Ver: «Pátria Reencontrada» inédito de 1984 (Obras de Manuel Banet)
Esta recolha de poemas, escritos por ocasião dos dez anos da revolução do 25 de Abril de 1974, traduz a ideologia humanista, tolerante, abarcando as componentes da formação de Portugal, que incluíram os mouros e os judeus, sendo depois espalhadas pelos marinheiros e soldados que, nas caravelas, atravessaram oceanos e percorreram terras desconhecidas para os europeus, antes de 1500.
Em paralelo, surgiu uma contradição fatal para o próprio devir da nação portuguesa. Alastrou o veneno racista, a «linhagem pura», a não «contaminação do sangue» e tudo misturado com intolerância religiosa e cultural.
O grande mistério de Portugal - muito para além das composições genéticas das suas gentes - é que, afinal, muitos dos aventureiros-soldados (como Camões) e marinheiros que sulcavam os mares, eram os homens que o próprio poder real não queria. Muitos eram «cristãos-novos», convertidos superficialmente ao catolicismo, mas muitos - em segredo - continuavam fiéis à tradição do Judeísmo; muitos eram mouros convertidos (à força) ao catolicismo... Alguns eram cientistas, como Garcia da Orta, seu pensamento e prática científica eram modernas, embora esta tenha sido teorizada cerca de um século mais tarde, na Europa do Norte. A preocupação destas pessoas não residia na «pureza da raça», mas de como escapar das garras da Inquisição, que os queria «purificar» a ferro e fogo.
Navegar era uma aventura arriscada, nesta época. O importante era a fidelidade ao capitão do navio e a solidariedade entre membros da equipagem. A superestrutura da «religião cristã» era apenas um signo identificador face a outras gentes, de culturas totalmente estranhas aos europeus.
Foram portugueses, os europeus que primeiro chegaram ao Japão e a muitas das ilhas, que hoje são da Indonésia.
Foram portugueses que se cruzaram com povos de todos os sítios onde estiveram, de modo mais ou menos permanente, do Extremo-Oriente ao Brasil, passando pelas costas de África. Estes cruzamentos significam que existem hoje genes de origem portuguesa em todas estas populações.
Também em Portugal continental e insular de hoje, existe uma diversidade genética muito maior, que nos povos da Europa Central e de Leste.
Muitas tradições dos povos que estiveram em contacto com os portugueses, conservam ainda a memória desse intercâmbio. Por exemplo, em vários países do Extremo-Oriente, a palavra «pan», ou pão, designa uma espécie de bolo feito de cereais. Existem muitas outras peculiaridades de culinária bem vivas hoje, em Portugal, como as especiarias utilizadas generosamente...a canela, a pimenta, o cravinho da índia, o açafrão...
Durante o salazarismo, o Estado Novo adotou uma posição aparentemente generosa em relação às etnias que viviam sob o seu jugo colonial, mas apenas em termos discursivos. As palavras bonitas ocultavam a exploração cruel e discriminação racial extrema nas colónias.
Continua a haver, nalguns meios, em Portugal, uma ideologia de extrema-direita, da «superioridade» da "raça portuguesa", um conceito meramente ideológico, pois a diversidade genética do povo português é uma das suas características mais salientes. É de todo impossível definir biologicamente uma «raça portuguesa». É uma ideologia perpetuada pela ignorância tanto da História, como da Biologia.
Penso que as ideias retrógadas se combatem com factos e não com teorias; ainda menos com atos violentos.
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