A oligarquia maltusiana que nos domina afinou o método de domínio sobre nós todos - O medo. Medo de catástrofes reais e imaginárias, medo do desconhecido, total separação da plebe em relação ao poder. Denegação e permanente discurso da ambiguidade. Constante despejo de narrativas de propaganda para ocultar a direcção para onde levam o rebanho.
Eu desejava mergulhar, de vez em quando, numa festa de música rock e de esponaneidade. Uma festa em que me liberte das inibições e das convenções, me ponha a dançar e cantar, até mais não poder! Então, se tivesse de seleccionar apenas um artista, escolheria o iniciador do rock and roll, o mentor de todos os grupos de rock d'aquém e além Atlântico.
Foi «inspirador» de Elvis Presley, dos Rolling Stones, dos Beatles e de uma infinidade de outros: Não existem grandes nomes dos anos 60 e 70, que não tenham interpretado alguns dos êxitos de Chuck Berry.
Chuck Berry tem um número de canções gravadas da ordem de várias centenas. As faixas publicadas incluem também muitas intervenções ao vivo e com enorme naturalidade.
De facto, com as gravações ao vivo, a qualidade - muitas vezes - deixa a desejar, noutros artistas. Mas nele, além do som, havia 'o show'; ele evoluia com a sua guitarra, dançando, cantando e tocando, como só ele sabia fazer. Há uns anos, fiz uma playlist dedicada a Chuck Berry, com trinta audios e vídeos, que podeis aceder no link abaixo:
Os 10 vídeos e audios que transcrevo aqui abaixo, são somente um aperitivo para vos estimular a descobrir mais....
Existem tantas canções que mereciam estar nesta selecção, que adicioná-las todas seria impossível!
[ver notas/comentários, em baixo]
You never can tell
Johnny Be Goode
Roll Over Beethoven
Little Queenie
Sweet Little Sixteen
Too Much Monkey Business
On Route '66
Memphis-Tennessee
Oh, Carol!
Rock & Roll Music (com Tina Turner)
Comentários de Manuel Banet
«You never can tell», uma canção sobre um casamento, num tom irónico, onde se misturam palavras em francês. Chuck Berry é natal de St. Louis, principal cidade da ex-colónia francesa da Louisiana, que depois de vendida aos recém-formados EUA, por Napoleão Iº (para financiar suas guerras), manteve a ligação cultural francesa, no seu dialecto «Cajun», nos costumes, na culinária...
«Johnny Be Goode» uma canção tornada ícone, não apenas por Chuck Berry, como símbolo de toda uma época. A utilização deste êxito no filme «Back to the Future» é mais um tributo, entre muitos.
Na realidade, os negros do sul tinham muito poucas possibilidades de subir na escala social. A época ainda era de discriminação muito acentuada, nos anos 50. Por outro lado, a música «negra», o rock&roll e os blues, tinham tomado «de assalto» a juventude de todas as proveniências sociais e etnias, nos EUA. Chuck Berry contribuiu muito para quebrar a barreira invisível entre etnias e entre classes.
«Roll Over Beethoven» É muito conhecida mas mal compreendida. Nesta época, alguns conheciam apenas a versão dos Beatles. Uma amostra do humor de Chuck Berry: fez um aparte, dizendo que esses pensavam que ele abria o concerto com uma música dos Beatles!!!
Não se trata de desprezar Beethoven, mas de afirmar que a nova geração está a fazer sua música própria, o rock&roll, que irrompeu nos anos 50.
«Little Queenie», descreve a cena de sedução recíproca de uma jovem e do cantor. O vídeo mostra adolescentes (brancas) a assistir, sentadas a uma mesa da casa de espectáculos. Mas, as pessoas puritanas, que eram a maioria nos EUA nessa época, não podiam suportar o sucesso desta música, «música de pretos», diziam... e ainda por cima «vindo depravar» a nossa (deles) juventude! Mas esta mentalidade foi varrida nos anos 60 pela onda rock e pela a luta de massas pelos Direitos Civis, que não apenas acabou com convenções caducas, como promoveu a música do género de que Chuck Berry foi pioneiro
«Too Much Monkey Business», uma das canções mais divertidas e críticas duma série de instituições. Os Beatles - e muitos outros - não hesitaram em incluí-la no reportório dos seus primeiros anos. Um dos melhores trechos de Chuck Berry!
«On Route 66» descreve um itinerário de Chicago à costa da Califórnia, percorrendo célebre auto-estrada 66. A canção original, composta por outro autor, foi muito tocada por Chuck Berry e por músicos de rock e jazz (Nat King Cole, por exemplo) nos anos 50. Depois, nos anos 60 os Rolling Stones fizeram deste «clássico» um dos seus sucessos. Esta canção está associada ao que veio a ser designado como a «Beat Generation» e com Jack Kerouac a dar o toque literário, com o célebre romance «On The Road»...
«Memphis, Tennessee» É a historia de um pai separado da sua filha. Eles tentam contactar-se telefonicamente. Nesta época, as ligações regionais eram manuais, através da telefonista. Mas a canção não me parece «antiquada», porque exprime uma situação bem comum, também hoje em dia, a dos casais separados e a forte motivação de um pai em superar obstáculos, para estar com (ou falar ao telefone) com sua filha.
«Oh Carol» é uma das canções mais célebres de Chuck Berry, retomada pelos Rolling Stones (no seu primeiro álbum) e por muitos outros conjuntos pop e rock. Fala da jovem por quem o cantor se apaixonou. Este suplica que ela não se deixe «arrastar» e promete que aprenderá - dia e noite - a dançar, para que ela aceite ser a «sua garota». Esta versão ao vivo está cheia de energia e de bom humor. Um pouco da atmosfera vivida na época (1972) transparece nesta gravação.
«Rock and Roll Music» é canção-emblema da geração de Chuck Berry e seguintes. Aquela que funciona como «hino» do rock, em todas as versões e modalidades. Chuck Berry chama a Tina Turner e esta mostra-se muito divertida por atuar em palco ao lado de Chuck Berry. É uma atuação energética ao quadrado!
* Não existe nenhuma canção «esquecida» dos Beatles, das que foram editadas em álbuns, eu sei. Mas, existem algumas realmente subavaliadas e, outras, talvez empoladas.
A capa do LP, desenhada por Klaus Voormann, tornou-se imediatamente símbolo de arte psicadélica.
Your day breaks, your mind aches
You find that all her words of kindness linger on
When she no longer needs you
She wakes up, she makes up
She takes her time and doesn't feel she has to hurry
She no longer needs you
And in her eyes, you see nothing
No sign of love behind the tears
Cried for no one
A love that should have lasted years
You want her, you need her
And yet you don't believe her
When she says her love is dead
You think she needs you
And in her eyes, you see nothing
No sign of love behind the tears
Cried for no one
A love that should have lasted years
You stay home, she goes out
She says that long ago she knew someone
But now he's gone, she doesn't need him
Your day breaks, your mind aches
There will be times when all the things she said will fill your head
You won't forget her
And in her eyes, you see nothing
No sign of love behind the tears
Cried for no one
A love that should have lasted years
Uma obra-prima de Lennon/ McCatney
Sem dúvida, o álbum «Revolver» foi um momento de viragem, pelo menos, para os fãs dos Beatles, que se entusiasmaram com as letras, assim como com as músicas e arranjos. Algo perfeito, para o adolescente que ouviu pela primeira vez numa festa, em 66 ou 67, o recém-saído álbum. Era a produção mais psicadélica jamais editada pelos «Fab Four».
Eu gosto do álbum inteiro, mas quis destacar esta canção em particular: Ela refere a tristeza de alguém que foi descartado pela sua companheira. Analisando agora esta letra, achei-a genial, na medida em que traça, com apenas algumas pinceladas rápidas, a situação complexa e difícil de rutura, quando um dos dois mantém a forte ligação afetiva. Mas, este drama é expresso de modo sóbrio, nada de "pathos". A escolha aparentemente banal das palavras, tem um efeito quase cinematográfico: podemos imaginar a cena, como a veríamos num filme, a partir das breves indicações, reconstituindo o resto com a nossa imaginação.
A música é simples e sóbria, de grande qualidade melódica. Os arranjos - devidos a George Martin (o 5ºBeatle) - são de bom gosto e colocam em relevo a melodia.
Creio que não vale a pena tentar definir o «melhor» álbum dos Beatles*. Eles foram geniais, do princípio ao fim:
Estiveram sempre na onda do momento, durante uma década. Mas, não foram arrastados por qualquer onda, porque foram criadores originais, de cada vez. Isto aplica-se particularmente ao álbum «Revolver», mas também se poderia dizer o mesmo de praticamente todos os LPs editados durante a curta existência do grupo britânico.
*Podes consultar a playlist que reúne o melhor (na minha opinião) da produção dos Beatles, AQUI.
Alguns «posts» sobre os Beatles, no BLOG "MANUEL BANET, ELE PRÓPRIO":
PS: «Now And Then», a última canção dos Beatles, gravada a 4, mas nunca editada. Saiu há pouco tempo, uma proeza técnica, de «arqueologia discográfica».
Sabes que Chuck Berry é dos poucos responsáveis pelo nascimento de um estilo de música - o Rock and Roll - que se prolonga até hoje, desde os anos 1950?
Como ele conseguiu arrastar consigo toda uma juventude principalmente branca, oriunda da classe operária, a geração que nasceu no final da II. Guerra Mundial!?
Deu-lhes o som endiabrado, feito de simples sequências de acordes e de «riffs» de guitarra elétrica, aquilo dava para dançar.
Em relação às letras, não eram composições eruditas, porém estavam em sintonia com sentimentos dessa juventude que acorria aos concertos, comprava os discos e reproduzia em grupos de garagem os sucessos dos precursores.
Foi uma autêntica libertação que abateu os preconceitos de separação de raças e, também, de classes. A geração dos anos 50 foi homenageada pelos grupos e cantores ídolos da década seguinte, os Beatles, os Rolling Stones, etc, etc.
Sem Chuck Berry, nada disso teria sido assim! Claro que ele não foi o único, basta pensar em Otis Redding, Ray Charles e outros, com uma audiência jovem e sem preconceitos raciais:
Letra:
They're really rockin' in Boston
In Pittsburgh, P.A.
Deep in the heart of Texas
And 'round the Frisco Bay
All over St. Louis
And down in New Orleans
All the cats are gonna dance with
Sweet Little Sixteen
Sweet Little Sixteen
She's just got to have
About half a million
Framed autographs
Her wallet's filled with pictures
She gets 'em one by one
Become so excited
Watch her look at her run, boy
Oh, mommy, mommy
Please, may I go?
It's such a sight to see
Somebody steal the show
Oh, daddy, daddy
I beg of you
Whisper to mommy
It's all right with you
'Cause they'll be rockin' on Bandstand
In Philadelphia, P.A.
Deep in the heart of Texas
And 'round the Frisco Bay
All over St. Louis
Way down in New Orleans
All the cats wanna dance with
Sweet Little Sixteen
'Cause they'll be rockin' on Bandstand
In Philadelphia, P.A.
Deep in the heart of Texas
And 'round the Frisco Bay
All over St. Louis
Way down in New Orleans
All the cats wanna dance with, oo!
Sweet Little Sixteen
Sweet Little Sixteen
She's got the grown-up blues
Tight dresses and lipstick
She sportin' high heeled shoes
Oh, but tomorrow morning
She'll have to change her trend
And be sweet sixteen
And back in class again
But they'll be rockin' in Boston
In Pittsburgh, P.A.
Deep in the heart of Texas
And 'round the Frisco Bay
Way out in St. Louis
Way down in New Orleans
All the cats wanna dance with
Sweet Little Sixteen
Com o seu politicamente correto e moralismo estreito, com a sua estrita e delirante definição do que seja «racismo», ou «sexismo», ou «pedofilia», etc. os «woke» e «falsos progressistas», impõem às gerações atuais a sua ditadura hipócrita.
Os jovens de hoje, para regressarem à felicidade dos anos 50 e 60, apenas têm de sacudir esses parasitas, pessoas sem verdadeiro prazer de viver, mas que têm a perversidade de impor a sua visão distorcida aos outros.
A canção dos Beatles diz muito, pois retrata a difícil luta das pessoas lúcidas perante os preconceitos.
É uma boa metáfora dos tempos que correm. As pessoas sábias são incompreendidas pela multidão. O que dizem, é perfeitamente claro, mas é incompreendido, porque as pessoas comuns estão imbuídas de preconceitos contra as que falam verdade.
Assim, os que falam verdade, têm de continuar a sua busca, a sua visão, sem se preocuparem em agradar às multidões.
Porém, não deixam de dizer as coisas que sabem com toda a clareza.
Os loucos afinal são os ingénuos, os fracos, os maldosos, que amesquinham os sábios, os que dizem claramente a realidade, para além das aparências.
Day after day, alone on a hill The man with the foolish grin Is keeping perfectly still But nobody wants to know him They can see that he's just a fool And he never gives an answer
But the fool on the hill Sees the sun going down And the eyes in his head See the world spinning round
Well on the way, head in a cloud The man of a thousand voices Talking perfectly loud But nobody ever hears him Or the sound he appears to make And he never seems to notice
But the fool on the hill Sees the sun going down And the eyes in his head See the world spinning round
And nobody seems to like him They can tell what he wants to do And he never shows his feelings
But the fool on the hill Sees the sun going down And the eyes in his head See the world spinning round
Ohh oh-oh-oh-oh ohh-oh-oh Round and round and round and round and round He never listens to them He knows that they're the fool They don't like him
The fool on the hill Sees the sun going down And the eyes in his head See the world spinning round
Ohhhh Round and round and round and round and Ohhhh
“Peace is not something you wish for; It’s something you make, Something you do, Something you are, And something you give away.”*
[*«A paz não é algo que se deseje; É algo que constróis, que fazes, É algo que és e que dás...»]
Tenho imensa admiração pelo Beatle que não se contentou em seguir uma carreira a solo, depois do icónico grupo dos anos 60 se ter desfeito em 1970. Não apenas pela sua criatividade musical e poética, como sobretudo pela inteligente forma como se serviu da sua fama para fazer valer o que ele considerava como causas justas. Muito poucos artistas - agora - fazem algo parecido, infelizmente.
[gravação histórica de 'Give Peace a Chance', por «Plastic Ono Band»]
John Lennon era genial e tinha como companheira uma artista de performances também excepcional, Yoko Ono. Mas, hoje continuo à espera de ver outros músicos, como Roger Waters, erguerem-se pela liberdade de Julian Assange.
Continuo à espera de ver outros artistas plásticos, como Ai Wei-Wei, a chamarem a atenção para os aspectos menos brilhantes do «socialismo com características chinesas», ou de outros regimes.
Ou ainda, como Manu Chao, a juntarem-se aos anti-capitalistas e anti-globalistas, nas suas marchas e manifestações.
Precisamos de muitos mais, como Lennon, que se ergam e digam a verdade aos poderes, fazendo ouvir as suas vozes. Estas têm muito maior alcance, têm um imenso público de seguidores.
Se houvesse muitos «novos John Lennon» em todo o mundo, criadores em todas as artes, a desmascarar a hipocrisia dos poderosos, seria impossível estes manterem-se. Ficariam desmascarados como no conto «O Rei vai nu».
Lê o artigo seguinte (em inglês) de John W. Whitehead, advogado e autor, que tem feito muito pela liberdade e pela defesa dos direitos civis, expondo as perversões do aparelho de Estado e Justiça nos EUA:
A minha adoração pelos Beatles não tem limites; esta escolha é muito arbitrária e apenas reflecte o meu sentir no instante, coaduna-se com o meu estado de espírito particular... aqui e agora.
A uma distância de meio século, porque razão a geração que cresceu nos anos 60 foi praticamente construída - ideologicamente, mas sobretudo esteticamente - pelos Beatles?
O que eles faziam, musicalmente e poeticamente, era sempre de uma qualidade grande, muito grande mesmo.
Parecia fácil, entrava no ouvido, mas era uma permanente renovação de um som, indo buscar a tudo o que estava ao seu alcance, desde as ragas indianas aos concertos sinfónicos, não desprezando as suas raízes de rythm and blues.
Como foi possível, porque razão eles eram (e são ainda) únicos?
Com mais de 60 anos, continuam a ser perfeitos, originais, inimitáveis.
Estamos sempre ocupados a medir
coisas que supomos saber medir, mesmo a felicidade! Ou seja, acreditamos que
existe uma maneira de acrescentar mais felicidade, «amor», apenas com um
incremento quantitativo, ou com uma diminuição de sofrimento… mas - afinal - as
coisas não são bem assim! Embora pareça que o sofrimento humano global diminuiu
muitíssimo, a verdade é que nós, que
vivemos numa sociedade relativamente protegida da pobreza em massa, de
catástrofes como a guerra ou as suas consequências, não temos em conta a
evolução global do mundo. Hipertrofiamos o que está à nossa volta, ao ponto de
tudo o que esteja um pouco mais longe do nosso olhar é como se não existisse,
ou tem um estatuto de algo abstracto… A sociedade globalizada, em termos de
informação, é (paradoxalmente) uma sociedade extremamente centrada no seu
umbigo e quando não é assim, quer avaliar os outros, as outras sociedades, pela
bitola da sua própria existência.
A qualidade está sempre a ser
preterida pela quantidade. A aparência, o «look», é o que importa. Nesta
sociedade, não existe nenhuma igualdade de facto, nem «meritocracia», pois as
pessoas mais medíocres podem ser içadas aos lugares cimeiros dos negócios, da
política, gozar duma popularidade assente apenas em dinheiro, em poder
económico. Os pobres ou os remediados não contam ou contam apenas como números,
como consumidores, como contribuintes, como votantes… enfim como «coisas» que
os «de cima» têm (de vez em quando) de seduzir, têm de fingir que os «compreendem»,
para melhor perpetuar a servidão voluntária.
A época que vivemos, mesmo nos
países afluentes, é caracterizada por uma involução social, mesmo em termos de certos
índices quantitativos. As patologias psíquicas e o consumo de psicofármacos
(com ou sem prescrição médica) têm aumentado exponencialmente. O sedentarismo, a
comida hipercalórica, a acumulação de agressões ambientais, fazem aumentar
também exponencialmente os números da diabetes, da obesidade, do cancro …
Os afectos são tratados de forma
completamente inadequada. As pessoas jovens em particular são, muitas vezes, enredadas
numa visão totalmente distorcida do prazer e da sexualidade. Os suicídios entre
jovens também têm crescido.
Eu não sei se podemos considerar
que existe um «progresso», quando temos tantas facilidades por um lado e tanto
desperdício e tantos problemas ambientais, decorrentes dessa abundância, por
outro. Apenas estamos a atirar os problemas para as gerações seguintes. Sabemos
que terão muito menos recursos naturais, em todas as coisas largamente
consumidas, desde as jazidas de petróleo, às de metais diversos; desde a água
disponível para consumo dos humanos, à terra fértil e aos ambientes não degradados,
não contaminados.
Valorizamos o dinheiro, que é um
mero símbolo, mas - ao mesmo tempo - deixamos que os bancos centrais e os governos organizem uma orgia de desvalorizações, por «impressão monetária», na
realidade, electrónica. Há bem pouco tempo atrás, isso era um crime grave! Na
realidade, valorizamos o dinheiro enquanto «fétiche», temos uma visão realmente
alienada do dinheiro, que vemos como fim em si mesmo, quando apenas deveria ser
considerado um meio para determinados fins.
A humanidade tem de voltar a
viver noutra dimensão que não a dos bens materiais; não apenas a nutrição do
corpo, não apenas a satisfação do desejo hedónico. Deveria parar de «medir» o
seu sucesso ou fracasso pela abundância ou falta de dinheiro.
A sociedade fragmentou-se, não
existe propriamente, de facto: existe uma colecção de indivíduos, mas solitários,
mesmo quando se acoplam. Mesmo quando «convivem», não o fazem senão na
superfície mais epidérmica. A sua vacuidade serve para esconder, a eles
próprios, a sua tristíssima condição. Muitas pessoas teimam na ilusão pois, lá
no fundo, têm medo de serem confrontadas com a sua própria vacuidade.
Uma espiritualidade, que não é
sinónimo de religião, mas é outra coisa, pode ajudar a construir indivíduos,
famílias e comunidades mais em harmonia consigo próprios. Só podemos realmente
progredir na esfera social com uma busca colectiva, mas de proximidade. Os
passos teoricamente são simples de enunciar:
- Reconhecimento da nossa própria
alienação e o assumir de que cada pessoa individual não pode, por si própria,
encontrar a solução.
- Construção de comunidades
intencionais, ou seja, que ponham em comum energias e projectos convergentes,
para mudar qualitativamente (aqui e agora) as nossas vidas.