uma fração da classe dominante por outra fracção, no governo do Estado.

Constato que na história da Humanidade só existiram duas Revoluções realmente transformadoras na base, ou seja, nos modos e nas relações de produção:
- A Revolução Agrária, começada há mais de dez mil anos e com continuação, como se pode verificar, até aos dias de hoje;
- A Revolução Industrial com, pelo menos, três centenas de anos e que também se prolonga até hoje.

Ambas têm muitas etapas, condicionadas por inúmeras transformações tecnológicas, por mudanças na chefia do poder político, etc. Porém, a relação dos humanos aos meios de substistância é -basicamente- a mesma:

No caso da Revolução Agrária, com a agricultura e a pastorícia, trata-se do domínio duma parte da Ecosfera pelos humanos. Esta modificação radical engendrou as primeiras civilizações. Estas, por sua vez, foram alargando o seu espaço e culminaram num certo ponto: Quando a capacidade de extraír riqueza e de manter o controlo sobre os territórios e as gentes atingia um máximo, começava então o declínio lento ou rápido, seguido pelo colapso e o caos.

Com os impérios e regimes resultantes da Revolução Industrial passa-se algo de muito semelhante, embora tendo em conta que ela foi «transmutada» em revolução tecnológica digital, recentemente. Nesta, a digitalização, a robotização, as redes de informação, etc. têm papel muito relevante; porém, a base material continua a ser a fábrica, onde se produzem as componentes físicas (= o hardware) nesta etapa da Revolução Industrial.

Considero que esta perspectiva da história humana se baseia em fatores reais e não em ideologias, religiões, sistemas de crenças ou teorias científicas na moda.
Esta perspectiva não é, de forma alguma confundível com o Materialismo Histórico*, nem sequer com uma versão atualizada desta teoria marxista da História. A nossa visão do mundo é incompatível com os dogmas marxianos.

O mito da «capacidade profética»  do marxismo, é somente a expressão do cientismo dos Séculos 19 e 20. Enquanto narrativa mitológica, funciona como religião, embora se apresente como ideologia ateia: 
- Os ideólogos pretendem operar a transformação da sociedade ao nível do discurso ("No princípio era o Verbo"), das motivações psicológicas e da representação do mundo fabricada pelas vanguardas, as pseudo-elites, quer estejam no poder ou na oposição.

Muitas pessoas bem intencionadas estão emotivamente ao lado dos deserdados da Terra, os três quartos da humanidade que sobrevive com o mínimo vital, ou abaixo desse mínimo.
Mas, para que estas pessoas - cheias de idealismo e bem intencionadas- tenham um papel positivo, têm de mudar profundamente o seu sistema de pensamento (conservando os seus valores éticos). 
Têm, honestamente, de examinar as críticas doutras pessoas, em especial, as de correntes anti-capitalistas e anti-autoritárias, das que não sejam do mesmo partido, ou corrente, ou que sejam apartidárias. 
Isto seria o primeiro passo.

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* Ver artigo deste blog«Materialismo histórico» é uma ideologia inventada por Marx e por Engels, sobretudo para justificar a sua teoria política, de que a sociedade, fatalmente, iria transformar-se em socialista e, depois, em comunista.

sábado, 7 de setembro de 2024

A REALIDADE DA CRISE GLOBAL CAPITALISTA


Para muitas pessoas, a «verdade histórica» são os lugares-comuns e as narrativas adequadas a colocar os EUA e o Ocidente, em geral, no centro dessa História, ainda por cima, como «atores bem intencionados» da mesma. Eu vejo que isto acontece também na Europa, fortemente influenciada pelos EUA; existe o mito de que aquilo que acontece nos EUA, vai influenciar o resto do Globo. Primeiro, porque é um país imenso, um país-continente. Depois, porque foi, durante muito tempo, líder mundial na produção industrial; continua a ser o maior na riqueza acumulada, se vista dum prisma financeiro.

As distorções mais graves constatam-se em determinadas narrativas favoráveis aos defensores do capitalismo e dos impérios coloniais, relativamente ao ascenso dos fascismos e como uma crise económica e financeira mundial, se foi transformar na IIª Guerra Mundial. 

De facto, o que acontece hoje em dia, possui muitos paralelos com as relações conflituosas entre potências importantes à saída da 1ª Guerra Mundial (1918) e até ao desencadear da 2ª Guerra Mundial (1939). A existência de graves tensões resultantes das exigências, na negociação de paz de Versalhes, pelos aliados vencedores da 1ª Guerra Mundial, em relação à Alemanha vencida, foi originar uma grave crise de hiperinflação neste último país (de 1922-23), que deu alento a grupos de extrema-direita. Estes coalesceram no partido Nazi. As mudanças de políticas em relação à Alemanha, ao seu rearmamento, a tolerância em relação à Itália fascista de Mussolini, nomeadamente, à guerra na Abissínia e à guerra civil de Espanha (que logo se transformou em guerra internacional), foram fatores importantes na subida e consolidação de fascismos em vários países europeus, quer já tivessem alcançado o poder, quer fossem forças organizadas e prontas para levar a cabo golpes de Estado.   

O que todos podemos constatar - para  lá das divergências relativas à História - é que as crises económicas e financeiras, desencadeadas pelas políticas dos bancos centrais, dos governos, ou de ambos, levam de imediato a crises sociais, as quais vão gerar movimentos revolucionários, tanto de esquerda como de direita. 

As instabilidades no tecido económico e social, não podem ser remediadas pelo tipo de medidas usadas pelos governos, sejam elas fiscais ou económico-financeiras. Os poderes - então - recorrem à repressão. Mas, a deriva autoritária dos governos não tem qualquer efeito benéfico na economia. O que é simples de perceber: Numa sociedade industrial, o escoamento e consumo das mercadorias é fundamental para o funcionamento de todo o sistema. Porém, a capacidade aquisitiva da classe trabalhadora e da classe média diminui acentuadamente, num contexto destes. O fracasso das políticas internas tem levado os governos a procurar «unir a nação» contra um inimigo externo. Leva, também, a que a casta militar e por trás  dela, a indústria bélica, seja ouvida e que suas «soluções» seduzam a casta dirigente. 

Se virmos o período entre o fim da 2ª Guerra Mundial e hoje, constatamos que nunca houve paz, propriamente dita. Houve sempre conflitos armados, quer causados pelo choque entre nações independentes, ou por nações que lutavam pela emancipação do jugo colonial de uma potência europeia, ou contra o neocolonialismo, principalmente dos EUA. Outra constatação, é de que a capacidade instalada e a produção de armas e material de guerra esteve sempre em crescendo. Os fundos atribuídos ao complexo militar nos orçamentos de Estado das grandes potências foram sempre aumentando. 

Tudo o que sabem fazer os Estados, os seus governos e corpos legislativos, sob influência dos lobbies das grandes empresas e grupos económicos, é criar ou aumentar as despesas, aumentando o défice das contas públicas, criando problemas de insolvabilidade, que tentam remediar, criando mais dinheiro. É como se tentassem tapar um buraco no solo, cavando outro ainda maior. 

Chega um ponto em que, ou forçam o «apertar do cinto» na população (as políticas de austeridade) e arriscam-se a desencadear uma revolta; ou continuam a gastar o que não têm, através da «impressão» de dinheiro eletrónico, fazendo disparar a hiperinflação. Teoricamente, existe outra solução: A de transformar a estrutura produtiva e de propriedade, o que se poderá designar como uma transformação socialista. Mas, os partidos de governo nos países europeus excluem esta hipótese, mesmo quando têm «socialista» no seu nome!

As crises no capitalismo estão inscritas no seu próprio «ADN». São motivadas pela impossibilidade do capital auto-moderar o seu apetite pelo lucro. 

O mantra que ensinam nas escolas de economia do Ocidente é que a empresa que não tentasse maximizar os lucros, estaria condenada a prazo, pois as empresas concorrentes não teriam problemas em tomar posições nos mercados para obter esses mesmos lucros.

Os países são empurrados para a guerra pelos dirigentes políticos e por empresários que têm vantagens nisso (ou pensam que têm). A guerra é um meio cruel, brutal e eficaz de destruir o excesso de capital, sob forma de instalações produtivas, excesso esse associado aos excedentes de produção de mercadorias. 

Por detrás de qualquer guerra perfilam-se interesses económicos: Eles são facilmente detectáveis, se descartarmos os argumentos da propaganda, de um lado ou do outro.  

Os EUA empurraram a Ucrânia para a guerra, para poderem colocar em cheque a progressão dos BRICS. Esperavam quebrar a unidade dos BRICS, mas enganaram-se, pois não apenas esta se mantém, como se alargaram os membros e os candidatos. Por outro lado, o imperialismo americano estava muito preocupado com a indústria alemã, com a sua competitividade, em parte devida ao fornecimento de energia barata pela Rússia. Conseguiu o imperialismo, pelo menos no curto prazo, resolver o problema ... com a sabotagem dos gasodutos Nord Stream. Esta sabotagem precipitou a Alemanha na maior crise industrial do pós 2ª Guerra Mundial. Muitas fábricas, por causa do aumento do preço da energia, fecharam portas na Alemanha e foram instalar-se nos EUA. Gigantes como a Volkswagen estão em dificuldades ou à beira da falência, ao  ponto de encararem o fecho de suas fábricas na Alemanha.  

A guerra económica com a China destina-se a impedir que os aliados dos EUA estabeleçam laços com o maior produtor industrial do mundo (a China): Querem manter o mercado Ocidental cativo, para escoamento dos produtos dos EUA e dos seus comparsas. Para dominar, os EUA não hesitam em dividir o Mundo em dois nos planos político, económico, militar e civilizacional. Mas, tal ambição é desastrosa e - felizmente - já se começa a compreender, mesmo nas fileiras pró-capitalistas, que ela só pode trazer guerra e miséria. 

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Estamos às Portas de uma Nova Idade Média [Dra. Marguerita Torres & Coronel Baños]

«Estamos a trair a herança de milhares de homens e mulheres que se sacrificaram, entregando a nossa liberdade aos novos senhores, por um prato de lentilhas (transgénicas)»

Historiadora Marguerita Torres

[legendas automáticas em espanhol]

A conversa entre a historiadora medievalista Marguerita Torres e o politólogo coronel Pedro Baños, é mais que interessante; é um raro momento de esclarecimento.


PS: Veja um exemplo de neo-feudalismo; Blackrock está a apoderar-se de imobiliário pelo  Mundo: 

https://www.youtube.com/watch?v=88VU1JjmEps&t=150s

quarta-feira, 17 de abril de 2024

COMO SITUAR O CONCEITO DE «REVOLUÇÃO», NA HISTÓRIA?

 A história que nos é ensinada nas escolas, desde há gerações, segue uma vulgata marxista, o mesmo é dizer, que é algo ideológico.

No cerne dos preconceitos que enformam as gerações de estudantes formados após o 25 de Abril de 74, sobressai o de «revolução». Nenhum conceito poderia ser ensinado de modo mais confuso e mais ideológico. Fala-se de revolução a torto e a direito, a propósito de golpes de Estado e outros derrubes mais ou menos violentos, em contradição com os sistemas políticos instituídos.

Mas, na verdade, não houve senão duas revoluções, no sentido marxista (sem ironia!): pois a teoria marxista acentua o facto de uma revolução implicar profundas modificações no modo de produção, por sua vez, transformando as relações sociais, em profundidade e de modo duradoiro. A partir da consolidação da nova ordem, muitos aspetos super estruturais das sociedades, ficam profundamente modificados.

Para se aderir a esta visão do que seja «a revolução», teremos necessariamente de excluir as «revoluções políticas», as mudanças políticas, mesmo que elas nos pareçam muito significativas. De facto, o que é apontado como revoluções não o foram, por certo; mas foram antes epifenómenos de algo que estava a agir em maior profundidade.

A «revolução francesa», por exemplo, foi o derrube de uma ordem monárquica mas, nem por isso foi a transformação radical da forma produtiva, nem sequer da dominância das classes. A transição da sociedade agrária para a sociedade industrial estava muito avançada quando, a 14 de Julho de 1798, um grupo de populares parisienses tomou a Bastilha. As relações de produção continuaram as mesmas, antes e depois da «revolução», não foi pelo facto de um certo número de cabeças rolarem, nem de propriedades, que antes pertenciam a aristocratas, passarem a pertencer a burgueses, que se modificou em profundidade a relação entre as classes e nem sequer ao nível do poder político. Note-se que os cargos políticos, já antes da chamada revolução, eram largamente ocupados por elementos da alta burguesia, os quais exerciam esses cargos no poder central e provincial do Estado, muitas vezes relacionados com funções legislativas e da justiça. Mesmo nos altos postos das forças armadas, um campo supostamente reservado à nobreza, as classes não nobres iam progressivamente tomando conta de mais e mais postos. Não devemos ficar iludidos pelo facto do monarca enobrecer um alto funcionário ou uma alta patente do exército: era uma forma, por um lado, de mostrar confiança nesse indivíduo e, por  outro, demonstrar que, servindo o reino, se podia ascender aos cargos e privilégios mais elevados, independentemente da origem social. Napoleão, auto- coroando-se de imperador dos franceses, apenas acentuou essa tendência, que já vinha de longe, criando uma nova  aristocracia, desde barões a príncipes.

Não se encontra, no domínio  da política, nenhum aspeto de fundo que tenha modificado realmente a estrutura das relações sociais. Alguns burgueses tiveram oportunidade de enriquecer, tomando as propriedades das ordens religiosas. Note-se que, eles já pertenciam aos extratos elevados da burguesia, quando compraram (por bem pouco!) os bens das ordens religiosas, postos à venda pelo Estado «revolucionário». 

Poderíamos facilmente mostrar que, ao longo do período napoleónico, contrariamente à mitologia, as classes populares (operários, artesãos, camponeses), não só ficaram subjugadas pelos mesmos ou por outros senhores, como se acentuou a proletarização brutal. Foram colocadas pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e incluindo crianças, numa relação de dependência e precariedade, que se traduziu em miséria para as classes populares urbanas. As pessoas esquecem muitas vezes a enorme sangria que foram as guerras revolucionárias e napoleónicas: Durou cerca de 25 anos, em várias partes da Europa. Foi um rasto de destruição «a ferro e a fogo», desde Lisboa  até Moscovo. Estas guerras forçaram comunidades rurais inteiras a migrarem para as cidades, visto que as suas explorações agrícolas tinham sido devastadas ou tinham perdido sua viabilidade económica. 

Do ponto de vista estritamente político, após as guerras napoleónicas reconstituiu-se rapidamente a aliança entre a alta burguesia e a aristocracia. Os governos e monarquias constitucionais que se formaram em quase toda a Europa, são o resultado disso. De fora, ficaram apenas elementos mais radicais, como os republicanos, que continuaram a ser perseguidos: não houve «liberdade de imprensa», nem liberdade de qualquer espécie, durante largos períodos do século XIX, tanto nos países onde tinha havido forte apoio às ideias revolucionárias, como nos que não se deixaram seduzir por elas.  

Na verdade, o fenómeno político, as revoluções liberais, anti autoritárias, anti monárquicas, que houve ao longo do século XIX, são sobretudo o epifenómeno duma profunda transformação na estrutura produtiva. A revolução industrial, que se tinha desenvolvido bem antes, desde o século XVIII, pelo menos, estava a transformar as relações entre classes em profundidade, mas de uma forma silenciosa, não em consequência de qualquer proclamação de princípios revolucionários. O que houve de revolucionário (sem aspas) ao nível da produção, foram, entre outros, a primeira mecanização, a utilização de máquinas a vapor e a concentração de trabalhadores em grandes manufaturas. Estes, eram frescamente saídos dos campos, onde seu trabalho deixou de ter viabilidade económica. 

A concentração de proletários nos centros urbanos, por sua vez, obrigou à transformação das práticas agrícolas: a utilização de processos mecânicos, a generalização dos adubos, os tratamentos fitossanitários, a maior racionalidade no uso dos solos e das culturas, produziram aumentos significativos da produtividade agrícola. Assim se criaram os excedentes que permitiram alimentar a massa humana cada vez maior, nas cidades industriais, porém utilizando muito menos braços nas tarefas agrícolas.  

Portanto, a revolução industrial é o grande motor das transformações. Estas, não se limitaram ao século XIX:

Obviamente, a «grande revolução russa» correspondeu à transformação do país essencialmente agrário, numa potência industrial moderna. Que esta transformação se tenha operado a partir de 1917 sob um governo despótico, totalitário, não impede que tal transformação tenha sido o principal aspeto estrutural da «revolução russa». Os bolcheviques, para efetivação da sua tomada de poder, souberam aproveitar as simpatias de partes do campesinato e do proletariado citadino, por determinadas ideias sociais, o socialismo, o comunismo e o anarquismo. Estes foram instrumentalizados, por vezes esmagados, para a transformação desejada pela «elite» soviética. Não esqueçamos a famosa fórmula de Lenine: «o comunismo consiste nos sovietes, mais a eletrificação do país».

É estranho, mas os que se dizem marxistas não conseguem fazer leituras objetivas dos fenómenos sociais e políticos, quando neles estão envolvidos partidos e correntes «comunistas». A mesma incompreensão dos fenómenos leva certos «revolucionários auto-proclamados » a fazerem uma leitura totalmente errada do  maoismo e do processo de emancipação da China, da sua passagem de uma sociedade atrasada, com características feudais, para uma grande potência industrial e tecnológica. 

Nós - porém - não estamos bloqueados por preconceitos ideológicos. Temos acesso  a um manancial de factos registados, pelo menos desde o início do século XIX, até hoje: não precisamos de distorcer a realidade, ou de fabricar «narrativas convenientes», para convencer os outros de que temos razão, que estamos na linha justa, etc. 

É necessário compreender que a revolução industrial continua, que ela não parou: não é como um comboio que parte dum ponto, para chegar à estação de destino final. A revolução industrial tem vários episódios, continua a modificar a infraestrutura produtiva, a transformar as relações sociais, a condicionar a vida das nações e dos indivíduos e (como epifenómeno) segrega ideologias, as quais são uma espécie de «secreção» que o tecido social produz, enquanto este vai sofrendo inúmeras micro transformações.

A outra grande revolução na história da humanidade, é a revolução agrária. Ela dura desde há cerca de 10 mil anos. No presente, também continua e as suas transformações estão interligadas com as transformações da revolução industrial. Talvez, um dia escreva sobre a revolução agrária. De qualquer maneira, está tão ligada com as primeiras civilizações, que seria necessário compulsar um número impressionante de dados, só para darmos conta da origem e do desenvolvimento desta revolução agrária. É como fazer a história da humanidade, excetuando o longo período paleolítico.

Não poderei pretender mais, neste pequeno texto, do que delinear as questões teóricas em relação com o conceito de revolução e expressar estranheza, perante a «cegueira voluntária» dos que se assumem como sábios, como sabendo em profundidade as coisas, mas que cometem as mais grosseiras falhas de lógica, de bom-senso, para já não falar de método científico. Não poderei convencer tais  indivíduos de que estão errados. Estão numa esfera do tipo crença religiosa, dentro dos seus casulos mentais, sem nenhuma abertura para a realidade... 

Assim constatei, em vários, ao longo da minha vida. Felizmente, existem espíritos mais abertos, que conseguiram aperceber-se das falsidades que lhes andaram a contar durante boa parte da sua vida. 

Mas, aos outros, que não estejam vinculados às falsas religiões das ideologias, digo-lhes: - Vejam este escrito como chamada de atenção e um apelo ao vosso espírito crítico. Não é por algo ser crença de muita gente à vossa volta, que isso é «verdade», nem tão pouco, que seja a verdade a versão oficial, canónica da História, ensinada desde a escola primária, à universidade! 

Eu não pretendo ser detentor da verdade. Apenas tento equacionar os dados do problema ... claro que posso também me enganar. Porém, espero que o meu comportamento desinibido desencadeie nalguns o desejo de inquirir estes assuntos por eles próprios.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

HISTÓRIA DO FIEL AMIGO BACALHAU

 

                             Gadus morhua (o bacalhau)

Os portugueses sabem: O bacalhau tem, em terras lusas, o cognome de «fiel amigo». Este cognome não lhe é conferido em vão. Muitos tiveram e têm nutrição adequada em proteína e noutros nutrientes,  graças ao peixe seco e conservado por salga que, depois de demolhado, pode ser cozinhado,  literalmente, de mil e uma maneiras diferentes.

                                 Seco, salgado e dependurado...

Quem é tradicionalista, em termos culinários, não dispensa o bacalhau cozido na ceia de Natal, acompanhado com couves e batatas cozidas. Condimentado com bom azeite, este prato honra a mesa da Consoada nos lares portugueses, desde tempos imemoriais. Mas, a verdade é que os portugueses consomem bacalhau em qualquer altura; é um prato tradicional e quotidiano, não apenas da época natalícia.


                                         «Fiel amigo» depois de cozinhado...


O documentário abaixo fala da importância do bacalhau na história dos povos basco e viking, em particular. Os peixes em salga e o bacalhau também devem ter desempenhado um importante papel na alimentação das tripulações durante as viagens ultramarinas dos portugueses. Além de que, durante séculos, foi crucial na alimentação das classes populares. Estas, não tinham o poder económico para consumir carnes, ou peixes frescos. Graças ao bacalhau, muitos pobres não sofreram de insuficiência proteica e das doenças associadas.

A epopeia da pesca do bacalhau está relacionada, no documentário, com os mais diversos eventos políticos, guerras, comércio, tráfico de escravos, etc. É uma magnífica resenha histórica, que explica porque as zonas atlânticas ricas em bacalhau, no Canadá, ao largo da Terra Nova, foram tão cobiçadas. O documentário condensa, em 1 hora e 45 minutos, mais de nove séculos de História. No final, teremos de nos render à evidência: O bacalhau é o REI do ATLÂNTICO !





sábado, 26 de agosto de 2023

Tempos Conturbados (refletindo sobre intervenções do professor Jeffrey Sachs)

"I know hot what tomorrow will bring" 
Lembro-me desta citação de Fernando Pessoa, as suas últimas palavras rabiscadas num papel, no Hospital de São Luís dos Franceses (Lisboa, a 30 de Novembro de 1935). 
Ele escreveu - talvez - pensando na sua ignorância do Além (se é que havia, ou não, Vida após a morte). Mas também englobando a sua vida individual, com o destino da humanidade.
 Pois -nessa altura- estava-se no meio da tormenta,  do cataclismo que iria conduzir à IIª Guerra Mundial. As forças entrópicas dominavam. O caos era visível. Dava-se a ascensão de todo o tipo de governos e de regimes autoritários, em pano de fundo de um caos económico, do qual não havia saída. A saída da Grande Depressão foi afinal a pior possível: Foi a «Grande Matança» da Guerra Mundial. Ninguém sabia o que iria acontecer, mas todos percebiam que tremendas coisas iriam acontecer.

A entrevista dada recentemente pelo Professor Jeffrey Sachs fez-me lembrar a citação pessoana, pois o Professor americano, por duas vezes, assinala o facto de ninguém saber como se iria desenrolar o futuro. Ele dava uma nota de incerteza, de angústia, perante as políticas irresponsáveis, criminosas e destituídas de qualquer visão no longo prazo, dos principais dirigentes políticos mundiais: Biden e seu «entourage», mas também Putin e as lideranças da Europa.

Os erros dos líderes pagam-se muito caro. Mas - raramente - são os próprios, quem os comete, que os paga: As vítimas são as pessoas que vivem sob o seu controlo.

Visione o seguinte vídeo do Prof. Sachs:



sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

[Göbekli Tepe] PRIMEIRO VIERAM OS TEMPLOS E SÓ DEPOIS AS CIDADES?

PORQUE COMEÇÁMOS COM ATIVIDADES AGRÍCOLAS? 

(Ativar as legendas automáticas em inglês, para melhor compreensão)

«O LABOR DO HISTORIADOR»

15 de Janeiro, 2023

Porque razão os humanos, após milhares de anos de existência nómada de caça e recoleta, decidiram sedentarizar e começaram a cultivar a terra? Esta é talvez uma das mais importantes questões, à qual os arqueólogos têm tentado responder, desde há um século e meio, até hoje. Quanto ao desenvolvimento da agricultura e a Revolução Neolítica, trata-se ainda de outro mistério. 
No Sul-este da Turquia encontra-se um local arqueológico monumental, o famoso e misterioso Göbekli Tepe. Tanto quanto se sabe, o local de Göbekli Tepe, construído após o golpe de frio do Dryas Recente ter acabado, há 11 700 anos, poderá bem dar-nos uma ajuda na resposta às questões. 
O que, por seu turno, origina outra pergunta: O que foi o Dryas Recente e o que é que o causou? Terá sido a drenagem do Lago Agassiz, na América do Norte? Ou a erupção do vulcão de Laacher See, na Alemanha? Ou ainda, teria sido causado por um asteroide ou cometa? 
Esta última teoria, conhecida como «Hipótese do Impacto do Dryas Recente»,  baseia-se na alteração drástica do clima global no fim da Idade Glaciar. Existem muitos detratores e muitos apoiantes desta teoria, desde os mais credenciados cientistas, até opiniões como a de que o impacto varreu uma civilização da Idade Glaciar, defendida por Graham Hancock e por outros na  recente série da Netflix, «Ancient Apocalypse» .

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

A CRISE DAS RELIGIÕES E O SEU SIGNIFICADO

 Este século,  ainda tão jovem, já está bem cheio de acontecimentos - mas não de quaisquer!

 - Acontecimentos suficientemente graves e irreversíveis para mudarem para sempre a(s) civilização/ões, que estamos acostumados a associar a determinadas zonas geográficas e a determinadas tradições: A História, a Arte, a Literatura e a Religião, são - entre outras - identificadoras de determinado complexo cultural ou civilização. 

Embora saibamos que todas as civilizações são mortais, tal como os humanos, não sabemos que género de morte espera cada uma delas. Será uma morte por colapso catastrófico? Será um definhar progressivo, até ser englobada por outra, ascendente? Serão outras modalidades, demasiadas para enumerar aqui?

As religiões não podem ser estranhas à construção civilizacional pois, em qualquer civilização, mesmo nas que se proclamam oficialmente «ateias», acaba por haver fenómenos de tipo religioso. 

Inversamente, em civilizações que se identificam, a si próprias, como cristãs, nota-se a dissolução progressiva dos laços da população com o elemento cristão. 

Isto traduz-se - por exemplo - numa paganização do Natal, a época do ano em que tradicionalmente os cristãos de todas as confissões saudavam a vinda do Salvador. O mesmo, em relação à paganização da Páscoa, transformada em ocasião para dar ovos e coelhos de chocolate às crianças.

Esta paganização não se faz, no mundo cristão, sob forma de um qualquer ressuscitar das religiões pagãs que antecederam o aparecimento do Cristianismo nesses territórios. Faz-se com o abandono de tradições e, sobretudo, de assistência ao(s) culto(s).  Muitos são aqueles que dizem professar o cristianismo e, no entanto, não observam quase nenhuma tradição, não vão à missa (ou culto) dominical, apenas frequentam igrejas, quando se trata de um casamento, batizado ou enterro. 

O estádio último desta descristianização, verifiquei-o há poucos anos, na belíssima capital da República Checa. As igrejas do centro de Praga (magníficos monumentos barrocos, na sua maioria) estavam transformadas em locais de concertos (de música clássica em geral, mas não de música clássica sacra) e isto não era temporário. Tinham sido permanentemente transformadas em «salas de concerto históricas», pela muito pragmática razão de que o número de pessoas, na vizinhança, dispostas a frequentar essas igrejas era tão diminuto, que elas deixaram de ter sustentabilidade económica e, sobretudo, de centros vivos de cristianismo. 

O principal «culpado» aqui, não é o Estado, diretamente - pelo menos - mas o processo de «gentrificação» dos centros históricos, que também afeta - de modo insidioso, mas brutal - Lisboa e muitas outras capitais da Europa. 

Assim, o turismo, fonte preciosa de divisas e estimulador de atividade económica está a contribuir para matar os centros culturais. Isto passa-se em países como França, Espanha, Itália, Grécia e outros, muito turísticos. Todos sofrem de uma gentrificação dos locais mais emblemáticos. Estes centros mais investidos pelo turismo, são locais com maior significado monumental e histórico, os centros civilizacionais desses países. 

A «verdadeira religião é o dinheiro», mas esta frase banal, não deixa de soar como grave sentença de morte, de civilizações que se construíram em torno de determinada espiritualidade. 

Pode-se argumentar que a espiritualidade se mantém em indivíduos que não são religiosos. É verdade: No entanto, ao nível de um todo civilizacional, de uma sociedade inteira, isso nunca aconteceu. Basta ver-se o renovo do  cristianismo ortodoxo, que já antes da queda da URSS, tinha um aumento sensível de adesão. É portanto, uma regra empírica, constatar-se que onde esmorece a tradição religiosa, com cultos e clero, também a religião «popular» recua.  Verifica-se o inverso, quando há um renovo da(s) Igreja(s), este acompanha, em paralelo, a evolução da sociedade.

Tudo o que sei sobre as civilizações do passado, é que uma civilização em ascenso vai propulsionar, senão criar mesmo, um determinado movimento religioso. Por outro lado, a espiritualidade não desaparece quando, por motivos políticos e ideológicos (como no Estalinismo ou na Revolução Cultural Maoista), se combatem ativamente a difusão ou, mesmo, a existência de religiões. 

Há uma necessidade profunda, que pode ultrapassar a explícita adesão a determinado credo religioso. Penso que a humanidade não pode viver com uma visão estreita, «materialista» da vida, da Natureza e do próprio ser humano.  O materialismo de hoje, acantona-se numa forma estreita de propaganda antirreligiosa. Não me parece que haja uma oposição entre a espiritualidade de hoje e a aceitação e mesmo a procura ativa de saber científico. Acho mesmo que esta contradição é um subproduto de ideologias do século XIX (sobretudo, do cientismo e do ateísmo «militante»). 

É verdade que as religiões, na sua vertente exterior, perante a sociedade concreta, não foram capazes, muitas vezes, de fazer atualizações que se impunham. Imagine-se alguém do clero, formado/a na perspetiva de que, aceitar a ideia de Evolução biológica e do Homem, era uma heresia intransponível e um passo para a mais total negação de Deus, ou seja, para o ateísmo. Este doutrinamento atravessou várias gerações. Portanto, não se pode ter a ilusão de que as formas de pensar morrem quando desaparecem os criadores ou primeiros cultores de determinada corrente.

Para ilustrar isso, basta-me evocar a estranha - para mim - forma de abordar a sociedade e todos os fenómenos através de um prisma marxista. O marxismo é um exemplo importante e típico de uma religião sem Deus. Mas tudo nele aponta para o fenómeno religioso, como forma de ver o Mundo e o Universo, como se fossem apenas inteligíveis através da «ciência marxista» (que, afinal, é apenas «cientismo»).

Seria muito estranho que, caso a «ciência do marxismo» fosse verdadeira, o mundo científico atual estivesse totalmente divorciado da filosofia / ideologia do marxismo: Note-se que não é uma teoria esotérica, muitos terão tido contacto com ela; muitos cientistas terão mesmo estado convencidos, durante uma etapa de suas vidas, de que se tratava de uma forma de pensar adequada à ciência. Mas, nada disto é verdadeiro, para a imensa maioria dos cientistas de hoje. 

Ao fazerem ciência, não invocam « S. Marx ou S. Engels, ou S. Lenine», da mesma forma que não invocam os Santos cristãos, nem os Deuses pagãos. Têm, como pessoas cultas, conhecimento de correntes filosóficas e de religiões. Mas, na sua imensa maioria, nem escrevem sobre a relação da ciência que praticam, com a espiritualidade.  

Noutras partes do globo, eventualmente, os fenómenos serão divergentes. Eu tenho de me limitar ao que conheço melhor. Não acredito que as diversas civilizações se tenham fundido numa só, ou que esta fusão esteja em curso. Tenho observado mesmo que diversas civilizações afirmam cada vez mais as suas idiossincrasias, para fazer face ao globalismo, largamente promovido por ocidentais. 

Embora não seja uma ideologia cristã, o globalismo da nossa época, enquanto veículo de dominação ideológica, é propagado por pessoas, algumas das quais se afirmam como «cristãs» (não é senão uma capa, para elas, a meu ver).

Estou convicto de que as ideias profundas que os homens podem produzir hoje, estão radicadas na essência da humanidade, daí que não seja difícil encontrar ensinamentos de sabedoria, de espiritualidade e sensibilidade estética, em civilizações passadas, hoje consideradas «mortas». Porém, sua existência foi um passo, uma etapa, para o que a humanidade é, hoje. 

Os aspetos espirituais, têm a sua evolução própria, de certa forma, análoga com a evolução biológica. Os traços da evolução biológica não pararam nos alvores da espécie humana, pois a evolução continua aos vários níveis (genético, anatómico, fisiológico, comportamental) nos humanos do século XXI. 

A cultura e a religião, a pertença a um dado universo mental, a uma forma de compreender o Todo Universal, nada disso pode congelar, tudo se vai transformando. As formas de religião também evoluem; cabe aos contemporâneos atuar no sentido de não «deitar fora o bebé, com a água do banho», isto é, não se deixarem iludir com formas transitórias do fenómeno religioso, como se estas fossem a essência e razão de ser das religiões. 

Sou tão incapaz de descrever as formas que as religiões irão adotar no futuro, como de antever como as sociedades serão organizadas. A minha aposta, porém, é que continuarão a existir valores e que podemos procurá-los em civilizações passadas. Não posso saber quais serão selecionados, da profusão de filosofias, de formas e conteúdos, de mitos, de relatos, etc.. Mas possuo a certeza íntima de que as civilizações futuras irão guardar alguns valores, adaptando-os à sua época. 

                       Foto de ruínas do Convento do Carmo, Lisboa