A Ironia da História
Toda a gente fala - hoje - da doutrina Monroe (1823). Mas, devia-se falar também da «estratégia de Leipzig». Ela foi posta em prática uma década antes da declaração do presidente Monroe: Em 1813 Napoleão foi decisivamente derrotado em Leipzig, pelos exércitos aliados dos reinos europeus (Austria, Prússia, Suécia e Rússia).
- Confrontariam forças francesas quando estas eram comandadas por um dos Marechais ou Generais de Napoleão.
- Mas, perante um contingente chefiado pelo próprio Imperador dos franceses, não dariam combate, recuariam.
Esta estratégia resultou; as forças totais de Napoleão foram sendo enfraquecidas - mas não derrotadas - em combates e batalhas parciais.
Napoleão tomou a decisão audaciosa de colocar as suas tropas dentro de Leipzig e nos seus arredores, esperando assim enfrentar e derrotar, separadamente, cada um dos exércitos aliados.
Ele já tinha usado esta táctica - com sucesso - no passado, perante forças numericamente superiores, mas fraccionadas. Só que - desta vez - a conjugação dos exércitos inimigos equivalia a cerca de três vezes o número total de tropas francesas.
Aconteceu o que sabemos: Uma derrota humilhante para Napoleão. Após três dias de combates, o exército francês teve de fugir para não ficar cercado.
No caminho de regresso a França, o que restava das tropas francesas teve de combater contra tropas da Baviera (auxiliadas por tropas austríacas), em Hanau. O reino da Baviera foi um dos primeiros membros da Confederação do Reno. O exército bávaro participou em muitas campanhas, junto com franceses e povos de várias nacionalidades, na «Grande Armée».
Leipzig foi considerada uma vitória dos povos europeus: A partir de Leipzig, tudo mudou. A própria França foi invadida pelos exércitos aliados. Então, o mito da invencibilidade das tropas napoleónicas desmoronou-se por completo. Já na Península Ibérica muitos marechais e generais de Napoleão tinham sofrido derrotas, às mãos do exército anglo-português, aos quais se juntaram tropas espanholas, que se tinham rebelado contra o rei Joseph, irmão de Napoleão.
Consulte-se a cronologia das ações militares no ano de 1813, no Portal da História.
Eu sei que «a História não se repete, quanto muito rima...»: Seria uma imbecilidade da minha parte, tentar plasmar o presente, nos episódios da decadência e colapso do império de Napoleão I. Porém, sem recorrer a analogias artificiais, há certos traços atuais do imperialismo dos EUA, que me evocam a era napoleónica.
Primeiro, a arrogância do poder. A húbris dos gregos. Estes sabiam que, um general tomado pela húbris, ou embriaguês da vitória, podia cometer atos imprudentes e encaminhar seu exército para a aniquilação. Foi isso mesmo que se passou com Napoleão, ao juntar - contra a Rússia - a força militar mais formidável que até então se vira. Foram uns 600 mil homens da «Grande Armée», mortos em combate, ou de frio, ou de doença....Note-se que somente cerca de um terço, era francês de França. Muitos eram súbditos de Estados dominados pelo Império, obrigados a enviar um contingente para a aventura russa.
- A um nível global, hoje em dia, como no tempo de Napoleão, a multiplicidade de frentes equivalia a fraccionar os esforços, não se podendo assegurar - em simultâneo - a «pacificação» do Hanover, no Norte da Alemanha e da Andalusia, no Sul de Espanha.
Em várias zonas mediterrânicas e noutras, a frota inglesa tinha bases recuadas seguras. Aliás, a grande vantagem estratégica da Inglaterra foi o seu controlo dos mares: Podia fazer «razzias», incendiando portos (como o de Copenhaga...). Depois da marinha britânica ter destruído a armada franco-espanhola na batalha de Trafalgar, as forças navais francesas e seus aliados já não podiam contribuir eficazmente para a vigilância das costas. Era uma limitação muito séria, para combater o contrabando que furava o bloqueio continental, decretado por Napoleão.
A Inglaterra, como potência industrial ascendente, inventou rifles muito mais eficientes que os equivalentes inimigos, tendo também importantes inovações em artilharia. Muito importante, foi a tática de Wellington, de colocar suas tropas em posições aproveitando os acidentes do terreno, o menos possível expostas aos tiros do inimigo e capazes duma linha de tiro agrupado e certeiro, mortífero. Quando as divisões francesas se lançavam ao ataque, eram ceifadas por infantaria e artilharia britânicas. Isto aconteceu na batalha do Bussaco e em muitas outras. Os soldados franceses sofriam pesadas baixas, ainda antes de entrar em contacto com as linhas inimigas.
Em termos financeiros, a guerra sempre foi a maior devoradora de recursos. Napoleão vendeu a colónia da Louisiana, aos recém- independentes EUA. Não sei se isto foi considerado um «bom negócio», ou não. O que sei é que as quantias obtidas com essa venda, foram gastas nas campanhas incessantes de Napoleão. Não serviram para o desenvolvimento industrial, nem para renovar as infraestruturas, nem para melhorar as condições de vida do povo.
Podem imaginar os rios de dinheiro gastos no presente século XXI, com armas sofisticadas, quer do lado da OTAN, quer dos seus inimigos? Podeis ter a certeza de que tais somas, investidas em melhoramentos, em cultura, em saúde e nas condições de vida dos povos, fariam recuar muito a pobreza e os desequilíbrios no Mundo.
- Só me resta chamar a atenção para certas falsificações da História. Por exemplo, em relação à chamada doutrina Monroe:
Esta doutrina, quando foi enunciada, aparecia aos latino-americanos como um contributo para consolidar a sua independência, face aos antigos colonizadores. Eles não tinham força suficiente, contra Inglaterra, Espanha ou França, para resistir isoladamente aos ex-poderes coloniais, se estes procurassem invadir e recolonizar as novas repúblicas da América do Sul e Central.
A doutrina Monroe colocava um travão à agressividade dos poderes coloniais europeus. Se eles atacassem uma das novas repúblicas, era provável terem de se bater também contra os EUA. Pelo menos no início, a doutrina Monroe não foi instrumentalizada pelos EUA, como «justificação» de aventuras coloniais ou imperiais.
Mas, não podemos esquecer que, nessa época, a burguesia dos EUA, como a de outras nações, tinha um discurso ideológico de liberdade e, ao mesmo tempo, cometia os piores crimes: Genocídio, escravatura, exploração impiedosa dos indígenas...
